Salmo 78
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TÍTULO. Maschil de Asafe. Este Salmo é chamado, com razão, de instrutivo. Não é uma mera recapitulação de eventos importantes na história de Israel, mas deve ser visto como uma parábola que expõe a conduta e a experiência dos crentes em todas as épocas. É prova singular da obtusidade mental de muitos professos crentes o fato de que se oponham a sermões e exposições sobre as partes históricas da Escritura, como se elas não contivessem instrução em matérias espirituais: se essas pessoas fossem de fato iluminadas pelo Espírito de Deus, perceberiam que toda a Escritura é proveitosa, e se envergonhariam de sua própria tolice ao subestimar qualquer porção do volume inspirado.
DIVISÃO. A unidade se mantém bem ao longo de todo o salmo, mas, para conveniência do leitor, podemos notar que Salmos 78:1-8 pode ser visto como um prefácio, expondo o objetivo do salmista no épico que está compondo. De Salmos 78:9-41 o tema é Israel no deserto; intervém então um relato da bondade anterior do Senhor para com seu povo, ao tirá-lo do Egito por meio de pragas e maravilhas, Salmos 78:42-52. A história das tribos é retomada em Salmos 78:53, e continua até Salmos 78:66, onde chegamos ao tempo da transferência da arca para Sião e da passagem da liderança de Israel de Efraim para Judá, o que é celebrado em cântico de Salmos 78:67-72.
Exposição
Versículo 1Salmo 78:1
Dá ouvidos, povo meu, à minha lei. O bardo inspirado convoca seus compatriotas a atentarem para o seu ensino patriótico. Naturalmente esperamos que a nação escolhida de Deus seja a primeira a ouvir a sua voz. Quando Deus dá língua à sua verdade, e envia seus mensageiros treinados para declarar sua palavra com poder, o mínimo que podemos fazer é dar-lhes ouvidos e a obediência sincera do coração. Há de Deus falar, e seus filhos recusarem-se a ouvir? O seu ensino tem a força de lei; rendamos a ele tanto o ouvido quanto o coração.
Inclinai os ouvidos às palavras da minha boca. Prestem atenção séria, dobrem o pescoço teimoso, inclinem-se para captar cada sílaba. Somos, neste dia, como leitores dos registros sagrados, obrigados a estudá-los profundamente, explorando seu sentido e labutando para praticar o que ensinam. Assim como o oficial de um exército começa seu treinamento chamando por "Sentido!", também todo soldado treinado de Cristo é chamado a dar ouvidos às suas palavras. Os homens emprestam os ouvidos à música — quanto mais deveriam ouvir as harmonias do evangelho; ficam enlevados na presença de um orador — quanto mais deveriam render-se à eloquência do céu.
Versículo 2Salmo 78:2
Abrirei em parábola a minha boca. As analogias não devem apenas ser imaginadas, mas são traçadas por Deus deliberadamente entre a história de Israel e a vida dos crentes. Israel foi ordenado para ser um tipo; as tribos e suas marchas são alegorias vivas traçadas pela mão de uma providência sapientíssima. Pessoas sem espírito podem zombar de fantasias e misticismos, mas Paulo falou bem quando disse "as quais coisas são uma alegoria", e Asafe, no caso presente, falou com precisão quando chamou sua narrativa de "uma parábola". Que essa era sua intenção fica claro pela citação: "Tudo isto falou Jesus por parábolas à multidão, e sem parábolas não lhes falava, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: Abrirei em parábolas a minha boca, publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo." Mateus 13:34-35.
Publicarei enigmas dos tempos antigos — enigmas da antiguidade, adivinhas de outrora. A mente do poeta profeta estava tão repleta de tradições antigas que ele as derramou num rio caudaloso de canto, enquanto sob a torrente jorrante repousavam pérolas e joias de verdade espiritual, capazes de enriquecer quem soubesse mergulhar nas profundezas e trazê-las à tona. A letra deste cântico é preciosa, mas o sentido interior está além de todo preço. Enquanto o primeiro versículo pedia atenção, o segundo justifica a exigência ao sugerir que o sentido exterior esconde um significado interior e oculto, que só os atentos conseguirão perceber.
Versículo 3Salmo 78:3
O que temos ouvido e sabido, e nossos pais no-lo têm contado. A tradição prestou o mais alto serviço ao povo de Deus nos tempos antigos, antes que a palavra mais segura da profecia se tornasse completa e amplamente acessível. Receber a verdade dos lábios de outros colocava o crente instruído sob a obrigação solene de transmiti-la à geração seguinte. A verdade, tornada cara a nós por sua associação afetuosa com pais piedosos e amigos venerandos, merece de nós o melhor esforço para preservá-la e propagá-la. Nossos pais no-la contaram, nós os ouvimos e sabemos pessoalmente o que ensinaram; resta a nós, por nossa vez, transmiti-la adiante. Bendito seja Deus, temos agora o testemunho menos mutável da revelação escrita, mas isso de modo algum diminui nossa obrigação de instruir nossos filhos na verdade divina de viva voz: antes, com tal ajuda graciosa, devemos ensinar-lhes com muito mais plenitude as coisas de Deus. O Dr. Doddridge deveu muito aos azulejos holandeses e às explicações de sua mãe sobre as narrativas bíblicas. Quanto mais ensino paterno, melhor; ministros e professores de escola dominical nunca foram feitos para substituir as lágrimas da mãe e as orações do pai.
Versículo 4Salmo 78:4
Não as encobriremos aos seus filhos. Nosso silêncio negligente não privará a nossa própria descendência, nem a de nossos pais, da preciosa verdade de Deus — seria vergonhoso se assim fizéssemos.
Mostrando à geração vindoura os louvores do Senhor. Olharemos para as gerações futuras, e nos empenharemos em prover sua educação piedosa. É dever da igreja de Deus manter, em pleno vigor, todo meio destinado à educação religiosa dos jovens; é neles que devemos buscar a igreja do futuro, e como semearmos para com eles, assim colheremos. As crianças devem ser ensinadas a engrandecer o Senhor; devem ser bem informadas quanto aos seus feitos maravilhosos em eras passadas, e levadas a conhecer a sua força e as maravilhas que ele tem feito.
A melhor educação é a educação nas melhores coisas. A primeira lição de uma criança deveria ser a respeito do Deus de sua mãe. Ensine-lhe o que quiser: se não aprender o temor do Senhor, perecerá por falta de conhecimento. A gramática é alimento pobre para a alma se não for temperada pela graça. Toda mochila escolar deveria ter uma Bíblia dentro. O mundo pode ensinar apenas o conhecimento secular — é tudo o que tem coração para saber —, mas a igreja não deve tratar assim a sua prole; deve cuidar bem de cada Timóteo, e zelar para que, desde criança, ele conheça as Sagradas Escrituras.
Ao redor da lareira, os pais deveriam repetir não só os relatos bíblicos, mas os feitos dos mártires e reformadores, e ainda o trato do Senhor com eles mesmos, tanto na providência quanto na graça. Não ousamos seguir as tradições vãs e viciosas da igreja apóstata de Roma, nem compararíamos o registro falível das melhores memórias humanas com a palavra escrita e infalível; mas gostaríamos de ver a tradição oral praticada por todo cristão em sua família, e as crianças ensinadas de bom grado, de viva voz, por seus próprios pais e mães, tanto quanto pelas páginas impressas que tantas vezes consideram cartilhas maçantes e secas. Que horas felizes e serões agradáveis têm tido as crianças aos pés dos pais, ao ouvir alguma "doce história antiga". Leitor, se você tem filhos, cuide para não falhar neste dever.
Versículo 5Salmo 78:5
Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó. A nação favorecida existia com o propósito mesmo de manter a verdade de Deus em meio à idolatria ao redor. Deles eram os oráculos; eram os guardiões e conservadores da verdade.
E constituiu uma lei em Israel, a qual ordenou a nossos pais que a fizessem conhecer a seus filhos. O testemunho do Deus verdadeiro devia ser transmitido de geração em geração pela instrução cuidadosa das famílias sucessivas. Temos a ordem para essa transmissão oral dada com muita frequência no Pentateuco, e basta citar um exemplo de Deuteronômio 6:7: "E as ensinarás diligentemente a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te." Leitor, se você é pai ou mãe, tem cumprido conscienciosamente este dever?
Versículo 6Salmo 78:6
Para que a geração vindoura as soubesse, os filhos que nascessem. Enquanto nossa breve vida permitir dispor, devemos prover industriosamente a criação piedosa da juventude. As narrativas, os mandamentos e as doutrinas da palavra de Deus não estão gastos; estão destinados a exercer influência enquanto durar a nossa raça.
E se levantassem e as contassem a seus filhos. O único objetivo visado é a transmissão; o testemunho só é dado para que seja repassado às gerações seguintes.
Versículo 7Salmo 78:7
Para que pusessem em Deus a sua esperança. A fé vem pelo ouvir. Os que conhecem o nome do Senhor porão nele a sua esperança, e levá-los a isso é o principal fim de todo ensino espiritual.
E não se esquecessem das obras de Deus. A graça cura más memórias; os que logo esquecem as obras misericordiosas do Senhor precisam de ensino; precisam aprender a arte divina da santa memória.
Mas guardassem os seus mandamentos. Os que esquecem as obras de Deus certamente falharão nas suas próprias. Quem não guarda na memória o amor de Deus dificilmente lembrará a sua lei. O propósito do ensino é prático; a santidade para com Deus é o fim que buscamos, e não o encher da cabeça com noções especulativas.
