Tesouros de Davi

Salmo 44

Leia o Salmo 44 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Ao mestre de canto, para os filhos de Coré, Masquil. O título é semelhante ao do quadragésimo segundo salmo, e embora isso não prove que seja do mesmo autor, torna a hipótese bem provável. Não convém buscar outro autor para nenhum dos Salmos quando Davi já basta, e por isso relutamos em atribuir este cântico sagrado a outro que não o grande salmista; mas como mal conhecemos período algum de sua vida que este salmo descreva com justiça, sentimo-nos obrigados a buscar alhures. Algum patriota israelita, caído em dias maus, canta, em mescla de fé e tristeza, a antiga glória de sua nação e as suas aflições presentes, as tradições do favor passado e a experiência dos males que a pressionam. Os cristãos o compreendem melhor quando o põem na boca da igreja em tempos de perseguição particularmente severa. Os últimos versículos nos lembram os famosos versos de Milton sobre o massacre dos protestantes nas montanhas do Piemonte. O cântico diante de nós convém às vozes dos salvos pela graça, os filhos de Coré, e é, para eles e para todos os demais, cheio de ensino — daí o título Masquil.

DIVISÃO. De Salmos 44:1-3 relembram-se as poderosas obras do Senhor por Israel, e em memória delas exprime-se a fé no Senhor, Salmos 44:4-8. Depois ouvem-se as notas de lamento, Salmos 44:9-16, desperta-se a fidelidade do povo ao seu Deus, Salmos 44:17-22, e o Senhor é suplicado a intervir, Salmos 44:23-26.

Exposição

Versículo 1Salmo 44:1

Ouvimos com os nossos ouvidos, ó Deus. Teus grandes feitos eram assunto de conversa comum; não só nos livros lemos teus famosos feitos, mas na fala corriqueira do povo ouvimos falar deles. Entre os israelitas piedosos, a biografia da nação se preservava pela tradição oral, com grande diligência e exatidão. Esse modo de preservar e transmitir a história tem suas desvantagens, mas certamente produz impressão mais viva na mente do que qualquer outro; ouvir com os ouvidos nos toca de modo mais sensível do que ler com os olhos. Convém notar isso e aproveitar toda oportunidade de anunciar viva voce o evangelho de nosso Senhor Jesus, pois este é o modo mais eficaz de comunicação.

A expressão "ouvimos com os nossos ouvidos" pode indicar o prazer com que escutavam, a intensidade do seu interesse, a pessoalidade da sua audição, e a lembrança viva que guardavam da narrativa comovente e admirável. Muitos têm ouvidos, mas não ouvem; felizes os que, tendo ouvidos, aprenderam a ouvir.

Nossos pais nos contaram. Não poderiam ter tido melhores informantes. Mestres de escola são bons, mas pais piedosos são, tanto pela ordem da natureza quanto da graça, os melhores instrutores de seus filhos, e não podem delegar esse dever sagrado. Há de se temer que muitos filhos de professos crentes pouco teriam a alegar diante de Deus quanto ao que seus pais lhes contaram. Quando os pais se calam religiosamente diante dos filhos, hão de admirar-se se o coração dos filhos permanece preso ao pecado?

Assim como em todas as nações livres os homens se comprazem em reunir-se ao redor do lar e contar os feitos de valor de seus antepassados "nos bravos dias de outrora", também o povo de Deus, sob a antiga aliança, alegrava suas famílias à mesa, relembrando os feitos maravilhosos do Senhor seu Deus. A conversa religiosa não precisa ser enfadonha — e de fato não poderia sê-lo se, como aqui, tratasse mais de fatos do que de opiniões.

Que obra fizeste nos dias deles, nos tempos antigos. Começavam pelo que os próprios olhos haviam testemunhado, e passavam depois ao que eram as tradições de sua juventude. Note-se que o ponto principal da história transmitida de pai a filho era a obra de Deus; este é o cerne da história, e por isso ninguém pode escrever história com acerto sendo estranho à obra do Senhor.

É agradável ver as pegadas do Senhor no mar dos acontecimentos mutáveis, contemplá-lo cavalgando o turbilhão da guerra, da peste e da fome, e, acima de tudo, ver seu cuidado imutável por seu povo escolhido. Os que aprendem a ver a Deus na história aprenderam boa lição com seus pais, e nenhum filho de pais crentes deveria ficar ignorante de arte tão sagrada.

