Tesouros de Davi

Salmo 60

Leia o Salmo 60 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Eis um título longo, mas que nos ajuda bastante a expor o Salmo. Para o Cantor-mor, sobre Susã-Edute, ou o Lírio do Testemunho. O Salmo quarenta e cinco era sobre os lírios, e representava o guerreiro real saindo em sua beleza para a guerra; aqui o vemos repartindo os despojos e dando testemunho da glória de Deus. As melodias parecem ter nomes estranhos, mas isso resulta do fato de não sabermos o que havia na mente do compositor; do contrário, talvez parecessem tocantemente apropriados. Talvez a música ou os instrumentos musicais tenham mais a ver com este título do que o próprio Salmo. Ainda assim, em cânticos de guerra, rosas e lírios são frequentemente mencionados, e alguém se lembra do Cântico dos Huguenotes de Macaulay, embora talvez erremos ao mencionar um verso tão carnal —

"Agora, pelos lábios daquelas que amais, nobres gentis-homens da França,

Carregai pelos lírios de ouro, investi contra eles com a lança."

Mictão de Davi, para ensinar. Davi obedeceu ao preceito de ensinar os filhos de Israel; registrou os poderosos atos do Senhor para que fossem recitados aos ouvidos das gerações vindouras. Segredos dourados devem ser proclamados dos telhados; essas coisas não foram feitas num canto e não devem ser sepultadas em silêncio. Devemos aprender com alegria o que a inspiração tão belamente ensina. Quando pelejou contra Arã-Naaraim e contra Arã-Zobá. As tribos arameias unidas buscaram vencer Israel, mas foram estrondosamente derrotadas. Quando Joabe voltou. Ele estivera empenhado noutra região, e os inimigos de Israel aproveitaram sua ausência, mas com seu retorno, ao lado de Abisai, a sorte da guerra se inverteu. E feriu a Edom no vale do Sal, doze mil homens. Mais do que isso parece ter caído, segundo 1 Crônicas 18:12, mas isto comemora uma parte memorável do conflito. Terrível deve ter sido a batalha, mas decisivos foram de fato os resultados, e o poder do inimigo ficou totalmente quebrado. Bem merecia o Senhor um cântico de seu servo.

DIVISÃO. Propriamente, pode-se dizer que o cântico consiste de três partes: os versos de lamento, Salmos 60:1-3; os versos de alegria, Salmos 60:4-8; os versos de súplica, Salmos 60:9-12. Dividimo-lo conforme o sentido parecia mudar.

Exposição

Versículo 1Salmo 60:1

Antes dos dias de Saul, Israel fora reduzido a grande humilhação; durante o seu governo, sofreu com discórdias internas, e o seu reinado terminou com um desastre esmagador em Gibeão. Davi viu-se possuidor de um trono cambaleante, atribulado pelo duplo mal das facções internas e da invasão estrangeira. Ele logo reconduziu o mal à sua verdadeira fonte, e começou pela nascente. Sua era a política da piedade, que, afinal, é a mais sábia e profunda. Sabia que o desagrado do Senhor trouxera a calamidade sobre a nação, e dedicou-se, em oração fervorosa, a remover esse desagrado.

Ó Deus, tu nos rejeitaste. Tu nos trataste como coisas repugnantes e ofensivas, a serem lançadas fora; como pessoas vis e miseráveis, a serem evitadas com desprezo; como ramos secos e inúteis, a serem arrancados da árvore que desfiguram. Ser rejeitado por Deus é a pior calamidade que pode acometer um homem ou um povo; mas a pior forma disso é quando a pessoa não tem consciência nem se importa. Quando o abandono divino causa pranto e arrependimento, será apenas parcial e passageiro. Quando uma alma rejeitada suspira pelo seu Deus, ela de fato não está rejeitada.

