Salmo 144
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Embora este salmo se pareça, em certa medida, com o Salmo 18:1-50, ele é um cântico novo, e em sua última parte isso fica marcante. Que o leitor o receba como um salmo novo, não como mera variação de um antigo, nem como duas composições costuradas às pressas. É verdade que a peça ficaria completa se a passagem de Salmos 144:12-15 fosse retirada; mas há outros trechos dos poemas de Davi que seriam igualmente completos em si mesmos se certos versículos fossem omitidos, e o mesmo se poderia dizer de muitos sonetos não inspirados.
Não se segue, portanto, que a última parte tenha sido acrescentada por outra mão, nem sequer que fosse um fragmento do mesmo autor, anexado ao primeiro cântico apenas para preservá-lo. Parece-nos altamente provável que o salmista, lembrando ter pisado antes em terreno semelhante, sentiu o espírito movido a pensamento novo, e que o Espírito Santo usou essa disposição para seus altos propósitos.
Certamente o adendo é digno do maior poeta hebreu, e é tão admirável na linguagem, tão repleto de bela imagética, que pessoas de bom gosto, de modo algum sobrecarregadas de reverência, o têm citado inúmeras vezes, confessando com isso sua rara excelência poética. Para nós, o salmo inteiro parece perfeito como está, e exibe tal unidade em toda a sua extensão que seria um vandalismo literário, além de crime espiritual, arrancar uma parte da outra.
TÍTULO. Seu título é "De Davi", e sua linguagem é de Davi, se é que a linguagem alguma vez pode pertencer a algum homem. Tão certo quanto poderíamos dizer de qualquer poema, isto é de Tennyson, ou de Longfellow, podemos dizer: isto é de Davi. Nada, senão a doença que fecha o olho ao fato manifesto e o abre à fantasia, poderia ter levado críticos eruditos a atribuir este cântico a qualquer outro que não Davi. Alexander bem diz: "A origem davídica deste salmo é tão marcante quanto a de qualquer outro no Saltério."
É a Deus que o devoto guerreiro canta quando o exalta como sua força e seu sustento (144:1-2). Tem o homem em pouca conta, e se espanta com a consideração do Senhor por ele (144:3-4); mas se volta, na hora do conflito, para o Senhor, que é declarado "homem de guerra", cuja intervenção triunfante ele implora (144:5-8). Ele novamente o exalta e roga nos versículos 9-11, e então encerra com um quadro deleitoso da obra do Senhor por seu povo escolhido, que é parabenizado por ter um Deus assim para ser o seu Deus.
Exposição
Versículo 1Salmo 144:1
Bendito seja o Senhor, minha força. Ele não consegue adiar a expressão de sua gratidão; irrompe de imediato numa nota alta de louvor. Sua melhor palavra é dada ao seu melhor amigo — "Bendito seja Jeová." Quando o coração está no estado certo, precisa louvar a Deus, não pode ser contido; suas expressões saltam como águas que forçam caminho de uma fonte viva.
Com toda a sua força, Davi bendiz o Deus de sua força. Não devíamos receber dádiva tão grande — força para resistir ao mal, defender a verdade e vencer o erro — sem saber quem a deu, e sem lhe render a glória por ela. Jeová não apenas dá força aos seus santos, ele é a força deles. A força se torna deles porque Deus é deles. Deus está cheio de poder, e ele se torna o poder daqueles que nele confiam. Nele está nossa grande força, e a ele sejam bênçãos maiores do que somos capazes de expressar. Pode-se ler "minha Rocha", mas isso não combina tão bem com as palavras seguintes:
Que ensina as minhas mãos para a guerra, e os meus dedos para a peleja. A palavra rocha é o modo hebraico de expressar força: a velha e grandiosa língua é cheia de símbolos assim tão sugestivos. O salmista, na segunda parte do versículo, apresenta o Senhor como mestre nas artes da guerra. Se temos força, não estamos muito melhores a menos que tenhamos também habilidade. Força sem treino é frequentemente um dano para quem a possui, e chega a ser um perigo para os que estão ao seu redor; por isso o salmista bendiz o Senhor tanto pelo ensino quanto pela força.