Uma nação instruída, como Israel foi, numa história tão maravilhosa quanto a sua, sempre tinha à mão um argumento para suplicar a Deus socorro na tribulação, pois aquele que nunca muda dá, em cada feito de graça, uma garantia de misericórdia ainda por vir. As tradições de nossa experiência passada são súplicas poderosas para o socorro presente.

Versículo 2Salmo 44:2

Como expeliste os gentios com a tua mão. A destruição dos cananeus da terra prometida é a obra aqui trazida à memória. Um povo numeroso, guerreiro, gigantesco e corajoso, firmemente estabelecido e fortemente fortificado, foi expulso por uma nação muito mais fraca, porque o Senhor era contra eles na peleja. É claro, pela Escritura, que Deus enviou uma praga (de modo que a terra devorava os seus habitantes) e também uma visitação de vespões contra os cananeus, e por outros meios os desanimou, de sorte que as vitórias fáceis de Josué não foram senão os resultados de Deus já ter agido de antemão contra a nação idólatra.

E os plantaste. As tribos de Israel foram plantadas nos lugares antes ocupados pelos gentios. Heveus e jebuseus foram expulsos de suas cidades para dar lugar a Efraim e a Judá. O Grande Autor de maravilhas arrancou pela raiz os carvalhos de Basã, para plantar em seu lugar a sua própria "vinha de vinho tinto" escolhida.

Como afligiste os povos. Com juízos e pragas as nações condenadas foram atormentadas; a fogo e espada foram perseguidas até a morte, até serem todas expulsas, e os inimigos de Israel banidos para bem longe.

E os lançaste fora. Isto muito provavelmente se refere a Israel, e deveria ler-se: "os fizeste crescer." Aquele que perturbou os seus inimigos sorriu para os seus amigos; mediu vingança às nações ímpias, mas reservou sua misericórdia para as tribos escolhidas. Como é bela a misericórdia quando está ao lado da justiça! Como brilha a estrela da graça em meio à noite da ira!

É um pensamento solene que a grandeza do amor divino tem seu correspondente na grandeza de sua indignação. O peso da misericórdia concedida a Israel é equilibrado pela tremenda vingança que varreu para o inferno, ao fio da espada, os milhares de amorreus e heteus. O inferno é tão profundo quanto o céu é alto, e a chama de Tofete é tão eterna quanto o brilho da glória celestial. O poder de Deus, mostrado tanto em feitos de misericórdia quanto de justiça, deve ser trazido à memória em tempos de aflição, como amparo à nossa fé vacilante.

Versículo 3Salmo 44:3

Porque não conquistaram a terra pela sua própria espada. Veja como o Senhor sozinho foi exaltado ao trazer o seu povo à terra que mana leite e mel! Ele, em sua graça distintiva, havia posto diferença entre Canaã e Israel, e por isso, por seu próprio poder eficaz, agiu a favor dos seus escolhidos e contra os seus adversários. As tribos lutaram por suas herdades, mas o seu êxito devia-se inteiramente ao Senhor, que operava com elas.

Os guerreiros de Israel não ficaram inativos, mas sua valentia era secundária àquele misterioso agir divino pelo qual os muros de Jericó caíram e o coração dos gentios desfaleceu de medo. Os esforços de todos os homens de armas foram empregados, mas, como teriam sido inúteis sem o socorro divino, toda a honra é atribuída ao Senhor. A passagem pode ser vista como uma bela parábola da obra da salvação; o homem não se salva sem oração, arrependimento etc., mas nada disso salva um homem — a salvação é inteiramente do Senhor.

Canaã não foi conquistada sem os exércitos de Israel, mas é igualmente certo que não foi conquistada por eles; o Senhor foi o conquistador, e o povo foi apenas instrumento em suas mãos. Nem o seu próprio braço os salvou. Não podiam atribuir a si mesmos suas vitórias memoráveis; aquele que fez o sol e a lua pararem por eles era digno de todo o seu louvor. Nega-se tanto às suas armas quanto a eles mesmos, como que para nos mostrar quão prontos estão os homens a atribuir o êxito a causas segundas.

