Salmo 65
Leia o Salmo 65 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Este título é muito parecido com vários que já estudamos. Ao mestre de canto. Fica a cargo do supervisor habitual do canto. Quando um homem faz bem o seu trabalho, não há razão para chamar outros só pela novidade. Um salmo e cântico de Davi. O hebraico o chama de Shir e Mizmor, uma combinação de salmo e cântico, que talvez se descreva melhor pelo termo "Poema Lírico". Neste caso, o salmo tanto pode ser recitado quanto cantado, e servirá igualmente bem. Já tivemos dois salmos assim antes, os Salmos 30 e 48, e agora temos o primeiro de uma pequena série de quatro que se seguem. Era próprio que salmos de súplica e anseio fossem seguidos de hinos de louvor.
ASSUNTO E DIVISÃO. Davi canta a glória de Deus em sua igreja e nos campos da natureza: aqui está o cântico tanto da graça quanto da providência. Pode ser que ele tenha pretendido com isso comemorar uma colheita extraordinariamente abundante, ou compor um hino de colheita para todas as eras. Parece ter sido escrito depois que uma violenta rebelião havia sido sufocada, Salmo 65:7, e inimigos estrangeiros haviam sido subjugados por uma vitória decisiva, Salmo 65:8. É um dos hinos mais deliciosos em qualquer língua. Veremos em Salmo 65:1-4 o caminho de aproximação a Deus; depois, de Salmo 65:5-8, veremos o Senhor, em resposta à oração, realizando maravilhas pelas quais é louvado; e então, de Salmo 65:9-13, cantaremos o cântico especial da colheita.
Exposição
Versículo 1Salmo 65:1
Louvor te espera, ó Deus, em Sião. Ainda que Babilônia adore o Anticristo, Sião permanece fiel a seu Rei; só a ele, e a mais ninguém, ela traz sua oblação perpétua de adoração. Aqueles que viram em Sião o sangue da aspersão, e sabem que pertencem à igreja dos primogênitos, jamais conseguem pensar nela sem apresentar humilde louvor ao Deus de Sião; as misericórdias dele são numerosas e preciosas demais para serem esquecidas. Os louvores dos santos esperam um sinal do Senhor divino, e quando ele mostra o rosto, eles irrompem de uma vez.
Como uma companhia de músicos reunida para acolher e honrar um príncipe, que espera até que ele apareça, assim reservamos nossos melhores louvores até que o Senhor se revele na assembleia de seus santos; e, de fato, até que desça do céu no dia de sua manifestação. O louvor também espera como um servo ou cortesão nos salões reais — a gratidão é humilde e obediente. O louvor atende ao prazer do Senhor, e continua a bendizê-lo, mostre ele ou não sinais de favor presente; não se cansa depressa, mas durante toda a noite continua cantando, na esperança certa de que a manhã vem. Continuaremos esperando, afinando nossas harpas, em meio às lágrimas da terra; mas ó que harmonias serão aquelas que derramaremos quando vier a volta para casa, e o Rei aparecer em sua glória.
A passagem pode ser traduzida "o louvor é silêncio para ti"; é calmo, pacífico, e pronto para te adorar em quietude. Ou pode significar: nosso louvor não é senão silêncio comparado com o que mereces, ó Deus. Ou: em silêncio solene te adoramos, porque nosso louvor não pode ser proferido; aceita, pois, nosso silêncio como louvor. Ou ainda: estamos tão absortos em teu louvor que, para tudo o mais, ficamos mudos; não temos língua senão para ti. Talvez o poeta tenha expressado melhor que ninguém o pensamento do salmista quando disse:
"Uma reverência sagrada refreia nossos cantos,
E o louvor senta-se silencioso em nossas línguas."
