Salmo 121
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TÍTULO, ETC. Este salmo não traz outro título além de "Cântico de Romagem". Está vários degraus à frente do anterior, pois fala da paz da casa de Deus e do cuidado protetor do Senhor, enquanto o Salmo 120 lamenta a partida da paz da morada do homem bom e sua exposição aos ataques venenosos de línguas caluniadoras. No caso anterior, os olhos dele olhavam ao redor com angústia; aqui olham para cima com esperança. Pela recorrência constante da palavra guardar, somos levados a chamar este cântico de "um Salmo ao guardião de Israel". Se não estivesse colocado entre os Salmos dos Peregrinos, nós o consideraríamos um hino marcial, próprio para o cântico noturno de quem dormia no acampamento. É canção de soldado tanto quanto hino de viajante. Há no próprio salmo uma ascensão que sobe até a mais alta elevação de confiança repousante.
Exposição
Versículo 1Salmo 121:1
Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. É sábio buscar força no forte. Os que habitam nos vales estão sujeitos a muitas doenças, para as quais não há cura senão uma temporada nas terras altas, e é bom quando sacodem o próprio torpor e resolvem subir. Lá embaixo são presa de assaltantes, e para escapar deles o método mais seguro é fugir para as fortalezas dos montes. Muitas vezes, antes da subida real, o povo doente e saqueado olhava para os montes e ansiava por estar em seus cumes.
O santo homem que aqui canta este belo soneto desviou os olhos dos caluniadores que o atormentavam e os voltou para o Senhor, que via tudo desde as suas alturas e estava pronto a derramar socorro sobre seu servo ferido. O socorro só vem aos santos de cima; olhar para qualquer outro lugar é em vão: levantemos os nossos olhos com esperança, expectativa, desejo e confiança. Satanás procurará manter nossos olhos fixos em nossas tristezas, para que fiquemos inquietos e desanimados; seja nosso propósito firme olhar para fora e olhar para cima, pois há bom ânimo para os olhos, e os que erguem os olhos para os montes eternos logo terão também o coração erguido.
Os propósitos de Deus; os atributos divinos; as promessas imutáveis; a aliança, ordenada em todas as coisas e segura; a providência, a predestinação e a fidelidade comprovada do Senhor — estes são os montes para os quais devemos erguer os olhos, pois deles deve vir o nosso socorro. É nossa resolução não sermos vendados e cegados, mas erguer os nossos olhos.
Ou estará o texto na interrogativa? Pergunta ele: "Levantarei os meus olhos para os montes?" Sente que os lugares mais altos da terra não podem oferecer-lhe abrigo? Ou renuncia à ideia de que reforços viriam correndo ao seu estandarte, vindos dos robustos habitantes das montanhas? E por isso pergunta de novo: "De onde vem o meu socorro?" Se assim for, o versículo seguinte responde à pergunta e mostra de onde deve vir todo o socorro.
Versículo 2Salmo 121:2
O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra. O que precisamos é de socorro — socorro poderoso, eficaz, constante: precisamos de um pronto socorro na angústia. Que misericórdia termos isso em nosso Deus. Nossa esperança está em Jeová, pois dele vem o nosso socorro. O socorro está a caminho e não deixará de nos alcançar no tempo devido, pois aquele que o envia jamais chegou tarde demais. Jeová, que criou todas as coisas, está à altura de qualquer emergência; céu e terra estão à disposição daquele que os fez, portanto sejamos muito alegres em nosso infinito ajudador. Ele antes destruirá o céu e a terra que permitirá que o seu povo seja destruído, e os próprios montes eternos se curvarão antes que ele falhe, ele cujos caminhos são eternos. Somos obrigados a olhar além do céu e da terra para aquele que os fez ambos: é vão confiar nas criaturas; é sábio confiar no Criador.
Versículo 3Salmo 121:3
Ele não permitirá que o teu pé se mova. Ainda que os caminhos da vida sejam perigosos e difíceis, permaneceremos firmes, pois Jeová não permitirá que o nosso pé escorregue; e se ele não permitir, não sofreremos essa queda. Se assim for guardado o nosso pé, podemos ter certeza de que a nossa cabeça e o nosso coração também serão preservados.
No original, as palavras expressam um desejo ou oração: "Que ele não permita que o teu pé se mova." A preservação prometida deve ser motivo de oração constante; e podemos orar com fé, pois aqueles que têm Deus como guardião estarão a salvo de todos os perigos do caminho. Entre os montes e as ravinas da Palestina, guardar literalmente os pés já é grande misericórdia; mas nos caminhos escorregadios de uma vida provada e aflita, o dom desse amparo tem valor inestimável, pois um único passo em falso poderia causar-nos uma queda de terrível perigo. Manter-se firme e seguir o curso normal do caminho é uma bênção que só Deus pode dar, digna da mão divina e digna também de gratidão perpétua. Nossos pés avançarão em progresso, mas não serão movidos para a ruína.