Versículo 8Salmo 78:8
E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde. Havia espaço para melhora. Pais teimosos em seu próprio caminho, e rebeldes contra o caminho de Deus, são exemplos lamentáveis para os filhos; e deseja-se ardentemente que uma instrução melhor produza uma raça melhor. É comum em algumas regiões que os homens considerem o costume de família como a melhor regra; mas a desobediência não se justifica por ser hereditária. A lepra não era menos repugnante por estar há muito tempo na família. Se nossos pais foram rebeldes, devemos ser melhores do que eles foram, ou pereceremos como eles pereceram.
Geração que não pôs reto o seu coração. Não tinham decisão pela justiça e pela verdade. Neles não havia prontidão, nem disposição de coração, para acolher o Salvador; nem juízos, nem misericórdias podiam prender suas afeições ao seu Deus; eram inconstantes como os ventos, e mutáveis como as ondas.
E cujo espírito não foi fiel para com Deus. As tribos no deserto só eram constantes em sua inconstância; não se podia confiar nelas. Era, de fato, necessário que seus descendentes fossem advertidos, para que não os imitassem cegamente. Quão bendito seria se cada geração superasse a anterior; mas, ai, é de temer que o declínio seja mais comum do que o progresso, e muitas vezes os herdeiros de verdadeiros santos são bem mais rebeldes do que seus pais o foram em sua condição não regenerada. Que a leitura deste cântico patriótico e divino mova muitos a labutar pela elevação de si mesmos e de sua posteridade.
Versículo 9Salmo 78:9
Os filhos de Efraim, armados e portando arcos, viraram as costas no dia da batalha. Bem equipada e munida com as melhores armas do seu tempo, a tribo líder falhou em fé e coragem, e recuou diante do inimigo. Houve várias ocasiões particulares disso, mas provavelmente o salmista se refere ao fracasso geral de Efraim em conduzir as tribos à conquista de Canaã. Quantas vezes também nós, embora providos de toda arma graciosa, falhamos em travar guerra vitoriosa contra os nossos pecados; avançamos com bravura suficiente até chegar a hora da prova, e então, "no dia da batalha", nos mostramos falsos às boas resoluções e às obrigações sagradas. Como é totalmente vão o homem não regenerado! Cubra-o com o melhor que a natureza e a graça podem fornecer, e ele ainda permanece um covarde indefeso na guerra santa, enquanto lhe faltar uma fé leal ao seu Deus.
Versículo 10Salmo 78:10
Não guardaram o pacto de Deus. Votos e promessas foram quebrados, ídolos foram erguidos, e o Deus vivo foi abandonado. Foram tirados do Egito para serem um povo separado para o Senhor, mas caíram nos pecados das outras nações, e não mantiveram um testemunho puro do único Deus verdadeiro.
E recusaram andar na sua lei. Cederam à fornicação, à idolatria e a outras violações do decálogo, e viviam com frequência em estado de rebelião contra a benigna teocracia sob a qual viviam. Haviam se comprometido no Sinai a guardar a lei, e depois a desobedeceram deliberadamente, tornando-se assim violadores do pacto.
Versículo 11Salmo 78:11
E se esqueceram das suas obras, e das maravilhas que lhes tinha mostrado. Se as tivessem recordado, teriam se enchido de gratidão e inspirado de santo temor: mas a memória das misericórdias de Deus para com eles se apagava tão depressa quanto se estivesse escrita na água. Mal uma geração conseguia reter o senso da presença divina no poder milagroso, e a geração seguinte já precisava de uma renovação das manifestações extraordinárias, e mesmo assim não se satisfazia sem muitas repetições delas. Antes de os condenarmos, arrependamo-nos de nosso próprio esquecimento perverso, e confessemos as muitas ocasiões em que também nós fomos desatentos aos favores passados.
Versículo 12Salmo 78:12
O Egito, aqui chamado o campo de Zoã, foi o cenário de coisas maravilhosas realizadas em pleno dia, à vista de Israel. Foram extraordinárias, em escala vasta, assombrosas, indiscutíveis, e de molde a tornar impossível que um israelita fosse desleal a Jeová, o Deus de Israel.
Versículo 13Salmo 78:13
Dividiu o mar, e os fez passar por ele. Uma maravilha dupla, pois, uma vez divididas as águas, o fundo do mar naturalmente estaria em estado muito impróprio para a passagem de uma hoste tão vasta quanto a de Israel; teria sido, de fato, intransponível, se o Senhor não tivesse feito a estrada para o seu povo. Quem mais já conduziu uma nação através de um mar? No entanto, o Senhor tem feito isso repetidas vezes por seus santos em libertações providenciais, abrindo-lhes um caminho onde nada menos que um braço onipotente poderia tê-lo feito.
E fez parar as águas como um montão. Proibiu que uma gota caísse sobre os seus escolhidos; eles não sentiram respingo algum das paredes de cristal a ambos os lados. O fogo descerá e a água se erguerá à ordem do Senhor de tudo. A natureza das criaturas não lhes é intrínseca, mas é mantida ou alterada pela vontade daquele que primeiro as criou. O Senhor pode fazer com que os males que ameaçam nos arrasar suspendam suas ações ordinárias, e se tornem inofensivos para nós.
Versículo 14Salmo 78:14
De dia também os conduziu com uma nuvem. ELE fez tudo. Ele, sozinho. Ele os trouxe ao deserto, e ele os conduziu por ele; não é próprio do Senhor começar uma obra e depois cessar dela enquanto está incompleta. A nuvem tanto guiava quanto dava sombra às tribos. Era, de dia, um vasto anteparo solar, tornando suportável o calor intenso do sol e o brilho da areia do deserto.
E toda a noite com uma luz de fogo. Tão constante era o cuidado do Grande Pastor que, toda noite e cada noite, o sinal da sua presença estava com o seu povo. Aquela nuvem que era sombra de dia era como sol de noite. Assim mesmo a graça que refresca e acalma as nossas alegrias, também suaviza e consola as nossas tristezas. Que misericórdia ter uma luz de fogo conosco em meio aos horrores solitários do deserto da aflição. O nosso Deus tem sido tudo isso para nós — e nós lhe seremos infiéis? Temos sentido que ele é tanto sombra quanto luz, conforme as nossas circunstâncias mutáveis o exigiam.
Ele foi nosso gozo na aflição,
alegrou nosso coração quando estava abatido,
e, com avisos suavemente tristes,
acalmou nosso coração quando estava alegre.
Que esta experiência tantas vezes renovada ligue os nossos corações a ele em laços firmíssimos.
Versículo 15Salmo 78:15
Fendeu as rochas no deserto. Moisés foi o instrumento, mas o Senhor fez tudo.
E deu-lhes de beber abundantemente, como dos abismos. Duas vezes fez do sílex um ribeiro jorrante. O que ele não pode fazer? E deu-lhes de beber como dos grandes abismos — como se jorrasse dos reservatórios mais íntimos da terra. As correntes eram tão frescas, tão copiosas, tão constantes, que pareciam brotar das fontes primitivas da terra, e saltar de uma vez do "abismo que jaz embaixo". Aqui houve um suprimento divino para a necessidade urgente de Israel, e um suprimento tal que deveria tê-los mantido para sempre em fidelidade inabalável ao seu Deus operador de maravilhas.
Versículo 16Salmo 78:16
O suprimento de água era tão abundante em quantidade quanto miraculoso em origem. Torrentes, não gotas, saíam das rochas. Correntes seguiam o acampamento; o suprimento não era de uma hora ou de um dia. Isto foi uma maravilha de bondade. Se contemplarmos a abundância da graça divina, ficaremos perdidos em admiração. Rios poderosos de amor correram por nós no deserto. Ai, grande Deus! a nossa retribuição não tem sido equivalente a isso — antes, bem o contrário.
Versículo 17Salmo 78:17
E ainda mais pecaram contra ele. Superando os seus pecados anteriores, entrando em abismos maiores de maldade: quanto mais tinham, mais alto clamavam por mais, e murmuravam por não terem todo luxo que apetites mimados pudessem desejar. Já era mau desconfiar do seu Deus quanto ao necessário, mas revoltar-se contra ele numa fúria gananciosa por supérfluos era muito pior. É sempre da natureza da doença do pecado ir de mal a pior; os homens jamais se cansam de pecar, mas antes aceleram na corrida da iniquidade. No caso presente, a bondade de Deus foi transformada, por abuso, em motivo para maior pecado. Se o Senhor não tivesse sido tão bom, eles não teriam sido tão maus. Se ele tivesse operado menos milagres antes, eles não teriam sido tão indesculpáveis na sua incredulidade, tão desenfreados na sua idolatria.
Provocando ao Altíssimo no deserto. Embora estivessem numa posição de dependência óbvia de Deus para tudo, estando num deserto onde o solo nada podia lhes render de sustento, ainda assim tiveram a desfaçatez de provocar o seu benfeitor. Ora provocavam o seu zelo com o anseio por deuses falsos, ora excitavam a sua ira com desafios ao seu poder, calúnias contra o seu amor, rebeliões contra a sua vontade. Ele era toda a bondade do amor, e eles toda a superfluidade da maldade. Eram favorecidos acima de todas as nações, e contudo nenhuma era mais malfavorecida. Para eles os céus derramavam maná, e eles retribuíam com murmúrios; as rochas lhes davam rios, e eles respondiam com dilúvios de maldade. Nisto, como num espelho, nos vemos a nós mesmos. Israel no deserto encenou, como num drama, toda a história da conduta do homem para com o seu Deus.
