Notas explicativas e citações: Salmo 106
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 106, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 106 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Versículo 1Salmo 106:1
Porque ele é bom; essencial, exclusiva e originalmente; é comunicativo e difusivo da sua bondade; é o autor de todo bem e nenhum mal; e é gracioso, misericordioso e pronto para perdoar. John Gill.
Porque ele é bom: porque a sua bondade dura para sempre. Observe-se aqui o que é uma confissão verdadeira e perfeita da bondade divina. Sempre que Deus abençoa o seu próprio povo de tal modo que a sua bondade é percebida pelo sentido carnal, ao conceder riquezas, honras, paz, saúde e coisas semelhantes, então é fácil reconhecer que Deus é bom, e esse reconhecimento pode ser feito pelos homens mais carnais. O caso é diferente quando ele visita os ofensores com a vara da correção e os açoita com a graça da disciplina. Então a carne dificilmente suporta confessar aquilo que, por seu próprio sentido, não percebe. Ela falha em discernir a bondade de Deus para a salvação na severidade da vara e do açoite, e por isso se recusa a reconhecer essa bondade nos golpes e nos sofrimentos.
O profeta, contudo, ao longo deste salmo, celebra em muitas passagens o modo pelo qual o povo pecador foi detido e ferido. E quando propôs que este salmo fosse cantado na igreja de Deus, Israel estava sob a cruz e as aflições. Mesmo assim, ele exige que Israel reconheça que o Senhor é bom, que a sua misericórdia dura para sempre, mesmo no próprio ato de ferir o ofensor. Portanto, somente é confissão verdadeira e plena da bondade divina aquela que se faz não apenas na prosperidade, mas também na adversidade. Musculus.
Há:
A doxologia;
O convite;
A razão pela qual devemos, e o porquê devemos, dar graças sempre;
A grandeza da obra. Mas "quem pode falar das grandes obras do Senhor? Quem pode anunciar todo o seu louvor?" Isto é, é impossível a qualquer homem no mundo cumprir devidamente este grande dever, como deveria.
O melhor modo e método de dar graças. "Bem-aventurados os que guardam o juízo, e o que pratica justiça em todo tempo." Como se tivesse dito: "Este é, de fato, um dever imenso; mas ainda assim faz o melhor ensaio para cumpri-lo aquele que se dedica constantemente a servir a Deus e guardar os seus mandamentos." — William Cooper, em "Morning Exercises."
Os dois primeiros e os dois últimos versículos deste salmo formam parte daquele salmo que Davi entregou nas mãos de Asafe e de seus irmãos, para ser cantado diante da arca da aliança, depois de trazida da casa de Obede-Edom para o monte Sião. Veja 1 Crônicas 16:34-36. Por isso tem sido atribuído à pena de Davi. Muitos dos antigos pensaram, e são seguidos por Horsley e Mudge, que foi escrito durante o cativeiro, apoiando essa opinião principalmente no versículo 47; mas, como esse versículo aparece no salmo de Davi registrado em 1 Crônicas 16:35, este argumento fica claramente sem força. Nota de James Anderson a Calvino, no lugar.
Versículo 2Salmo 106:2
Quem pode falar? etc. Este versículo admite duas interpretações; pois, se o lermos em conexão com o que vem logo em seguida, o sentido será que nem todos os homens são igualmente capazes da tarefa de louvar a Deus, porque os ímpios e os maus nada mais fazem senão profanar o seu santo nome com lábios impuros; como se diz no salmo cinquenta: "Mas ao ímpio diz Deus: Que direito tens tu de recitar os meus estatutos, ou de tomar a minha aliança na tua boca?" E, por isso, a esta sentença deveria estar ligada a cláusula seguinte, em forma de resposta: "Bem-aventurados os que guardam o juízo." Sou, porém, de opinião de que o profeta tinha outro propósito, a saber, que não há homem algum que tenha se esforçado por concentrar todas as suas energias, tanto físicas quanto mentais, em louvar a Deus, que não se ache inadequado para tema tão elevado, cuja grandeza transcendente domina todos os nossos sentidos.
Não que ele exalte deliberadamente o poder de Deus para nos deter de celebrar os seus louvores, mas antes como meio de nos impelir a fazê-lo com todo o nosso poder. Será alguma razão para cessarmos os nossos esforços que, com qualquer disposição que sigamos o nosso curso, ainda assim fiquemos bem aquém da perfeição? Mas o que deveria nos inspirar o maior encorajamento é saber que, embora a capacidade nos falte, os louvores que oferecemos a Deus do coração lhe são agradáveis; apenas nos guardemos da insensibilidade; pois seria certamente muito absurdo que aqueles que não podem alcançar um décimo da perfeição fizessem disso ocasião para não alcançarem sequer a centésima parte dela. John Calvino.
Quem pode falar das grandes obras do Senhor? etc. A nossa vista falha quando olhamos para o sol, dominada pelo esplendor dos seus raios; e o olho da mente sofre o mesmo em toda meditação sobre Deus, e quanto mais atenção se dedica a pensar em Deus, mais a visão mental se cega pela própria luz dos seus pensamentos. Pois que podes dizer dele, que, repito, podes dizer adequadamente daquele que é mais sublime que toda altura, e mais elevado que toda elevação, e mais profundo que toda profundidade, e mais claro que toda claridade, e mais brilhante que todo brilho, e mais esplêndido que todo esplendor, mais forte que toda força, mais vigoroso que todo vigor, mais belo que toda beleza, mais verdadeiro que toda verdade, e mais poderoso que todo poder, e maior que toda majestade, e mais forte que toda força, mais rico que toda riqueza, mais sábio que toda sabedoria, mais gentil que toda gentileza, mais justo que toda justiça, mais misericordioso que toda misericórdia? — Tertuliano, citado por Neale e Littledale.
Quem pode falar das grandes obras do Senhor? etc. Isso pode ser entendido tanto como uma negação quanto como uma restrição. Poucos ou nenhum podem "falar das grandes obras do Senhor", podem "anunciar todo o seu louvor"; poucos podem fazê-lo de modo aceitável, e nenhum pode fazê-lo de modo perfeito. E, de fato, não é incomum nas Escrituras que este tipo de interrogação equivalha a uma negação, ou pelo menos a uma expressão da raridade e da dificuldade da coisa mencionada: 1 Coríntios 2:16; Salmo 92:1; Isaías 53:1. Sem uma confissão plena das misericórdias não é possível fazer nem uma justa avaliação delas, nem uma justa retribuição delas. E quão impossível é enumerar plenamente as misericórdias, pode-se ver pelo Salmo 40:5: "Muitas são, ó Senhor meu Deus, as maravilhas que fizeste, e os teus pensamentos para conosco; não se podem enumerar diante de ti: se eu quisesse declará-las e falar delas, são mais do que se pode contar." — Henry Jeanes, em "The Works of Heaven upon Earth," 1649.
Grandes obras do Senhor. Ou poderes, aos quais corresponde a palavra grega para os milagres de Cristo (Mateus 11:20,21), e Kimchi aqui os restringe às maravilhas realizadas no Egito e junto ao Mar Vermelho; mas podem igualmente ser estendidos às grandes obras de Deus, e aos efeitos do seu poder, na criação de todas as coisas a partir do nada; na sustentação e no governo do mundo; na redenção do seu povo por Cristo; na conversão dos pecadores, e na perseverança final dos santos; em todos os quais há tais manifestações do poder de Deus que não podem ser ditas nem declaradas por línguas mortais. John Gill.
Versículo 3Salmo 106:3
Bem-aventurados os que guardam o juízo, etc. Que têm princípios corretos e práticas retas; isto é louvor real e substancial a Deus. Dar graças em ação é a prova de dar graças em palavra; e a boa vida do agradecido é a vida da gratidão. Os que apenas agradecem a Deus, e nada mais fazem, não são apenas contumeliosos, mas também injuriosos. John Trapp.
Guarda o juízo; pratica justiça. Não duvido que haja alguma diferença; a saber, que se diz que guarda o juízo aquele que julga corretamente, mas que pratica justiça aquele que age retamente. Agostinho.
Li a respeito de Luís, rei da França, que, tendo por inadvertência concedido uma petição injusta, assim que leu aquelas palavras do salmista, "Bem-aventurado o que pratica justiça em todo tempo," imediatamente se recolheu, e, pensando melhor, deu sentença exatamente contrária. Thomas Brooks.
Versículo 4Salmo 106:4
Visita-me. Esta é uma bela figura. A oração não é: "Dá-me um desejo mais intenso, energia crescente de ação, para que eu te agrade, para que eu te sirva, para que eu suba passo a passo até ti, trazendo cada passo consigo uma nova sensação de reivindicação meritória diante de ti." Nada disso. É "Visita-me"; "desce sobre mim" diariamente do teu próprio trono elevado, para o cumprimento dos teus próprios propósitos. "Visita-me." George Fisk, 1851.
Visita-me com a tua salvação. Hugo entende a visita de Deus como a de um médico a quem se busca a cura dos olhos, porque logo em seguida se acrescenta "para que eu veja", etc. Lorino.
Há uma antiga glosa judaica digna de nota, segundo a qual a petição é por uma parte na ressurreição, nos dias do Messias, para ver a sua maravilhosa restauração do seu povo sofredor. Neale e Littledale.
Versículo 5Salmo 106:5
Podemos notar que a natureza tríplice do homem leva à união das três petições deste versículo em uma só. "Para que eu veja" é a oração do corpo, desejando a visão aberta de Deus; "e me alegre" é o desejo da alma ou da mente, para que os afetos também sejam satisfeitos; e "me glorie", pois o espírito precisa derramar-se em adoração.
Além disso, há aqui três nomes dados aos santos, cada um por sua própria razão. São os "escolhidos" de Deus, por causa da sua graça predestinante, "assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Efésios 1:4); são a sua "nação", tendo uma só lei e um só culto sob ele como único rei, "E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei?" (Deuteronômio 4:8); são a sua "herança", pois está escrito: "Eu te darei os gentios por herança" (Salmo 2:8). Hugo Cardinalis e Alberto Magno, em Neale e Littledale.
Para que eu veja o bem dos teus escolhidos. Que, tendo sido predestinados e justificados, possamos vir a ver o bem dos teus escolhidos, o que significa que o próprio rosto do Senhor nos seja tornado manifesto (1 João 3:2). Por "bem dos teus escolhidos" não devemos entender a probidade ou bondade deles próprios, mas a suprema felicidade que é a sua sorte.
Para que eu me alegre na alegria da tua nação. Para que possamos participar daquela alegria indizível que nasce da visão beatífica, propriedade peculiar do povo escolhido, da qual os estranhos não podem provar, e da qual o evangelho diz: "Entra no gozo do teu Senhor." — Roberto Belarmino, 1542-1621.
Versículo 6Salmo 106:6
Pecamos com os nossos pais. Olhemos um pouco mais para trás, para encontrar a idade do pecado; até mesmo até o original, de onde vem toda a cópia da imitação. Por mais novos que sejam no ato, são velhos no exemplo: "Pecamos com os nossos pais." Deus lhes diz que se rebelaram desde antigo: "Como fizeram vossos pais, assim fazeis vós" (Atos 7:51). A antiguidade não é argumento infalível de bondade: embora Tertuliano diga que as primeiras coisas eram as melhores, e que quanto menos se distanciavam do princípio, mais pobres eram; mas isso deve ser entendido apenas quanto aos costumes santos. Pois a iniquidade também pode alegar antiguidade: quem comete um novo ato de assassinato o encontra antigo no exemplo de Caim; a embriaguez pode ser buscada em Noé; o desprezo pelos pais, em Cam; a leviandade das mulheres, nas filhas de Ló. Não há pecado que não tenha cabelos brancos, e que não seja extremamente velho.
Mas olhemos ainda mais para trás, até Adão; ali está a idade do pecado. É a isso que Paulo chama o velho homem; é quase tão velho quanto a raiz, mas mais velho que todos os ramos. Por isso a nossa restituição por Cristo à graça é chamada de homem novo. Thomas Adams.
Pecamos com os nossos pais. Isso agrava consideravelmente o pecado ao acrescentar "com os nossos pais". Pareceria atenuar, não agravar, se tivesse dito: Pecamos com outros mortais. Mas, ao dizer: Pecamos com os nossos pais, de modo algum diminui, mas agrava as ofensas deles, enquanto exalta a bondade de Deus, que abençoou não apenas os que agiram com pecado e impiedade, mas também os filhos e descendentes dos pecadores e ímpios, mesmo aqueles que, com a mais alta justiça, poderia ter exterminado como duplamente detestáveis. Musculus.
