Salmo 94
Leia o Salmo 94 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
ASSUNTO. O escritor vê malfeitores no poder, e sofre sob suas opressões. Seu senso da soberania divina, sobre a qual vinha cantando no salmo anterior, o leva a apelar a Deus como o grande Juiz da terra; e o faz com muita veemência e insistência, evidentemente ferido pelo açoite do opressor. Confiante na existência de Deus, e certo de que ele observa pessoalmente os atos dos homens, o salmista repreende seus adversários ateus, e proclama seu triunfo em seu Deus: ele também interpreta a dispensação severa da Providência como sendo, de fato, castigos muito instrutivos, e por isso considera felizes os que os suportam. O salmo é mais uma forma patética do velho enigma — "Por que prosperam os ímpios?" É mais um exemplo de um homem bom perplexo com a prosperidade dos ímpios, que anima o coração lembrando que existe, afinal, um Rei nos céus, por quem todas as coisas são governadas para o bem.
DIVISÃO. Em Salmos 94:1-7 o salmista profere sua queixa contra opressores ímpios. De Salmos 94:8-11 ele argumenta contra a noção cética deles de que Deus não notava as ações dos homens. Ele então mostra que o Senhor de fato abençoa seu povo e o livrará, ainda que por algum tempo sejam disciplinados, Salmos 94:12-15. Ele pede ajuda novamente em Salmos 94:16, e declara sua inteira dependência de Deus para sua preservação, Salmos 94:17-19; ainda uma terceira vez insiste em sua queixa, Salmos 94:20-21; e então conclui com a confiante certeza de que seus inimigos, e todos os demais ímpios, certamente colheriam a devida recompensa de suas obras — "sim, o Senhor nosso Deus os exterminará."
Exposição
Versículo 1Salmo 94:1
Ó SENHOR Deus, a quem pertence a vingança; ó Deus, a quem pertence a vingança, mostra-te. Ou: Deus da retribuição, Jeová, Deus da retribuição, resplandece! Uma oração muito natural quando a inocência é pisada, e a maldade exaltada. Se a execução da justiça é coisa reta — e quem pode negar o fato? —, então deve ser coisa muito própria desejá-la; não por vingança pessoal, caso em que um homem dificilmente ousaria apelar a Deus, mas por simpatia com o que é reto, e piedade para com os que são feitos sofrer injustamente.
Quem pode ver uma nação escravizada, ou mesmo um indivíduo pisoteado, sem clamar ao Senhor que se levante e defenda a causa dos justos? A tolerância da injustiça é aqui atribuída ao fato de o Senhor estar oculto, e fica implícito que a simples visão dele bastará para alarmar os tiranos e fazê-los cessar suas opressões. Basta que Deus se mostre, e a boa causa vence o dia. Ele vem, ele vê, ele vence! Verdadeiramente, nestes dias maus precisamos de uma manifesta demonstração de seu poder, pois os antigos inimigos de Deus e do homem lutam de novo pela supremacia, e se a alcançarem, ai dos santos de Deus.
Versículo 2Salmo 94:2
Levanta-te, ó juiz da terra. Assume teu trono de juízo e sê reconhecido como o soberano dos homens; e, além disso, ergue-te como fazem os que estão prestes a golpear com toda a força, pois o pecado abundante da humanidade requer um golpe pesado de tua mão. Dá o pago aos soberbos, retribui-lhes medida por medida, uma justa reciprocidade, golpe por golpe. Os soberbos olham de cima para os pobres tementes a Deus e os golpeiam de cima, como um gigante lançaria golpes sobre seu adversário; da mesma maneira, ó Senhor, levanta-te, e "retribui a recompensa aos soberbos", e faze-os saber que estás muito mais acima deles do que eles podem estar acima do mais humilde de seus semelhantes. O salmista assim invoca a retribuição da justiça em linguagem clara, e seu pedido é precisamente o que a inocência paciente apresenta em silêncio, quando seus olhares de angústia apelam ao céu.
