Tesouros de Davi

Salmo 66

Leia o Salmo 66 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Ao Músico-Chefe. Precisava ser um homem de grande habilidade para cantar dignamente um salmo como este: a melhor música do mundo seria honrada ao desposar-se com tais expressões. Um Cântico ou Salmo, ou um Cântico e Salmo. Pode ser dito ou cantado; é um poema maravilhoso mesmo apenas lido; mas posto em música própria, deve ter sido uma das mais nobres composições jamais ouvidas pelo povo judeu. Não sabemos quem é seu autor, mas não vemos razão para duvidar que Davi o escreveu. Está no estilo davídico, e não há nada nele que destoe de seu tempo. É verdade que a "casa" de Deus é mencionada, mas o tabernáculo tinha tanto direito a essa designação quanto o templo.

ASSUNTO E DIVISÃO. O louvor é o tema, e os assuntos do cântico são as grandes obras do Senhor, seus benefícios graciosos, suas libertações fiéis, e todo o seu trato com o seu povo, encerrados por um testemunho pessoal de bondade especial recebida pelo próprio bardo profeta. Salmos 66:1-4 são uma espécie de hino introdutório, convocando todas as nações a louvar a Deus, e ditando-lhes as palavras de um cântico apropriado. Salmos 66:5-7 convidam quem observa a "vinde e vede" as obras do Senhor, apontando a atenção para o Mar Vermelho, e talvez a passagem do Jordão. Isso sugere a posição semelhante do povo aflito, que é descrita, com seu desfecho alegre predito, em Salmos 66:8-12. O cantor então se torna pessoal, e confessa suas próprias obrigações para com o Senhor (Salmos 66:13-15); e, irrompendo com um veemente "vinde e ouvi", declara com ação de graças o favor especial do Senhor para consigo mesmo, em Salmos 66:16-20.

Exposição

Versículo 1Salmo 66:1

Fazei ao Senhor um alegre ruído. "Em Sião", onde os santos mais instruídos costumavam se entregar a meditação profunda, o cântico era silencioso diante de Deus, e por ele aceito; mas nas grandes assembleias populares um ruído alegre era mais apropriado e natural, e seria igualmente aceitável. Se o louvor há de se espalhar, precisa ser vocal; sons exultantes agitam a alma e provocam um sagrado contágio de ação de graças. Os compositores de melodias para a congregação devem cuidar para que seus ares sejam alegres; não precisamos de tanto ruído, mas de ruído alegre. Deus deve ser louvado com a voz, e o coração deve acompanhá-la em santa exultação. Todo louvor de todas as nações deve ser rendido ao Senhor. Feliz o dia em que nenhum grito será oferecido a Jagganata ou a Buda, mas toda a terra adorará o seu Criador. Todas as terras. Nações pagãs, vós que até agora não conhecestes a Jeová, que a terra inteira, de comum acordo, se alegre diante de Deus. As línguas das terras são muitas, mas seus louvores devem ser um só, dirigidos a um único Deus.

Versículo 2Salmo 66:2

Cantai a glória do seu nome. O ruído deve ser modulado com melodia e compasso, e transformado em canto, pois adoramos o Deus da ordem e da harmonia. A honra de Deus deve ser nosso assunto, e honrá-lo, nosso objetivo ao cantar. Dar glória a Deus é apenas devolver-lhe o que já é seu. É nossa glória poder dar glória a Deus; e toda a nossa verdadeira glória deve ser atribuída a Deus, pois é dele a glória. "Toda adoração seja só a Deus" deveria ser o lema de todo verdadeiro crente. O nome, a natureza e a pessoa de Deus são dignos da mais alta honra. Dai glória ao seu louvor. Que o seu louvor não seja mesquinho e rasteiro: que se eleve com grandeza e solenidade diante dele. A pompa das festas antigas não deve ser por nós imitada, sob esta dispensação do Espírito, mas devemos pôr tanto coração e santa reverência em toda a nossa adoração que ela seja o melhor que possamos oferecer. A adoração do coração e a alegria espiritual tornam o louvor mais glorioso do que poderiam vestes, incenso e música.