Versículo 18Salmo 78:18
E tentaram a Deus no seu coração. Ele não foi tentado, pois não pode ser tentado por ninguém, mas eles agiram de modo calculado para tentá-lo, e é sempre justo imputar aos homens aquilo que é a tendência óbvia da sua conduta. Cristo não pode morrer outra vez, e no entanto muitos o crucificam de novo, porque esse seria o resultado legítimo do seu comportamento, se os efeitos dele não fossem impedidos por outras forças. Os pecadores no deserto teriam feito o Senhor mudar seus sábios desígnios para agradar aos seus caprichos; por isso se diz que o tentaram.
Pedindo carne para o seu apetite. Queriam eles que Deus se tornasse fornecedor da sua ganância? Não havia outra saída senão ele dar-lhes tudo o que os seus apetites doentios pudessem cobiçar? O pecado começou nos seus corações, mas logo alcançou as suas línguas. O que a princípio desejaram em silêncio, logo passaram a exigir em voz alta, com ameaças, insinuações e censuras.
Versículo 19Salmo 78:19
Deste versículo aprendemos que a incredulidade em Deus é uma calúnia contra ele.
Sim, falaram contra Deus. Mas como? A resposta é: Disseram: Poderá Deus preparar uma mesa no deserto? Questionar a capacidade de alguém manifestamente onipotente é falar contra ele. Essa gente foi vil o bastante para dizer que, embora seu Deus lhes tivesse dado pão e água, ainda assim não conseguiria propriamente ordenar ou prover uma mesa. Podia dar-lhes alimento grosseiro, mas não podia preparar um banquete devidamente arranjado — foi isso que, ingratos, ousaram declarar. Como se o maná fosse um mero paliativo, e a rocha que jorrava água um expediente temporário, pediam uma mesa regularmente servida, como a que estavam acostumados no Egito.
Ai, como também nós já contendemos com as nossas bênçãos, e desejamos, resmungões, algum bem imaginário, contando os nossos gozos reais como coisa nenhuma, só porque não se ajustavam exatamente às nossas fantasias tolas. Aqueles que não se contentam falarão contra a providência mesmo quando ela os carrega diariamente de benefícios.
Versículo 20Salmo 78:20
Eis que feriu a rocha, e águas correram, e ribeiros transbordaram. Admitem o que ele havia feito, e mesmo assim, com insensatez e insolência superabundantes, exigem novas provas de sua onipotência.
Poderá também dar pão? Poderá prover carne para o seu povo? Como se o maná não fosse nada, como se apenas o alimento animal fosse verdadeiro sustento para os homens. Se tivessem argumentado "não poderá ele também dar carne?", o argumento seria razoável, mas caíram na insensatez: tendo visto tantas maravilhas da onipotência, ousaram insinuar que outras coisas estavam além do poder divino.
Contudo, também nisso, temos imitado a sua conduta insensata. Cada nova dificuldade tem excitado nova incredulidade. Ainda somos tolos e tardios de coração para crer no nosso Deus, e esta é uma falta a ser lamentada com a mais profunda penitência. Por essa causa o Senhor muitas vezes se ira conosco e nos castiga severamente; pois a incredulidade traz em si um grau de provocação da espécie mais alta.
Versículo 21Salmo 78:21
Assim o Senhor ouviu isto, e se indignou. Ele não era indiferente ao que diziam. Habitava entre eles no lugar santo, e, portanto, o insultavam em sua própria face. Não ouviu um relato disso — a própria linguagem chegou aos seus ouvidos.
Assim se acendeu um fogo contra Jacó. O fogo da sua ira, que também foi acompanhado de queimaduras literais.
E a ira também subiu contra Israel. Quer os visse à luz mais baixa, quer à mais alta, como Jacó ou como Israel, ele se irava contra eles: mesmo como simples homens, deveriam tê-lo crido; e como tribos escolhidas, sua incredulidade perversa era sem desculpa. O Senhor faz bem em irar-se contra insulto tão ingrato, gratuito e covarde quanto o questionamento do seu poder.
Versículo 22Salmo 78:22
Porquanto não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação. Este é o pecado mestre, o pecado clamoroso. Como Jeroboão, filho de Nebate, ele peca e faz Israel pecar; é em si mesmo mau e pai de outros males. Foi esse pecado que fechou a Canaã diante de Israel, e é ele que fecha o céu diante de miríades. Deus está pronto para salvar, unindo poder e disposição, mas o homem rebelde não quer confiar no seu Salvador, e por isso já está condenado. No texto, parece que todos os outros pecados de Israel eram como nada comparados a este; este é o ponto peculiar para o qual o Senhor aponta, a provocação especial que o irou. Que todo incrédulo aprenda com isto a tremer mais diante de sua incredulidade do que diante de qualquer outra coisa. Se não for fornicador, nem ladrão, nem mentiroso, que reflita que já é o bastante para condená-lo o fato de não confiar na salvação de Deus.
Versículo 23Salmo 78:23
Ainda que tivesse ordenado às nuvens lá de cima. Tal maravilha deveria ter tornado a incredulidade impossível: quando as nuvens se tornam celeiros, ver deveria ser crer, e as dúvidas deveriam se dissolver.
E aberto as portas do céu. As grandes portas do depósito foram escancaradas, e o trigo do céu se derramou em montes. Os que não quisessem crer diante de um caso assim eram, de fato, endurecidos; e no entanto a nossa própria situação é bem semelhante, pois o Senhor tem operado por nós grandes libertações, tão memoráveis e inegáveis quanto aquelas, e ainda assim suspeitas e temores nos assombram. Poderia ter fechado sobre nós as portas do inferno; em vez disso, abriu as portas do céu — não haveremos de crer nele e de o engrandecer por isto?
Versículo 24Salmo 78:24
E chovera sobre eles maná para comerem. Havia tanto disso que os céus se derramavam em alimento, as nuvens rebentavam de provisões. Era comida própria, adequada não para se contemplar mas para se comer; podiam comê-la à medida que a colhiam. Por mais misterioso que fosse — a ponto de o chamarem maná, ou "o que é isto?" — era, ainda assim, eminentemente adequado ao sustento humano; e era tanto abundante quanto apropriado, e também disponível! Não tinham que ir buscá-lo longe, estava perto deles, e só precisavam recolhê-lo. Ó Senhor Jesus, tu bendito maná do céu, como tudo isso concorda contigo! Também agora nos alimentamos de ti como nosso manjar espiritual, e te pedimos que afugentes de nós toda incredulidade perversa. Nossos pais comeram maná e duvidaram; nós nos alimentamos de ti e nos enchemos de segurança.
E lhes dera do trigo do céu. Tudo foi dádiva, sem dinheiro e sem preço. Alimento que caía do alto, e era da melhor qualidade, a ponto de ser chamado trigo celestial, foi-lhes concedido de graça. O maná era redondo, como semente de coentro, e por isso foi corretamente chamado trigo; não brotava da terra, mas descia das nuvens, e por isso as palavras deste versículo são literalmente exatas. O ponto a notar é que essa maravilha das maravilhas deixou os espectadores, e os que dela se banquetearam, tão propensos quanto antes a desconfiar do seu Senhor.
Versículo 25Salmo 78:25
Comeu o homem o pão dos anjos. As iguarias dos reis foram superadas, pois lhes foram supridas as delícias dos anjos.
Enviou-lhes comida a fartar. Pão dos poderosos caiu sobre o homem débil. Aqueles que são menores que os anjos foram tão bem servidos quanto eles. Não foi para os sacerdotes, nem para os príncipes, que o maná caiu; mas para toda a nação, para cada homem, mulher e criança no acampamento: e havia o bastante para todos, pois lhes enviou comida a fartar. Os banquetes de Deus nunca são escassos; ele dá o melhor alimento, e em abundância. As provisões do evangelho merecem todo o louvor que possamos empilhar sobre elas; são gratuitas, plenas e excelentes; são preparadas, enviadas e concedidas por Deus. Bem alimentado está aquele a quem Deus alimenta; o manjar do céu é nutritivo e farto. Se já nos alimentamos de Jesus, provamos algo melhor que o pão dos anjos, pois
nunca os anjos provaram, lá no alto,
a graça que redime e o amor que morre.
Será nossa sabedoria comer dele até fartar-nos, pois Deus o enviou de tal modo que não estamos estreitados nele, mas nas nossas próprias entranhas. Felizes peregrinos que, no deserto, têm seu alimento enviado do próprio palácio do Senhor lá no alto; que comam abundantemente do banquete celestial, e engrandeçam a graça toda suficiente que supre todas as suas necessidades, segundo as suas riquezas em glória, por Cristo Jesus.
Versículo 26Salmo 78:26
Fez soprar nos céus o vento do oriente. Ele é Senhor Soberano, acima do príncipe da potestade do ar: as tempestades se levantam e os temporais sopram à sua ordem. Os ventos dormem até Deus os despertar, e então, como Samuel, cada um responde: "Eis-me aqui, pois tu me chamaste."
E pelo seu poder trouxe o vento sul. Ou esses ventos se seguiram um ao outro, soprando as aves na direção desejada, ou então se combinaram para formar um vento sudeste; em qualquer dos casos, cumpriram o desígnio do Senhor, e ilustraram o seu poder supremo e universal. Se um vento não servir, outro servirá; e, se necessário, ambos soprarão de uma vez. Falamos dos ventos inconstantes, mas a sua obediência ao seu Senhor é tal que merecem palavra melhor. Se nós mesmos fôssemos metade tão obedientes quanto os ventos, seríamos muito superiores ao que somos agora.
