Tesouros de Davi

Salmo 19

Leia o Salmo 19 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

ASSUNTO. Seria inútil investigar o período exato em que este poema encantador foi composto, pois não há nada em seu título ou assunto que ajude nessa investigação. O cabeçalho, "Ao mestre de música, um Salmo de Davi", nos informa que Davi o escreveu, e que foi entregue ao mestre do serviço de cântico no santuário, para uso dos adoradores reunidos. Em seus primeiros dias, o salmista, enquanto cuidava do rebanho de seu pai, havia se dedicado ao estudo dos dois grandes livros de Deus — a natureza e a Escritura. Ele havia entrado tão profundamente no espírito desses dois únicos volumes de sua biblioteca que foi capaz, com devota crítica, de compará-los e contrastá-los, engrandecendo a excelência do Autor manifesta em ambos.

Quão tolos e ímpios são aqueles que, em vez de aceitar os dois tomos sagrados e se deleitar em contemplar a mesma mão divina em cada um deles, gastam todo o seu engenho tentando encontrar discrepâncias e contradições. Podemos ter certeza de que os verdadeiros "Vestígios da Criação" jamais contradirão Gênesis, nem um "Cosmos" correto será encontrado em desacordo com a narrativa de Moisés. Mais sábio é aquele que lê o livro do mundo e o livro da Palavra como dois volumes de uma mesma obra, e sente a respeito deles: "Meu Pai escreveu ambos."

DIVISÃO. Este cântico se divide de modo bem nítido em três partes, muito bem descritas pelos tradutores no cabeçalho comum de nossa versão. As criaturas mostram a glória de Deus, 1-6. A palavra mostra a sua graça, 7-11. Davi ora pedindo graça, 12-14. Assim, louvor e oração se misturam, e aquele que aqui canta a obra de Deus no mundo exterior suplica por uma obra de graça dentro de si mesmo.

Exposição

Versículo 1Salmo 19:1

Os céus proclamam a glória de Deus. O livro da natureza tem três páginas: céu, terra e mar; delas, o céu é a primeira e a mais gloriosa, e é por meio dela que conseguimos ver as belezas das outras duas. Qualquer livro sem sua primeira página seria lamentavelmente incompleto — e especialmente a grande Bíblia Natural, já que suas páginas iniciais, o sol, a lua e as estrelas, fornecem luz para o resto do volume, sendo assim as chaves sem as quais o que se segue ficaria escuro e indecifrável. O homem, andando ereto, foi evidentemente feito para contemplar os céus, e quem começa a ler a criação estudando as estrelas começa o livro no lugar certo.

Os céus estão no plural por sua variedade: os céus aquosos com suas nuvens de formas incontáveis, os céus aéreos com suas calmarias e tempestades, os céus solares com todas as glórias do dia, e os céus estrelados com todas as maravilhas da noite. O que seja o Céu dos céus não subiu ao coração do homem, mas ali, sobretudo, todas as coisas anunciam a glória de Deus.

Qualquer parte da criação contém mais ensino do que a mente humana algum dia esgotará, mas o reino celeste é peculiarmente rico em sabedoria espiritual. Os céus proclamam — ou estão proclamando, pois os particípios empregados indicam a continuidade desse testemunho. A cada instante a existência, o poder, a sabedoria e a bondade de Deus são anunciados por esses arautos celestiais que brilham sobre nós lá do alto.

Quem quiser vislumbrar a sublimidade divina deve olhar para a abóbada estrelada; quem quiser imaginar o infinito deve perscrutar a extensão sem limites; quem deseja ver a sabedoria divina deve considerar o equilíbrio dos astros; quem quiser conhecer a fidelidade divina deve notar a regularidade dos movimentos planetários; e quem quiser formar alguma noção do poder, da grandeza e da majestade divinas deve avaliar as forças de atração, a magnitude das estrelas fixas e o brilho de todo o cortejo celestial.

