Tesouros de Davi

Salmo 142

Leia o Salmo 142 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Maschil de Davi. Este Maschil foi escrito para nossa instrução. Ele nos ensina, sobretudo pelo exemplo, como ordenar nossa oração em tempos de aflição. Tal instrução está entre as partes mais necessárias, práticas e eficazes de nossa educação espiritual. Quem aprendeu a orar recebeu a mais útil das artes e ciências. Os discípulos disseram ao Filho de Davi: "Senhor, ensina-nos a orar"; e aqui Davi nos dá uma lição valiosa ao registrar sua própria experiência de súplica debaixo de uma nuvem.

Uma Oração, quando estava na caverna. Ele estava em um de seus muitos esconderijos, fosse Engedi, Adulão, ou alguma outra caverna solitária onde pudesse ocultar-se de Saul e seus cães de caça. Cavernas são bons aposentos de oração; sua penumbra e solidão ajudam no exercício da devoção. Se Davi tivesse orado tanto em seu palácio quanto orou em sua caverna, talvez nunca tivesse caído no ato que trouxe tanta miséria sobre seus últimos dias.

ASSUNTO. Há pouca dúvida de que este cântico é dos dias em que Saul perseguia Davi cruelmente, e o próprio Davi estava em aflição de alma, produzida provavelmente por aquela fraqueza de fé que o levou a se associar a príncipes pagãos. Sua sorte estava evidentemente no ponto mais baixo e, pior ainda, sua reputação tinha caído terrivelmente; contudo, ele mostrou fé verdadeira em Deus, a quem revelou suas dores urgentes. A penumbra da caverna paira sobre o salmo, e, no entanto, como que de pé à entrada dela, o poeta profeta vê uma luz clara um pouco mais adiante.

Exposição

Versículo 1Salmo 142:1

Clamei ao SENHOR com a minha voz. Foi um clamor de tal angústia que ele o recorda muito tempo depois, e o registra por escrito. Na solidão da caverna, podia usar a voz à vontade; por isso fez suas abóbadas sombrias ecoarem com seus apelos ao céu. Quando não havia alma alguma na caverna buscando seu sangue, Davi, com toda a sua alma, estava ocupado em buscar o seu Deus. Sentia alívio no coração ao usar a voz em suas súplicas a Jeová. Havia voz em sua oração quando usava a voz para orar: não era vox et praeterea nihil — voz e nada mais. Era uma oração vivo corde tanto quanto vivâ voce — de coração vivo e de voz viva.

Com a minha voz supliquei ao SENHOR. Ele insiste no fato de que orou em voz alta; isso, evidentemente, ficou bem gravado em sua memória, por isso ele repete a palavra e diz: "com a minha voz; com a minha voz". É bom quando nossas súplicas são tais que temos prazer em relembrá-las. Quem se anima com a lembrança de suas orações voltará a orar.

Veja como o apelo desse homem bom foi somente a Jeová: ele não deu voltas até os homens, mas correu direto a Jeová, seu Deus. Que verdadeira sabedoria há aqui! Considere como a oração do salmista foi tomando forma à medida que avançava. Primeiro derramou seus anseios naturais — "clamei"; depois reuniu todo o seu juízo e ordenou seus pensamentos — "supliquei".

Orações verdadeiras podem diferir na dicção, mas não na direção: um clamor impulsivo e uma súplica premeditada sobem igualmente até o único Deus que ouve orações, e ele aceitará ambas com igual prontidão. É notável o intenso caráter pessoal desta oração: sem dúvida o salmista se alegrava com as orações dos outros, mas não se contentava em ficar calado ele mesmo. Veja como tudo está na primeira pessoa: "clamei com a minha voz; com a minha voz supliquei". É bom orar no plural — "Pai nosso" —, mas em tempos de aflição sentiremos a necessidade de mudar o tom para "Passa de mim este cálice".

Versículo 2Salmo 142:2

Derramei diante dele a minha queixa. Sua meditação interior enchia-lhe a alma: a água amarga subia até a borda; o que fazer? Ele precisava derramar o absinto e o fel, não podia contê-los; deixa que escoem como podem, para que seu coração se esvazie da mistura fermentada.

