Salmo 42
Leia o Salmo 42 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Ao mestre de música, Maschil, dos filhos de Coré. Dedicado ao Mestre de Música, este salmo é digno do seu ofício; quem sabe cantar melhor não pode ter coisa melhor para cantar. Chama-se Maschil, ou ode instrutiva; e, cheio como é de expressões profundamente experimentais, presta-se de modo eminente a instruir os peregrinos cujo caminho ao céu é tão árduo quanto foi o de Davi. É sempre edificante ouvir a experiência de um santo genuinamente piedoso e muito aflito.
Esse coro seleto, os filhos de Coré, recebe a incumbência de fazer deste delicioso salmo uma peça sua, peculiar. Eles haviam sido poupados quando seu pai, toda a sua companhia e todos os filhos de seus associados foram tragados vivos em seu pecado. Números 26:11. Eram os poupados da graça soberana.
Preservados, não sabemos bem por quê, pelo favor distintivo de Deus, é de supor que, depois de tão notável eleição para a misericórdia, se encheram de tanta gratidão que se dedicaram à música sacra, para que suas vidas poupadas fossem consagradas à glória de Deus. De qualquer forma, nós que fomos resgatados como eles de descer à cova, pelo mero beneplácito de Jeová, podemos unir-nos de coração a este salmo, e de fato a todos os cânticos que proclamam os louvores do nosso Deus e os suspiros do nosso coração por ele.
Embora Davi não seja mencionado como autor, este salmo há de ser fruto da sua pena; é tão davídico, tem o cheiro do filho de Jessé, traz as marcas do seu estilo e da sua experiência em cada letra. Antes duvidaríamos da autoria da segunda parte de O Peregrino do que questionaríamos o direito de Davi a ser o compositor deste salmo.
ASSUNTO. É o clamor de um homem afastado das ordenanças externas e do culto a Deus, suspirando pela casa de seu Deus, há muito amada; e ao mesmo tempo é a voz de um crente espiritual que, sob depressão, anseia pela renovação da presença divina, luta com dúvidas e temores, mas ainda assim mantém terreno pela fé no Deus vivo. A maior parte da família do Senhor já navegou neste mar tão vividamente descrito aqui. É provável que a fuga de Davi diante de Absalão tenha sido a ocasião para a composição deste Maschil.
DIVISÃO. A estrutura do cântico nos leva a considerá-lo em duas partes que terminam com o mesmo refrão: Salmos 42:1-5 e depois Salmos 42:6-11.
Exposição
Versículo 1Salmo 42:1
Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim brama a minha alma por ti, ó Deus. Como após uma longa seca a pobre corça exausta anseia pelos ribeiros, ou antes, como o cervo caçado busca instintivamente o rio para banhar os flancos ofegantes e escapar dos cães, assim a minha alma cansada e perseguida anseia pelo Senhor, meu Deus. Impedido do culto público, Davi estava com o coração doente. Não buscava conforto, não cobiçava honra; mas o gozo da comunhão com Deus era necessidade urgente de sua alma. Ele a via não apenas como o mais doce dos luxos, mas como necessidade absoluta, como a água para o cervo. Como o viajante ressequido no deserto, cujo odre está vazio e que encontra os poços secos, ele precisa beber ou morrer — precisa ter o seu Deus ou desfalecer. Sua alma, o seu próprio ser, a sua vida mais profunda, era insaciável pelo sentir da presença divina. Como o cervo brama, assim a sua alma ora. Dai-lhe o seu Deus, e ele ficará tão contente quanto o pobre cervo que enfim mata a sede e é perfeitamente feliz; mas negai-lhe o seu Senhor, e o coração se debate, o peito palpita, todo o seu corpo se convulsiona, como quem ofega em busca de ar, ou arqueja de tanto correr.
Caro leitor, sabes o que é isto, por teres sentido o mesmo em ti? É uma doce amargura. A segunda melhor coisa, depois de viver à luz do amor do Senhor, é ser infeliz até tê-lo, e suspirar por ele a cada hora — a cada hora, disse eu? A sede é apetite perpétuo, que não se esquece, e igualmente contínuo é o anseio do coração por Deus. Quando nos é tão natural ansiar por Deus quanto a um animal sentir sede, vai bem com as nossas almas, por mais dolorosos que sejam os nossos sentimentos. Podemos aprender deste versículo que o ardor dos nossos desejos pode ser alegado diante de Deus, e tanto mais porque há promessas especiais para os importunos e fervorosos.
