Tesouros de Davi

Salmo 74

Leia o Salmo 74 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Masquil de Asafe. Um salmo instrutivo de Asafe. A história da igreja sofredora é sempre edificante; ao vermos como os fiéis confiaram e lutaram com o seu Deus em tempos de aflição extrema, aprendemos como nos comportar em circunstâncias semelhantes; aprendemos ainda que, quando a provação ardente nos alcança, nada de estranho nos aconteceu — apenas seguimos o rastro do exército de Deus.

DIVISÃO. Em Salmos 74:1-11, o poeta expõe as dores da nação e o desprezo lançado sobre as assembleias do Senhor; depois invoca as antigas manifestações do poder divino como razão para a libertação presente (Salmos 74:12-23). Se é um salmo profético, destinado a tribulações previstas, ou se foi escrito por um Asafe posterior, depois da invasão de Senaqueribe ou durante as guerras macabeias, seria muito difícil determinar; mas não vemos dificuldade em aceitar a primeira suposição.

Exposição

Versículo 1Salmo 74:1

Ó Deus, por que nos rejeitaste para sempre? Rejeitar-nos já seria duro, mas quando desamparas o teu povo por tanto tempo, é um mal além de toda medida — o principal das aflições, o abismo da miséria. É nossa sabedoria, sob a disciplina, indagar: "Mostra-me por que contendes comigo?" E, se a aflição se prolonga, devemos indagar com mais ardor o seu propósito.

O pecado costuma estar na raiz de todo ocultamento do rosto do Senhor; peçamos ao Senhor que nos revele a sua forma específica, para que dele nos arrependamos, o vençamos e doravante o abandonemos. Quando uma igreja se encontra em condição de abandono, não deve ficar parada na apatia, mas voltar-se para a mão que a fere e perguntar humildemente a razão.

Ao mesmo tempo, a pergunta do texto é falha, pois traz embutidos dois enganos. Há duas perguntas que só admitem resposta negativa: "Rejeitou Deus o seu povo?" (Romanos 11:1); e a outra, "Rejeitará o Senhor para sempre?" (Salmos 77:7). Deus nunca se cansa do seu povo a ponto de abominá-lo, e mesmo quando sua ira se volta contra ele, é só por um breve momento, visando o seu bem eterno.

A dor, em sua angústia, faz perguntas estranhas e imagina terrores impossíveis. É uma maravilha da graça que o Senhor não nos tenha posto de lado há muito, como quem descarta vestes usadas; mas ele odeia o repúdio, e continuará paciente com os seus escolhidos.

Por que se acende a tua ira contra as ovelhas do teu pasto? Elas são tuas, são objeto do teu cuidado, são coisas pobres, indefesas e sem juízo: tem piedade delas, perdoa-as e vem em seu socorro. São apenas ovelhas — não continues irado contra elas. É coisa terrível quando a ira de Deus se acende, mas é misericórdia infinita que ela não se converta em chama devoradora.

Convém orar para que o Senhor remova todo sinal da sua ira, pois, para os que são verdadeiramente ovelhas do Senhor, é coisa muito dolorosa ser objeto do seu desagrado. Entristecer o Espírito Santo não é pecado pequeno, e no entanto quão frequentemente somos culpados disso; por isso não é de admirar que tantas vezes estejamos sob uma nuvem.

Versículo 2Salmo 74:2

Lembra-te da tua congregação, que compraste desde a antiguidade. Que argumento poderoso é a redenção. Ó Deus, podes ver a marca do sangue sobre as tuas próprias ovelhas, e ainda assim permitir que lobos cruéis as devorem? A igreja não é aquisição recente do Senhor; desde antes da fundação do mundo os escolhidos já eram vistos como redimidos pelo Cordeiro morto; haveria de morrer o antigo amor, e frustrar-se o propósito eterno? O Senhor quer que o seu povo se lembre do Cordeiro pascal, do umbral tingido de sangue e da derrota do Egito; e esqueceria ele mesmo tudo isso? Ponhamo-lo em lembrança, façamos juntos a súplica. Poderá ele desamparar o que comprou com o sangue, abandonar o seu redimido? Poderá falhar a eleição, e o amor eterno deixar de arder? Impossível. As dores do Calvário, e a aliança da qual são o selo, são a segurança dos santos.

