Salmo 22
Leia o Salmo 22 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. "Ao músico-chefe, sobre Aijeleth Shahar. Salmo de Davi." Este cântico de excelência singular foi confiado ao mais excelente dos cantores do templo; o principal entre dez mil merece ser exaltado pelo músico-chefe; nenhum cantor inferior deve encarregar-se de tal composição; devemos zelar para convocar nossas melhores capacidades quando Jesus é o tema do louvor.
As palavras Aijeleth Shahar são enigmáticas, e seu significado é incerto; alguns as relacionam a um instrumento musical usado em ocasiões fúnebres, mas a maioria adere à tradução de nossa margem, "acerca da corça da alva." Esta última interpretação é objeto de muita investigação e conjectura.
Calmet acreditava que o salmo foi endereçado ao mestre de música que presidia a banda chamada "Corça da Manhã", e Adam Clarke considera esta a mais provável de todas as interpretações conjecturais, embora ele mesmo se incline a crer que nenhuma interpretação deveria ser tentada, e julgue tratar-se de um título meramente arbitrário e sem sentido, como os orientais sempre tiveram o hábito de acrescentar a seus cânticos.
Nosso Senhor Jesus é tantas vezes comparado a uma corça, e suas cruéis perseguições são descritas de modo tão comovente neste salmo tão tocante, que não podemos deixar de crer que o título indica o Senhor Jesus sob uma metáfora poética bem conhecida; de qualquer modo, Jesus é a Corça da manhã acerca de quem Davi aqui canta.
ASSUNTO. Este é, acima de todos os outros, O SALMO DA CRUZ. É possível que tenha sido repetido, palavra por palavra, por nosso Senhor quando pendia no madeiro; seria demasiado ousado afirmar que foi assim, mas até um leitor casual pode perceber que poderia ter sido. Começa com: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" e termina, segundo alguns, no original, com "Está consumado." Quanto a expressões plangentes que brotam de profundezas indizíveis de aflição, podemos dizer deste salmo: "não há outro igual."
É o retrato das horas mais tristes de nosso Senhor, o registro de suas palavras derradeiras, o frasco de suas últimas lágrimas, o memorial de seus gozos que se extinguiam. Davi e suas aflições podem estar aqui presentes em sentido bem atenuado, mas, assim como a estrela se oculta à luz do sol, quem vê Jesus provavelmente nem verá nem se importará de ver Davi.
Temos diante de nós uma descrição tanto da escuridão quanto da glória da cruz, dos sofrimentos de Cristo e da glória que se seguirá. Ah, que tenhamos graça para nos aproximar e contemplar este grande espetáculo! Devemos ler com reverência, tirando as sandálias dos pés, como Moisés fez diante da sarça ardente, pois se há terreno santo em algum lugar da Escritura, é neste salmo.
DIVISÃO. Do início até o vigésimo primeiro versículo há um clamor por socorro extremamente pungente, e do versículo 21 ao 31 há um precioso antegozo da libertação. A primeira divisão pode subdividir-se no décimo versículo: do 1 ao 10, um apelo baseado na relação de aliança; e do 10 ao 21, uma súplica igualmente fervorosa, derivada da iminência de seu perigo.
Exposição
Versículo 1Salmo 22:1
Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Este foi o clamor estarrecedor do Gólgota: Eloí, Eloí, lamá sabactâni. Os judeus escarneceram, mas os anjos adoraram quando Jesus proferiu este clamor amaríssimo.
Pregado ao madeiro, contemplamos nosso grande Redentor em extremidade, e o que vemos? Quem tem ouvidos para ouvir, ouça, e quem tem olhos para ver, veja! Olhemos com santo assombro, e notemos os lampejos de luz em meio à terrível escuridão daquele meio-dia que era meia-noite.
Primeiro, brilha a fé de nosso Senhor, e merece nossa reverente imitação; ele se agarra a seu Deus com ambas as mãos e clama duas vezes: "Deus meu, Deus meu!" O espírito de adoção era forte no Filho do Homem sofredor, e ele não tinha dúvida alguma quanto ao seu direito sobre seu Deus. Ah, que pudéssemos imitar este apego a um Deus que aflige!
Tampouco o sofredor desconfia do poder de Deus para sustentá-lo, pois o título usado — "El" — significa força, e é o nome do Deus Poderoso. Ele sabe que o Senhor é o sustento e o socorro todo-suficiente de seu espírito, e por isso apela a ele na agonia da dor, mas não na miséria da dúvida. Ele bem gostaria de saber por que foi deixado, levanta essa pergunta e a repete, mas não desconfia nem do poder nem da fidelidade de Deus.
Que indagação é esta diante de nós! "Por que me desamparaste?" Devemos pôr ênfase em cada palavra desta, a mais triste de todas as expressões. "Por quê?" Qual é a grande causa de um fato tão estranho quanto Deus abandonar o próprio Filho em tal momento e em tal aflição? Não havia causa nele; por que então foi ele desamparado?
"Desamparaste:" está feito, e o Salvador sente seu terrível efeito ao fazer a pergunta; é certamente verdade, mas quão misterioso! Não foi mera ameaça de abandono que fez o grande Fiador clamar em voz alta; ele suportou aquele abandono de fato.
"Tu:" posso entender por que o traidor Judas e o tímido Pedro se foram, mas tu, meu Deus, meu amigo fiel, como podes deixar-me? Isto é o pior de tudo, sim, pior que tudo somado. O próprio inferno tem, por sua chama mais feroz, a separação da alma de Deus.
"Desamparado:" se me tivesses castigado, eu poderia suportar, pois teu rosto ainda brilharia; mas abandonar-me por completo, ah, por que isto? "Me:" a ti, teu Filho inocente, obediente e sofredor, por que me deixas perecer?
Um olhar sobre nós mesmos, visto pelo arrependimento, e sobre Jesus na cruz, visto pela fé, melhor explicará esta pergunta. Jesus foi desamparado porque nossos pecados haviam separado entre nós e nosso Deus.