Mas ele teve o cuidado de escolher onde derramar sua queixa, para não causar mal nem receber má resposta. Se a derramasse diante dos homens, talvez só recebesse desprezo dos soberbos, dureza de coração dos descuidados, ou fingida simpatia dos falsos; por isso resolveu derramá-la só diante de Deus, pois só ele teria compaixão e traria alívio.

A palavra dificilmente significa "queixa"; mas, mesmo que seja essa a tradução, podemos aprender deste texto que nossa queixa jamais deve ser do tipo que não ousamos trazer diante de Deus. Podemos nos queixar a Deus, mas não de Deus. Quando nos queixamos, isso não deve ser diante dos homens, mas diante de Deus somente.

Expus diante dele a minha angústia. Ele exibiu suas dores a quem podia aliviá-las: não caiu no erro comum de tantos que publicam suas tristezas a quem não pode ajudá-los.

Este verso é paralelo ao primeiro; Davi primeiro derrama sua queixa, deixando-a fluir de modo natural e espontâneo, e depois faz uma exposição mais elaborada de sua aflição; assim como no verso anterior (Salmo 142:1) ele começou clamando e passou a "suplicar". Homens de oração oram melhor à medida que avançam.

Note que não expomos nossa angústia diante do Senhor para que ele a veja, mas para que nós o vejamos. É para nosso alívio, e não para informá-lo, que fazemos declarações claras sobre nossas dores: faz muito bem pôr nossa tristeza em ordem, pois grande parte dela se desfaz nesse processo, como um fantasma que não suporta a luz do dia; e o restante perde muito de seu terror, porque o véu do mistério se rasga com uma exposição clara e deliberada dos fatos difíceis. Derrame seus pensamentos e verá o que eles são; exponha sua angústia e conhecerá toda a sua extensão: que tudo seja feito diante do Senhor, pois, em comparação com sua grande majestade de amor, a angústia parecerá coisa nenhuma.

Versículo 3Salmo 142:3

Quando o meu espírito se angustiava dentro de mim, tu conheceste a minha vereda. O espírito mais corajoso às vezes é posto duramente à prova. Uma névoa pesada desce sobre a mente, e o homem parece afogado e sufocado nela; coberto por uma nuvem, esmagado por um peso, confundido por dificuldades, vencido por impossibilidades. Davi era um herói, e ainda assim seu espírito se abateu: podia derrubar um gigante, mas não conseguia se manter de pé.

Ele não conhecia o próprio caminho, nem se sentia capaz de suportar o próprio fardo. Note seu consolo: ele desviou o olhar de sua própria condição para o Deus sempre atento e onisciente, e se confortou com o fato de que tudo era conhecido pelo seu Amigo celestial. É bom, de fato, saber que Deus conhece o que nós não conhecemos. Nós perdemos a cabeça, mas Deus nunca fecha os olhos: nosso juízo perde o equilíbrio, mas a mente eterna está sempre lúcida.

No caminho em que eu andava, ocultamente me armaram um laço. Isso o Senhor já sabia na hora, e avisou seu servo a respeito. Olhando para trás, o doce cantor se alegra por ter tido um Guardião tão gracioso, que o preservou de perigos invisíveis.

Nada está escondido de Deus; nenhum laço secreto pode ferir o homem que habita no esconderijo do Altíssimo, pois ele habitará à sombra do Onipotente. O uso de armadilhas ocultas é vergonhoso para nossos inimigos, mas eles pouco se importam com os artifícios a que recorrem para seus propósitos malignos.

Homens perversos precisam de algum exercício para sua malícia, e por isso, quando não ousam atacar abertamente, armam laços em segredo. Vigiam o homem piedoso para descobrir onde é o seu esconderijo, e ali armam a cilada; mas o fazem com grande cautela, evitando toda observação, para que a vítima, prevenida, não escape de suas ciladas. Esta é uma grande provação, mas o Senhor é ainda maior, e nos faz caminhar em segurança em meio ao perigo, pois ele conhece a nós e aos nossos inimigos, o nosso caminho e o laço que nele foi armado. Bendito seja o seu nome.

Versículo 4Salmo 142:4

Olhei para a minha direita, e vi, mas não havia quem me conhecesse. Não lhe faltou um amigo por falta de procurar, nem por falta de olhar num lugar provável. Certamente algum socorro se encontraria no lugar de honra; alguém estaria à sua direita para assumir sua defesa. Ele olhou atentamente, e viu tudo o que havia para ver, pois "vi"; mas seu olhar ansioso não encontrou um sorriso de resposta.