Versículo 27Salmo 78:27
Fez também chover sobre eles carne como pó. Primeiro fez chover pão, e depois carne, quando poderia ter feito chover fogo e enxofre. As palavras indicam a rapidez e a abundância das codornizes que desciam.
E aves de asas como a areia do mar. Não havia como contá-las. Por uma providência notável, quando não por milagre, imensas quantidades de aves migratórias foram levadas a pousar ao redor das tendas das tribos. Foi, contudo, uma bênção duvidosa, como costumam ser as riquezas facilmente adquiridas e superabundantes. Que o Senhor nos livre do alimento temperado com ira divina.
Versículo 28Salmo 78:28
E as fez cair no meio do seu arraial. Não tiveram jornada a fazer; haviam clamado por carne, e ela quase lhes voou à boca, ao redor das suas habitações. Isso os alegrou por um momento, mas não sabiam que misericórdias podem ser enviadas em ira — do contrário, teriam tremido à vista das boas coisas que haviam cobiçado.
Versículo 29Salmo 78:29
Assim comeram, e se fartaram bem. Devoraram gulosamente as aves, até a saciedade. O Senhor lhes mostrou que podia "prover carne para o seu povo", e ainda de sobra. Mostrou-lhes também que, quando a cobiça alcança o que deseja, se decepciona, e pelo caminho da fartura chega ao enjoo. Primeiro o alimento sacia, depois causa náusea.
Pois lhes deu o que desejavam. Foram fartos com os seus próprios caminhos. A carne lhes fazia mal, mas, como clamaram por ela, a tiveram, e uma maldição junto. Ó meu Deus, nega-me antes as minhas orações mais urgentes do que as respondas com desagrado. Melhor ter fome e sede de justiça do que fartar-se das iguarias do pecado.
Versículos 30–31Salmo 78:30-31
Não estavam eles ainda saciados do seu apetite. A cobiça cresce com aquilo de que se alimenta. Ainda que enjoados de tanta carne, os homens não se cansam da cobiça: mudam o objeto, mas continuam cobiçando. Quando um pecado se prova amargo, os homens não desistem, mas partem para outra iniquidade. Se, como Jeú, se afastam de Baal, caem a adorar os bezerros de Betel.
Ainda lhes estava a comida na boca — antes que pudessem digerir a carne cobiçada, ela se voltou para a sua destruição. A ira de Deus caiu sobre eles antes que pudessem engolir a sua primeira refeição de carne. Curto foi o prazer, súbita foi a sentença. A festa terminou em funeral.
E os matou nos mais gordos deles, e feriu os escolhidos de Israel. Talvez fossem estes os cabeças da cobiça; são os primeiros no castigo. A justiça de Deus não faz acepção de pessoas: caem tanto o forte e o valente quanto o fraco e o insignificante. O que comeram na terra digeriram no inferno, como muitos têm feito desde então. Quão depressa morreram, embora não sentissem o fio da espada! Quão terrível foi a devastação, embora não em meio ao estrondo da batalha! Minha alma, vê aqui o perigo das paixões satisfeitas: são as porteiras do inferno.
Quando o povo do Senhor tem fome, Deus o ama; Lázaro é o seu bem-amado, ainda que definhe sobre migalhas; mas quando engorda os ímpios, ele os abomina; Dives é odiado pelo céu quando banqueteia suntuosamente todos os dias. Jamais devemos ousar julgar a felicidade dos homens pelas suas mesas — é o coração o lugar para se olhar. O crente mais faminto e macilento é mais invejável do que o mais bem nutrido dos favoritos do mundo. Melhor ser o cão de Deus do que o queridinho do diabo.
Versículo 32Salmo 78:32
Com tudo isto ainda pecaram. Os juízos não os moveram mais que as misericórdias. Desafiaram a ira de Deus. Embora houvesse morte no cálice da sua iniquidade, não quiseram afastá-lo, mas continuaram a bebê-lo como se fosse uma poção saudável. Quão bem essas palavras se aplicam aos ímpios que já foram tantas vezes afligidos, postos num leito de doença, quebrantados de espírito e empobrecidos em bens, e ainda assim perseveraram nos seus maus caminhos, imóveis diante do terror, indiferentes às ameaças.
E não creram nas suas maravilhas. A sua incredulidade era crônica e incurável. Milagres, tanto de misericórdia quanto de juízo, não adiantaram nada. Podiam ser levados a admirar-se, mas não podiam ser ensinados a crer. A perseverança no pecado e a perseverança na incredulidade andam juntas. Se cressem, não teriam pecado; se não estivessem cegados pelo pecado, teriam crido. Há uma ação recíproca entre a fé e o caráter. Como pode crer quem ama o pecado? E, por outro lado, como pode o incrédulo deixar de pecar? Os caminhos de Deus para conosco na providência são, em si mesmos, tanto convincentes quanto convertedores, mas a natureza não regenerada recusa-se a ser convencida ou convertida por eles.
Versículo 33Salmo 78:33
Pelo que consumiu os seus dias na vaidade. Fora da fé, a vida é vaidade. Vaguear de um lado a outro no deserto foi coisa vã, de fato, quando a incredulidade os havia fechado fora da terra prometida. Era justo que aqueles que não quiseram viver para cumprir o propósito divino, crendo e obedecendo ao seu Deus, fossem levados a viver sem propósito algum, e a morrer antes do seu tempo, insatisfeitos, sem bênção. Os que desperdiçaram os seus dias no pecado pouca razão tinham para se admirar quando o Senhor abreviou as suas vidas, e jurou que jamais entrariam no descanso que haviam desprezado.
E os seus anos em turbação. Marchas cansativas eram a sua turbação, e não chegar a lugar nenhum de descanso era a sua vaidade. Inumeráveis sepulturas ficaram ao longo de todo o caminho de Israel, e se alguém perguntar: "Quem matou todos estes?", a resposta há de ser: "Não puderam entrar por causa da incredulidade." Sem dúvida, muito do tormento e do fracasso de muitas vidas resulta de serem minadas pela incredulidade, e corroídas por paixões más. Ninguém vive de modo tão infrutífero e tão infeliz quanto aqueles que permitem que o sentido e a vista se sobreponham à fé, e que a razão e o apetite dominem sobre o temor de Deus. Os nossos dias passam depressa o bastante segundo o curso ordinário do tempo, mas o Senhor pode fazê-los se consumir a um ritmo mais amargo ainda, até sentirmos como se a tristeza de fato devorasse o coração da nossa vida, e como uma praga corroesse a nossa existência. Tal foi o castigo do Israel rebelde; que o Senhor conceda que não seja o nosso.
Versículo 34Salmo 78:34
Quando os matava, então o procuravam. Como cães açoitados, lambiam os pés do seu senhor. Só obedeciam enquanto sentiam o chicote nos lombos. Duros são os corações que só a morte consegue mover. Enquanto milhares morriam ao seu redor, o povo de Israel tornava-se subitamente religioso, e corria para a porta do tabernáculo, como ovelhas que correm em massa quando o cão preto as impele, mas se dispersam e vagueiam quando o pastor o chama de volta com um assobio.
E se convertiam, e de madrugada buscavam a Deus. Não podiam ser zelosos demais; tinham pressa febril de provar a sua lealdade ao seu Rei divino. "O diabo doente, monge queria ser." Quem não seria piedoso enquanto a peste anda solta? Portas que jamais tinham sido tão santificadas antes vestiam então a cruz branca. Até os réprobos mandam chamar o pastor quando estão à morte. Assim os pecadores prestam homenagem involuntária ao poder do que é reto e à supremacia de Deus, mas a sua homenagem hipócrita vale pouco aos olhos do Grande Juiz.
Versículo 35Salmo 78:35
E se lembravam de que Deus era a sua rocha. Golpes agudos despertaram suas memórias sonolentas. A reflexão seguiu-se ao castigo. Foram levados a ver que toda a sua dependência devia estar posta no seu Deus; pois só ele havia sido o seu abrigo, o seu fundamento, a sua fonte de suprimento e o seu amigo imutável. O que poderia tê-los feito esquecer isso? Seria que os seus estômagos estavam tão cheios de carne que não sobrava espaço para ruminar sobre coisas espirituais?
E o Deus altíssimo, o seu redentor. Isto também tinham esquecido. A mão poderosa e o braço estendido que os redimiram da escravidão haviam ambos se apagado da sua visão mental. Ai, pobre homem, como és pronto para esquecer o teu Deus! Vergonha a ti, verme ingrato, por não teres senso algum dos favores poucos dias depois de os teres recebido. Nada te fará guardar na memória a misericórdia do teu Deus, a não ser a sua retirada total?
Versículo 36Salmo 78:36
Contudo, lisonjeavam-no com a boca. Maus eram no seu melhor. Falsos de joelhos, mentirosos nas suas orações. O culto de lábios deve ser muito detestável a Deus quando desligado do coração: outros reis amam a lisonja, mas o Rei dos reis a abomina. Visto que as aflições mais agudas só arrancam dos homens carnais uma submissão fingida a Deus, há prova positiva de que o coração está desesperadamente entregue à maldade, e que o pecado está enraizado na nossa própria natureza. Se você açoita um tigre com muitos golpes, não o transforma em ovelha. O diabo não pode ser expulso a chicotadas da natureza humana, ainda que outro diabo — a saber, a hipocrisia — possa ser nela introduzido a chicotadas. A piedade produzida pela umidade da tristeza e pelo calor do terror é de crescimento de cogumelo; brota depressa — "de madrugada buscavam a Deus" — mas é mero fungo insubstancial de uma agitação que não permanece.