Versículo 2Salmo 42:2
A minha alma. Toda a minha natureza, o meu ser mais íntimo. Tem sede. O que é mais que fome; a fome se pode aliviar, mas a sede é terrível, insaciável, clamorosa, mortal. Ah, ter o mais intenso anseio pelo sumo bem! Não é marca duvidosa de graça. Por Deus. Não apenas pelo templo e pelas ordenanças, mas pela comunhão com o próprio Deus. Só os espirituais podem compreender esta sede. Pelo Deus vivo. Porque ele vive, e dá aos homens a água viva; por isso o desejamos com maior ardor. Um deus morto é mera zombaria; abominamos tal divindade monstruosa; mas o Deus sempre vivo, fonte perene de vida, luz e amor, é o desejo da nossa alma. Que são o ouro, a honra, o prazer, senão ídolos mortos? Que jamais ansiemos por eles.
Quando virei e me apresentarei diante de Deus? Quem ama o Senhor ama também as assembleias em que o seu nome é adorado. Vãs são todas as pretensões de religião onde os meios externos da graça não atraem. Davi nunca esteve tão em casa quanto na casa do Senhor; não se contentava com o culto privado; não abandonava o lugar onde os santos se reúnem, como é o costume de alguns. Veja com que patético questiona a perspectiva de tornar a unir-se à assembleia jubilosa! Como repete e reitera o seu desejo! Pelo seu Deus, o seu Elohim (o seu Deus a ser adorado, que entrara em aliança com ele), definhava como as flores murchas pelo orvalho, ou como a rola gemente por seu par.
Bem seria se todo o nosso comparecer ao culto público fosse visto como apresentar-nos diante de Deus; seria então marca segura de graça deleitar-nos nisso. Ai, quantos comparecem diante do ministro, ou dos seus semelhantes, e pensam que isso basta! "Ver a face de Deus" é tradução mais próxima do hebraico; mas as duas ideias podem combinar-se — ele veria o seu Deus e seria visto por ele: eis algo que vale a pena ansiar!
Versículo 3Salmo 42:3
As minhas lágrimas têm sido o meu pão de dia e de noite. Alimento salgado, mas saudável para a alma. Quando um homem chega às lágrimas, lágrimas constantes, lágrimas copiosas, lágrimas que enchem sua taça e sua travessa, ele está falando a sério. Como as grandes lágrimas se detêm nos olhos da corça em sua aflição, assim brilhavam as gotas salgadas nos olhos de Davi. Perdera o apetite; suas lágrimas não apenas temperavam o seu pão, mas se tornaram o seu único pão — não tinha ânimo para outro alimento. Talvez lhe fosse bom que o coração pudesse abrir as válvulas de segurança; há uma dor seca muito mais terrível que as tristezas em chuva. Suas lágrimas, por serem derramadas porque Deus era blasfemado, eram "orvalho honroso", gotas de água santa, tais como Jeová guarda em seu odre.
Enquanto continuamente me dizem: Onde está o teu Deus? Zombarias cruéis brotam naturalmente de espíritos covardes. Bem poderiam ter deixado o pranteador em paz; ele não podia chorar mais do que já chorava — foi supererrogação de malícia extrair mais lágrimas de um coração que já transbordava. Note-se quão incessante era o seu escárnio, e com que artifício o formulavam! Cortava o bom homem até o osso ver impugnada a fidelidade do seu Deus. Melhor lhe fora que lhe cravassem agulhas nos olhos do que lançarem insinuações contra o seu Deus. Pode aludir-se aqui a Simei, que dessa maneira zombou de Davi quando este fugia de Absalão. Afirmou peremptoriamente que Davi era homem de sangue, e que Deus o castigava por ter suplantado Saul e a sua casa; o seu desejo era pai do seu pensamento. Os ímpios sabem que a nossa pior desgraça seria perder o favor de Deus; daí a sua malícia diabólica os levar a declarar que é esse o caso. Glória a Deus, mentem pela garganta, pois o nosso Deus está nos céus — e também na fornalha, socorrendo o seu povo.