É estranho dizer, mas todos eram estranhos para Davi. Ele conhecera muitos, mas nenhum queria conhecê-lo. Quando alguém cai em má fama, é impressionante como a memória de seus antigos amigos enfraquece: eles esquecem por completo, recusam-se a reconhecê-lo. Isto é uma calamidade terrível.

É melhor ser combatido por inimigos do que abandonado por amigos. Quando os amigos nos procuram, fingem ter nos conhecido desde o nascimento; mas quando nós procuramos amigos, é impressionante como pouco conseguimos fazê-los lembrar: o fato é que, em tempos de abandono, não é verdade que ninguém nos conhecesse, mas que ninguém queria nos conhecer. A ignorância deles é proposital.

Faltou-me refúgio. Onde em dias mais felizes eu encontrava porto seguro, agora não descobria nenhum. Meu lugar de fuga havia fugido. Meu refúgio me deu uma recusa.

Ninguém se importava com a minha alma. Se eu vivesse ou morresse, isso não era problema de ninguém. Fui lançado fora como um proscrito. Nenhuma alma se importava com a minha alma. Eu habitava em terra de ninguém, onde ninguém se importava em me ter, e ninguém se importava comigo.

Esta é uma situação penosa — nenhum lugar onde reclinar a cabeça, e nenhuma cabeça disposta a nos arranjar um lugar. Como se alegravam os inimigos ao ver o amigo de Deus sem um amigo! Como era triste estar completamente abandonado em sua maior necessidade! Não podemos imaginar Davi na caverna, queixando-se de que nem mesmo a caverna era um refúgio para ele, pois Saul tinha chegado até ali? Sem esperança era o seu olhar para os lados; logo o veremos olhar para cima.

Versículo 5Salmo 142:5

Clamei a ti, ó SENHOR. Como os homens não queriam olhar para ele, Davi foi impelido a Jeová, seu Deus. Não foi isto um ganho tirado de uma perda? Uma riqueza conquistada num fracasso? Tudo que nos leva a clamar a Deus é uma bênção para nós.

Esta é a segunda vez, neste breve salmo, que encontramos o mesmo registro: "clamei a ti, ó SENHOR"; o homem santo evidentemente tem prazer em recordar seu clamor e seus resultados. Ouvimos com frequência falar de The Bitter Cry of Outcast London — o grito amargo dos desamparados de Londres —, e aqui temos outro grito amargo, vindo também de um desterrado, em pobres cômodos, esquecido por aqueles que deveriam tê-lo socorrido.

Disse: Tu és o meu refúgio e a minha porção na terra dos viventes. Há uma espécie de repetição progressiva ao longo deste cântico sagrado; ele primeiro clamou, mas depois disse: seu clamor foi amargo, mas o que disse foi doce; seu clamor foi breve e agudo, mas o que disse foi pleno e renovado. Dá grande prazer ao crente recordar suas próprias declarações de fé: ele bem pode desejar sepultar no esquecimento seus murmúrios de incredulidade, mas jamais sonhará em esquecer os triunfos da graça que nele operou uma fé viva.

Que grande confissão de fé foi esta! Davi falou a Deus, e sobre Deus: "Tu és o meu refúgio." Não "tu me deste um refúgio", mas "tu, tu mesmo, és o meu refúgio". Ele fugiu somente para Deus; escondeu-se debaixo das asas do Eterno. Ele não apenas creu nisso, mas o disse, e o praticou.

E não foi só isso; pois Davi, banido de sua porção na terra prometida, e privado dos bens que por direito lhe pertenciam por herança, encontrou sua porção em Deus — sim, Deus era a sua porção. Isso não valia apenas para um estado futuro, mas aqui mesmo, entre os vivos. Às vezes é mais fácil crer numa porção no céu do que numa porção na terra: julgamos mais fácil morrer do que viver, ao menos é o que pensamos. Mas não há viver na terra dos viventes como viver do Deus vivo.

Para o homem de Deus dizer essas coisas preciosas na hora de sua dura angústia foi uma grande conquista. É fácil falar com bravura quando vivemos tranquilos, mas falar com confiança na aflição é bem outra coisa. Mesmo nesta única frase temos duas partes, a segunda elevando-se muito acima da primeira. É algo ter Jeová por refúgio, mas é tudo tê-lo por porção. Se Davi não tivesse clamado, não teria dito; e se o Senhor não fosse o seu refúgio, jamais teria sido a sua porção. O degrau inferior é tão necessário quanto o superior; mas não é preciso parar sempre no primeiro degrau da escada.