Versículo 3Salmo 66:3

Dizei a Deus. Dirigi todos os vossos louvores a ele. A devoção que não seja resolutamente dirigida ao Senhor não vale mais que assobiar ao vento. Quão terríveis são as tuas obras! A mente costuma ser tomada primeiro pelos atributos que causam temor e tremor; e, mesmo quando o coração já ama a Deus e nele descansa, há um acréscimo de adoração quando a alma se assombra diante de uma manifestação extraordinária das características mais temíveis da divindade. Olhando para as convulsões que abalaram continentes, os furacões que devastaram nações, as pragas que assolaram cidades, e outras grandes e espantosas manifestações da obra divina, os homens bem podem dizer: quão terríveis são as tuas obras. Até vermos Deus em Cristo, o terrível predomina em toda a nossa apreensão dele. Pela grandeza do teu poder, se te submeterão os teus inimigos. Mas, como o hebraico claramente indica, será uma submissão forçada e falsa. O poder traz o homem de joelhos, mas só o amor conquista o seu coração. Faraó disse que deixaria Israel ir, mas mentiu a Deus; submeteu-se em palavra, mas não em ato. Dezenas de milhares, tanto na terra quanto no inferno, prestam essa homenagem constrangida ao Todo-Poderoso; só se submetem porque não podem fazer diferente; não é sua lealdade, mas o poder dele, que os mantém súditos do seu domínio sem limites.

Versículo 4Salmo 66:4

Toda a terra te adorará e te cantará louvores. Todos os homens já devem, mesmo agora, prostrar-se diante de ti, mas virá o tempo em que farão isso de bom grado; à adoração do temor se somará o cântico do amor. Que mudança terá ocorrido quando o cântico expulsar o suspiro, e a música expulsar a miséria! Cantarão ao teu nome. A natureza e as obras de Deus serão o tema do cântico universal da terra, e ele mesmo será o objeto da adoração alegre da nossa raça emancipada. A adoração aceitável não apenas louva a Deus como Senhor misterioso, mas se torna fragrante por alguma medida de conhecimento do seu nome ou caráter. Deus não quer ser adorado como um Deus desconhecido, nem que se diga do seu povo: "Adorais o que não conheceis."

Que o conhecimento do Senhor logo cubra a terra, para que a universalidade de uma adoração consciente se torne possível: tal consumação era evidentemente esperada pelo autor deste salmo; e, na verdade, por todos os escritos do Antigo Testamento há indícios da futura difusão geral da adoração a Deus. Foi um caso de ignorância deliberada e fanatismo quando os judeus se enfureceram contra a pregação do evangelho aos gentios. O judaísmo pervertido pode ser exclusivista, mas a religião de Moisés, de Davi e de Isaías não era assim. Selá. Uma pequena pausa de santa expectativa cabe bem depois de tão grande profecia, e a elevação do coração também é uma orientação oportuna. Nenhuma meditação pode ser mais alegre do que a suscitada pela perspectiva de um mundo reconciliado com o seu Criador.

Versículo 5Salmo 66:5

Vinde e vede as obras de Deus. Eventos tão gloriosos quanto a divisão do Mar Vermelho e a derrota do Faraó são maravilhas permanentes, e por todo o tempo ressoa uma voz a respeito delas: "Vinde e vede." Até o fim de todas as coisas, as obras maravilhosas de Deus no Mar Vermelho serão tema de meditação e louvor; pois, de pé sobre o mar de vidro misturado com fogo, os exércitos triunfantes do céu cantam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro. Sempre foi o tema predileto dos bardos inspirados, e sua escolha foi das mais naturais. Terrível é ele em seus feitos para com os filhos dos homens. Em defesa de sua igreja e para a derrota dos seus inimigos ele desfere golpes terríveis, e abate os poderosos com temor. Ó tu, inimigo, por que te vanglorias? Não fales mais com tanta soberba, mas lembra-te das pragas que dobraram a vontade do Faraó, o afogamento dos carros do Egito no Mar Vermelho, a derrota de Ogue e Seom, a dispersão dos cananeus diante das tribos. Este mesmo Deus ainda vive, e deve ser adorado com reverência trêmula.