Por que estás tão longe de ajudar-me, e das palavras do meu bramido? O Varão de Dores orara até que a fala lhe faltasse, e já não podia senão emitir gemidos e gritos, como fazem os homens em enfermidades graves, semelhantes aos bramidos de um animal ferido.
A que extremidade de angústia foi levado nosso Mestre? Que forte clamor e que lágrimas foram essas que o deixaram rouco demais para falar! Que deve ter sido sua angústia ao encontrar seu próprio Pai amado e confiável parado à distância, sem conceder ajuda nem, ao que parece, ouvir a oração!
Havia bom motivo para fazê-lo "bramir." Contudo, havia razão para tudo isto, e bem o sabem os que repousam em Jesus como seu Substituto.
Versículo 2Salmo 22:2
Ó meu Deus, eu clamo de dia, e tu não me ouves. Que nossas orações pareçam não ser ouvidas não é provação nova; Jesus sentiu isso antes de nós, e é notável que ele ainda mantivesse firme sua fé em Deus, e continuasse a clamar: "Deus meu." Por outro lado, sua fé não o tornou menos importuno, pois, em meio à pressa e ao horror daquele dia funesto, ele não cessou seu clamor, assim como no Getsêmani havia agonizado durante toda a noite sombria.
Nosso Senhor continuou a orar mesmo sem receber resposta confortadora, e nisso nos deu exemplo de obediência às suas próprias palavras: "os homens devem sempre orar, e nunca desanimar." Nenhuma luz do dia é forte demais, e nenhuma meia-noite é escura demais para se orar; e nenhuma demora ou aparente recusa, por mais penosa que seja, deve nos tentar a desistir da súplica importuna.
Versículo 3Salmo 22:3
Tu, porém, és santo, tu que habitas entre os louvores de Israel. Por pior que as coisas pareçam, não há mal algum em ti, ó Deus! Somos muito propensos a pensar e falar com dureza de Deus quando estamos sob sua mão aflitiva, mas não assim o Filho obediente. Ele conhece bem demais a bondade de seu Pai para deixar que as circunstâncias externas difamem seu caráter. Não há injustiça no Deus de Jacó; ele não merece censura; faça o que fizer, é digno de louvor, e de reinar entronizado em meio aos cânticos de seu povo escolhido.
Se a oração fica sem resposta, não é porque Deus seja infiel, mas por alguma outra razão boa e ponderosa. Se não conseguimos perceber motivo algum para a demora, devemos deixar o enigma sem solução, mas não devemos investir contra Deus só para inventar uma resposta. Embora a santidade de Deus seja reconhecida e adorada no mais alto grau, o aflito que fala neste versículo parece maravilhar-se de como o Deus santo poderia desampará-lo, e calar-se diante de seus clamores. O argumento é: tu és santo — ah, por que desprezas teu Santo na hora de sua angústia mais aguda? Não nos cabe questionar a santidade de Deus, mas podemos argumentar a partir dela, e usá-la como súplica em nossas petições.
Versículo 4Salmo 22:4
Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. Esta é a regra de vida de toda a família escolhida. Três vezes é isso mencionado: confiaram, e confiaram, e confiaram, e nunca deixaram de confiar, pois isso era sua própria vida; e prosperaram também, pois tu os livraste. De todas as suas angústias, dificuldades e misérias, a fé os tirou, invocando seu Deus em socorro; mas no caso de nosso Senhor parecia que a fé não traria auxílio algum do céu — ele, sozinho entre todos os que confiaram, haveria de permanecer sem livramento.
A experiência de outros santos pode ser grande consolo para nós em águas profundas, se a fé puder ter certeza de que o livramento deles também será nosso; mas, quando nos sentimos afundando, é fraco consolo saber que outros estão nadando. Nosso Senhor aqui apela ao proceder passado de Deus com seu povo como razão para não ser deixado sozinho; também aqui ele nos dá exemplo do uso hábil da arma que é toda oração. O uso do pronome plural "nossos" mostra como Jesus era um com seu povo, mesmo na cruz. Dizemos: "Pai nosso, que estás nos céus," e ele chama de "nossos pais" aqueles através de quem viemos ao mundo, ainda que ele mesmo não tivesse pai segundo a carne.
Versículo 5Salmo 22:5
A ti clamaram, e foram livres; em ti confiaram, e não foram confundidos. É como se dissesse: "Como é que agora fico sem socorro em minhas dores esmagadoras, enquanto todos os outros foram ajudados?" Podemos lembrar ao Senhor suas antigas bondades para com seu povo, e suplicar-lhe que continue o mesmo. Isto é verdadeira luta; aprendamos a arte.
Note que os santos antigos clamaram e confiaram, e que na aflição devemos fazer o mesmo; e o resultado invariável foi que não se envergonharam de sua esperança, pois o livramento veio a seu tempo; esta mesma porção feliz será nossa. A oração da fé pode realizar o que nada mais consegue. Maravilhemo-nos ao ver Jesus usando as mesmas súplicas que nós, e imerso em dores muito mais profundas que as nossas.
Versículo 6Salmo 22:6
Mas eu sou verme, e não homem. Este versículo é um milagre de linguagem. Como pôde o Senhor da glória ser levado a tal abatimento, a ponto de ficar não apenas abaixo dos anjos, mas até abaixo dos homens? Que contraste entre "EU SOU" e "eu sou verme"! Contudo, tal dupla natureza se encontrava na pessoa de nosso Senhor Jesus, quando sangrava sobre o madeiro.
Ele se sentiu comparável a um verme indefeso, impotente, pisoteado — passivo enquanto era esmagado, ignorado e desprezado por aqueles que o calcavam. Ele escolhe a mais fraca das criaturas, que é toda carne; e se torna, ao ser pisado, carne que se contorce e estremece, totalmente destituída de qualquer força, exceto a força para sofrer. Esta foi uma verdadeira imagem de si mesmo quando seu corpo e sua alma se haviam tornado uma massa de miséria — a própria essência da agonia — nas dores mortais da crucifixão.