Certamente, quando a alma está mais tomada de temor adorante, é quando ela menos se contenta com as próprias expressões, e sente mais profundamente quão inadequados são todos os cânticos mortais para proclamar a bondade divina. Uma igreja curvada em silenciosa adoração por um senso profundo da misericórdia divina certamente ofereceria mais louvor real do que as vozes mais doces auxiliadas por flautas e cordas; ainda assim, a música vocal não deve ser negligenciada, pois este hino sagrado foi feito para ser cantado. É bom, antes de cantar, colocar a alma em atitude de espera, e estar humildemente consciente de que nosso melhor louvor não é senão silêncio comparado à glória de Jeová.
E a ti se pagará o voto. Talvez um voto especial feito durante uma temporada de seca e perigo político. Nações e igrejas devem ser honestas e prontas em resgatar suas promessas ao Senhor, que não pode ser escarnecido impunemente. O mesmo vale para os indivíduos. Não devemos esquecer nossos votos, nem cumpri-los para sermos vistos pelos homens — só a Deus devem ser cumpridos, com o olhar fixo unicamente em sua aprovação. Os crentes estão todos sob aliança, que fizeram na conversão, e renovaram ao serem batizados, ao se unirem à igreja, e ao chegarem à mesa; e alguns deles estão sob compromissos especiais que assumiram em circunstâncias particulares; estes devem ser cumpridos com piedade e pontualidade.
Devemos ser muito ponderados ao prometer, e muito escrupulosos ao cumprir. Um voto não cumprido queimará a consciência como ferro em brasa. Votos de serviço, de doação, de louvor, ou o que quer que sejam, não são bagatelas; e no dia do louvor grato devem, sem falta, ser cumpridos até o limite de nossas forças.
Versículo 2Salmo 65:2
Ó tu que ouves a oração. Este é o teu nome, tua natureza, tua glória. Deus não apenas ouviu, mas está agora ouvindo a oração, e sempre há de ouvi-la, pois é um ser imutável e nunca muda em seus atributos. Que título tão delicioso para o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Toda oração justa e sincera é ouvida com a mesma certeza com que é oferecida. Aqui o salmista traz o pronome pessoal tu, e pedimos ao leitor que repare quantas vezes "tu", "te" e "teu" ocorrem neste hino; Davi evidentemente cria em um Deus pessoal, e não adorava uma mera ideia ou abstração.
A ti virá toda carne. Isso encorajará homens de todas as nações a se tornarem suplicantes do único e verdadeiro Deus, que prova sua Divindade respondendo aos que buscam sua face. Carne são eles, e por isso fracos; frágeis e pecadores, precisam orar; e tu és o Deus de que precisam, pois te comoves com compaixão e te dignas a ouvir os clamores da pobre carne e sangue. Muitos vêm a ti agora, em humilde fé, e são cheios de bem, mas mais serão atraídos a ti pela atração de teu amor, e por fim toda a terra se prostrará a teus pés.
Vir a Deus é a vida da verdadeira religião; vimos chorando na conversão, esperançosos na súplica, alegres no louvor, e deleitados no serviço. Os falsos deuses hão de, no tempo devido, perder seus devotos iludidos, pois o homem, quando esclarecido, não mais se deixará enganar; mas cada um que experimenta o verdadeiro Deus é encorajado, por seu próprio êxito, a persuadir outros também, e assim o reino de Deus vem aos homens, e os homens vêm a ele.
Versículo 3Salmo 65:3
As iniquidades prevalecem contra mim. Outros me acusam e caluniam, e, além dos meus próprios pecados, se levantam e procuram me cercar de confusão, não fosse a lembrança da expiação que cobre cada uma das minhas iniquidades. Nossos pecados prevaleceriam contra nós, não fosse a graça, no tribunal da justiça divina, no tribunal da consciência, e na batalha da vida. Infeliz é o homem que despreza esses inimigos, e pior ainda é aquele que os toma por amigos! O mais bem instruído é quem conhece o poder mortal deles, e foge para o refúgio daquele que perdoa a iniquidade.