Não é apenas glória que os céus proclamam, mas a "glória de Deus", pois nos entregam argumentos irrefutáveis de um Criador consciente, inteligente, planejador e soberano — de modo que nenhuma pessoa sem preconceitos pode permanecer indiferente a eles. O testemunho dado pelos céus não é mera insinuação, mas uma declaração clara e inconfundível; e é uma declaração da espécie mais constante e duradoura.

Ainda assim, de que adianta a mais alta proclamação para um surdo, ou a mais clara demonstração para quem é cego espiritualmente? Deus, o Espírito Santo, precisa nos iluminar, ou de nada servirão todos os sóis da Via Láctea.

O firmamento anuncia a obra das suas mãos; não "das mãos" no sentido vulgar, mas obra-de-mão. O firmamento está repleto das obras das hábeis mãos criadoras do Senhor; atribuem-se mãos ao grande Espírito criador para expressar seu cuidado e sua ação de artesão, e para atender à limitada compreensão dos mortais. É humilhante constatar que, mesmo quando as mentes mais devotas e elevadas desejam expressar seus pensamentos mais altos sobre Deus, precisam recorrer a palavras e metáforas tiradas da terra. Somos crianças, e cada um de nós deve confessar: "Penso como criança, falo como criança."

No firmamento acima de nós, Deus hasteia, por assim dizer, sua bandeira estrelada para mostrar que o Rei está em casa, e expõe seu brasão para que os ateus vejam como ele despreza suas denúncias. Quem olha para o firmamento e depois se declara ateu marca a si mesmo, no mesmo instante, como idiota ou mentiroso.

É estranho que alguns que amam a Deus tenham medo de estudar o livro da natureza que anuncia a Deus; a falsa espiritualidade de alguns crentes, celestiais demais para considerar os céus, deu cor às alegações dos incrédulos de que a natureza contradiz a revelação. Os mais sábios entre os homens são aqueles que, com piedosa avidez, rastreiam os caminhos de Jeová tanto na criação quanto na graça; só os tolos temem que o estudo honesto de um prejudique nossa fé no outro.

O Dr. M'Cosh disse bem: "Muitas vezes lamentamos as tentativas de colocar as obras de Deus contra a Palavra de Deus, e assim excitar, propagar e perpetuar ciúmes que deveriam separar partes chamadas a viver em estreita união. Em particular, sempre lamentamos que se fizessem esforços para depreciar a natureza a fim de exaltar a revelação; isso sempre nos pareceu nada mais que degradar uma parte da obra de Deus na esperança de, com isso, exaltar e recomendar outra.

"Não sejam ciência e religião consideradas cidadelas opostas, encarando-se com desafio, suas tropas brandindo armas em atitude hostil. Elas têm inimigos comuns demais — se ao menos pensassem nisso — na ignorância e no preconceito, na paixão e no vício, sob todas as suas formas, para permitir que desperdicem sua força numa guerra inútil entre si. A ciência tem um fundamento, e a religião também; que unam seus fundamentos, e a base será mais ampla, e ambas serão dois compartimentos de um único grande edifício erguido para a glória de Deus.

"Que uma seja o átrio externo e a outra o átrio interno. No primeiro, que todos olhem, admirem e adorem; e no segundo, que aqueles que têm fé se ajoelhem, orem e louvem. Que um seja o santuário onde o saber humano possa apresentar seu mais rico incenso como oferta a Deus, e o outro o santo dos santos, separado dele por um véu agora rasgado ao meio, e no qual, sobre um propiciatório aspergido de sangue, derramamos o amor de um coração reconciliado e ouvimos os oráculos do Deus vivo."

Versículo 2Salmo 19:2

Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Como se um dia retomasse a história onde o outro a deixou, e cada noite passasse adiante o relato maravilhoso para a próxima. O original traz a ideia de derramar ou transbordar em fala; como se dias e noites fossem apenas uma fonte que jorra sem cessar o louvor de Jeová.