Versículo 3Salmo 94:3
SENHOR, até quando os ímpios, até quando os ímpios triunfarão? Reinará o erro para sempre? Nunca cessarão a escravidão, o roubo, a tirania? Já que há certamente um Deus justo nos céus, armado de poder onipotente, há de haver, mais cedo ou mais tarde, um fim para o predomínio do mal; a inocência há de encontrar um dia o seu defensor. Este "até quando?" do texto é a queixa amarga de todos os justos em todas as épocas, e exprime o espanto causado por aquele grande enigma da providência: a existência e o predomínio do mal.
O som "até quando?" se aproxima muito de um lamento, como se fosse uma das mais tristes de todas as expressões com que a miséria se lastima. Muitas vezes já se ouviu essa amarga queixa nas masmorras da Inquisição, nos postes de açoite da escravidão, e nas prisões da opressão. No tempo devido Deus dará sua resposta, mas o fim completo ainda não chegou.
Versículo 4Salmo 94:4
Até quando falarão e proferirão coisas duras? Os ímpios não se contentam com atos de injustiça, mas acrescentam discursos duros, jactância, ameaças e insultos contra os santos. Suportará o Senhor isso para sempre? Deixará ele seus próprios filhos por mais tempo à mercê de seus inimigos? Não provocarão enfim os discursos insolentes de seus adversários a sua justiça a intervir?
As palavras muitas vezes ferem mais que espadas; são tão duras ao coração quanto pedras à carne; e estas são derramadas pelos ímpios com abundância, pois essa é a força da palavra traduzida por "proferir"; e eles as usam tão comumente que se tornam sua fala corrente (falam e proferem) — suportar-se-á isso sempre? E todos os que praticam a iniquidade se vangloriam? — eles chegam a falar sozinhos, consigo mesmos e de si mesmos, em arrogância de espírito, como se estivessem fazendo alguma boa obra quando esmagam o pobre e o necessitado, e cospem seu despeito sobre os homens piedosos.
É próprio da natureza dos que praticam a iniquidade vangloriar-se, assim como é característica dos homens bons serem humildes — serão suas jactâncias sempre suportadas pelo grande Juiz, cujo ouvido escuta tudo o que dizem? Há muito, muitíssimo tempo, ocupam sozinhos o palco, e altas, bem altas, têm sido suas blasfêmias contra Deus e suas injúrias contra seus santos — não virá logo o dia em que a herança prometida de vergonha e desprezo eterno lhes será dada por medida? Assim os oprimidos suplicam a seu Senhor, e não vingará Deus os seus próprios eleitos? Não falará ele desde os céus ao inimigo, dizendo: "Por que me persegues?"
Versículo 5Salmo 94:5
Esmagam o teu povo, ó SENHOR, moendo-os com opressão, esmagando-os com desprezo. Ora, os homens que esmagam são o próprio povo de Deus, e são perseguidos justamente por sê-lo; isto é um forte apelo à intervenção divina. E afligem a tua herança, causando-lhes triste humilhação e profunda depressão de coração.
O termo "tua herança" assinala a eleição dos santos, o interesse e o prazer peculiares de Deus neles, sua relação de aliança, de longa data, com eles e seus pais; isto também é um arsenal de argumentos junto ao seu Deus fiel. Não defenderá ele os seus? Perderá um homem sua herança, ou permitirá que seja desprezivelmente saqueada? Os que são moídos e pisoteados não são estranhos, mas os escolhidos e eleitos do Senhor; até quando os deixará ele ser presa de inimigos cruéis?
Versículo 6Salmo 94:6
Matam a viúva e o estrangeiro, e assassinam os órfãos. Tratam com a maior arrogância os que mais evidentemente merecem compaixão. A lei de Deus recomenda especialmente esses pobres à bondade dos homens de bem, e é maldade peculiar escolhê-los justamente para serem vítimas não só de fraude, mas de assassinato. Não há de tal conduta desumana provocar o Senhor? Serão as lágrimas das viúvas, os gemidos dos estrangeiros e o sangue dos órfãos derramados em vão? Tão certo quanto há um Deus nos céus, ele visitará os que cometem tais crimes; ainda que os suporte por muito tempo, há de tomar vingança, e isso em breve.
