Tesouros de Davi

Salmo 106

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OBSERVAÇÕES GERAIS. Este salmo começa e termina com Aleluia — "Louvai ao Senhor". O espaço entre essas duas expressões de louvor se preenche com o relato pesaroso do pecado de Israel e a extraordinária paciência de Deus; e de fato fazemos bem em bendizer o Senhor tanto no início quanto no fim de nossas meditações, quando pecado e graça são os temas. Este cântico sagrado se ocupa da parte histórica do Antigo Testamento, e é um entre muitos assim compostos: isso deveria bastar para repreender os que falam com desdém das Escrituras históricas; não convém a um filho de Deus menosprezar aquilo que o Espírito Santo tão frequentemente usa para nossa instrução.

Que outras Escrituras tinha Davi além dessas mesmas histórias hoje tão depreciadas, e ainda assim ele as estimava mais que o pão necessário, e delas fez seus cânticos na casa de sua peregrinação?

A história de Israel é aqui escrita com o propósito de mostrar o pecado humano, assim como o salmo anterior foi composto para engrandecer a bondade divina. É, de fato, uma confissão nacional, e inclui o reconhecimento das transgressões de Israel no Egito, no deserto e em Canaã, com petições devotas de perdão que tornaram o salmo próprio para uso em todas as gerações seguintes, e especialmente em tempos de cativeiro nacional.

Foi provavelmente escrito por Davi — pelo menos os seus dois primeiros e dois últimos versículos se encontram naquele cântico sagrado que Davi entregou a Asafe quando trouxe a arca do Senhor (1 Crônicas 16:34,35,36). Enquanto estudamos este santo salmo, vejamo-nos todos no antigo povo do Senhor, e lamentemos as nossas próprias provocações ao Altíssimo, ao mesmo tempo em que admiramos a sua infinita paciência, e o adoramos por causa dela. Que o Espírito Santo o santifique para promover em nós humildade e gratidão.

DIVISÃO. Louvor e oração se misturam na introdução (Salmo 106:1-5). Depois vem o relato dos pecados da nação, que continua até a oração e o louvor finais dos dois últimos versículos. Ao fazer a confissão, o salmista reconhece os pecados cometidos no Egito e junto ao Mar Vermelho (Salmo 106:6-12), a cobiça no deserto (Salmo 106:13-15), a inveja contra Moisés e Arão (Salmo 106:16-18), a adoração ao bezerro de ouro (Salmo 106:19-23), o desprezo pela terra prometida (Salmo 106:24-27), a iniquidade de Baal-Peor (Salmo 106:28-30) e as águas de Meribá (Salmo 106:28-33). Em seguida ele reconhece o fracasso de Israel já estabelecido em Canaã, e menciona a consequente disciplina que sofreram (Salmo 106:34-44), junto com a rápida compaixão que veio em seu socorro quando foram abatidos (Salmo 106:44-46). A oração final e a doxologia preenchem os versículos restantes.

Exposição

Versículo 1Salmo 106:1

Louvai ao Senhor. Aleluia. Louvai a Jah. Este cântico é para o povo reunido, e todos são exortados a unir-se no louvor a Jeová. Não convém que poucos louvem e os demais fiquem calados; todos devem participar. Se Davi estivesse presente em igrejas onde quartetos e corais fazem todo o canto, ele se voltaria para a congregação e diria: "Louvai ao Senhor". Nossa meditação vai se deter no pecado humano; mas em todas as ocasiões e em todas as ocupações é oportuno e proveitoso louvar o Senhor.

Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom. Para nós, criaturas necessitadas, a bondade de Deus é o primeiro atributo que desperta o louvor, e esse louvor toma a forma de gratidão. Louvamos o Senhor de verdade quando lhe damos graças pelo que recebemos de sua bondade. Nunca sejamos lentos em devolver ao Senhor o nosso louvor; agradecer-lhe é o mínimo que podemos fazer — não o descuidemos.

Porque a sua misericórdia dura para sempre. A bondade para com os pecadores assume a forma de misericórdia; a misericórdia deve, portanto, ser nota principal em nosso cântico. Já que o homem não cessa de ser pecador, é grande bênção que Jeová não cesse de ser misericordioso. De geração em geração o Senhor trata com graça a sua igreja, e para cada indivíduo nela ele é constante e fiel em sua graça, mesmo para sempre.

Em pequeno espaço temos aqui dois argumentos para o louvor: "porque ele é bom: porque a sua misericórdia dura para sempre" — e esses dois argumentos são, eles mesmos, louvores. A melhor linguagem de adoração é aquela que, adorando, expõe nas palavras mais simples a verdade pura a respeito do nosso grande Senhor. Não são necessários floreios retóricos nem hipérboles poéticas; os fatos nus já são poesia sublime, e narrá-los com reverência é a essência da adoração. Este primeiro versículo é o texto de tudo o que se segue; vamos ver agora como, de geração em geração, a misericórdia de Deus perdurou para com o seu povo escolhido.

Versículo 2Salmo 106:2

Quem pode falar das grandes obras do Senhor? Que língua de homens ou de anjos pode descrever devidamente as grandes manifestações do poder divino? São indizíveis. Mesmo os que as viram não puderam narrá-las por completo. Quem pode anunciar todo o seu louvor? Declarar as suas obras é o mesmo que louvá-lo, pois os seus próprios feitos são a melhor recomendação de si mesmo. Não podemos dizer nem a décima parte do que o seu próprio caráter e os seus atos já disseram.

Os que louvam ao Senhor têm diante de si um tema infinito, um tema que não se esgotará por toda a eternidade, nem pelos mais amplos intelectos, nem sequer por toda a multidão dos redimidos, embora ninguém possa numerá-los. As perguntas deste versículo jamais poderão ser respondidas; o seu desafio jamais poderá ser aceito, exceto naquela humilde medida alcançável por uma vida santa e um coração agradecido.

Versículo 3Salmo 106:3

Já que o Senhor é tão bom e tão digno de louvor, deve ser para a nossa felicidade obedecer-lhe. Bem-aventurados os que guardam o juízo, e o que pratica justiça em todo tempo. Multiplicadas são as bênçãos que hão de descer sobre toda a companhia dos que guardam o caminho da justiça, e especialmente sobre aquele homem raro que em todo tempo segue o que é reto. A santidade é felicidade. O caminho do reto é o caminho da paz.

Mas os homens abandonam essa estrada e preferem os caminhos do destruidor. Por isso o relato que se segue está em triste contraste com a felicidade aqui descrita, porque o caminho de Israel não foi o do juízo e da justiça, mas o da loucura e da iniquidade. O salmista, ao contemplar as perfeições de Deus, sentiu-se impressionado com a ideia de que os servos de tal Senhor devem ser felizes; e quando olhou ao redor e viu como as tribos antigas prosperavam quando obedeciam, e sofriam quando pecavam, ficou ainda mais convencido da verdade dessa conclusão.