Bendigamos também a Jeová se ele nos tornou eficientes em alguma coisa. A instrução mencionada era muito prática, não tanto do cérebro quanto das mãos e dos dedos, pois estes eram os membros mais necessários no combate. Homens com pouca instrução escolar deveriam ser gratos pela destreza e habilidade em seus ofícios manuais. Para um homem de guerra, a educação das mãos vale muito mais do que a mera erudição livresca jamais poderia valer; quem precisa usar uma funda ou um arco necessita de treino adequado, tanto quanto um cientista ou um professor de clássicas.
Os homens tendem, com muita facilidade, a imaginar que a eficiência de um artesão deve ser atribuída a ele mesmo; mas isso é um engano popular. Supõe-se que um pastor seja ensinado por Deus, mas as pessoas não admitem o mesmo dos tecelões ou dos que trabalham o bronze; contudo essas profissões são especialmente mencionadas na Bíblia como tendo sido ensinadas a mulheres santas e homens dedicados quando o tabernáculo foi erguido pela primeira vez. Toda sabedoria e habilidade vêm do Senhor, e por elas ele merece ser gratamente exaltado. Esse ensino se estende aos menores membros de nosso corpo; o Senhor ensina os dedos tanto quanto as mãos; de fato, às vezes acontece que, se o dedo não é bem treinado, a mão inteira fica incapaz.
Davi foi chamado a ser homem de guerra, e foi eminentemente bem-sucedido em suas batalhas; ele não atribui isso à própria estratégia ou valentia, mas ao fato de ter sido ensinado e fortalecido para a guerra e a peleja. Se o Senhor se digna a ter parte em obra tão pouco espiritual quanto o combate, certamente nos ajudará a proclamar o evangelho e ganhar almas; e então bendiremos seu nome com intensidade de coração ainda maior. Seremos discípulos, e ele será nosso Mestre, e se algum dia realizarmos algo, daremos ao nosso Instrutor uma bênção sincera.
Este versículo é cheio de pessoalidade; é a misericórdia mostrada ao próprio Davi que é o tema do cântico de gratidão. Tem também um caráter de presença; pois Jeová é agora sua força, e ainda o ensina; devemos fazer questão de apresentar louvor enquanto a bênção ainda está em pleno voo. O versículo é também eminentemente prático, cheio da vida real de cada dia; pois os dias de Davi eram passados em acampamentos e combates.
Alguns de nós, gravemente atormentados pelo reumatismo, poderiam clamar: "Bendito seja o Senhor, meu Consolador, que ensina meus joelhos a suportar com paciência, e meus pés a resistir com resignação"; outros, atentos a ajudar jovens convertidos, poderiam dizer: "Bendito seja Deus, que ensina meus olhos a ver almas feridas, e meus lábios a animá-las"; mas Davi tem sua própria ajuda peculiar de Deus, e o louva de acordo. Isso contribui para tornar perfeita a harmonia do céu, quando todos os cantores fazem sua parte; se todos seguíssemos a mesma partitura, a música não seria tão cheia nem tão rica.
Versículo 2Salmo 144:2
Agora nosso poeta régio multiplica metáforas para exaltar seu Deus. Minha bondade, e minha fortaleza. A palavra para bondade significa misericórdia. Quem quer que sejamos, e onde quer que estejamos, precisamos de misericórdia como só se encontra no Deus infinito. É toda por misericórdia que ele é qualquer uma das outras boas coisas para nós, de modo que este é um título bastante abrangente. Ó quão verdadeiramente o Senhor tem sido misericórdia para muitos de nós, de mil maneiras! Ele é a própria bondade, e tem sido bondade sem limites para conosco. Não temos bondade própria, mas o Senhor se tornou bondade para nós. Assim ele também é nossa fortaleza e morada segura: nele habitamos como atrás de muralhas inexpugnáveis e baluartes inabaláveis. Não podemos ser expulsos, nem vencidos pela fome; pois nossa fortaleza está preparada para um cerco; está abastecida de fartura de alimento, e há dentro dela um poço de água viva. Reis costumam dar grande valor às suas cidades fortificadas, mas o rei Davi confia em seu Deus, que é mais para ele do que fortalezas poderiam ser.