Versículo 7Salmo 94:7
Contudo dizem: o SENHOR não vê. Esta era a razão de sua arrogância, e o auge de sua maldade: eram cegamente ímpios porque sonhavam com um Deus cego. Quando os homens creem que os olhos de Deus são turvos, não há por que estranhar que deem plena licença às suas paixões brutais. As pessoas mencionadas acima não só nutriam uma incredulidade infiel, como ousavam professá-la, proferindo a monstruosa doutrina de que Deus está longe demais para notar as ações dos homens.
Nem o atende o Deus de Jacó. Blasfêmia abominável e falsidade transparente! Se Deus de fato se tornou o Deus de seu povo, e provou seu cuidado por eles com mil atos de graça, como ousam os ímpios afirmar que ele não notará os males que lhes são feitos? Não há limite para a profanidade do soberbo; a própria razão não consegue contê-lo; ele rompeu os limites do bom senso.
O Deus de Jacó o ouviu junto ao ribeiro de Jaboque; o Deus de Jacó o conduziu e o guardou por toda a sua vida, e disse a respeito dele e de sua família: "Não toqueis nos meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas"; e ainda assim esses homens brutos professam crer que ele não vê nem atenta para as injúrias feitas ao povo eleito! Certamente nesses incrédulos se cumpre o dito do sábio, de que aqueles a quem o Senhor pretende destruir, ele entrega à loucura de seus corações corrompidos.
Versículo 8Salmo 94:8
Entendei, ó néscios entre o povo. Diziam eles que Deus não notava, e agora, usando a mesma palavra no original, o salmista convoca os ímpios a notar, e a atentar para a verdade. Ele os chama de brutos, de homens porcinos, suínos, e bem merecido era o termo; e lhes ordena entender ou considerar, se conseguirem. Julgavam-se sábios, e de fato os únicos espíritos de engenho no mundo, mas ele os chama de "porcos entre o povo": os ímpios são tolos, e quanto mais sabem, mais tolos se tornam. "Não há tolo como o tolo instruído" é provérbio verdadeiro.
Quando um homem rompe com Deus, rompe com sua própria humanidade, e cai ao nível do boi e do jumento, sim, abaixo deles, pois "o boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono". Em vez de nos sentirmos humilhados diante dos incrédulos científicos, devíamos ter pena deles; eles fingem olhar-nos de cima, mas temos muito mais razão para olhá-los de cima para baixo.
E vós, insensatos, quando sereis sábios? Não será já mais que hora? Eles conhecem os caminhos da loucura — que proveito têm neles? Não lhes resta nenhum vestígio de razão, nenhum resquício de bom senso? Se ainda persiste em suas mentes um lampejo de inteligência, que escutem o argumento, e considerem as perguntas que agora lhes serão propostas.
Versículo 9Salmo 94:9
O que plantou o ouvido, não ouvirá? Ele forjou esse órgão maravilhoso, e o fixou no lugar mais conveniente, perto do cérebro — e será ele mesmo surdo? Será capaz de tal projeto e invenção, e ainda assim não conseguirá discernir o que se passa no mundo que ele fez? Ele te fez ouvir; não pode ele mesmo ouvir? Pergunta irrespondível! Ela esmaga o cético, e o cobre de confusão.
O que formou o olho, não verá? Ele nos dá a visão; é concebível que ele mesmo não enxergue? Com mão hábil ele forjou o nervo óptico, o globo ocular, e todo o seu mecanismo curioso, e ultrapassa toda concepção que ele mesmo seja incapaz de observar os atos de suas criaturas. Se há um Deus, ele há de ser um ser pessoal e inteligente, e nenhum limite pode ser posto ao seu conhecimento.
Versículo 10Salmo 94:10
O que castiga as nações, não corrigirá? Ele repreende nações inteiras — não poderá repreender indivíduos? Toda a história mostra que ele visita o pecado nacional com juízo nacional; e não poderá lidar com pessoas isoladas? A pergunta que se segue é igualmente cheia de força, e é feita com um grau de veemência que detém o próprio orador, e faz a interrogação ficar incompleta.