Ah, quisera eu beber com frequência nesse poço celestial e aprender a proclamar a glória de Deus! As testemunhas lá do alto não podem ser mortas nem silenciadas; de seus assentos elevados pregam constantemente o conhecimento de Deus, sem se intimidar nem se deixar influenciar pelo juízo dos homens. Até as alternâncias de noite e dia são mudamente eloquentes, e luz e sombra revelam igualmente o Invisível; que as mudanças de nossas circunstâncias façam o mesmo, e enquanto bendizemos o Deus dos nossos dias de alegria, louvemos também aquele que dá "cânticos na noite".

A lição do dia e da noite é uma que todos fariam bem em aprender. Deveria estar entre nossos pensamentos diurnos e noturnos lembrar a fuga do tempo, o caráter mutável das coisas terrenas, a brevidade tanto da alegria quanto da tristeza, a preciosidade da vida, nossa total incapacidade de recuperar as horas já passadas, e a aproximação irresistível da eternidade. O dia nos convida ao trabalho, a noite nos lembra de preparar nosso último repouso; o dia nos manda trabalhar para Deus, e a noite nos convida a descansar nele; o dia nos manda esperar o dia sem fim, e a noite nos alerta a escapar da noite eterna.

Versículo 3Salmo 19:3

Não há fala nem linguagem, onde a sua voz não seja ouvida. Todo homem pode ouvir as vozes das estrelas. Muitas são as línguas dos terrestres; para os seres celestiais há apenas uma, e essa pode ser entendida por qualquer mente disposta. Os pagãos mais degradados não têm desculpa se não descobrem as coisas invisíveis de Deus nas obras que ele fez. Sol, lua e estrelas são pregadores itinerantes de Deus; são apóstolos em viagem, confirmando os que temem ao Senhor, e juízes em circuito, condenando os que adoram ídolos.

A margem nos dá outra tradução, mais literal e com menos repetição: "não há fala, não há palavras, sua voz não é ouvida"; ou seja, seu ensino não se dirige ao ouvido, nem é proferido em sons articulados; é pictórico, dirigido aos olhos e ao coração; não toca o sentido pelo qual vem a fé, pois a fé vem pelo ouvir. Jesus Cristo é chamado a Palavra, pois ele é uma manifestação muito mais nítida da divindade do que todos os céus podem oferecer; estes são, afinal, apenas instrutores mudos; nem estrela nem sol conseguem chegar a uma palavra, mas Jesus é a imagem expressa da pessoa de Jeová, e seu nome é a Palavra de Deus.

Versículo 4Salmo 19:4

A sua corda se estendeu por toda a terra, e as suas palavras até o fim do mundo. Embora os corpos celestes se movam num silêncio solene, aos ouvidos da razão eles proferem ensinos preciosos. Não emitem palavras literais, mas sua instrução é clara o bastante para merecer essa descrição. Horne diz que a expressão empregada indica uma linguagem de sinais, e assim nos é dito que os céus falam por seus atos e operações significativos. As palavras da natureza são como as de um surdo-mudo, mas a graça nos fala claramente do Pai.

Por "corda" entende-se provavelmente a medida de seu domínio que, junto com seu testemunho, se estendeu até os confins da terra habitável. Nenhum homem que vive sob as abóbadas do céu habita além dos limites da diocese dos pregadores da corte de Deus; é fácil escapar da luz dos ministros, que são como estrelas na mão direita do Filho do Homem; mas mesmo assim os homens, com a consciência ainda não cauterizada, encontrarão um Natã para acusá-los, um Jonas para adverti-los, e um Elias para ameaçá-los nas estrelas silenciosas da noite. Para as almas piedosas, as vozes dos céus são muito mais influentes: elas sentem as doces influências das Plêiades e são atraídas para seu Deus Pai pelas brilhantes cadeias de Órion.

Neles pôs uma tenda para o sol. Nos céus o sol acampa e marcha como um poderoso monarca em seu caminho glorioso. Ele não tem morada fixa, mas, como viajante, arma e desarma sua tenda — uma tenda que em breve será desmontada e enrolada como um pergaminho. Assim como o pavilhão real ficava no centro do exército, o sol em seu lugar aparece como um rei no meio de estrelas que o acompanham.