Minha torre alta, e meu libertador. Como de uma torre de vigia elevada, o crente que confia no Senhor olha de cima para seus inimigos. Eles não conseguem alcançá-lo em sua posição elevada; ele está fora do alcance das flechas; está além das escadas de assalto; habita nas alturas. Mas não é só isso: pois Jeová é nosso Libertador tanto quanto nosso Defensor. Essas diferentes figuras apresentam os benefícios variados que nos vêm de nosso Senhor. Ele é toda coisa boa de que possamos precisar, para este mundo ou para o próximo. Não apenas nos coloca fora de perigo com muita frequência, mas quando precisamos ser expostos, ele vem em nosso socorro, levanta o cerco, derrota o inimigo e nos põe em liberdade jubilosa. Meu escudo, e aquele em quem confio. Quando o guerreiro avança sobre seu adversário, carrega o alvo no braço e afasta a morte para o lado; assim o crente opõe o Senhor aos golpes do inimigo, e se vê seguro do mal. Por isso, e por mil outras razões, nossa confiança repousa em nosso Deus para tudo; ele nunca nos falha, e sentimos por ele uma confiança sem limites.
Que sujeita o meu povo debaixo de mim. Ele mantém sujeitos meus súditos naturais, e mantém pacíficos, sob meu domínio, os que conquistei. Homens que governam outros deveriam agradecer a Deus se conseguem sucesso na tarefa. Os seres humanos são criaturas tão estranhas que, se um bom número deles se mantém em associação pacífica sob a liderança de qualquer servo do Senhor, esse servo tem obrigação de bendizer a Deus todos os dias por esse fato tão maravilhoso. As vitórias da paz merecem tanto gratidão jubilosa quanto as vitórias da guerra. Líderes na igreja cristã não conseguem manter sua posição a menos que o Senhor lhes preserve a poderosa influência que assegura obediência e desperta lealdade entusiástica. Por cada partícula de influência para o bem que possamos ter, magnifiquemos o nome do Senhor.
Assim Davi bendisse a Jeová por tê-lo abençoado. Quantas vezes ele se apropriou do Senhor com essa pequena palavra Meu! A cada vez que se agarra ao Senhor, ele o adora e o bendiz; pois a única palavra Bendito percorre toda a passagem como um fio de ouro. Começou reconhecendo que sua força para lutar contra inimigos estrangeiros vinha do Senhor, e concluiu atribuindo sua paz doméstica à mesma fonte. Ao redor, como rei, ele se via cercado pelo Rei dos reis, diante de quem se curvava em humilde homenagem, prestando serviço de joelhos, com coração grato reconhecendo que devia tudo à Rocha de sua salvação.
Versículo 3Salmo 144:3
Senhor, que é o homem, para que dele tomes conhecimento? Que contraste entre Jeová e o homem! O salmista se volta da glória e da suficiência plena de Deus para a insignificância e o nada do homem. Ele vê Jeová como tudo, e então clama: "Senhor, que é o homem!" Que é o homem na presença do Deus infinito? A que se pode compará-lo? Ele é pequeno demais até para ser descrito; só Deus, que conhece o mais minúsculo objeto, pode dizer o que é o homem.
Certamente ele não é digno de ser a rocha de nossa confiança: é ao mesmo tempo fraco demais e inconstante demais para que se confie nele. O espanto do salmista é que Deus se abaixe para conhecê-lo, e de fato isso é mais notável do que se o maior arcanjo se pusesse a estudar formigas, ou se tornasse amigo de ácaros. Deus conhece seu povo com terna intimidade, com observação constante e cuidadosa: ele os conheceu de antemão em amor, os conhece por cuidado, os conhecerá por fim em aceitação. Por que e para quê isso? O que o homem fez? O que ele foi? O que é ele agora, para que Deus o conheça, e se faça conhecido dele como sua bondade, fortaleza e torre alta? Esta é uma pergunta sem resposta possível. Só a condescendência infinita pode explicar que o Senhor se abaixe para ser amigo do homem. Que ele faça do homem objeto de eleição, alvo de redenção, filho do amor eterno, predileto da providência infalível, parente próximo da Divindade, é de fato assunto que exige mais do que os dois pontos de exclamação encontrados neste versículo.