Tu nos espalhaste. Davi vê claramente os frutos da ira divina; atribui a fuga dos guerreiros de Israel, o quebrantamento do seu poder, a divisão em seu corpo político, à mão de Deus. Fosse quem fosse o agente secundário desses desastres, ele enxerga a mão do Senhor como a causa primeira e motora, e a ela apresenta sua súplica. Israel era como uma cidade com brecha aberta em seu muro, porque o seu Deus se irara contra ela. Estes dois primeiros versículos, com sua confissão deprimente, devem ser vistos como algo que engrandece muito a força da fé que, nos versículos seguintes, se alegra em dias melhores, mediante o gracioso retorno do Senhor ao seu povo.

Tu te indignaste. Este é o segredo de nossas misérias. Se te tivéssemos agradado, tu nos terias dado o teu agrado; mas, como andamos contrários a ti, tu andaste contrário a nós.

Ó, volta-te para nós outra vez. Perdoa o pecado e sorri mais uma vez. Volta-nos a ti, volta tu a nós. Antes, o teu rosto se voltava para o teu povo; agrada-te de olhar para nós de novo com o teu favor e a tua graça. Alguns leem: "Tu te voltarás para nós outra vez", e pouco importa qual leitura tomemos, pois uma oração de coração sincero traz a bênção tão depressa que não é presunção considerá-la já obtida.

Havia mais necessidade de Deus se voltar para o seu povo do que de as tropas de Judá serem corajosas, ou de Joabe e os comandantes serem sábios. Deus conosco é melhor do que batalhões fortes; Deus contrariado é mais terrível do que todos os edomitas que já marcharam ao vale do Sal, ou todos os demônios que já se opuseram à igreja. Se o Senhor se voltar para nós, que nos importam Arã-Naaraim ou Arã-Zobá, a morte ou o inferno? Mas, se ele retirar a sua presença, trememos à queda de uma folha.

Versículo 2Salmo 60:2

Tu fizeste tremer a terra. As coisas estavam tão desordenadas como se a terra sólida tivesse sido feita tremer; nada era estável; os sacerdotes haviam sido assassinados por Saul, os piores homens tinham sido postos em cargos, o poder militar fora quebrado pelos filisteus, e a autoridade civil se tornara desprezível por causa de insurreições e contendas internas.

Tu a rompeste. Assim como a terra se racha e se abre em fendas durante violentos terremotos, também o reino se rasgava de discórdia e calamidade. Sara as suas roturas. Assim como uma casa em tempo de terremoto é sacudida, e as paredes começam a rachar e a se abrir em fissuras ameaçadoras, assim era com o reino.

Porque ela treme. Cambaleava para a queda; se não fosse logo escorada e reparada, viria abaixo em completa ruína. Tão longe havia ido Israel, que só a intervenção de Deus poderia preservá-lo da destruição total.

Quantas vezes já vimos igrejas nessa condição, e quão apropriada é a oração diante de nós, na qual o extremo da necessidade é usado como argumento para o socorro! O mesmo se pode dizer de nossa religião pessoal: às vezes ela é tão provada que, como uma casa sacudida por terremoto, está prestes a desabar num estrondo, e ninguém além do próprio Senhor pode reparar suas roturas e salvar-nos da destruição total.

Versículo 3Salmo 60:3

Tu fizeste ver ao teu povo coisas duras. Provações lhe haviam sido amontoadas, e o salmista atribui essas rigorosas providências à sua fonte primeira. Nada acontecera por acaso, mas tudo viera por desígnio divino e com um propósito; ainda assim, as coisas haviam sido duras para Israel. O salmista afirma que eles continuavam sendo o próprio povo do Senhor, embora, no primeiro versículo, tivesse dito: "tu nos rejeitaste". A linguagem da queixa costuma ser confusa, e a fé, em tempo de aflição, não tarda a contradizer as declarações desanimadas da carne.

Tu nos fizeste beber o vinho do espanto. As nossas aflições nos tornaram como homens embriagados por algum vinho potente e amargo; estamos em espanto, confusão, delírio; nossos passos vacilam, e cambaleamos como quem está prestes a cair. O grande médico dá aos seus pacientes poções potentes para purgar suas doenças abundantes e profundamente arraigadas.

