Tesouros de Davi

Salmo 102

Leia o Salmo 102 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Oração do aflito, quando desfalece, e derrama a sua queixa diante do Senhor. Este Salmo é uma oração muito mais em espírito do que em palavras. As petições formais são poucas, mas uma forte corrente de súplica corre do início ao fim, e, como uma correnteza subterrânea, abre caminho para o céu por entre os gemidos de dor e as confissões de fé que compõem a maior parte do Salmo.

É uma oração do aflito, ou de "um sofredor", e traz as marcas de sua origem; assim como se registrou de Jabez que "sua mãe o deu à luz com dor", também podemos dizer deste Salmo; mas assim como o Benoni de Raquel, o filho da dor, foi também o seu Benjamim, o filho de sua mão direita, também este Salmo é tão eminentemente expressivo de consolo quanto de desolação. Não é bem correto chamá-lo de Salmo penitencial, pois sua dor é antes de quem sofre do que de quem peca. Tem sua própria amargura, e não é a mesma do Quinquagésimo Primeiro. O sofredor está aflito mais pelos outros do que por si mesmo, mais por Sião e pela casa do Senhor do que por sua própria casa.

Quando desfalece, ou está gravemente atribulado e abatido. Nem os melhores homens conseguem sempre conter a torrente da dor. Mesmo com Jesus a bordo, o barco pode encher-se de água e começar a afundar.

E derrama a sua queixa diante do Senhor. Quando um copo é virado de boca para baixo, tudo o que nele há naturalmente se derrama; a grande aflição tira do coração toda reserva e faz a alma verter-se sem contenção; é bom quando aquilo que está na alma é tal que possa ser derramado na presença de Deus, e isso só acontece onde o coração foi renovado pela graça divina. A palavra traduzida por "queixa" não traz em si nenhuma ideia de censura ou de murmuração, mas deveria antes ser traduzida por "lamento" — a expressão da dor, não da rebeldia. Para ajudar a memória, chamaremos este Salmo de O LAMENTO DO PATRIOTA.

ASSUNTO. Este é o lamento de um patriota sobre a angústia de seu país. Ele se reveste das dores de sua nação como de um manto de cilício, e lança sobre a própria cabeça o pó e as cinzas dela como as insígnias e as causas de sua tristeza. Tem suas próprias mágoas e inimigos pessoais, está ainda gravemente aflito no corpo por enfermidade, mas as misérias de seu povo lhe causam uma angústia bem mais amarga, e é isso que ele derrama numa lamentação ardente e comovente.

Não é, porém, sem esperança que o patriota lamenta; ele tem fé em Deus, e espera a ressurreição da nação pelo favor onipotente do Senhor; isso o faz caminhar entre as ruínas de Jerusalém e dizer com espírito esperançoso: "Não, Sião, tu jamais perecerás. Teu sol não se pôs para sempre; dias mais brilhantes te aguardam." É inútil indagar qual o momento preciso da história de Israel que assim moveu a alma de um patriota, pois muitas vezes a terra foi oprimida, e em qualquer uma dessas tristes estações este cântico e esta oração seriam a expressão mais natural e apropriada.

DIVISÃO. Na primeira parte do Salmo, Salmos 102:1-11, o gemido domina cada versículo, a lamentação é incessante, a tristeza governa a hora. A segunda porção, de Salmos 102:12-28, traz uma visão de coisas melhores, um olhar sobre o Senhor gracioso, sua existência eterna e seu cuidado por seu povo; por isso ela é entremeada de luz solar tanto quanto sombreada pela nuvem, e termina de forma gloriosa, com serena confiança no futuro e doce descanso no Senhor. A composição inteira pode ser comparada a um dia que, começando com vento e chuva, clareia ao meio-dia e se aquece com o sol, segue bom, com aguaceiros intercalados, e finalmente se encerra com um pôr do sol brilhante.

Exposição

Versículo 1Salmo 102:1

Ouve a minha oração, ó Senhor. Ou ó JEOVÁ. Os suplicantes sinceros não se contentam em orar pelo simples ato de orar; desejam de fato alcançar o ouvido e o coração do grande Deus. É um grande alívio, em tempo de aflição, dar a conhecer aos outros a nossa tribulação; sentimos alívio ao vê-los ouvir o nosso lamento, mas o mais doce consolo de todos é ter o próprio Deus como um ouvinte que se compadece de nossa queixa. Que ele o seja não é sonho nem ficção, mas fato assegurado. Seria a mais terrível de todas as nossas desgraças se pudéssemos ser indiscutivelmente convencidos de que junto a Deus não há nem escuta nem resposta; quem nos convencesse dessa crença tão sombria não nos prestaria melhor serviço do que se nos lesse a nossa sentença de morte. Melhor morrer do que ser negado o acesso ao propiciatório. Tão bem seria de uma vez sermos ateus quanto crer num Deus que não ouve nem sente.