Ou o filho do homem, para que o consideres? O filho do homem é ainda um ser mais fraco — é o que a palavra original implica. Ele não é tanto o homem como Deus o fez, mas o homem como sua mãe o gerou; e como pode o Senhor pensar nele, e registrar tal cifra em suas contas? O Senhor pensa muito no homem, e, em conexão com o amor redentor, faz dele uma grande figura: isso pode ser crido, mas não pode ser explicado. O espanto adorante nos faz clamar a cada um: Por que tomas conhecimento de mim? Sabemos por experiência quão pouco se pode contar com o homem, e sabemos por observação quão grandemente ele pode se vangloriar; convém, portanto, sermos humildes e desconfiarmos de nós mesmos; mas tudo isso deveria nos tornar ainda mais gratos ao Senhor, que conhece o homem melhor do que nós, e ainda assim tem comunhão com ele, e até habita nele. Todo traço de misantropia deveria ser odioso ao crente; pois, se Deus considera o homem, não cabe a nós desprezar nossa própria espécie.
Versículo 4Salmo 144:4
O homem é semelhante à vaidade. Adão é semelhante a Abel. Ele é semelhante àquilo que é nada de nada. Ele é de fato vão, e se assemelha àquela coisa insubstancial e vazia que não é senão um nada inflado — um sopro, uma bolha. Contudo, ele não é a vaidade, apenas se parece com ela. Não é tão substancial quanto essa coisa irreal; é apenas semelhança dela. Senhor, que é o homem? É espantoso que Deus pense em tamanha e pretensiosa insignificância.
Os seus dias são como a sombra que passa. Ele é tão efêmero que mal chega a anos, mas existe pelo dia, como o inseto que nasce e morre sob o mesmo sol. Sua vida é apenas como uma sombra, que já em si mesma é uma semelhança vaga, uma ausência de algo antes que uma existência em si. Note-se que a vida humana não é apenas como sombra, mas como sombra que está prestes a partir. É mera miragem, imagem de algo que não é, um fantasma que se dissolve de volta ao nada. Como é que o Eterno faz tanto caso do homem mortal, que começa a morrer assim que começa a viver? A ligação destes dois versículos com o resto do salmo não é difícil de perceber: Davi confia em Deus e nele encontra tudo; olha para o homem e o vê como nada; e então se espanta de como o grande Senhor pode condescender a notar tal peça de loucura e engano que é o homem.
Versículo 5Salmo 144:5
Abaixa os teus céus, ó Senhor, e desce. Os céus são do Senhor, e quem os exaltou pode abaixá-los. Seu servo luta contra inimigos amargos, e não encontra socorro nos homens, por isso roga a Jeová que desça em seu resgate. É, de fato, uma descida, para Jeová intervir nos conflitos de seu povo provado. A terra clama ao céu que se abaixe; não, o clamor é ao Senhor do céu, que abaixe o céu e apareça entre os filhos da terra.
O Senhor tem feito isso muitas vezes, e nunca mais plenamente do que quando, em Belém, o Verbo se fez carne e habitou entre nós: agora ele conhece o caminho, e nunca se recusa a descer para defender os que ama. Davi desejaria a presença real de Deus para contrabalançar a aparência zombeteira do homem vaidoso: só a verdade eterna poderia livrá-lo da vaidade humana.
Toca os montes, e fumegarão. Assim foi quando o Senhor apareceu no Sinai; as colunas mais fortes da terra não conseguem suportar o peso do dedo de Deus. Ele é fogo consumidor, e seu toque acende os picos dos Alpes, e os faz fumegar. Se Jeová aparecesse, nada poderia se manter diante dele; se os poderosos montes fumegam ao seu toque, então todo poder mortal que se opõe ao Senhor há de terminar em fumaça. Quão longânimo ele é com seus adversários, a quem tão prontamente poderia consumir. Um toque bastaria; o dedo de chama de Deus poria fogo nos montes, e consumiria toda oposição.
Versículo 6Salmo 144:6
Arremessa relâmpagos, e dispersa-os. O Eterno pode lançar seus relâmpagos onde bem lhe aprouver, e realizar seu propósito de modo instantâneo. A artilharia do céu logo põe o inimigo em fuga: um único raio faz os exércitos correrem para todo lado, em completa debandada. Dispara as tuas flechas, e destrói-os. Jeová nunca erra o alvo; suas flechas são fatais para seus inimigos quando ele sai à guerra.
Não foi fé comum a que levou o poeta-rei a esperar que o Senhor usasse seus raios em favor de um único membro daquela raça que ele acabara de descrever como "semelhante à vaidade". Um crente em Deus pode, sem presunção, esperar que o Senhor Todo-Poderoso use em seu favor todo o arsenal de sua sabedoria e poder: até as forças terríveis da tempestade serão convocadas para a batalha, em defesa dos escolhidos do Senhor. Uma vez superada a dificuldade maior — que o Senhor se interesse por nós — é coisa pequena esperar que ele exerça seu grande poder a nosso favor. Esta está longe de ser a única vez em que este guerreiro crente orou assim: o Salmo 18 é especialmente parecido com este; o bom homem não se envergonhou de sua ousadia anterior, mas aqui se repete sem temor.