Males espantosos trazem consigo resultados espantosos. As uvas da vinha do pecado produzem um vinho que enche de angústia até os mais endurecidos, quando a justiça os obriga a esvaziar o cálice.

Há uma água de fogo de angústia da alma que, até para os justos, se torna um cálice de tremor, capaz de deixá-los sobremodo tristes, quase até à morte. Quando a tristeza se torna tão habitual a ponto de ser a nossa bebida, e toma o lugar das nossas alegrias, tornando-se o nosso único vinho, então estamos, de fato, em situação muito má.

Versículo 4Salmo 60:4

Aqui a melodia toma outro rumo. O Senhor chamou de volta a si os seus servos, e os comissionou para o seu serviço, apresentando-lhes um estandarte a ser usado em suas guerras. Tu deste um estandarte aos que te temem. As suas aflições os haviam levado a manifestar temor santo, e então, tornados aptos para o favor do Senhor, ele lhes deu uma insígnia, que seria ao mesmo tempo ponto de reunião para as suas hostes, prova de que ele os enviara para lutar, e garantia de vitória.

Os homens mais bravos costumam ser encarregados do estandarte, e é certo que os que temem a Deus hão de ter menos medo do homem do que quaisquer outros. O Senhor nos deu o estandarte do evangelho; vivamos para sustentá-lo, e, se necessário, morramos para defendê-lo.

O nosso direito de contender por Deus, e a nossa razão para esperar êxito, se acham no fato de que a fé foi uma vez entregue aos santos, e isso pelo próprio Senhor.

Para que seja arvorado por causa da verdade. Estandartes são feitos para a brisa, o sol, a batalha. Israel bem podia sair adiante com ousadia, pois um estandarte sagrado era erguido diante dele. Publicar o evangelho é dever sagrado; envergonhar-se dele é pecado mortal.

A verdade de Deus estava envolvida no triunfo dos exércitos de Davi; ele lhes prometera vitória; e assim, na proclamação do evangelho, não precisamos sentir hesitação alguma, pois, tão certo quanto Deus é verdadeiro, ele dará êxito à sua própria palavra.

Por amor da verdade, e porque o verdadeiro Deus está do nosso lado, emulemos, nestes dias modernos de combate, os guerreiros de Israel, e desfraldemos os nossos estandartes à brisa com alegria confiante. Sinais sombrios do mal presente ou vindouro não devem desanimar-nos; se o Senhor tivesse a intenção de nos destruir, não nos teria dado o evangelho; o próprio fato de ele ter-se revelado em Cristo Jesus envolve a certeza da vitória. Magna est veritas et praevalebit — grande é a verdade e prevalecerá.

Coisas duras sobre nós puseste, E nos fizeste beber vinho bem amargo; Mas ainda assim o teu estandarte hasteamos, E bem alto elevamos a tua verdade divina.

Nossa coragem não falha, ainda que a noite Nenhuma lâmpada terrena consiga romper, Pois em breve te levantarás com poder, E dos nossos captores farás cativos.

Selá. Há tanto no fato de um estandarte ter sido dado às hostes de Israel — tanto de esperança, de dever, de consolo — que uma pausa é aqui bem introduzida. O sentido a justifica, e o tom mais alegre da música a torna necessária.

Versículo 5Salmo 60:5

Para que os teus amados sejam livres. Davi era o amado do Senhor — seu nome significa "querido, ou amado" —, e havia em Israel um remanescente segundo a eleição da graça, que era o amado do Senhor; por causa deles o Senhor operou grandes maravilhas, e tinha os olhos postos neles em todos os seus atos poderosos.

Os amados de Deus são a semente íntima, por cuja causa ele preserva toda a nação, que serve de casca à parte vital. Este é o desígnio principal da providência — que os teus amados sejam livres; se não fosse por causa deles, ele não daria estandarte nem lhe enviaria vitória.

Salva com a tua destra, e ouve-me. Salva imediatamente, antes que a oração termine; o caso é desesperado, a menos que haja salvação imediata. Não te demores, ó Senhor, até que eu acabe de suplicar: salva primeiro, e ouve depois. A salvação há de ser régia e eminente, tal como somente a mão onipotente de Deus, aliada à sua hábil sabedoria, pode realizar.