Quanto às nossas transgressões, tu as purgarás. Tu as cobres todas, pois provestes uma propiciação encobridora, um propiciatório que cobre inteiramente tua lei. Note a palavra nossas: a fé do único penitente que fala por si mesmo na primeira frase aqui abraça todos os fiéis em Sião; e ele está tão persuadido da grandeza do amor perdoador que leva todos os santos a cantar essa bênção. Que consolo saber que as iniquidades que prevalecem contra nós não prevalecem contra Deus. Elas nos afastariam de Deus, mas ele as varre de diante de si e de nós; são fortes demais para nós, mas não para nosso Redentor, que é poderoso, sim, e todo-poderoso para salvar.
Vale notar que, assim como o sacerdote se lavava na bacia antes de sacrificar, também Davi nos leva a obter a purificação do pecado antes de entrarmos no serviço do canto. Quando tivermos lavado nossas vestes e as tivermos branqueado em seu sangue, então cantaremos aceitavelmente: "Digno é o Cordeiro que foi morto."
Versículo 4Salmo 65:4
Bem-aventurado o homem a quem tu escolhes e fazes chegar a ti. Depois da purificação vem a bênção, e esta é, na verdade, muito rica. Ela abrange eleição, chamado eficaz, acesso, aceitação e filiação. Primeiro, somos escolhidos por Deus, segundo o beneplácito de sua vontade, e isso só já é bem-aventurança. Depois, como não podemos nem queremos vir a Deus por nós mesmos, ele age graciosamente em nós, e nos atrai com poder; ele subjuga nossa relutância, e remove nossa incapacidade pela operação todo-poderosa de sua graça transformadora. Isso também não é pequena bem-aventurança.
Além disso, por seus atrativos divinos, somos aproximados pelo sangue de seu Filho, e trazidos para perto por seu Espírito, em íntima comunhão; de modo que temos acesso com ousadia, e já não somos como os que estão longe por más obras: aqui também há bem-aventurança sem rival. Para coroar tudo, não nos aproximamos sob risco de destruição terrível, como fizeram Nadabe e Abiú, mas nos aproximamos como escolhidos e aceitos, para nos tornarmos moradores da casa divina: isso é bem-aventurança acumulada, vasta além da concepção.
Mas, morando na casa, somos tratados como filhos, pois o servo não permanece na casa para sempre, mas o filho permanece sempre. Repare que espécie de amor e bem-aventurança o Pai nos concedeu, para que morássemos em sua casa, e dela não saíssemos mais nunca. Felizes os homens que moram em casa com Deus. Sejam tanto o autor quanto o leitor homens assim.
Para que ele more em teus átrios. A aceitação leva à permanência: Deus não faz uma escolha temporária, nem dá e depois tira; seus dons e seu chamado são irrevogáveis. Quem uma vez é admitido nos átrios de Deus há de habitá-los para sempre; ele não será mais
"estranho ou hóspede,
mas como um filho em casa."
A permanência dá preciosidade. Bênçãos que terminam são apenas meias bênçãos. Morar nos átrios do Grande Rei é ser enobrecido; morar ali para sempre é ser posto no paraíso: e essa é a porção de todo homem a quem Deus escolheu e fez chegar a si, ainda que outrora suas iniquidades prevalecessem contra ele.
Versículo 5Salmo 65:5
Com coisas terríveis em justiça nos responderás, ó Deus da nossa salvação. O memorial de Deus é que ele ouve a oração, e sua glória é que a responde de modo apto a inspirar temor no coração de seu povo. Os santos, no início do salmo, ofereceram louvor em silêncio reverente; e agora, no mesmo espírito de temor, recebem respostas às suas orações. A alusão direta aqui é, sem dúvida, à derrota que o Senhor impõe aos inimigos de seu povo, de formas capazes de infundir terror em todos os que a presenciam; seus juízos, em sua severa justiça, eram capazes de suscitar temor tanto entre amigos quanto entre inimigos.