Ah, se pudéssemos livrar-nos do pecado, livrar-nos-íamos da tristeza! Não apenas seríamos justos, mas "guardaríamos o juízo"; não nos contentaríamos em agir corretamente de vez em quando, mas "praticaríamos justiça em todo tempo".

Versículo 4Salmo 106:4

Lembra-te de mim, ó Senhor, com a boa vontade que tens para com o teu povo. Por mais insignificante que eu seja, não te esqueças de mim. Pensa em mim com bondade, assim como pensas nos teus próprios eleitos. Não posso pedir mais, nem quereria pedir menos. Trata-me como se trata o menor dos teus santos, e estarei satisfeito. Deveria bastar-nos que nos fosse como ao resto da família. Se até Balaão desejou nada mais que morrer a morte dos justos, bem podemos contentar-nos tanto em viver como eles vivem quanto em morrer como eles morrem. Esse sentimento nos impediria de desejar escapar da provação, da perseguição e da disciplina; estas caíram sobre a sorte dos santos, e por que haveríamos de escapar delas?

Terei eu de ser levado aos céus

sobre leitos floridos de conforto?

Enquanto outros lutaram pelo prêmio,

e navegaram por mares de sangue.

Ao mesmo tempo, oramos para ter tanto os seus doces quanto os seus amargos. Se o Senhor sorriu para as almas deles, não podemos descansar a não ser que ele sorria também para nós. Gostaríamos de habitar onde eles habitam, alegrar-nos como eles se alegram, entristecer-nos como eles se entristecem, e em tudo sermos para sempre unidos a eles no favor do Senhor. A frase diante de nós é uma oração doce, ao mesmo tempo humilde e elevada, submissa e ampla; poderia ser usada por um ladrão moribundo ou por um apóstolo vivo; usemo-la agora.

Visita-me com a tua salvação. Traze-a até mim. Vem à minha casa e ao meu coração, e dá-me a salvação que preparaste, e que só tu és capaz de conceder. Ouvimos às vezes falar de um homem que morre pela visitação de Deus, mas aqui há alguém que sabe que só pode viver pela visitação de Deus. Jesus disse de Zaqueu: "Hoje veio a salvação a esta casa", e isso se deu porque ele mesmo ali chegara. Não há salvação fora do Senhor, e ele precisa visitar-nos com ela, ou jamais a obteremos. Estamos doentes demais para visitar o nosso Grande Médico, e por isso é ele quem nos visita. Ah, que o nosso grande Bispo faça uma visitação a todas as igrejas, e conceda a sua bênção a todo o seu rebanho.

Às vezes a segunda petição deste versículo nos parece grande demais para nós, pois sentimos que não somos dignos de que o Senhor entre debaixo do nosso teto. Visitar-me, Senhor? Pode ser? Ousarei pedi-lo? E, no entanto, preciso pedir, pois só tu podes trazer-me a salvação: por isso, Senhor, eu te suplico, vem a mim, e permanece comigo para sempre.

Versículo 5Salmo 106:5

Para que eu veja o bem dos teus escolhidos. Seu desejo pelo favor divino era despertado pela esperança de participar de todas as coisas boas que fluem para o povo de Deus por meio da eleição. O Pai nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus, conforme nos escolheu nele, e nesses preciosos dons desejamos ter parte por meio da visitação salvadora do Senhor. Nenhum outro bem desejamos ver, perceber e alcançar, senão aquele que é o tesouro peculiar dos santos.

Para que eu me alegre na alegria da tua nação. O salmista, tendo buscado a sua porção no bem dos escolhidos, agora pede também para ser participante da alegria deles, pois de todas as nações debaixo do céu o verdadeiro povo do Senhor é o mais feliz.

Para que eu me glorie com a tua herança. Ele queria ter parte e quinhão na honra deles tanto quanto na sua alegria. Estava disposto a encontrar glória onde os santos a encontram, isto é, em ser reprovado por causa da verdade. Servir ao Senhor e suportar vergonha por sua causa é a glória dos santos aqui embaixo: Senhor, deixa-me alegrar-me em ter a minha parte nisso. Estar com Deus lá em cima, bendito para sempre em Cristo Jesus, é a glória dos santos lá em cima: ó Senhor, digna-te de reservar-me também um lugar lá.

Estas ações de graças e súplicas introdutórias, embora venham primeiro no salmo, são sem dúvida o resultado das contemplações que as sucedem, e podem ser vistas não apenas como o prefácio, mas também como a moral de todo o cântico sagrado.

Versículo 6Salmo 106:6

Pecamos com os nossos pais. Aqui começa uma longa e detalhada confissão. Confessar o pecado é o caminho mais direto para garantir resposta à oração do versículo 4; Deus visita com a sua salvação a alma que reconhece a sua necessidade de um Salvador. Pode-se dizer que os homens pecam com seus pais quando os imitam, quando perseguem os mesmos objetos e fazem de suas próprias vidas meras continuações das loucuras de seus antepassados. Além disso, Israel foi, ao longo de todo o tempo, uma só nação, e a confissão que se segue expõe o pecado nacional, mais do que o pessoal, do povo do Senhor. Gozavam de privilégios nacionais, e por isso partilhavam também da culpa nacional.

Cometemos iniquidade, agimos perversamente. Assim se repete a confissão três vezes, em sinal de sua sinceridade e ardor. Pecados de omissão, de comissão e de rebelião devemos reconhecer sob rubricas distintas, para que demonstremos justo senso do número e da gravidade das nossas ofensas.

Versículo 7Salmo 106:7

Nossos pais no Egito não entenderam as tuas maravilhas. Os israelitas viram as pragas miraculosas e, na sua ignorância, se maravilharam com elas: não conseguiram perceber o desígnio de amor por trás delas, as suas profundas lições morais e espirituais, e a revelação do poder e da justiça divinos que continham. Uma longa permanência entre idólatras havia embotado a percepção da família escolhida, e a escravidão cruel os havia reduzido a uma letargia mental. Ai de nós, quantas maravilhas de Deus ainda hoje não entendemos, ou entendemos mal. Tememos que os filhos não sejam grande melhora sobre os pais. Herdamos de nossos pais muito pecado e pouca sabedoria; eles só puderam nos deixar aquilo que eles mesmos possuíam. Vemos por este versículo que a falta de entendimento não é desculpa para o pecado, mas é ela mesma um item da acusação contra Israel.

Não se lembraram da multidão das tuas misericórdias. O pecado do entendimento leva ao pecado da memória. O que não se entende, logo se esquece. Os homens sentem pouco interesse em guardar cascas; se nada sabem do miolo interior, não terão cuidado com a casca. Foi agravante do pecado de Israel que, sendo tão numerosas as misericórdias de Deus, ainda assim conseguissem esquecê-las todas. Certamente algumas, entre tantos benefícios, deveriam ter ficado gravadas em seus corações; mas, se a graça não nos dá entendimento, a natureza logo lançará fora a memória da grande bondade de Deus.

