Tesouros de Davi

Salmo 99

Leia o Salmo 99 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Este pode ser chamado O SANCTUS, ou O SALMO SANTO, SANTO, SANTO, pois a palavra "santo" é a conclusão e o refrão de suas três divisões principais. Seu assunto é a santidade do governo divino, a santidade do reinado mediador.

Parece-nos que ele declara a santidade do próprio Jeová em Salmo 99:1-3; menciona a equidade do rei que o Senhor havia estabelecido, como ilustração do amor do Senhor pela santidade — ou, mais provavelmente, descreve o próprio Senhor como o rei, em Salmo 99:4-5 — e então expõe o caráter severamente justo dos tratos de Deus com aquelas pessoas favorecidas que, em tempos passados, ele escolhera para se aproximarem dele em favor do povo, Salmo 99:6-9.

É um hino próprio para os querubins que cercam o trono, mencionados em Salmo 99:1; é um Salmo muito próprio para os santos que habitam em Sião, a cidade santa, e especialmente digno de ser cantado com reverência por todos os que, como Davi o rei, Moisés o legislador, Arão o sacerdote ou Samuel o vidente, têm a honra de conduzir a igreja de Deus e interceder por ela junto ao seu Senhor.

Exposição

Versículo 1Salmo 99:1

O Senhor reina. Uma das mais alegres declarações que jamais saltaram de lábios mortais. A derrubada do reinado do mal e o estabelecimento do reino de bondade, justiça e verdade de Jeová é digna de ser cantada repetidas vezes, como aqui a temos pela terceira vez nos salmos.

Tremam os povos. Sinta o povo escolhido um temor solene e, ao mesmo tempo, gozoso, que estremeça toda a sua humanidade. Que os santos vibrem de devota emoção, e os pecadores tremam de terror, quando o domínio de Jeová é plenamente percebido e sentido. Não é assunto leve ou trivial; é uma verdade que, mais do que qualquer outra, deve agitar as profundezas do nosso ser.

Ele está assentado entre os querubins. Em grandeza de glória sublime, e ao mesmo tempo em proximidade de condescendência mediadora, Jeová se revelou acima do propiciatório, sobre o qual estava a figura daqueles seres flamejantes que contemplam a sua glória e clamam sem cessar: "Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos." O Senhor, reinando naquele trono de graça aspergido de sangue expiatório e velado pelas asas protetoras do amor mediador, é, acima de todas as outras revelações, maravilhoso, e próprio para suscitar emoção em toda a humanidade — por isso se acrescenta:

Estremeça a terra. Não apenas "os povos", mas a terra inteira deve sentir um estremecimento de adoração reverente ao saber que, sobre o propiciatório, Deus se assenta como monarca universal. A pompa do céu o rodeia, simbolizada pelas asas estendidas dos querubins que esperam; que a terra não se mova menos à adoração — antes, curvem-se diante de sua infinita majestade todas as suas tribos; sim, que a própria terra firme, com trêmula reverência, reconheça a sua presença.

Versículo 2Salmo 99:2

O Senhor é grande em Sião. Antigamente o monte sagrado do templo era o centro do culto ao grande Rei, e o lugar onde sua grandeza era mais claramente contemplada; hoje a sua igreja é o seu palácio predileto, onde a sua grandeza se manifesta, se reconhece e se adora. Ali ele desvela os seus atributos e exige a mais profunda homenagem; os ignorantes o esquecem, os ímpios o desprezam, os ateus se opõem a ele, mas entre os seus escolhidos ele é grande além de qualquer comparação. Ele é grande na estima dos piedosos, grande em seus atos de misericórdia, e realmente grande em si mesmo: grande em misericórdia, poder, sabedoria, justiça e glória.

E ele é excelso sobre todos os povos. Elevando-se acima dos seus pensamentos mais altos e das suas mais elevadas concepções. Os mais altos não são altos diante dele; e, bendito seja o seu nome, os mais humildes não são desprezados por ele. Em tal Deus nos alegramos; a sua grandeza e a sua elevação nos são extremamente agradáveis. Quanto mais ele é honrado e exaltado no coração dos homens, mais exultante fica o seu povo. Se Israel se alegrava em Saul porque ele era mais alto que o povo, da cabeça para cima, quanto mais devemos exultar em nosso Deus e Rei, que é tão mais alto do que nós quanto os céus estão acima da terra.

Versículo 3Salmo 99:3

Louvem o teu grande e terrível nome. Que todos os habitantes de Sião e todas as nações da terra louvem ao Senhor, ou "reconheçam com gratidão" a bondade da sua natureza divina, ainda que haja nela muito que deva inspirar temor. Sob o aspecto mais terrível, o Senhor ainda assim deve ser louvado. Muitos professam admirar os raios mais brandos do sol da justiça, mas ardem em rebeldia contra o seu fulgor mais ardente: não deveria ser assim. Somos obrigados a louvar um Deus terrível, e a adorar aquele que lança os ímpios no inferno.