Versículo 7Salmo 144:7
Estende a tua mão desde o alto. Que teu braço longo e forte se estenda até que tua mão agarre meus inimigos, e me livre deles. Livra-me, e resgata-me das grandes águas. Faze de mim um Moisés — alguém tirado das águas. Meus inimigos jorram sobre mim como torrentes, ameaçam me tragar; salva-me da força e da fúria deles; tira-os de mim, e a mim deles.
Da mão dos filhos estranhos. De estrangeiros de toda raça; homens estranhos a mim e a ti, que por isso hão de me fazer mal, e rebeldia contra ti mesmo. Aqueles contra quem ele suplicava estavam fora da aliança com Deus; eram filisteus e edomitas; ou então eram homens da própria nação dele, de coração negro e espírito traidor, que eram verdadeiros estranhos, ainda que carregassem o nome de Israel.
Ah, livrar-se desses seres incrédulos e blasfemos, que poluem a sociedade com seus falsos ensinos e palavras duras! Ah, ser livre de línguas caluniosas, lábios enganosos e corações falsos! Não é de espantar que estas palavras se repitam, pois são o clamor frequente de tantos filhos provados de Deus — "Livra-me, e resgata-me." Os filhos do diabo nos são estranhos: nunca podemos concordar com eles, e eles jamais nos entenderão: são estrangeiros para nós, e somos desprezados por eles. Ó Senhor, livra-nos do maligno, e de todos os que são de sua raça.
Versículo 8Salmo 144:8
Cuja boca fala vaidade. Não é de espantar que homens que são vaidade falem vaidade. "Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio." Não se pode confiar neles, por mais bela que seja a promessa que fazem: suas declarações solenes são leves como a espuma do mar, em nada dignas de confiança. Os bons desejam livrar-se de tais personagens: de todos os homens, os enganadores e mentirosos estão entre os mais repugnantes aos corações verdadeiros.
E a sua direita é direita de falsidade. Nisso as mãos e as línguas deles concordam, pois são vaidade e falsidade. Esses homens agem tão falsamente quanto falam, e provam ser todos de uma só peça. A falsidade deles é destra, mentem com destreza, enganam com todas as forças. É coisa terrível quando a perícia de um homem está mais na mentira do que na verdade; quando ele não consegue falar nem agir sem se revelar falso. Deus nos livre de bocas mentirosas, e de mãos de falsidade.
Versículo 9Salmo 144:9
Cantar-te-ei um cântico novo, ó Deus. Farto do falso, adorarei o verdadeiro. Aceso de entusiasmo renovado, minha gratidão abrirá para si um canal novo. Cantarei como outros já cantaram; mas será um cântico novo, tal como nenhum outro cantou. Esse cântico será todo e inteiramente para o meu Deus: não exaltarei senão o Senhor, de quem me veio a libertação.
Sobre saltério e instrumento de dez cordas te cantarei louvores. Sua mão devia ajudar sua língua, não como no caso dos ímpios, cooperando com o engano, mas sua mão devia unir-se à sua boca em louvor sincero. Davi pretendia afinar seus melhores instrumentos, além de usar sua melhor música vocal: o melhor é pobre demais para um Deus tão grande, por isso não devemos ficar aquém do nosso máximo.
Ele pretendia usar muitos instrumentos musicais, para por todos os meios expressar sua grande alegria em Deus. A dispensação do Antigo Testamento era rica em tipos, figuras e ritual externo, e por isso a música se encaixava naturalmente em seu lugar no "santuário terreno"; mas, afinal, ela não pode fazer mais do que representar o louvor, e ajudar nossa expressão dele; o louvor verdadeiro está no coração, a música verdadeira é a da alma.
Quando a música afoga a voz, e a habilidade artística toma lugar mais alto que o canto sincero, é hora de banir os instrumentos do culto público; mas quando estão subordinados ao cântico, como aqui, não nos cabe proibi-los, nem condenar os que deles se servem, embora nós mesmos prefiramos muito passar sem eles, pois nos parece que a máxima simplicidade de louvor é bem mais coerente com o espírito do evangelho do que a pompa dos órgãos.