Versículo 6Salmo 66:6

Tornou o mar em terra seca. Não foi milagre pequeno abrir um caminho através de tal mar, e torná-lo apto para o trânsito de toda uma nação. Aquele que fez isso pode fazer qualquer coisa, e há de ser Deus, digno objeto de adoração. A inferência do cristão é que nenhum obstáculo em sua jornada rumo ao céu precisa detê-lo, pois o mar não pôde deter Israel, e mesmo a própria morte será como vida; o mar será terra seca quando se sentir a presença de Deus. Passaram o rio a pé. Pelo rio as tribos passaram a pé enxuto, o Jordão teve medo por causa delas.

"Que tinhas tu, ó mar poderoso,

Que rolavas tuas ondas em pavor?

Que fez tuas águas, ó Jordão, fugir

E deixar nu o teu leito mais profundo?"

"Ó terra, diante do Senhor, o Deus

De Jacó, treme ainda;

Que faz do ermo relva regada,

Do sílex fonte jorrante."

Ali nos alegramos nele. Nós participamos hoje daquela alegria antiga. A cena está tão viva diante de nós que parece como se estivéssemos ali pessoalmente, cantando ao Senhor porque triunfou gloriosamente. A fé lança-se corporalmente às alegrias passadas dos santos, e as torna reais para si mesma quase do mesmo modo como se projeta na bem-aventurança futura, tornando-se a substância das coisas que se esperam. É de notar que a alegria de Israel estava no seu Deus, e que a nossa esteja ali também. Não é tanto o que ele fez, mas o que ele é, que deve suscitar em nós um santo regozijo. "Ele é o meu Deus, e eu lhe prepararei uma habitação; o Deus de meu pai, e eu o exaltarei."

Versículo 7Salmo 66:7

Ele domina para sempre pelo seu poder. Ele não morreu, nem abdicou, nem sofreu derrota. A proeza demonstrada no Mar Vermelho permanece intacta: o domínio divino perdura por toda a eternidade. Os seus olhos observam as nações. Assim como ele olhou de dentro da nuvem para os egípcios e os derrotou, também ele espia os seus inimigos, e observa suas conspirações. Sua mão governa e seu olho observa, sua mão não se enfraqueceu, nem seu olho se turvou. Como a tantos gafanhotos ele vê os povos e as tribos, num só olhar abrange todos os seus caminhos. Ele fiscaliza tudo e não deixa passar nada. Não se exaltem os rebeldes. Os mais orgulhosos não têm motivo para orgulho. Se pudessem ver-se como Deus os vê, encolheriam a nada. Onde a rebelião chega ao auge, e mais confiantemente espera o sucesso, é razão suficiente para acalmar nossos temores que o Governante onipotente é também um Observador onisciente. Ó rebeldes orgulhosos, lembrai-vos de que o Senhor mira suas flechas nas águias que voam alto e as derruba do seu ninho entre as estrelas. "Depôs os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes." Depois de contemplar o Mar Vermelho e o Jordão, os rebeldes, se estivessem em seu juízo, não teriam mais ânimo para a luta, mas se humilhariam aos pés do Vencedor. Selá. Pausai de novo, e tomai tempo para vos curveis diante do trono do Eterno.

Versículo 8Salmo 66:8

Bendizei, povos, ao nosso Deus. Vós, semente escolhida, especialmente amada, é vossa a tarefa de bendizer o vosso Deus da aliança como nenhuma outra nação pode. Vós deveis conduzir o cântico, pois ele é de modo especial o vosso Deus. Visitados primeiro pelo seu amor, deveis estar à frente do seu louvor. E fazei ouvir a voz do seu louvor. Quem quer que cante com fôlego contido, cuidai vós de dar ao cântico voz plena e volume cheio. Obrigai ouvidos relutantes a escutar os louvores do vosso Deus da aliança. Fazei rochas, colinas, terra, mar, e o próprio céu ecoarem com vossos gritos alegres.