Mas o provocaram junto ao mar, sim, junto ao Mar Vermelho. Tropeçar logo na partida era mau sinal. Dificilmente se pode esperar que terminem bem os que não começaram bem. Israel ainda nem tinha saído do Egito por completo, e já começava a provocar o Senhor, duvidando do seu poder para libertar e questionando a sua fidelidade à sua promessa. O mar era chamado apenas de Vermelho, mas os pecados deles eram de fato escarlates; era conhecido como o "mar das algas", mas ervas muito piores cresciam em seus corações.

Versículo 8Salmo 106:8

Não obstante, ele os salvou por amor do seu nome, para fazer conhecido o seu poder. Quando não pôde encontrar nenhuma outra razão para a sua misericórdia, encontrou-a na sua própria glória, e aproveitou a oportunidade para exibir o seu poder. Se Israel não merecia ser salvo, ainda assim o orgulho de Faraó precisava ser esmagado, e por isso Israel seria libertado. O Senhor guarda com muito zelo o seu próprio nome e a sua honra. Jamais se dirá dele que não pode ou não quer salvar o seu povo, ou que não pode abater a soberba dos seus inimigos desafiadores. Esse respeito pela sua própria honra sempre o leva a atos de misericórdia, e por isso bem podemos alegrar-nos de que ele seja um Deus zeloso.

Versículo 9Salmo 106:9

Repreendeu também o Mar Vermelho, e ele se secou. Uma palavra bastou. O mar ouviu a sua voz e obedeceu. Quantas repreensões de Deus se perdem em nós! Não seremos mais indomáveis que o oceano? Deus, por assim dizer, repreendeu o mar e disse: "Por que impedes o caminho do meu povo? O caminho deles para Canaã passa pelo teu leito, como ousas detê-los?" O mar reconheceu o seu Senhor e a sua semente real, e abriu caminho imediatamente.

Assim os conduziu pelos abismos, como pelo deserto. Como se fosse o chão seco do deserto, as tribos atravessaram o fundo do golfo; nem a travessia foi ousadia, pois foi ELE quem os mandou ir; nem foi perigosa, pois foi ele quem os conduziu. Também nós, sob a proteção divina, atravessamos muitas provações e aflições, e, tendo o Senhor como guia, não experimentamos medo nem sofremos perigo algum. Fomos conduzidos pelos abismos como pelo deserto.

Versículo 10Salmo 106:10

E os salvou da mão dos que os odiavam. Faraó se afogou, e o poder do Egito ficou tão paralisado que, durante os quarenta anos de peregrinação de Israel no deserto, jamais foram ameaçados por seus antigos senhores.

E os redimiu da mão do inimigo. Esta foi uma redenção pelo poder, e um dos tipos mais instrutivos da redenção do povo do Senhor do pecado e do inferno, pelo poder que opera neles.

Versículo 11Salmo 106:11

E as águas cobriram os seus adversários: nem um deles ficou. O Senhor não faz nada pela metade. O que começa, leva até o fim. Isso, mais uma vez, tornou maior o pecado de Israel, porque viram a plenitude da justiça divina e a perfeição da fidelidade divina. Em cobrir os seus adversários temos um tipo do perdão dos nossos pecados; eles são afundados como no mar, para nunca mais se levantarem; e, bendito seja o Senhor, "nem um deles ficou". Nem um pecado de pensamento, palavra ou ação — o sangue de Jesus cobriu todos. "Lançarei as suas iniquidades nas profundezas do mar."

Versículo 12Salmo 106:12

Então creram nas suas palavras. Ou seja, creram na promessa quando a viram cumprida, mas não antes disso. Isso é mencionado não para seu crédito, mas para sua vergonha. Os que não creem na palavra do Senhor até vê-la cumprida não são de fato crentes. Quem não creria quando o fato está diante dos olhos? Até os egípcios teriam feito o mesmo.

Cantaram o seu louvor. Como poderiam fazer diferente? O seu cântico foi excelente, e é o tipo do cântico do céu; mas, por mais doce que fosse, foi igualmente breve, e assim que terminou já voltaram a murmurar. "Cantaram o seu louvor", mas "logo esqueceram as suas obras". Entre Israel cantando e Israel pecando mal havia um passo de distância. O cântico deles foi bom enquanto durou, mas mal começou já tinha acabado.

Versículo 13Salmo 106:13

Logo esqueceram as suas obras. Pareciam ter pressa em tirar as misericórdias do Senhor da memória; apressavam-se para ser ingratos.

Não esperaram pelo seu conselho, nem aguardaram a palavra de ordem ou de promessa; ansiosos por fazer à sua própria maneira, e propensos a confiar em si mesmos. Esta é uma falha comum na família do Senhor até hoje; demoramos muito a aprender a esperar pelo Senhor, e no Senhor. Nele há conselho e força, mas somos vaidosos o bastante para buscá-los em nós mesmos, e por isso erramos gravemente.

Versículo 14Salmo 106:14

Mas cobiçaram intensamente no deserto. Embora não quisessem esperar pela vontade de Deus, ardiam por ter a sua própria. Quando lhes foi dado em abundância o alimento mais adequado e agradável, isso não os agradou por muito tempo; tornaram-se exigentes, torceram o nariz para o pão dos anjos, e precisavam a todo custo de carne para comer, dieta pouco saudável para aquele clima quente e para a vida tranquila que levavam. Alimentaram esse desejo até que se tornou uma obsessão, e, como cavalo selvagem, carregou consigo o seu cavaleiro. Por uma refeição de carne, estavam prontos a amaldiçoar o seu Deus e renunciar à terra que mana leite e mel. Que maravilha que o Senhor não os tenha tomado pela palavra! É claro que eles o vexaram grandemente.

E tentaram a Deus no deserto. No lugar onde dependiam absolutamente dele e eram alimentados todo dia por sua provisão direta, tiveram a presunção de provocar o seu Deus. Queriam que ele mudasse os planos da sua sabedoria, satisfizesse os seus apetites sensuais, e fizesse milagres para atender à incredulidade perversa deles: essas coisas o Senhor não faria, mas eles foram tão longe quanto puderam na tentativa de induzi-lo a isso. Não fracassaram em sua tentativa perversa por nenhuma bondade que houvesse neles, mas porque Deus "não pode ser tentado" — a tentação não tem poder sobre ele, ele não cede às ameaças ou promessas do homem.

Versículo 15Salmo 106:15

E ele lhes deu o que pediram. A oração pode ser respondida com ira e negada com amor. Que Deus dê a um homem o seu desejo não é prova de que ele seja objeto do favor divino; tudo depende do que seja esse desejo.