A angústia urgente leva os homens a súplicas prementes e ousadas como esta. Podemos, pela fé, pedir e esperar que a nossa extremidade seja a oportunidade de Deus; livramentos especiais e memoráveis serão realizados quando calamidades terríveis parecerem iminentes.

Aqui há um suplicante por muitos, tal como no caso da intercessão do nosso Senhor por seus santos. Ele, o Davi do Senhor, suplica pelo resto dos amados, amados e aceitos nele, o Amado Principal; busca a salvação como se fosse para si mesmo, mas o seu olhar está sempre sobre todos os que são um com ele no amor do Pai.

Quando a intervenção divina é necessária para o resgate dos eleitos, ela há de ocorrer, pois a primeira e maior necessidade da providência é a honra de Deus e a salvação de seus escolhidos. Isto é destino fixo, o centro do decreto imutável, o pensamento mais íntimo do Jeová que não muda.

Versículo 6Salmo 60:6

Deus falou na sua santidade. A fé nunca está mais feliz do que quando pode apoiar-se na promessa de Deus. Ela contrapõe isso a todas as circunstâncias desanimadoras; digam o que disserem as providências exteriores, a voz de um Deus fiel afoga todo som de lágrima.

Deus prometera a Israel a vitória, e a Davi o reino; a santidade de Deus assegurava o cumprimento de sua própria aliança, e por isso o rei falava com confiança.

A boa terra fora assegurada às tribos pela promessa feita a Abraão, e essa concessão divina era garantia mais que suficiente para a crença de que as armas de Israel triunfariam na batalha. Crente, faze bom uso disto, e bane as dúvidas enquanto as promessas permanecerem.

Eu me regozijarei, ou "eu triunfarei". A fé considera a promessa não como ficção, mas como fato, e por isso bebe dela a alegria, e por ela agarra a vitória. "Deus falou; eu me regozijarei": eis uma divisa própria para todo soldado da cruz.

Repartirei Siquém. Como vencedor, Davi distribuiria o território conquistado àqueles a quem Deus o dera por sorte. Siquém era uma porção importante do país, que ainda não se rendera ao seu governo; mas ele via que, com a ajuda de Jeová, isso aconteceria, e de fato já lhe pertencia por completo. A fé reparte os despojos; ela tem certeza do que Deus prometeu, e entra desde já na posse.

E medirei o vale de Sucote. Assim como a leste, também a oeste do Jordão deveria ser repartido às pessoas devidas. Os inimigos deveriam ser expulsos, e os marcos de posse pacífica, estabelecidos. Onde Jacó armara a sua tenda, ali os seus legítimos herdeiros deveriam lavrar a terra.

Quando Deus falou, o seu "há de ser" divino torna o nosso "eu farei" não uma jactância vazia, mas o eco apropriado do decreto do Senhor. Crente, levanta-te e toma posse das misericórdias da aliança. Reparte Siquém, e mede o vale de Sucote. Não deixes que dúvidas e legalismos cananeus te impeçam de entrar na herança da graça. Vive à altura dos teus privilégios; toma o bem que Deus te provê.

Versículo 7Salmo 60:7

Meu é Gileade, e meu é Manassés. Ele reivindica toda a terra em virtude da promessa. Menciona outras duas grandes divisões do país, deleitando-se evidentemente em contemplar a boa terra que o Senhor lhe dera. Todas as coisas são nossas, sejam as presentes, sejam as vindouras; nenhuma porção mesquinha pertence ao crente, e que ele não pense pequenamente dela. Nenhum inimigo poderá reter da verdadeira fé o que Deus lhe deu, pois a graça a torna poderosa para arrancá-lo do adversário. A vida é minha, a morte é minha, pois Cristo é meu.