Versículo 4Salmo 42:4
Quando me lembro destas coisas, derramo em mim a minha alma. Ao repisar suas mágoas, seu coração se dissolvia em água e se derramava sobre si mesmo. Deus escondido, e inimigos enfurecidos — dois males que bastam para abater o coração mais forte! Mas por que deixar que reflexões tão sombrias nos absorvam, se o resultado nada vale? Voltar a alma para si mesma, esvaziá-la de si em si, é inútil; quanto melhor derramar o coração diante do Senhor! A roda de moinho do prisioneiro antes o levaria aos céus do que o mero questionamento interior nos aproximaria do consolo.
Porque eu ia com a multidão, ia com eles à casa de Deus. Reflexões dolorosas eram despertadas pela lembrança das alegrias passadas; ele se misturara à turba piedosa, cujo número lhe dava ânimo e despertava santo deleite; a companhia deles fora um encanto para ele, enquanto com eles subia o monte de Sião. Avançando mansamente com santo à-vontade, em procissão graciosa, com frequentes cânticos, ele e o povo de Jeová haviam marchado em fileiras reverentes até o santuário do sacrifício, morada querida de paz e santidade. Longe de tão boa companhia, o homem santo retrata a cena sagrada e demora-se nos detalhes da marcha piedosa.
Com voz de alegria e de louvor, com a multidão que celebrava a festa. O rumor festivo ressoa em seus ouvidos, e a dança solene diante dos seus olhos. Talvez aluda à remoção da arca e às gloriosas reuniões das tribos naquele grande dia santo e festivo da nação. Como mudou o seu lugar presente! Por Sião, um deserto; pelos sacerdotes de linho branco, soldados em trajes de guerra; pelo cântico, o escárnio da blasfêmia; pela festa, o pranto; pela alegria no Senhor, uma triste elegia por sua ausência.
Versículo 5Salmo 42:5
Por que estás abatida, ó minha alma? Como se fossem dois homens, o salmista fala consigo mesmo. Sua fé argumenta com seus temores, sua esperança discute com suas tristezas. Estas aflições presentes, hão de durar para sempre? A alegria dos meus inimigos, será mais que palavrório vazio? Minha ausência das festas solenes, será exílio perpétuo? Por que esta profunda depressão, este desfalecimento sem fé, esta melancolia de covarde? Como diz Trapp, "Davi repreende Davi para tirá-lo do abatimento"; e nisso é exemplo para todos os desanimados. Investigar a causa da nossa tristeza é muitas vezes a melhor cirurgia para a dor. A ignorância de si mesmo não é felicidade; neste caso é miséria. A névoa da ignorância aumenta as causas do nosso alarme; um olhar mais claro fará os monstros encolherem a ninharias.
Por que te perturbas dentro de mim? Por que se foi minha quietude? Se não posso guardar um sábado público, por que negar à minha alma o seu sábado interior? Por que me agito como mar revolto, e por que meus pensamentos fazem barulho como multidão tumultuada? As causas não bastam para justificar tal rendição total ao desânimo. Ergue-te, coração! Que tens tu? Sê forte, e teus abatimentos se tornarão elevações, e tuas inquietações, calma.
Espera em Deus. Ainda que todo mal se solte da caixa de Pandora, há esperança no fundo dela. Esta é a graça que nada, ainda que as ondas rujam e se agitem. Deus é imutável, e por isso sua graça é o fundamento de uma esperança inabalável. Se tudo estiver escuro, ainda assim o dia virá; e enquanto isso, a esperança traz estrelas nos olhos; suas lâmpadas não dependem de óleo de fora, sua luz se alimenta de visitações secretas de Deus, que sustentam o espírito.
Porque ainda hei de louvá-lo. Ainda assim meus suspiros darão lugar a cânticos, minhas endechas tristes serão trocadas por hinos triunfais. Perder o sentir presente do amor de Deus não é perder esse amor em si; a joia continua ali, ainda que não brilhe em nosso peito; a esperança sabe que seu título é bom mesmo quando não pode lê-lo claramente; espera o bem prometido ainda que a providência presente se apresente diante dela de mãos vazias.
