Charles Spurgeon: biografia completa do príncipe dos pregadores
Infância e conversão (1834-1850)
Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834 em Kelvedon, Essex, na Inglaterra, numa família de pregadores: tanto o pai, John, quanto o avô, James, eram ministros congregacionais. Passou boa parte da infância na casa do avô em Stambourne, onde devorou os clássicos puritanos da biblioteca da família, John Bunyan acima de todos. O Peregrino, de Bunyan, ele leria mais de cem vezes ao longo da vida.
Apesar do berço cristão, o jovem Charles carregava um profundo peso de culpa e busca espiritual. A conversão veio em janeiro de 1850, aos quinze anos, de forma inesperada. Uma tempestade de neve o impediu de chegar à igreja que pretendia visitar em Colchester, e ele se abrigou numa pequena capela metodista primitiva. O pregador leigo, improvisado naquele dia, expôs Isaías 45.22, "Olhai para mim e sereis salvos, todos os confins da terra", e em dado momento apontou para o garoto na plateia: "Jovem, olhe para Jesus Cristo!". Spurgeon olhou, e contaria depois: "Ali mesmo a nuvem se desfez, a escuridão passou, e naquele momento eu vi o sol".
Meses depois foi batizado por imersão no rio Lark e uniu-se aos batistas, decisão tomada por convicção própria após estudar o Novo Testamento.
O pastor adolescente (1850-1854)
Spurgeon começou a pregar quase imediatamente. Aos dezesseis anos entregou seu primeiro sermão; aos dezessete tornou-se pastor da pequena igreja batista de Waterbeach, perto de Cambridge. A vila, conhecida pela bebedeira e pela pobreza, transformou-se visivelmente sob a pregação do adolescente, e a fama do "menino pregador" começou a se espalhar.
Londres e o fenômeno (1854-1861)
Em 1854, aos dezenove anos, foi chamado para a histórica New Park Street Chapel, em Londres, uma congregação outrora ilustre que definhava. Em poucos meses o prédio ficou pequeno. A igreja migrou para salões cada vez maiores, o Exeter Hall e depois o Surrey Gardens Music Hall, onde dez mil pessoas se reuniam para ouvi-lo, algo sem precedente para um pregador da época.
Foi ali que Spurgeon viveu sua noite mais sombria: em outubro de 1856, alguém gritou "fogo!" em meio à multidão, e sete pessoas morreram pisoteadas no pânico. Spurgeon, com 22 anos, mergulhou numa depressão da qual nunca se livraria por completo. A melancolia recorrente, que ele chamava de "meu pior inimigo", o acompanharia a vida toda, e é uma das razões pelas quais sua pregação fala tão de perto a quem sofre.
Em 1856 casou-se com Susannah Thompson, com quem teve dois gêmeos, Charles e Thomas. Susannah, que se tornaria inválida ainda jovem, dirigiu da própria casa um fundo que distribuiu milhares de livros a pastores pobres.
O Metropolitan Tabernacle (1861-1891)
Em 1861 a congregação inaugurou o Metropolitan Tabernacle, com capacidade para cerca de seis mil pessoas, que Spurgeon lotaria duas vezes a cada domingo por trinta anos. Sem microfone, sem publicidade, sem apelos sensacionalistas: apenas a exposição da Bíblia com uma voz extraordinária, imaginação vívida e um evangelho centrado na graça.
A pregação era só o centro de uma obra imensa:
- Sermões impressos: publicados semanalmente desde 1855 e vendidos a um centavo, alcançaram tiragem de dezenas de milhares por semana e foram traduzidos para dezenas de idiomas. Reunidos, formam 63 volumes, a maior coleção de sermões de um único autor na história da igreja.
- Pastors' College (1856): o colégio que formou centenas de pregadores, muitos deles homens pobres que nenhuma outra instituição aceitaria.
- Stockwell Orphanage (1867): orfanato que abrigou milhares de crianças.
- The Sword and the Trowel (1865): sua revista mensal, onde o Tesouros de Davi começou a ser publicado em série.
- Dezenas de outras obras: sociedades de colportagem, fundos para viúvas, escolas e missões.
Entre seus livros, além do Tesouros de Davi, estão clássicos como Lectures to My Students, All of Grace e os devocionais Morning by Morning e Evening by Evening.
Convicções e controvérsias
Spurgeon era calvinista convicto e batista de princípios, mas pregava um evangelho de porta aberta: "Olhai para Cristo" foi seu tema de estreia e o de toda a vida. Opôs-se publicamente à escravidão americana, o que lhe custou vendas e amizades no sul dos Estados Unidos.
Sua última grande batalha foi a controvérsia do Downgrade (1887-1891), quando denunciou o avanço do liberalismo teológico entre os batistas ingleses. Sem ver correção de rumo, retirou-se da União Batista, e foi censurado por ela. A luta, travada em grande parte sozinho, consumiu sua saúde já frágil.
Sofrimento, morte e legado
Desde os trinta e poucos anos Spurgeon sofria de gota, reumatismo e nefrite, além das crises de depressão. Passava invernos em Menton, no sul da França, buscando alívio. Foi lá que morreu, em 31 de janeiro de 1892, aos 57 anos. Cem mil pessoas passaram diante de seu caixão em Londres; a cidade parou no dia do funeral.
Seu túmulo em Norwood traz o verso de um hino que resume sua vida: "Ele se agarrou à cruz". Mais de um século depois, Spurgeon segue sendo o autor cristão mais lido depois dos escritores bíblicos, e seus sermões continuam alimentando pregadores e leitores no mundo inteiro, agora também em português, salmo a salmo, neste site.