Mas enviou magreza à sua alma. Ah, esse "mas"! Ele amargou tudo. A carne foi veneno para eles quando veio sem bênção; por mais que engordasse o corpo, foi coisa ruim quando deixou a alma magra. Se precisarmos conhecer a escassez, que Deus conceda que não seja escassez de alma: e, no entanto, isso é acompanhante comum da prosperidade mundana. Quando as riquezas crescem, para muitos o estado do mundo engorda, mas o estado da alma emagrece. Ganhar prata e perder ouro já é ganho pobre; mas ganhar para o corpo e perder para a alma é bem pior. Com que ardor Israel poderia ter desfeito as suas orações, se soubesse o que viria com a resposta a elas! As orações da cobiça serão choradas depois. Nos afligimos e nos consumimos até obter o nosso desejo, e depois temos de nos afligir ainda mais, porque alcançá-lo termina em amarga decepção.

Versículo 16Salmo 106:16

Tiveram inveja de Moisés também no acampamento. Embora lhe devessem tudo, como instrumento escolhido do Senhor, invejaram-lhe a autoridade que era necessária que ele exercesse para o bem deles. Alguns foram mais abertamente rebeldes que outros, e se tornaram líderes do motim, mas um espírito de descontentamento era geral, e por isso a nação inteira é acusada dele. Quem pode esperar escapar da inveja, se até o mais manso dos homens esteve sujeito a ela? Quão irracional foi essa inveja, pois Moisés era o único homem em todo o acampamento que mais trabalhava e mais tinha de suportar. Deveriam ter tido compaixão dele; invejá-lo era ridículo.

E Arão, o santo do Senhor. Por escolha divina, Arão foi separado para ser santidade ao Senhor, e, em vez de agradecer a Deus por lhes ter concedido um sumo sacerdote pela intercessão de quem as suas orações seriam apresentadas, criticaram a eleição divina, e brigaram com o homem que havia de oferecer sacrifício por eles. Assim nem a igreja nem o estado estavam bem ordenados para eles; queriam arrancar de Moisés o seu cetro, e de Arão a sua mitra. É marca dos maus invejarem os bons, e serem malévolos contra os seus melhores benfeitores.

Versículo 17Salmo 106:17

A terra se abriu e engoliu Datã, e cobriu a companhia de Abirão. Corá não é mencionado, pois a sua casa foi poupada, embora ele mesmo tenha perecido. A terra já não podia suportar o peso desses rebeldes e ingratos: a paciência de Deus se esgotou quando começaram a atacar os seus servos, pois os seus filhos lhe são muito caros, e quem os toca toca na menina dos seus olhos. Moisés tinha aberto o mar para a libertação deles, e agora que o provocam, a terra se abre para a destruição deles. Era tempo de que a nudez dos seus pecados fosse coberta, e de que a terra abrisse a sua boca para devorar os que abriam a boca contra o Senhor e os seus servos.

Versículo 18Salmo 106:18

E um fogo se acendeu na sua companhia; a chama consumiu os ímpios. Os levitas que estavam com Corá pereceram pelo fogo, morte muitíssimo apropriada para os que se intrometeram no sacerdócio e assim ofereceram fogo estranho. Deus tem mais de uma flecha na sua aljava; o fogo pode consumir os que o terremoto poupa. Estas coisas terríveis, feitas em justiça, são mencionadas aqui para mostrar a obstinação do povo em continuar a se rebelar contra o Senhor. Os terrores foram tão desperdiçados neles quanto o tinham sido as misericórdias; não podiam ser nem atraídos nem conduzidos.

Versículo 19Salmo 106:19

Fizeram um bezerro em Horebe. No próprio lugar onde tinham solenemente se comprometido a obedecer ao Senhor, quebraram o segundo, senão o primeiro, dos seus mandamentos, e ergueram o símbolo egípcio do boi, e se curvaram diante dele. A imagem do boi é aqui chamada, com sarcasmo, de "um bezerro"; os ídolos não merecem nenhum respeito, e o escárnio nunca é mais legítimo do que quando derramado sobre todas as tentativas de representar o Deus Invisível. Os israelitas foram de fato tolos ao pensarem que viam a menor glória divina em um touro, ou melhor, na simples imagem de um touro. Crer que a imagem de um touro pudesse ser a imagem de Deus exige grande credulidade.

E adoraram a imagem fundida. Diante dela prestaram honras divinas, e disseram: "Estes são os teus deuses, ó Israel." Isso foi pura loucura. Da mesma forma, os ritualistas precisam erguer os seus símbolos e multiplicá-los ao extremo. O culto espiritual parecem incapazes de compreender; o culto deles é sensual ao mais alto grau, e apela aos olhos, aos ouvidos e ao nariz. Ó a loucura dos homens em bloquear o seu próprio caminho ao culto aceitável, e tornar mais difícil ainda a senda da religião espiritual — já difícil para a nossa natureza — através dos tropeços que nela lançam. Já ouvimos elogiar muito a riqueza dos paramentos papistas, mas uma imagem idólatra feita de ouro não é nem um pouco menos abominável do que se fosse feita de escória e esterco: a beleza da arte não consegue esconder a deformidade do pecado. Também nos falam da sugestividade dos seus símbolos, mas de que vale isso, quando Deus proíbe o seu uso? Vão é também alegar que tal culto é sincero. Pior ainda. Sinceridade em ações proibidas é apenas maior transgressão.

Versículo 20Salmo 106:20

Assim trocaram a sua glória pela semelhança de um boi que come erva. Disseram que pretendiam apenas adorar o único Deus sob uma semelhança adequada e sugestiva, pela qual o seu grande poder seria exposto à multidão; alegavam o grande reavivamento católico que se seguiu a esse retorno a uma cerimônia mais ornamentada, pois o povo se aglomerava ao redor de Arão, e dançava diante do bezerro com todas as suas forças.

Mas, na verdade, tinham renunciado ao verdadeiro Deus, a quem fora sua glória adorar, e haviam erguido um rival contra ele, não uma representação dele; pois como poderia ele ser comparado a um novilho? O salmista é muito desdenhoso, e com razão: a irreverência para com os ídolos é uma reverência indireta a Deus. Falsos deuses, tentativas de representar o verdadeiro Deus, e, de fato, todas as coisas materiais que são adoradas, não passam de imundície sobre a face da terra, sejam cruzes, crucifixos, virgens, hóstias, relíquias, ou mesmo o próprio papa.

Somos, de longe, excessivamente comedidos quanto a essas abominações infames: Deus as detesta, e nós também deveríamos detestá-las. Renunciar à glória do culto espiritual em troca de pompa e ostentação exterior é o cúmulo da loucura, e merece ser tratado como tal.

Versículo 21Salmo 106:21

Esqueceram-se de Deus, seu salvador. Lembrar-se do bezerro implicava esquecer-se de Deus. Ele lhes havia ordenado que não fizessem nenhuma imagem, e, ao ousarem desobedecer, esqueceram os seus mandamentos. Além disso, é claro que devem ter esquecido por completo a natureza e o caráter de Jeová, ou jamais o teriam comparado a um animal que come erva. Alguns homens esperam guardar os seus pecados e também o seu Deus — sendo o fato que quem peca já está tão distante do Senhor que na verdade já se esqueceu dele.