Quem não temeria um Deus cujos golpes são tão esmagadores? Nem sempre sabemos o que pedimos quando oramos; quando vem a resposta, a resposta verdadeira, é possível que fiquemos apavorados com ela. Buscamos santificação, e a prova será a resposta: pedimos mais fé, e mais aflição é o resultado: oramos pela expansão do evangelho, e a perseguição nos dispersa. Ainda assim, é bom continuar a pedir, pois nada que o Senhor concede em seu amor pode nos fazer mal. As coisas terríveis acabarão por se revelar coisas abençoadas, quando vêm em resposta à oração. Veja neste versículo como justiça e salvação se unem, as coisas terríveis com as respostas graciosas. Onde, senão em Jesus, poderiam elas se combinar? O Deus que salva pode responder às nossas orações de um modo que agita a incredulidade; mas quando a fé avista o Salvador, ela se lembra de que "as coisas não são o que parecem", e recobra o ânimo. Aquele que é terrível é também nosso refúgio contra o terror, quando o vemos no Bem-Amado.
Tu és a confiança de todos os confins da terra. Os habitantes das ilhas mais distantes confiam em Deus; os mais remotos de Sião ainda assim confiam no Jeová sempre vivo. Até os que habitam em regiões geladas ou tórridas, onde a natureza reveste seus vários terrores, e os que veem temíveis maravilhas nas profundezas, ainda assim fogem dos terrores de Deus e depositam sua confiança no Deus dos terrores. O braço dele é forte para ferir, mas também forte para salvar.
E dos que estão longe, sobre o mar. Ambos os elementos têm sua eleita comunidade de crentes. Se a terra deu a Moisés os anciãos, o mar deu a Jesus os apóstolos. Noé, quando tudo era oceano, esteve tão tranquilo com Deus quanto Abraão em sua tenda. Todos os homens dependem igualmente de Deus: o homem do mar geralmente está mais consciente disso, mas na realidade não o é mais do que o lavrador, nem o lavrador mais do que qualquer outro. Não há lugar para autoconfiança em terra ou mar, pois Deus é a única confiança verdadeira dos homens na terra ou no oceano. A fé é uma planta de crescimento universal; é árvore da vida em terra firme e planta de renome no mar; e, bendito seja Deus, os que exercem fé nele em qualquer lugar hão de achar que ele é rápido e forte para responder às suas orações. Uma lembrança disso deve avivar nossa devoção quando nos aproximamos do Senhor nosso Deus.
Versículo 6Salmo 65:6
Tu que, com a tua força, firmas os montes. Ele, por assim dizer, os fixou em seus encaixes, e os preservou de cair por terremoto ou tempestade. Os mais firmes devem sua estabilidade a ele. Os filósofos da escola que esquece a Deus estão absortos demais em suas leis de soerguimento para pensar Naquele que os soergue. Suas teorias de ação vulcânica e ação glacial, e assim por diante, são frequentemente usadas como ferrolhos e trancas para excluir o Senhor de seu próprio mundo. Nosso poeta é de outra opinião, e vê a mão de Deus assentando os Alpes e os Andes sobre suas bases, e por isso canta seu louvor. Que eu seja para sempre um simplório tão pouco filosófico quanto Davi foi, pois ele era mais próximo de Salomão do que qualquer um dos nossos teóricos modernos.
Cingido de poder. O Senhor é assim em si mesmo, e por isso lança um cinturão de força ao redor dos montes, e ali eles permanecem, firmes, cingidos e fortificados por seu poder. A poesia é do tipo que naturalmente ocorreria a quem conhece bem a paisagem das montanhas; o poder está por toda parte ao seu redor, a sublimidade, a grandeza maciça e a força imensa cercam-no de todos os lados; e Deus está ali, autor e fonte de tudo. Aprendamos que nós, pobres e frágeis, se quisermos verdadeira firmeza, devemos ir ao Forte em busca de força. Sem ele, os montes eternos se desmoronariam; quanto mais desmoronariam todos os nossos planos, projetos e trabalhos. Repousa, ó crente, onde os montes encontram suas bases — a saber, no poder inesgotável do Senhor Deus.