Mas a tua destra, e o teu braço, e a luz do teu rosto. A mão divina lutou ativamente por eles, o braço divino os sustentou poderosamente com energia mais que humana, e o sorriso divino os inspirou com destemida coragem. Quem não venceria com tríplice ajuda dessas, ainda que terra, morte e inferno se levantassem em guerra contra ele? Que importava a estatura dos filhos de Anaque, ou o terror de seus carros de ferro? Nada eram quando Jeová se levantava para vingar Israel.

Porque tiveste prazer neles. Aqui está a fonte de onde brota todo rio de misericórdia. O deleite do Senhor em seu povo, sua afeição peculiar, seu favor distintivo — esta é a mola mestra que move cada roda de uma providência graciosa. Israel era uma nação escolhida; daí suas vitórias e a dispersão de seus inimigos. Os crentes são um povo eleito; daí suas bênçãos e conquistas espirituais. Não havia nada no próprio povo que lhe assegurasse o êxito — só o favor do Senhor o fez, e é sempre assim em nosso caso: nossa esperança de glória final não deve repousar em nada que haja em nós mesmos, mas no favor livre e soberano do Senhor dos Exércitos.

Versículo 4Salmo 44:4

Tu és o meu Rei, ó Deus. Conhecendo bem o teu poder e a tua graça, meu coração se alegra em reconhecer-te como seu soberano príncipe. Quem, entre os poderosos, é tão ilustre quanto tu? A quem, então, deveria eu prestar homenagem, ou a quem recorrer por socorro? Deus de meus pais dos tempos antigos, tu és o monarca e senhor de minha alma.

Ordena livramentos para Jacó. A quem deveria um povo olhar, senão ao seu rei? A ele cabe, por virtude de seu ofício, travar as batalhas por seu povo. No caso de nosso Rei, com que facilidade ele dispersa todos os nossos inimigos! Ó Senhor, Rei dos reis, com que facilidade podes resgatar o teu povo; uma palavra tua pode fazê-lo — dá apenas a ordem, e teu povo perseguido será livre.

A longa vida de Jacó foi cheia de provações e livramentos, e seus descendentes são aqui chamados pelo nome dele, como que para tipificar a semelhança de sua experiência com a de seu grande antepassado. Quem quiser conquistar as bênçãos de Israel há de partilhar as dores de Jacó. Este versículo contém uma declaração pessoal e uma oração intercessória; melhor oram os que mais têm certeza de seu interesse pessoal em Deus, e os que têm a mais plena segurança de que o Senhor é o seu Deus devem ser os primeiros a suplicar pelo resto da provada família dos fiéis.

Versículo 5Salmo 44:5

Por ti derrubaremos os nossos inimigos. A luta era muito cerrada, os arcos de nada valiam e as espadas falhavam em servir; chegou-se à adaga e à luta corpo a corpo, ao empurrar e ao arrancar. O Deus de Jacó renovava, na semente de Jacó, a luta de seu pai. E como foi para a fé então? Podia ela ficar pé ante pé com seu inimigo e sustentar-se? Sim, na verdade — ela saiu vitoriosa do confronto, pois é grande num aperto de perto e derruba todos os seus adversários, sendo o Senhor o seu ajudador.

Por teu nome pisaremos os que se levantam contra nós. O nome do Senhor servia de arma, e capacitava os que o usavam a saltar sobre seus inimigos e esmagá-los com valentia jubilosa. Em união e comunhão com Deus, os santos operam maravilhas; se Deus é por nós, quem será contra nós? Note-se bem que todas as conquistas destes crentes são ditas "por ti", "por teu nome": jamais esqueçamos isto, para que, saindo à guerra por conta própria, não fracassemos ignominiosamente.

Não caiamos, porém, no pecado igualmente perigoso da desconfiança, pois o Senhor pode tornar o mais fraco de nós igual a qualquer emergência. Ainda que hoje sejamos tímidos e indefesos como ovelhas, ele pode, por seu poder, fazer-nos fortes como o primogênito de seu novilho, e nos fazer investir com os chifres do unicórnio, até que os que se levantaram contra nós fiquem tão esmagados e feridos que jamais se levantem de novo. Os que por si mesmos mal conseguem manter-se em pé, mas, como criancinhas, cambaleiam e caem, são, por auxílio divino, feitos capazes de derrubar seus inimigos e pôr os pés sobre o pescoço deles. Leia o combate de Cristão com Apoliom, e veja como

Tão bravamente o homem fez de homem

Que pôs o demônio a fugir.