Versículo 5Salmo 19:5

Que é como um noivo saindo do seu tálamo. Um noivo sai suntuosamente vestido, o rosto radiante de uma alegria que ele transmite a todos ao redor; assim é o sol nascente, mas com uma ênfase muito maior. E se alegra como um forte para correr o seu caminho. Como um atleta preparado para a corrida se dispõe a ela com alegria, assim o sol avança em sua órbita designada com regularidade incomparável e velocidade incansável. Para ele é mero jogo; não há sinais de esforço, fraqueza ou exaustão.

Nenhuma outra criatura dá tanta alegria à terra quanto seu noivo, o sol; e nenhuma, seja cavalo ou águia, pode por um instante se comparar em velocidade a esse campeão celestial. Mas toda a sua glória é apenas a glória de Deus; até o sol brilha com luz emprestada do grande Pai das Luzes.

"Tu, sol, deste grande mundo olho e alma, Reconhece Aquele que é maior que ti; anuncia seu louvor Tanto quando subes, quanto quando alcanças o meio-dia, E quando caís."

Versículo 6Salmo 19:6

A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até a outra extremidade. Ele leva sua luz até os limites dos céus solares, atravessando o zodíaco com movimento constante, sem negar sua luz a nenhum dos que habitam dentro de seu alcance. E nada se esconde do seu calor. Acima, abaixo, ao redor, o calor do sol exerce sua influência. As entranhas da terra guardam o antigo produto dos raios solares, e ainda hoje as cavernas mais profundas da terra sentem seu poder. Onde a luz é vedada, ainda assim o calor e outras influências mais sutis encontram passagem.

Não há dúvida de que se pretende traçar aqui um paralelo entre o céu da graça e o céu da natureza. O caminho da graça de Deus é sublime e amplo, e cheio de sua glória; em todas as suas manifestações deve ser admirado e estudado com diligência; tanto suas luzes quanto suas sombras são instrutivas; ele foi proclamado, em certa medida, a todo povo, e a seu tempo será ainda mais completamente publicado até os confins da terra.

Jesus, como um sol, habita no meio da revelação, acampando entre os homens em todo o seu brilho; alegrando-se, como o Noivo de sua igreja, em revelar-se aos homens; e, como um campeão, em conquistar para si renome. Ele faz um circuito de misericórdia, abençoando os cantos mais remotos da terra; e não há almas buscadoras, por mais degradadas e depravadas que sejam, a quem se negue o calor reconfortante e a bênção de seu amor — até a morte sentirá o poder de sua presença e cederá os corpos dos santos, e esta terra caída será restaurada à sua glória original.

Nos três versículos seguintes (7, 8, 9) temos uma breve, mas instrutiva héxapla, contendo seis títulos descritivos da palavra, seis qualidades características mencionadas, e seis efeitos divinos declarados. Nomes, natureza e efeito estão ali muito bem apresentados.

Versículo 7Salmo 19:7

A lei do Senhor é perfeita. Com isso ele não se refere apenas à lei de Moisés, mas à doutrina de Deus, a toda a extensão e regra da Escritura sagrada. A doutrina revelada por Deus ele declara perfeita — e no entanto Davi tinha apenas uma pequena parte das Escrituras; e se um fragmento, e ainda por cima o mais histórico e sombrio deles, é perfeito, o que dizer do volume inteiro? Quão mais que perfeito é o livro que contém a mais clara manifestação possível do amor divino, e nos concede uma visão aberta da graça redentora.

O evangelho é um esquema completo, uma lei completa de salvação graciosa, apresentando ao pecador necessitado tudo o que suas terríveis carências possam demandar. Não há redundâncias nem omissões na Palavra de Deus, nem no plano da graça; por que então os homens tentam pintar este lírio e dourar este ouro refinado? O evangelho é perfeito em todas as suas partes, e perfeito como um todo: é um crime acrescentar a ele, é traição alterá-lo, e é delito subtrair dele.