Ela começa, O que ensina ao homem o conhecimento, e então chega a uma pausa, que os tradutores completaram com as palavras "não o saberá ele?" — mas tais palavras não estão no original, onde a frase chega a um fim abrupto, como se a inferência fosse óbvia demais para precisar ser dita, e o escritor tivesse perdido a paciência com os homens brutos com quem argumentava. O crente sincero muitas vezes sente que poderia dizer: "Basta, não vale a pena discutir com vocês! Se fossem homens razoáveis, estas coisas seriam óbvias demais para precisarem ser ditas aos seus ouvidos. Eu me calo."
O conhecimento do homem vem de Deus. A ciência, em seus primeiros princípios, foi ensinada a nosso progenitor Adão, e todos os avanços posteriores se devem ao auxílio divino; não saberá ele mesmo, o autor e revelador de todo conhecimento?
Versículo 11Salmo 94:11
Quer os homens admitam quer neguem que Deus sabe, uma coisa aqui se declara, a saber: que o SENHOR conhece os pensamentos do homem, que são vaidade. Não só suas palavras são ouvidas, e suas obras vistas, mas ele lê os movimentos secretos de suas mentes, pois os próprios homens não lhe são difíceis de discernir; diante de seu olhar, eles mesmos não passam de vaidade. Não é para o Senhor grande coisa conhecer os pensamentos de criaturas tão transparentemente vãs quanto o é a humanidade; ele os resume num instante como pobres coisas vãs.
Este é o sentido do original, mas o que a versão autorizada dá também é verdadeiro — os pensamentos, a melhor parte, a porção mais espiritual da natureza do homem, até estes são a própria vaidade, e nada melhor. Pobre homem! E, no entanto, uma criatura assim se vangloria, faz-se de monarca, tiraniza seus companheiros vermes, e desafia o seu Deus! A loucura se mistura à vaidade humana, como a fumaça à neblina, para torná-la mais suja, mas não mais substancial do que seria sozinha. Quão tolos são os que pensam que Deus não conhece seus atos, quando a verdade é que seus pensamentos vãos são todos percebidos por ele! Quão absurdo é reduzir Deus a nada, quando de fato nós mesmos somos como nada diante dele.
Versículo 12Salmo 94:12
Bem-aventurado o homem a quem tu castigas, ó SENHOR. A mente do salmista vai se acalmando. Já não se queixa a Deus nem discute com os homens, mas afina sua harpa em melodias mais suaves, pois sua fé percebe que, com o crente mais aflito, tudo vai bem. Ainda que ele não se sinta bem-aventurado enquanto sofre sob a vara do castigo, bem-aventurado é; é precioso aos olhos de Deus, ou o Senhor não se daria ao trabalho de corrigi-lo, e muito felizes serão os resultados de sua correção. O salmista chama o castigado de "homem" no melhor sentido, usando a palavra hebraica que implica força. É homem, de fato, quem está sob o ensino e a formação do Senhor.
E o ensinas pela tua lei. O livro e a vara, a lei e o castigo, andam juntos, e se tornam duplamente úteis por serem encontrados em conjunto. A aflição sem a palavra é uma fornalha para o metal, mas sem o fundente que ajuda a purificação; a palavra de Deus supre essa necessidade, e torna a prova ardente eficaz.
Afinal, a bênção de Deus pertence muito mais aos que sofrem sob a mão divina do que aos que fazem outros sofrerem: é muito melhor deitar-se e clamar como "homem" sob a mão de nosso Pai celestial, do que rugir e delirar como um bruto, e atrair sobre si um golpe fatal do destruidor do mal. O crente aflito está sob instrução, em formação para algo mais alto e melhor, e tudo o que ele enfrenta trabalha para seu bem supremo; por isso é homem bem-aventurado, por mais que suas circunstâncias externas pareçam indicar o contrário.