Versículo 6Salmo 44:6

Porque não confiarei no meu arco, nem a minha espada me salvará. Teu povo Israel, sob tua condução, expulsou os gentios e ganhou a sua terra, não pela perícia das armas nem pela proeza das lanças, mas somente pelo teu poder; por isso renunciaremos para sempre toda confiança em amparos externos, dos quais outros homens tanto se gabam, e nos lançaremos sobre a onipotência de nosso Deus.

Os arcos, recém-introduzidos pelo rei Saul, eram tidos por armas muito formidáveis na história antiga de Israel, mas aqui são postos de lado junto com a espada que tudo vencia, a fim de que haja lugar para a fé no Deus vivo. Este versículo, na primeira pessoa do singular, pode servir de confissão de fé de todo crente que renuncia à sua própria justiça e força, e olha somente para o Senhor Jesus.

Ah, que Deus nos dê graça para permanecer firmes nesta autorrenúncia! Pois, ai de nós, nossa natureza orgulhosa é sempre pronta demais a fixar sua confiança no poder inflado e fictício da criatura. Braço de carne, como ouso confiar em ti? Como ouso trazer sobre mim a maldição dos que se apoiam no homem?

Versículo 7Salmo 44:7

Mas tu nos salvaste dos nossos inimigos. Em eras passadas, todos os nossos livramentos se deveram a ti, ó Deus. Nunca nos falhaste. De todo perigo nos tiraste. E confundiste os que nos odiavam. Com o dorso de tua mão salvadora lhes deste um golpe que os fez esconder o rosto; derrotaste-os de tal maneira que os envergonhaste de serem vencidos por adversários tão insignificantes quanto julgavam ser os israelitas.

A dupla ação de Deus, abençoando o seu povo e confundindo os seus inimigos, é sempre de se observar; Faraó se afoga, enquanto Israel atravessa o mar; Amaleque é ferido, enquanto as tribos se alegram; os gentios são expulsos de suas moradas, enquanto os filhos de Jacó descansam sob sua vide e sua figueira.

Versículo 8Salmo 44:8

Em Deus nos gloriamos o dia todo. Temos razão de sobra para isso, ao recontar os seus grandes feitos. Que gloriar-se abençoado é este! É a única espécie de vanglória suportável. Todo outro maná criava vermes e feder, exceto aquele que se guardava diante do Senhor; e toda outra jactância é repugnante, salvo esta glória no Senhor, que é louvável e agradável.

E louvaremos o teu nome para sempre. O louvor deve ser perpétuo. Ainda que não houvesse novos feitos de amor, o Senhor deveria ser louvado pelo que já fez por seu povo. Alto se erga o cântico ao trazermos à lembrança o amor eterno que nos escolheu, nos predestinou para filhos, nos remiu com um preço, e depois nos enriqueceu com toda a plenitude de Deus.

Selá. Uma pausa vem bem a propósito aqui, quando estamos prestes a descer do tom mais alto para o mais baixo. Já não vamos ouvir o tamboril de Miriã, mas antes o pranto de Raquel.

Versículo 9Salmo 44:9

Mas tu nos rejeitaste e nos confundiste. Aqui o bardo patriota começa a contrastar as antigas glórias da história da nação com a sua atual tristeza e aflição, que ele não atribui à morte de algum campeão humano, nem aos acasos da guerra, mas somente e unicamente à retirada do Deus de Israel. Parecia ao pranteador que Jeová se cansara de seu povo e o pusera de lado com aversão, como os homens deixam de lado vestes leprosas, tendo nojo de olhar para elas.

Para mostrar seu desagrado, ele deixara que seu povo fosse ridicularizado pelos gentios, cujas vitórias fáceis sobre seus maiores exércitos cobriram Israel de vergonha. Ai de uma igreja e de um povo quando o Senhor, na energia ativa de seu Espírito, se retira deles; não precisam de maior vergonha ou tristeza. Ele não abandonará seu povo final e totalmente, mas muitas igrejas foram deixadas à derrota e à desonra por causa do pecado, e por isso todas as igrejas deveriam vigiar sobremaneira para que o mesmo não lhes aconteça. Pobreza e aflição não trazem vergonha a um povo, mas a ausência do Senhor tira de uma igreja tudo o que pode exaltá-la e enobrecê-la.