Que fizera grandes coisas no Egito. Deus, no Egito, tinha vencido todos os ídolos, e ainda assim o esqueceram a ponto de compará-lo a eles. Poderia um boi fazer milagres? Poderia um bezerro de ouro lançar pragas sobre os inimigos de Israel? Foram bestiais ao erguer tão miserável zombaria da divindade, depois de terem visto o que o verdadeiro Deus era realmente capaz de realizar.

"Obras maravilhosas na terra de Cam, e coisas terríveis junto ao Mar Vermelho." Viram várias séries de milagres; o Senhor não lhes poupou as evidências do seu poder e divindade eternos, e ainda assim não conseguiram contentar-se em adorá-lo à sua própria maneira designada, mas precisaram de um ritual próprio de sua invenção, um culto elaborado à antiga moda egípcia, e um objeto manifesto de adoração para ajudá-los a adorar a Jeová. Isso bastou para provocar o Senhor, e de fato o provocou; quão irado ele fica todo dia em nossa própria terra, nenhuma língua pode dizer.

Versículo 23Salmo 106:23

Portanto disse que os destruiria. A ameaça de destruição veio, por fim. Pelo primeiro pecado no deserto, ele os disciplinou, enviando magreza à sua alma; pelo segundo, arrancou os culpados, e a chama consumiu os ímpios; pelo terceiro, ameaçou destruí-los; pelo quarto, levantou a sua mão e quase chegou aos golpes (Salmo 106:26); pelo quinto, de fato os feriu, "e a praga irrompeu entre eles"; e assim a punição aumentava com a persistência deles no pecado.

Vale a pena notar isso, e deveria servir de advertência ao homem que persiste nas suas iniquidades. Deus prova as palavras antes de chegar aos golpes: "disse que os destruiria" — mas as suas palavras não são para se brincar, pois ele as tem por sérias, e tem poder para cumpri-las.

Se Moisés, seu escolhido, não se tivesse posto diante dele na brecha. Como um guerreiro corajoso que defende a muralha quando há uma abertura para o adversário e a destruição se precipita sobre a cidade, Moisés deteve o caminho da justiça vingadora com as suas orações. Moisés tinha grande poder diante de Deus. Foi um tipo eminente do nosso Senhor, que é chamado, como Moisés aqui é qualificado, "meu escolhido, em quem a minha alma se compraz."

Assim como o Redentor Eleito se interpôs entre o Senhor e um mundo pecador, também Moisés se colocou entre o Senhor e o seu povo ofensor. A história, como contada pelo próprio Moisés, é cheia de interesse e instrução, e tende grandemente a engrandecer a bondade do Senhor, que assim se deixou desviar do furor da sua ira. Com afeto desinteressado, e generosa renúncia dos privilégios oferecidos a ele mesmo e à sua família, o grande legislador intercedeu junto ao Senhor para que desviasse a sua ira, a fim de que não os destruísse.

Eis o poder da intercessão de um homem justo. Por maior que fosse o pecado de Israel em provocar a vingança, a oração foi mais poderosa ainda em desviá-la. Com que diligência devemos suplicar ao Senhor por este mundo culpado, e especialmente pelo seu próprio povo desviado! Quem não empregaria um recurso tão poderoso para um fim tão gracioso! O Senhor ainda escuta a voz de um homem; não deveriam as nossas vozes ser frequentemente exercitadas em súplica por um povo culpado?

Versículo 24. Sim, desprezaram a terra aprazível. Falaram dela com leviandade, embora fosse a alegria de todas as terras: não a julgaram digna do trabalho de buscá-la e conquistá-la; chegaram até a falar do Egito, a terra da sua servidão de ferro, como se o preferissem a Canaã, a terra que mana leite e mel. É mau sinal, num cristão, quando começa a pensar com leviandade do céu e das coisas celestiais; isso indica uma mente pervertida, e é, além disso, grande ofensa ao Senhor desprezar aquilo que ele estima tão altamente, a ponto de, em infinito amor, reservá-lo para os seus próprios escolhidos. Preferir as coisas terrenas às bênçãos celestiais é preferir o Egito a Canaã, a casa da servidão à terra da promessa.

Não creram na sua palavra. Este é o pecado raiz. Se não cremos na palavra do Senhor, pensaremos com leviandade dos dons que ele prometeu. "Não puderam entrar por causa da incredulidade" — esta foi a chave que trancou a porta contra eles. Quando os peregrinos rumo à Cidade Celestial começam a duvidar do Senhor do caminho, logo passam a dar pouco valor ao descanso no fim da jornada, e este é o caminho mais certo para fazer deles maus viajantes. A incredulidade de Israel exigiu espias para ver a terra; o relatório desses espias teve caráter misto, e assim brotou uma nova safra de incredulidade, com consequências deploráveis.

Versículo 25Salmo 106:25

Antes murmuraram em suas tendas. Da incredulidade à murmuração é um passo curto e natural; até choraram quando tinham o melhor motivo para se alegrar. Murmurar é grande pecado, e não mera fraqueza; contém em si incredulidade, orgulho, rebeldia, e toda uma multidão de pecados. É pecado doméstico, e geralmente praticado por reclamões "em suas tendas", mas é tão mau ali quanto nas ruas, e será igualmente grave diante do Senhor.

E não deram ouvidos à voz do Senhor. Fazendo barulho com as suas próprias vozes, recusaram atenção ao seu melhor Amigo. Murmuradores são maus ouvintes.

Versículo 26Salmo 106:26

Por isso levantou a sua mão contra eles, para os derrubar no deserto. Jurou na sua ira que não entrariam no seu descanso; começou a sua obra de julgamento sobre eles, e passaram a morrer. Basta que Deus levante a mão contra um homem, e o seu dia chegou; cai terrivelmente aquele a quem Jeová derruba.

Para também derrubar a sua descendência entre as nações, e espalhá-los pelas terras. Prevendo que os seus descendentes reproduziriam os seus pecados, ele declarou solenemente que os entregaria ao cativeiro e à espada. Aqueles cujos cadáveres caíram no deserto eram, em certo sentido, exilados da terra da promessa, e, cercados por muitas tribos hostis, estavam praticamente em terra estrangeira: morrer longe da herança de seus pais foi sentença justa e pesada, que as suas rebeliões haviam merecido de sobra.

A nossa própria perda de comunhão com Deus, e as divisões em nossas igrejas, sem dúvida muitas vezes nos vêm como castigos pelos pecados de que brotam. Se não quisermos honrar o Senhor, não podemos esperar que ele nos honre. Nossos capitães logo se tornarão cativos, e nossos príncipes serão prisioneiros, se esquecermos o Senhor e desprezarmos as suas misericórdias. Nosso canto se tornará gemido, e nossa alegria, miséria, se andarmos contrários à mente do Senhor.

