Salmo 13
Leia o Salmo 13 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
OCASIÃO. Este Salmo não pode ser ligado a nenhum evento ou período específico da história de Davi. Toda tentativa de lhe achar um berço não passa de suposição. Sem dúvida, mais de uma vez foi essa a linguagem daquele homem de Deus tantas vezes provado, e pretende exprimir os sentimentos do povo de Deus nas provações que sempre voltam a cercá-lo. Se o leitor ainda não teve ocasião de usar a linguagem desta breve ode, há de tê-la em breve, se for homem segundo o coração do Senhor. Costumamos chamá-lo o "Salmo do Até Quando". Quase dissemos o Salmo do Lamento, pela repetição incessante do clamor "até quando?".
DIVISÃO. Este Salmo se divide com muita facilidade em três partes: a pergunta da ansiedade, versos 1 e 2; o clamor da oração, versos 3 e 4; o cântico da fé, versos 5 e 6.
Exposição
Versículo 1Salmo 13:1
Até quando? Esta pergunta se repete nada menos que quatro vezes. Ela denota um desejo intensíssimo de livramento, e grande angústia de coração. E que importa se há nisso alguma impaciência misturada — não é este o retrato mais fiel da nossa própria experiência? Não é fácil impedir que o desejo degenere em impaciência. Que a graça nos guarde para que, enquanto esperamos em Deus, não cedamos a um espírito murmurador! "Até quando?" Não se torna o clamor tantas vezes repetido um verdadeiro LAMENTO? E que importa se a dor não encontra outro meio de se exprimir? Ainda assim, Deus não está longe da voz do nosso gemido; pois ele não atenta para a música das nossas orações, mas para a obra do seu próprio Espírito nelas, ao despertar o desejo e inflamar os afetos.
Até quando? Ah! como parecem longos os nossos dias quando a alma se abate dentro de nós!
Quão lentos parecem deslizar os instantes
Sobre a tristeza! Como o tempo
Se compraz em demorar o seu voo!
O tempo voa com asas soltas nos nossos dias de verão, mas em nossos invernos ele mal consegue bater as asas. Uma semana entre as paredes da prisão é mais longa que um mês em liberdade. Uma dor prolongada parece indicar corrupção abundante; pois o ouro que fica muito tempo no fogo deve ter tido muita escória a consumir — daí a pergunta "até quando?" poder sugerir um exame profundo do coração.
Até quando te esquecerás de mim? Ah, Davi! como falas feito tolo! Pode Deus esquecer? Pode a Onisciência falhar na memória? Acima de tudo, pode o coração de Jeová esquecer o seu próprio filho amado? Ah, irmãos, afastemos esse pensamento, e ouçamos a voz do nosso Deus da aliança pela boca do profeta: "Mas Sião disse: o SENHOR me abandonou, e o meu Senhor se esqueceu de mim. Pode uma mulher esquecer-se do filho que cria, a ponto de não se compadecer do filho do seu ventre? Sim, estas poderão esquecer-se, mas eu não me esquecerei de ti. Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos; os teus muros estão continuamente diante de mim."
Para sempre? Oh, pensamento sombrio! Já era suficientemente ruim suspeitar de um esquecimento passageiro, mas ousaremos fazer a pergunta ímpia e imaginar que o Senhor lançará fora o seu povo para sempre? Não; a sua ira pode durar uma noite, mas o seu amor permanecerá eternamente.
Até quando esconderás de mim o teu rosto? Esta é uma pergunta bem mais racional, pois Deus pode esconder o rosto e, ainda assim, continuar se lembrando. Um rosto escondido não é sinal de um coração esquecido. É por amor que o seu rosto se desvia; contudo, para um verdadeiro filho de Deus, esse esconder do rosto do Pai é terrível, e ele jamais estará tranquilo até que, uma vez mais, tenha o sorriso do seu Pai.