Versículo 7Salmo 65:7
Tu que aplacas o bramido dos mares. Seu sopro suave alisa o mar como um espelho, e as ondas montanhosas em simples ondulações. Deus faz isso. As calmarias vêm do Deus da paz; não é preciso esperar um furacão quando se diz que ele vem. Ele andou outrora no jardim, à viração do dia; ele descansa até agora, pois seu grande sétimo dia ainda não terminou, e ele é sempre "o Senhor e doador da paz". Que os marinheiros glorifiquem o Deus que governa as ondas.
O bramido de suas ondas. Cada rugido isolado no meio do tumulto da tempestade é aquietado pela voz divina.
E o tumulto dos povos. As nações são tão difíceis de governar quanto o próprio mar; são igualmente instáveis, traiçoeiras, inquietas e furiosas; não suportam o freio nem se deixam conter por leis. Canuto não teve assento mais perigoso diante das ondas crescentes do que muitos reis e imperadores tiveram quando a multidão se voltou para a maldade, e se cansou de seus senhores. Só Deus é Rei das nações. O mar lhe obedece, e as nações, ainda mais tumultuosas, são contidas por ele. A sociedade humana deve sua preservação ao poder contínuo de Deus: as paixões más garantiriam sua dissolução instantânea; a inveja, a ambição e a crueldade criariam anarquia amanhã, se Deus não a impedisse; do que tivemos prova clara nas várias revoluções francesas. Glória seja a Deus, que sustenta a estrutura da ordem social e refreia os ímpios, que gostariam de derrubar todas as coisas. O filho de Deus, em tempos de tribulação, deve voar imediatamente para aquele que aquieta os mares: nada é difícil demais para ele.
Versículo 8Salmo 65:8
Os que habitam nos confins temem os teus sinais. Os sinais da presença de Deus não são poucos, nem se restringem a uma única região. Nova Zembla os vê tanto quanto Sião, e a Terra do Fogo tão certamente quanto a Terra Santa. Esses sinais às vezes são fenômenos terríveis na natureza — como terremotos, pestilência, tornado ou tempestade; e, ao vê-los, até os povos mais bárbaros tremem diante de Deus. Em outras ocasiões são obras temíveis da providência — como a destruição de Sodoma, e a ruína do Faraó. O rumor desses juízos viaja até os confins mais extremos da terra, e impressiona todos os povos com temor e tremor diante de um Deus tão justo e santo. Bendizemos a Deus porque não tememos, mas nos alegramos com os seus sinais; com temor solene, alegramo-nos ao contemplar seus atos poderosos. Tememos, mas não com temor servil.
Tu fazes exultar as saídas da manhã e da tarde. Oriente e ocidente são feitos felizes pelo favor de Deus para com os que ali habitam. Nossas horas de despertar são luminosas de esperança, e nossos momentos de fim de tarde amadurecem em ação de graças. Quer o sol saia, quer se recolha, bendizemos a Deus e nos alegramos nas portas do dia. Quando a bela manhã cora com a aurora rosada, nos alegramos; e quando a serena tarde sorri em repouso, ainda nos alegramos. Não cremos que o orvalho chore a morte do dia; vemos nele apenas joias que o dia que parte lega ao dia seguinte, para que este as recolha da terra. A fé, quando vê Deus, arremata o dia com alegria. Ela não pode jejuar, porque o esposo está com ela. A noite e o dia são iguais para ela, pois o mesmo Deus os fez e os abençoou. Ela não teria alegria nenhuma se Deus não a alegrasse; mas, bendito seja seu nome, ele nunca deixa de criar alegria para os que encontram nele a sua alegria.
