Tesouros de Davi

Salmo 76

Leia o Salmo 76 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Ao Músico-Mor, sobre Neginote. O regente é aqui instruído a executar este cântico ao som de instrumentos de cordas. O mestre dos harpistas foi convocado para a mais hábil execução, e de fato o cântico é digno dos sons mais doces que as cordas podem produzir. Um Salmo ou Cântico de Asafe. O estilo e o conteúdo indicam a mesma mão que escreveu o precedente; e é um arranjo admirável o que colocou os dois lado a lado. A fé, no Salmo 75, cantava vitórias por vir; aqui, canta triunfos já alcançados. O presente Salmo é um jubiloso cântico de guerra, um hino ao Rei dos reis, o cântico de uma nação teocrática ao seu governante divino. Não há necessidade de marcar divisões num cântico em que a unidade se preserva tão bem.

Exposição

Versículo 1Salmo 76:1

Em Judá é Deus conhecido. Se desconhecido em todo o resto do mundo, ele se revelou a seu povo com tais obras de graça que, para ele, não é um Deus desconhecido. O seu nome é grande em Israel. Ser conhecido, no caso do Senhor, é ser honrado: os que conhecem o seu nome admiram a sua grandeza. Embora Judá e Israel estivessem infelizmente divididos politicamente, os piedosos de ambas as nações concordavam a respeito de Jeová, seu Deus; e de fato, por mais que os cismas maculem a igreja visível, os santos sempre "aparecem como um só" ao engrandecer o Senhor, seu Deus.

Escuro é o mundo exterior, mas dentro do círculo favorecido Jeová se revela e é a adoração de todos os que o contemplam. O mundo não o conhece, e por isso o blasfema; mas a sua igreja arde em zelo para proclamar a sua fama até os confins da terra.

Versículo 2Salmo 76:2

Em Salém também está o seu tabernáculo. Na cidade da paz ele habita, e a paz se perpetua, porque ali sua tenda sagrada está armada. A igreja de Deus é o lugar onde o Senhor permanece, e ele é para ela o Senhor e doador da paz. E a sua morada em Sião. Sobre o monte escolhido estava o palácio do Senhor de Israel. É a glória da igreja que o Redentor a habite pelo seu Espírito Santo. Vãos são os ataques do inimigo, pois não atacam apenas a nós, mas o próprio Senhor. Emanuel, Deus conosco, encontra um lar entre o seu povo — quem, então, poderá nos fazer mal?

Versículo 3Salmo 76:3

Ali quebrou ele as flechas do arco. Sem sair de sua morada tranquila, enviou a sua palavra e quebrou as flechas de seus inimigos antes que pudessem disparar. A imagem é sublime, e marca a facilidade, a completude e a rapidez da ação divina. O escudo, a espada e a batalha. Toda arma, ofensiva e defensiva, o Senhor despedaçou; os instrumentos que trazem a morte e as armaduras que preservam a vida foram igualmente inúteis quando o Quebrantador enviou sua palavra de poder. Nos conflitos espirituais desta e de toda época, ver-se-á o mesmo: nenhuma arma forjada contra a igreja prosperará, e toda língua que se levantar contra ela em juízo, ela a condenará. Selá. Convém que nos detenhamos sobre tema tão comovente à alma, e demos ao Senhor a nossa grata adoração — daí se insere uma pausa.

Versículo 4Salmo 76:4

Tu és mais glorioso e excelente do que os montes de presa. Muito mais deve Jeová ser exaltado do que todos os poderes invasores que buscaram oprimir seu povo, ainda que fossem, em poder e grandeza, comparáveis a montanhas. A Assíria pilhara as nações até enriquecer-se com montanhas de despojo; isso era chamado, entre os homens, de glória, mas o salmista desprezava tal renome e declara que o Senhor era muito mais ilustre. Que são as honras da guerra senão fanfarronices de assassinato? Que é a fama dos conquistadores senão o fedor da matança? Mas o Senhor é glorioso em santidade, e seus feitos terríveis são realizados com justiça, em defesa dos fracos e libertação dos escravizados. O mero poder pode ser glorioso, mas não é excelente: quando contemplamos os atos poderosos do Senhor, vemos as duas qualidades perfeitamente unidas.