Pecamos; cometemos iniquidade; agimos perversamente. Os rabinos nos dizem que há aqui três espécies e graus de pecado, dispostos em escala ascendente: contra si mesmo, contra o próximo, contra Deus; pecados de ignorância, pecados de deliberação consciente, pecados de orgulho e perversidade. R. Levi e Genebrardo, em Neale e Littledale.
Embora os escritores das Escrituras tenham sido, por inspiração divina, infalivelmente preservados de exagero, ainda assim usam toda variedade apropriada de linguagem forte e condenatória contra o pecado (Salmo 106:6). Certamente o mal moral não pode ser coisa pequena. E, no entanto, ele irrompe em todas as ocasiões e por todos os lados. Às vezes na forma de esquecimento de Deus (Salmo 106:13,21), às vezes de impetuosidade precipitada para o mal (Salmo 106:13), às vezes de cobiças fortes e imperiosas (Salmo 106:14), às vezes de vil incredulidade (Salmo 106:12,24), e assim por todo o catálogo de ofensas contra Deus e contra o homem. Ó quão vis somos! — William S. Plumer.
Versículo 7Salmo 106:7
Nossos pais no Egito não entenderam as tuas maravilhas. Embora os anciãos tenham acompanhado Moisés, e o tenham ouvido apresentar a sua missão a Faraó, e fazer as suas exigências em nome do Senhor para deixar Israel ir (Êxodo 3:16); sim, e viram os juízos de Deus sobre o Egito; ainda assim "não entenderam" que essas maravilhas fariam a obra da sua libertação. No início, pensaram que a sua situação piorava. Muito menos entenderam que a sua libertação seria um tipo da libertação eterna, que Deus seria seu Deus, como depois se explica no prefácio aos dez mandamentos. E porque "não entenderam as suas maravilhas", por isso "não se lembraram das suas misericórdias." Um entendimento raso causa uma memória curta. Nathaniel Homes, 1652.
Nossos pais no Egito não entenderam as tuas maravilhas. É mais que provável que muitos dos israelitas atribuíssem a maior parte dessas maravilhas à habilidade de Moisés, superior à dos magos egípcios, ou ao fato de ele agir com a ajuda de um espírito superior e mais poderoso que o que assistia a eles. Ou, caso cressem que fossem efeitos de um Poder Divino, ainda assim não habituaram as suas mentes a considerá-lo seriamente, de modo a ter um temor permanente daquele poder impresso em seus corações por tal consideração: e quem considera assuntos grandes e importantes de forma superficial, na linguagem das Escrituras, não os entende. Robert South.
Não entenderam... não se lembraram. Ele repreende tanto o entendimento quanto a memória deles. Havia necessidade de entendimento, para que meditassem sobre quais bênçãos eternas Deus os estava chamando por meio dessas temporais; e de memória, para que ao menos não esquecessem as maravilhas temporais que tinham sido realizadas, e cressem fielmente que, pelo mesmo poder que já haviam experimentado, Deus os livraria da perseguição dos seus inimigos; ao passo que esqueceram o auxílio que ele lhes tinha dado no Egito, por meio de tais maravilhas, para esmagar os seus inimigos. Agostinho.
Um pecado é um degrau para outro mais grave; pois à falta de observar segue-se a falta de lembrar, e o esquecimento do dever leva à desobediência e à rebelião. David Dickson.
O provocaram. Provocar é uma expressão que exprime um grau peculiar e mais que ordinário de mau comportamento, e parece implicar uma resolução insolente e ousada de ofender. Uma resolução que não se contenta com um único golpe de desobediência, mas que multiplica e repete a ação, até que a ofensa cresça e se transforme em afronta; e, quanto se relaciona com Deus, concebo-o dirigido a ele em tríplice respeito. Primeiro, quanto ao seu poder. Segundo, quanto à sua bondade. Terceiro, quanto à sua paciência.
Primeiro. E, em primeiro lugar, isso se ergue contra o poder e a prerrogativa de Deus. É, por assim dizer, um assalto contra Deus assentado no seu trono, um arrancar do seu cetro, e um desafio à sua própria realeza e supremacia. Quem provoca a Deus, de certo modo, o desafia a ferir, e a vingar a injúria e a invasão contra a sua honra. Não considera o peso do braço todo-poderoso de Deus, nem o fio da sua espada, a rapidez e o veneno das suas flechas, mas sopra contra tudo, e olha nos olhos os terrores da justiça vingadora do pecado. Os israelitas não podiam pecar contra Deus, depois daqueles milagres no Egito, sem uma provocação marcante daquele poder de que tinham tido experiência tão recente, e tão convincente: um poder que poderia ter esmagado um israelita tão facilmente quanto um egípcio; e dado uma prova tão terrível de sua força devastadora sobre falsos amigos quanto sobre inimigos declarados; aos olhos de Deus, talvez, os menos culpados dos dois.
Segundo. Provocar a Deus implica um abuso da sua bondade. Deus, revestido de poder, é o objeto próprio do nosso temor; mas, ao exibir a sua bondade, é objeto do nosso amor. Por um ele quer comandar; pelo outro, ele quer conquistar e, por assim dizer, cortejar a nossa obediência. E uma afronta à sua bondade, à sua ternura e à sua misericórdia excede tanto uma afronta ao seu poder quanto um ferimento no coração excede um golpe na mão. Pois, quando Deus mostra milagres de misericórdia, sai do curso comum da providência, ordenando ao exército dos céus, ao globo da terra, e a todo o sistema da natureza que saia do seu curso, para servir a um desígnio de bondade sobre um povo, como fez com os israelitas; não seria uma provocação, depois de passagens tão obrigantes, infinitamente vil e insuportável, e um grau de ingratidão mais alto que os céus atingidos, e mais fundo que o mar que atravessaram?
Terceiro. Provocar a Deus implica uma afronta à sua longanimidade e à sua paciência. Os movimentos da natureza no peito da humanidade nos dizem quão intensamente, quão pesarosamente, todo homem ressente o abuso do seu amor; quão dificilmente qualquer príncipe, exceto um só, pode suportar uma ofensa contra os seus atos de misericórdia; e quanto mais afrontoso é desprezar a majestade que governa pelo cetro dourado do perdão do que pela vara de ferro da lei penal. Mas a paciência é ainda um avanço maior e mais elevado da misericórdia; é a misericórdia estendida ao máximo; misericórdia lutando com a vileza, e esforçando-se, se possível, até cansar e superar a ingratidão; e por isso um pecado contra ela é o ponto mais alto, o desenvolvimento extremo, e, por assim dizer, o limite último da provocação.
Pois, quando a paciência chegar a se cansar, e até ficar sem fôlego de tanto perdoar, que toda a invenção da humanidade encontre algo mais, ou sobre o que um ofensor possa lançar a sua esperança, ou contra o que possa cometer um pecado. Mas foi contra a paciência de Deus que os ingratos israelitas pecaram; pois eles o pressionaram e o perseguiram com pecado sobre pecado, uma ofensa seguindo e se amontoando sobre a nuca de outra, a última conta sempre subindo mais alto, e inchando mais, até que os tesouros da graça e do perdão ficassem tão esgotados e exauridos que provocaram Deus a jurar, e, mais ainda, a jurar na sua ira, e com pleno propósito de vingança, que jamais entrariam no seu descanso. Robert South.
O provocaram. Em que consistia a sua provocação? "Não se lembraram da multidão das suas misericórdias": as misericórdias anteriores do Senhor não fortaleceram a confiança deles nas dificuldades presentes; essa foi uma provocação. E, assim como as misericórdias anteriores não fortaleceram a sua confiança, também as dificuldades presentes puxaram para fora a sua desconfiança, como outra Escritura atesta, ao relatar o seu comportamento nesse momento (Êxodo 14:11): "E disseram a Moisés: Acaso não havia sepulcros no Egito, que nos tiraste para morrermos no deserto? Por que fizeste isso conosco, tirando-nos do Egito?" Que eram esses temerosos prognósticos, esses assombrosos presságios de uma ruína inevitável (como julgavam), senão o transbordar da incredulidade, ou desconfiança em Deus; e esta foi outra provocação. As misericórdias anteriores são esquecidas, sim, devoradas pela incredulidade, como as sete vacas magras do sonho de Faraó devoraram as gordas, e as dificuldades presentes são agravadas pela incredulidade, como se todo o poder de Deus não pudesse removê-las e superá-las. E não haveria o Senhor de visitar em ira um pecado como este? — Joseph Caryl.
Junto ao Mar Vermelho. Isto é, junto ao Golfo Arábico: literalmente, junto ao Mar de Suf, que, se Suf não for aqui um nome próprio (como parece ser em Deuteronômio 1:1, e, com pequena variação, em Números 31:14), significa o mar das algas, e esse mar ainda é chamado por nome semelhante no Egito moderno. Sua designação, em todos os livros do Antigo Testamento, na versão siríaca, e na paráfrase caldaica, é igualmente traduzida por mar das algas; nome que pode ter vindo dos juncos que crescem perto de suas margens: ou das algas, ou formações coralinas, vistas através de suas águas, e dos corais vistos no fundo... Plínio afirma que é chamado Mar Vermelho por causa do rei Eritras, ou pelo reflexo de uma cor vermelha do sol, ou por causa de sua areia e de seu solo, ou pela natureza de sua água. Daniel Cresswell.
Versículos 7–8Salmo 106:7-8
Este salmo é um salmo de ação de graças, como declaram o primeiro e o último versículo. Ora, porque o homem está mais apto a louvar a Deus quando mais sente o seu próprio pecado e indignidade, o salmista, ao longo de todo este salmo, entrelaça o pecado de Israel e a misericórdia de Deus.
Salmo 106:7. Nossos pais (diz ele) não entenderam as tuas maravilhas no Egito. Viram-nas com os olhos, mas não as entenderam com o coração: não apreenderam o desígnio, o alcance e o fim de Deus naquelas maravilhas: e por isso, "não se lembraram" (diz o texto) "das tuas misericórdias; pois o homem não se lembra além do que entende."
Mas talvez essas misericórdias fossem muito poucas, e assim o pecado deles em esquecê-las fosse menor? Não, de modo algum; Salmo 106:7: "Não se lembraram da multidão das tuas misericórdias."
Mas talvez isso fosse fraqueza ou debilidade deles, e assim devessem ser mais tolerados? Não é assim, mas antes "se rebelaram contra ele"; assim lê melhor Montano.
Mas talvez esse pecado tenha sido cometido enquanto estavam no Egito, ou entre os egípcios, incitados por eles? Também não; mas quando já haviam saído do Egito, e só tinham de lidar com Deus, e viram o seu poder glorioso junto ao Mar Vermelho, então se rebelaram contra ele, junto ao mar, sim, junto ao Mar Vermelho.
O quê, então, não os destruiu o Senhor? Não, diz o texto: "Não obstante" toda a sua queixa, ingratidão e rebelião, "ele os salvou por amor do seu nome." William Bridge, em sermão pregado diante da Câmara dos Comuns, 5 de novembro de 1647.
Versículo 8Salmo 106:8
Não obstante, ele os salvou. Se Deus não mostrasse misericórdia ao seu povo com um "não obstante", como apareceria a glória da sua misericórdia? Se um médico apenas curasse um homem com dor de cabeça ou dor de dente; alguém que apanhou um resfriado, ou tem alguma doença pequena; isso não mostraria grande habilidade e excelência no médico. Mas quando um homem está próximo da morte, com um pé na sepultura, ou está, aos olhos da razão, além de toda recuperação; se então o médico o cura, isso mostra grandemente a habilidade e a excelência daquele médico.
Assim agora, se Deus apenas curasse e salvasse um povo que fosse menos mau ou perverso; ou que fosse realmente bom, onde apareceria a excelência da misericórdia? Mas quando um povo está se aproximando da morte, deitado como que acamado, e o Senhor, por seu livre amor, por amor do seu próprio nome, se levanta e cura tal povo indigno, isso expõe a glória da sua misericórdia.
Diz-se no versículo anterior: "Se rebelaram junto ao mar, sim, junto ao Mar Vermelho", ou, como no hebraico, "mesmo dentro do Mar Vermelho"; quando as águas estavam de pé como muralhas de ambos os lados deles; quando viram aquelas muralhas de águas que povo algum jamais tinha visto antes, e viram o poder, o poder infinito de Deus, conduzindo-os a seco por ali; então se rebelaram, junto ao mar, sim, dentro do mar; e, no entanto, apesar de tudo isso, o Senhor os salvou com um "não obstante tudo isso".