E não sais com os nossos exércitos. Se o Senhor não é o guia, de que valem batalhões fortes? Vãos são os esforços combinados dos mais zelosos obreiros, se o braço de Deus não se revela. Que nenhum de nós, em nossas igrejas, tenha de lamentar o ministério, a escola dominical, a obra missionária, a visitação, a pregação de rua, deixados para serem realizados sem o auxílio divino. Se o nosso grande aliado não for conosco, a derrota é inevitável.

Versículo 10Salmo 44:10

Tu nos fazes voltar atrás diante do inimigo. A humilhante consciência de que o Senhor os abandonou logo torna os homens covardes. A fuga encerra a luta daqueles que não têm o Senhor à frente. E os que nos odeiam saqueiam para si. Depois da derrota e da retirada vem a espoliação. A pobre nação vencida pagou um preço terrível por ser dominada; o saque e o assassinato assolaram a terra conquistada, e os invasores se carregaram de tudo o que de precioso puderam levar.

Na experiência espiritual, sabemos o que é ser despojados por nossos inimigos; dúvidas e temores nos roubam os consolos, e pressentimentos terríveis nos despojam das esperanças; e tudo porque o Senhor, por sábios propósitos, julga bom deixar-nos entregues a nós mesmos. Ai da alma abandonada; nenhuma calamidade se iguala à tristeza de ser deixado por Deus, ainda que seja por um pequeno momento.

Versículo 11Salmo 44:11

Tu nos deste como ovelhas destinadas ao consumo. Assim como as ovelhas são abatidas para alimento, também o povo era morto em rebanhos, com facilidade e frequência. Não com a dignidade do sacrifício, mas com a crueldade do matadouro, eram levados à morte. Deus parecia entregá-los como ovelhas destinadas ao açougueiro, abandoná-los como o mercenário abandona o rebanho aos lobos. A queixa é amargamente eloquente.

E nos espalhaste entre os gentios. Muitos foram levados ao cativeiro, longe do culto público do templo de Deus, para definhar como exilados entre idólatras. Tudo isso se atribui ao Senhor, como algo por ele permitido, e até decretado por seu desígnio. É bom rastrear a mão de Deus em nossas tristezas, pois ela certamente ali está.

Versículo 12Salmo 44:12

Tu vendes o teu povo por nada. Como os homens vendem mercadoria a quem quer que a queira, assim o Senhor parecia entregar seu povo a qualquer nação que escolhesse fazer-lhe guerra. Entretanto, nenhum bom resultado era perceptível em todas as misérias de Israel; até onde o salmista podia perceber, o nome do Senhor não recebia honra alguma das dores do seu povo; eram entregues a seus inimigos como se valessem tão pouco que nem o preço comum de escravos merecessem, e o Senhor não se importava de lucrar com eles, contanto que apenas sofressem. O lamento expresso nesta linha é como vinagre misturado com fel: a expressão é digna do profeta chorão.

E não aumentas a tua riqueza com o preço deles. Se Jeová fosse glorificado por toda essa desgraça, ela poderia ser suportada com paciência, mas era o contrário; o nome do Senhor havia, através das calamidades da nação, sido desprezado pelos gentios insultantes, que contavam a derrota de Israel como derrota do próprio Jeová.

Sempre alivia a aflição de um crente quando pode ver que o grande nome de Deus será honrado por causa dela, mas é um agravamento penoso de nossa miséria quando parecemos ser atormentados em vão. Para nosso consolo, fiquemos satisfeitos de que, na realidade, o Senhor é glorificado, e quando nenhuma renda de glória lhe é manifestamente rendida, nem por isso deixa ele de realizar seus próprios propósitos secretos, cujo resultado grandioso será revelado a seu tempo. Não sofremos em vão, nem nossas dores são sem resultado.

Versículo 13Salmo 44:13

Tu nos fazes um opróbrio para os nossos vizinhos. O escárnio é sempre um ingrediente intensamente amargo na taça do oprimido. Os motejos e as zombarias dos vencedores doem ao vencido quase tanto quanto suas espadas e lanças. Era, de fato, um mistério que Deus permitisse que sua nação real, seu povo peculiar, fosse escarnecido por todos os que moravam ao redor. Escárnio e ludíbrio para os que estão em roda de nós. O povo pisoteado se tornara motivo de zombaria comum; "baixo como Israel", gritava a língua cruel do tirano; tão corriqueiro se tornara o escárnio que as nações vizinhas, embora talvez igualmente oprimidas, tomavam emprestada a linguagem dos conquistadores e se uniam ao deboche geral.