Versículo 9Salmo 66:9

Que sustém em vida a nossa alma. Em qualquer tempo a preservação da vida, e especialmente da vida da alma, é grande motivo de gratidão, mas muito mais quando somos chamados a passar por provações extremas, que por si só esmagariam o nosso ser. Bendito seja Deus, que, tendo posto nossas almas na posse da vida, se agradou em preservar essa vida dada pelo céu do poder destruidor do inimigo. E não permite que resvalem os nossos pés. Este é outro precioso benefício. Se Deus nos permitiu não só conservar a vida, mas também a posição, estamos obrigados a dar-lhe dobrado louvor. Viver e permanecer de pé é a condição do santo pela graça divina. Imortais e inabaláveis são aqueles que Deus preserva. Satanás fica envergonhado, pois em vez de conseguir matar os santos, como esperava, nem sequer consegue derrubá-los. Deus é capaz de fazer o mais fraco ficar firme, e assim o fará.

Versículo 10Salmo 66:10

Pois tu, ó Deus, nos provaste. Ele provou o seu Israel com duras provações. Davi teve suas tentações. Todos os santos precisam passar pela casa de prova; Deus teve um Filho sem pecado, mas nunca teve um filho sem provação. Por que devemos nos queixar se estamos sujeitos à regra comum a toda a família, e da qual tanto benefício tem fluído para ela? O próprio Senhor nos prova; quem, então, levantará questão sobre a sabedoria e o amor manifestos nessa operação? Pode chegar o dia em que, como neste caso, faremos hinos das nossas dores, e cantaremos com mais doçura ainda porque nossas bocas foram purificadas com tragos amargos. Tu nos provaste, como se prova a prata. Minuciosa e repetida, severa e completa, foi a prova; o mesmo resultado nos sobreveio, como no caso do metal precioso, pois a escória e o estanho foram consumidos, e o minério puro foi descoberto. Já que a provação é santificada para fim tão desejável, não devemos submeter-nos a ela com abundante resignação?

Versículo 11Salmo 66:11

Tu nos meteste na rede. O povo de Deus, nos tempos antigos, era frequentemente cercado pelo poder dos seus inimigos, como peixes ou aves presas numa rede; não parecia haver saída para eles. O único consolo era que o próprio Deus os havia colocado ali, mas nem mesmo isso era facilmente aceitável, pois sabiam que ele os havia levado ali com ira, como castigo por suas transgressões; Israel no Egito era muito parecido com uma ave na armadilha do caçador.

Puseste sobre os nossos lombos um peso aflitivo. Foram pressionados até a angústia por seus fardos e dores. Não sobre as costas apenas estava a carga, mas seus lombos foram apertados e espremidos com as agruras e os pesos da adversidade. O povo de Deus e a aflição são companheiros íntimos. Assim como no Egito todo israelita era carregador de fardos, assim também é todo crente enquanto está nesta terra estranha. Assim como Israel clamou a Deus por causa da dura escravidão, também clamam os santos. Nós, com frequência demasiada, esquecemos que é Deus quem põe sobre nós as nossas aflições; se nos lembrássemos disso, submeter-nos-íamos com mais paciência à pressão que agora nos dói. Virá o tempo em que, por cada onça do fardo presente, receberemos um peso de glória muito mais excelente e eterno.

Versículo 12Salmo 66:12

Fizeste homens cavalgar sobre as nossas cabeças. Eles bramiram, mandaram e nos trataram como a lama da rua. Montados a cavalo alto, em sua arrogância, eles, que em si mesmos eram homens vis, trataram o povo do Senhor como se fosse o mais vil da humanidade. Chegaram até a transformar seus cativos em bestas de carga, e a cavalgar sobre suas cabeças, como alguns leem o hebraico. Nada é demasiado ruim para os servos de Deus quando caem nas mãos de perseguidores orgulhosos.