O homem, por natureza, já é apenas um verme; mas nosso Senhor se põe ainda abaixo do homem, por causa do escárnio que sobre ele se acumulou e da fraqueza que sentia, e por isso acrescenta: "e não homem." Os privilégios e bênçãos que pertenciam aos pais ele não podia obter, desamparado por Deus, e nem os atos comuns de humanidade lhe eram permitidos, pois era rejeitado dos homens; foi banido da sociedade da terra, e excluído do sorriso do céu. Quão completamente o Salvador se esvaziou de toda glória, e se fez sem reputação por nossa causa!
"Opróbrio dos homens" — alvo comum de suas zombarias; provérbio e motejo entre eles: divertimento da populaça, e desprezo dos governantes. Ah, o poder corrosivo do opróbrio para os que o suportam com paciência, mas que ainda assim ardem sob ele dolorosamente! "E desprezado do povo." A vox populi estava contra ele. O mesmo povo que uma vez o teria coroado, agora o condenava, e os que se haviam beneficiado de suas curas escarneciam dele em suas dores. O pecado é digno de todo opróbrio e desprezo, e por essa razão Jesus, o Portador do pecado, foi entregue para ser assim indigna e vergonhosamente tratado.
Versículo 7Salmo 22:7
Todos os que me veem zombam de mim. Leia o relato evangélico do escárnio suportado pelo Crucificado, e considere então, à luz desta expressão, quanto isso o afligiu. O ferro penetrou-lhe na alma. O escárnio tem por descrição própria "zombarias cruéis"; as que nosso Senhor suportou foram da espécie mais cruel.
O escárnio zombador contra nosso Senhor foi universal; toda sorte de homens foi unânime no riso de deboche, e competiam entre si para insultá-lo. Sacerdotes e povo, judeus e gentios, soldados e civis, todos se uniram no escárnio geral, e isso justamente quando ele jazia prostrado em fraqueza e prestes a morrer. Do que devemos nos maravilhar mais: da crueldade do homem, ou do amor do Salvador sangrando? Como podemos, depois disto, ainda nos queixar de escárnio?
Arreganham os lábios, meneiam a cabeça. Eram estes gestos de desprezo. Beiços torcidos, caretas, meneios de cabeça, línguas de fora, e outros modos de zombaria foram suportados por nosso paciente Senhor; fizeram caretas diante daquele perante quem os anjos velam o rosto e adoram.
Os sinais mais vis de vergonha que o desdém pôde inventar foram maliciosamente lançados sobre ele. Fizeram trocadilhos com suas orações, tornaram motivo de riso seus sofrimentos, e o reduziram a nada. Herbert canta de nosso Senhor como dizendo, —
A vergonha dilacera minha alma, meu corpo, muitas feridas;
Pregos agudos trespassam este corpo, mas mais agudo é o que confunde aquela;
Impropérios que são livres, enquanto eu estou preso.
Houve jamais dor igual à minha?
Versículo 8Salmo 22:8
Dizendo: Confiou no Senhor, que o livre; livre-o, pois nele se compraz. Aqui a zombaria é cruelmente dirigida contra a fé do sofredor em Deus, que é o ponto mais sensível na alma de um homem bom, a própria menina de seus olhos. Devem ter aprendido essa arte diabólica do próprio Satanás, pois nela alcançaram rara proficiência.
Segundo Mateus 27:39-44, houve cinco formas de zombaria lançadas contra o Senhor Jesus; esta peça particular de escárnio é provavelmente mencionada neste salmo por ser a mais amarga de todas; contém uma ironia mordaz e sarcástica que lhe confere veneno peculiar; deve ter ferido o Varão de Dores até o âmago.
Quando somos atormentados da mesma maneira, lembremo-nos daquele que suportou tal contradição de pecadores contra si mesmo, e seremos consolados. Ao ler estes versículos, alguém, como Trapp, é levado a perguntar: é isto profecia ou história? — de tão exata a descrição.
Não devemos perder de vista a verdade que os zombadores judeus, sem o saber, proferiram. Eles mesmos são testemunhas de que Jesus de Nazaré confiava em Deus: por que então lhe foi permitido perecer? Jeová, em outros tempos, livrara os que lançavam sobre ele seus fardos: por que este homem foi desamparado? Ah, quem dera tivessem entendido a resposta!
Note ainda que sua zombaria irônica — "pois nele se compraz" — era verdadeira. O Senhor de fato se comprazia em seu Filho amado, e quando este foi achado na forma de homem, e se fez obediente até a morte, ainda assim ele se agradava dele. Estranha mistura! Jeová se compraz nele, e contudo o esmaga; agrada-se dele, e contudo o mata.
Versículo 9Salmo 22:9
Mas tu és o que me tiraste do ventre. A benigna providência acompanha, com a cirurgia da ternura, todo nascimento humano; mas o Filho do Homem, maravilhosamente gerado pelo Espírito Santo, foi vigiado de modo especial pelo Senhor quando trazido ao mundo por Maria. O estado de desamparo de José e Maria, longe de amigos e do lar, levou-os a ver a mão carinhosa de Deus no parto seguro da mãe, e no feliz nascimento da criança; essa Criança, agora travando a grande batalha de sua vida, usa a misericórdia de seu nascimento como argumento diante de Deus. A fé encontra armas em toda parte. A quem quer crer jamais lhe faltarão razões para crer.