Versículo 13Salmo 94:13
Para que lhe dês descanso dos dias da adversidade, até que se cave a cova para o ímpio. A mão que castiga e o livro que instrui são santificados para nós, de modo que aprendemos a descansar no Senhor. Vemos que o seu fim é nosso benefício eterno, e por isso permanecemos quietos sob todas as providências penosas e perseguições amargas, esperando o nosso tempo. O Poderoso Caçador está preparando a cova para os brutos; eles andam agora à espreita, dilacerando as ovelhas, mas em breve serão capturados e destruídos; por isso o povo do Senhor aprende a descansar nos dias de adversidade, e a aguardar o tempo de seu Deus. Os ímpios talvez ainda não estejam maduros para o castigo, nem o castigo pronto para eles: o inferno é um lugar preparado para um povo preparado; assim como os dias de graça amadurecem os santos para a glória, os dias de desregramento ajudam os pecadores a apodrecer na corrupção da destruição eterna.
Versículo 14Salmo 94:14
Porque o SENHOR não rejeitará o seu povo. Ele pode abatê-lo, mas nunca pode rejeitá-lo. Durante perseguições ferozes, os santos têm tendido a pensar que o Senhor abandonara suas próprias ovelhas, e as entregara ao lobo; mas nunca foi assim, nem jamais será, pois o Senhor não retirará o seu amor, nem abandonará a sua herança. Por um tempo ele pode deixar os seus, com o propósito de beneficiá-los com isso, mas nunca pode desertá-los por completo.
"Pode castigar e corrigir,
Mas nunca pode negligenciar;
Pode em fidelidade repreender,
Mas nunca pode deixar de amar."
Versículo 15Salmo 94:15
Mas o juízo voltará à justiça, virá o grande Juiz, o reinado da justiça começará, o curso dos acontecimentos ainda será desviado para o canal certo, e então todos os piedosos se regozijarão. O carro do que é reto será conduzido em triunfo por nossas ruas, e todos os retos de coração o seguirão, como em feliz procissão. Uma esperança deliciosa é aqui expressa em imagens poéticas de grande beleza. O governo do mundo esteve por algum tempo nas mãos dos que o usaram para os fins mais baixos e viciosos; mas o clamor da oração trará de volta a justiça ao trono, e então todo coração reto terá sua porção de alegria.
Versículo 16Salmo 94:16
Apesar da convicção do salmista de que tudo acabaria bem, ele não conseguia, naquele momento, enxergar ninguém que estivesse ao seu lado na oposição ao mal; não havia campeão da justiça à vista, os fiéis escasseavam entre os homens. Isto também é uma prova amarga, um mal penoso debaixo do sol; mas tem seu propósito, pois impele o coração ainda mais completamente ao Senhor, obrigando-o a descansar somente nele.
Se pudéssemos encontrar amigos em outro lugar, talvez nosso Deus não nos fosse tão caro; mas quando, depois de clamar ao céu e à terra por ajuda, não encontramos socorro senão o que vem do braço eterno, somos levados a valorizar o nosso Deus, e a descansar nele com confiança indivisa. Nunca a alma está mais segura ou mais em paz do que quando, faltando todos os outros ajudadores, ela se apoia somente no Senhor.
O versículo diante de nós é um clamor apropriado, agora que a igreja vê o erro invadindo-a por todos os lados, enquanto ministros fiéis são poucos, e ainda menos são os que têm coragem de "levantar-se" e desafiar os inimigos da verdade. Onde estão os nossos Luteros e os nossos Calvinos? Uma falsa caridade enfraqueceu a maioria dos homens valentes de Israel. Nosso John Knox valeria uma fortuna nesta hora, mas onde está ele? Nosso grande consolo é que o Deus de Knox e de Lutero ainda está conosco, e a seu tempo chamará seus campeões escolhidos.
Versículo 17Salmo 94:17
Se o SENHOR não tivesse sido a minha ajuda, minha alma quase teria habitado no silêncio. Sem a ajuda de Jeová, declara o salmista, ele teria morrido de vez, e ido para a terra do silêncio, onde não se pode mais dar testemunho do Deus vivo. Ou talvez queira dizer que não teria uma palavra a dizer contra seus inimigos, mas estaria envolto em vergonha muda.