Passamos pelo fogo e pela água. Provações muitas e variadas foram suportadas por Israel no Egito, e ainda são a porção dos santos. Os fogos do forno de tijolos e as águas do Nilo fizeram o pior para destruir o povo escolhido; trabalho pesado e assassinato de crianças foram ambos tentados pelo tirano, mas Israel passou por ambas as provas ileso, e assim também a igreja de Deus tem sobrevivido, e sobreviverá, a todas as artimanhas e crueldades do homem. Fogo e água são impiedosos e devoradores, mas um decreto divino contém sua fúria, e proíbe estes ou quaisquer outros agentes de destruir totalmente a semente escolhida. Muitos herdeiros do céu tiveram terrível experiência de tribulação; o fogo pelo qual passaram foi mais terrível do que o que carboniza os ossos, pois se alimentou da medula do espírito, e queimou até o âmago do coração; enquanto as enchentes da aflição foram ainda mais temíveis que o mar impiedoso, pois penetraram até a alma, e arrastaram a natureza interior para abismos horríveis, inimagináveis sem tremor. No entanto, cada santo tem sido até aqui mais que vencedor, e, como tem sido, assim há de ser. Não se acendeu o fogo que possa queimar a semente da mulher, nem sabe o dragão vomitar uma enchente suficiente para afogá-la.

Mas nos trouxeste a um lugar espaçoso. Um desfecho bendito para uma história dolorosa. Canaã foi de fato um domínio amplo e régio para as tribos antes escravizadas: Deus, que as levou ao Egito, também as trouxe para a terra que manava leite e mel, e o Egito estava, em seus propósitos, a caminho de Canaã. O caminho para o céu passa pela tribulação.

"O caminho da dor, e só ele,

Leva à terra onde a dor é desconhecida."

Como é rico o lugar de cada crente, e quão duplamente ele sente que é assim, em contraste com sua antiga escravidão: que cânticos bastariam para exprimir nossa alegria e gratidão por libertação tão gloriosa e herança tão generosa?

Mais nos aguarda. A profundidade das nossas dores não guarda proporção com a altura da nossa bem-aventurança. Por nossa vergonha temos o dobro, e mais que o dobro. Como José, subiremos da prisão ao palácio; como Mordecai, escaparemos da forca preparada pela malícia, e cavalgaremos o cavalo branco e vestiremos o manto real concedido pela benignidade.

Em vez da rede, liberdade; em vez de um fardo sobre os lombos, uma coroa sobre as cabeças; em vez de homens cavalgando sobre nós, governaremos as nações: o fogo não mais nos provará, pois estaremos de pé em glória sobre o mar de vidro misturado com fogo; e a água não nos fará mal, pois não haverá mais mar. Ó o esplendor desta conclusão brilhante para uma história sombria. Glória seja àquele que viu, no mal aparente, o verdadeiro caminho para o bem real. Com paciência suportaremos a presente escuridão, pois a manhã vem chegando. Por sobre os montes a fé vê o alvorecer, em cuja luz entraremos no lugar espaçoso.

Versículo 13Salmo 66:13

Eu irei. O filho de Deus é tão consciente da sua dívida pessoal para com a graça que sente que precisa entoar seu próprio cântico. Ele se une à ação de graças comum, mas, como a melhor forma pública nunca há de cobrir cada caso individual, ele faz questão de que as misericórdias especiais recebidas por ele não sejam esquecidas, pois as registra com a própria pena, e canta o tema com os próprios lábios. Eu irei à tua casa com holocaustos; os sacrifícios habituais dos homens piedosos. Mesmo o coração agradecido não ousa vir a Deus sem uma vítima de louvor grato; deste, como de toda outra forma de adoração, podemos dizer: "o sangue é a sua vida." Leitor, nunca tentes vir diante de Deus sem Jesus, o holocausto divinamente prometido, dado e aceito. Eu te pagarei os meus votos. Ele não queria comparecer diante do Senhor de mãos vazias, mas ao mesmo tempo não queria se gabar do que oferecia, visto que tudo já era devido por causa de votos anteriores. No fim das contas, nossos maiores dons são apenas pagamentos; depois de dar tudo, precisamos confessar: "Ó Senhor, do que é teu te demos." Devemos ser lentos para fazer votos, mas prontos para cumpri-los. Quando somos libertos da aflição, e podemos subir mais uma vez à casa do Senhor, devemos aproveitar a primeira ocasião para cumprir nossas promessas. Como podemos esperar ajuda outra vez, se nos mostramos infiéis a acordos voluntariamente firmados nas horas de necessidade?