Tu me fizeste esperar, quando estava aos peitos de minha mãe. Foi nosso Senhor crente já tão cedo? Foi ele um daqueles meninos e crianças de peito, de cuja boca se ordena força? Assim parece; e, se assim é, que súplica para o socorro! A piedade precoce dá conforto peculiar em nossas provações posteriores, pois quem nos amou quando éramos crianças é fiel demais para nos rejeitar em nossos anos maduros. Alguns dão ao texto o sentido de "me deste motivo para confiar, guardando-me com segurança," e certamente houve uma providência especial que preservou os dias de infância de nosso Senhor da fúria de Herodes, dos perigos da viagem, e dos males da pobreza.
Versículo 10Salmo 22:10
Fui lançado sobre ti desde o ventre. Nos braços do Todo-Poderoso foi ele primeiro recebido, como nos de um pai amoroso. Este é um pensamento doce. Deus começa seu cuidado sobre nós desde a primeira hora. Somos embalados no colo da misericórdia, e acalentados no regaço da bondade; nosso berço é abrigado pelo dossel do amor divino, e nossos primeiros passos vacilantes são guiados por seu cuidado.
Tu és meu Deus desde o ventre de minha mãe. O salmo começa com "Deus meu, Deus meu," e aqui não só se repete a reivindicação, como se insiste em sua data antiga. Ó nobre perseverança da fé, a continuar suplicando com santa engenhosidade de argumento! Nosso nascimento foi o período mais fraco e mais perigoso de nossa existência; se então fomos protegidos pela ternura onipotente, certamente não temos motivo para suspeitar que a bondade divina venha a nos faltar agora. Aquele que foi nosso Deus quando deixamos nossa mãe estará conosco até que voltemos à terra que é mãe, e nos guardará de perecer no ventre do inferno.
Versículos 11–21Salmo 22:11-21
O Filho de Davi crucificado continua a derramar sua queixa e sua oração. Precisamos de muita graça para que, ao lermos, tenhamos comunhão com seus sofrimentos. Que o bendito Espírito nos conduza a uma visão bem clara e comovente das dores de nosso Redentor.
Versículo 11Salmo 22:11
Não te alongues de mim. Esta é a petição para a qual ele tem empregado súplicas tão variadas e poderosas. Sua grande dor era que Deus o houvesse desamparado; sua grande oração é que ele se fizesse próximo. Um vivo senso da presença divina é poderoso amparo ao coração em tempos de angústia.
Porque a angústia está perto; porque não há quem ajude. Há dois "porques," como se a fé desse dupla pancada à porta da misericórdia; poderosa é a oração cheia de razões santas e de argumentos ponderados. A proximidade da angústia é motivo de peso para o socorro divino; isso comove o coração de nosso Pai celestial, e faz descer sua mão que socorre. É sua glória ser nosso pronto auxílio na angústia.
Nosso Substituto tinha angústia no mais íntimo do coração, pois disse: "as águas entraram até a minha alma"; bem podia clamar: "não te alongues de mim." A ausência de todo outro socorredor é outra súplica eloquente. No caso de nosso Senhor, ninguém podia nem queria ajudá-lo; era necessário que pisasse sozinho o lagar. No entanto, foi grave agravo descobrir que todos os seus discípulos o haviam abandonado, e que amigo e companheiro se puseram longe dele. Há algo de terrível na absoluta ausência de amigos, que esmaga a mente humana, pois o homem não foi feito para estar só, e é como um membro decepado quando precisa suportar a solidão do coração.
Versículo 12Salmo 22:12
Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Os poderosos da multidão são aqui assinalados pelo olhar lacrimoso de sua vítima. Sacerdotes, anciãos, escribas, fariseus, chefes e capitães bramiam em torno da cruz como gado bravio, engordado nos pastos ricos e solitários de Basã, cheios de força e fúria; pisoteavam e espumavam ao redor do Inocente, e ansiavam trespassá-lo até a morte com suas crueldades.
Imagine o Senhor Jesus como um homem indefeso, desarmado, nu, lançado no meio de uma manada de touros bravios enfurecidos. Eram brutais como touros, muitos, e fortes, e o Rejeitado estava completamente só, preso nu ao madeiro. Sua posição dá enorme força à súplica fervorosa: "não te alongues de mim."
Versículo 13Salmo 22:13
Abriram contra mim a boca, como leão que despedaça e ruge. Como canibais famintos, abriram suas bocas blasfemas, como se estivessem prestes a devorar o homem que aborreciam. Não conseguiam vomitar sua ira depressa o bastante pela abertura ordinária de sua boca, e por isso escancaravam os lábios como os que boquejam. Como leões que rugem, uivavam sua fúria, e ansiavam despedaçar o Salvador, como feras vorazes sobre sua presa.
A fé de nosso Senhor deve ter passado por conflito severíssimo ao encontrar-se abandonado às ternas misericórdias dos ímpios, mas ele saiu vencedor pela oração; os próprios perigos a que estava exposto foram usados para dar mais força às suas súplicas.
Versículo 14Salmo 22:14
Voltando-se de seus inimigos, nosso Senhor descreve sua própria condição pessoal em linguagem que deveria trazer lágrimas a todo olhar amoroso. Sou derramado como água. Estava totalmente esgotado, como água derramada sobre a terra; seu coração desfalecia, e não tinha mais firmeza que a água corrente, e todo o seu ser se fez sacrifício, como libação derramada diante do Senhor. Já havia sido, por muito tempo, fonte de lágrimas; no Getsêmani seu coração transbordou em suor, e na cruz jorrou em sangue; derramou sua força e seu espírito, até ficar reduzido ao estado mais fraco e exausto.
Todos os meus ossos se desconjuntaram, como se estendido num torniquete. Não é bem provável que os pregos nas mãos e nos pés, e o solavanco causado ao fixarem a cruz na terra, tenham deslocado os ossos do Crucificado? Se não é isto o pretendido, devemos referir a expressão àquela fraqueza extrema que causaria relaxamento dos músculos e uma sensação geral de desagregação por todo o corpo.