Bendito seja Deus, ainda não fomos deixados nessa condição, pois o Senhor Todo-poderoso ainda é o ajudador de todos os que olham para ele. Nossa alma mais íntima se curva quando vemos as vitórias dos inimigos do Senhor — não podemos suportá-lo, cobrimos a boca de confusão; mas ele ainda há de se levantar e vingar a sua própria causa, por isso temos esperança.
Versículo 18Salmo 94:18
Quando eu disse: O meu pé resvala — resvala mesmo agora —, percebi meu perigo, e clamei em horror, e então, no exato momento de minha extremidade, veio o socorro necessário: a tua misericórdia, ó SENHOR, me susteve.
Muitas vezes é assim: sentimos nossa fraqueza, vemos nosso perigo, e em temor e tremor clamamos. Nessas horas nada pode nos ajudar senão a misericórdia; não podemos apelar a nenhum mérito imaginado, pois sentimos que é nosso pecado inato que faz nossos pés tão prontos a falhar; nossa alegria é que a misericórdia dura para sempre, e está sempre à mão para nos tirar do perigo e nos sustentar, quando de outro modo cairíamos em nossa destruição.
Dez mil vezes este versículo já se cumpriu para alguns de nós, e especialmente para o escritor deste comentário. O perigo era iminente, estava sobre nós, estávamos indo; o risco era evidente, nós o vimos, e ficamos horrorizados com a visão; nosso próprio coração desfalecia, e concluímos que tudo estava perdido para nós; mas então veio a intervenção onipotente: não caímos, fomos sustentados por uma mão invisível, os ardis do inimigo foram frustrados, e cantamos de alegria. Ó fiel Guardião de nossas almas, sê exaltado para todo o sempre. Bendiremos o SENHOR em todo tempo, o seu louvor estará continuamente em nossa boca.
Versículo 19Salmo 94:19
Na multidão dos meus pensamentos dentro de mim, quando sou lançado de um lado para outro por diversos raciocínios, distrações, dúvidas e pressentimentos, voarei para o meu verdadeiro descanso, pois as tuas consolações alegram a minha alma. De meus pensamentos pecaminosos, meus pensamentos vãos, meus pensamentos tristes, minhas mágoas, meus cuidados, meus conflitos, corro apressado ao Senhor; ele tem consolações divinas, e estas não apenas me consolarão, mas de fato me alegrarão.
Quão doces são as consolações do Espírito! Quem pode meditar sobre o amor eterno, os propósitos imutáveis, as promessas da aliança, a redenção consumada, o Salvador ressuscitado, sua união com o seu povo, a glória vindoura, e temas semelhantes, sem sentir o coração saltar de alegria? O pequeno mundo interior é, como o grande mundo exterior, cheio de confusão e conflito; mas quando Jesus entra nele, e sussurra "Paz seja convosco", há uma calma, sim, um êxtase de bem-aventurança.
Afastemo-nos da contemplação pesarosa da opressão do homem e do predomínio atual dos ímpios, para aquele santuário de descanso puro que se encontra no Deus de toda consolação. Boa vontade para conosco, e alguma evidência e certeza de seu amor e favor para conosco — estas são suas consolações.
"Alegram." Esta é uma expressão transcendente, à qual o Espírito Santo, pela pena do profeta Davi, se eleva. Teria sido grande coisa dizer que elas satisfazem minha alma, ou que me aquietam — nada além disso, que já seria o ponto mais alto que um espírito perplexo poderia desejar para si. Os que estão em grande dor ficariam felizes se ao menos tivessem alívio; não podem aspirar tão alto quanto ao prazer e ao deleite, isso é mais do que podem esperar; mas note-se aqui a notável eficácia destas consolações divinas: elas não apenas pacificam a mente, mas a alegram; não apenas a satisfazem, mas a arrebatam; não apenas a aquietam, mas a deleitam.
As tuas consolações alegram a minha alma. Isto é, não apenas tiram a mágoa presente, mas também põem em seu lugar o mais indizível conforto e consolação; assim como o sol não apenas dissipa a escuridão, mas também traz em seu lugar uma luz gloriosa.
