Salmo 47
Leia o Salmo 47 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Ao Músico-Chefe. Muitos cânticos foram dedicados a esse regente do coro, mas ele não foi sobrecarregado por isso. O serviço de Deus é deleite tão grande que não pode nos cansar; e a parte mais escolhida dele, o cantar dos seus louvores, é tão prazerosa que dela nunca temos demais. Sem dúvida o músico-chefe, incumbido de tantos cânticos sagrados, sentia que quanto mais, melhor.
Salmo para os Filhos de Coré. Não podemos concordar com os que pensam que os filhos de Coré foram os autores destes salmos; eles trazem todos os sinais da autoria de Davi que se poderia esperar encontrar. Nosso ouvido já se acostumou à sonoridade das composições de Davi, e temos certeza moral de que a ouvimos neste salmo. Qualquer especialista reconheceria aqui a assinatura do filho de Jessé, ou estamos muito enganados. Os filhos de Coré cantavam estes salmos, mas cremos que não os escreveram. Bem apropriados eram como cantores, eles cuja origem os lembrava do pecado, cuja existência era prova da graça soberana, e cujo nome tem estreita ligação com o nome do Calvário.
ASSUNTO. Se o assunto imediato deste salmo é o transporte da arca da casa de Obede-Edom para o monte Sião, ou a celebração de alguma vitória memorável, seria difícil decidir. Já que até os doutores divergem, quem ousaria dogmatizar? Mas é bem claro que tanto a soberania presente de Jeová quanto as vitórias finais do nosso Senhor são aqui devidamente cantadas, enquanto a sua ascensão, como profecia delas, é docemente glorificada.
DIVISÃO. Num salmo tão curto, não há necessidade de outra divisão além da indicada pela pausa musical ao final de Salmos 47:4.
Exposição
Versículo 1Salmo 47:1
Batei palmas. Os sinais mais naturais e mais entusiásticos de exultação devem ser usados diante das vitórias do Senhor e do seu reinado universal. Nossa alegria em Deus pode ser demonstrativa, e ainda assim ele não a repreenderá.
Todos os povos. A alegria há de estender-se a todas as nações; Israel pode ir à frente, mas todos os gentios seguirão na marcha do triunfo, pois têm igual parte naquele reino onde não há grego nem judeu, mas Cristo é tudo em todos.
Mesmo agora, se ao menos soubessem, é a melhor esperança de todas as nações que Jeová reine sobre elas. Se não podem todas falar a mesma língua, a linguagem simbólica das mãos todas podem usar. Todos os povos serão governados pelo Senhor nos últimos dias, e todos exultarão nesse governo; se fossem sábios, submeter-se-iam a ele já agora, e se alegrariam nisso; sim, aplaudiriam em êxtase só de pensar nisso.
Jubilai, que vossas vozes acompanhem o ritmo das mãos. A Deus, que ele tenha todas as honras do dia, e que sejam sonoras, alegres, universais e unânimes.
Com voz de triunfo, com sons alegres, condizentes com vitórias tão esplêndidas, rei tão grande, reinado tão excelente e súditos tão felizes. Muitas são as línguas humanas, e ainda assim as nações podem triunfar como que com uma só voz. A visão da fé sobre o governo de Deus é plena de arrebatamento. A perspectiva do reinado universal do Príncipe da Paz basta para fazer cantar a língua do mudo; o que será a realidade?
Bem poderia o poeta das estações mandar que montes e vales erguessem seu hino alegre—
"Pois o GRANDE PASTOR reina,
E o seu reino incontestável ainda há de vir."
Versículo 2Salmo 47:2
Porque o SENHOR, ou JEOVÁ, o autoexistente e único Deus; altíssimo, grandíssimo em poder, sublime em domínio, eminente em sabedoria, elevado em glória. É terrível: ninguém pode resistir ao seu poder nem permanecer diante da sua vingança; contudo, como esses terrores são exercidos em favor dos seus súditos, são motivo justo de alegria. A onipotência, terrível para esmagar, é todo-poderosa para proteger. Numa grande revista das tropas de um grande príncipe, todos os seus súditos leais se enchem de triunfo, porque seu senhor soberano é tão capaz de defender os seus, e tão temido pelos seus inimigos.
Ele é grande Rei sobre toda a terra. Não só sobre a Judeia, mas até às ilhas mais remotas se estende o seu reinado. Nosso Deus não é divindade local, nem soberano mesquinho de uma tribo; em majestade infinita governa o mais poderoso dos reinos como árbitro absoluto do destino, único monarca de todas as terras, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Nenhuma aldeia ou ilhota está excluída do seu domínio. Quão gloriosa será aquela era quando isto for visto e conhecido por todos; quando, na pessoa de Jesus, toda carne contemplará a glória do Senhor!