Meu coração é como cera; derrete-se no meio das minhas entranhas. Debilidade excessiva e dor intensa fizeram sua vida mais íntima sentir-se como cera derretida ao calor. A liturgia grega usa a expressão "teus sofrimentos desconhecidos," e com razão. O fogo da ira Todo-poderosa teria consumido nossas almas para sempre no inferno; não foi tarefa leve suportar, como substituto, o calor de uma ira tão justamente terrível. O Dr. Gill sabiamente observa: "se o coração de Cristo, o Leão da tribo de Judá, se derreteu diante disso, que coração pode suportar, ou que mãos podem ser fortes, quando Deus trata com elas em sua ira?"
Versículo 15Salmo 22:15
Minha força se secou como um caco. Aqui se retrata a mais completa debilidade; Jesus se compara a um pedaço quebrado de louça, ou a um vaso de barro, cozido no fogo até que a última partícula de umidade fosse expulsa da argila. Sem dúvida um alto grau de ardor febril afligiu o corpo de nosso Senhor. Toda a sua força se secou nas chamas tremendas da justiça vingadora, assim como o cordeiro pascal era assado no fogo.
Minha língua se apega às minhas mandíbulas; a sede e a febre prenderam sua língua às mandíbulas. Secura e uma horrível aspereza atormentavam sua boca, de modo que mal podia falar. Me puseste no pó da morte; tão atormentado em cada parte, a ponto de sentir-se dissolvido em átomos separados, e cada átomo cheio de miséria; o preço integral de nossa redenção foi pago, e nenhuma parte do corpo ou da alma do Fiador escapou de sua porção de agonia. As palavras podem apresentar Jesus como tendo lutado com a Morte até rolar no pó com seu antagonista. Contemplai a humilhação do Filho de Deus! O Senhor da Glória se abaixa ao pó da morte. Entre as relíquias mofadas da mortalidade, Jesus se digna a habitar!
A versão do Bispo Mant para os dois versículos precedentes é vigorosa e exata: —
Como água derramado está meu corpo;
Meus ossos se desconjuntam;
Como cera que sente a chama penetrante,
Dentro de mim se derrete o coração.
Meus tendões ressecados se encolhem, distendidos,
Como caco seco e morto:
À minha mandíbula se apega minha língua ardente,
O pó da morte é meu leito.
Versículo 16Salmo 22:16
Devemos entender cada item desta triste descrição como sendo urgido pelo Senhor Jesus como súplica por socorro divino; e isso nos dará elevada ideia de sua perseverança na oração. Pois cães me cercaram. Aqui ele assinala a turba mais ignóbil, que, embora menos forte que seus líderes brutais, não era menos feroz, pois ali estavam uivando e latindo como cães imundos e famintos. Os caçadores frequentemente cercam sua caça em círculo, e gradualmente a encerram num anel cada vez mais estreito de cães e homens. Tal quadro está diante de nós. No centro se ergue, não um cervo ofegante, mas um homem sangrando, desfalecido, e ao redor dele estão os desgraçados enfurecidos e sem piedade que o acossaram até sua sentença.
Eis aqui a "corça da manhã" de quem o salmo canta tão plangentemente, caçada por sabujos, todos sedentos por devorá-la. A assembleia dos malignos me cercou: assim o povo judeu foi desigrejado, e aquilo que se autodenominava assembleia dos justos é, com justiça, marcado na testa, por seus pecados, como assembleia dos malignos. Esta não é a única ocasião em que igrejas que se professam de Deus se tornaram sinagogas de Satanás, e perseguiram o Santo e o Justo.
Traspassaram minhas mãos e meus pés. Isto não pode, de modo algum, referir-se a Davi, nem a ninguém além de Jesus de Nazaré, o outrora crucificado mas agora exaltado Filho de Deus. Pare, caro leitor, e contemple as chagas de teu Redentor.
Versículo 17Salmo 22:17
Tão emaciado estava Jesus por seus jejuns e sofrimentos que diz: Poderia contar todos os meus ossos. Podia contá-los e recontá-los. A postura do corpo na cruz, pensa o Bispo Horne, distenderia de tal modo a carne e a pele que os ossos ficariam visíveis, a ponto de poderem ser contados. O zelo da casa de seu Pai o havia consumido; como bom soldado, ele suportara as durezas. Ah, se nos importássemos menos com o prazer e o conforto do corpo, e mais com o negócio de nosso Pai! Melhor seria contar os ossos de um corpo emaciado do que trazer magreza às nossas almas.
Eles me olham, me contemplam. Olhos ímpios fitavam com insulto a nudez do Salvador, e escandalizavam a sagrada delicadeza de sua alma santa. A visão do corpo agonizante deveria ter garantido simpatia da multidão, mas apenas aumentou sua alegria selvagem, enquanto deleitavam seus olhos cruéis em suas misérias. Enrubesçamos pela natureza humana, e lamentemos em solidariedade com a vergonha de nosso Redentor. O primeiro Adão nos fez nus a todos, e por isso o segundo Adão se fez nu, para que pudesse vestir nossas almas nuas.
Versículo 18Salmo 22:18
Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançam sortes. As vestes dos executados eram, na maioria dos casos, o quinhão dos carrascos, mas não era comum lançarem sortes na divisão do despojo; este incidente mostra com que clareza Davi, em visão, viu o dia de Cristo, e com que certeza o Homem de Nazaré é aquele de quem os profetas falaram: "estas coisas, pois, fizeram os soldados."
Aquele que deu seu sangue para nos purificar deu também suas vestes para nos vestir. Como diz Ness: "este precioso Cordeiro de Deus entregou seu velo dourado por nós." Cada incidente das dores de Jesus é aqui guardado no tesouro da inspiração, e embalsamado no âmbar do cântico sagrado; devemos aprender, portanto, a sermos muito atentos a tudo o que concerne ao nosso Amado, e a pensar bem mais em tudo o que tem relação com ele. Pode-se notar que o hábito do jogo é, entre todos, o mais endurecedor, pois os homens podiam praticá-lo até aos pés da cruz, respingados do sangue do Crucificado. Nenhum cristão suportará o barulho dos dados quando pensar nisso.