E chegue a ti o meu clamor. Quando a dor sobe a tal ponto que as palavras se tornam meio fraco demais para expressá-la, e a oração se intensifica até virar clamor, então o coração está ainda mais urgente por ter audiência com o Senhor. Se os nossos clamores não entram além do véu e não alcançam o Deus vivo, bem poderíamos deixar de orar de uma vez, pois é inútil clamar aos ventos; mas, bendito seja Deus, a filosofia que sugere ideia tão hedionda é desmentida pelos fatos da experiência cotidiana, já que milhares de santos podem declarar: "Deveras, Deus nos ouviu."

Versículo 2Salmo 102:2

Não escondas de mim o teu rosto no dia da minha angústia. Não pareças como se não me visses, ou como se não quisesses me reconhecer. Sorri agora, ao menos. Reserva teus cenhos franzidos para outras ocasiões, quando eu puder suportá-los melhor — se é que algum dia posso suportá-los; mas agora, na minha pesada aflição, favorece-me com olhares de compaixão.

Inclina para mim o teu ouvido. Curva a tua grandeza à minha fraqueza. Se por causa do pecado teu rosto se desvia, ao menos deixa-me ter de ti uma vista de lado; empresta-me o teu ouvido, se não posso ver o teu olhar. Volta-te para mim outra vez se o meu pecado te afastou; dá ao teu ouvido uma inclinação para as minhas orações.

No dia em que eu clamar, ouve-me depressa. Porque o caso é urgente, e minha alma pouco capaz de esperar. Podemos pedir que as respostas às orações venham o quanto antes, mas não podemos nos queixar do Senhor se ele julgar mais sábio adiar. Temos permissão para pedir e para usar de insistência, mas nenhum direito de ditar ou de ser impertinentes. Se for importante que a libertação chegue de imediato, temos toda razão em fazer da brevidade um ponto de nossa súplica, pois Deus está tão disposto a nos conceder um favor agora quanto amanhã, e ele não é remisso quanto à sua promessa.

Há um provérbio a respeito de favores vindos de mãos humanas, de que "duas vezes dá quem dá depressa", porque um dom ganha valor por chegar num momento de necessidade urgente; e podemos ter certeza de que o nosso Patrono celestial nos concederá os melhores dons da melhor maneira, dando-nos graça que socorre em tempo de necessidade. Quando as respostas vêm nos calcanhares de nossas orações, são ainda mais marcantes, mais consoladoras e mais encorajadoras. Nestes dois versículos, o salmista reuniu uma variedade de expressões, todas com o mesmo efeito; em todas ele suplica audiência e resposta do Senhor, e o conjunto pode ser considerado uma espécie de prefácio à oração que se segue.

Versículo 3Salmo 102:3

Porque os meus dias se consomem como fumaça. A minha dor tornou a vida insubstancial para mim; pareço não ser mais que um sopro de vapor que nada contém e logo se dissipa. A metáfora é escolhida com admirável acerto, pois, para o infeliz, a vida parece não só frágil, mas cercada de tanta coisa que escurece, contamina, cega e deprime, que ele, sentando-se em desespero, compara-se a um homem vagando numa densa neblina, e por isso tão ressecado que pouco mais é que uma coluna de fumaça. Quando os nossos dias não têm nem a luz da alegria nem o fogo da energia, mas se tornam como um pavio fumegante que se apaga ignobilmente na escuridão, temos motivo bastante para suplicar ao Senhor que não nos apague de todo.

E os meus ossos se queimam como lenha. Ele se tornou tão seco quanto a lareira onde um fogo de madeira se consumiu, ou como cinzas gastas em que mal se encontra um traço de fogo. Sua alma estava pronta para ser levada como fumaça, e seu corpo parecia destinado a permanecer como a lareira nua quando a última brasa reconfortante se apaga.