Versículo 5Salmo 76:5

Os valentes de coração foram despojados. Vieram para despojar, e eis que foram eles mesmos despojados. Seus corações valentes esfriaram-se na morte; o anjo da peste secou-lhes o sangue da vida; o próprio coração lhes foi arrancado. Dormiram o seu sono. O seu último sono — o sono da morte. E nenhum dos homens de força encontrou as suas mãos. Seus braços estão paralisados, não conseguem erguer um dedo, pois o rigor da morte os enrijeceu. Que cena foi aquela em que o exército de Senaqueribe foi totalmente destruído numa só noite! As mãos que se enfureciam para derrubar Jerusalém não conseguiam sequer se erguer do chão; os guerreiros mais valentes ficaram tão fracos quanto os aleijados paralíticos junto às portas do templo; sim, nem os olhos conseguiam abrir — um sono profundo lhes selou a visão em trevas eternas. Ó Deus, quão terrível és! Assim lutarás por nós, e na hora do perigo derrotarás os inimigos do teu evangelho. Portanto em ti confiaremos e não teremos medo.

Versículo 6Salmo 76:6

À tua repreensão. Uma palavra realizou tudo; não houve necessidade de um único golpe. Ó Deus de Jacó. Deus do teu povo que luta, que de novo, como o pai deles, prevalece sobre o adversário; Deus da aliança e da promessa, tu combateste por tua nação eleita nesse caráter gracioso. Tanto o carro como o cavalo caíram num sono profundo. Não voltarão a relinchar nem a ranger; quietas estão as passadas dos cavalos e o estrondo dos carros; a cavalaria não cria mais o seu tumulto. Os israelitas sempre tinham um temor especial de cavalos e carros de foice; e, por isso, a súbita quietude de toda a força do inimigo nesse aspecto é tomada como tema de regozijo especial.

Os cavalos jaziam estendidos no chão, e os carros permaneciam parados, como se todo o acampamento tivesse adormecido. Assim pode o Senhor enviar um sono judicial sobre os inimigos da igreja, um prenúncio da segunda morte, e isso ele pode fazer quando eles estão no auge do poder e, como imaginam, no próprio ato de apagar a memória do seu povo. Os Rabsaqués do mundo podem escrever cartas terríveis, mas o Senhor não responde com pena e tinta, e sim com repreensões que trazem morte em cada sílaba.

Versículo 7Salmo 76:7

Tu, sim, tu és temível. Não Senaqueribe, nem Nisroque, seu deus, mas Jeová somente, que com uma repreensão silenciosa havia destruído todo o exército do monarca.

Temei-o, ó santos, e então

nada mais tereis a temer.

O temor do homem é um laço, mas o temor de Deus é uma grande virtude, e tem grande poder para o bem sobre a mente humana. Deus deve ser temido profundamente, continuamente, e somente ele. Que toda adoração seja só a ele. E quem pode estar diante de ti quando te enfureces? Quem, de fato? Os anjos caíram quando sua rebelião provocou a justiça dele; Adão perdeu seu lugar no Paraíso do mesmo modo; Faraó e outros monarcas soberbos desapareceram diante de seu olhar; nem há na terra ou no inferno quem possa suportar o terror de sua ira. Como são bem-aventurados os que estão abrigados na expiação de Jesus, e por isso não têm razão para temer a justa ira do Juiz de toda a terra.