Versículo 19Salmo 22:19
Mas tu, Senhor, não te alongues de mim. A fé invencível retorna à carga, e usa o mesmo recurso, a saber, a oração importuna. Ele repete a súplica tão lastimosamente oferecida antes. Nada deseja senão seu Deus, mesmo em seu estado mais baixo. Não pede a presença mais confortável ou mais próxima de Deus; contentar-se-á se ele não estiver longe; humildes pedidos têm curso rápido junto ao trono.
Ó minha força, apressa-te em ajudar-me. Casos difíceis precisam de socorro oportuno: quando a necessidade o justifica, podemos ser urgentes com Deus quanto ao tempo, e clamar "apressa-te"; mas não devemos fazer isso por teimosia. Note como, no último grau de fraqueza pessoal, ele chama o Senhor de "minha força"; deste modo o crente pode cantar: "quando estou fraco, então sou forte."
Versículo 20Salmo 22:20
Livra minha alma da espada. Por espada entende-se, provavelmente, a destruição total, que ele, como homem, temia; ou talvez buscasse livramento dos inimigos ao seu redor, que lhe eram como espada afiada e mortal. O Senhor havia dito: "Desperta, ó espada," e agora, do terror daquela espada, o Pastor bem gostaria de ser livre, assim que a justiça achasse por bem.
Minha querida, do poder do cão. Referindo-se à sua alma, sua vida, que é muito preciosa a todo homem. O original diz "minha única," e por isso nossa alma é preciosa, porque é a única que temos. Quisera que todos os homens fizessem de suas almas suas queridas, mas muitos as tratam como se não valessem mais que a lama das ruas. O cão pode significar Satanás, aquele Cérbero infernal, aquele cão maldito e que amaldiçoa; ou então toda a companhia dos inimigos de Cristo, que, embora muitos em número, eram tão unânimes como se fossem um só, e de comum acordo buscavam despedaçá-lo.
Se Jesus clamou por socorro contra o cão do inferno, muito mais devemos nós. Cave canem — cuidado com o cão —, pois seu poder é grande, e só Deus pode livrar-nos dele. Quando ele nos afaga, não devemos nos colocar em seu poder; e quando uiva contra nós, podemos lembrar que Deus o segura com uma corrente.
Versículo 21Salmo 22:21
Salva-me da boca do leão; pois me ouviste dentre os chifres dos unicórnios. Tendo experimentado no passado livramento de grandes inimigos, fortes como unicórnios, o Redentor profere seu último clamor por resgate da morte, que é feroz e poderosa como o leão. Esta oração foi ouvida, e a escuridão da cruz se retirou.
Assim a fé, embora duramente golpeada, e até lançada sob os pés de seu inimigo, no fim vence a batalha. Assim foi em nossa Cabeça, assim será em todos os membros. Vencemos o unicórnio, venceremos o leão, e de ambos, leão e unicórnio, tomaremos a coroa.
Versículos 22–31Salmo 22:22-31
A transição é bem marcante; de uma tempestade horrível, tudo se transforma em calmaria. A escuridão do Calvário finalmente se retirou da face da natureza, e da alma do Redentor, e, contemplando a luz de seu triunfo e seus resultados futuros, o Salvador sorriu. Nós o acompanhamos através das trevas; acompanhemo-lo agora na luz que retorna. Convém ainda considerar estas palavras como parte do solilóquio de nosso Senhor na cruz, proferido em sua mente nos últimos momentos antes de sua morte.
Versículo 22Salmo 22:22
Anunciarei o teu nome a meus irmãos. As delícias de Jesus estão sempre com sua igreja, e por isso seus pensamentos, depois de tanta angústia, retornam, no primeiro momento de alívio, ao seu canal habitual; ele forma novos desígnios para o benefício de seus amados. Não se envergonha de chamá-los irmãos: "dizendo: anunciarei o teu nome a meus irmãos; no meio da congregação te cantarei louvores." Entre suas primeiras palavras de ressurreição estavam estas: "ide a meus irmãos."
No versículo diante de nós, Jesus antecipa a felicidade de ter comunhão com seu povo; propõe-se a ser seu mestre e ministro, e fixa a mente no tema de seu discurso. O nome — isto é, o caráter e o proceder de Deus — é, pelo evangelho de Jesus Cristo, proclamado a toda a santa irmandade; eles contemplam a plenitude da divindade habitando corporalmente nele, e se alegram muito ao ver todas as perfeições infinitas manifestadas naquele que é osso de seus ossos e carne de sua carne. Que tema precioso é o nome de nosso Deus! É o único digno do Unigênito, cujo alimento e bebida era fazer a vontade do Pai.
Podemos aprender, desta resolução de nosso Senhor, que um dos melhores métodos de mostrar nossa gratidão pelos livramentos é contar a nossos irmãos o que o Senhor fez por nós. Mencionamos nossas tristezas com bastante prontidão; por que somos tão lentos em declarar nossos livramentos?
No meio da congregação te louvarei. Não apenas numa pequena reunião doméstica resolve nosso Senhor proclamar o amor de seu Pai, mas nas grandes assembleias de seus santos, e na assembleia geral e igreja dos primogênitos. Isto o Senhor Jesus está sempre fazendo por meio de seus representantes, que são os arautos da salvação, e labutam para louvar a Deus.
Na grande igreja universal, Jesus é o único Mestre com autoridade, e todos os demais, na medida em que merecem ser chamados mestres, nada mais são que ecos de sua voz. Jesus, nesta segunda sentença, revela seu objetivo ao declarar o nome divino: que Deus seja louvado; a igreja continuamente magnifica a Jeová por manifestar-se na pessoa de Jesus, e o próprio Jesus conduz o cântico, sendo ao mesmo tempo regente do coro e pregador em sua igreja. Deliciosos são os momentos em que Jesus se comunica com nossos corações acerca da verdade divina; louvor jubiloso é o resultado certo.