Versículo 28Salmo 106:28

Uniram-se também a Baal-Peor. O ritualismo levou à adoração de deuses falsos. Se escolhemos uma forma falsa de culto, logo escolheremos adorar um deus falso. Essa abominação dos moabitas era um ídolo em cujo culto as mulheres entregavam os seus corpos à mais desavergonhada luxúria. Pensem no povo de um Deus santo descendo a isso.

E comeram os sacrifícios dos mortos. Nas orgias com que os baalitas celebravam o seu detestável culto, Israel se uniu, participando até dos seus sacrifícios como sérios adoradores do átrio interior, embora os deuses fossem apenas ídolos mortos. Talvez tenham assistido a ritos de necromancia destinados a abrir correspondência com espíritos falecidos, tentando assim romper o selo da providência de Deus e invadir os aposentos secretos que Deus fechou. Os que se cansam de buscar o Deus vivo têm com frequência mostrado inclinação pelas ciências sombrias, e buscado comunhão com demônios e espíritos. A que fortes ilusões são muitas vezes entregues os que lançam fora o temor de Deus! Esta observação é tão necessária hoje quanto o foi em tempos passados.

Versículo 29Salmo 106:29

Assim o provocaram à ira com as suas invenções, e a praga irrompeu entre eles. A libertinagem aberta e a idolatria declarada eram graves demais para se fechar os olhos. Desta vez as ofensas clamavam por julgamento, e o julgamento veio imediatamente. Vinte e quatro mil pessoas caíram diante de uma doença súbita e mortal que ameaçava correr por todo o acampamento. Os seus novos pecados lhes trouxeram uma doença nova para as suas tribos. Quando os homens inventam pecados, Deus não tardará em inventar punições. Os seus vícios foram uma peste moral, e foram visitados por uma peste corporal: assim o Senhor responde ao igual com o igual.

Versículo 30Salmo 106:30

Então se levantou Fineias, e executou julgamento; e assim a praga se deteve. Deus tem os seus campeões guardados até para os piores tempos, e eles se levantarão quando chegar a hora de saírem para a batalha. Essa justa indignação o moveu a executar rapidamente dois transgressores em flagrante. Seu espírito honesto não podia suportar que a lascívia fosse praticada publicamente num momento em que um jejum tinha sido proclamado. Tamanho desafio ousado a Deus e a toda lei ele não pôde tolerar, e assim, com sua lança afiada, transpassou os dois culpados no próprio ato.

Foi uma paixão santa que o inflamou, e nenhuma inimizade contra qualquer das pessoas que matou. As circunstâncias eram tão notáveis, e o pecado tão flagrante, que teria envolvido grande pecado a um homem público ficar parado vendo Deus assim desafiado, e Israel assim poluído. Fineias não era desse tipo, não era complacente nem paliador do pecado; seu coração era íntegro nos estatutos de Deus, e toda a sua natureza ardia de zelo pela glória de Deus, e por isso, embora sacerdote, e portanto não obrigado a ser executor, assumiu a tarefa indesejada, e, embora ambos os transgressores fossem de linhagem principesca, não teve acepção de pessoas, mas fez justiça sobre eles como se fossem os mais humildes do povo. Esse feito corajoso e decidido foi tão aceitável a Deus, como prova de que havia algumas almas sinceras em Israel, que a visitação mortal não foi além. Duas mortes bastaram para salvar as vidas da multidão.

Versículo 31Salmo 106:31

E isso lhe foi imputado por justiça, por todas as gerações, para sempre. Até o momento em que este salmo foi escrito, a casa de Fineias era honrada em Israel. Sua fé tinha realizado um feito valoroso, e sua justiça foi testemunhada pelo Senhor, e honrada pela continuidade de sua família no sacerdócio. Foi impelido por motivos tais que o que de outra forma seria um ato de sangue foi justificado diante de Deus; mais ainda, foi feito prova de que Fineias era justo. Nenhuma ambição pessoal, vingança privada, paixão egoísta, ou mesmo fanatismo, inspirou o homem de Deus, mas o zelo por Deus, a indignação contra a imundície aberta, e o verdadeiro patriotismo o impeliram.

Mais uma vez temos motivo para notar a misericórdia de Deus, que mesmo quando sua ordem já estava dada, e a execução já em curso, ele deteve sua mão a pedido de um só homem: encontrando, por assim dizer, uma justificativa para a sua graça quando a justiça parecia exigir vingança imediata.

Versículo 32Salmo 106:32

Também o irritaram junto às águas de Meribá. Será que não vão parar nunca? A cena muda, mas o pecado continua. Antes tinham se amotinado por causa de água, quando a oração logo teria transformado o deserto em uma poça permanente, mas agora fazem o mesmo de novo, depois de terem experimentado a bondade divina. Isso tornou o pecado uma ofensa dupla, sim, sétupla, e fez a ira do Senhor mais intensa ainda.

De modo que sucedeu mal a Moisés por causa deles. Moisés finalmente se cansou, e começou a se irritar com eles, e a perder toda a esperança de que algum dia melhorassem; podemos nos admirar disso, já que ele era homem e não Deus? Depois de quarenta anos suportando-os, a paciência do homem manso se esgotou, e ele os chamou de rebeldes, e demonstrou ira não santificada; e por isso não lhe foi permitido entrar na terra que desejava herdar. É verdade que teve vista da boa terra do alto de Pisga, mas a entrada lhe foi negada, e assim lhe sucedeu mal.

Foi o pecado deles que o irritou, mas ele teve de arcar com as consequências; por mais claro que seja que outros são mais culpados que nós, devemos sempre lembrar que isso não nos protege, mas cada homem tem de carregar o seu próprio fardo.

Versículo 33Salmo 106:33

Porque irritaram o seu espírito, de modo que falou imprudentemente com os seus lábios. O que parece um pecado pequeno, comparado ao de outros, mas era o pecado de Moisés, o servo escolhido do Senhor, que tanto tinha visto e conhecido do Senhor, e por isso não podia ser deixado de lado. Ele não falou de forma blasfema, nem falsa, mas apenas de forma apressada e descuidada; mas isso é falta séria num legislador, e especialmente em quem fala por Deus. Esta passagem é, para nós, uma das mais terríveis da Bíblia. Servimos, de fato, a um Deus zeloso.

E, no entanto, ele não é senhor duro ou austero; não devemos pensar assim, mas devemos, antes, ter zelo por nós mesmos, e vigiar para vivermos com mais cuidado, e falarmos com mais prudência, porque servimos a tal Senhor. Devemos também ser muito cuidadosos em como tratamos os ministros do evangelho, para que, ao irritar o espírito deles, não os empurremos a algum comportamento impróprio que traga sobre eles a disciplina do Senhor. Pouco imagina um povo murmurador e briguento os perigos em que envolve seus pastores com seu comportamento adverso.

Versículo 34Salmo 106:34

Não destruíram os povos, a respeito dos quais o Senhor lhes tinha ordenado. Foram encarregados de agir como executores sobre raças condenadas por seus crimes contra a natureza, e, por preguiça, covardia ou culposa complacência, embainharam a espada cedo demais, para seu próprio perigo e inquietação.