"Aquele que te guarda não dormitará" — ou "o teu guardião não dormitará". Não ficaríamos de pé um só instante se o nosso guardião adormecesse; precisamos dele de dia e de noite; nem um único passo pode ser dado com segurança senão sob o seu olhar protetor. Esta é uma estrofe rara num cântico de peregrino. Deus é a escolta e a guarda pessoal dos seus santos. Quando os perigos estão despertos ao nosso redor, estamos seguros, pois o nosso Preservador também está desperto e não permitirá que sejamos surpreendidos. Nenhuma fadiga ou exaustão pode fazer nosso Deus dormir; os seus olhos vigilantes jamais se fecham.
Versículo 4Salmo 121:4
Eis que não dormita nem dorme o guardador de Israel. A verdade consoladora precisa ser repetida: é rica demais para ser dispensada numa única linha. Seria bom se sempre imitássemos o doce cantor e nos demorássemos um pouco numa doutrina escolhida, sugando dela o mel. Que título glorioso há no hebraico — "o guardador de Israel" — e como é agradável pensar que nenhuma forma de inconsciência jamais o toma, nem o sono profundo nem o sono leve.
Ele jamais permitirá que a casa seja arrombada pelo ladrão silencioso; está sempre de vigia e logo percebe qualquer intruso. Este é um tema de espanto, um assunto para consideração atenta; por isso a palavra "Eis" é colocada como marco no caminho. Israel adormeceu, mas o seu Deus estava desperto. Jacó não tinha muros, nem cortinas, nem guarda pessoal ao seu redor; mas o Senhor estava naquele lugar, ainda que Jacó não o soubesse, e por isso o homem indefeso estava seguro como numa fortaleza. Em dias posteriores, ele mencionou a Deus sob este nome encantador — "o Deus que me guiou por toda a minha vida"; talvez Davi aluda a essa passagem nesta expressão.
A palavra "guarda" também é rica de sentido: ele nos guarda como um homem rico guarda os seus tesouros, como um capitão guarda uma cidade com uma guarnição, como uma guarda real guarda a cabeça do seu monarca. Se o versículo anterior é, com rigor, uma oração, este é a resposta a ela; afirma o assunto assim: "Eis que não dormitará nem dormirá — o guardador de Israel". Vale notar também que, no versículo três, o Senhor é mencionado como guardador pessoal de um indivíduo, e aqui de todos os que pertencem à sua nação escolhida, descrita como Israel: a misericórdia para com um santo é a garantia de bênção para todos eles. Felizes os peregrinos para quem este salmo é um salvo-conduto; podem viajar todo o caminho até a cidade celestial sem temor.
Versículo 5Salmo 121:5
O SENHOR é o teu guardador. Aqui, aquele que preserva, mencionado por pronomes nos dois versículos anteriores, é nomeado com clareza — Jeová é o teu guardador. Que riqueza de sentido há aqui: a frase é uma massa de ouro em barra, e quando cunhada e selada com o nome do rei, ela cobrirá todas as nossas despesas entre o nosso berço na terra e o nosso descanso no céu. Aqui está uma pessoa gloriosa — Jeová, assumindo um ofício de graça e cumprindo-o em pessoa —, Jeová é o teu guardador, em favor de um indivíduo favorecido — "teu" —, e uma firme certeza de revelação de que é assim mesmo, neste exato momento — Jeová é o teu guardador. Podemos nós apropriar-nos dessa declaração divina? Se sim, podemos seguir viagem até Jerusalém sem conhecer temor; sim, podemos atravessar o vale da sombra da morte sem temer mal algum.
O SENHOR é a tua sombra à tua direita. Uma sombra protege do calor abrasador e da luz ofuscante. Não suportamos bênção demais; até a bondade divina, que é uma dádiva da mão direita, precisa ser atenuada e sombreada para se ajustar à nossa fraqueza, e isso o Senhor fará por nós. Ele porá um escudo diante de nós e guardará o braço direito com que combatemos o inimigo. O membro que mais trabalha é o que mais proteção receberá.
Quando um sol abrasador derrama seus raios ardentes sobre nossas cabeças, o próprio Senhor Jeová intervirá para nos dar sombra, e isso da maneira mais honrosa, agindo como nosso acompanhante à direita e colocando-nos em conforto e segurança. "O Senhor à tua direita ferirá reis." Como isso difere da sorte dos ímpios, que têm Satanás postado à sua direita, e daqueles de quem Moisés disse: "a sua defesa se apartou deles." Deus está tão perto de nós quanto a nossa sombra, e estamos tão seguros quanto os anjos.
Versículo 6Salmo 121:6
O sol não te fará mal de dia, nem a lua de noite. Ninguém, senão o Senhor, poderia abrigar-nos dessas forças tremendas. Estas duas grandes luzes governam o dia e a noite, e sob o domínio de ambas trabalharemos ou descansaremos em igual segurança. Sem dúvida há perigos da luz e da escuridão, mas em ambos e de ambos seremos preservados — literalmente, do calor excessivo e dos frios nocivos; misticamente, de qualquer efeito prejudicial que possa resultar de doutrina brilhante ou obscura; espiritualmente, dos males da prosperidade e da adversidade; eternamente, da tensão de uma glória avassaladora e da pressão de eventos terríveis, como o juízo e o incêndio do mundo.