Versículo 15Salmo 66:15

Eu te oferecerei holocaustos de animais cevados. O homem bom dará a Deus as suas melhores coisas. Nenhum bode faminto dos montes ele apresentará no altar, mas os novilhos bem alimentados dos pastos exuberantes subirão em fumaça do fogo sagrado. Quem é sovina com Deus é de fato um desgraçado. Poucos concebem coisas generosas, mas esses poucos encontram rica recompensa em assim proceder. Com o incenso de carneiros. A fumaça dos carneiros ardendo também deve subir do altar; ele ofereceria a força e o vigor dos seus rebanhos, tanto quanto os das suas manadas. De tudo o que temos devemos dar ao Senhor a sua porção, e essa deve ser a mais escolhida que pudermos selecionar.

Não foi desperdício queimar a gordura sobre o altar de Jeová, nem derramar o precioso perfume sobre a cabeça de Jesus; tampouco são os grandes dons e as ofertas generosas para a igreja de Deus qualquer diminuição do patrimônio de um homem: tal dinheiro é posto a bom juro, e colocado onde não pode ser roubado por ladrões nem corroído pela ferrugem. Eu ofertarei novilhos com bodes. Um sacrifício perfeito, completando o círculo das ofertas, deveria manifestar o intenso amor do seu coração. Devemos magnificar o Senhor com o grande e com o pequeno. Nenhuma das suas ordenanças deve ser desprezada; não devemos omitir nem os novilhos nem os bodes. Nestes três versículos temos a gratidão em ação, não contente com palavras, mas provando sua própria sinceridade por atos de sacrifício obediente.

Selá. É muito apropriado que suspendamos o cântico enquanto a fumaça das vítimas sobe aos céus; que os holocaustos representem os louvores enquanto meditamos no sacrifício infinitamente maior do Calvário.

Versículo 16Salmo 66:16

Vinde e ouvi. Antes, eles foram convidados a vir e ver. Ouvir é o ver da fé. A misericórdia vem a nós pela porta do ouvido. "Ouvi, e a vossa alma viverá." Eles viram quão terrível Deus era, mas ouviram quão gracioso ele era. Todos vós que temeis a Deus. Esta é uma plateia adequada quando um homem bom está para relatar sua experiência; e é bom escolher os nossos ouvintes quando questões íntimas da alma são o nosso tema. Está-nos proibido lançar pérolas aos porcos. Não queremos fornecer a mentes levianas assunto para suas comédias, e por isso é sábio falar de assuntos espirituais pessoais onde possam ser entendidos, e não onde serão ridicularizados. Todos os homens tementes a Deus podem nos ouvir, mas longe daqui, profanos.

E eu declararei o que ele fez pela minha alma. Contarei e recontarei as misericórdias de Deus para comigo, para com a minha alma, minha melhor parte, meu eu mais real. Testemunhos devem ser prestados por todos os cristãos experimentados, para que os mais jovens e mais fracos se encorajem, com o relato, a confiar no Senhor. Declarar os feitos do homem é desnecessário; são triviais demais, e, além disso, há trombeteiros suficientes das ninharias humanas; mas declarar os atos graciosos de Deus é instrutivo, consolador, animador e benéfico de muitas maneiras. Que cada um fale por si mesmo, pois um testemunho pessoal é o mais seguro e o mais contundente; experiência de segunda mão é como couve requentada; falta-lhe o sabor do interesse em primeira mão. Que nenhuma falsa modéstia impeça o crente grato de falar de si mesmo, ou melhor, do trato de Deus para consigo, pois isso é justamente devido a Deus; nem que ele evite o uso individual da primeira pessoa, o mais correto ao detalhar os caminhos de amor do Senhor. Não devemos ser egoístas, mas devemos falar de nós mesmos quando damos testemunho pelo Senhor.