A tribo da tua herança, que resgataste. Súplica tão doce merecia ser repetida e ampliada. A porção do Senhor é o seu povo — perderá ele a sua herança? A sua igreja é o seu reino, sobre o qual estende o cetro da soberania; permitirá que lhe arranquem as suas posses? A propriedade que Deus tem sobre nós é um fato cheio de consolo: o valor que nos dá, o domínio que exerce sobre nós, a ligação que mantém conosco são outras tantas luzes a alegrar a nossa escuridão. Nenhum homem perde de bom grado a sua herança, e nenhum príncipe abre mão dos seus domínios; por isso cremos que o Rei dos reis conservará o que é seu, e manterá os seus direitos contra todos os que se lhe oponham.

Este monte Sião, em que habitaste. O fato de o Senhor ter feito de Sião o centro especial do seu culto, e o lugar da sua manifestação, é ainda outra súplica pela preservação de Jerusalém. Será que o templo sagrado de Jeová será profanado por pagãos, e o trono do Grande Rei será conspurcado por seus inimigos? Habitou o Espírito de Deus em nossos corações, e os deixará tornar-se covil do diabo? Santificou-nos com a sua presença, e no fim abandonará o trono? Deus o proíba.

Convém notar que este salmo foi evidentemente escrito tendo em vista o templo em Sião, não o tabernáculo que ali havia no tempo de Davi, mera tenda; mas as destruições aqui lamentadas foram infligidas à obra entalhada de uma estrutura sólida. Aqueles que tinham visto a glória de Deus no templo sem igual de Salomão bem podiam lamentar-se com amargura, quando o Senhor permitiu que os seus inimigos fizessem daquele edifício incomparável uma ruína completa.

Versículo 3Salmo 74:3

Dirige os teus passos para as desolações perpétuas. A ruína causada já há muito era motivo de amargura para o suplicante, e não parecia haver esperança de restauração. A devastação imperava não apenas por um dia ou um ano, mas com poder perpétuo. Este é outro argumento diante de Deus. Ficaria Jeová parado, vendo a sua própria terra tornar-se deserto, o seu próprio palácio tornar-se desolação? Até que ele se levantasse e se aproximasse, a desolação permaneceria; só a sua presença podia curar o mal, por isso é ele suplicado a apressar-se, com os passos erguidos, para a libertação do seu povo.

Tudo o que o inimigo tem feito de mal no santuário. Cada pedra do templo arruinado clamava ao Senhor; por todos os lados havia as marcas de saqueadores ímpios, os lugares mais santos traziam evidência da sua malícia perversa; permitiria o Senhor isso para sempre? Não se apressaria a derrubar o inimigo que o desafiava frente a frente, e profanava o trono da sua glória? A fé encontra argumentos até nas piores circunstâncias; ela usa até as pedras caídas dos seus palácios desolados, e com elas assalta as portas do céu, lançando-as com a grande máquina de guerra da oração.

Versículo 4Salmo 74:4

Os teus inimigos rugem no meio das tuas assembleias. Onde o teu povo cantava como anjos, esses bárbaros rugem como feras. Quando os teus santos se reúnem para adorar, esses homens cruéis os atacam com toda a fúria dos leões. Não têm respeito pelas assembleias mais solenes, mas se intrometem, com as suas blasfêmias, em nossas reuniões mais sagradas. Quantas vezes, em tempos de perseguição ou de heresia prevalecente, a igreja aprendeu o sentido de tais palavras. Que o Senhor nos poupe de tamanha miséria. Quando hipócritas abundam na igreja, e poluem o seu culto, o caso é semelhante ao que temos diante de nós; Senhor, salva-nos de tão severa provação.

Puseram os seus estandartes por sinais. Emblemas idólatras usados em guerra eram erguidos sobre o altar de Deus, como sinal insultuoso de vitória e desprezo pelo vencido e pelo seu Deus. Papistas, arianos e a escola moderna dos neólogos ergueram, em seu tempo, os seus estandartes por sinais. A superstição, a incredulidade e a sabedoria carnal têm procurado usurpar o lugar de Cristo crucificado, para tristeza da igreja de Deus. Os inimigos de fora nos causam pouco dano, mas os de dentro da igreja lhe fazem grave mal; suplantando a verdade e pondo o erro em seu lugar, enganam o povo e conduzem multidões à destruição. Assim como um judeu sentia santo horror ao ver um emblema idólatra erguido no lugar santo, também nós sentimos quando, numa igreja protestante, vemos as tolices de Roma, e quando, de púlpitos outrora ocupados por homens de Deus, ouvimos filosofia e vão engano.