Versículo 2Salmo 13:2
Até quando tomarei conselhos na minha alma, tendo tristeza no meu coração todo dia? Há no original a ideia de "acumular" conselhos no coração, como se seus recursos se tivessem tornado inumeráveis e, ao mesmo tempo, inúteis. Nisto muitas vezes fomos como Davi, pois consideramos e reconsideramos dia após dia, sem descobrir o feliz recurso pelo qual escapar da nossa aflição. Um tal acúmulo é uma triste chaga. Remoer a aflição é trabalho amargo. As crianças enchem a boca de amargura quando mastigam rebeldes a pílula que deveriam ter engolido de uma vez, obedientes.
Até quando se exaltará o meu inimigo sobre mim? Isto é como absinto misturado ao fel: ver o ímpio inimigo exultar enquanto a nossa alma se abate dentro de nós. O riso de um adversário rasga horrivelmente os ouvidos da dor. Que o diabo faça festa da nossa miséria é a gota final da nossa queixa, e quebra de vez a nossa paciência; façamos disso, pois, um dos principais argumentos da nossa súplica por misericórdia.
Assim o leitor atento notará que a pergunta "até quando?" aparece sob quatro formas. A tristeza do autor é vista como parece ser, como de fato é, como afeta a ele mesmo por dentro, e como afeta seus inimigos por fora. Todos nós tendemos a tocar mais na pior corda. Erguemos lápides sobre os túmulos das nossas alegrias, mas quem pensa em erguer monumentos de louvor pelas misericórdias recebidas? Escrevemos quatro livros de Lamentações e apenas um de Cânticos, e nos sentimos muito mais à vontade entoando um Miserere do que cantando um Te Deum.
Versículo 3Salmo 13:3
Mas agora a oração levanta a sua voz, como o vigia que proclama o alvorecer. Agora a maré vai virar, e quem chorava enxugará os olhos. O propiciatório é a vida da esperança e a morte do desespero. O pensamento sombrio de que Deus o abandonara ainda pesa sobre a alma do salmista, e por isso ele clama: Considera e ouve-me. Ele se lembra logo da raiz do seu sofrimento, e clama em voz alta para que ela seja removida. A ausência final de Deus é o fogo do Tofete, e a sua ausência passageira já leva o seu povo aos próprios arredores do inferno. Aqui se pede a Deus que veja e ouça, para que seja duplamente movido à compaixão. Que faríamos nós se não tivéssemos um Deus a quem recorrer na hora da desgraça?
Note o clamor da fé: Ó SENHOR, Deus MEU! Não é um fato gloriosíssimo que o nosso interesse em nosso Deus não se destrua com todas as nossas provações e tristezas? Podemos perder as nossas cabaceiras, mas não o nosso Deus. O título de propriedade do céu não está escrito na areia, mas em bronze eterno.
Alumia os meus olhos: isto é, que o olho da minha fé fique claro, para que eu veja o meu Deus na escuridão; que o olho da minha vigilância se mantenha bem aberto, para que eu não seja apanhado numa armadilha, e que o olho do meu entendimento se ilumine para ver o caminho certo. Talvez haja aqui também uma alusão àquele reanimar do espírito, tantas vezes chamado de "iluminação dos olhos", porque faz o rosto brilhar e os olhos cintilarem. Bem podemos usar a oração: "Alumia as nossas trevas, nós te suplicamos, ó Senhor!" pois em muitos sentidos precisamos dos raios iluminadores do Espírito Santo.
Para que eu não durma o sono da morte. A escuridão gera o sono, e o desânimo não demora a pesar sobre as pálpebras. Desse enfraquecimento e turvamento da visão, causado pelo desespero, há apenas um passo até o sono de ferro da morte. Davi temia que as suas provações lhe custassem a vida, e ele usa esse temor, com razão, como argumento diante de Deus na oração; pois a angústia profunda traz consigo uma espécie de apelo à compaixão — não um direito, mas uma súplica que tem poder junto à graça. Sob o peso da dor do coração, o salmista não olha para o sono da morte com esperança e alegria, como fazem os crentes seguros, mas recua diante dele com pavor — o que nos mostra que o cativeiro do medo da morte não é coisa nova.