E eu pergunto: se o Senhor derramou tanta graça sobre um povo que estava debaixo da lei, não derramará ele muito mais graça ainda sobre aqueles que estão debaixo do evangelho? — William Bridge.
Por amor do seu nome. Aproveite-se o seu nome em todo caso; pois ele tem um nome que corresponde a cada necessidade, a cada carência. Precisas que sejam feitas maravilhas por ti? O seu nome é Maravilhoso; olha para ele para que o faça, por amor do seu nome. Precisas de conselho e direção? O seu nome é o Conselheiro: lança-te sobre ele e sobre o seu nome para isso. Tens poderosos inimigos com quem lidar? O seu nome é o Deus Forte; busca que ele exerça o seu poder por amor do seu nome. Precisas da sua piedade paternal? O seu nome é o Pai Eterno; "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem." Alega a sua piedade, por amor do seu nome. Precisas de paz externa, interna ou eterna? O seu nome é o Príncipe da Paz; busca, por amor do seu nome, que ele crie paz.
Ó vós, o seu nome é JEOVÁ-ROFE, o Senhor, o curador e médico; buscai, por amor do seu nome, que ele cure todas as vossas doenças. Precisas de perdão? O seu nome é JEOVÁ-TSIDQUENU, o Senhor nossa justiça: busca, por amor do seu nome, que ele seja misericordioso para com a tua injustiça. Precisas de defesa e proteção? O seu nome é JEOVÁ-NISSI, o Senhor teu estandarte; busca, por amor do seu nome, que o seu estandarte de amor e graça se estenda sobre ti. Precisas de provisão em extrema necessidade? O seu nome é JEOVÁ-JIRÉ, no monte do Senhor se proverá. Precisas da sua presença? O seu nome é JEOVÁ-SAMÁ, o Senhor está ali: Emanuel, Deus conosco: olha para ele para que esteja contigo, por amor do seu nome.
Precisas que a tua oração seja ouvida? O seu nome é o que Ouve a oração. Precisas de força? O seu nome é a Força de Israel. Precisas de consolo? O seu nome é a Consolação de Israel. Precisas de abrigo? O seu nome é a Cidade de Refúgio. Não tens nada e precisas de tudo? O seu nome é Tudo em todos. Senta-te e inventa nomes para as tuas necessidades e carências, e verás que ele tem um nome apropriado para cada uma; para o teu suprimento, ele tem sabedoria para te guiar; e poder para te guardar; misericórdia para se compadecer de ti; verdade para te proteger; santidade para te santificar; justiça para te justificar; graça para te adornar; e glória para te coroar. Confia no seu nome, ele que salva por amor do seu nome. Ralph Erskine, 1685-1752.
Versículo 9Salmo 106:9
Repreendeu também o Mar Vermelho, e ele se secou. Expressão poética, significando que o Mar Vermelho recuou à ordem de Deus, tal como um escravo fugiria da presença do seu senhor ao ser severamente repreendido. Roberto Belarmino.
Repreendeu. Não lemos que voz alguma tenha saído do céu para repreender o mar; mas ele chamou de repreensão o Poder Divino pelo qual isso se efetuou, a menos que alguém prefira dizer que o mar foi secretamente repreendido, de modo que as águas o ouvissem, mas os homens não pudessem. O poder pelo qual Deus age é muito recôndito e misterioso, um poder pelo qual faz com que até as coisas destituídas de sentido obedeçam instantaneamente à sua vontade. Agostinho.
Deserto. Midbar; uma vasta extensão de terra seca e pobre, própria para pastagens de ovelhas (como as nossas colinas do sul, ou a planície de Salisbury). Compare com Isaías 43:13. William Kay.
Versículo 11Salmo 106:11
Nem um deles ficou. Este é um emblema da destruição total de todos os nossos inimigos espirituais por Cristo, que não apenas nos salvou deles, mas os destruiu inteiramente; ele acabou com o pecado, sim, com todos os pecados do seu povo; despojou Satanás, e os principados e potestades; aboliu a morte, o último inimigo, e fez os seus santos mais que vencedores sobre todos. Da mesma forma, pode ser uma representação da destruição dos ímpios no último dia, que todos serão queimados na conflagração geral, raiz e ramo, nem um ficará. Veja Malaquias 4:1. John Gill.
Versículo 12Salmo 106:12
Então creram nas suas palavras. Há uma fé temporária, como Marcos a chama (Marcos 4:17), que não é tanto fruto do Espírito de regeneração, quanto de certo afeto mutável, e por isso logo passa. Não é uma fé voluntária o que aqui o profeta exalta, mas antes aquela que resulta de compulsão, a saber, porque os homens, queiram ou não, por um senso que têm do poder de Deus, são constrangidos a mostrar-lhe alguma reverência. Esta passagem deve ser bem considerada, para que os homens, uma vez tendo cedido submissão a Deus, não se enganem, mas saibam que a pedra de toque da fé é quando recebem espontaneamente a palavra de Deus, e permanecem constantemente firmes na obediência a ela. João Calvino.
Afetos naturais elevados em uma profissão de religião resistirão às tentações por um momento, mas espere até que a correnteza baixe, e verá. Que arroubo de afeto tiveram os israelitas quando os seus olhos viram aquela libertação miraculosa junto ao Mar Vermelho! Que cânticos de alegria tiveram! Que resoluções de nunca mais duvidar dele! Então creram nas suas palavras; cantaram o seu louvor. Satanás não os incita imediatamente à murmuração e à incredulidade, embora esse fosse o seu desígnio, mas espera até que o arroubo passe, e então logo pode tentá-los a esquecer as suas obras. Richard Gilpin, em "A Treatise of Satan's Temptations," 1677.
Na própria brevidade deste versículo, o único do seu gênero na parte narrativa do salmo, podemos bem ver quão efêmeros foram a sua gratidão, a sua crença e a sua adoração a Deus; pois logo se segue: "Logo esqueceram", etc. Neale e Littledale.
Versículos 12–13Salmo 106:12-13
Cantaram o seu louvor. Logo esqueceram as suas obras. Isso foi dito daquela geração de israelitas que saiu do Egito. O capítulo que contém a parte da sua história aqui aludida começa com expressões arrebatadas de gratidão, e termina com as murmurações do descontentamento; ambas proferidas pelos mesmos lábios, no curto espaço de três dias. As suas expressões de gratidão foram provocadas por aquela maravilhosa manifestação das perfeições divinas, que os livrou do exército de Faraó, e destruiu os seus inimigos. As suas murmurações foram provocadas por um inconveniente comparativamente trivial, que em poucas horas foi removido. De pessoas cujas ações de graças mudaram-se tão rápida e facilmente em murmurações, bem se poderia dizer — embora cantassem os louvores de Deus — que "logo esqueceram as suas obras".
Infelizmente, os israelitas não são de modo algum as únicas pessoas de quem isso, em verdade, pode ser dito. A conduta deles, como aqui descrita, oferece uma exemplificação marcante daquela gratidão espúria, que muitas vezes irrompe num clarão súbito, quando males temidos são afastados, ou favores inesperados concedidos; mas que expira com a ocasião que a fez nascer; gratidão semelhante à alegria despertada no peito de uma criança pelo presente de algum brinquedo reluzente, recebido com êxtase, e que agrada por uma hora; mas quando o encanto da novidade desaparece, é jogado de lado com indiferença; e a mão que o deu é esquecida. Nascendo de nenhum princípio mais elevado que o amor próprio satisfeito, ela não é nem aceitável a Deus, nem produz obediência às suas leis; nem se assemelha, em nenhum aspecto, àquele afeto santo, nascido do céu, cuja linguagem tantas vezes toma emprestada, e cujo nome assume. Pode-se chamá-la, distintivamente, de gratidão dos pecadores; que, assim como amam os que os amam, é claro que serão gratos aos que são bondosos com eles; gratos até com Deus, quando o veem como bondoso.
Destes casos, o primeiro que notarei é fornecido pelas obras da criação; ou, como muitas vezes, embora não muito propriamente, são chamadas, as obras da natureza. De modo tão impressionante essas obras se apresentam aos nossos sentidos; tanta variedade, beleza e sublimidade exibem; tanto poder, sabedoria e bondade demonstram, que talvez nenhum homem, certamente nenhum homem que possua a menor parcela de sensibilidade, gosto ou cultura mental, possa, em todo tempo, contemplá-las sem emoção; sem sentimentos de reverência, ou espanto, ou admiração, ou deleite. Mas, ai, quão transitórias, quão improdutivas de efeitos salutares, se mostram todas essas emoções? O apetite e a paixão, embora aquietados por um momento, logo renovam as suas importunações; o brilho da riqueza, da distinção e do poder eclipsa, aos nossos olhos, as glórias de Jeová; afundamos de volta daquele céu para o qual parecíamos subir, para mergulhar de novo no turbilhão dos prazeres e ocupações terrenas; negligenciamos e desobedecemos aquele a quem estivéramos prontos a adorar; e continuamos a viver sem Deus, num mundo que acabáramos de ver cheio da sua glória.
Um segundo caso de natureza semelhante é fornecido pela maneira como os homens são muitas vezes afetados pelas obras da providência de Deus. Nessas obras, as suas perfeições são tão constante, e muitas vezes tão claramente exibidas; a nossa dependência delas é em todo tempo tão real, e às vezes tão evidente; e elas incidem, em muitos casos, tão direta e evidentemente sobre os nossos interesses temporais mais caros, que até os mais insensíveis nem sempre podem contemplá-las com indiferença.
Mas o sentimento costuma ser passageiro; e o reconhecimento é esquecido quase assim que é feito. De maneira semelhante os homens são muitas vezes afetados pelas obras de graça de Deus; ou aquelas obras cujo desígnio e tendência é promover os interesses espirituais e eternos do homem. Essas obras exibem, muito claramente, não apenas as perfeições naturais, mas as perfeições morais de Jeová. Aqui o seu caráter brilha, pleno e completo. Que uma exibição dessas maravilhas produza, ao menos, uma impressão temporária em nossas mentes, não é mais do que se poderia naturalmente esperar. Por um momento, os nossos corações parecem se derreter. Sentimos, e estamos prontos a reconhecer, que Deus é bom; que o Salvador é bondoso; que o seu amor deveria ser retribuído; que o céu é desejável! Como uma classe de ouvintes descrita por um grande Mestre, recebemos a palavra com alegria; alegria não desprovida de algo que se assemelha à gratidão; e cantamos, ou sentimos como se pudéssemos com prazer cantar, os louvores de Deus.
Mas deixamos a sua casa; as emoções ali despertadas se dissipam; como a terra, parcialmente amolecida por um sol de inverno, os nossos corações logo recuperam a sua dureza gélida; as maravilhas da graça divina são esquecidas; e Deus tem razão para dizer, com tristeza e desagrado: "A vossa bondade é como a nuvem da manhã, e como o orvalho da madrugada, que cedo se vai." Condensado de um sermão de Edward Payson, 1783-1827.
Versículo 13Salmo 106:13
Logo esqueceram as suas obras. Esqueceram, sim, "logo"; apressaram-se a esquecer, é assim que o original diz: "Apressaram-se, esqueceram." Como homens que, dormindo, apertam a mão da Morte, mas, ao despertar, não a reconhecem. Thomas Adams.
Como podemos saber que somos devidamente gratos? Quando temos o cuidado de registrar a misericórdia de Deus, 1 Crônicas 16:4: "Davi designou alguns dos levitas para registrar, e para dar graças e louvar ao Senhor Deus de Israel." Os médicos dizem que a memória é a primeira coisa a se decair; é verdade nas coisas espirituais: "logo esqueceram as suas obras." Thomas Watson.
Logo esqueceram. Como acontece com uma peneira, o bom grão e a farinha fina passam, mas a palha leve e o farelo grosso ficam retidos; ou como um coador, do qual o líquido doce é coado, mas a borra fica; ou como uma grelha, que deixa passar a água pura, mas retém palhas, gravetos, lama ou imundície, se houver. Assim é com a memória da maioria dos homens; por natureza, são como que odres furados, meros barris de rio, especialmente traiçoeiros nas coisas boas, de modo que as vãs fantasias dos homens tendem a ficar retidas, enquanto as instruções divinas e as promessas graciosas escoam por eles; coisas fúteis, ninharias e coisas do mundo tendem a lembrar, retendo-as bastante bem; mas as coisas espirituais vazam; como Israel, logo as esquecem. William Gouge.