Ser objeto de riso tanto para fortes quanto para fracos, superiores, iguais e inferiores, é difícil de suportar. O dente da zombaria morde até o osso. O salmista expõe a brutalidade do inimigo com muitas palavras, a fim de mover a piedade do Senhor, a cuja justa ira ele atribuía todas as dores do seu povo; usou o melhor dos argumentos, pois os sofrimentos de seus escolhidos tocam o coração de Deus muito mais prontamente do que qualquer outro raciocínio.

Bendito seja o seu nome: nosso grande Advogado nas alturas sabe como valer-se desta poderosa súplica, e se estamos, nesta hora, suportando opróbrio por causa da verdade, ele a apresentará diante do trono eterno; e não vingará Deus os seus próprios eleitos? Um pai não suportará por muito tempo ver seus filhos maltratados; pode tolerar por um pouco, mas seu amor logo despertará sua ira, e então irá mal para o perseguidor e o difamador.

Versículo 14Salmo 44:14

Tu nos fazes um provérbio entre os gentios, um menear de cabeça entre os povos. O lamento aqui se repete. Haviam caído tão baixo que ninguém lhes tinha reverência, mas universal e publicamente eram tratados como infames e desprezíveis. Os que escarneciam de outros arrastavam o nome de Israel pelo caminho como enfeite de seus insultos, e se por acaso viam algum da semente de Jacó na rua, faziam gestos lascivos para importuná-lo. Os de cabeça mais vazia a meneavam para o povo separado. Eram o alvo comum da flecha de todo tolo.

Tal tem sido a sorte dos justos em eras passadas, tal é, em certa medida, a sua porção agora, tal pode vir a ser ainda, no pior sentido, a sua herança. O mundo não conhece sua nobreza, não tem olhos para a verdadeira excelência: encontrou uma cruz para o Mestre, e não se pode esperar que conceda coroas a seus discípulos.

Versículo 15Salmo 44:15

A minha confusão está diante de mim continuamente. O poeta faz de si mesmo o representante de sua nação e declara sua própria e constante angústia de alma. É de sangue ruim quem se mostra indiferente às dores da igreja de que é membro, ou da nação de que é cidadão; quanto melhor o coração, maior sua compaixão.

E a vergonha do meu rosto me cobriu. Um rubor constante, como um manto carmesim, o cobria tanto diante de Deus quanto dos homens; sentia, diante de Deus, que o abandono divino era bem merecido, e, diante dos homens, que ele e seu povo eram na verdade desprezíveis, agora que o auxílio celestial havia partido.

É bom para uma nação quando ainda existem nela homens que levam a sério o seu pecado e a sua vergonha. Deus terá piedade dos seus castigados, e é penhor disso quando nos envia ministros escolhidos, homens de ternura, que fazem sua a causa do povo.

Versículo 16Salmo 44:16

Por causa da voz do que afronta e blasfema. Parece que, de escarnecer do povo de Deus, os adversários avançaram a ultrajar o próprio Deus; passaram da perseguição ao pecado que lhe é aparentado, a saber, a blasfêmia. Por causa do inimigo e do vingador. O inimigo se gabava de vingar as derrotas de seus antepassados; tomavam vingança das antigas vitórias de Israel, insultando o povo agora caído.

Eis aqui uma triste situação para uma nação, mas de modo algum um caso sem esperança, pois o Senhor que trouxe todo esse mal sobre eles podia, com igual facilidade, livrá-los dele. Enquanto Israel olhasse somente para o seu Deus, e não para o seu próprio braço, nenhum inimigo poderia retê-la sob seu pé; ela há de levantar-se, pois Deus estava do seu lado.