O adorador em particular, cantando seu solo ao Senhor, muitas vezes achou útil acompanhar-se com algum instrumento familiar, e disto Davi, neste salmo, é um exemplo, pois diz: "Cantar-te-ei louvores" — ou seja, não tanto na companhia de outros, mas sozinho. Ele não diz "nós", mas "eu."
Versículo 10Salmo 144:10
É ele quem dá salvação aos reis. Aqueles a quem o Senhor levanta, ele manterá de pé. Reis, por sua posição em destaque, estão expostos a perigo especial, e quando suas vidas e seus tronos lhes são preservados, devem dar ao Senhor a glória por isso. Em suas muitas batalhas, Davi teria perecido se não fosse o cuidado onipotente que o preservou. Ele mesmo, com sua valentia, operara a salvação de Israel, mas deposita seus louros aos pés de seu Senhor e Preservador. Se alguém precisa de salvação, são os reis, e, se a recebem, o fato é tão espantoso que merece um versículo só para si no salmo de louvor.
Que livra a Davi, seu servo, da espada maligna. Ele atribui sua fuga da morte à mão libertadora de Deus. Note-se que ele fala no tempo presente — livra —, pois esse foi um ato que cobriu toda a sua vida. Ele assina seu nome na confissão de sua dívida: é Davi quem reconhece, sem hesitar, a misericórdia que lhe foi dada. Ele se intitula servo do Senhor, aceitando isso como o mais alto título que já alcançara ou desejara.
Versículo 11Salmo 144:11
Por causa do que o Senhor havia feito, Davi retorna à sua súplica. Ele pede libertação daquele que sempre o está libertando. Livra-me, e resgata-me da mão dos filhos estranhos. Este é, em certa medida, o refrão do cântico, e o peso da oração. Ele desejava ser livre de seus adversários abertos e estrangeiros, que haviam rompido pactos e tratado os tratados como coisa vã.
Cuja boca fala vaidade, e a sua direita é direita de falsidade. Ele não apertaria a mão dos que carregavam uma mentira na destra: livrar-se-ia deles de imediato, se possível. Aqueles cercados por tais serpentes não sabem como lidar com elas, e o único método disponível parece ser a oração a Deus por livramento e resgate.
Davi, no versículo 7, segundo o original, buscara o socorro de ambas as mãos do Senhor, e com razão, pois seus inimigos enganosos, com notável unanimidade, buscavam sua destruição com uma só boca e uma só mão. O livramento dos ímpios e a presença graciosa do Senhor são buscados com um olhar especial para a paz e a prosperidade que se seguirão. Poupar a vida de Davi significaria a paz e a felicidade de toda uma nação. Mal podemos avaliar quanta felicidade pode depender do favor do Senhor a um único homem.
Versículo 12Salmo 144:12
A bênção de Deus produz maravilhas para um povo. Para que nossos filhos sejam como plantas crescidas em sua juventude. Nossos filhos são de primeira importância para o estado, já que os homens tomam a dianteira em seus assuntos; e os jovens de hoje serão os homens maduros de amanhã. Ele deseja que sejam como árvores jovens, fortes e bem enraizadas, que prometem grandes coisas. Se não crescem na juventude, quando crescerão? Se em seu início de virilidade ficam atrofiados, jamais se recuperarão disso. Ah, as alegrias que podemos ter por meio de nossos filhos! E, por outro lado, que misérias eles podem nos causar! As plantas podem crescer tortas, ou de algum outro modo decepcionar quem as plantou, e o mesmo podem fazer nossos filhos. Mas quando os vemos desenvolvidos em santidade, que alegria temos deles!
Para que nossas filhas sejam como pedras angulares, lavradas à semelhança de um palácio. Desejamos uma bênção para toda a família, tanto para filhas quanto para filhos. Deixar as moças fora do círculo da bênção seria, de fato, infeliz. As filhas unem as famílias como as pedras angulares juntam as paredes, e ao mesmo tempo as adornam, como as pedras lavradas ornamentam a construção em que são encaixadas. O lar se torna um palácio quando as filhas são damas de honra, e os filhos são nobres de espírito; então o pai é rei, e a mãe rainha, e residências reais ficam bem atrás em comparação. Uma cidade construída com moradas assim é uma cidade de palácios, e um estado composto de tais cidades é uma república de príncipes.