E com a língua lhe mentiam. O seu discurso piedoso era jargão vazio, os seus louvores mero vento, a sua oração uma fraude. O seu arrependimento superficial era uma película fina demais para esconder a ferida mortal do pecado. Isto nos ensina a depositar pouca confiança nas professões de arrependimento feitas por homens moribundos, ou mesmo nessas, quando a base é evidentemente mero medo servil, e nada mais. Qualquer ladrão choraminga arrependimento se pensa que o juiz, com isso, se moverá a deixá-lo ir impune.
Versículo 37Salmo 78:37
Porque o seu coração não era reto para com ele. Não havia profundidade no seu arrependimento; não era obra do coração. Eram inconstantes como um cata-vento, todo vento os virava, a sua mente não estava firmada em Deus.
Nem foram fiéis no seu pacto. As suas promessas mal eram feitas e já eram quebradas, como se feitas apenas por zombaria. As boas resoluções batiam aos seus corações como os homens fazem em estalagens: demoravam-se um pouco, e depois se despediam. Estavam hoje quentes pela santidade, mas amanhã frios para com ela. Variáveis como as cores do golfinho, mudavam da reverência à rebelião, da gratidão ao murmúrio. Um dia davam o seu ouro para construir um tabernáculo a Jeová, e no dia seguinte arrancavam os seus brincos para fazer um bezerro de ouro. Certamente o coração é um camaleão. Proteu não teve tantas mudanças. Assim como na febre ardemos e gelamos, assim as naturezas inconstantes se comportam na sua religião.
Versículo 38Salmo 78:38
Mas ele, que é cheio de compaixão, perdoou a sua iniquidade, e não os destruiu. Embora estivessem cheios de lisonja, ele estava cheio de misericórdia, e por essa causa se compadeceu deles. Não por causa das suas pretensões lastimáveis e hipócritas de penitência, mas por causa da sua própria compaixão real por eles, ele passou por alto as suas provocações.
Sim, muitas vezes desviou a sua ira. Quando se irava contra eles, retirava o seu desagrado. Até setenta vezes sete perdoou as suas ofensas. Foi lento, muito lento, para se irar. A espada foi erguida e cintilou no ar, mas voltou à bainha, e a nação ainda viveu. Embora não mencionado no texto, sabemos pela história que um mediador intercedeu, o homem Moisés se pôs na brecha; assim mesmo, nesta hora, o Senhor Jesus intercede pelos pecadores, e desvia a ira divina. Muita árvore estéril fica de pé porque o vinhateiro clama: "deixa-a ainda este ano."
E não despertou toda a sua ira. Se o tivesse feito, teriam perecido num instante. Quando a sua ira se acende só um pouco, os homens são queimados como palha; mas se ele soltasse a sua indignação, a própria terra sólida se derreteria, e o inferno engoliria todo rebelde. Quem conhece o poder da tua ira, ó Senhor? Vemos a plenitude da compaixão de Deus, mas nunca vemos toda a sua ira.
Versículo 39Salmo 78:39
Porque se lembrou de que eram carne. Eles se esqueciam de Deus, mas ele se lembrava deles. Sabia que eram feitos de terra, frágeis, de material corruptível, e por isso os tratava com brandura. Embora nisso não visse desculpa para o seu pecado, ainda assim o transformou em motivo para misericórdia; o Senhor está sempre pronto a descobrir algum ou outro argumento pelo qual possa ter compaixão.
Vento que passa e não volta. O homem não é senão um sopro, que se vai para não voltar. Espírito e vento são, neste aspecto, semelhantes, no que toca à nossa humanidade; passam e não podem ser chamados de volta. Que coisa nenhuma é a nossa vida! Quão gracioso, da parte do Senhor, fazer da insignificância do homem um argumento para conter a sua ira.
Versículo 40Salmo 78:40
Quantas vezes o provocaram no deserto. Vezes suficientes se rebelaram: eram tão constantes na provocação quanto ele o era na sua paciência. No nosso próprio caso, quem pode contar os seus erros? Em que livro poderiam ser registradas todas as nossas rebeliões perversas? O deserto era um lugar de dependência manifesta, onde as tribos ficavam desamparadas sem os supridos divinos, e ainda assim feriam a mão que as alimentava enquanto ela as alimentava. Não há semelhança entre nós e eles? Isso não traz lágrimas aos nossos olhos, quando, como num espelho, vemos a nós mesmos?
E o entristeceram no deserto. As suas provocações tiveram efeito; Deus não era insensível a elas — diz-se que ficou entristecido. A sua santidade não podia se alegrar no pecado deles, a sua justiça no tratamento injusto que recebia, nem a sua verdade na falsidade deles. O que deve ser entristecer o Senhor do amor! Também nós temos afligido o Espírito Santo, e ele já teria há muito se retirado de nós, se ele não fosse Deus, e não homem. Estamos no deserto, onde precisamos do nosso Deus; não o transformemos num deserto de pecado, entristecendo-o.
Versículo 41Salmo 78:41
Sim, voltaram atrás. Os seus corações suspiravam pelo Egito e pelas suas panelas de carne. Voltavam aos seus velhos caminhos vez após vez, depois de terem sido açoitados para fora deles. Cheios de voltas e reviravoltas, jamais mantinham o caminho reto.
E tentaram a Deus. Tanto quanto estava neles, o tentaram. Os seus caminhos eram bons, e eles, ao desejar alterá-los, tentaram a Deus. Antes de crerem nele, exigiam sinais, desafiando o Senhor a fazer isto e aquilo, e agindo como se ele pudesse ser induzido a se tornar servo dos seus apetites. Que blasfêmia foi esta! Que não tentemos, porém, a Cristo, para que não sejamos também destruídos pelo destruidor.
E limitaram o Santo de Israel. Duvidaram do seu poder, e assim o limitaram; ditaram à sua sabedoria, e assim fizeram o mesmo. Traçar um caminho para Deus é arrogante impiedade. O Santo há de fazer o que é reto; o Deus da aliança de Israel há de ser verdadeiro; é a própria profanação dizer-lhe "farás isto ou aquilo, ou de outro modo não te adorarei." Não assim há de ser conduzido o Deus Eterno na coleira pela sua criatura impotente. Ele é o Senhor, e fará o que bem lhe parecer.
Versículo 42Salmo 78:42
Não se lembraram da sua mão. E, no entanto, deve ter sido difícil esquecê-la. Manifestações do poder divino como as que feriram o Egito de assombro devem ter exigido algum esforço fora do comum para apagá-las das tábuas da memória. Provavelmente quer-se dizer que esqueceram na prática, mais do que de fato. Quem esquece os retornos naturais da gratidão pode com justiça ser acusado de não se lembrar da obrigação.
Nem o dia em que os livrou do adversário. O próprio dia foi apagado do seu calendário, no que toca a qualquer resultado devido dele ou retribuição por ele. Estranha é a faculdade da memória, tanto no seu esquecimento quanto nos seus registros. O pecado perverte as faculdades do homem, torna-as vigorosas apenas nas direções erradas, e praticamente mortas para os fins justos.
Versículo 43Salmo 78:43
Como operou os seus sinais no Egito. As pragas eram estandartes da presença de Jeová e provas do seu ódio aos ídolos; esses atos instrutivos de poder foram realizados à vista de todos, como sinais erguidos para serem observados de longe e de perto.
E as suas maravilhas no campo de Zoã. Em toda a terra foram operados milagres, não só nas cidades, mas em todo o território amplo, nas regiões mais seletas e antigas daquela nação orgulhosa. Isto os israelitas não deveriam ter esquecido, pois eram o povo favorecido para quem esses feitos memoráveis foram realizados.
Versículo 44Salmo 78:44
E converteu em sangue os seus rios. As águas haviam sido o meio da destruição dos recém-nascidos de Israel, e agora elas, por assim dizer, denunciam o crime — enrubescem por ele, vingam-no contra os assassinos. O Nilo era a vitalidade do Egito, o seu verdadeiro sangue de vida, mas, à ordem de Deus, se tornou uma maldição corrente; cada gota dele era um horror, veneno para beber, e terror para se contemplar. Quão depressa o Onipotente poderia fazer isso com o Tâmisa ou com o Sena. Por vezes ele tem permitido que homens, que eram sua vara, tornassem os rios carmesins de sangue, e isto é um juízo severo; mas o episódio agora diante de nós foi mais misterioso, mais geral, mais completo, e deve, portanto, ter sido uma praga de primeira grandeza.
E as suas correntes, para que não pudessem beber. As correntes menores partilharam da maldição, reservatórios e canais sentiram o mal; Deus nada faz pela metade. Todo o Egito se orgulhava das águas doces do seu rio, mas foram levados a detestá-lo mais do que jamais o haviam amado. As nossas bênçãos podem depressa se tornar nossas misérias, se o Senhor tratar conosco em ira.
Versículo 45Salmo 78:45
Enviou entre eles enxames de moscas, que os devoraram. Pequenas criaturas se tornam grandes atormentadoras. Quando enxameiam, podem picar um homem até ameaçarem devorá-lo por completo. Neste caso, várias ordens de insetos lutaram sob a mesma bandeira; piolhos e besouros, mosquitos e vespões, vespas e moscas-varejeiras avançaram em batalhões ferozes, e atormentaram os pecadores do Egito sem misericórdia. As pragas mais diminutas são as maiores. Que espada ou lança poderia lutar contra essas hostes inumeráveis? Em vão a armadura e as vestes de majestade do monarca; os pequenos canibais não eram mais brandos com a carne real do que com qualquer outra — tinha o mesmo sangue, e o mesmo pecado sobre si. Quão grande é o Deus que assim, pelo mínimo, esmaga o magnificente.