Versículo 3Salmo 47:3
Ele nos sujeitará os povos. Aquele em quem está o poder infinito. A batalha não é nossa, mas do Senhor. Ele tomará o seu próprio tempo, mas certamente alcançará a vitória para a sua igreja. A verdade e a justiça hão de, pela graça, subir ao trono. Não travamos guerra duvidosa. Os corações mais rebeldes, e as vontades mais obstinadas, hão de submeter-se à graça que tudo vence. Todo o povo do Senhor, judeus ou gentios, pode aplaudir por isto, pois a vitória de Deus será deles; mas certamente apóstolos, profetas, ministros, e os que mais sofrem e trabalham, podem ter a maior parte nessa alegria.
Idolatria, incredulidade, superstição — ainda vamos pisá-las, como se pisam as pedras da rua.
E as nações debaixo dos nossos pés. A igreja de Deus será a maior das monarquias, sua vitória será notável e decisiva. Cristo tomará para si o seu grande poder e reinará, e todas as tribos dos homens reconhecerão, de uma só vez, a sua glória e a glória do seu povo nele. Quão mudada será a situação nos tempos vindouros! O povo de Deus esteve debaixo dos pés dos homens em longas e cruéis perseguições, e em desprezo diário; mas Deus há de inverter essa posição, e os melhores em caráter serão os primeiros em honra.
Versículo 4Salmo 47:4
Enquanto ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele, alegramo-nos em pôr a nós mesmos e a nossa sorte à sua disposição.
Ele escolherá a nossa herança para nós. Sentimos o seu reinado tão gracioso que já agora pedimos ser, na mais plena medida, seus súditos. Submetemos a ele inteiramente a nossa vontade, a nossa escolha, o nosso desejo. Deixamos em suas mãos a nossa herança, aqui e no porvir; que ele faça de nós como bem lhe parecer.
A excelência de Jacó, a quem ele amou. Deu ao seu antigo povo a porção deles; dar-nos-á a nossa, e nada melhor pedimos; esta é a maneira mais espiritual e real de aplaudirmos por causa da sua soberania, a saber: deixar todos os nossos negócios em suas mãos, pois então as nossas mãos ficam vazias de todo cuidado por nós mesmos, e livres para serem usadas em sua honra. Ele foi o orgulho e a glória de Israel; é e será a nossa. Amou o seu povo e tornou-se a sua maior glória; ama-nos, e será a nossa alegria transbordante. Quanto aos últimos dias, nada melhor pedimos do que estar no lugar que nos for designado, pois se temos apenas uma porção em nosso Senhor Jesus, isso basta para os nossos maiores desejos. A nossa formosura, o nosso orgulho, o nosso maior tesouro está em ter tal Deus em quem confiar, tal Deus para nos amar.
Selá. Sim, fazei uma pausa, fiéis cantores. Aqui há vasto espaço para santa meditação—
"Medita um pouco, pensamento obediente,
Eis o tema carregado de arrebatamento;
Vê teu Rei, cujo reino se estende
Até os confins mais remotos da terra.
De bom grado as nações hão de reconhecê-lo
Como seu único Deus e Senhor;
Bater palmas em santa alegria,
Aclamá-lo MONARCA DA TERRA.
Vem, minha alma, curva-te diante dele,
A mais alegre dentre os seus súditos;
Deixa tua porção à escolha dele,
Regozija-te na sua soberana vontade,
Esta é tua mais pura, mais profunda bem-aventurança,
Ele é teu e tu és dele."
Versículo 5Salmo 47:5
Deus subiu com aclamação. A fé já ouve o povo aclamando. A ordem do primeiro versículo é aqui tida como fato cumprido. A batalha terminou, o vencedor sobe ao seu carro triunfante, e avança até os portões da cidade, que se torna resplandecente com a alegria do seu retorno. As palavras aplicam-se plenamente à ascensão do Redentor. Não duvidamos de que anjos e espíritos glorificados o receberam com aclamações. Ele não veio sem cântico; devemos supor que voltou em silêncio?
O SENHOR ao som da trombeta. Jesus é Jeová. O som alegre da trombeta anuncia o esplendor do seu triunfo. Convinha receber com música marcial aquele que voltava das guerras. Recém-saído de Bozra, com as vestes tintas de vermelho do lagar, ele subiu, levando cativo o cativeiro, e bem podia o clarim ressoar a nova do retorno vitorioso de Emanuel.
Versículo 6Salmo 47:6
Cantai louvores. Que júbilo há aqui, quando por cinco vezes toda a terra é chamada a cantar a Deus! Ele é digno, ele é Criador, ele é a própria bondade. Cantai louvores — continuai na obra alegre. Nunca deixeis a música parar. Ele nunca deixa de ser bom; que nós nunca deixemos de ser gratos. Estranho que precisemos de tanto estímulo para nos dedicarmos a exercício tão celestial.