Versículo 6Salmo 142:6

Atende ao meu clamor. Os homens de Deus veem a oração como uma realidade, e não se contentam sem obter audiência com Deus; além disso, têm tal confiança na graça condescendente do Senhor, que esperam que ele atenda até mesmo àquela pobre oração quebrada que só pode ser chamada de clamor. Porque estou muito abatido, e por isso toda a oração que consigo erguer é um clamor pesaroso. Este é o seu argumento diante de Deus: ele está reduzido a uma condição tão triste que, se não for resgatado, será arruinado. Homens piedosos podem não apenas estar abatidos, mas muito abatidos; e isso não deve ser motivo para duvidarem da eficácia de suas orações, mas antes um argumento diante do Senhor para que recebam atenção especial.

Livra-me dos meus perseguidores, pois, se ele não escapasse das mãos deles, logo o matariam sem mais delongas; e como ele mesmo não podia efetuar uma fuga, clamou a Deus: "livra-me". Porque são mais fortes do que eu. Assim como antes encontrara um argumento em sua tristeza, agora o encontra em sua fraqueza: Saul e seus cortesãos estavam no poder, e podiam contar com a ajuda de todos os que buscavam o favor real; mas o pobre Davi estava na caverna, e até qualquer Nabal o insultava. Saul era rei, e Davi um fugitivo; Saul tinha todas as formas da lei a seu favor, enquanto Davi era um foragido: de modo que esta oração vem dos fracos, que, como diz o provérbio, vão de encontro à parede — um bom lugar para ir, se voltarem o rosto para ela em oração, como fez Ezequias em sua enfermidade.

O Senhor costuma tomar o partido dos oprimidos, e mostrar seu poder frustrando tiranos; por isso a súplica de Davi certamente teria êxito. Nestas frases vemos com que clareza o homem de Deus descreveu sua situação em seus diálogos privados com o seu Senhor: com toda a seriedade, derramou diante dele a sua queixa e lhe mostrou a sua angústia.

Versículo 7Salmo 142:7

Tira a minha alma da prisão, para que eu louve o teu nome. Que Deus seja glorificado é outro argumento notável para um suplicante. Prisioneiros libertos certamente falam bem de quem lhes deu liberdade; a emancipação da alma é a forma mais nobre de libertação, e clama pelo mais alto louvor: quem é liberto dos calabouços do desespero certamente há de magnificar o nome do Senhor.

Estamos numa prisão tal que só Deus mesmo pode nos tirar dela, e, quando o faz, põe um cântico novo em nossa boca. A caverna não era nem metade do calabouço que a perseguição e a tentação faziam da alma de Davi para o seu corpo. Ser exilado dos piedosos é pior do que a prisão; por isso Davi faz da restauração à comunhão da igreja um ponto de sua libertação.

Os justos me cercarão. Os santos se reúnem ao redor de um filho de Deus quando seu Pai lhe sorri; vêm ouvir seu testemunho alegre, alegrar-se com ele, e ter sua própria fé encorajada.

Todos os verdadeiros crentes das doze tribos se alegravam em cerrar fileiras sob o estandarte de Davi quando o Senhor dilatava seu espírito; glorificavam a Deus por causa dele, com ele e por meio dele. Congratularam-se com ele, associaram-se a ele, o coroaram e o defenderam. Foi uma experiência doce para o justo Davi, que por algum tempo estivera sob a censura dos retos. Ele suportou com paciência as suas censuras, e agora recebe com gratidão a aprovação deles.

Porque tu me tratarás com bondade. O trato bondoso de Deus certamente traz consigo a simpatia e a aliança de todos os favoritos do Grande Rei. Que mudança — de procurar um amigo e não encontrar nenhum, a este entusiástico ajuntamento de aliados ao redor do homem segundo o coração de Deus! Quando podemos começar um salmo chorando, podemos esperar terminá-lo cantando. A voz da oração logo desperta a voz do louvor.

Obras sobre este salmo

Em Life of David, de Chandler, vol. 1, pp. 157–160, há uma Exposição deste Salmo.


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