E rãs, que os destruíram. Essas criaturas enxameavam por toda parte enquanto vivas, até o povo sentir-se prestes a morrer só de vê-las; e, quando os répteis morriam, os montões de seus corpos faziam a terra feder tão asquerosamente, que uma pestilência era iminente. Assim, não apenas a terra e o ar enviaram hordas de vida horrível, mas também a água acrescentou as suas legiões de repugnância. Parecia que o Nilo primeiro fora feito nauseabundo, e depois levado a abandonar de vez o seu leito, rastejando e saltando em forma de rãs. Os que contendem com o Onipotente pouco sabem que flechas há na sua aljava; pecado surpreendente será visitado com castigo surpreendente.
Versículo 46Salmo 78:46
Deu também à lagarta a sua novidade, e o seu trabalho ao gafanhoto. Diferentes espécies de devoradores comeram toda erva e árvore verde. O que um não comia, outro comia. O que esperavam da fertilidade natural do solo, e o que buscavam do seu próprio trabalho, viram devorado diante dos seus olhos por uma multidão insaciável contra cuja devastação nenhuma defesa se podia encontrar. Observe no texto que o Senhor fez tudo — "enviou", "deu", "destruiu", "entregou", etc.; qualquer que seja o agente segundo, a mão direta do Senhor está em toda visitação nacional.
Versículo 47Salmo 78:47
Destruiu as suas vinhas com saraiva. Não mais teu copeiro, ó Faraó, prensará os cachos no teu cálice! Os jovens ramos frutíferos foram quebrados, a vindima falhou.
E os seus sicômoros com geada. A geada não era comum, mas Jeová não observa leis da natureza quando os homens não observam as suas leis morais. O figo-sicômoro era, talvez, mais o fruto dos pobres do que a videira, por isso este juízo foi destinado a ferir o pobre, enquanto o anterior recaiu mais pesadamente sobre o rico. Note como os céus obedecem ao seu Senhor e cedem os seus depósitos de saraiva, e observe como o tempo inconstante é igualmente subserviente à vontade divina.
Versículo 48Salmo 78:48
Entregou também o seu gado à saraiva. Que saraiva deve ter sido essa, para ter força bastante para derrubar bois e outras grandes reses. Deus costuma proteger os animais de tal destruição, mas aqui retira as suas salvaguardas e os entrega; que o Senhor nunca nos entregue. Alguns leem "encerrou", e a ideia de ser abandonado a influências destrutivas se apresenta então de outra forma.
E os seus rebanhos a raios ardentes. O fogo se misturou com a saraiva, o fogo correu pelo chão, feriu o gado menor. Que tempestade deve ter sido aquela: os seus efeitos foram terríveis o bastante sobre as plantas, mas ver as pobres criaturas mudas feridas deve ter sido de partir o coração. Adamantino era o coração que não vacilou sob pragas como estas — mais duros que o diamante aqueles corações que, em anos posteriores, esqueceram tudo quanto o Senhor havia feito, e romperam a sua fidelidade a ele.
Versículo 49Salmo 78:49
Lançou sobre eles o ardor da sua ira, furor, indignação e angústia. A sua última flecha foi a mais aguda. Reservou o vinho forte da sua indignação para o fim. Note como o salmista acumula as palavras, e com razão; pois golpe seguiu golpe, cada um mais avassalador que o anterior, e então o golpe esmagador foi reservado para o final.
Enviando entre eles anjos maus. Mensageiros de mal entraram em suas casas à meia-noite, e feriram os objetos mais queridos do seu amor. Os anjos eram maus para eles, embora bons o bastante em si mesmos; aqueles que, para os herdeiros da salvação, são ministros de graça, são, para os herdeiros da ira, executores de juízo. Quando Deus envia anjos, eles com certeza vêm, e, se lhes ordena que matem, não pouparão. Veja como o pecado põe todos os poderes do céu em formação contra o homem; ele não tem mais amigo algum no universo quando Deus é seu inimigo.
Versículo 50Salmo 78:50
Preparou o caminho à sua ira — chegando ao ponto com eles por graus lentos; atacando primeiro as suas fortificações externas, destruindo os seus bens, e depois avançando sobre as suas pessoas, como por uma brecha aberta nas muralhas. Derrubou todos os confortos da sua vida, e então avançou contra a própria vida deles. Nada podia se interpor no seu caminho; abriu um espaço para executar seus adversários.
Não poupou a sua alma da morte, mas entregou a sua vida à pestilência. Na sua alma estava a origem do pecado, e ele o seguiu até a fonte, e ali o feriu. Uma doença feroz encheu a terra de incontáveis funerais; Jeová distribuiu miríades de golpes, e multidões de espíritos sucumbiram diante dele.
Versículo 51Salmo 78:51
E feriu a todo primogênito no Egito. Não se fizeram exceções: o monarca chorou o seu herdeiro tanto quanto a serva do moinho.
Feriram o primogênito do Senhor, o próprio Israel, e ele fere o deles.
O principal da sua força nas tendas de Cão. Balançando a sua foice sobre o campo, a morte ceifou as flores mais altas. As tendas de Cão conheceram, cada uma, a sua própria dor peculiar, e foram feitas a compartilhar das dores que haviam sido impostas sem piedade às habitações de Israel. Assim as maldições voltam ao ninho de onde partiram. Os opressores são pagos na própria moeda, sem desconto de um só centavo.
Versículo 52Salmo 78:52
Mas fez com que o seu próprio povo saísse como ovelhas. O contraste é impressionante, e jamais deveria ter sido esquecido pelo povo. Os lobos foram mortos aos montes, as ovelhas foram cuidadosamente reunidas, e triunfantemente libertadas. As mesas se viraram, e os pobres servos se tornaram o povo honrado, enquanto os seus opressores foram humilhados diante deles. Israel saiu num corpo compacto como um rebanho; eram indefesos por si mesmos, como ovelhas, mas estavam seguros sob o seu Grande Pastor; deixaram o Egito com a mesma facilidade com que um rebanho deixa um pasto por outro.
E os guiou no deserto como a um rebanho. Nada sabendo do caminho pelo seu próprio entendimento ou experiência, foram, contudo, corretamente dirigidos, pois o Deus todo sábio conhecia cada palmo do deserto. Até o mar, através do mar, e do mar em diante, o Senhor conduziu os seus escolhidos; enquanto os seus antigos capatazes estavam demasiado abatidos de espírito, e quebrantados de poder, para ousarem molestá-los.
Versículo 53Salmo 78:53
E os conduziu com segurança, de modo que não temeram. Depois do primeiro pequeno alarme, natural o bastante ao se verem perseguidos pelos seus antigos capatazes, tomaram coragem e se aventuraram ousadamente para dentro do mar, e depois para dentro do deserto onde homem nenhum habitava.
Mas o mar cobriu os seus inimigos. Estavam idos, idos para sempre, jamais a perturbar os fugitivos de novo. Aquele golpe tremendo defendeu eficazmente as tribos, por quarenta anos, de qualquer nova tentativa de forçá-las de volta. O Egito achou a pedra pesada demais e ficou contente em deixá-la em paz.
Louvado seja o Senhor, que assim libertou eficazmente a sua nação eleita. Que grandiosa narrativa temos considerado. Bem podia o mais poderoso mestre do canto sagrado escolher "Israel no Egito" como tema seleto para o seu gênio; e bem pode toda mente crente demorar-se em cada item desta transação assombrosa. A maravilha é que a nação favorecida viva como se de tudo isso não se lembrasse, e no entanto assim é a natureza humana. Ai, pobre homem! Antes, ai, coração vil! Nós agora, após uma pausa, seguimos de novo a cadeia dos acontecimentos, cuja narração fora interrompida por uma retrospectiva, e encontramos Israel entrando na terra prometida, ali a repetir as suas loucuras e ampliar os seus crimes.
Versículo 54Salmo 78:54
E os trouxe até o termo do seu santuário. Conduziu-os até a fronteira da Terra Santa, onde pretendia que o tabernáculo se tornasse o símbolo permanente da sua morada entre o seu povo. Não os deixou a meio caminho da sua jornada rumo à sua herança; o seu poder e a sua sabedoria preservaram a nação até que as palmeiras de Jericó estivessem à vista do outro lado do rio.
Até este monte, que a sua destra havia adquirido. Nem os deixou ali, mas ainda os conduziu até estarem na região ao redor de Sião, que seria o assento central do seu culto. Isto o Senhor havia adquirido, em tipo antigo, pelo sacrifício de Isaque, símbolo apropriado do sacrifício maior que a seu tempo ali seria apresentado: aquele monte foi também redimido pelo poder, quando a destra do Senhor capacitou os seus homens valentes a ferir os jebuseus, e tomar a colina sagrada do cananeu insolente. Assim os eleitos de Deus hão de gozar da proteção segura do Senhor dos exércitos, mesmo até a fronteira da morte, e através do rio, até o monte do Senhor em glória. O povo adquirido há de chegar em segurança à herança adquirida.