Logo esqueceram as suas obras. Três dias depois, junto às águas de Mara (Êxodo 15:24). Adam Clarke.
Não esperaram. É espantosa a natureza insaciável dos nossos desejos, de modo que quase não se concede a Deus um único dia para satisfazê-los. Pois, se ele não os satisfaz imediatamente, logo nos tornamos impacientes, e corremos o risco de acabar caindo no desespero. Esta, então, foi a falta do povo: não lançaram todos os seus cuidados sobre Deus, não o invocaram calmamente, nem esperaram pacientemente até que lhe aprouvesse responder às suas petições, mas se lançaram adiante com temerária precipitação, como se fossem ditar a Deus o que ele devia fazer. E, por isso, para acentuar a gravidade da sua conduta precipitada, ele emprega o termo conselho; porque os homens não admitem que Deus possua sabedoria, nem julgam próprio depender do seu conselho, mas são mais previdentes do que lhes convém, e preferem governar a Deus a se deixar governar por ele segundo o seu agrado.
Para que sejamos preservados de provocar a Deus, retenhamos sempre este princípio: que é nosso dever deixar que ele nos proveja com aquilo que sabe que nos será proveitoso. E, na verdade, a fé, despojando-nos da nossa própria sabedoria, nos permite esperar com esperança e tranquilidade até que Deus realize a sua própria obra; ao passo que, pelo contrário, o nosso desejo carnal sempre antecipa o conselho de Deus, por causa da sua pressa excessiva. João Calvino.
Não esperaram. Deveriam ter pensado que obras tão grandes de Deus para com eles não eram sem propósito, mas que os convidavam a alguma felicidade sem fim, que devia ser esperada com paciência; mas se apressaram a se tornar felizes com coisas temporais, que não dão a homem algum verdadeira felicidade, porque não saciam o anseio insaciável: "pois quem", diz o nosso Senhor, "beber desta água, tornará a ter sede" (João 4:13). Agostinho.
Não esperaram pelo seu conselho. O que essa negligência deles pode ser entendida de duas maneiras. Primeiro, que não esperaram pelo seu conselho aberto ou declarado, para dirigi-los sobre o que fazer, mas, sem pedir o seu parecer, quiseram arriscar e correr por conta própria, fazendo o que lhes parecia bom aos seus próprios olhos. Segundo, que não esperaram pelo cumprimento do seu conselho oculto e secreto a respeito deles; não quiseram aguardar o tempo de Deus para que os seus conselhos se produzissem e se cumprissem. Não esperar em Deus, de nenhuma das duas maneiras, é muito pecaminoso. Não esperar pelo seu conselho para nos dirigir sobre o que fazer, e não esperar que ele faça ou cumpra o seu próprio conselho, revela ao mesmo tempo um espírito orgulhoso e impaciente; num caso, os homens chegam a desprezar a sabedoria de Deus, e no outro, presumem em vão e tentam antecipar a sua providência. Joseph Caryl.
Não esperaram pelo seu conselho. Um crente que exercita a sua fé tem grande vantagem sobre um incrédulo. Um incrédulo é impetuoso, apaixonado, precipitado e apressado, quando se vê em apuros; não espera pelo conselho de Deus. Salta antes de olhar, antes de ter olhos para ver o seu caminho; mas um crente é quieto e confiante, silencioso e paciente, e orante, e permanece na sua torre de vigia, para ver o que Deus responderá naquele momento. Matthew Lawrence, em "The Use and Practice of Faith," 1657.
Versículo 14Salmo 106:14
No deserto. Quando Deus, pelas circunstâncias de tempo e lugar, pede moderação do apetite carnal, a transgressão é mais grave e mais ofensiva a Deus: "Cobiçaram intensamente no deserto", onde deveriam ter se contentado com qualquer tipo de provisão. David Dickson.
No deserto. Ali, onde tinham pão de sobra, ainda assim nada lhes servia a não ser que tivessem carne para comer. Estavam agora inteiramente ao encargo de Deus; de modo que isso foi uma afronta à sabedoria e à bondade do seu Criador. Estavam agora, com toda probabilidade, a um passo de Canaã, e ainda assim não tinham paciência para esperar por iguarias até chegarem lá. Tinham os seus próprios rebanhos e manadas, mas não queriam abatê-los; Deus tinha de lhes dar carne como lhes deu pão, ou nunca lhe dariam crédito nem boa palavra: não apenas desejaram carne, mas "cobiçaram intensamente" por ela. Um desejo, mesmo de coisas lícitas, quando é desmedido e violento, torna-se pecaminoso; e por isso isso é chamado de "cobiçar coisas más" (1 Coríntios 10:6), ainda que as codornizes, como dádiva de Deus, fossem coisas boas, e como tais faladas no Salmo 105:40.
Mas isso não foi tudo: "tentaram a Deus no deserto", onde já tinham tido tal experiência da sua bondade e do seu poder, e questionaram se ele podia e queria satisfazê-los nisso. Veja Salmo 78:19-20. Matthew Henry.
Versículo 15Salmo 106:15
E ele lhes deu o que pediram, etc. O prazer da garganta fechou o paraíso, vendeu a primogenitura, decapitou o Batista, e foi o chefe dos cozinheiros, Nebuzaradã, quem primeiro ateou fogo ao templo, e arrasou a cidade. Esses efeitos são:
Grosseria; que tira a agilidade para qualquer boa obra; que faz um homem mais parecido com um tonel sobre duas pernas. César dizia que não desconfiava de Antônio e Dolabela por nenhuma trama, porque eram gordos; mas de Casca e Cássio, sujeitos magros e ocos, que pensavam demais. Os outros são as aves engordadas do diabo, gordas demais para pôr ovos. De fato, que necessidade têm de viajar longe, aqueles cuja felicidade está em casa; pondo o paraíso na garganta, e o céu na comida?
Emagrecimento da graça; pois, assim como põe gordura nos corpos, põe magreza nas almas. Deus engordou os israelitas com codornizes, mas junto enviou magreza à sua alma. A carne se infla, o espírito definha. São piores que os que comem homens, pois comem a si mesmos: põem uma pleurisia no sangue, e uma apoplexia na alma. Thomas Adams.
Enviou magreza à sua alma. Deus nos concede meios tão grandes para o nosso crescimento nestes tempos evangélicos quanto sempre concedeu; ele nos põe em pastos gordos, e bem regados, Salmo 23:1-6; por isso é vergonha que o povo de Deus não cresça, não "dê à luz gêmeos", como em Cantares 6:6. Deveriam crescer duas vezes mais rápido, dar à luz o dobro, produzir o dobro de cordeiros, o dobro de lã, o dobro de leite, do que aqueles que andam em pasto pobre. Todo o mundo pode gritar vergonha contra um homem tão bem alimentado, e tantas vezes alimentado com ordenanças gordas e doces, se ainda assim continuar como as vacas magras de Faraó, tão magro e de mau aspecto quanto antes. Certamente, ordenanças gordas e almas magras não combinam bem.
Devemos considerar como o maior dos juízos ter magreza enviada à nossa alma enquanto somos alimentados com maná. Consideramos aflição ter um corpo excessivamente magro; mas é condição bem mais triste ter uma alma magra. Das duas coisas, seria bem melhor ter um corpo próspero e uma alma magra: é grande misericórdia quando ambos prosperam, 3 João 1:2: "Desejo sobretudo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai à tua alma." Ah, é coisa doce, especialmente ter uma alma próspera, e sempre em crescimento: e Deus espera que assim seja, onde concede boa dieta, grandes meios de graça; como em Daniel 1:10: "E disse o príncipe dos eunucos a Daniel: Temo a meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida."
Se vocês parecessem mal, comendo tão bem, com certeza a culpa recairia sobre mim; custaria a minha própria cabeça. Assim, certamente, onde Deus concede alimento precioso para almas preciosas, se essas almas ficam magras sob ordenanças gordas, ou os que são alimentados, ou os que os alimentam; sejam os mordomos ou a casa; seja o ministro, ou o povo, ou ambos, com certeza levarão a culpa. É apenas justo e equânime que tais devam crescer. Não nos admiramos de ver ovelhas magras em pasto pobre, mas quando vemos ovelhas continuarem magras em pastos gordos, pensamos que o seu alimento está mal empregado nelas; e por isso, esforcemo-nos por estar sempre em crescimento. Matthew Lawrence.
Magreza é traduzida como "repugnância" pelo bispo Horsley, o que se ajusta ao estado literal do caso; mas creio que magreza, aplicada à alma, é extremamente descritiva da sua esterilidade espiritual e vazio de qualquer coisa como gostos ou prazeres divinos. Thomas Chalmers.
Versículo 17Salmo 106:17
A terra se abriu, etc. Este elemento não estava acostumado a tais bocados. Devora os cadáveres dos homens; mas corpos animados por almas vivas, jamais antes. Vê-los caídos mortos sobre a terra teria sido temível; mas ver a terra ao mesmo tempo como sua executora e sua sepultura foi mais horrível ainda. Nem o mar nem a terra são próprios para dar passagem; o mar é úmido e fluido, e não se deixa dividir, pela sua continuidade; a terra é seca e maciça, e não cede naturalmente, nem se ajunta de novo depois de ceder: e, no entanto, as águas se fenderam para dar passagem a Israel para a sua preservação; a terra se fendeu para dar passagem aos conspiradores em julgamento; tanto o mar quanto a terra fecharam de novo as suas mandíbulas sobre os adversários de Deus.
Havia mais maravilha nesta última. Era admirável que as águas se abrissem; não era admiração que se fechassem de novo, pois o recuo e o fluxo eram naturais. Não menos admirável foi que a terra se abrisse; mas mais admirável ainda que se fechasse de novo, porque não tinha disposição natural para se ajuntar depois de dividida. Agora podia Israel ver que tinha de lidar com um Deus que podia se vingar com facilidade. Há duas espécies de traidores: a terra engoliu uns, o fogo, os outros. Todos os elementos concordam em servir à vingança do seu Criador. Nadabe e Abiú trouxeram pessoas próprias, mas fogo impróprio, diante de Deus; estes levitas trazem o fogo certo, mas pessoas sem autorização, diante dele: o fogo vindo de Deus consome ambos. É coisa perigosa usurpar funções sagradas. O ministério não dá honra ao homem; o homem pode desonrar o ministério. Joseph Hall.
Apenas Datã e Abirão são mencionados, e isso em estrita concordância com Números 26:11, onde se diz: "os filhos de Corá, porém, não morreram." E a mesma coisa está, ao menos, implícita em Números 16:27, onde se diz que, pouco antes de acontecer a catástrofe, "Datã e Abirão" (não há menção de Corá) "saíram e ficaram em pé à porta das suas tendas." Veja isso observado e explicado em Blunt's Veracity of the Books of Moses, Parte 1, p. 86. J. J. Stewart Perowne.
Versículo 19Salmo 106:19
Fizeram um bezerro. E por que um bezerro? Não puderam encontrar semelhança mais adequada de Deus entre todas as criaturas? Por que não antes o leão majestoso, para mostrar a soberania; o vasto elefante, a imensidão; a sutil serpente, a sabedoria; o cervo de longa vida, a eternidade; a veloz águia, a onipresença de Deus, em vez do tolo e insensível bezerro, que come feno? Mas a forma pouco importa, pois, se Deus for representado por qualquer coisa, pode ser representado por qualquer coisa, sendo tão ilícito fazê-lo semelhante a um anjo quanto a um verme, já que o mandamento proíbe tanto a semelhança das coisas que estão em cima nos céus quanto das que estão embaixo na terra (Êxodo 20:4). Mas, provavelmente, o bezerro foi preferido a outras formas porque tinham aprendido isso dos egípcios, que adoravam o seu boi Ápis. Assim os israelitas tomaram emprestado (Êxodo 12:35) não apenas ouro e prata, mas também alguma escória dos egípcios, de onde buscaram as formas idólatras do seu culto.