Versículo 4Salmo 13:4
Outro argumento se apresenta no quarto verso, e é um que o crente provado pode manejar bem quando de joelhos. Usamos, por uma vez, o nosso arqui-inimigo, e o obrigamos, como a Sansão, a moer no nosso moinho, enquanto usamos a sua crueldade arrogante como argumento na oração. Não é vontade do Senhor que o grande inimigo das nossas almas vença os seus filhos. Isso desonraria a Deus, e faria o maligno se gabar. Bem nos convém que a nossa salvação e a honra de Deus estejam tão intimamente ligadas, que fiquem de pé ou caiam juntas.
O nosso Deus da aliança há de completar a confusão de todos os nossos inimigos, e, se por algum tempo formos motivo de zombaria e escárnio para eles, vem o dia em que a vergonha mudará de lado, e o desprezo será derramado sobre aqueles a quem ele de direito pertence.
Versículo 5Salmo 13:5
Que mudança é esta! Eis que a chuva passou e se foi, e chegou o tempo de cantarem as aves. O propiciatório reanimou tanto o pobre pranteador, que ele limpa a garganta para um cântico. Se choramos com ele, dancemos agora com ele. O coração de Davi ficava desafinado com mais frequência do que a sua harpa. Ele começa muitos dos seus salmos suspirando, e os termina cantando; e outros começa em alegria e termina em tristeza; "de modo que se pensaria," diz Peter Moulin, "que esses Salmos foram compostos por dois homens de temperamentos opostos." Vale notar que a alegria é tanto maior por causa da tristeza anterior, assim como a calmaria é ainda mais deliciosa quando lembramos a tempestade que a precedeu.
As tristezas lembradas adoçam a alegria presente.
Aqui está a sua declaração de confiança: Mas eu confiei na tua misericórdia. Por muitos anos foi seu costume fazer do Senhor o seu castelo e torre de defesa, e é atrás desse mesmo baluarte que ele ainda hoje sorri. Ele está seguro da sua fé, e a sua fé o deixa seguro; se tivesse duvidado da realidade da sua confiança em Deus, teria bloqueado uma das janelas por onde o sol do céu se compraz em brilhar. A fé agora está em exercício, e por isso é facilmente percebida; nunca há dúvida em nosso coração quanto à existência da fé enquanto ela está em ação: quando a lebre ou a perdiz estão quietas não as vemos, mas basta que se movam para logo percebê-las. Todo o poder dos seus inimigos não conseguiu tirar o salmista da sua fortaleza. Como o náufrago se agarra ao mastro, assim Davi se agarrava à sua fé; ele não podia, nem queria, abrir mão da sua confiança no Senhor seu Deus. Oxalá possamos aproveitar o seu exemplo e nos apegar à nossa fé como à própria vida!
Ouça agora a música que a fé faz na sua alma. Os sinos da mente todos repicam: O meu coração se regozijará na tua salvação. Há alegria e festa lá dentro, pois um convidado glorioso chegou, e o bezerro cevado foi morto. Doce é a música que soa das cordas do coração. Mas isso não é tudo; a voz se junta a essa obra abençoada, e a língua acompanha o compasso da alma, enquanto o autor declara: Cantarei ao Senhor.
Eu te louvarei todos os dias,
agora que a tua ira passou;
pensamentos consoladores se erguem
do sacrifício que sangrou.
Versículo 6Salmo 13:6
O Salmo se encerra com uma frase que refuta a acusação de esquecimento que Davi proferira no primeiro verso: Ele me tem tratado com bondade. Assim será também conosco, se esperarmos um pouco. A queixa que proferimos na nossa pressa será alegremente retirada, e testemunharemos que o Senhor nos tratou com bondade.