Versículo 55Salmo 78:55
Expulsou também os gentios de diante deles — ou "expulsou as nações". Não apenas exércitos foram derrotados, mas povos inteiros deslocados. A iniquidade dos cananeus estava completa; os seus vícios os faziam apodrecer sobre a terra; por isso a terra devorou os seus habitantes, os vespões os afligiram, a pestilência os destruiu, e a espada das tribos completou a execução para a qual a justiça do céu, por muito tempo provocado, afinal os havia designado. O Senhor foi o verdadeiro conquistador de Canaã; ele expulsou as nações como os homens lançam fora a imundície das suas casas; arrancou-as pela raiz como o lavrador extirpa as ervas daninhas nocivas.
E lhes repartiu uma herança por linha de medida. Repartiu a terra das nações entre as tribos por sorte e medida, atribuindo território heveu, ferezeu ou jebuseu a Simeão, Judá ou Efraim, conforme o caso. Entre aquelas nações condenadas não havia apenas gigantes em estatura, mas também gigantes em crime: aqueles monstros de iniquidade já haviam poluído a terra por tempo demais; era hora de não mais se entregarem aos crimes contra a natureza pelos quais eram infames; foram, portanto, condenados a perder vida e terras pelas mãos das tribos de Israel. A distribuição do território confiscado foi feita por designação divina; não foi uma disputa, mas uma atribuição judicial de terras que haviam recaído à coroa pela condenação dos antigos possuidores.
E fez habitar as tribos de Israel em suas tendas. O povo favorecido entrou numa casa mobiliada: encontraram a despensa abastecida, pois se alimentaram do trigo velho da terra, e as habitações já estavam construídas para que nelas morassem. Assim outra raça muitas vezes entra na sorte de um povo anterior, e é triste, de fato, quando a mudança que o juízo decreta não se revela muito melhor, porque os recém-chegados herdam tanto os males quanto os bens dos expulsos. Um caso assim de visitação judicial deveria ter tido influência salutar sobre as tribos; mas, ai, eram incorrigíveis, e não quiseram aprender nem mesmo com exemplos tão próximos de casa e tão terrivelmente sugestivos.
Versículo 56Salmo 78:56
Contudo, tentaram e provocaram o Deus altíssimo. A mudança de condição não lhes havia mudado os costumes. Deixaram os seus hábitos nômades, mas não a sua tendência a se afastar do seu Deus. Embora toda promessa divina tivesse se cumprido ao pé da letra, e a terra que mana leite e mel fosse de fato deles, ainda assim tentaram o Senhor de novo com incredulidade, e o provocaram com outros pecados. Ele não é apenas alto e glorioso, mas altíssimo, sim, o altíssimo, o único ser que merece ser tido em tão alta honra; e no entanto, em vez de o honrarem, Israel o entristeceu com rebelião.
E não guardaram os seus testemunhos. Eram fiéis a nada além da traição hereditária; firmes em nada além da falsidade. Conheceram a sua verdade e a esqueceram, a sua vontade e a desobedeceram, a sua graça e a perverteram em ocasião para maior transgressão. Leitor, precisas de um espelho? Eis aqui um que serve bem ao presente expositor; não reflete também a tua imagem?
Versículo 57Salmo 78:57
Mas voltaram atrás. Reviraram a página velha, repetiram as mesmas ofensas, desviaram-se como um arco mal fabricado, foram falsos e infiéis às suas melhores promessas.
E se houveram deslealmente como seus pais — provando-se legítimos ao manifestar a traição de seus antepassados. Eram uma geração nova, mas não uma nação nova — outra raça, mas não outra. As tendências más se transmitem; o nascimento segue o progenitor; o jumento selvagem gera jumentos selvagens; os filhotes do corvo voam para a carniça. A natureza humana não melhora, as novas edições contêm todas as erratas da primeira, e às vezes se importam erros novos.
Viraram-se como um arco enganoso — que não só falha em enviar a flecha em linha reta rumo ao alvo, mas volta contra o próprio arqueiro, e talvez lance a haste entre os seus amigos, para grave risco deles. Israel se orgulhava do arco como arma nacional, cantava o cântico do arco, e por isso um arco enganoso se torna o tipo e o símbolo da sua própria inconstância; Deus pode fazer da glória dos homens o próprio estandarte da sua vergonha, ele traça uma barra sinistra sobre o brasão dos traidores.
Versículo 58Salmo 78:58
Pois o provocaram à ira com os seus altos. Este foi o seu primeiro erro — culto voluntário, ou o culto de Deus de outra maneira senão segundo a sua ordem. Muitos consideram isto de pouca importância, mas não era pecado pequeno; e as suas tendências a novas ofensas são muito poderosas. O Senhor queria que o seu lugar santo permanecesse como o único local para o sacrifício; e Israel, em rebelião voluntária (sem dúvida disfarçada sob o pretexto de grande devoção), decidiu ter muitos altares em muitas colinas. Se pudessem ter um só Deus, insistiam em não se restringir a um só lugar sagrado de sacrifício. Quanto do culto dos dias atuais não é nem mais nem menos que puro culto voluntário! Ninguém ousa alegar designação divina para um décimo dos ofícios, festas, cerimônias e observâncias de certas igrejas. Sem dúvida Deus, longe de ser honrado por um culto que não ordenou, se ira grandemente com ele.
E o moveram a zelos com as suas imagens de escultura. Este foi apenas mais um passo; fabricaram símbolos do Deus invisível, pois cobiçavam algo tangível e visível a que pudessem prestar reverência. Este também é o pecado clamoroso dos tempos modernos. Não vemos e ouvimos a superstição abundar? Imagens, quadros, crucifixos, e uma multidão de coisas visíveis são tidas em honra religiosa, e pior de tudo, hoje em dia os homens adoram o que comem, e chamam Deus àquilo que passa para o seu estômago, e dali para lugares ainda mais baixos. Certamente o Senhor é muito paciente, ou visitaria a terra por esta a pior e mais baixa das idolatrias. Ele é um Deus zeloso, e detesta ver-se desonrado por qualquer forma de representação que possa sair das mãos do homem.
Versículo 59Salmo 78:59
Quando Deus ouviu isto, indignou-se. O mero relato disso o encheu de indignação; não podia suportá-lo, ficou incensado ao extremo, e com toda justiça.
E abominou grandemente a Israel. Lançou o seu povo idólatra fora do seu favor, e o deixou entregue a si mesmo, e aos seus próprios desígnios. Como poderia ter comunhão com ídolos? Que concórdia tem Cristo com Belial? O pecado é em si mesmo tão ofensivo que torna ofensivo também o pecador. Ídolos de qualquer espécie são altamente abomináveis a Deus, e devemos cuidar para nos guardar deles pela graça divina, pois, tenha certeza, a idolatria não é compatível com a verdadeira graça no coração. Se Dagom está entronizado em alguma alma, ali não está a arca de Deus. Onde o Senhor habita, nenhuma imagem de ciúme será tolerada. Uma igreja visível logo se tornará uma maldição visível se nela se erguerem ídolos, e então a foice de poda a removerá como um ramo morto da vide.
Note que Deus não rejeitou por completo o seu povo Israel, mesmo quando o abominou grandemente, pois voltou a ele em misericórdia, como nos dizem os versículos seguintes: assim também agora a semente de Abraão, embora por um tempo sob uma nuvem pesada, ainda há de ser reunida de novo, pois o pacto de sal não se quebrará. Quanto à semente espiritual, o Senhor não a desprezou nem abominou; ela é o seu tesouro peculiar, e jaz para sempre perto do seu coração.
Versículo 60Salmo 78:60
De sorte que abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda que colocara entre os homens. A sua glória ali não mais se revelaria; deixou Siló tornar-se uma ruína completa. À porta daquela tenda um pecado desavergonhado fora perpetrado, e ao seu redor ídolos haviam sido adorados, e por isso a glória se retirou, e "Icabode" soou como palavra de pavor sobre Siló e a tribo de Efraim. Assim pode o candeeiro ser removido, ainda que a vela não se apague. Igrejas em erro se tornam apóstatas, mas uma igreja verdadeira ainda permanece; se Siló é profanada, Sião é consagrada.
Contudo, é sempre uma advertência solene a todas as assembleias dos santos, admoestando-as a andar humildemente com o seu Deus, quando lemos palavras como as do profeta Jeremias no seu sétimo capítulo: "Não confieis em palavras mentirosas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor, é este. Ide agora ao meu lugar que estava em Siló, onde a princípio fiz habitar o meu nome, e vejam o que lhe fiz por causa da maldade do meu povo Israel." Tomemos cuidado, para que, assim como a arca jamais voltou a Siló depois de capturada pelos filisteus, o evangelho não nos seja tirado em juízo, para nunca mais ser restaurado à mesma igreja.
Versículo 61Salmo 78:61
E entregou o seu poder ao cativeiro. A arca foi capturada pelos filisteus em batalha, apenas porque o Senhor, para castigo de Israel, optou por entregá-la em suas mãos — de outro modo, não teriam poder algum contra ela. O símbolo da presença divina é aqui chamado, poeticamente, "o seu poder"; e, de fato, a presença do Senhor é a sua força entre o seu povo. Foi um dia negro quando o propiciatório foi removido, quando os querubins alçaram voo, e o paládio de Israel foi levado embora.
E a sua glória, na mão do inimigo. A arca era o lugar da glória revelada de Deus, e os seus inimigos exultaram grandemente quando a carregaram para as suas próprias cidades. Nada poderia ter mostrado mais claramente o desagrado divino. Parecia dizer que Jeová preferiria habitar entre os seus adversários confessos do que entre um povo tão falso quanto Israel; preferiria suportar os insultos da Filístia do que as traições de Efraim.