Efraim também é a força da minha cabeça. Todo o poder militar da valente tribo estava à disposição de Davi, e ele louva a Deus por isso. Deus há de dobrar ao cumprimento de seus propósitos todo o valor dos homens; a igreja pode clamar: "a bravura dos exércitos é minha"; Deus há de fazer reverter todas as suas conquistas para o progresso da sua causa.

Judá é o meu legislador. Ali estava concentrado o poder civil: o rei, sendo daquela tribo, promulgava as suas leis a partir dela. Não conhecemos outro legislador senão o Rei que saiu de Judá.

A todas as pretensões de Roma, ou de Oxford, ou dos concílios dos homens, não damos atenção; estamos livres de qualquer outro governo eclesiástico que não seja o de Cristo; mas a ele prestamos obediência alegre: Judá é o meu legislador. Em meio às perturbações, é grande coisa ter uma legislação boa e sã; foi um bálsamo para as feridas de Israel, e é a nossa alegria na Igreja de Cristo.

Versículo 8Salmo 60:8

Tendo olhado para dentro com satisfação, o rei-herói agora olha para fora com exultação. Moabe, tão nociva para mim em tempos passados, é a minha bacia de lavar. A bacia na qual cai a água quando derramada de um jarro sobre os meus pés. Um mero recipiente para reter a água suja depois que meus pés nela foram lavados.

Certa vez ela contaminou Israel, segundo o conselho de Balaão, filho de Beor; mas não poderá mais perpetrar tal vileza; será uma bacia de lavar para aqueles a quem procurou corromper. Os ímpios, pois neles vemos o mal, o fruto e o castigo do pecado, ajudarão a purificação dos santos.

Isso é contrário à vontade deles, e à natureza das coisas, mas a fé encontra mel no leão, e uma bacia de lavar na imunda Moabe. Davi trata os seus inimigos como insignificantes e sem importância; uma nação inteira ele conta apenas como um lava-pés para o seu reino.

Sobre Edom lançarei o meu sapato. Como um homem, ao banhar-se, joga os sapatos para o lado, assim ele obteria domínio sobre os descendentes do soberbo Esaú com a mesma facilidade com que um homem atira um sapato. Talvez lançasse o sapato como hoje os homens lançam a luva, como um desafio para ousarem disputar o seu domínio.

Ele não precisava puxar a espada para ferir o seu adversário agora aleijado e totalmente desalentado, pois, se ousasse rebelar-se, bastaria lançar-lhe a chinela, e ele tremeria. Facilmente somos vencedores quando a Onipotência abre o caminho. Virá o dia em que a igreja há de, com igual facilidade, sujeitar a China e a Etiópia ao cetro do Filho de Davi.

Todo crente também pode, pela fé, triunfar sobre todas as dificuldades, e reinar com aquele que nos fez reis e sacerdotes. "Venceram pelo sangue do Cordeiro" ainda há de ser dito de todos os que repousam no poder de Jesus.

Filístia, exulta por minha causa. Sê tão subjugada a ponto de te alegrares com as minhas vitórias sobre os meus outros inimigos. Ou será que ele quer dizer: eu, que feri o teu campeão, afinal te subjuguei de tal modo que jamais poderás alegrar-te contra Israel outra vez; mas, se precisares exultar, que seja comigo, e não contra mim; ou será antes um desafio zombeteiro, uma peça de ironia?

Ó soberba Filístia, onde estão as tuas jactâncias? Onde agora os teus olhares altivos, e as tuas conquistas prometidas? Assim ousamos desafiar o último inimigo: "Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó sepultura, onde está a tua vitória?"

Tão totalmente sem esperança é a causa do inferno quando o Senhor sai para a batalha, que até a mais fraca filha de Sião pode sacudir a cabeça para o inimigo, e rir dele com desprezo. Ó a glorificação da fé! Não há nela um grão sequer de vanglória, mas as suas santas jactâncias ninguém pode impedir. Quando o Senhor pronuncia a promessa, não seremos lentos em nos alegrar e nos gloriar nela.

Versículo 9Salmo 60:9

Ainda não haviam sido subjugadas as fortalezas interiores de Edom. As suas hostes invasoras haviam sido mortas no vale do Sal, e Davi pretendia levar as suas conquistas até Petra, a cidade da rocha, tida por inexpugnável.