Os judeus modernos são de opinião que todas as aflições que, desde então, já vieram, vêm, ou hão de vir sobre a sua nação, são ainda as justas punições sobre eles por este seu primeiro ato de idolatria. E os rabinos têm um ditado de que Deus nunca lhes inflige juízo algum sem que haja nele uma onça da sua ira contra eles pelo fato de seus antepassados terem feito o bezerro de ouro. Um venerável amigo meu, conversando em Amsterdã com um jovem judeu (bastante capaz e engenhoso para alguém daquela nação), procurou fazê-lo sentir a ira de Deus sobre eles por rejeitarem e crucificarem a Cristo, ato abominável pelo qual mostrou como os judeus viveram muitas centenas de anos em miserável exílio. Mas o jovem de modo algum reconhecia nos seus sofrimentos qualquer efeito ou punição pelo assassinato de Cristo, mas, tomando a sua Bíblia, foi direto à ameaça de Deus logo depois de terem feito o bezerro (Êxodo 32:34): "Todavia, no dia em que eu visitar, visitarei sobre eles o seu pecado", interpretando e aplicando assim todas as numerosas calamidades que desde então lhes sobrevieram a nenhuma outra causa senão àquela primeira idolatria. Ao passo que, na verdade, a dívida da sua idolatria já fora há muito satisfeita, e esta é uma nova dívida, de data mais recente, contraída sobre eles mesmos pela sua infidelidade. Thomas Fuller, 1608-1661, em "A Pisgah Sight of Palestine."
Fizeram um bezerro, etc. Este povo tinha visto esse culto idólatra no Egito; e agora não anelava tanto pela comida egípcia quanto por este deus egípcio... É coisa fácil os homens serem atraídos à prática daquela idolatria que estiveram acostumados a ver praticada nos lugares onde por muito tempo viveram. Quem quiser se acautelar contra a idolatria, que se acautele do Egito; o próprio ar do Egito (por assim dizer) é contagioso neste sentido. Vejam aqui: tinham visto no Egito o culto a um jovem touro, e precisam ter um touro...
A sede local do Anticristo (e que sede pode ser essa senão Roma?) é chamada no Apocalipse por três nomes: é chamada Egito, Apocalipse 11:8. É chamada Sodoma no mesmo versículo. É chamada Babilônia em muitas passagens do Apocalipse. É chamada Babilônia, quanto à sua crueldade. É chamada Sodoma, quanto à sua imundície; e Egito, quanto à sua idolatria. É coisa difícil para um homem viver no Egito e não provar e saborear algo da idolatria do Egito.
Tínhamos outrora, na Inglaterra, um provérbio sobre ir a Roma. Diziam que o homem que ia pela primeira vez a Roma ia ver um homem perverso lá; o que ia pela segunda vez a Roma ia se familiarizar com aquele homem perverso lá; o que ia pela terceira vez o trazia consigo para casa. Quantos já vimos (e é pena ver tantos) de nossa nobreza e fidalguia irem àquelas partes egípcias, e voltarem para casa; mas poucos deles trazem de volta os mesmos costumes, a mesma religião, ou as mesmas almas que levaram consigo. Thomas Westfield, bispo de Bristol, em "England's Face in Israel's Glasse," 1658.
Em Horebe. Há uma ênfase peculiar nas palavras "em Horebe", indicando o próprio lugar onde tinha sido feita a grande manifestação do poder e da presença de Deus, e onde a lei tinha sido dada, cujas primeiríssimas palavras eram uma proibição do pecado da idolatria. Agellius, em Neale e Littledale.
Versículos 19–20Salmo 106:19-20
Ápis, ou Serápis, era um verdadeiro touro negro vivo, com uma faixa ou risca branca ao longo do dorso, uma marca branca em forma de meia-lua no ombro direito, apenas dois pelos crescendo na cauda (por que exatamente esse número e não mais, só o diabo sabe), com uma bela mancha quadrada na testa, e um grande caroço chamado cantharus sob a língua. Que arte usavam os seus sacerdotes para manter a raça e preservar a sucessão do gado com tais gwrismata, ou marcas secretas, não me proponho a investigar... Além deste touro natural e vivo, mantido num só lugar, adoravam também boun diacruson, um boi de ouro ou dourado, a imagem ou retrato do primeiro.
Alguns concebem que este Ápis tenha sido o símbolo e emblema do patriarca José, assim chamado de ba, ab, um pai, visto que se diz que Deus o fez pai de Faraó (Gênesis 45:8), isto é, seu preservador e o do seu país; e por isso os egípcios, em gerações posteriores, homenagearam a sua memória com estátuas de um boi, criatura tão útil na aração, na semeadura, no transporte e na debulha do grão, para perpetuar aquele dom de cereais que ele lhes tinha conferido. Reforçam essa conjectura pelo fato de que Serápis (que alguns entendem como nada mais que Ápis com o acréscimo de rv, sar, isto é, um príncipe, de onde talvez venha o nosso "Sir" inglês) era retratado com um alqueire sobre a cabeça, e José (sabemos) foi o medidor-geral de grãos no Egito. Embora outros, com bom fundamento, concebam a adoração ao boi no Egito como de antiguidade muito maior.
Seja como for, daí Arão (Êxodo 32:4), e daí depois Jeroboão (que, fugindo de Salomão, viveu alguns anos com Sisaque, rei do Egito, 1 Reis 11:40) tiraram o modelo dos seus bezerros, que fizeram para que os filhos de Israel os adorassem. Se alguém objetar que os ídolos dos egípcios eram touros ou bois, e os de Israel apenas bezerros, a diferença não é considerável; pois (além de o objetor nunca ter olhado dentro da boca destes últimos para saber a sua idade) gradus non variat speciem, um grau menor não é outra espécie. Sim, o próprio Heródoto chama Ápis de moscov, um bezerro, e Vitulus tem aceitação igualmente ampla entre os latinos. Um bezerro tão velho assim o poeta descreve:
Ego hanc vitalam (ne forte recuses
Bis venit ad mulctram binos alit ubere faetus)
Depono.
O meu bezerro deponho (para que não me acuses,
pois duas vezes vem ao balde e cria duas crias no úbere).
Mas, para tirar toda dúvida, o que em Êxodo se chama bezerro, o salmista chama boi (Salmo 106:20).
— Thomas Fuller.
Versículos 19–22Salmo 106:19-22
É de esperar que nunca cheguemos a viver um tempo em que os milagres da nossa redenção sejam esquecidos; em que se desespere do retorno de Jesus Cristo desde o céu; e em que o povo solicite aos seus mestres que fabriquem uma nova divindade filosófica, para que adorem, em lugar do Deus de seus antepassados, a quem a glória tem sido atribuída de geração em geração. George Horne.
Versículo 20Salmo 106:20
Um boi que come erva. Os egípcios, quando consultavam Ápis, apresentavam um punhado de feno ou de erva, e, se o boi o recebia, esperavam bom êxito. Daniel Cresswell.
Embora alguns dos rabinos procurem desculpar essa idolatria grosseira dos seus antepassados, outros, mais sábios, a lamentam, e dizem que há uma onça deste bezerro de ouro em todos os seus sofrimentos presentes. John Trapp.
Versículo 21Salmo 106:21
Esqueceram-se de Deus. Inventar imagens e figuras para nos trazer à mente a Deus é um verdadeiro esquecimento tanto da natureza de Deus quanto da sua autoridade, que proíbe tais invenções, pois assim o Senhor o explica: "Esqueceram-se de Deus, seu salvador." David Dickson.
Observemos aqui que Israel é agora acusado, pela terceira vez, de esquecer-se de Deus; antes, no Salmo 106:7, depois, no Salmo 106:13, e agora, no Salmo 106:21. E, para mostrar a grandeza deste esquecimento, ele não diz simplesmente que se esqueceram de Deus, mas acrescenta: seu salvador; não o Salvador dos seus pais em tempos passados, mas o seu próprio Salvador. Musculus.
Versículo 22Salmo 106:22
Terra de Cam. O Egito é chamado a terra de Ham, ou melhor, Cam, porque foi povoada por Mizraim, filho de Cam, e neto de Noé. Plutarco (De Iside e Osíride) nos informa que os egípcios chamavam a sua terra de Chmia, Chemia; e os coptas ainda hoje lhe dão o nome de Chmi, Chemi. Comprehensive Bible.
Versículo 23Salmo 106:23
Moisés, seu escolhido, ficou de pé diante dele na brecha. Moisés ficou na fenda, e desviou a ira de Deus; a cerca da religião e do culto tinha sido derrubada por um bezerro de ouro, e ele a refez: Números 16:41-42, o povo murmurou, se levantou contra Moisés e Arão, pisoteou a cerca da autoridade, e então a praga irrompeu entre eles; imediatamente Arão entra na fenda, refaz a cerca, e detém a praga, Números 16:47-48. O que fizeram foi honroso; foram reparadores de brechas.
Nós, por infinita misericórdia, tivemos alguns como Moisés e Arão, para refazer as nossas cercas, reerguer os nossos alicerces, e fechar algumas fendas; mas nem todas as nossas fendas ainda estão fechadas. Não há fendas na cerca da doutrina? Se não fosse assim, como entraram entre nós opiniões tão errôneas, blasfemas e desvairadas? Não há fendas nas cercas da autoridade civil e eclesiástica? Não pisoteiam multidões o magistrado e o ministério, todos os poderes, tanto humanos quanto divinos? Não há fendas no culto a Deus? Não pisoteiam demasiados todas as igrejas, todas as ordenanças, sim, as próprias Escrituras? Não há fendas na cerca da justiça, por onde entram os touros de Basã, que oprimem o pobre e esmagam o necessitado? Amós 4:1. Não há fendas na cerca do amor; não está quebrado aquele vínculo da perfeição? Não há invejas amargas e contendas entre nós; não nos mordemos e devoramos uns aos outros? Não há fendas na cerca da consciência? Não está quebrada a paz entre Deus e as vossas almas? Não entra Satanás muitas vezes pela fenda, para vos perturbar? Não há também fendas em vossas várias relações, pelas quais ele tira proveito? Certamente, se tivermos olhos na cabeça, veremos fendas de sobra. William Greenhill.
A brecha. Esta é uma metáfora tirada de uma cidade sitiada, em cujas muralhas o inimigo, tendo feito uma "brecha", está prestes a entrar, para destruí-la, a menos que seja repelido por algum guerreiro valente. Assim ficou Moisés, por assim dizer, "na brecha", e desviou a ira de Deus, quando ele estava a ponto de destruir os israelitas. Veja Êxodo 32:1-35. Thomas Fenton.
Se os cristãos pudessem ser levados a ter um justo senso do valor e do poder da oração intercessória, com certeza ela abundaria. É uma repreensão terrível contra os falsos profetas do tempo de Ezequiel: "Não subistes às brechas, nem refizestes o muro pela casa de Israel, para estar firme na peleja no dia do Senhor" (Ezequiel 13:5). Compare com Êxodo 32:9-14. William S. Plumer.
Versículo 24Salmo 106:24
Sim, desprezaram. Quando a herança prometida do céu (que era figurada pela terra aprazível da promessa) não é considerada digna de todas as dores e dificuldades que podem ser sustentadas e enfrentadas no caminho que a ela conduz, a herança prometida é pouco estimada, como aparece nos israelitas, que, por amor ao conforto, e por medo dos cananeus, estavam prontos a voltar para o Egito: desprezaram a terra aprazível. David Dickson.
Desprezaram a terra aprazível. Esta foi um tipo do céu, a boa terra distante; o país melhor, a terra da promessa e do descanso; na qual há plenitude de provisões, e onde não haverá fome nem sede; onde corre o rio da água da vida, e está a árvore da vida, dando toda espécie de frutos; onde há plenitude de gozo e prazeres para sempre; a mais deliciosa companhia do Pai, do Filho e do Espírito, dos anjos e dos santos glorificados, e nada para perturbar a sua paz e o seu prazer, nem de dentro, nem de fora.
E, no entanto, pode-se dizer que esta terra aprazível é desprezada por aqueles que não se importam em passar por dificuldade alguma para chegar a ela; em cumprir os deveres da religião; em suportar oprobrio por amor de Deus; em passar pela tribulação; em andar pelo caminho estreito e aflitivo que a ela conduz; e por todos aqueles que não se importam em separar-se de suas cobiças e prazeres pecaminosos, mas os preferem, a eles e às coisas deste mundo, ao estado celestial. John Gill.