Versículo 17Salmo 66:17

Clamei a ele com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua. É bom quando a oração e o louvor caminham juntos, como os cavalos na carruagem do Faraó. Alguns clamam sem cantar, e alguns cantam sem clamar: os dois juntos são o melhor. Como as respostas do Senhor tão frequentemente seguem de perto os calcanhares das nossas petições, e até as alcançam, convém que nossos louvores gratos acompanhem o ritmo das nossas humildes orações. Observe que o salmista tanto clamou quanto falou; o Senhor expulsou o demônio mudo dos seus filhos, e aqueles dentre eles menos fluentes com a língua são muitas vezes os mais eloquentes com o coração.

Versículo 18Salmo 66:18

Se eu atender à iniquidade em meu coração, se, tendo visto que ela ali está, eu continuar a contemplá-la sem repulsa; se eu a nutrir, lançar-lhe um olhar de esguelha e amor, desculpá-la, atenuá-la; o Senhor não me ouvirá. Como poderia? Poderia eu desejar que ele conivesse com o meu pecado, e me aceitasse enquanto eu me apego voluntariamente a algum caminho mau? Nada impede tanto a oração quanto a iniquidade abrigada no peito; como com Caim, assim conosco, o pecado jaz à porta, e bloqueia a passagem. Se escutas o diabo, Deus não te escutará. Se recusas ouvir os mandamentos de Deus, ele certamente recusará ouvir as tuas orações. Uma petição imperfeita Deus a ouvirá por amor de Cristo, mas não uma que é deliberadamente adulterada por mão traiçoeira. Que Deus aceitasse nossas devoções enquanto nos deleitamos no pecado seria fazer-se o Deus dos hipócritas, nome mais próprio de Satanás que do Santo de Israel.

Versículo 19Salmo 66:19

Mas, na verdade, Deus me ouviu. Sinal seguro de que o suplicante não era amante secreto do pecado. A resposta à sua oração foi uma nova garantia de que seu coração era sincero diante do Senhor. Veja como o salmista está certo está de que foi ouvido; para ele não é esperança, suspeita ou fantasia, mas ele o sela com um "na verdade". Fatos são coisas bendecidas quando revelam tanto o coração de Deus como amoroso, quanto o nosso coração como sincero. Atendeu à voz da minha oração. Ele voltou sua mente para considerar meus clamores, interpretou-os, aceitou-os e respondeu a eles; e nisso provou tanto sua graça quanto a retidão do meu coração. O amor ao pecado é uma chaga, marca condenatória, sinal mortal, mas as orações que evidentemente vivem e prevalecem junto a Deus surgem com toda clareza de um coração livre de qualquer flerte com o mal. Que o leitor cuide para que o mais íntimo de sua alma esteja livre de toda aliança com a iniquidade, de toda tolerância à concupiscência secreta, ou ao erro escondido.

Versículo 20Salmo 66:20

Bendito seja Deus. Seja o seu nome honrado e amado. Que não afastou de mim a minha oração, nem a sua misericórdia. Ele não retirou nem o seu amor, nem a minha liberdade de orar. Não rejeitou nem a minha oração, nem a mim. Sua misericórdia e os meus clamores continuam a se encontrar. O salmo termina na sua nota-chave. O louvor, do princípio ao fim, é o seu espírito e o seu propósito. Que o Senhor nos capacite a entrar nele. Amém.

Obras sobre este salmo

"A fourth Proceeding in the Harmony of King David's Harp. That is to say; A Godly and learned Exposition of six Psalms more of the princely Prophet David, beginning with the 62, and ending with the 67, Psalm." Escrito em latim pelo reverendo Doutor VICTORINUS STRIGELIUS, Professor de Teologia na universidade de Lípsia, na Alemanha, no ano de 1562. Traduzido para o inglês por Richard Robinson, Cidadão de Londres. 1596... Londres... 1596.

(O acima é a "quarta", e, tanto quanto pudemos descobrir, a última parte da tradução de R. Robinson de Strigelius. As quatro partes, tituladas e paginadas separadamente, contêm Exposições dos Salmos 1-67. Datas: 1591-3-5-6.)

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