Versículo 9Salmo 65:9
Tu visitas a terra, e a regas. As visitas de Deus deixam uma bênção atrás de si; isso é mais do que se pode dizer de qualquer outro visitante. Quando o Senhor sai em visitações de misericórdia, tem fartura de coisas necessárias para todas as suas criaturas carentes. Ele é aqui representado percorrendo a terra, como um jardineiro que examina seu jardim, dando água a cada planta que precisa, e não em pequenas quantidades, mas até que a terra fique encharcada e saturada de uma rica provisão de refrigério. Ó Senhor, visita assim a tua igreja, e minha pobre e ressecada piedade. Faze transbordar a tua graça sobre as minhas virtudes; rega-me, pois nenhuma planta do teu jardim precisa mais disso.
"Meu estoque jaz morto, e nenhum aumento
minha lavoura tosca consegue produzir;
ó, que as tuas graças, sem cessar,
desçam do alto."
Tu a enriqueces grandemente. Milhões em dinheiro não enriqueceriam tanto a humanidade quanto as chuvas o fazem. O solo é enriquecido pela chuva, e então rende suas riquezas ao homem; mas Deus é o primeiro doador de tudo. Quão verdadeiramente ricos são os que são enriquecidos pela graça; esta é grande riqueza.
Com o rio de Deus, cheio de água. Os riachos da terra logo secam, e todos os recursos humanos, sendo finitos, estão sujeitos a falhar; mas a provisão de Deus para o suprimento de chuva é inesgotável; não há fundo nem margem para o seu rio. O dilúvio derramado das nuvens de ontem pode ser sucedido por outro amanhã, e ainda assim as águas acima do firmamento não faltarão. Quão verdadeiro é isso no reino da graça; ali o rio de Deus está cheio de água, e "da sua plenitude todos nós recebemos, graça sobre graça." Os antigos, em suas fábulas, falavam do Pactolo, que corria sobre areias de ouro; mas este rio de Deus, que flui do alto e do qual desce a chuva, é muito mais enriquecedor; pois, afinal, a riqueza dos homens está principalmente na colheita de seus campos, sem a qual até o ouro não teria nenhum valor.
Tu lhes preparas o trigo. O trigo é especialmente reservado para ser o alimento do homem. Em suas várias espécies, é uma provisão divina para o sustento de nossa raça, e é verdadeiramente chamado o sustentáculo da vida. Ouvimos no comércio falar de "farinha de trigo preparada", mas Deus a preparou muito antes de o homem tocá-la. Tão certamente quanto o maná foi preparado por Deus para as tribos, tão certamente o trigo é feito e enviado por Deus para nosso uso diário. Que diferença faz se colhemos espigas de trigo ou maná, e que importa se o primeiro vem a nós de baixo para cima, e o segundo de cima para baixo? Deus está tão presente embaixo quanto em cima; é tão grande maravilha que o alimento surja do pó quanto que caia dos céus.
Quando assim a tens preparado. Quando tudo está pronto para produzir o trigo, o Senhor dá o toque final, e o grão aparece; nem mesmo, quando todo o material está preparado, o trigo se completará sem a operação contínua e aperfeiçoadora do Altíssimo. Bendito seja o Grande Senhor da Casa; ele não permite que a colheita falhe, ele supre os miríades fervilhantes da terra com pão suficiente ano após ano. É assim também que ele concede o alimento celestial a seus redimidos: "Ele deu alimento aos que o temem; ele se lembra sempre da sua aliança."
Versículo 10Salmo 65:10
Tu regas abundantemente os seus sulcos; tu aplainas os seus regos. Sulco e rego ficam encharcados. Os sulcos são batidos e aplainados, e os regos ficam como valas inundadas até a borda.
Tu a amoleces com chuvas. A seca tornava os torrões duros como ferro, mas as chuvas abundantes dissolvem e afrouxam o solo.