Versículo 23Salmo 22:23
Vós que temeis ao Senhor, louvai-o. O leitor deve imaginar o Salvador dirigindo-se à congregação dos santos. Ele exorta os fiéis a se unirem a ele em ação de graças. A descrição de "temer ao Senhor" é muito frequente e muito instrutiva; é o princípio da sabedoria, e é sinal essencial de graça. "Sou hebreu, e temo a Deus" foi a confissão de fé de Jonas. O humilde temor de Deus é preparação tão necessária para louvá-lo que ninguém está apto a cantar em sua honra senão aquele que reverencia sua palavra; mas este temor é compatível com a mais alta alegria, e não deve ser confundido com a servidão legal, que é um temor que o amor perfeito lança fora. O santo temor deve sempre guardar a chave do banco de canto. Onde Jesus conduz a melodia, só lábios santos podem ousar cantar.
Todos vós, semente de Jacó, glorificai-o. O gênio do evangelho é o louvor. Judeus e gentios, salvos pela graça soberana, devem ser diligentes na bendita obra de engrandecer o Deus de nossa salvação. Todos os santos devem unir-se no cântico; nenhuma língua pode calar-se, nenhum coração pode ficar frio. Cristo nos chama a glorificar a Deus, e poderíamos recusar? E temei-o, toda a semente de Israel. O Israel espiritual todo faz isto, e esperamos que venha o dia em que o Israel segundo a carne seja levado à mesma disposição.
Quanto mais louvamos a Deus, mais reverentemente o temeremos, e quanto mais profunda nossa reverência, mais doces nossos cânticos. Tanto valor dá Jesus ao louvor que aqui o temos, sob sua mão e selo moribundos, que todos os santos devem glorificar o Senhor.
Versículo 24Salmo 22:24
Pois não desprezou nem abominou a aflição do aflito. Eis boa matéria e motivo para louvor. A experiência de nossa Cabeça e Representante de aliança deveria encorajar a todos nós a bendizer o Deus da graça. Nunca homem algum foi tão aflito quanto nosso Salvador, em corpo e alma, por amigos e inimigos, pelo céu e pelo inferno, em vida e em morte; ele foi o primeiro nas fileiras dos aflitos, mas todas essas aflições foram enviadas em amor, e não porque seu Pai o desprezasse e abominasse.
É verdade que a justiça exigia que Cristo suportasse o fardo que, como substituto, se comprometera a carregar, mas Jeová sempre o amou, e por amor lhe pôs aquela carga, tendo em vista sua glória final e a realização do mais caro desejo de seu coração. Sob todas as suas dores, nosso Senhor era honrado aos olhos do Pai, a joia inigualável do coração de Jeová.
Nem escondeu dele o seu rosto. Isto é, o esconder foi apenas temporário, e logo removido; não foi final nem eterno. Mas, quando a ele clamou, o ouviu. Jesus foi ouvido naquilo que temeu. Clamou in extremis e de profundis, e foi prontamente respondido; por isso convida seu povo a unir-se a ele em cantar um Gloria in excelsis.
Todo filho de Deus deve buscar refrigério para sua fé neste testemunho do Varão de Dores. O que Jesus aqui testifica é tão verdadeiro hoje quanto quando foi escrito pela primeira vez. Jamais se dirá que a aflição ou a pobreza de algum homem o impediu de ser suplicante aceito ao trono da graça de Jeová. O mais humilde requerente é bem-vindo à porta da misericórdia: —
Nenhum que se aproxime de seu trono achará
um Deus infiel ou sem bondade.
Versículo 25Salmo 22:25
De ti será o meu louvor na grande congregação. O único tema do cântico de nosso Mestre é o Senhor, somente o Senhor. O Senhor, e apenas o Senhor, é o assunto que o crente trata quando se dedica a imitar Jesus no louvor. A palavra no original é "de ti" — o verdadeiro louvor é de origem celestial. As harmonias mais raras da música nada são, a menos que sinceramente consagradas a Deus por corações santificados pelo Espírito. O regente diz: "cantemos ao louvor e à glória de Deus"; mas o coro, muitas vezes, canta ao louvor e à glória de si mesmo. Ah, quando será nosso serviço de canto uma oferta pura?
Note, neste versículo, como Jesus ama os louvores públicos dos santos, e pensa com prazer na grande congregação. Seria maldade da nossa parte desprezar os dois ou três reunidos; mas, por outro lado, que as pequenas companhias não rosnem contra as assembleias maiores, como se fossem necessariamente menos puras e menos aprovadas, pois Jesus ama o louvor da grande congregação.
Pagarei meus votos diante dos que o temem. Jesus se dedica de novo à execução do propósito divino, em cumprimento dos votos feitos em sua angústia. Será que nosso Senhor, ao ascender aos céus, proclamou entre os remidos na glória a bondade de Jeová? E era esse o voto aqui pretendido? Sem dúvida, a proclamação do evangelho é o cumprimento constante dos compromissos de aliança feitos por nosso Fiador nos conselhos da eternidade. O Messias prometeu edificar um templo espiritual para o Senhor, e certamente cumprirá sua palavra.
Versículo 26Salmo 22:26
Os mansos comerão e se fartarão. Note como o moribundo Amante de nossas almas se consola com o resultado de sua morte. Os pobres em espírito encontram um banquete em Jesus; alimentam-se dele até a satisfação de seus corações; estavam famintos, até que ele se entregou por eles, mas agora estão fartos de manjares reais. O pensamento da alegria de seu povo trouxe conforto a nosso Senhor moribundo.
Note quem são os que participam do benefício de sua paixão: "os mansos," os humildes e os de coração baixo. Senhor, faze-nos assim. Note também a certeza de que as provisões do evangelho não se desperdiçarão: "comerão"; e o resultado certo de tal alimentação: "e se fartarão." Louvarão ao Senhor os que o buscam. Por algum tempo poderão guardar jejum, mas seus dias de ação de graças hão de vir, e virão.