Versículo 13Salmo 144:13
Que os nossos celeiros estejam cheios, provendo toda sorte de provisão. Um lar precisa exercer economia e previdência: precisa ter seu celeiro tanto quanto seu berçário. Os maridos devem administrar bem seus recursos; devem não só prover a mesa, mas encher os celeiros. Onde há lares felizes, é preciso haver provisão farta para eles, pois a fome traz miséria mesmo onde o amor abunda. É bom quando há fartura, e que essa fartura consista em "toda sorte de provisão." Já ouvimos, de vez em quando, queixas quanto à abundância de grão e à barateza do pão do pobre. Que calamidade inédita! Não ousamos orar contra ela. Davi teria orado por ela, e bendito o Senhor ao ver realizado o desejo de seu coração. Quando todos os frutos da terra são fartos, os frutos de nossos lábios deveriam ser louvor e ação de graças alegres. Que nossos produtos sejam abundantes e variados, para que toda forma de carência seja prontamente suprida.
Que as nossas ovelhas produzam a milhares e a dezenas de milhares em nossas ruas — ou melhor, nos espaços abertos, nos campos e nos pastos onde os cordeiros deviam nascer. Descreve-se aqui um crescimento fartíssimo. Adão lavrava a terra para encher o celeiro, mas Abel guardava ovelhas, e velava pelos cordeiros. Cada ofício precisa da bênção divina. O segundo homem nascido neste mundo foi pastor, e esse ofício sempre ocupou lugar importante na economia das nações. Alimento e vestimenta vêm do rebanho, e ambos são de primeira necessidade.
Versículo 14Salmo 144:14
Que os nossos bois sejam fortes para o trabalho — de modo que a lavra e o transporte da fazenda se cumpram como devem, e a obra do lavrador se realize sem sobrecarregar o gado nem tratá-lo com crueldade. Que não haja arrombamento, nem saída — nenhuma irrupção de saqueadores, nenhuma emigração forçada; nem arrombamentos, nem despejos. Que não haja clamor em nossas ruas — nenhuma insatisfação secreta, nenhum tumulto público; nenhum desfalecimento da pobreza, nenhum brado por direitos negados, nem por injustiças não reparadas.
O estado de coisas aqui retratado é deveras aprazível: tudo é pacífico e próspero; o trono é ocupado com eficiência, e até os animais em seus estábulos se beneficiam disso. Essa tem sido a condição de nosso próprio país, e se agora estiver mudando, quem há de se admirar? Pois nossa ingratidão bem merece ser privada de bênçãos que desprezou. Estes versículos podem, com pequena adaptação, aplicar-se a uma igreja próspera, onde os convertidos crescem e são belos, os tesouros do evangelho são fartos, e o crescimento espiritual é dos mais animadores. Ali os ministros e obreiros estão em pleno vigor, e o povo é feliz e unido. Que o Senhor assim o faça em todas as nossas igrejas, para sempre.
Versículo 15Salmo 144:15
Feliz é o povo que assim se encontra. Coisas assim não devem ser ignoradas. As bênçãos temporais não são ninharias, pois sua falta seria calamidade terrível. É grande felicidade pertencer a um povo tão favorecido.
Sim, feliz é o povo cujo Deus é o Senhor. Isto vem como explicação de sua prosperidade. No Antigo Testamento, Israel tinha recompensas terrenas imediatas pela obediência: quando Jeová era seu Deus, era uma nação enriquecida e florescente. Esta sentença também funciona como uma espécie de correção de tudo o que veio antes; como se o poeta dissesse — todos esses dons temporais fazem parte da felicidade, mas o coração e a alma da felicidade estão em o povo estar certo com Deus, e tê-lo em plena posse. Os que adoram o Deus feliz se tornam um povo feliz. Então, se não temos as misericórdias temporais em sentido literal, temos algo melhor: se não temos a prata da terra, temos o ouro do céu, que é ainda melhor. Neste salmo, Davi atribui seu próprio poder sobre o povo, e a prosperidade que acompanhou seu reinado, ao próprio Senhor. Feliz era a nação que ele governava; feliz em seu rei, em suas famílias, em sua prosperidade e na posse da paz; mas feliz, mais ainda, em desfrutar da verdadeira religião e adorar a Jeová, o único Deus vivo e verdadeiro.