Porque ainda hei de louvá-lo pela salvação da sua face. As salvações vêm do rosto propício de Deus, e ele ainda levantará o seu rosto sobre nós. Note-se bem que a principal esperança e o maior desejo de Davi repousam no sorriso de Deus. É o seu rosto que ele busca e espera ver, e isso restaurará seu ânimo abatido, isso porá em ridículo seus inimigos zombeteiros, isso lhe restituirá todas as alegrias daqueles dias santos e felizes em torno dos quais a memória se demora. Isto é grande alento. Este versículo, como o cântico de Paulo e Silas, solta correntes e abala muros de prisão. Quem souber usar linguagem tão heroica em suas horas sombrias há de vencer, sem dúvida. No jardim da esperança crescem os louros das vitórias futuras, as rosas da alegria vindoura, os lírios da paz que se aproxima.
Versículo 6Salmo 42:6
Ó meu Deus, minha alma está abatida dentro de mim. Aqui o cântico recomeça em tom grave. Final tão doce merece que, para um segundo encerramento cheio de esperança, o salmo torne a começar. Talvez o abatimento do salmista tenha continuado, o espasmo de desânimo tenha voltado; pois bem, ele tornará a pegar a sua harpa, e provará de novo o seu poder sobre si mesmo, como em seus dias de juventude viu a sua influência sobre Saul, quando o espírito maligno vinha sobre ele. Com Deus o cântico recomeça pela segunda vez, mais de perto do que da primeira. O cantor também estava um pouco mais tranquilo. A expressão externa do desejo se foi; não havia mais ofegar visível; a dor não estava toda contida por dentro. Dentro de si, ou sobre si mesmo, ele estava abatido; e, na verdade, bem pode ser assim, enquanto nossos pensamentos olham mais para dentro do que para cima. Se de nós mesmos viesse o consolo, teríamos pobre sustento. Não há fundamento sólido para consolo em disposições tão inconstantes quanto as do nosso coração. É bom dizer ao Senhor como nos sentimos, e quanto mais clara a confissão, melhor: Davi fala como criança doente com sua mãe, e devemos aprender a imitá-lo.
Portanto me lembrarei de ti. É bom voar para o nosso Deus. Aqui está terra firme. Bendito abatimento que nos leva a rocha de refúgio tão segura quanto tu, ó Senhor!
Desde o monte Mizar. Ele recorda suas épocas de comunhão escolhida junto ao rio e entre os montes, e especialmente aquela hora tão querida no pequeno monte, onde o amor falou sua linguagem mais doce e revelou sua comunhão mais próxima. É grande sabedoria guardar na memória as nossas ocasiões escolhidas de conversa com o céu; podemos precisar delas outro dia, quando o Senhor tardar em trazer de volta os seus desterrados, e a nossa alma doer de medo. "O seu amor em tempos passados" tem sido cordial precioso para muitos desfalecidos; como sopro suave, tem reavivado em chama o pavio que fumega, e ligado a cana esmagada. Ó vale de Acor, jamais esquecido, tu és porta de esperança! Dias belos, agora idos, deixastes atrás de vós uma luz que anima a nossa tristeza presente. Ou quer Davi dizer que, mesmo onde estivesse, se lembraria do seu Deus; declara ele que, esquecido de tempo e lugar, teria o Jordão por tão sagrado quanto Siloé, o Hermom por tão santo quanto Sião, e até Mizar, aquele montículo insignificante, por tão glorioso quanto os montes que rodeiam Jerusalém! Ah, é coração celestial o que pode cantar:
Não me resta lugar nem hora;
minha pátria é toda hora e agora;
posso estar calmo e sem pesar
em qualquer costa, pois Deus lá está.
Se eu pudesse ser lançado onde não estás,
essa sim seria sorte atroz;
mas região nenhuma chamo remota,
seguro de encontrar Deus em toda voz.
Versículo 7Salmo 42:7
Um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas cataratas. Teus tratos severos comigo parecem excitar toda a criação a atacar-me; céu, terra e inferno se chamam uns aos outros, incitando-se numa conspiração terrível contra a minha paz. Como numa tromba d'água os abismos de cima e de baixo dão as mãos, assim pareceu a Davi que céu e terra se uniam para criar uma tempestade ao seu redor. Seus males eram incessantes e avassaladores. Onda seguia onda, um mar ecoava o rugido de outro; a dor do corpo despertava o medo da mente, sugestões satânicas se harmonizavam com pressentimentos de desconfiança, a tribulação externa trovejava em terrível harmonia com a angústia interior: sua alma parecia afogada como num dilúvio universal de tribulação, sobre cujas ondas a providência do Senhor se movia como coluna de água, em majestade terrível, inspirando o máximo de terror. Quanto ao aflito, era como um pequeno barco solitário em torno do qual a fúria de uma tempestade rebenta, ou como marinheiro flutuando num mastro, quase submerso a cada instante.
Todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram sobre mim. Davi pensava que toda a aflição do mundo se ajuntara sobre ele, mas exagerava, pois todas as ondas quebrantes de Jeová só passaram sobre um: o Senhor Jesus; há dores das quais ele poupa os seus filhos, por amor do seu amor. A tristeza naturalmente expõe o seu caso com força; a misericórdia é que o Senhor, afinal, não nos tratou segundo os nossos temores. Contudo, que situação: estar debaixo de ondas do Atlântico varrendo sem cessar sobre a cabeça de alguém, trombas d'água chegando cada vez mais perto, e todo o oceano em tumulto ao redor do nadador exausto; a maioria dos herdeiros do céu pode reconhecer essa descrição, pois já a experimentaram. É uma experiência profunda, desconhecida dos pequeninos na graça, mas comum o bastante para os que fazem negócio em grandes águas de aflição: a estes é algum consolo lembrar que as ondas e as vagas são do Senhor — "as tuas ondas e as tuas vagas", diz Davi —, todas enviadas e dirigidas por ele, cumprindo os seus desígnios; e o filho de Deus, sabendo disso, tanto mais se resigna.
Versículo 8Salmo 42:8
Contudo, o Senhor ordenará a sua benignidade de dia. Aconteça o que acontecer, haverá "certo algo secreto" para adoçar tudo. A benignidade é nobre colete salva-vidas em mar bravio. O dia pode escurecer numa estranha e inoportuna meia-noite, mas o amor de Deus, ordenado desde a antiguidade para ser a porção dos eleitos, será, por decreto soberano, medido a eles. Nenhum dia há de amanhecer sobre um herdeiro da graça e encontrá-lo de todo abandonado do seu Senhor: o Senhor reina, e como soberano ordenará com autoridade que a misericórdia seja reservada para os seus escolhidos.
E de noite. Ambas as partes do dia serão iluminadas com amor especial, e nenhuma pressão de provação o impedirá. O nosso Deus é Deus tanto das noites quanto dos dias; ninguém achará o seu Israel desprotegido, seja qual for a hora.
O seu cântico estará comigo. Cânticos de louvor pelas bênçãos recebidas hão de alegrar a escuridão da noite. Não há música mais doce que esta. A crença de que ainda glorificaremos o Senhor pela misericórdia dada em extremidade é doce apoio para a alma. A aflição pode apagar a nossa vela, mas, se não conseguir calar o nosso cântico, logo tornaremos a acender a vela.
E a minha oração ao Deus da minha vida. A oração vem atrelada ao louvor. Aquele que é o Deus vivo é o Deus da nossa vida; dele a recebemos, com ele em oração e louvor a passamos, a ele a consagramos, nele a haveremos de aperfeiçoar. Ter a certeza de que os nossos suspiros e os nossos cânticos terão livre acesso ao nosso glorioso Senhor é ter motivo de esperança na condição mais lamentável.
Versículo 9Salmo 42:9
Direi a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim? A fé tem licença de perguntar ao seu Deus as causas do seu desagrado, e até se lhe permite expostular com ele e lembrá-lo de suas promessas, perguntando por que aparentemente não se cumprem. Se o Senhor é de fato o nosso refúgio, quando não encontramos refúgio, é tempo de levantar a pergunta: "Por que isto?" Contudo não devemos largar a nossa presa; o Senhor há de continuar sendo a minha rocha; devemos apegar-nos a ele como nossa única confiança, e jamais renunciar ao nosso interesse nele.