É um grande mal entre os que professam a fé não terem zelo pela destruição total de todo pecado, dentro e fora. Fazemos alianças de paz onde deveríamos proclamar guerra sem quartel; alegamos nosso temperamento constitucional, nossos hábitos anteriores, a necessidade das nossas circunstâncias, ou alguma outra desculpa perversa como pretexto para nos contentarmos com uma santificação muito parcial, se é que se trata de santificação de fato. Somos também lentos em repreender o pecado nos outros, e prontos a poupar pecados respeitáveis, que, como Agague, andam com passos comedidos.

A medida da nossa destruição do pecado não deve ser a nossa inclinação, nem o hábito alheio, mas o mandamento do Senhor. Não temos autorização para lidar com brandura com nenhum pecado, seja qual for.

Versículo 35Salmo 106:35

Antes se misturaram com os gentios, e aprenderam as suas obras. Não foi o deserto que causou os pecados de Israel; eram igualmente desobedientes já estabelecidos na terra da promessa. Encontraram má companhia, e nela se deleitaram. Aqueles a quem deveriam ter destruído, fizeram de amigos. Já tendo falhas de sobra, ainda assim estavam prontos para ir à escola dos imundos cananeus, e se educar ainda mais nas artes da iniquidade. Era certo que não podiam aprender bem algum com homens que o Senhor havia condenado à destruição total. Poucos gostariam de ir à cela dos condenados para aprender, mas Israel sentou-se aos pés do maldito Canaã, e se levantou versado em toda abominação.

Este também é um erro grave, mas comum, entre os que professam a fé: cortejam a companhia mundana e copiam as modas do mundo, quando a sua vocação é dar testemunho contra essas coisas. Ninguém pode dizer quanto mal já veio da loucura da conformidade com o mundo.

Versículo 36Salmo 106:36

E serviram aos seus ídolos, que lhes foram um laço. Foram fascinados pelos encantos da idolatria, embora ela traga miséria aos seus devotos. Um homem não pode servir ao pecado sem ser enlaçado por ele. É como visco de passarinheiro; tocar nele é ser preso por ele. Sansão pôs a cabeça no colo da mulher filisteia, mas logo despertou tosquiado da sua força. Namorar com o pecado é fatal à liberdade espiritual.

Versículo 37Salmo 106:37

Sim, sacrificaram os seus filhos e as suas filhas aos demônios. Isso sim era estar enlaçado de fato; estavam enfeitiçados pela superstição cruel, e foram levados até ao ponto de se tornarem assassinos dos seus próprios filhos, em honra às mais detestáveis divindades, que eram antes demônios do que deuses.

E derramaram sangue inocente. Os pobres pequenos que mataram em sacrifício não tinham sido partícipes do pecado deles, e Deus olhou com a mais absoluta indignação para o assassinato dos inocentes. "Até o sangue de seus filhos e de suas filhas, que sacrificaram aos ídolos de Canaã." Quem sabe até onde o mal irá? Levou os homens a serem desnaturados tanto quanto ímpios. Se ao menos tivessem pensado por um momento, teriam visto que uma divindade que poderia se agradar do sangue de bebês derramado por seus próprios pais não poderia ser divindade alguma, mas teria de ser um demônio, digno de ser detestado e não adorado. Como puderam preferir tal culto ao de Jeová? Arrancava ele seus bebês do colo e sorria diante da agonia da morte deles? Os homens preferem antes vestir o jugo de ferro de Satanás a carregar o fardo agradável do Senhor; não prova isso, de forma cabal, a profunda depravação dos seus corações? Se o homem não é totalmente depravado, o que faria de pior se fosse? Não descreve este versículo o ponto extremo da iniquidade?

E a terra foi contaminada com sangue. A terra prometida, a terra santa, que era a glória de todas as terras, pois Deus estava ali, foi manchada com o sangue fumegante de bebês inocentes, e pelas mãos ensanguentadas dos seus próprios pais, que os matavam para prestar homenagem a demônios. Ai, ai! Que aflição foi esta para o espírito do Senhor.

Versículo 39Salmo 106:39

Assim se contaminaram com as suas próprias obras, e se prostituíram com as suas próprias invenções. Não só a terra, mas os seus habitantes foram contaminados. Romperam o vínculo matrimonial entre eles e o Senhor, e caíram em adultério espiritual. A linguagem é forte, mas a ofensa não poderia ser descrita de forma adequada em palavras menos vigorosas. Assim como um marido é profundamente desonrado e gravemente ferido se sua esposa se torna infiel e se entrega a muitos amantes na própria casa dele, assim o Senhor se irou contra o seu povo por erguerem muitos deuses e muitos senhores na sua própria terra.

Fizeram e inventaram novos deuses, e depois adoraram o que tinham feito. Que loucura! Suas novas divindades eram monstros repugnantes e demônios cruéis, e ainda assim lhes prestavam homenagem. Que perversidade! E, para cometer essa loucura e perversidade, rejeitaram o verdadeiro Deus, cujos milagres tinham visto, e de quem eram o povo. Isso foi provocação da pior espécie.

Versículo 40Salmo 106:40

Por isso se acendeu a ira do Senhor contra o seu povo, ao ponto de detestar a sua própria herança. Não que, mesmo então, ele quebrasse a sua aliança ou rejeitasse por completo o seu povo ofensor, mas sentiu a mais profunda indignação, e chegou a olhar para eles com aversão. O sentimento descrito é semelhante ao de um marido que ainda ama a sua esposa culpada, mas que, ao pensar na sua lascívia, sente toda a sua natureza se erguer em justa ira contra ela, de modo que a própria visão dela aflige a sua alma. Até onde pode arder a ira divina contra aqueles a quem ele ainda ama no coração é difícil dizer, mas certamente Israel levou o experimento ao extremo.

E os entregou nas mãos dos gentios. Esta foi a manifestação da sua aversão. Deu-lhes um gosto do resultado do pecado; pouparam os gentios, se misturaram com eles e os imitaram, e logo tiveram que sofrer nas mãos deles, pois hordas de invasores foram soltas sobre eles para saqueá-los à vontade. Os homens fazem varas para as próprias costas. As suas próprias invenções se tornam as suas punições.

E os que os odiavam dominaram sobre eles. E quem se admiraria disso? O pecado nunca cria amor verdadeiro. Uniram-se aos gentios na perversidade deles, e não conquistaram os corações deles, mas antes provocaram o seu desprezo. Se nos misturamos com os homens do mundo, logo eles se tornarão nossos senhores e nossos tiranos, e não podemos querer nada pior.

Versículo 42Salmo 106:42

Os seus inimigos também os oprimiram. Isso foi conforme a sua natureza; um israelita sempre passa mal nas mãos dos gentios. A leniência com Canaã acabou por se tornar crueldade contra si mesmos.