Um grande obstáculo à salvação é a preguiça espiritual. Diz-se de Israel: "desprezaram a terra aprazível." Qual seria a razão? Canaã era um paraíso de deleite, um tipo do céu; sim, mas pensavam que lhes custaria muito trabalho e risco conquistá-la, e preferiam ficar sem ela: desprezaram a terra aprazível. Não somos milhões, hoje, que preferiríamos ir dormindo para o inferno, do que suando para o céu? Li a respeito de certos espanhóis que vivem perto de onde há grande abundância de peixe, e ainda assim são tão preguiçosos que não se dão ao trabalho de pescá-lo, mas o compram dos vizinhos: tal estupidez e preguiça pecaminosas recaem sobre a maioria, que, embora Cristo esteja perto deles, embora a salvação seja oferecida no Evangelho, ainda assim não trabalham a sua salvação. Thomas Watson.
Versículos 24–25Salmo 106:24-25
A murmuração contém em si muita incredulidade e desconfiança de Deus. Não creram na sua palavra; antes murmuraram em suas tendas. Não podiam crer que o deserto fosse o caminho para Canaã, que Deus lhes proveria e prepararia mesa ali, e os aliviaria em todas as suas angústias. Assim é conosco na aflição. Contendemos com a providência de Deus, porque não cremos nas suas promessas; não cremos que isso possa ser compatível com o amor, ou que possa, no fim, resultar em bem. John Willison, 1680-1750.
Versículo 25Salmo 106:25
Antes murmuraram. Murmuração! Deve ter sido uma enfermidade característica do povo hebreu, ou uma doença peculiar àquele deserto. À medida que avançamos neste relato, encontramo-la constantemente, rangendo em discórdia áspera e crônica, ou assombrando terra e céu com os seus paroxismos estridentes e penetrantes. Levantam os olhos, e, enquanto os egípcios os perseguem, o povo murmura. Chegam a uma fonte, a água é amarga, e mais uma vez murmuram. Depois, não há pão; as murmurações se redobram. Moisés não está mais no monte; murmuram. Ele toma para si autoridade demais; mais murmurações. Quando chegaremos àquela terra prometida? Murmurações extraordinárias, murmurações altas. Estão perto da terra, mas os seus habitantes são gigantes, e as suas cidades muradas até o céu. Ah, que decepção! E o último suspiro dos últimos sobreviventes daquela raça queixosa sai em um furacão de reprovação e protesto — uma tempestade perfeita de murmurações. James Hamilton (1814-1867), em "Moses the Man of God."
A murmuração, nesta ocasião, parece ter sido um mal social: "murmuraram em suas tendas." Assim também os homens, na vida social, promovem uns nos outros preconceito e aversão à verdadeira religião. W. Wilson.
Versículo 28Salmo 106:28
Uniram-se também a Baal-Peor — antes, "se ligaram com o seu distintivo": pois era costume, em tempos antigos, como ainda é hoje, em todos os países pagãos, que cada ídolo tivesse algum distintivo ou insígnia específica, pela qual os seus devotos fossem reconhecidos. John Kitto, em "Daily Bible Illustrations."
Uniram-se também a Baal-Peor. O relato (Números 25:1-18) parece mostrar claramente que essa forma de culto a Baal estava ligada a ritos licenciosos. Sem dar peso demais à derivação rabínica da palavra que significa "abertura", isto é, "abrir o hímen virginal", parece haver razão para concluir que essa era a natureza do culto. Baal-Peor foi identificado pelos rabinos e pelos primeiros padres com Príapo (veja as autoridades citadas por Selden, De Diis Syris, 1, 4, p. 302 e seguintes, que, no entanto, discorda dessa visão). Esta é, além disso, a visão de Creuzer (2, 411), Winer, Gesenius, Furst, e quase todos os críticos. O leitor é remetido, para informação mais detalhada, particularmente ao Symbolik de Creuzer e ao Phönizier de Movers. William Gotch, no "Smith's Dictionary of the Bible."
Comeram os sacrifícios. Era costume que os oficiantes comessem a maior parte do sacrifício. Daí as observações de Paulo sobre este assunto, 1 Coríntios 8:1-13. Benjamin Boothroyd.
Os mortos. A palavra maithim significa homens mortos; pois os ídolos dos pagãos eram geralmente homens — guerreiros, reis ou legisladores — que tinham sido deificados após a sua morte; embora muitos deles tivessem sido execrados em vida. Comprehensive Bible.
E comeram os sacrifícios dos mortos.
Prestando as suas exéquias a Polidoro,
erguemos um túmulo, e altares aos mortos,
com fitas azul-escuras e cipreste negro os cingimos;
as nossas mulheres, com os cabelos soltos, ficam de pé para lamentar;
tigelas quentes e espumosas de leite e sangue sagrado
oferecemos, no seu túmulo deitamos o espírito,
o chamamos em voz alta, e lhe damos o último adeus. Virgílio.
Versículo 29Salmo 106:29
Provocaram-no à ira com as suas invenções. Note-se que não se diz "com os seus atos", mas "com as suas buscas" (empenhos). Uma coisa é simplesmente fazer algo; outra, bem diferente, é buscá-lo com afinco, noite e dia. A primeira pode acontecer por acaso, ou por ignorância, ou por causa de alguma tentação ou violência, e isso sem o consentimento e contra a inclinação da mente. Mas a segunda se dá em razão de um propósito e um desígnio fixos, e por esforço e premeditação. Vemos, portanto, nesta passagem, que a paciência de Deus foi finalmente provocada à ira e ao furor quando o povo pecou não apenas uma vez e outra, mas quando a busca do pecado cresceu e se fortaleceu. Musculus.
As suas invenções. Os seus pecados são aqui chamados pelo nome de "as suas invenções." E, com certeza, assim o são; pois não nos foram ensinados por Deus de nenhuma forma, mas vieram da nossa própria imaginação ou descoberta. Pois, de fato, as nossas invenções são a causa de todos os pecados. E, se olharmos bem para isso, veremos que assim é. Pelo mandamento de Deus, todos deveríamos viver, e o seu mandamento é: "Não fareis, cada um, o que lhe parece bem aos seus próprios olhos" (ou descobre em seu próprio cérebro), mas "tudo o que eu vos ordenar, isso fareis" (Deuteronômio 12:8). Mas nós, desprezando essa ordem sua, por causa da velha doença de nosso pai Adão ("sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal"), achamos coisa boa ser espertos, e descobrir coisas por nós mesmos, para fazer para nós mesmos, para sermos autores e inventores de algo, de modo que possamos parecer tão sábios quanto Deus, senão mais; e saber o que nos convém, tanto quanto ele, senão melhor.
Foi a falta de Saul. Deus lhe ordenou destruir totalmente Amaleque, e ele inventou um caminho melhor, para poupar alguns (com efeito) para sacrifício, no que Deus não tinha pensado. E foi a falta de Pedro, quando persuadiu Cristo a se afastar da sua paixão, e descobriu um caminho melhor (como pensou) do que Cristo poderia conceber. Lancelot Andrewes.
Irrompeu entre eles. A imagem é a de um rio que rompeu as suas barreiras; veja Êxodo 19:24. A praga é a matança infligida sobre o povo por ordem de Moisés; Números 25:4-5,8-9,18. "The Speaker's Commentary."
Versículo 30Salmo 106:30
Então se levantou Fineias. Todo Israel viu a lascívia ousada de Zinri, mas os seus corações e olhos estavam tão cheios de pesar, que não tinham espaço suficiente para a indignação. Fineias olhava, como os demais, mas com outros sentimentos. Quando viu esse desafio lançado contra Deus, e este insulto sobre a dor do seu povo (que, enquanto torciam as mãos, um mísero orgulhoso ousava enfrentar a sua humilhação com a sua perversa lascívia), o seu coração ferveu com desejo de uma santa vingança; e agora aquela mão, acostumada ao incensário e à faca de sacrifício, toma a sua lança, e, com um só golpe, une aqueles dois corpos na morte, que estavam unidos no pecado, e, na própria flagrância da sua luxúria, abre novo caminho para as suas almas irem ao seu próprio lugar.
Ó nobre e heroica coragem de Fineias! Que, assim como foi recompensada por Deus, também é digna de ser admirada pelos homens. Ele não fica lançando escrúpulos: Quem sou eu para fazer isso? O filho do sumo sacerdote. O meu lugar é todo de paz e misericórdia: cabe a mim sacrificar, e orar pelo pecado do povo, não sacrificar algum do povo pelo seu pecado. O meu dever me chama a apaziguar a ira de Deus quanto posso, não a vingar os pecados dos homens; a orar pela sua conversão, não a trabalhar pela confusão de nenhum pecador. E quem são estes? Não é um deles um grande príncipe em Israel, e a outra uma princesa de Midiã? Pode a morte de duas personagens tão famosas ficar sem vingança? Ou, se for seguro e conveniente, por que meu tio Moisés antes derrama as suas próprias lágrimas do que o sangue deles? Chorarei com os demais; que vinguem os que isso lhes compete.
Mas o zelo de Deus baniu todas essas deliberações fracas; e ele agora considera tanto seu dever quanto sua glória ser executor de um par tão desavergonhado de ofensores... Agora o pecado é punido, a praga cessa. A vingança de Deus sempre segue após o pecado; mas se a vingança dos homens (que costuma vir mais tarde) puder alcançá-lo, Deus interrompe a perseguição. Quantas vezes a imposição de um castigo menor evitou um maior! Não há amigos tão bons do estado quanto os ministros corajosos e imparciais da justiça: estes são os reconciliadores de Deus e do povo, mais do que as orações dos que ficam sentados sem fazer nada. Joseph Hall.
Então se levantou Fineias, etc. Note-se o poderoso princípio que rolava como uma torrente no coração de Fineias. O Espírito não o deixa obscuro. O louvor é este: "Ele foi zeloso pelo seu Deus" (Números 25:13). Não pôde cruzar os braços e ver a lei de Deus insultada, o seu governo desafiado, a sua majestade e o seu império escarnecidos. O coração do servo ardeu numa única labareda de santa indignação. Ele precisava se levantar para reivindicar o seu Senhor. O seu amor fervoroso, a sua resolução ousada, não temem nada numa causa justa. O ofensor Zinri era um príncipe poderoso: ainda assim não o poupou.
Crente, podes ler isto sem sentir vergonha? Os teus esforços ousados testemunham o teu zelo? Os pecadores blasfemam o nome de Deus. Tu repreendes? Os seus sábados são profanados. Tu protestas? Falsos princípios correm soltos? Tu expões as falsificações? O vício anda com as vestes da virtude. Tu arrancas a máscara? Satanás escraviza o mundo. Tu resistes? Ou, antes, não estás dormitando indiferente? Se a causa de Cristo prospera ou é derrubada, pouco te importa. Se o zelo justo cingisse os teus lombos, e firmasse os teus nervos, e movesse o leme do teu coração, e enchesse as tuas velas de ação, seria Deus tão desconhecido, e a blasfêmia tão ousada?
Note-se, em seguida, que o zelo de Fineias é são de espírito. Não é como um corcel sem rédeas, uma torrente sem margens, um furacão solto. Os seus passos estão dispostos no caminho da ordem. Executa a própria vontade de Deus, à própria maneira de Deus. O mandamento diz: que os ofensores morram. Ele desfere, então, um golpe mortal, com mão obediente. O zelo que o céu acende é sempre uma graça submissa. Henry Law, em "Christ is All," 1858.
Levantou-se, tão valentemente para fazer a sua obra de zelo, quanto Moisés fizera para cumprir o ofício de intercessor, e porque somente ele se ergueu para dar o exemplo de resistência aos imundos ritos de Baal-Peor. Cassiodoro, citado por Neale e Littledale.
E assim a praga se deteve. O próprio Deus atribui esta honra peculiar de deter a praga (quando estava prestes a destruir todo o acampamento) a este ato de Fineias, dizendo: "Ele desviou a minha ira" (Números 25:10-11), porque ele foi movido pelo mesmo zelo pela glória de Deus e pelo bem de Israel com que o próprio Deus é movido em favor deles, e não temeu perder a sua própria vida na causa de Deus, dando morte a um príncipe e a uma princesa na própria flagrância da sua luxúria, de um só golpe. Há tal acento e tamanha ênfase posta pelo Senhor neste ato (como observam os rabinos judeus) que aqui começa a quadragésima primeira seção ou lição da Lei, ou (como diz Vatábulo) a sétima seção do livro, que chamam de Fineias.