Quantas vezes a nossa piedade nos pareceu estar nesta condição! Tivemos de questionar sua realidade, e temer que ela nunca fora mais que fumaça; tivemos a evidência mais convincente de sua fraqueza, pois dela não conseguíamos extrair sequer o menor consolo, tal como um viajante enregelado nada consegue extrair da lareira fria onde um fogo ardeu há muito tempo.

A angústia da alma vivida em nosso próprio coração nos ajudará a interpretar a linguagem aqui empregada; e as tribulações da igreja também podem nos ajudar, se infelizmente formos chamados a suportá-las. O salmista foi movido à dor pela visão das calamidades nacionais, e estas agiram tanto sobre sua alma patriótica que ele se consumiu de ansiedade, seu ânimo se ressecou, e a própria vida esteve pronta a expirar. Há esperança para qualquer país que tenha um filho assim; nenhuma nação pode morrer enquanto corações verdadeiros estiverem prontos para morrer por ela.

Versículo 4Salmo 102:4

O meu coração está ferido e murcho como a erva, tal qual uma planta ressecada pelo calor intenso de um sol tropical, e murcha como a relva, que seca assim que a foice a derruba. O coração do salmista era como uma flor murcha e ressecada, uma massa queimada do que outrora fora verdor. Sua energia, beleza, frescor e alegria haviam se ido por completo, pela influência devastadora de sua angústia.

De modo que me esqueço de comer o meu pão, ou "porque me esqueço de comer o meu pão". A dor frequentemente destrói o apetite, e a negligência com o alimento tende a prejudicar ainda mais a constituição e a criar um abatimento ainda mais profundo do ânimo. Assim como a flor ferida não mais absorve o orvalho, nem extrai nutrição do solo, também um coração ressecado por dor intensa muitas vezes recusa consolo para si e alimento para o corpo, e desce em ritmo duplamente rápido para a fraqueza, o desânimo e o desalento.

O caso aqui descrito não é raro; encontramos com frequência pessoas tão perturbadas pela tristeza que a memória lhes falhou até em assuntos tão urgentes quanto as próprias refeições, e devemos confessar que já passamos pela mesma condição. Uma única pontada aguda encheu a alma, monopolizou a mente e empurrou tudo o mais para segundo plano, de modo que coisas tão comuns quanto comer e beber foram inteiramente desprezadas, e as horas marcadas para o refrigério passaram despercebidas, sem deixar fraqueza manifesta do corpo, mas um cansaço maior do coração.

Versículo 5Salmo 102:5

Por causa da voz do meu gemido, os meus ossos se apegam à minha pele. Ele se emaciou de tristeza. Havia gemido até se tornar um esqueleto vivo, e assim, em sua aparência corporal, se assemelhava ainda mais àquelas coisas ressecadas pela fumaça, murchas e queimadas às quais já se comparara antes. Vai demorar muito tempo até que as aflições da igreja de Deus façam alguns cristãos encolherem a meras ossaturas, mas este homem bom se comoveu tanto de simpatia pelos males de Sião que definhou até restarem-lhe apenas pele e osso.

Versículo 6Salmo 102:6

Sou como o pelicano do deserto, um objeto triste e até mesmo hediondo, a própria imagem da desolação. Sou como a coruja dos lugares desertos, que ama a solidão, vagueia entre ruínas, pia dissonante. O salmista se compara a duas aves comumente usadas como emblemas de tristeza e miséria; em outras ocasiões ele fora como a águia, mas as dores de seu povo o derrubaram, o brilho se foi de seus olhos, e a beleza de sua figura; parecia a si mesmo uma ave melancólica pousada entre os palácios caídos e os templos derrubados de sua terra natal.

Não deveríamos nós também lamentar quando os caminhos de Sião pranteiam e sua força esmorece? Se houvesse mais dessa tristeza santa, logo veríamos o Senhor voltar para reedificar sua igreja. É mau que os homens se comportem como pavões, em orgulho mundano, quando os males dos tempos deveriam torná-los tristes como o pelicano; e é coisa terrível ver homens ajuntando-se como abutres para devorar a presa de uma igreja em decadência, quando deveriam antes lamentar entre suas ruínas como a coruja.

Versículo 7Salmo 102:7

Vigio, e sou como um pardal solitário sobre o telhado. Mantenho uma vigília solitária como a sentinela isolada de minha nação; meus companheiros são egoístas demais, negligentes demais para se importarem com a terra amada, e assim, como uma ave que fica sozinha no telhado, guardo uma triste vigia sobre o meu país. O salmista se comparou a uma ave — uma ave que perdeu o companheiro ou os filhotes, ou que por algum outro motivo se vê a definhar sozinha em lugar solitário.