Convertendo a alma. Fazendo o homem retornar ou ser restaurado ao lugar de onde o pecado o havia expulsado. O efeito prático da Palavra de Deus é voltar o homem para si mesmo, para o seu Deus e para a santidade; e essa volta, essa conversão, não é apenas externa — "a alma" é movida e renovada. O grande meio da conversão dos pecadores é a Palavra de Deus, e quanto mais nos apegarmos a ela em nosso ministério, mais provável será nosso êxito. É a Palavra de Deus, e não o comentário do homem sobre ela, que se torna poderosa com as almas.

Quando a lei impele e o evangelho atrai, a ação é diferente, mas o fim é um só, pois pelo Espírito de Deus a alma é levada a ceder e clama: "Converte-me, e serei convertido." Teste a natureza depravada dos homens com filosofia e argumentação, e ela ri de seus esforços com desprezo; mas a Palavra de Deus logo opera uma transformação.

O testemunho do Senhor é fiel. Deus dá seu testemunho contra o pecado e a favor da justiça; ele testifica de nossa queda e de nossa restauração; esse testemunho é claro, decidido e infalível, e deve ser aceito como certo. O testemunho de Deus em sua Palavra é tão certo que dele podemos tirar conforto sólido tanto para o tempo quanto para a eternidade, e é tão certo que nenhum ataque contra ele, por mais feroz ou sutil, jamais poderá enfraquecer sua força. Que bênção termos algo certo em que nos apoiar num mundo de incertezas! Fugimos das areias movediças das especulações humanas para a terra firme da Revelação Divina.

Tornando sábio o simples. Mentes humildes, sinceras e ensináveis recebem a palavra e são feitas sábias para a salvação. Coisas ocultas dos sábios e entendidos são reveladas às crianças. Os que se deixam persuadir se tornam sábios, mas os que discutem por discutir permanecem tolos. Como lei ou plano, a Palavra de Deus converte; e depois, como testemunho, instrui; não basta sermos convertidos, precisamos continuar sendo discípulos; e se sentimos o poder da verdade, devemos ir adiante e comprovar sua certeza pela experiência. A perfeição do evangelho converte, mas sua certeza edifica; se quisermos ser edificados, não devemos vacilar diante da promessa por falta de fé, pois um evangelho posto em dúvida não pode nos tornar sábios — apenas a verdade da qual estamos certos será nosso alicerce.

Versículo 8Salmo 19:8

Os preceitos do Senhor são retos. Seus preceitos e decretos estão fundados na justiça, e são tais que se ajustam à reta razão do homem. Assim como um médico dá o remédio certo, e um conselheiro dá o conselho certo, assim faz o Livro de Deus. Alegrando o coração. Observe o progresso: aquele que foi convertido foi em seguida feito sábio, e agora é feito feliz; a verdade que endireita o coração então dá alegria ao coração já reto. A graça gratuita traz alegria ao coração. A alegria terrena habita nos lábios e agita as forças do corpo; mas as delícias celestiais satisfazem a natureza interior e enchem as faculdades da mente até transbordar. Não há cordial de conforto como aquele que se derrama do frasco das Escrituras.

"Recolhe-te e lê tua Bíblia para seres alegre."

O mandamento do Senhor é puro. Nenhuma mistura de erro o contamina, nenhuma mancha de pecado o polui; é o leite não adulterado, o vinho não diluído. Iluminando os olhos, purgando, por sua própria pureza, a grosseria terrena que atrapalha o discernimento intelectual: esteja o olho embotado pela tristeza ou pelo pecado, a Escritura é uma oculista habilidosa, e torna o olho límpido e brilhante. Olhe para o sol e ele cega seus olhos; olhe para a luz ainda maior da Revelação e ela os ilumina. A pureza da neve causa cegueira ao viajante alpino, mas a pureza da verdade de Deus tem o efeito contrário, e cura a cegueira natural da alma.