Além disso, isso nos ensina que o zelo pela justiça, na causa de Deus, é um meio promissor para afastar a ira de Deus, e obter a sua misericórdia para o homem. Assim também Davi fez expiação, fazendo justiça sobre a casa de Saul, 2 Samuel 21:3, etc... Fineias, em virtude desta promessa do sacerdócio (Números 25:12-13), viveu ele mesmo até idade muito avançada, mesmo (como dizem alguns) até trezentos anos, como aparece em Juízes 20:28, onde então se encontra vivo, por causa do seu zelo neste momento. Viveu tanto que alguns dos rabinos são de opinião que ele nunca morreu, mas ainda está vivo, e supõem que ele seja o Elias que há de vir antes da vinda de Cristo; mas essa noção é refutada por outros rabinos, e pela menção de sua semente que lhe sucede nas sagradas Escrituras. Contudo, embora poucos, depois do Dilúvio, chegassem perto de tal idade, Fineias devia ser bem velho naquele tempo da guerra de Israel contra Benjamim...
O sacerdócio de Fineias é chamado "perpétuo", não na sua pessoa, mas na sua posteridade, cujos filhos foram sucessivamente sumos sacerdotes até o cativeiro da Babilônia, 1 Crônicas 6:4-16; e no retorno do cativeiro, Esdras, o grande sacerdote e escriba, era da sua linhagem, Esdras 7:1-6; e assim continuou naquela linhagem até, ou muito perto de, a chegada do nosso Sumo Sacerdote evangélico (como Cristo é chamado, Hebreus 5:6), que era da ordem de Melquisedeque. Christopher Ness.
Por que a pacificação da ira de Deus, e a suspensão da praga, são atribuídas a Fineias, tendo um toque de irregularidade, em vez de aos atos de Moisés e dos juízes, que foram por ordem expressa de Deus e muito regulares? Em resposta: os atos de Moisés e dos juízes abrandaram o fogo da ira de Deus; o de Fineias o apagou; além disso, os atos de Moisés e dos juízes tiveram origem numa fagulha; o de Fineias, numa chama de zelo e santa indignação nele; por isso o Senhor, que se agrada grandemente com as fontes e raízes das ações, põe a coroa sobre a cabeça de Fineias. Edmund Staunton, em sermão pregado diante da Câmara dos Lordes, 1644.
E assim a praga se deteve. Um homem não vive apenas pela sua própria fé, mas, em respeitos temporais, a fé de outro homem pode lhe fazer bem. Senhores, pela sua fé, obtiveram cura para os seus servos; pais, para os seus filhos, Mateus 15:28. "Ó homem, grande é a tua fé!" "Vendo Jesus a fé deles", curou o paralítico. O povo de Deus, pela cidade ou lugar onde vive: "O inocente" (isto é, o que faz fielmente) "livrará a ilha" (Jó 22:30). Gênesis 18:32: "Se ali se acharem dez justos, não a destruirei, por amor dos dez." Especialmente nos magistrados: Moisés, Números 14:1-45; Ezequias, Isaías 37:1-38, elevaram orações, e Deus salvou o povo e os lugares pelos quais oravam: então Fineias executou julgamento (apaziguou a Deus pela fé) e assim a praga se deteve. Matthew Lawrence.
Elevação de mente e doçura de espírito são pérolas de grande valor, e, se desejamos preservá-las, é melhor confiá-las à própria guarda de Deus. Se Moisés perdeu a sua fé, foi por primeiro perder o autocontrole: e, se um homem perde isso, é difícil dizer o que mais poderá perder depois: como o guerreiro insano que faz do seu escudo um projétil e o lança contra a cabeça do inimigo, ele fica então exposto a todo dardo de fogo, ao corte e à estocada de todo agressor. Mas, como observa John Newton, "A graça de Deus é tão necessária para criar um temperamento reto num cristão ao se quebrar um prato de porcelana, quanto na morte de um filho único"; e, como nenhum homem pode saber, ao amanhecer de qualquer dia, se este não será o dia mais difícil de toda a sua vida, quão sábio é orar sem cessar: "sustenta-me segundo a tua palavra. Sustenta-me tu, e estarei seguro." "Põe, ó Senhor, guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios." "Quem pode entender os seus erros? Purifica-me tu dos meus pecados ocultos. Guarda também o teu servo dos pecados presunçosos; não tenham eles domínio sobre mim: então serei íntegro, e ficarei inocente de grande transgressão." James Hamilton.
Versículo 32Salmo 106:32
Sucedeu mal a Moisés. Este juízo de Deus sobre aquele pecado não implicava que ele tivesse apagado Moisés do livro da vida, ou do número dos santos, ou de outro modo senão perdoando o seu pecado. Pois ele continuou ainda a falar com ele, e a aconselhar-se com ele sobre o governo do seu povo, e disse a Josué que fosse fiel a ele como o fora o seu servo Moisés. Aquela não era a verdadeira Canaã da qual foi excluído, mas apenas a figura e a sombra; e foi-lhe permitido vê-la; visão bem digna de todos os seus trabalhos, pelas coisas mais excelentes que ela significava. Isaac Williams, em "The Characters of the Old Testament," 1873.
Versículo 33Salmo 106:33
Provocaram o seu espírito. Assim como Abraão se distinguiu pela sua fé, também Moisés se distinguiu pela sua mansidão; pois a Escritura declara que ele era "muitíssimo manso, mais que todos os homens que havia sobre a face da terra" (Números 12:3). Ainda assim, a julgar pelos fatos registrados a seu respeito, seríamos levados a supor que ele era, por natureza, notável pela sensibilidade e pela impetuosidade de temperamento — essa era a sua única fraqueza persistente. Algo disso parece ter se evidenciado quando matou o egípcio; quando feriu a rocha duas vezes no deserto; e naquela ocasião em que foi "punido", como diz o salmista, "porque provocaram o seu espírito, de modo que falou imprudentemente com os seus lábios", e quando quebrou as duas tábuas de pedra. Algo semelhante parece ter ocorrido com o nosso próprio Hooker, a quem o seu biógrafo atribui tão singular mansidão, embora os seus escritos particulares revelem um temperamento vivamente sensível ao senso de injustiça. Isaac Williams.
Provocaram o seu espírito. Numa dispensação principalmente graciosa em si mesma, e prefigurando uma que seria toda graça, era de primeira importância que os homens mediadores fossem misericordiosos e graciosos, longânimos e tardios para a ira. E certamente o foram de modo admirável... Transbordando de instrução como está esta passagem, devemos deixá-la com algumas observações.
Quão cuidadosos devem ser os pregadores do evangelho e os expositores das Escrituras, para não dar impressão errônea da mente ou da mensagem de Deus. A agudeza mental é rara, mas o espírito correto é ainda mais raro. Mas qual é o espírito correto? Um espírito amoroso, um espírito gentil, um espírito fiel, um espírito manso e desapegado, um espírito que diz: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve", e um espírito que acrescenta: "Tudo o que o Senhor me der, isso falarei" — aquele espírito excelente que só é concedido pelo bom Espírito de Deus. Pois, se ele se retirar, até mesmo um Moisés deixa de ser manso, e, deixando de ser manso, até mesmo um Moisés se torna mau teólogo e mestre errôneo, ferindo a rocha que já tinha sido ferida uma vez por todas, e pregando boas novas com aspereza. Aquele que dá a água viva não a nega com relutância; mas, às vezes, em vez de "Ó, todo o que tem sede", o pregador diz: "Ouvi agora, ó rebeldes; havemos nós de tirar água desta rocha?", e torna repulsivo o próprio convite.
Quando alguém correu por muito tempo e correu bem, quão triste é tropeçar a poucos passos da meta! Se Moisés tinha um desejo terreno, era ver Israel a salvo na sua herança, e o seu desejo estava quase consumado. A fé e a paciência tinham resistido por quase quarenta anos, e em mais alguns meses o Jordão seria atravessado e a obra estaria concluída. E quem pode dizer se essa mesma proximidade do prêmio não ajudou a criar algo de confiança presunçosa? O sangue de Moisés era quente desde o início, e ele não era o mais manso dos homens quando feriu o egípcio e o escondeu na areia. Mas tinha recebido boa lição em governar o seu espírito, e, entre a longa estadia com Jetro e a autodisciplina necessária no encargo desta multidão, talvez imaginasse que agora tinha o pé sobre o pescoço deste inimigo: quando eis que o pecado revive, e Moisés morre.
Bem-aventurado o homem que sempre teme! Bem-aventurado o homem que, embora tenham passado anos sem tentativa de arrombamento, ainda tranca as suas portas e verifica se as janelas estão fechadas! Bem-aventurado o homem que, embora tenha passado uma geração desde a última erupção, se abstém de construir sobre o solo vulcânico, e teme fogos que já ardem em brasa há oitenta anos! Bem-aventurado o homem que, mesmo depois de atravessar os altos mares e alcançar terra, ainda mantém vigia! Bem-aventurado o homem que, mesmo nas fronteiras de Canaã, toma cuidado com o coração maligno, para que, com a promessa de entrar, não venha a falhar por incredulidade!
Provocaram o seu espírito, etc. Zangado ele certamente estava; e quando, recordando um milagre anterior, o Altíssimo o instruiu a tomar o cajado maravilhoso — a sua vara de tantos milagres — e, diante da congregação, "falar à rocha", e ela "daria a sua água", no calor e na agitação do seu espírito, ele falhou em cumprir implicitamente o mandamento divino. Em vez de falar à rocha, falou ao povo, e o seu discurso já não era na linguagem calma e digna do legislador, mas tinha certo tom de irritação e egotismo. "Ouvi agora, ó rebeldes, havemos nós — havemos eu e Arão, não Jeová — de tirar água desta rocha?" E, em vez de simplesmente falar a ela, levantou a vara e desferiu dois golpes sucessivos, como se a rocha compartilhasse a perversidade geral, e não fosse obedecer ao mandato do seu Criador mais do que o povo. Ele se irou, e pecou. Pecou, e foi severamente punido. A água fluiu, suficiente para todo o acampamento e o gado, clara, fresca e jorrando com sofreguidão, bastante para todo o milhão; mas no mesmo instante em que aquela generosidade imerecida irrompia sobre vós, ó rebeldes, "um cálice de ira foi posto na mão de Moisés" (Van Oosterzee). Para vós, ó murmuradores, saiu água viva; para os vossos venerandos líderes, o cálice da ira de Deus. "E falou o Senhor a Moisés e a Arão: Porquanto não crestes em mim, para me santificar aos olhos dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado" (Números 20:12). James Hamilton.
Falou imprudentemente com os seus lábios. O Senhor deseja que ele se dirija à rocha, mas Moisés fala a Israel. Deus quer que ele diga uma palavra à pedra inanimada, e Moisés a fere duas vezes. Deus ainda está disposto a que o povo permaneça como sua herança, mas Moisés claramente os trata com má vontade e muita ofensa. Deus quer aliviar e refrescar o povo na sua sede, e Moisés é escolhido para cooperar com ele em toda essa alegria; mas note-se como, neste mesmo dia, se manifesta profunda discórdia entre a inclinação de Deus e a mente de Moisés. Deus se inclina a conceder perdão; Moisés se inclina ao castigo; antes, parecia prevalecer justamente o oposto. Deus é longânimo; Moisés está cheio de amargura; Deus busca glorificar a sua graça; em Moisés, é o eu, não Deus, que ganha destaque. "Havemos nós" — não "haverá o Senhor" — mas "havemos nós de tirar água desta rocha?" Vemos agora, neste profeta, forte em outras ocasiões, os primeiros indícios claros de desgaste e cansaço. Ele se cansou (e, de fato, não deveria parecer estranho, pois qual de nós teria sustentado uma luta como a sua por metade do tempo?) de carregar por mais tempo estes filhos obstinados. Este homem, tão verdadeiramente grande, nunca, até então, tinha esquecido por um instante a sua própria dignidade diante de todo Israel; mas agora já não é senhor de si mesmo. J. J. Van Oosterzee.
Falou imprudentemente. Uma pessoa piedosa pode ser surpreendida e cair de repente entre ladrões que se escondem atrás das moitas. Não, homens muito santos, a menos que sejam maravilhosamente cautelosos, podem tropeçar rapidamente diante de perguntas súbitas e emergências inesperadas. Quem conhece a sutileza do pecado, e o engano do seu próprio coração? Cuidado ao responder depressa, e enviai súbitos suspiros ao céu antes de responder a uma proposta grave e duvidosa. Samuel Lee.
Versículos 34–38Salmo 106:34-38
Os milagres e misericórdias que os estabeleceram em Canaã não deixaram neles impressões mais profundas nem mais duradouras do que aqueles que os tiraram do Egito; pois, assim que se aqueceram em Canaã, corromperam-se, e abandonaram a Deus. Observe-se os passos da sua apostasia.