Versículo 5Salmo 74:5

Um homem era famoso conforme tivesse erguido machados sobre as árvores frondosas. Outrora os homens eram renomados por derrubar cedros e prepará-los para a construção do templo, mas agora o machado encontra outra tarefa, e os homens se orgulham tanto de destruir quanto os seus pais se orgulhavam de edificar. Assim, nos tempos antigos, nossos pais desferiam golpes vigorosos contra as florestas do erro, e se esforçavam por lançar o machado à raiz das árvores; mas, ai de nós, os seus filhos parecem igualmente diligentes em destruir a verdade e derrubar tudo o que os seus pais edificaram. Quem dera voltassem os bons tempos antigos! Quem dera uma hora do machado de Lutero, ou do poderoso machado de Calvino!

Versículo 6Salmo 74:6

Mas agora despedaçam de uma vez, com machados e martelos, a sua obra entalhada. Os invasores eram tão industriosos em destruir quanto os antigos construtores tinham sido em edificar. Era coisa bárbara despedaçar um entalhe tão belo, mas os vândalos não tinham piedade e derrubavam tudo com qualquer arma que tivessem à mão.

Nestes dias, homens usam machados e marretas contra o evangelho e a igreja. Verdades gloriosas, muito mais requintadas que o mais fino entalhe, são contestadas e despedaçadas pelos golpes da crítica moderna. Verdades que sustentaram os aflitos e alegraram os moribundos são feridas por pretensiosos godos, que gostariam de ser tidos por eruditos, mas não conhecem os primeiros princípios da verdade. Com escárnio afiado e golpes pesados de sofisma, quebram a fé de alguns; e destruiriam, se pudessem, até a confiança dos próprios eleitos. Assírios, babilônios e romanos são apenas figuras de inimigos espirituais que labutam para esmagar a verdade e o povo de Deus.

Versículo 7Salmo 74:7

Lançaram fogo no teu santuário. Machados e martelos não bastavam ao propósito dos destruidores; era preciso ainda o fogo. A malícia não conhece limites. Os que odeiam a Deus jamais poupam as armas mais cruéis. Até hoje a inimizade do coração humano é tão grande quanto sempre foi; e, se a providência não a contivesse, os santos ainda seriam lenha para as chamas.

Profanaram, lançando por terra a morada do teu nome. Fizeram do templo um montão de escombros, e não deixaram pedra sobre pedra. Quando o Senhor deixou o monte Sião, e o romano ali entrou, a fúria militar levou os soldados a incendiar e arrancar pela raiz a memória da célebre Casa do Senhor. Se os poderes das trevas pudessem fazer a sua vontade, sorte semelhante recairia sobre a igreja de Cristo. "Arrasai-a", dizem eles, "arrasai-a até os seus fundamentos." Profanação para a igreja é destruição; os seus inimigos a profanariam até que nada restasse da sua pureza e, portanto, do seu próprio ser. Mas ainda que pudessem descarregar toda a sua fúria sobre a causa de Cristo, não são capazes de destruí-la; ela sobreviveria aos seus golpes e fogos; o Senhor os manteria presos como cães à coleira, e no fim frustraria todos os seus desígnios.

Versículo 8Salmo 74:8

Disseram no seu coração: Destruamo-los de uma vez. Não era desejo vão; a sua crueldade era sincera, profundamente arraigada, questão do mais íntimo do coração. A extirpação era o desejo de Hamã, e o objetivo de tantos outros tiranos; nenhum resto do povo de Deus teria sobrevivido, se os opressores pudessem fazer a sua vontade. A política de Faraó de exterminar a nação serviu de precedente a outros, e ainda assim os judeus sobrevivem, e sobreviverão: a sarça, embora ardendo, não se consumiu. Assim também a igreja de Cristo passou por batismo de sangue e fogo, mas saiu disso ainda mais brilhante.

Queimaram todas as sinagogas de Deus na terra. Aqui não há alusão a lugares chamados sinagogas, mas a assembleias; e como não havia assembleias de culto senão num único lugar, a ruína do templo foi a destruição de todas as santas reuniões, e assim, na prática, todos os lugares de encontro foram destruídos. Um dos alvos dos perseguidores sempre foi acabar com todos os conventículos, como eles os chamavam. Impeça-os de se reunir, e você os dispersará — assim disse o inimigo; mas, glória a Deus, os santos são independentes de paredes, e já se reuniram na encosta do monte, no meio do musgo, nas catacumbas, ou num barco no mar.

E, no entanto, a tentativa quase teve êxito, e a caçada foi tão intensa, que os fiéis andaram errantes na solidão, e as suas assembleias solenes se tornaram, em tais circunstâncias, raras e distantes entre si. Que suspiros e clamores subiram, em tais tempos, aos ouvidos do Senhor Deus dos Exércitos. Quão felizes somos por podermos reunir-nos para o culto em qualquer lugar que escolhamos, sem que ninguém ouse molestar-nos.