Vale outra vez observar a gradação: o convertido se torna discípulo, e depois uma alma que se alegra; agora ele obtém um olho discernente e, como homem espiritual, discerne todas as coisas, embora ele mesmo não seja discernido por ninguém.

Versículo 9Salmo 19:9

O temor do Senhor é limpo. A doutrina da verdade é aqui descrita por seu efeito espiritual, a saber, a piedade interior, ou o temor do Senhor; este é limpo em si mesmo, e limpa o amor ao pecado, santificando o coração em que reina. O Sr. Santo Temor nunca se satisfaz até que cada rua, viela e beco — sim, e cada casa e cada canto da cidade da Alma Humana — esteja livre dos Diabólicos que ali se escondem.

E permanece para sempre. A imundície traz decadência, mas a limpeza é a grande inimiga da corrupção. A graça de Deus no coração, sendo princípio puro, é também princípio duradouro e incorruptível, que pode ser esmagado por um tempo, mas não pode ser de todo destruído. Tanto na Palavra quanto no coração, quando o Senhor escreve, ele diz com Pilatos: "O que escrevi, escrevi"; ele mesmo não fará rasuras, muito menos permitirá que outros as façam. A vontade revelada de Deus nunca muda; até Jesus não veio destruir, mas cumprir; e mesmo a lei cerimonial só foi mudada quanto à sua sombra — a substância que ela apontava é eterna. Quando os governos das nações são abalados pela revolução, e antigas constituições são revogadas, é reconfortante saber que o trono de Deus permanece firme, e sua lei inalterada.

Os juízos do Senhor são verdadeiros e justos, todos eles. Juntos e separados, as palavras do Senhor são verdadeiras; o que é bom em cada detalhe é excelente em conjunto; nenhuma exceção pode ser feita a uma única cláusula isolada, ou ao livro como um todo. Os juízos de Deus, todos juntos ou cada um à parte, são manifestamente justos, e não precisam de laboriosas desculpas para se justificar. As decisões judiciais de Jeová, reveladas na lei ou ilustradas na história de sua providência, são a própria verdade, e se recomendam a toda mente sincera; não só seu poder é invencível, como sua justiça é inquestionável.

Versículo 10Salmo 19:10

Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino. A verdade bíblica enriquece a alma no mais alto grau; a metáfora é uma que ganha força à medida que se desdobra — ouro, ouro fino, muito ouro fino; é bom, melhor, ótimo, e por isso deve ser desejado não apenas com a avidez de um avarento, mas com mais do que isso. Assim como o tesouro espiritual é mais nobre do que a mera riqueza material, também deve ser desejado e buscado com maior ardor. Os homens falam de ouro maciço, mas o que é tão sólido quanto a verdade sólida? Por amor ao ouro renuncia-se ao prazer, abre-se mão do conforto, arrisca-se a vida; não estaremos dispostos a fazer o mesmo por amor à verdade?

E mais doces do que o mel e o favo de mel. Trapp diz: "Os velhos são todos pelo lucro, os jovens pelo prazer; aqui há ouro para uns, sim, o ouro mais fino em grande quantidade; aqui há mel para os outros, sim, mel vivo pingando do favo." Os prazeres que surgem de um reto entendimento dos testemunhos divinos são da ordem mais deliciosa; os gozos terrenos são absolutamente desprezíveis quando comparados a eles. As alegrias mais doces, sim, a mais doce das doçuras, cabe àquele que tem a verdade de Deus como sua herança.

Versículo 11Salmo 19:11

Também por eles é o teu servo avisado. Somos advertidos pela Palavra tanto do nosso dever quanto do nosso perigo, quanto do nosso remédio. No mar da vida haveria muitos mais naufrágios, se não fosse pelos sinais divinos de tempestade, que dão ao vigilante um aviso a tempo. A Bíblia deveria ser nosso Mentor, nosso Monitor, nosso Memento Mori, nosso Lembrete, e a Guardiã da nossa consciência.