Quem me conduzirá à cidade forte? Ela era quase inacessível, e daí a pergunta de Davi. Quando alcançamos grande êxito, isso deve ser estímulo para maiores esforços, mas não deve tornar-se motivo de autoconfiança. Devemos buscar força no Forte tanto ao fim de uma campanha quanto no seu início.

Quem me guiará a Edom? Bem alto entre as estrelas erguia-se a cidade de pedra, mas Deus podia guiar até ela o seu servo. Nenhuma altura de graça é elevada demais para nós, sendo o Senhor nosso guia, mas devemos guardar-nos de tentar coisas altas por autossuficiência.

EXCELSIOR é bom o bastante como brado, mas devemos olhar para o mais alto de todos em busca de orientação. Joabe não pôde conduzir Davi a Edom. Os veteranos do vale do Sal não conseguiram forçar a passagem, mas ainda assim deveria ser tentada, e Davi olhava para o Senhor em busca de ajuda.

Nações pagãs ainda serão subjugadas. A cidade das sete colinas ainda há de ouvir o evangelho. Quem dará à igreja o poder para realizar isso? A resposta não está longe de ser encontrada.

Versículo 10Salmo 60:10

Não serás tu, ó Deus, que nos rejeitaste? Sim, o Deus que castiga é a nossa única esperança. Ele ainda nos ama. Por um pequeno momento nos abandona, mas com grande misericórdia reúne o seu povo. Forte para ferir, ele é também forte para salvar.

Aquele que nos provou a nossa necessidade dele, mostrando-nos que pobres criaturas somos sem ele, agora há de revelar a glória do seu socorro, conduzindo grandes empreendimentos a um desfecho nobre.

E tu, ó Deus, que não saías com os nossos exércitos? O mesmíssimo Deus és tu, e a ti a fé se apega. Ainda que nos mates, confiaremos em ti, e esperaremos o teu misericordioso socorro.

Versículo 11Salmo 60:11

Dá-nos socorro na angústia. Ajuda-nos a vencer os desastres da discórdia civil e da invasão estrangeira; salva-nos de novas incursões de fora e de divisão por dentro. Faze tu, ó Senhor, este livramento, pois vão é o socorro do homem.

Aprendemos dolorosamente a total impotência de exércitos, reis e nações sem a tua ajuda. Os nossos estandartes arrastados na lama provaram a nossa fraqueza sem ti, mas aquele estandarte erguido diante de nós há de testemunhar a nossa bravura, agora que vieste ao nosso resgate.

Quão docemente convém este versículo ao povo provado de Deus, como uma exclamação frequente! Sabemos quão verdadeiro isso é.

Versículo 12Salmo 60:12

Por meio de Deus faremos proezas. De Deus procede todo poder, e tudo o que fazemos bem é feito por operação divina; mas ainda assim nós, como soldados do grande Rei, devemos lutar, e lutar com valentia.

A operação divina não é argumento para a inação humana; antes, é o melhor estímulo para o esforço corajoso. Ajudados no passado, seremos ajudados também no futuro, e, certos disso, resolvemos agir como homens.

Pois é ele quem pisará os nossos inimigos. Dele há de proceder a força; a ele será dada a honra. Como palha na eira sob os pés dos bois, pisaremos os nossos inimigos abatidos, mas será antes o pé dele que os prensa do que o nosso; a mão dele sairá contra eles para os derrubar e os manter em sujeição.

No caso dos cristãos, há muito encorajamento para uma resolução semelhante à da primeira cláusula. Faremos proezas; não nos envergonharemos das nossas cores, não temeremos os nossos inimigos, nem seremos temerosos quanto à nossa causa. O Senhor está conosco, a onipotência nos sustenta, e não hesitaremos; não ousamos ser covardes.

Ó, quisera que o nosso Rei, o verdadeiro Davi, viesse reclamar a terra, pois o reino é do Senhor, e ele é o governador entre as nações.

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