Não louvou Israel àquele "que derrubou Faraó e o seu exército no mar Vermelho, porque a sua misericórdia dura para sempre"? O Vingador terrível deve ser louvado, tanto quanto o Redentor amoroso. Contra isso se rebela a simpatia do coração mau do homem com o pecado; ele clama por um Deus efeminado, em quem a piedade tenha sufocado a justiça. Os servos bem instruídos de Jeová o louvam em todos os aspectos do seu caráter, seja terrível, seja terno. Só a graça que flui do propiciatório pode operar em nós essa admirável disposição de espírito.

Porque é santo. Ou: Ele é santo. Nele não há falha nem defeito, excesso nem carência, erro nem iniquidade. Ele é totalmente excelente, e por isso é chamado santo. Em suas palavras, pensamentos, atos e revelações, tanto quanto em si mesmo, ele é a própria perfeição. Vinde, adoremos e prostremo-nos diante dele.

Versículo 4Salmo 99:4

A força do rei também ama o juízo. Deus é o rei; o propiciatório é o seu trono, e o cetro que ele empunha é santo como ele mesmo. O seu poder jamais se exerce tiranicamente; ele é soberano, e é absoluto em seu governo, mas o seu poder se compraz no que é justo, a sua força só é usada para fins justos. Homens, nestes dias, estão sempre reorganizando o governo do Senhor, arvorando-se em juízes para decidir se ele age certo ou não; mas os homens santos de outrora pensavam de outro modo: tinham certeza de que o que o Senhor fazia era justo, e, em vez de chamá-lo a prestar contas, submetiam-se humildemente à sua vontade, alegrando-se na firme convicção de que, com toda a sua onipotência, Deus estava empenhado em promover a justiça e fazer valer o direito entre todas as suas criaturas.

Tu estabeleces a equidade. Não apenas um tribunal de equidade, mas a própria equidade tu estabeleces — e isso não por um tempo ou por ocasião, mas como instituição permanente, tão estável quanto o teu trono. Nem mesmo em nome da misericórdia o Senhor remove ou prejudica a equidade do seu governo moral: tanto na providência quanto na graça, ele zela pela pureza imaculada da sua justiça. A maioria dos reinos tem algum tipo de instituição estabelecida, e geralmente é injusta; aqui temos uma instituição que é a própria equidade. O Senhor nosso Deus derruba todo sistema de injustiça, e só o que é reto permanece de pé.

Tu executas juízo e justiça em Jacó. A justiça não é apenas estabelecida, mas executada no reino de Deus; as leis se cumprem, o poder executivo é tão justo quanto o legislativo. Nisso, que todos os oprimidos — e também todos os que amam a retidão — encontrem larga ocasião para louvor. Outras nações, sob os seus déspotas, eram vítimas e ao mesmo tempo autoras de graves injustiças; mas quando as tribos eram fiéis ao Senhor, gozavam de um governo íntegro dentro das suas próprias fronteiras, e agiam com integridade para com os seus vizinhos.

Aquela arte de reinar que se compraz na astúcia, no favoritismo e na força bruta é tão oposta à realeza divina quanto as trevas à luz. O palácio de Jeová não é fortaleza de salteador nem castelo de déspota, erguido sobre masmorras, com pedras lavradas por escravos e cimentadas com o sangue de servos exauridos. Os anais da maioria dos governos humanos foram escritos com as lágrimas dos oprimidos e as maldições dos espoliados; as crônicas do reino do Senhor são de outra espécie — a verdade brilha em cada linha, a bondade em cada sílaba, e a justiça em cada letra. Glória ao nome do Rei, cuja glória mansa resplandece de entre as asas dos querubins.

Versículo 5Salmo 99:5

Exaltai ao Senhor nosso Deus. Se mais ninguém o adorar, que o seu próprio povo lhe preste o culto mais ardente. Uma condescendência infinita o leva a se dobrar para ser chamado nosso Deus, e a verdade e a fidelidade o comprometem a manter essa relação de aliança; e certamente nós, a quem, por graça, ele tão amorosamente se dá, devemos exaltá-lo de todo o coração. Ele brilha sobre nós de sob as asas veladoras dos querubins e de acima do propiciatório; venhamos, pois, adorar diante do seu estrado.