Ai, quão poucos homens acatam o aviso tão graciosamente dado; só os servos de Deus o fazem, pois só eles respeitam a vontade de seu Senhor. Os servos de Deus não apenas acham o seu serviço agradável em si mesmo, mas recebem boa recompensa: em guardá-los há grande recompensa. Há um salário, e um grande; embora não ganhemos salário por dívida, ganhamos grande salário por graça. Os santos podem perder por um tempo, mas serão gloriosos vencedores no fim, e mesmo agora uma consciência tranquila já é, em si, uma recompensa nada pequena pela obediência. Quem traz consigo a erva chamada tranquilidade de coração é verdadeiramente bem-aventurado.

Contudo, a principal recompensa ainda está por vir, e a palavra aqui usada sugere isso, pois significa o calcanhar, como se a recompensa nos chegasse ao fim da vida, quando a obra estivesse feita — não enquanto o trabalho ainda estava em curso, mas quando já tivesse passado e pudéssemos ver o seu calcanhar. Ah, a glória ainda a se revelar! É o bastante para fazer um homem desfalecer de alegria diante dessa perspectiva. Nossa leve tribulação, que é passageira, não é digna de ser comparada com a glória que se revelará em nós. Então conheceremos o valor das Escrituras, quando nadarmos naquele mar de indizível deleite para o qual suas correntes nos levarão, se a elas nos entregarmos.

Versículo 12Salmo 19:12

Quem pode entender os seus erros? Uma pergunta que é sua própria resposta. Ela pede antes um ponto de exclamação do que de interrogação. Pela lei vem o conhecimento do pecado, e na presença da verdade divina o salmista se admira do número e da gravidade de seus pecados. Quem melhor conhece o Livro melhor conhece a si mesmo, mas até esse tal ficará perdido de espanto diante do que não sabe, mais do que subirá ao monte da autocongratulação pelo que sabe.

Já ouvimos falar de uma comédia de erros, mas para um homem bom isto é mais uma tragédia. Muitos livros trazem umas poucas linhas de erratas no final; nossas erratas bem poderiam ocupar o volume inteiro, se tivéssemos discernimento suficiente para enxergá-las. Agostinho escreveu, em seus últimos anos, uma série de Retratações; as nossas poderiam encher uma biblioteca, se tivéssemos graça bastante para nos convencermos de nossos erros e confessá-los.

Purifica-me tu dos erros ocultos. Tu podes apontar em mim faltas inteiramente ocultas de mim mesmo. Seria vão esperar ver todas as minhas manchas; por isso, Senhor, lava no sangue expiatório até mesmo aqueles pecados que minha consciência não conseguiu detectar. Pecados secretos, como conspiradores privados, precisam ser caçados, ou poderão causar dano mortal; convém orar muito a respeito deles.

No Concílio de Latrão da Igreja de Roma, decretou-se que todo verdadeiro crente deve confessar seus pecados, todos eles, uma vez por ano ao sacerdote, com a declaração anexa de que não há esperança de perdão fora do cumprimento desse decreto. O que se pode igualar ao absurdo de tal decreto? Pensam eles que se pode contar os pecados com a mesma facilidade com que se contam os dedos?

Ora, se pudéssemos receber perdão de todos os nossos pecados apenas contando cada pecado cometido numa hora, nenhum de nós conseguiria entrar no céu, pois, além dos pecados que conhecemos e que talvez consigamos confessar, existe uma vasta massa de pecados que são tão verdadeiramente pecados quanto os que lamentamos, mas que são secretos e não chegam sob nosso olhar. Se tivéssemos olhos como os de Deus, pensaríamos muito diferente de nós mesmos. As transgressões que vemos e confessamos são apenas como as pequenas amostras que o fazendeiro leva ao mercado, quando deixou em casa o celeiro cheio. Temos apenas uns poucos pecados que conseguimos observar e detectar, comparados com aqueles que estão ocultos de nós mesmos e invisíveis a nossos semelhantes.