Versículo 17Salmo 44:17

Tudo isto nos sobreveio; contudo não nos esquecemos de ti. Aqui o salmista alega que Israel não se desviara de sua lealdade a Jeová. Quando, em meio a muitas dores, ainda podemos apegar-nos a Deus em obediência amorosa, bem vai conosco. A verdadeira fidelidade suporta maus tratos. Os que seguem a Deus pelo que dele recebem o abandonarão quando a perseguição se levantar, mas não assim o crente sincero; ele não se esquecerá de seu Deus, ainda que o pior sobrevenha.

Nem nos houvemos falsamente na tua aliança. Nenhum ídolo foi erguido, o culto instituído não foi abandonado, Deus ainda era reconhecido nacionalmente, e por isso o salmista é mais fervoroso em pedir que o Senhor intervenha.

Este e os versículos seguintes convêm aos lábios dos mártires; de fato, o salmo inteiro poderia chamar-se o lamento do mártir. Não por pecado, mas por justiça sofreram os santos; não por falsidade, mas por verdade; não por abandonarem o Senhor, mas por segui-lo de perto. Sofrimentos dessa espécie podem ser muito terríveis, mas são extremamente honrosos, e os consolos do Senhor sustentarão os que são tidos por dignos de sofrer por amor de Cristo.

Versículo 18Salmo 44:18

O nosso coração não voltou atrás, nem os nossos passos se desviaram do teu caminho. Coração e vida estavam em acordo, e ambos eram fiéis ao caminho do Senhor. Nem por dentro nem por fora os sofredores piedosos haviam ofendido; não eram absolutamente perfeitos, mas eram sinceramente livres de toda transgressão deliberada. Era um sinal saudável para a nação que seu profeta poeta pudesse testemunhar da sua retidão diante de Deus, tanto no coração quanto no agir; muito mais frequentemente o caso teria tomado cor bem diversa, pois as tribos eram sempre demasiado propensas a erguer outros deuses e abandonar a rocha da sua salvação.

Versículo 19Salmo 44:19

Ainda que nos quebrantaste duramente no lugar dos dragões. Ainda que totalmente esmagados e reduzidos a desolação, e como que levados a conviver com criaturas tais como chacais, corujas, serpentes, que assombram ruínas desertas, ainda assim Israel permaneceu fiel. Ser fiel a um Deus que fere, mesmo quando os golpes deixam nossas alegrias em montes de ruínas, é ser tal como o Senhor se agrada. Melhor ser quebrantado por Deus do que longe de Deus. Melhor estar no lugar dos dragões do que dos enganadores.

E nos cobriste com a sombra da morte. A linguagem é muito forte. A nação é descrita como completamente envolta na densa escuridão do desespero e da morte, encoberta como que confinada na desesperança. Contudo, alega-se que ainda permaneceram lembrados de seu Deus, e uma súplica gloriosa é essa. Melhor a morte do que a falta de fé. Os que são fiéis a Deus jamais o acharão infiel a eles.

Versículo 20Salmo 44:20

Um apelo é agora feito à onisciência de Deus; ele mesmo é chamado a testemunhar que Israel não erguera outro deus. Se nos tivéssemos esquecido do nome do nosso Deus. Este seria o primeiro passo na apostasia: os homens primeiro esquecem o verdadeiro, e depois adoram o falso. Ou estendido as nossas mãos a um deus estranho. Estender as mãos era o símbolo da adoração ou da súplica na oração; isto não haviam eles oferecido a nenhum dos ídolos dos gentios.

Versículo 21Salmo 44:21

Não o esquadrinharia Deus? Poderia tal idolatria esconder-se dele? Não teria ele, com santa indignação, detectado a infidelidade a si mesmo, ainda que estivesse oculta no coração e não revelada na vida? Pois ele conhece os segredos do coração. Ele está familiarizado com o funcionamento íntimo da mente, e por isso isto não poderia ter-lhe escapado. Não somente o coração, que é secreto, mas os segredos do coração, que são os segredos da coisa mais secreta, estão tão abertos a Deus quanto um livro a um leitor. O raciocínio é que o próprio Senhor sabia que o povo lhe era sinceramente fiel, e por isso não os visitava por pecado; logo, a aflição vinha claramente de outra causa bem diferente.

Versículo 22Salmo 44:22

Sim — isto é, certamente, com efeito — por amor de ti, não por nossas ofensas, mas por te obedecer; as provações destes suplicantes vinham sobre eles por serem leais ao seu Deus. Somos mortos todo o dia. A perseguição nunca cessava de os caçar até a morte; não tinham trégua nem achavam porta de escape; e tudo isso por causa de Deus, por não quererem abandonar o seu Deus e Rei da aliança.