Versículo 9Salmo 74:9

Já não vemos os nossos sinais. Ai, pobre Israel! Nenhum Urim e Tumim resplandecia sobre o peito do Sumo Sacerdote, e nenhuma glória luzia de entre os querubins. A fumaça do sacrifício e a nuvem do incenso já não subiam do monte santo; as festas solenes estavam suspensas, e até a circuncisão, o sinal da aliança, era proibida pelo tirano. Nós também, como crentes, sabemos o que é perder as nossas evidências e tatear nas trevas; e com muita frequência as nossas igrejas também não encontram os sinais da presença do Redentor, e as suas lâmpadas ficam sem ser aparadas. Triste queixa de um povo sob uma nuvem!

Já não há mais profeta. A profecia estava suspensa. Nenhum salmo inspirador ou promessa consoladora caía dos lábios de bardo ou vidente. Vai mal ao povo de Deus quando falta a voz do pregador do evangelho, e cai sobre o povo a fome da palavra de vida. Os ministros enviados por Deus são tão necessários aos santos quanto o pão de cada dia, e é grande tristeza quando uma congregação fica destituída de um pastor fiel. Há de se temer que, mesmo com todos os ministros hoje existentes, ainda haja escassez de homens cujos corações e línguas foram tocados pelo fogo celestial.

Nem há entre nós quem saiba até quando. Se alguém pudesse predizer um fim, o mal poderia ser suportado com certo grau de paciência, mas quando ninguém consegue ver um termo, ou predizer uma saída, a miséria assume aspecto sem esperança, e se torna avassaladora. Bendito seja Deus, que não deixou a sua igreja, nestes dias, tão deploravelmente destituída de palavras animadoras; oremos para que jamais o faça. O desprezo pela palavra é coisa muito comum, e bem pode provocar o Senhor a retirá-la de nós; que a sua longanimidade suporte a tensão, e a sua misericórdia ainda nos conceda a palavra da vida.

Versículo 10Salmo 74:10

Ó Deus, até quando o adversário nos afrontará? Embora não saibamos até quando, tu sabes. Os tempos e as estações estão em tuas mãos. Quando Deus é afrontado, há esperança para nós, pois talvez ele venha a ouvir e a vingar o seu nome desonrado. À maldade se concede grande licença, e a justiça tarda no caminho; Deus tem as suas razões para o atraso, e as suas estações para agir, e no fim se verá que ele não é negligente quanto à sua promessa, como alguns homens consideram negligência.

Blasfemará o inimigo o teu nome para sempre? Ele o fará para sempre, a menos que lhe dês o golpe final. Nunca te defenderás, e nunca calarás as línguas caluniosas? Suportarás sempre os escárnios dos profanos? Não haverá fim para todo esse sacrilégio e maldição? Sim, tudo isso terá fim, mas não agora. Há um tempo para o pecador se enfurecer, e um tempo em que a paciência o suporta; mas é apenas um tempo, e depois, ah, depois!

Versículo 11Salmo 74:11

Por que retiras a tua mão, sim, a tua destra? Por que essa inação, essa indiferença para com a tua própria honra e a segurança do teu povo? Quão ousado é o suplicante! Erra ele? Não, na verdade; nós é que erramos, tão frios, distantes e apáticos como somos na oração. O reino dos céus sofre violência, e quem aprende essa arte há de certamente prevalecer com Deus por meio dela. É justo que indaguemos por que a obra da graça avança tão lentamente, e o inimigo tem tanto poder sobre os homens: a indagação pode sugerir reflexões práticas de valor incalculável.

"Por que ficas afastado do conflito?

Por que se demoram as rodas do teu carro?

Levanta-te, sacode o reino do inferno,

Braço do Senhor, desperta, desperta."

Tira-a do teu seio. Símile ousado, mas homens moribundos precisam arriscar tudo pela vida. Quando Deus parece cruzar os braços, não devemos cruzar os nossos, mas antes renovar as súplicas para que ele volte a pôr a mão na obra. Quem dera houvesse mais agonia na oração entre os cristãos professos; então veríamos milagres de graça. Temos aqui diante de nós um modelo de súplica, um verdadeiro êxtase de oração. É humilde, mas muito ousado, ardente, fervoroso e eficaz. O coração de Deus sempre se comove com tais súplicas. Quando trazemos à luz as nossas fortes razões, então ele trará à luz as suas escolhidas misericórdias.

Versículos 12–23Salmo 74:12-23

Tendo exposto o triste caso diante do Senhor, o suplicante agora traz uma nova série de argumentos em busca do socorro divino. Ele raciocina a partir das antigas maravilhas de graça do Senhor, e das suas obras de poder, implorando a repetição dessas mesmas obras divinas.