Versículo 13Salmo 19:13

Guarda também o teu servo dos pecados presunçosos; que eles não tenham domínio sobre mim. Esta oração sincera e humilde nos ensina que os santos podem cair nos piores pecados, a menos que sejam contidos pela graça, e que por isso devem vigiar e orar para não entrarem em tentação. Há uma inclinação natural para o pecado até nos melhores homens, e eles precisam ser contidos como um cavalo é contido pelo freio, ou correrão direto para ele.

Os pecados presunçosos são especialmente perigosos. Todo pecado é grande, mas ainda assim uns pecados são maiores que outros. Todo pecado carrega em si o próprio veneno da rebelião, e está cheio da essência traiçoeira da rejeição a Deus; mas há pecados que trazem um desenvolvimento maior desse mal essencial da rebelião, e que ostentam no rosto mais do orgulho descarado que desafia o Altíssimo.

É errado supor que, por todos os pecados nos condenarem, um pecado não seja maior que outro. O fato é que, embora toda transgressão seja algo profundamente grave e pecaminoso, há transgressões de um tom mais escuro, de uma tonalidade mais dupla e carmesim de criminalidade do que outras. Os pecados presunçosos do nosso texto são o principal e o pior de todos os pecados; ocupam o primeiro e mais alto lugar na lista das iniquidades.

É notável que, embora sob a lei judaica houvesse expiação prevista para todo tipo de pecado, havia esta única exceção: "Mas a alma que pecar com mão levantada será eliminada do meio do seu povo; ela não terá expiação." E agora, sob a dispensação cristã, embora no sacrifício de nosso bendito Senhor haja uma grande e preciosa expiação também para os pecados presunçosos, pela qual os pecadores que assim erraram são purificados, ainda assim, sem dúvida, os pecadores presunçosos que morrem sem perdão devem esperar receber uma dupla porção da ira de Deus, e uma porção mais terrível do castigo eterno na cova cavada para os ímpios.

Por essa razão Davi está tão ansioso para nunca cair sob o poder reinante desses males gigantescos. Então serei reto, e ficarei inocente da grande transgressão. Ele estremece só de pensar no pecado imperdoável. O pecado secreto é um degrau para o pecado presunçoso, e este é o vestíbulo "do pecado que leva à morte". Quem não é deliberado em seu pecado estará em bom caminho para ser inocente, tanto quanto um pobre pecador pode ser; mas quem tenta o diabo a tentá-lo segue um caminho que o levará de mal a pior, e do pior ao pior de todos.

Versículo 14Salmo 19:14

Sejam agradáveis as palavras da minha boca, e a meditação do meu coração, diante de ti, Senhor, rocha minha e redentor meu. Uma oração doce, e tão espiritual que é quase tão usada no culto cristão quanto a bênção apostólica. As palavras da boca são zombaria se o coração não medita; a casca não vale nada sem o miolo; mas ambos juntos são inúteis se não forem aceitos; e mesmo que aceitos pelo homem, tudo é vaidade se não forem agradáveis diante de Deus.

Precisamos, na oração, ver Jeová como nossa força que capacita e nosso Redentor que salva, ou não oraremos como deveríamos; e convém sentir nosso interesse pessoal a ponto de usar a palavra "minha", ou nossas orações ficarão travadas. O nome do nosso Parente próximo, nosso Goel ou Redentor, dá um final abençoado ao Salmo; ele começou com os céus, mas termina com aquele cuja glória enche céu e terra. Bendito Parente, dá-nos agora meditar de modo aceitável sobre o teu doce amor e ternura.

Obras sobre este salmo

As Obras de JOHN BOYS, 1626, in-fólio, pp. 791-798. Uma Exposição do Salmo XIX.

Palestras Hulseanas de 1827. Sobre as Provas do Poder e da Sabedoria Divinos, tiradas do Estudo da Astronomia; e sobre as Evidências, Doutrinas e Preceitos da Religião Revelada. Pelo Rev. TEMPLE CHEVALIER, M.A.

["O Décimo Nono Salmo foi adotado como modelo para a organização das primeiras doze Palestras." Trecho do Prefácio.]

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