Versículo 20Salmo 94:20
Terá comunhão contigo o trono da iniquidade, que forja opressão por lei? Tais tronos existem, e alegam direito divino, mas sua pretensão é infundada, uma fraude contra a humanidade e uma blasfêmia contra o céu. Deus não faz aliança alguma com a autoridade injusta, não dá sanção alguma à legislação injusta.
Que forja opressão por lei? Eles legalizam o roubo e a violência, e depois alegam que é a lei da terra; e de fato pode ser, mas nem por isso deixa de ser maldade. Com grande cuidado os homens preparam leis destinadas a sufocar todo protesto, de modo a tornar o erro uma instituição permanente, mas um elemento é necessário a todo verdadeiro conservadorismo, a saber, a justiça; e faltando ela, todos os arranjos dos detentores do poder chegarão ao fim, e todos os seus decretos, com o tempo, serão apagados dos livros de lei.
Nada pode durar para sempre senão o direito imparcial. Nenhuma injustiça pode ser permanente, pois Deus não porá nela o seu selo, nem terá comunhão alguma com ela; por isso ela há de cair, e feliz será o dia que a vir cair.
Versículo 21Salmo 94:21
Ajuntam-se contra a alma do justo, são tantos que apinham suas assembleias, e levam adiante suas medidas duras com entusiasmo; são o partido popular, e estão ansiosos por suprimir os santos. Em conselho e em ação são unânimes; sua única resolução é manter sua posição tirânica, e suprimir o partido piedoso.
E condenam o sangue inocente. São exímios em calúnia e falsa acusação, e não recuam sequer do assassinato; nenhum crime é grande demais para eles, contanto que possam pisotear os servos do Senhor. Esta descrição é historicamente verdadeira em relação a tempos de perseguição; cumpriu-se na Inglaterra, e pode cumprir-se de novo se o Papismo avançar no futuro no mesmo ritmo dos últimos anos.
A seita dominante tem a lei do seu lado, e proclama-se igreja nacional; mas a lei que estabelece e sustenta uma religião em detrimento de outra é, em sua raiz, uma injustiça. Deus não tem comunhão com ela, e por isso a sinagoga do Ritualismo ainda há de ser um mau cheiro nas narinas de todo homem sensato. Que tempos maus nos esperam, não nos cabe profetizar; cabe-nos deixar o assunto nas mãos daquele que não pode ter comunhão com um sistema opressor, e que não tolerará para sempre ser insultado em sua própria face pelos ídolos papistas e seus sacerdotes.
Versículo 22Salmo 94:22
Que os ímpios se ajuntem como quiserem, o salmista não teme, mas canta docemente: o SENHOR é a minha defesa, e o meu Deus é a rocha do meu refúgio. Firme como uma rocha é o amor de Jeová, e ali nos recolhemos em busca de abrigo. Nele, somente nele, encontramos segurança, por mais que o mundo se enfureça; não pedimos socorro ao homem, mas nos contentamos em fugir para o seio da onipotência.
Versículo 23Salmo 94:23
O resultado natural da opressão é a destruição do déspota; suas próprias iniquidades logo o esmagam. A Providência arranja retaliações tão notáveis quanto justas. Crimes graves acabam por trazer juízos pesados, que varrem os malfeitores da face da terra; sim, o próprio Deus intervém de modo especial, e interrompe a carreira dos tiranos bem no meio de seus crimes. Os ímpios são muitas vezes presos pelos agentes da justiça divina em flagrante, com as provas de sua culpa sobre si.
Ele fará cair sobre eles a sua própria iniquidade, e os exterminará na sua própria maldade. Enquanto o pão roubado ainda está em sua boca, a ira os mata; enquanto o lingote de ouro mal adquirido ainda está em sua tenda, o juízo os alcança. O próprio Deus os visita de modo conspícuo, e revela seu próprio poder em sua derrota; sim, o SENHOR nosso Deus os exterminará. Aqui, então, o assunto termina; a fé lê o presente à luz do futuro, e encerra seu cântico sem uma nota trêmula.
Obras sobre este salmo
Nas Obras do Cardeal Sadoleto (1477–1547), pp. 895–972, há uma Exposição deste Salmo, edição em 8 volumes, Anno Domini 1607.