Por que ando eu triste pela opressão do inimigo? Aquele que se digna a ser interpelado por Abraão, seu amigo, nos permite dirigir-lhe a pergunta, para que busquemos as causas da sua severidade para conosco. Certamente ele não pode ter prazer em ver os rostos dos seus servos manchados e sujos de lágrimas; não pode achar contentamento na aspereza com que os inimigos os assaltam. Jamais pode ter prazer na tirania com que Satanás os aflige. Por que, então, deixa que sejam escarnecidos pelos seus inimigos e pelos inimigos deles? Como pode o Deus forte, tão firme e permanente quanto uma rocha, ser também tão duro e imóvel quanto uma rocha para com os que nele confiam? Tais perguntas, humildemente feitas, muitas vezes trazem alívio à alma. Conhecer a razão da tristeza é, em parte, saber como escapar dela, ou ao menos suportá-la. A falta de consideração atenta muitas vezes faz a adversidade parecer mais misteriosa e sem esperança do que realmente é. É coisa lamentável ter um membro amputado, mas quando sabemos que a operação era necessária para salvar a vida, alegramo-nos de saber que foi bem-sucedida; assim também, à medida que a provação se desdobra, o desígnio do Senhor ao enviá-la se torna muito mais fácil de suportar.
Versículo 10Salmo 42:10
Como espada nos meus ossos, os meus inimigos me afrontam. Zombarias cruéis cortam mais fundo que a carne; alcançam a alma, como se um florete fosse introduzido entre as costelas para ferir o coração. Se as afrontas não matam, ao menos são mortais; a dor causada é excruciante. A língua corta até o osso, e suas feridas são difíceis de curar.
Enquanto todo o dia me dizem: Onde está o teu Deus? Este é o golpe mais cruel de todos, pois fere tanto a fidelidade do Senhor quanto o caráter do seu servo. Tal era a malícia dos inimigos de Davi que, tendo pensado a pergunta cruel, a diziam, a diziam todo dia, repetiam-na a ele, e por longo tempo; certamente o latido incessante desses cães aos seus calcanhares bastava para enlouquecê-lo, e talvez o tivesse feito, não fosse ele recorrer à oração e fazer da perseguição dos inimigos um argumento diante do seu Senhor.
Versículo 11Salmo 42:11
Por que estás abatida, ó minha alma? e por que te perturbas dentro de mim? Ao rememorar sua tristeza, ele não encontra, afinal, motivo suficiente para se perturbar. Encarados de frente, seus temores não eram tão avassaladores quanto pareciam quando envoltos em obscuridade.
Espera em Deus. Que a âncora ainda mantenha o seu ponto. Deus é fiel, Deus é amor, por isso há espaço e razão para esperança.
Que é a saúde do meu rosto, e o meu Deus. Esta é a mesma expressão de esperança contida no versículo cinco, mas o acréscimo de "e o meu Deus" mostra que o autor crescia em confiança, e já podia responder com desafio à pergunta "Onde está o teu Deus?" Aqui, mesmo aqui, ele está, pronto para me livrar. Não me envergonho de reconhecê-lo em meio a vossas zombarias e escárnios, pois ele me resgatará das vossas mãos. Assim a fé encerra a luta, vencedora de fato por antecipação, e de coração por firme confiança. O semblante mais triste ainda há de brilhar, se tomarmos a Deus pela palavra e esperarmos a sua salvação.
Pois sei que ainda hei de louvá-lo,
a ele que, com graça, a mim
é a saúde do meu semblante,
sim, ele é o meu Deus, enfim.
Obras sobre este salmo
A Practical Exposition of the Forty-second Psalm, em dez sermões, dentro de Choice and Practical Expositions on four select Psalms. Psalms 4, 42, 51, 63. Por THOMAS HORTON, D.D., 1675. In-fólio.
Sabbaths at Home: or, a help to their right improvement; baseado nos Salmos 42 e 43. Destinado ao uso de pessoas piedosas quando impedidas de frequentar o culto público de Deus. Por HENRY MARCH. Londres, 1823.
Sobre o décimo primeiro versículo deste salmo há as seguintes obras: — Doze sermões, em A Cordial for a Fainting Soule. Por JOHN COLLINGS, 1652. Parte 2, pp. 133-206.
Treze sermões nas obras de WILLIAM BRIDGE (1600-1670), intitulados A Lifting Up for the Downcast. Volume 2 da edição de 1845.
Comfort and Counsel for Dejected Souls. Por JOHN DURANT. In-8º, 1651.
The Soul's Conflict with Itself. Por RICHARD SIBBES. (Numerosas edições antigas). Em Sibbes' Works, Nichol's Puritan Series, vol. I.