Cantai louvores ao nosso Rei. Que ele tenha todo o nosso louvor; ninguém deveria ter sequer uma partícula dele. Jesus há de tê-lo todo. Que a sua soberania seja a fonte da alegria. É atributo sublime, mas pleno de bem-aventurança para os fiéis. Que a nossa homenagem seja paga não em gemidos, mas em cânticos. Ele não pede escravos para adornar o seu trono; não é déspota; cantar é homenagem própria a um monarca tão bendito e gracioso. Que todos os corações que reconhecem o seu cetro cantem, e cantem para sempre, pois há razão eterna para ação de graças enquanto habitarmos à sombra de tal trono.
Versículo 7Salmo 47:7
Porque Deus é o Rei de toda a terra. Os judeus do tempo do nosso Salvador ressentiam-se desta verdade, mas, se seus corações estivessem retos, teriam se alegrado nela. Teriam guardado o seu Deus só para si, e nem sequer permitido que os cães gentios comessem as migalhas caídas da sua mesa. Ai! Como o egoísmo transforma o mel em absinto. Jeová não é o Deus só dos judeus; todas as nações da terra ainda hão de, por meio do Messias, reconhecê-lo Senhor. Entretanto, o seu trono providencial já governa todos os acontecimentos debaixo do céu.
Cantai louvores com entendimento. Cantai um salmo didático. A doutrina sã louva a Deus. Mesmo sob a economia dos tipos e cerimônias, é claro que o Senhor tinha em vista a espiritualidade do culto, e queria ser louvado com reflexão, com inteligência, e com profunda apreciação da razão do cântico.
Há de se temer que, pelo modo desleixado com que alguns fazem barulho ao cantar, imaginem que qualquer som serve. Por outro lado, pela grande atenção que alguns dão à mera música, sentimos, com tristeza, a certeza de que o sentido não lhes causa efeito algum. Não será pecado agradar os ouvidos dos homens com sons quando professamos estar adorando o Senhor? Que tem o deleite sensual em órgãos, cânticos corais etc. a ver com devoção? Não confundem os homens efeitos físicos com impulsos espirituais? Não oferecem eles, muitas vezes, a Deus melodias muito mais calculadas para o divertimento humano do que para a aceitação divina? Um entendimento iluminado pelo Espírito Santo é, então, e só então, plenamente capaz de oferecer louvor digno.
Versículo 8Salmo 47:8
Agora, neste exato momento, sobre os idólatras mais degradados, Deus exerce um domínio secreto; aqui há trabalho para a fé. Quanto devíamos ansiar pelo dia em que esta verdade mudará de aspecto, e o domínio hoje não reconhecido será motivo de deleite! A grande verdade de que Deus reina na providência é a garantia de que, em sentido gracioso do evangelho, as suas promessas se cumprirão, e o seu reino virá.
Ele se assenta sobre o trono da sua santidade. Imóvel, ocupa um trono incontestável, cujos decretos, atos e ordens são a própria santidade. Que outro trono é como este? Nunca foi manchado pela injustiça, nem contaminado pelo pecado. Tampouco aquele que nele se assenta fica perturbado, ou em dilema algum. Ele se assenta em serenidade, pois conhece o seu próprio poder, e vê que os seus propósitos não hão de falhar. Eis razão suficiente para um cântico santo.
Versículo 9Salmo 47:9
Os príncipes do povo se ajuntam. O olhar profético do salmista vê os súditos voluntários do grande Rei reunidos para celebrar a sua glória. Não só os pobres e os de condição humilde estão ali, mas os nobres dobram de bom grado o pescoço ao seu domínio. "Todos os reis se prostrarão diante dele." Nenhum povo ficará sem representação; os seus grandes homens serão homens bons, os seus nobres, regenerados. Quão augusto será o parlamento em que o Senhor Jesus abrirá a sessão, e príncipes se levantarão para lhe prestar honra!
Até o povo do Deus de Abraão. Aquele mesmo Deus que era conhecido apenas por um ou outro patriarca, como o pai dos fiéis, será adorado por uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu. Cumprir-se-á a promessa da aliança: "Em ti, e na tua descendência, serão benditas todas as nações da terra." Virá Siló, e "a ele se congregarão os povos." A dispersão de Babel será apagada pelo braço reunidor do Grande Rei Pastor.
Porque os escudos da terra pertencem a Deus. As insígnias de pompa, os emblemas de posição, as armas de guerra — tudo deve prestar homenagem leal ao Rei de todos. As excelências devem honrar a Jesus, e as majestades devem reconhecê-lo como muito mais majestoso do que elas. Aqueles que são os protetores da terra, os escudos do bem comum, tiram dele a sua força, e são dele. Todos os principados e potestades devem estar sujeitos a Jeová e ao seu Cristo, pois ele é grandemente exaltado. Em natureza, em poder, em caráter, em glória, não há quem se lhe compare.
Ó gloriosa visão de uma era que há de vir! Apressai-vos, rodas do tempo! Entretanto, ó santos: "Sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor."
Obras sobre este salmo
Nas Obras de JOHN BOYS, 1626, in-fólio, pp. 931-937, há uma Exposição deste Salmo.