Quando ele se revela em Cristo Jesus como o nosso Deus reconciliado, que nos permite chegar até o seu próprio trono, convém-nos unir fervor e humildade, alegria e adoração e, ao mesmo tempo em que o exaltamos, prostrarmo-nos no pó diante dele. Precisamos ser assim estimulados a adorar? Quanto deveríamos corar de vergonha por tanta relutância! Deveria ser nosso prazer diário engrandecer um Deus tão bom e tão grande.

Porque ele é santo. Pela segunda vez ressoa a nota, e, como a arca — que era o estrado divino — acaba de ser mencionada, a voz parece soar dos próprios querubins onde o Senhor se assenta, os quais clamam sem cessar: "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos!" A santidade é a harmonia de todas as virtudes. O Senhor não possui um único atributo glorioso isolado ou em excesso, mas todas as glórias estão nele como um todo; esta é a coroa da sua honra e a honra da sua coroa. O seu poder não é a sua joia mais preciosa, nem a sua soberania, mas a sua santidade.

Nessa excelência moral que tudo abrange, ele deseja que as suas criaturas se comprazam; e, quando o fazem, esse prazer é prova de que os seus corações foram renovados, e de que elas mesmas foram feitas participantes da sua santidade. Os deuses dos pagãos eram, segundo os próprios devotos, lascivos, cruéis e brutais; sua única pretensão à reverência estava no suposto poder sobre os destinos humanos: quem não preferiria de longe adorar a Jeová, cujo caráter é pureza imaculada, justiça inabalável, verdade inflexível, amor sem limites — em uma palavra, santidade perfeita?

Versículo 6Salmo 99:6

Moisés e Arão entre os seus sacerdotes, e Samuel entre os que invocavam o seu nome. Embora não ordenado ao sacerdócio típico, Moisés foi um verdadeiro sacerdote, assim como Melquisedeque o fora antes dele. Deus sempre teve um sacerdócio à parte e acima do da lei. Estes três homens santos aqui mencionados estiveram todos nos seus átrios, e viram a sua santidade, cada um à sua maneira. Moisés viu o Senhor em fogo flamejante, revelando cada lei perfeita; Arão observou muitas vezes o fogo sagrado devorar a oferta pelo pecado; e Samuel testemunhou o juízo do Senhor sobre a casa de Eli, por causa do erro do seu caminho.

Cada um deles se pôs na brecha quando a ira de Deus irrompia, porque a sua santidade fora insultada; e, atuando como intercessores, protegiam a nação daquele Deus grande e terrível, que de outro modo teria executado juízo em Jacó de maneira temível. Que estes homens, ou outros como eles, nos conduzam em nosso culto, e cheguemo-nos ao Senhor junto ao propiciatório como eles fizeram, pois ele nos é tão acessível quanto o foi a eles. Fizeram do invocá-lo em oração a obra da sua vida, e assim atraíram inúmeras bênçãos sobre si mesmos e sobre outros.

Não nos chama também o Senhor a subir ao monte com Moisés, e a entrar no lugar santíssimo com Arão? Não o ouvimos chamar-nos pelo nome, como chamou Samuel? E não respondemos: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve"?

Invocaram ao Senhor, e ele lhes respondeu. Não foram vãs as suas orações; sendo ele um Deus santo, foi fiel às suas promessas, e os atendeu do propiciatório. Eis motivo para louvor, pois as respostas às petições de alguns são prova da disposição de Deus para ouvir a outros. Estes três homens pediram grandes coisas; intercederam por uma nação inteira, detiveram grandes pragas e desviaram a ira ardente. Quem não se dedicaria a adorar um Deus tão grande e misericordioso? Se ele fosse ímpio, seria infiel à sua palavra e recusaria o clamor do seu povo; isto, pois, está registrado para nossa alegria e para a sua glória: que os homens santos de outrora não foram deixados a orar em vão.

Versículo 7Salmo 99:7

Ele lhes falava na coluna de nuvem. Já se mencionou a arca e a shekinah, e agora a coluna de fogo e de nuvem, outro sinal visível da presença de Deus no meio de Israel. Vieram respostas a Moisés e Arão daquela nuvem gloriosa que os cobria, e, ainda que Samuel não a tenha visto, a ele também chegou aquela voz mística que costumava trovejar daquele dossel divino. Homens conversaram com Deus; falem, pois, os homens de volta a Deus. Ele nos revelou coisas vindouras; confessemos nós, em resposta, os pecados já passados. Ele nos revelou o seu pensamento; derramemos, então, o nosso coração diante dele.