Esta foi uma queda temível para a nação favorecida, e foi seguida de juízos terríveis da natureza mais assombrosa. Quando Deus se vai, tudo se vai. Nenhuma calamidade pode igualar a retirada da presença divina de um povo. Ó Israel, como estás abatido! Quem te ajudará agora que o teu Deus te abandonou!
Versículo 62Salmo 78:62
Entregou também o seu povo à espada. Caíram em batalha porque não mais eram ajudados pela força divina. Aguda era a espada, mas mais aguda ainda a causa de ser desembainhada.
E se irou contra a sua herança. Ainda eram seus — duas vezes neste versículo são assim chamados; e, no entanto, a sua consideração por eles não impediu que os castigasse, mesmo com uma vara de aço. Onde o amor é mais fervoroso, o zelo é mais severo. O pecado não pode ser tolerado naqueles que são um povo próximo a Deus.
Versículo 63Salmo 78:63
O fogo consumiu os seus jovens. Assim como o fogo matou literalmente Nadabe e Abiú, também o fogo da ira divina caiu sobre os filhos de Eli, que profanaram o santuário do Senhor, e o mesmo fogo, na forma de guerra, consumiu a flor do povo.
E as suas donzelas não foram dadas em casamento. Nenhum hino nupcial foi cantado, a noiva careceu de noivo; o fio da espada havia cortado os laços dos esponsais, e deixado por casar aquelas que, de outro modo, teriam sido celebradas em hinos e felicitações. Assim Israel foi grandemente abatido: não podia achar maridos para as suas donzelas, e por isso o seu estado não se renovava; nenhuma criança pequena se aglomerava em torno dos joelhos paternos. A nação havia falhado na sua tarefa solene de instruir os jovens no temor de Jeová, e foi um juízo apropriado que a própria geração de uma posteridade fosse posta em risco.
Versículo 64Salmo 78:64
Os seus sacerdotes caíram à espada. Hofni e Fineias foram mortos; estavam entre os primeiros no pecado, e, portanto, pereceram com os demais. O sacerdócio não é abrigo para transgressores; o peitoral cravejado de joias não consegue desviar as flechas do juízo.
E as suas viúvas não fizeram lamentação. As suas dores privadas foram engolidas pela agonia nacional maior, porque a arca de Deus fora tomada. Assim como as donzelas não tinham ânimo para o canto nupcial, as viúvas não tinham espírito nem mesmo para proferir o lamento fúnebre. Os mortos foram sepultados demasiadas vezes e com demasiada pressa para se permitirem os ritos costumeiros de lamentação. Este foi o ponto mais baixo; a partir daqui, as coisas tomarão um rumo gracioso.
Versículo 65Salmo 78:65
Então o Senhor despertou, como quem acorda do sono. Justamente inativo, havia permitido que o inimigo triunfasse, que a sua arca fosse capturada, e que o seu povo fosse morto; mas agora ele se ergue, o seu coração se enche de compaixão pelos seus escolhidos, e de ira contra o inimigo insolente. Ai de ti, ó Filístia, agora sentirás o peso da sua destra!
Como um valente que, saciado de vinho, se levanta com estrondo. Despertando e mostrando força como um homem que tomou um trago revigorante, diz-se que o Senhor é assim. Forte e cheio de energia, o Senhor arremeteu contra os seus inimigos, e os fez cambalear sob os seus golpes. A sua arca ia de cidade em cidade, mais como vingadora do que como troféu, e em todo lugar os falsos deuses caíam impotentes diante dela.
Versículo 66Salmo 78:66
E feriu os seus adversários por trás. As hemorroidas os tornaram ridículos, e as suas numerosas derrotas os tornaram ainda mais. Fugiam, mas eram alcançados e feridos nas costas, para a sua eterna vergonha.
Pôs sobre eles perpétua vergonha. Os orientais não são muito refinados, e podemos bem crer que as hemorroidas foram tema de muitas zombarias contra os filisteus, assim como o foram as suas frequentes derrotas diante de Israel, até que finalmente foram esmagados, para jamais mais existir como nação distinta.
Versículo 67Salmo 78:67
Além disso, rejeitou o tabernáculo de José. Deus havia honrado Efraim, pois a essa tribo pertenceram Josué, o grande conquistador, e Gideão, o grande juiz, e dentro dos seus limites estava Siló, o lugar da arca e do santuário; mas agora o Senhor mudaria tudo isso, e estabeleceria outros governantes. Já não deixaria a liderança a Efraim, uma vez que aquela tribo fora provada e achada em falta.
E não elegeu a tribo de Efraim. O pecado fora encontrado nela, a insensatez e a instabilidade, e por isso foi posta de lado como incapaz de liderar.
Versículo 68Salmo 78:68
Mas elegeu a tribo de Judá. Para dar à nação uma nova oportunidade, esta tribo foi eleita para a supremacia. Isto estava de acordo com a profecia final de Jacó. O nosso Senhor procedeu de Judá, e é ele a quem seus irmãos louvarão.
O Monte Sião, que ele amava. O tabernáculo e a arca foram transferidos para Sião durante o reinado de Davi; nenhuma honra restou aos volúveis efraimitas. Perto desse monte o Pai dos Fiéis havia oferecido o seu único filho, e ali, em dias futuros, seriam as grandes reuniões da sua semente escolhida, e por isso se diz que Sião é amável a Deus.
Versículo 69Salmo 78:69
E edificou o seu santuário como altos palácios. O tabernáculo foi colocado no alto, literal e espiritualmente era um monte de beleza. A verdadeira religião era exaltada na terra. Em santidade, era um templo; em majestade, era um palácio.
Como a terra, que fundou para sempre. Tanto a estabilidade quanto a majestade se viam no templo, e assim também na igreja de Deus. Os profetas viram ambas em visão.
Versículo 70Salmo 78:70
Escolheu também a Davi, seu servo. Foi uma eleição de natureza soberanamente graciosa, e operou na prática ao fazer do homem escolhido um servo voluntário do Senhor. Não foi escolhido porque era servo, mas para que o fosse. Davi sempre estimou como grande honra ser tanto eleito de Deus quanto servo de Deus.
E o tirou dos apriscos das ovelhas. Fora pastor de ovelhas, e esta foi escola apropriada para um pastor de homens. A humildade da ocupação não impedirá ninguém das honras que a eleição do Senhor confere; o Senhor não vê como o homem vê. Ele se compraz em abençoar aqueles que são de condição humilde.
Versículo 71Salmo 78:71
Ao acompanhar as ovelhas prenhes, o trouxe para apascentar a Jacó, seu povo, e a Israel, sua herança. Exercitando o cuidado e a arte daqueles que velam pelos cordeiros pequenos, Davi seguia as ovelhas em suas andanças; a ternura e a paciência assim adquiridas haveriam de contribuir para o desenvolvimento das características mais próprias de um rei. Ao homem assim preparado, o cargo e a dignidade que Deus lhe havia designado vieram a seu tempo, e ele foi capacitado a exercê-los dignamente. É admirável como a sabedoria divina tantas vezes arranja a porção inicial e obscura de uma vida escolhida, de modo a fazer dela uma escola preparatória para um futuro mais ativo e nobre.
Versículo 72Salmo 78:72
Assim os apascentou, segundo a integridade do seu coração. Davi era íntegro diante de Deus, e jamais desviou do coração a obediência ao culto de Jeová. Quaisquer que fossem as suas faltas, era sinceramente fiel à sua lealdade ao rei supremo de Israel; pastoreava para Deus com coração honesto.
E os guiou pela perícia das suas mãos. Foi um governante sagaz, e o salmista engrandece o Senhor por tê-lo designado. Sob Davi, o reino judeu se ergueu a uma posição honrosa entre as nações, e exerceu influência sobre os seus vizinhos.
Ao encerrar o Salmo que descreveu as condições variáveis da nação escolhida, alegra-nos terminar de modo tão pacífico; com todo ruído de tumulto ou de ritos pecaminosos silenciado. Depois de uma longa viagem sobre um mar tempestuoso, a arca do estado judeu repousou no seu Ararate, sob um reinado sábio e brando, para não mais ser arrastada de um lado a outro por enchentes e ventanias.
O salmista sempre pretendera fazer desta a sua última estrofe, e nós também podemos nos contentar em encerrar todos os nossos cânticos de amor com o reinado do ungido do Senhor. Só que podemos ansiosamente perguntar: quando virá? Quando encerraremos estas andanças pelo deserto, estas rebeliões e castigos, e entraremos no descanso de um reino estabelecido, com o Senhor Jesus reinando como "o Príncipe da casa de Davi"?
Assim encerramos esta longa parábola; que em nossa própria parábola de vida tenhamos menos pecado, e tanta graça quanto se manifesta na história de Israel, e que a encerremos sob a guia segura "daquele grande Pastor das ovelhas". AMÉM.
Obras sobre este salmo
Informações valiosas sobre AS PRAGAS DO EGITO se encontram nas seguintes obras:
Observations upon the Plagues inflicted upon the Egyptians: in which is shewn the peculiarity of those Judgments, and their correspondence with the Rites and Idolatry of that People... Por JACOB BRYANT. 1794.
Israel in Egypt; or the Books of Genesis and Exodus illustrated by existing Monuments. Por WILLIAM OSBURN. 1856.
SOBRE ISRAEL NO DESERTO
The wanderings of the Children of Israel. Pelo falecido Rev. GEORGE WAGNER, 1862.
The Church in the Wilderness. Por WILLIAM SEATON. Em dois volumes. 1821.