Versículo 8Salmo 76:8

Fizeste ouvir do céu o teu juízo. Uma derrota tão completa foi evidentemente um juízo vindo do céu; os que não o viram, contudo, ouviram o relato dele, e disseram: "Este é o dedo de Deus." O homem não ouvirá a voz de Deus se puder evitá-lo, mas Deus cuida de fazê-la ouvir. Os ecos daquele juízo executado sobre o soberbo assírio ainda se ouvem, e continuarão a ressoar por todas as eras, para louvor da justiça divina. A terra temeu, e ficou quieta. Todas as nações tremeram diante das notícias, e ficaram em um respeito humilhado. Seguiu-se o repouso às turbulências anteriores da guerra, quando o poder do opressor foi quebrado, e Deus foi reverenciado por ter dado sossego aos povos. Com que facilidade Jeová pode convocar uma audiência! Pode ser que, nos últimos dias, ele, por meio de alguns desses milagres de poder nos domínios da graça, constranja todos os habitantes da terra a atentarem para o evangelho e a se submeterem ao reinado de seu Filho todo-glorioso. Assim seja, bom Senhor.

Versículo 9Salmo 76:9

Quando Deus se levantou para o juízo. Os homens se calaram quando ele ascendeu ao assento do juízo e executou ativamente os decretos da justiça. Quando Deus está quieto, o povo está em tumulto; quando ele se levanta, ficam quietos como pedra. Para salvar todos os mansos da terra. O Governante dos homens tem um olhar especial para os pobres e desprezados; faz questão de, em primeiro lugar, reparar todas as injustiças cometidas contra eles. "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." Pouco dela possuem agora, mas o seu vingador é forte, e certamente os salvará. Aquele que salva o seu povo é o mesmo Deus que derruba os seus inimigos; ele é tão onipotente para salvar quanto para destruir. Glória ao seu nome. Selá. Aqui se faz pausa, para que a devota contemplação adore o Deus de Jacó.

Versículo 10Salmo 76:10

Certamente a ira do homem te louvará. Não apenas será vencida, mas tornada subserviente à tua glória. O homem, com seu fôlego de ameaças, nada mais faz que tocar a trombeta da fama eterna do Senhor. Ventos furiosos muitas vezes levam os navios mais depressa ao porto. O diabo sopra o fogo e derrete o ferro, e então o Senhor o molda para os seus próprios propósitos. Por mais que homens e demônios se enfureçam, não podem fazer outra coisa senão servir aos propósitos divinos. O restante da ira tu reprimirás. A malícia está presa e não pode romper suas amarras. O fogo que não pode ser aproveitado será abafado. Alguns leem: "tu cingirás", como se o Senhor cingisse a ira do homem como uma espada a ser usada para os seus próprios desígnios; e certamente os homens do mundo são muitas vezes uma espada na mão de Deus, para açoitar outros. O versículo ensina claramente que até o mal mais desenfreado está sob o controle do Senhor, e no final será revertido para o seu louvor.

Versículo 11Salmo 76:11

Fazei votos, e pagai-os ao Senhor, vosso Deus. Bem podemos fazê-lo, em memória de tais misericórdias e juízos. Fazer voto ou não é questão de escolha, mas cumprir os nossos votos é dever imposto. Quem defraudaria a Deus, o seu próprio Deus, é um miserável de fato. Ele cumpre suas promessas; que o seu povo não falhe nas suas. Ele é o seu Deus fiel e merece ter um povo fiel. Todos os que estão ao seu redor tragam presentes ao que deve ser temido. Que as nações vizinhas se submetam ao único Deus vivo, que o seu próprio povo apresente com presteza as suas ofertas, e que seus sacerdotes e levitas sejam líderes no sacrifício sagrado. Aquele que merece ser louvado como o nosso Deus não deveria receber mera homenagem verbal, mas tributo substancial. Soberano temível, eis que eu me entrego a ti.

Versículo 12Salmo 76:12

Ele ceifará o espírito dos príncipes. A coragem, a habilidade e a vida deles estão em suas mãos, e ele pode removê-los como um jardineiro corta um broto de uma planta. Ele é temível para os reis da terra. Nada há de grande diante de sua mão. Césares e Napoleões caem sob o seu poder como os galhos da árvore diante do machado do lenhador. Enquanto eles são temíveis para outros, ele é temível para eles. Se se opuserem ao seu povo, ele os despachará rapidamente; perecerão diante do terror do seu braço, "pois o Senhor é homem de guerra, o Senhor é o seu nome." Regozijai-vos diante dele, todos os que adorais o Deus de Jacó.

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