Pouparam as nações que Deus tinha condenado à destruição (Salmo 106:34). Tendo recebido a boa terra que Deus lhes tinha prometido, não tiveram zelo contra os habitantes ímpios, que o Senhor lhes ordenara exterminar, alegando piedade; mas tão misericordioso é Deus, que ninguém precisa, em caso algum, ser mais compassivo do que ele.
Quando os pouparam, prometeram a si mesmos que, apesar disso, não se uniriam em nenhuma aliança perigosa com eles; mas o caminho do pecado é ladeira abaixo; as omissões abrem caminho às comissões; quando negligenciam destruir os pagãos, a próxima notícia que ouvimos é que se misturaram entre os pagãos, fizeram alianças com eles, e contraíram intimidade com eles, de modo que aprenderam as suas obras (Salmo 106:35). O que está podre corrompe mais depressa o que está são, do que é curado ou sanado por ele.
Quando se misturaram com eles, e aprenderam algumas de suas obras que pareciam diversões e entretenimentos inocentes, ainda assim pensavam que nunca se uniriam a eles no seu culto; mas, aos poucos, aprenderam isso também (Salmo 106:36). Serviram aos seus ídolos da mesma maneira, e com os mesmos ritos com que os serviam, e estes se tornaram um laço para eles; aquele pecado atraiu muitos mais, e trouxe sobre eles os juízos de Deus, dos quais eles próprios não podiam deixar de estar cientes, e ainda assim não sabiam como se recuperar.
Quando se uniram a eles em alguns dos seus cultos idólatras, que pensavam ter menos mal neles, pouco imaginavam que um dia seriam culpados daquela peça bárbara e desumana de idolatria, o sacrifício de seus filhos vivos aos seus deuses mortos: mas chegaram, por fim, a isso (Salmo 106:37-38), em que Satanás triunfou sobre os seus adoradores, e se banqueteou em sangue e matança. Sacrificaram os seus filhos e filhas, pedaços de si mesmos, aos demônios; e acrescentaram assassinato, o mais desnaturado assassinato, à sua idolatria; ninguém pode pensar nisso sem horror; derramaram sangue inocente, o mais inocente, pois era sangue de infantes, sim, era o "sangue de seus filhos e de suas filhas." Vejam o poder do espírito que opera nos filhos da desobediência, e vejam a sua malícia. O começo da idolatria e da superstição, como o da contenda, é como o soltar das águas, e não há vilania da qual os que nela se aventuram possam estar seguros de que hão de parar antes, pois Deus, com justiça, "os entrega a uma mente reprovada" (Romanos 1:28). Matthew Henry.
Versículo 37Salmo 106:37
Sim, sacrificaram os seus filhos e as suas filhas aos demônios. Não precisamos de argumento melhor para descobrir a natureza desses deuses do que este próprio serviço, no meu texto, aceito por eles: pois, tanto pelo registro das sagradas Escrituras quanto pelo relato de autores pagãos e outros escritores, sabemos que nada era tão frequentemente ordenado, nem tão gratamente aceito, por esses deuses pagãos, quanto o derramamento do sangue humano, e o sacrifício de homens, moças e crianças a eles, como aparece pela prática costumeira dos homens em tempos passados. Das Escrituras, dou apenas o exemplo do rei de Moabe, mencionado em 2 Reis 3:27, onde se diz que, estando em apuros, "tomou o seu filho primogênito, que devia reinar em seu lugar, e o ofereceu em holocausto sobre o muro."
Os relatos dos pagãos também estão cheios de exemplos semelhantes. Quando os atenienses perguntaram ao oráculo de Apolo como poderiam reparar o assassinato de Androgeu, ele os instruiu a enviar anualmente ao rei Minos sete corpos de cada sexo, para apaziguar a ira do deus. Ora, este tipo de sacrifício anual continuou em Atenas até o tempo de Sócrates. Assim, os cartagineses, tendo sido vencidos por Agátocles, rei da Sicília, e supondo que o seu deus estivesse irado, sacrificaram, para apaziguá-lo, duzentos filhos de nobres. Esse costume era antigo até mesmo antes da guerra de Troia, pois foi então que Ifigênia foi sacrificada.
Assim lemos que os latinos sacrificavam a décima parte de seus filhos a Júpiter; que homens e crianças eram costumeiramente sacrificados a Saturno em muitos lugares em Candia, Rodômene, Fenícia, África, e geralmente os mais escolhidos e queridos de seus filhos, e os de mais nobre descendência. A maneira de sacrificar os filhos a Saturno, relata Diodoro, era esta: trazendo os filhos até a estátua ou imagem de Saturno, que era de imensa grandeza, entregavam-nos em suas mãos, que eram feitas tão ocas e sinuosas que as crianças oferecidas escorregavam e caíam através delas dentro de uma caverna e forno de fogo. Esses sacrifícios continuaram em uso até o nascimento e a morte do nosso Salvador Cristo, que veio para destruir a obra do diabo; pois tais sacrifícios foram primeiro proibidos por Augusto César; depois, mais geralmente, por Tibério (em cujo reinado o nosso Salvador padeceu), que, como escreve Tertuliano, os proibiu tão estritamente que crucificou os sacerdotes que os ofereciam: no entanto, mesmo no tempo de Tertuliano, e depois nos tempos de Eusébio e de Lactâncio, tais sacrifícios ainda eram oferecidos (mas em segredo) a Júpiter Latial.
Quem pode agora duvidar, vendo tamanha e supersticiosa crueldade, que os deuses que ordenavam tais sacrifícios eram verdadeiros demônios e inimigos da humanidade? Deus não ordena nada disso, mas o proíbe, e ameaça pragas ao seu povo, porque o tinham abandonado e "edificaram também os lugares altos de Baal, para queimarem os seus filhos no fogo, em holocaustos a Baal, o que eu não ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento" (Jeremias 19:5). Muito infalivelmente, então, podemos concluir que ninguém, senão Satanás, aquele arquidemônio, com os seus anjos, era o ordenador de tal culto, pois isso condiz muito bem com a sua natureza, ele que tem sido homicida desde o princípio. Robert Jenison, em "The Height of Israel's Heathenish Idolatrie, in Sacrificing their Children to the Devil," 1621.
Sim, sacrificaram os seus filhos, etc. Disto aprendemos que o zelo inconsiderado é um pretexto frágil em favor de qualquer ato de devoção. Pois, quanto mais os judeus estavam sob a influência de um zelo ardente, tanto mais o profeta os condena por serem culpados de maior perversidade; porque a sua loucura os levou a tal grau de fervor, que não pouparam nem a sua própria prole. Se boas intenções fossem meritórias, como supõem os idólatras, então, de fato, o abandono de todo afeto natural, ao sacrificar os seus próprios filhos, seria feito digno do mais alto louvor. Mas, quando os homens agem sob o impulso do seu próprio humor caprichoso, quanto mais se ocupam com atos de culto exterior, tanto mais aumentam a sua culpa. Pois que diferença havia entre Abraão e essas pessoas de quem o profeta faz menção, senão que o primeiro, sob a influência da fé, estava pronto para oferecer o seu filho, ao passo que os últimos, levados pelo impulso de um zelo intemperado, lançaram fora todo afeto natural, e mancharam as mãos no sangue da sua própria prole. João Calvino.
Demônios, Shedim. Parece que crianças eram sacrificadas às divindades assim chamadas; que eram consideradas de natureza irada, e inimigas da raça humana, e assim o objetivo da homenagem prestada a elas era desviar calamidades. O nome Shedim pode significar tanto "senhor" ou "amo", quanto qualquer coisa que seja negra, sendo derivado de um verbo árabe ain-vau — a saber, ser negro, ou ser senhor. John Jahn, em "Biblical Antiquities."
Versículos 37–38Salmo 106:37-38
Ficamos, sem dúvida, atônitos diante desta impiedade horrível, bárbara e desnaturada, de oferecer filhos pelo fogo a um Moloque: mas quão pouco se considera que filhos criados nos caminhos da ignorância, do erro, da vaidade, da loucura e do vício são, de forma ainda mais efetiva, sacrificados ao grande adversário da humanidade! George Horne.
Versículo 39Salmo 106:39
E se prostituíram com as suas próprias invenções. Assim como a prostituição é um dos mais abomináveis pecados que uma filha ou uma esposa pode cometer, assim também, com frequência, nas Escrituras, o afastamento de Deus, e especialmente a prática da idolatria, é chamado de prostituição e fornicação, Salmo 73:27; Êxodo 34:15-16. William S. Plumer.
Versículo 40Salmo 106:40
Detestou a sua própria herança. Sempre que um grande amor afunda em grande ódio, chama-se isso de aversão. Lorino.
Versículo 43Salmo 106:43
Foram abatidos pela sua iniquidade. O pecado tem natureza enfraquecedora e empobrecedora; enfraqueceu toda a humanidade, e lhe tirou a força moral para fazer o bem; e a trouxe à pobreza e à necessidade; a serem mendigos sobre o monturo; a uma cova em que não há água; e a deixou numa condição sem esperança e sem ajuda; sim, muitas vezes traz o povo de Deus, depois da conversão, a um estado baixo, quando Deus esconde o seu rosto por causa disso, as tentações se fortalecem, a graça enfraquece, e eles se tornam mornos e indiferentes às coisas espirituais. John Gill.
Versículo 46Salmo 106:46
Ele os fez também objeto de compaixão diante de todos os que os levavam cativos. Esse sentimento aperfeiçoado para com os judeus, por influência de Deus, aparece em Daniel 1:9; assim como José, de modo semelhante, teve o seu cativeiro melhorado pelo favor de Deus (Gênesis 39:21). Assim também Evil-Merodaque, rei da Babilônia, tratou com bondade a Joaquim, rei de Judá (2 Reis 25:27). A. R. Fausset.
Versículo 47Salmo 106:47
Ajunta-nos. O bispo Patrick diz que, em sua opinião, este versículo se refere àqueles que, nos dias de Saul, ou antes, foram feitos prisioneiros pelos filisteus, ou por outras nações; a quem Davi pede a Deus que reúna de volta à sua própria terra; para que pudessem adorá-lo naquele lugar que ele tinha preparado para a arca da sua presença. Thomas Fenton.
Versículo 48Salmo 106:48
Amém. Martinho Lutero disse certa vez, a respeito do Pai-Nosso, que "era o maior mártir na terra, porque era usado tão frequentemente sem pensamento nem sentimento, sem reverência nem fé." Esta observação pitoresca, tão verdadeira quanto triste, aplica-se talvez com força ainda maior à palavra "Amém." Familiar a nós desde a infância é o som desta palavra, que encontrou lar onde quer que os povos tenham aprendido a adorar o Deus e Salvador de Israel. Foi adotada, e mantida sem tradução, em todas as línguas em que se prega o evangelho de Jesus, o Filho de Davi.
O significado literal, "Assim seja", é conhecido de todos; mas poucos consideram o sentido profundo, a grande solenidade, e a abundante consolação guardada nesta palavra, que há séculos forma a conclusão das orações e dos louvores do povo de Deus. Uma palavra que é frequentemente usada sem a devida reflexão, e desacompanhada do sentimento que se destina a despertar, perde o seu poder justamente por essa familiaridade, e, embora esteja constantemente em nossos lábios, jaz acamada no dormitório da nossa alma.
Mas é uma grande palavra esta palavra "Amém"; e Lutero disse com verdade: "Como for o vosso Amém, assim terá sido a vossa oração." É uma palavra de história venerável em Israel e na igreja. A palavra remonta até a lei de Moisés. Quando um juramento solene era pronunciado pelo sacerdote, a resposta da pessoa conjurada consistia simplesmente na palavra "Amém." Da mesma forma, o povo respondia "Amém" quando, dos montes de Ebal e Gerizim, se pronunciavam as bênçãos e as maldições da lei divina.
Também, na grande festa que Davi fez quando a arca de Deus foi trazida de Obede-Edom, o cântico de louvor que Asafe e seus irmãos cantaram terminou com as palavras: "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, para todo o sempre. E todo o povo disse: Amém" (1 Crônicas 16:36). Assim encontramos nos Salmos, não apenas que Davi conclui o seu salmo de louvor com a palavra Amém, mas ele diz: E diga todo o povo: Amém. Adolph Saphir, em "The Lord's Prayer," 1870.