Tu abençoas o seu brotar. A vegetação, avivada pela umidade, salta em vigor, a semente germina e emite seu broto verde, e o aroma é como o de um campo que o Senhor abençoou. Tudo isso pode nos fornecer uma figura das operações do Espírito Santo, abatendo pensamentos altivos, enchendo nossos humildes desejos, amolecendo a alma, e fazendo crescer e espalhar-se cada coisa santa.
Versículo 11Salmo 65:11
Tu coroas o ano com a tua bondade. A colheita é a demonstração mais evidente da generosidade divina, e a coroa do ano. O próprio Senhor conduz a coroação, e põe a coroa de ouro sobre a fronte do ano. Ou podemos entender a expressão como significando que o amor de Deus circunda o ano como uma coroa; cada mês tem suas gemas, cada dia sua pérola. A bondade incessante cinge todo o tempo com um cinturão de amor. A providência de Deus, em suas visitações, completa um circuito pleno, e envolve o ano.
E as tuas veredas destilam gordura. As pegadas de Deus, quando ele visita a terra com chuva, criam fertilidade. Dizia-se das hordas tártaras que a relva não crescia mais onde os cascos de seus cavalos haviam pisado; assim, ao contrário, pode-se dizer que a marcha de Jeová, o Fertilizador, pode ser rastreada pela abundância que ele cria. Para as colheitas espirituais devemos olhar para ele, pois só ele pode dar "tempos de refrigério" e festas de Pentecostes.
Versículo 12Salmo 65:12
Destilam sobre os pastos do deserto. Não é só onde o homem se encontra que as chuvas descem, mas também nos lugares solitários, onde só os animais selvagens têm sua morada; ali o Senhor generoso faz cair a chuva refrescante. Dez mil oásis sorriem enquanto o Senhor da misericórdia passa. As aves do céu, as cabras selvagens e os velozes veados se alegram ao beber dos poços, recém-cheios do céu. As almas mais solitárias e isoladas, Deus há de visitar em amor.
E os pequenos montes se alegram por todo lado. Por toda parte as elevações se cingem de alegria. Logo definham sob os efeitos da seca, mas depois de uma temporada de chuva riem outra vez de verdor.
Versículo 13Salmo 65:13
Os pastos se vestem de rebanhos. A vestimenta do homem primeiro veste os campos. Os pastos parecem estar totalmente cobertos de numerosos rebanhos quando a erva é abundante.
E os vales também se cobrem de trigo. A terra arável, tanto quanto a de pasto, se faz frutífera. As nuvens de Deus, como corvos, nos trazem tanto pão quanto carne. Rebanhos pastando e searas ondulantes são igualmente dons do Preservador dos homens, e por ambos deve-se render louvor. Tosquia de ovelhas e colheita devem ambas ser santidade ao Senhor.
Elas exultam de alegria. A generosidade de Deus torna a terra vocal com seu louvor, e, em ouvidos abertos, ela ergue um grito jubiloso. O gado muge os louvores divinos, e as espigas farfalhantes do grão cantam uma melodia suave e doce ao Senhor.
"Curvai-vos, florestas; ondulai a ele, searas;
respirai vosso cântico silente no coração do ceifeiro,
quando ele volta para casa sob a lua alegre.
Balei de novo, colinas; vós, rochas musgosas,
retende o som; o mugido amplo e respondente
erguei, ó vales; pois o GRANDE PASTOR reina,
e seu reino sem sofrimento ainda há de vir."
Elas também cantam. A voz da natureza é articulada diante de Deus; não é apenas um grito, mas um cântico. Bem ordenados são os sons da criação animada, quando se combinam com o murmúrio igualmente afinado das águas, e os suspiros do vento. A natureza não tem dissonâncias. Seus ares são melodiosos, seu coro é pleno de harmonia. Tudo, tudo é para o Senhor; o mundo é um hino ao Eterno; bendito é quem, ao ouvi-lo, se junta a ele, e se torna mais uma voz no imenso coro.