Versículo 12Salmo 74:12

Pois Deus é o meu Rei desde a antiguidade. Quão consolador é este reconhecimento! Israel, em santa lealdade, reconhece o seu Rei, e reivindica ter sido sua posse desde a antiguidade, e daí tira um argumento para defesa e libertação. Se o Senhor é de fato o único monarca dos nossos corações, ele porá em prática a sua força em nosso favor, por amor; se desde a eternidade ele nos reivindicou como seus, ele nos preservará do inimigo insultuoso.

Operando salvação no meio da terra. Desde o período mais remoto da história de Israel, o Senhor operara para ela muitas salvações; especialmente no Mar Vermelho, o próprio coração do mundo se maravilhou com as suas maravilhas de libertação. Agora, todo crente pode, neste dia, invocar os antigos feitos do Senhor, a obra do Calvário, a derrota do pecado, da morte e do inferno.

Aquele que operou a nossa salvação antigamente não nos abandonará agora, não pode abandonar-nos. Cada milagre passado da graça nos assegura que aquele que começou a libertar continuará a nos redimir de todo mal. Os seus feitos de outrora foram públicos, realizados diante dos próprios inimigos; não eram ilusões nem fingimentos; por isso, em todos os nossos perigos, esperamos verdadeiro e manifesto socorro, e certamente o receberemos.

Versículo 21Salmo 74:21

Ó, não volte envergonhado o oprimido. Ainda que quebrantados e esmagados, eles vêm a ti com confiança; não permitas que sejam decepcionados, pois então se envergonhariam da sua esperança. Louvem o pobre e o necessitado o teu nome. Com a tua rápida resposta aos seus clamores, alegra os seus corações, e eles te oferecerão os seus mais alegres cânticos. Não é próprio do Senhor permitir que algum dos que nele confiam seja envergonhado; pois a sua palavra é: "Ele me invocará, e eu o livrarei, e ele me glorificará."

Versículo 22Salmo 74:22

Levanta-te, ó Deus, pleiteia a tua própria causa. Responde aos escárnios dos profanos com argumentos que aniquilem tanto a blasfêmia quanto o blasfemo. Os juízos de Deus são réplicas terríveis ao desafio dos seus inimigos. Quando ele faz ruir impérios, e fere no coração os perseguidores, a sua própria causa é pleiteada por ele mesmo, como ninguém mais poderia advogá-la. Quem dera o próprio Senhor viesse ao campo de batalha. Há muito a luta oscila na balança; um só olhar dos seus olhos, uma só palavra dos seus lábios, e os estandartes da vitória serão levados pela brisa.

Lembra-te de como o insensato te afronta todo dia. Pede-se ao Senhor que se lembre de que ele mesmo é afrontado, e isso por um mero homem — homem, aliás, insensato — e é-lhe também lembrado que essas afrontas repugnantes são incessantes, repetidas a cada dia que se revolve. É façanha corajosa quando a fé consegue arrancar argumentos da própria boca do dragão, e das blasfêmias dos insensatos extrair razões diante de Deus.

Versículo 23Salmo 74:23

Não te esqueças da voz dos teus inimigos. Grande Guerreiro, que a provocação do inimigo te leve à batalha. Eles te desafiam; aceita o penhor do combate, e fere-os com a tua mão terrível. Se os clamores dos teus filhos são fracos demais para serem ouvidos, digna-te notar as vozes altas dos teus adversários e silencia para sempre as suas profanidades.

O tumulto dos que se levantam contra ti aumenta continuamente. Os ímpios clamam contra ti e contra o teu povo, as suas blasfêmias são altas e incessantes, eles te desafiam, a ti mesmo, e, porque não respondes, zombam de ti com desprezo. Vão de mal a pior, de pior a péssimo; a sua fúria cresce como os trovões de uma tempestade que avança. Aonde isso vai chegar? Que nova infâmia será lançada contra ti e contra os teus? Ó Deus, suportarás isso para sempre? Não tens consideração pela tua honra, nenhum respeito pela tua glória?

Muito deste salmo passou pela nossa mente ao contemplarmos as idolatrias de Roma (o autor visitou Roma em novembro e dezembro de 1871, enquanto esta parte de O Tesouro de Davi estava em preparo), e ao lembrarmos da sua perseguição sangrenta aos santos. Ó Senhor, até quando será, antes que te alivies desses profanos miseráveis, os sacerdotes, e lances a meretriz da Babilônia na vala da corrupção? Que a igreja jamais deixe de suplicar a ti, até que o juízo seja executado, e o Senhor se vingue do Anticristo.

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