E foram subjugados sob a mão deles. Foram curvados sob a servidão laboriosa, e feitos a jazer prostrados sob tirania. No seu Deus tinham encontrado um senhor bondoso, mas naqueles com quem perversamente buscaram comunhão encontraram déspotas da espécie mais bárbara. Quem deixa o seu Deus deixa a felicidade pela miséria. Deus pode fazer dos nossos inimigos varas em suas mãos para nos açoitar de volta ao nosso melhor Amigo.

Versículo 43Salmo 106:43

Muitas vezes os libertou. Lendo o livro de Juízes veremos quão verdadeira é esta frase: uma vez e outra os seus inimigos foram derrotados, e eles foram libertados de novo, apenas para retornarem com rigor aos seus antigos caminhos maus.

Mas o provocaram com o seu conselho. Com deliberação, concordaram em transgredir de novo; a própria vontade foi o seu conselheiro, e a seguiram para a própria destruição.

E foram abatidos pela sua iniquidade. Cada vez piores foram os males trazidos sobre eles, cada vez mais fundo caíram no pecado, e, por consequência, na tristeza. Em covas e cavernas da terra se esconderam; foram privados de todas as armas de guerra, e totalmente desprezados por seus conquistadores; eram antes uma raça de servos do que de homens livres, até que o Senhor, em misericórdia, novamente os levantou.

Se pudéssemos conhecer plenamente os horrores das guerras que devastaram a Palestina, e os estragos que causaram fome e inanição, estremeceríamos diante dos pecados assim repreendidos. Profundamente arraigado na sua natureza deve ter estado o pecado da idolatria, ou não teriam retornado a ele com tal persistência, mesmo diante de tais penalidades; não precisamos nos admirar disso, há maravilha ainda maior: o homem prefere o pecado e o inferno ao céu e a Deus.

A lição para nós, como povo de Deus, é andar humilde e cuidadosamente diante do Senhor, e, acima de tudo, guardar-nos dos ídolos. Ai dos que se tornam participantes das idolatrias de Roma, pois serão associados a ela nas suas pragas. Que a graça nos seja concedida para mantermos o caminho separado, e permanecermos imaculados da fornicação da meretriz escarlate da Babilônia.

Versículo 44Salmo 106:44

Não obstante, ele considerou a aflição deles, quando ouviu o seu clamor. Apesar de todas essas rebeliões provocadoras e enormidades detestáveis, o Senhor ainda ouviu a sua oração e teve compaixão deles. Isso é muito admirável, muito próprio de Deus. Poder-se-ia pensar que o Senhor teria fechado a porta à oração deles, já que tinham fechado os ouvidos às suas advertências; mas não, ele tinha coração de pai, e a visão das suas tristezas tocou a sua alma; o som do seu clamor venceu o seu coração, e ele os olhou com compaixão. A sua ira mais feroz para com o seu próprio povo é apenas uma chama passageira, mas o seu amor arde para sempre, como a luz da sua própria imortalidade.

Versículo 45Salmo 106:45

E lembrou-se, por eles, da sua aliança. A aliança é o fundamento seguro da misericórdia, e quando toda a estrutura da graça exterior manifestada nos santos jaz em ruínas, esta é a base fundamental do amor, que nunca se abala, e sobre ela o Senhor passa a construir de novo uma nova estrutura de graça. A misericórdia da aliança é tão segura quanto o trono de Deus.

E se arrependeu, segundo a multidão das suas misericórdias. Ele não levou adiante a destruição que tinha começado. Falando à maneira dos homens, ele mudou de ideia, e não os deixou nas mãos dos seus inimigos para serem totalmente exterminados, porque viu que a sua aliança teria, nesse caso, sido quebrada. O Senhor é tão cheio de graça que não tem apenas misericórdia, mas misericórdias, sim, uma multidão delas, e estas se armazenam na aliança e guardam o bem para os filhos errantes dos homens.

Versículo 46Salmo 106:46

Ele os fez também objeto de compaixão diante de todos os que os levavam cativos. Tendo os corações de todos os homens em suas mãos, ele produziu compaixão até em peitos pagãos. Assim como encontrou amigos para José no Egito, também levantou pessoas compassivas para os seus servos cativos. Na nossa pior condição, o nosso Deus tem caminhos e meios para aliviar a severidade das nossas tristezas: ele pode nos encontrar ajudadores até entre os que foram nossos opressores, e o fará, se de fato formos o seu povo.

Versículo 47Salmo 106:47

Esta é a oração final, disposta por profecia para os que no futuro seriam cativos, e adequada a todos os que, antes dos dias de Davi, tinham sido expulsos de casa pela tirania das várias dispersões causadas pela fome e pela aflição que ocorreram na era de ferro dos juízes.

Salva-nos, ó Senhor, nosso Deus. A menção da aliança encorajava os aflitos a chamar o Senhor de seu Deus, e isso lhes permitia, com maior ousadia, suplicar-lhe que interviesse em favor deles e os resgatasse.

E ajunta-nos dentre os gentios. Já cansados dos ímpios e dos seus caminhos, ansiavam por serem trazidos de volta à sua própria terra separada, onde poderiam de novo gozar dos meios de graça, entrar em santa comunhão com os seus irmãos, escapar de exemplos contaminadores, e ficar livres para esperar no Senhor. Quantas vezes hoje os verdadeiros crentes desejam ser retirados de lares ímpios, onde suas almas se afligem com a conversa dos maus.

Para darmos graças ao teu santo nome, e triunfarmos no teu louvor. Desapegados dos ídolos, desejam fazer menção apenas do nome de Jeová, e atribuir as suas misericórdias à fidelidade e ao amor eternos dele. O Senhor muitas vezes os havia salvado por amor do seu santo nome, e por isso sentem que, quando restaurados novamente, prestariam toda a sua gratidão a esse nome salvador, sim, seria a sua glória louvar a Jeová e a mais ninguém.

Versículo 48Salmo 106:48

Bendito seja o Senhor Deus de Israel, de eternidade a eternidade. Não durou a sua misericórdia para sempre, e não deveria o seu louvor ter igual duração? Jeová, o Deus de Israel, abençoou o seu povo; não deveria ele também abençoá-lo? E diga todo o povo: Amém. Todos foram poupados pela sua graça; unam-se todos na adoração, com voz alta e unânime. Que trovão de louvor isso causaria! No entanto, ainda que uma nação assim o engrandeça, sim, ainda que todas as nações, passadas e presentes, se unissem na solene aclamação, ficaria muito aquém do que ele merece. Ah, quando chegar o dia feliz em que toda carne verá a glória de Deus, e todos proclamarão em voz alta o seu louvor.

Louvai ao Senhor, ou "Aleluia".

Leitor, louva tu também ao Senhor, como faz agora, de todo o coração, quem escreve esta débil exposição.

Bendito seja ele agora, e bendito para sempre,

o mesmo através de toda a eternidade,

o Deus adorado do nosso Israel!

Que todo o povo se una ao cântico,

e em voz alta diga: "Aleluia",

"louvai ao Senhor que vive!"

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