O vosso coração viverá para sempre. Vossos espíritos não desfalecerão sob a provação, não morrereis de tristeza, alegrias imortais serão vossa porção. Assim fala Jesus, mesmo da cruz, ao buscador atribulado. Se suas palavras de morte são tão animadoras, que consolo não podemos encontrar na verdade de que ele vive para sempre para interceder por nós! Os que comem à mesa de Jesus recebem o cumprimento da promessa: "quem come deste pão viverá para sempre."
Versículo 27Salmo 22:27
Ao ler este versículo, impressiona-nos o espírito missionário do Messias. É evidentemente seu grande consolo que Jeová será conhecido em todos os lugares de seu domínio. Todos os confins do mundo se lembrarão e se converterão ao Senhor. Do círculo interno da igreja presente, a bênção há de espalhar-se em poder crescente até que as partes mais remotas da terra se envergonhem de seus ídolos, se lembrem do Deus verdadeiro, se arrependam de suas ofensas, e se tornem unanimemente diligentes pela reconciliação com Jeová.
Então cessará o falso culto, e todas as famílias das nações adorarão diante de ti, ó tu, único Deus vivo e verdadeiro. Esta esperança, que foi a recompensa de Jesus, é estímulo para os que lutam suas batalhas.
Convém notar a ordem da conversão aqui estabelecida: eles "se lembrarão" — isto é reflexão, como o filho pródigo que caiu em si; "e se converterão a Jeová" — isto é arrependimento, como Manassés, que deixou seus ídolos; e "adorarão" — isto é serviço santo, como Paulo adorou o Cristo que outrora abominava.
Versículo 28Salmo 22:28
Pois o reino é do Senhor. Como Filho obediente, o Redentor moribundo se alegrava em saber que os interesses de seu Pai prosperariam por meio de suas dores. "O Senhor reina" era seu cântico, como é o nosso. Aquele que, por seu próprio poder, reina supremo nos domínios da criação e da providência, estabeleceu um reino de graça, e pelo poder conquistador da cruz aquele reino crescerá até que todos os povos reconheçam seu domínio e proclamem que "ele é o governador entre as nações."
Em meio aos tumultos e desastres do presente, o Senhor reina; mas nos dias serenos de paz, o rico fruto de seu domínio será manifesto a todo olhar. Grande Pastor, venha o teu glorioso reino.
Versículo 29Salmo 22:29
Todos os que são gordos na terra — os ricos e os grandes não ficam de fora. A graça, hoje, encontra a maioria de suas joias entre os pobres, mas nos últimos dias os poderosos da terra "comerão," provarão da graça redentora e do amor moribundo, e "adorarão" de todo o coração o Deus que tão generosamente nos trata em Cristo Jesus.
Os que são espiritualmente gordos, de prosperidade interior, se fartarão do tutano da comunhão, e adorarão o Senhor com fervor peculiar. Na aliança da graça, Jesus proveu bom banquete para nossos altos estados, e igual cuidado teve em nos consolar em nossa humilhação, pois a próxima frase é: todos os que descem ao pó se inclinarão diante dele. Há alívio e conforto em curvar-se diante de Deus quando nosso caso está em seu pior; mesmo em meio ao pó da morte, a oração acende a lâmpada da esperança.
Enquanto todos os que vêm a Deus por Jesus Cristo são assim abençoados, sejam ricos ou pobres, nenhum dos que o desprezam pode esperar bênção. Ninguém pode conservar viva a própria alma. Este é o severo contraponto da mensagem evangélica de "olhe e viva." Não há salvação fora de Cristo. Devemos reter a vida, e ter a vida como dádiva de Cristo, ou morreremos eternamente. Esta é doutrina evangélica muito sólida, e deve ser proclamada em cada canto da terra, para que, como um grande martelo, quebre em pedaços toda autoconfiança.
Versículo 30Salmo 22:30
Uma semente o servirá. A posteridade perpetuará o culto ao Altíssimo. O reino da verdade na terra jamais falhará. À medida que uma geração é chamada ao seu descanso, outra se levantará em seu lugar. Não precisamos temer pela verdadeira sucessão apostólica; essa está bem segura.
Isto será contado ao Senhor por uma geração. Ele contará as eras pela sucessão dos santos, e ajustará suas contas segundo as famílias dos fiéis. Gerações de pecadores não entram na genealogia dos céus. O registro de família de Deus não é para estranhos, mas somente para os filhos.
Versículo 31Salmo 22:31
Virão. A graça soberana há de trazer, dentre os homens, os que foram comprados pelo sangue. Nada frustrará o propósito divino. Os escolhidos virão à vida, à fé, ao perdão, ao céu. Nisto o Salvador moribundo encontra sagrada satisfação. Servo laborioso de Deus, alegra-te ao pensar que o propósito eterno de Deus não sofrerá impedimento nem obstáculo.
E anunciarão a sua justiça a um povo que há de nascer. Nenhum dos que forem trazidos a Deus pelas atrações irresistíveis da cruz será mudo; poderão proclamar a justiça do Senhor, de modo que as gerações futuras conheçam a verdade. Pais ensinarão a seus filhos, que a transmitirão a seus filhos; o teor da história sendo sempre "que ele fez isto," ou que "está consumado."
A gloriosa obra da salvação está feita, há paz na terra, e glória nas alturas. "Está consumado" — estas foram as palavras derradeiras do Senhor Jesus, assim como são as últimas palavras deste salmo. Que possamos, por fé viva, ver nossa salvação consumada pela morte de Jesus!
Obras sobre este salmo
Cristo na Cruz: Uma Exposição do Vigésimo Segundo Salmo. Pelo Rev. JOHN STEVENSON, Cura Perpétuo de Curry e Gunwalloe, Cornualha. 1842.