Somos considerados como ovelhas para o matadouro; como se fôssemos feitos apenas para ser mortos, e criados de propósito para ser vítimas; como se fosse coisa tão fácil e tão inocente matar-nos quanto abater ovelhas. Neste e nos versículos seguintes ouvimos claramente o clamor do mártir. Do Piemonte e de Smithfield, do massacre de São Bartolomeu e das dragonadas de Claverhouse, este apelo sobe ao céu, enquanto as almas debaixo do altar continuam seu solene clamor por vingança. Não por muito tempo há de a igreja suplicar assim; sua vergonha será recompensada, seu triunfo há de amanhecer.

Versículo 23Salmo 44:23

Desperta, por que dormes, Senhor? Deus não dorme, mas o salmista assim o expressa, como se por nenhuma outra hipótese pudesse explicar a inação divina. Ele bem gostaria de ver o grande Juiz pôr fim à opressão e dar paz ao santo; por isso clama "Desperta"; não consegue entender por que se permite o reinado da tirania e a opressão da virtude, e por isso pergunta "Por que dormes?"

Levanta-te. Isto é tudo o que precisas fazer; um só movimento teu nos salvará. Não nos rejeites para sempre. Já nos abandonaste por tempo suficiente; os terríveis efeitos da tua ausência nos estão destruindo; põe fim tu mesmo às nossas calamidades, e que a tua ira se aplaque.

Em tempos de perseguição os homens tendem a clamar: Onde está o Deus de Israel? Ao pensar no que os santos sofreram de seus altivos inimigos, unimos nossas vozes ao grande clamor dos mártires e cantamos com o bardo do Paraíso:

Vinga, ó Senhor, teus santos degolados, cujos ossos

Jazem espalhados nos frios montes alpinos;

Até os que guardaram tua verdade tão pura outrora,

Quando todos os nossos pais adoravam troncos e pedras,

Não esqueças: em teu livro registra os seus gemidos,

Que foram tuas ovelhas.

Versículo 24Salmo 44:24

Por que escondes o teu rosto, e te esqueces da nossa aflição e da nossa opressão? Não com petulância, mas com piedade e indagação, podemos questionar ao Senhor quando seus desígnios são misteriosos. Nos é permitido expor nosso caso com argumentos, e defender o direito diante da face da augusta Majestade. Por que, Senhor, te esqueces das dores de teus filhos? Esta pergunta é muito mais fácil de fazer do que de responder; é, de fato, difícil, em meio à perseguição, ver a razão pela qual somos deixados a sofrer tão severamente.

Versículo 25Salmo 44:25

Pois a nossa alma está abatida até o pó. Nosso coração está tão baixo quanto pode estar, tão baixo quanto o pó debaixo das solas dos pés dos homens. Quando o coração afunda, o homem está de fato caído. A tristeza do coração é o próprio coração da tristeza. O nosso ventre está apegado à terra. O homem está prostrado sobre a terra, e não está apenas caído, mas fixado ao chão e a ele colado. É verdadeira miséria quando o coração não consegue escapar de si mesmo, está trancado em seu próprio abatimento, e amarrado com as cordas do desânimo.

Os santos de Deus podem ficar assim abjetos; podem estar não só no pó, mas no monturo com Jó e Lázaro, mas o seu dia há de vir, sua maré há de virar, e terão um bravo verão depois de seu amargo inverno.

Versículo 26Salmo 44:26

Levanta-te em nosso socorro. Uma oração curta, mas doce e abrangente, muito ao ponto, clara, simples, urgente, como devem ser todas as orações. E resgata-nos por amor das tuas misericórdias. Eis aqui a súplica final. O favor é o resgate, a súplica é a misericórdia; e isto, note-se, no caso de sofredores fiéis que não se esqueceram de seu Deus. A misericórdia é sempre uma súplica segura, e jamais achará homem algum súplica melhor.

Fosse eu mártir junto à estaca,

Alegaria o nome do meu Salvador,

Por causa dele pediria perdão,

E nenhuma outra prova invocaria.

Aqui termina este memorável Salmo, mas no céu o seu poder não termina — antes traz o livramento para o povo provado de Deus.

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