Guardaram os seus testemunhos. Quando outros se desviavam, eles permaneciam fiéis; guardavam a sua palavra no coração, e lhe obedeciam na vida. Quando ele lhes falava, eles observavam a sua vontade, e por isso, quando eles lhe falavam, ele atendia aos seus desejos. Esse guardar dos testemunhos divinos é uma virtude rara demais nos nossos dias; os homens correm atrás das suas próprias opiniões e pontos de vista, e tratam com leviandade a verdade de Deus; por isso falham na oração, e zombadores já ousaram dizer que a oração de nada vale. Que o bom Senhor traga de volta o seu povo à reverência pela sua palavra, e então ele também atenderá à voz do seu clamor.

E o estatuto que ele lhes deu. Observavam tanto o seu preceito prático quanto a sua instrução doutrinária. Os estatutos não devem ser tratados com desdém, ou os testemunhos também serão desprezados; e o inverso também é verdade: uma estima leviana pela doutrina inspirada acaba sempre em negligência das virtudes morais.

A Moisés, Arão e Samuel foram confiados encargos especiais e pessoais, e todos foram fiéis à sua incumbência, pois temiam ao Senhor, seu Deus, e o adoravam com toda a alma. Eram homens muito diferentes entre si, e cada um tinha uma obra própria a cumprir; mas, porque cada um era homem de oração, todos foram preservados na sua integridade, cumpriram o seu ofício e abençoaram a sua geração. Senhor, ensina-nos, como Moisés, a levantar as mãos em oração e vencer Amaleque; como Arão, a agitar o incensário entre os vivos e os mortos até que a praga cesse; e, como Samuel, a dizer a um povo culpado: "Longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós"; se nos fizeres poderosos contigo na oração, também seremos guardados fiéis diante de ti no serviço que nos confiaste.

Versículo 8Salmo 99:8

Tu lhes respondeste, ó Senhor nosso Deus. Um título doce e um fato animador. O nosso Deus da aliança, de maneira muito particular, ouviu os seus três servos quando intercederam pelo povo.

Tu foste, para eles, um Deus que perdoava, ainda que te vingasses das suas invenções. Ele perdoou os pecadores, mas destruiu os seus pecados. Alguns aplicam este versículo a Moisés, Arão e Samuel, e lembram que cada um deles caiu em falta e recebeu castigo. De Samuel afirmam que, por ter constituído os seus filhos como sucessores, foi obrigado a submeter-se à unção de Saul como rei, o que lhe causou grande pesar: isso nos parece uma afirmação bastante duvidosa, e nos leva a abandonar de vez essa interpretação.

Cremos que a passagem se refere à nação, que foi poupada pela intercessão desses três homens santos, mas ainda assim severamente castigada pelas suas transgressões. Em resposta ao clamor de Moisés, as tribos continuaram a existir, mas aquela geração não pôde entrar em Canaã; o bezerro de ouro de Arão foi despedaçado, ainda que o fogo do Senhor não tenha consumido o povo; e Israel sofreu sob o governo áspero de Saul, ainda que, a pedido de Samuel, os murmúrios contra o governo teocrático do Deus de seus pais não tenham sido punidos com peste ou fome.

Perdoar o pecado e, ao mesmo tempo, manifestar horror a ele — essa é a glória peculiar de Deus, vista melhor que em toda parte na expiação de nosso Senhor Jesus. Leitor, és crente? Então o teu pecado te é perdoado; mas, tão certo quanto és filho de Deus, a vara da disciplina paterna cairá sobre ti se o teu andar não for chegado a Deus. "Só a vós vos conheci, de todas as famílias da terra; por isso vos punirei por todas as vossas iniquidades."

Versículo 9Salmo 99:9

Exaltai ao Senhor nosso Deus. Pela segunda vez se usa o título encantador de Jeová, nosso Deus, e ele logo é seguido por um terceiro. O Salmo é trinitário em toda a sua estrutura. Em cada uma das suas pessoas sagradas, o Senhor é o Deus do seu povo; o Pai é nosso, o Filho é nosso, e o Espírito Santo é nosso: exaltemo-lo com todas as nossas faculdades redimidas.

E adorai no seu monte santo. Onde ele estabelece o seu templo, ali corramos. Nenhum pedaço de terra é hoje cercado como peculiarmente santo, ou tido como mais sagrado que outro; mas a sua igreja visível é o seu monte escolhido, e ali gostaríamos de ser encontrados, contados entre o seu povo, unidos a eles no culto.

Porque santo é o Senhor nosso Deus. Mais uma vez se repete esta devota descrição, feita clímax do cântico. Que os nossos corações se façam puros por dentro, para que possamos perceber corretamente e louvar dignamente a infinita perfeição do Senhor Triúno.

Obras sobre este salmo

Em The Golden Diary of Heart Converse with Jesus in the Book of Psalms. Pelo Rev. Dr. EDERSHEIM, Torquay. Organizado para todos os domingos do ano. Reedição. 1873. Há exposições dos Salmos 99, 101 e 102.

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