O dia e a noite compõem todo o tempo: assim, a proteção sempre presente jamais cessa. Todo mal pode ser classificado como estando sob o sol ou sob a lua, e se nenhum dos dois pode ferir-nos, estamos de fato seguros. Deus não fez um sol novo nem uma lua nova para os seus escolhidos; eles existem sob as mesmas circunstâncias externas que os demais, mas o poder de ferir é, no caso deles, retirado dos agentes temporais; os santos são enriquecidos, e não prejudicados, pelos poderes que governam a condição da terra; a eles o Senhor deu "as coisas preciosas produzidas pelo sol, e as coisas preciosas geradas pela lua", enquanto ao mesmo tempo lhes removeu todo ofuscamento e maldição de calor ou umidade, de brilho ou frio.
Versículo 7Salmo 121:7
O SENHOR te guardará de todo mal, ou "te preservará de todo mal". É uma grande pena que a nossa admirável tradução não tenha mantido a palavra guardar ao longo de todo o salmo, pois no original é sempre a mesma. Deus não apenas guarda os seus em todos os tempos de mal, mas de todas as influências e operações do mal, sim, dos próprios males. Esta é uma palavra de proteção de amplo alcance: inclui tudo e não exclui nada; as asas de Jeová protegem amplamente os seus, dos males grandes e pequenos, temporários e eternos.
Há uma dupla personalidade belíssima neste versículo: Jeová guarda o crente, não por meio de agentes, mas por si mesmo; e a pessoa protegida é apontada com precisão pela palavra "te" — não é a nossa propriedade ou o nosso nome que é protegido, mas o próprio homem, em pessoa. Para tornar isso ainda mais intensamente real e pessoal, outra frase é acrescentada:
Ele guardará a tua alma — ou Jeová guardará a tua alma. Guardar a alma é a alma de todo guardar. Se a alma é guardada, tudo está guardado. A preservação do maior inclui a do menor, na medida em que isso é essencial ao propósito principal: o miolo será preservado e, para tanto, a casca também será preservada. Deus é o único guardião da alma. A nossa alma é guardada do domínio do pecado, do contágio do erro, do esmagamento do desânimo, da inflação do orgulho; guardada do mundo, da carne e do diabo; guardada para coisas mais santas e maiores; guardada no amor de Deus; guardada para o reino e a glória eternos. O que pode fazer mal a uma alma que é guardada pelo Senhor?
Versículo 8Salmo 121:8
O SENHOR guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre. Quando saímos pela manhã para o trabalho e voltamos ao entardecer para descansar, Jeová nos guardará. Quando saímos na juventude para começar a vida e entramos no fim para morrer, experimentaremos a mesma guarda. Nossas saídas e nossas entradas estão sob uma só proteção.
Três vezes temos a frase "Jeová guardará", como se a sagrada Trindade selasse assim a palavra para torná-la certa: não deveriam todos os nossos temores ser mortos por um tal tríplice voo de flechas? Que ansiedade pode sobreviver a esta tríplice promessa? Esta guarda é eterna; continua desde agora e para sempre. Toda a igreja está assim assegurada de segurança eterna: a perseverança final dos santos está assim garantida, e a glória imortal dos crentes está assegurada. Sob a proteção de tal promessa, podemos seguir em peregrinação sem tremer, e entrar em batalha sem temor. Ninguém está tão seguro quanto aqueles a quem Deus guarda; ninguém está em tanto perigo quanto os que confiam demais em si mesmos.
Às saídas e entradas pertencem perigos peculiares, pois cada mudança de posição expõe um novo flanco ao inimigo, e é para esses pontos fracos que se provê uma segurança especial: Jeová guardará a porta quando ela se abre e quando se fecha, e isso ele continuará fazendo com perseverança enquanto restar um único homem que nele confie, enquanto houver um perigo, e, de fato, enquanto durar o tempo. Glória seja dada ao Guardador de Israel, que nos é caro sob este título, pois nosso crescente senso de fraqueza nos faz sentir mais profundamente do que nunca a nossa necessidade de sermos guardados. Sobre o leitor lançaríamos uma bênção, nas palavras do verso de Keble.
Deus te guarde a salvo do mal e do pecado,
teu espírito guarde; o Senhor vele
sobre a tua saída, a tua entrada,
desde agora, para sempre.
Obras sobre este salmo
Em Letters on Spiritual Subjects, por SAMUEL EYLES PIERCE... Londres: 1862, Vol. I., pp. 359-370, há "Algumas Observações sobre o Salmo Cento e Vinte e Um".
Em Meditations on Twenty select Psalms, por Sir ANTHONY COPE, Camareiro da Rainha Catarina Parr. Reimpresso a partir da edição de 1547; ...Por WILLIAM H. COPE, M.A. 1848, há uma Meditação sobre este salmo.
Veja também a Lista de Obras sobre os Salmos Graduais, nas notas do Salmo 120.