Provavelmente ele não se referia ao pardal alegre de nossa própria terra, mas, se referisse, a ilustração não seria fora de propósito, pois o pardal é feliz em companhia, e, se ficasse sozinho, o único de sua espécie na vizinhança, dificilmente deixaria de tornar-se muito infeliz, sentando-se a definhar.

Quem já se sentiu tão fraco e insignificante a ponto de não ter mais poder sobre seu tempo do que um pardal sobre uma cidade, também já se sentou, tomado de desânimo pelos males da época, em completa desolação, a lamentar as chagas que não podia curar. Cristãos de tipo sério e vigilante muitas vezes se veem entre os que não têm nenhuma simpatia por eles; mesmo na igreja procuram em vão espíritos afins; então perseveram em suas orações e labores, mas se sentem tão solitários quanto a pobre ave que olha do cume do telhado e não encontra saudação amigável de nenhum de sua espécie.

Versículo 8Salmo 102:8

Os meus inimigos me afrontam todo o dia. A fúria deles era implacável e incessante, e se desabafava em zombarias e insultos; tanto o patriotismo do salmista quanto suas dores eram tornados alvo de escárnio. Apontando para o triste estado de seu povo, perguntavam-lhe: "Onde está o teu Deus?", e exultavam sobre ele porque seus falsos deuses estavam em ascensão. A afronta corta como navalha, e quando se prolonga de hora em hora, repetida todo o dia e todos os dias, torna a própria vida indesejável.

E os que se enfurecem contra mim juraram destruir-me. Estavam tão furiosos que se obrigaram por juramento a destruí-lo, e usavam o seu nome como sua praga costumeira, uma palavra para amaldiçoar, sinônimo de abominação e desprezo. Entre as dores internas e as perseguições externas, ele estava numa situação tão má quanto se possa imaginar.

Versículo 9Salmo 102:9

Porque tenho comido cinza como pão. Tantas vezes havia lançado cinza sobre a própria cabeça, em sinal de luto, que ela se misturara ao seu alimento comum, rangendo entre os dentes quando comia o pão de cada dia. Numa hora esquecia de comer, e então a crise mudava, e ele comia com tal fome que até cinza era devorada. A dor tem estranhos modos e tempos.

E misturo com lágrimas a minha bebida. Sua bebida se tornou tão nauseante quanto seu alimento, pois copiosas torrentes de lágrimas a haviam salobrado. Esta é uma descrição eloquente de uma tristeza que tudo satura e tudo amarga — e essa foi a porção de um dos melhores homens, e isso por culpa nenhuma sua, mas por seu amor ao povo do Senhor. Se também nós somos chamados a lamentar, não nos surpreendamos com a prova de fogo, como se algo estranho nos tivesse sucedido. Tanto na comida quanto na bebida temos pecado; não é de admirar, pois, que em ambas sejamos levados a lamentar.

Versículo 10Salmo 102:10

Por causa da tua indignação e da tua ira; pois tu me levantaste e me lançaste ao chão. Uma percepção da ira divina, manifesta na derrocada da nação escolhida e em seu triste cativeiro, levou o salmista à mais profunda aflição. Sentia-se como uma folha seca arrebatada por um furacão e levada para longe, ou como a espuma do mar arremessada para o alto a fim de ser dispersa e dissolvida.

A nossa tradução dá a ideia de um objeto erguido para ser lançado ao chão com maior violência e mais completamente despedaçado; ou, mudando a figura, faz lembrar um lutador que o adversário levanta para lhe dar uma queda mais desesperada. A primeira interpretação que demos, no entanto, está mais plenamente de acordo com o original, e expõe o completo desamparo que o autor sentia, e a sensação de terror avassalador que o arrastava numa torrente de dor tumultuosa à qual ele não conseguia resistir.

Versículo 11Salmo 102:11

Os meus dias são como a sombra que declina. Seus dias já eram, na melhor das hipóteses, apenas uma sombra, mas agora pareciam ser como uma sombra que estava se desvanecendo. Uma sombra já é bastante insubstancial; quão débil coisa deve ser uma sombra em declínio? Nenhuma expressão poderia expor com mais força a sua extrema fraqueza.

E eu me murcho como a erva. Ele era como a relva, açoitada por um vento abrasador, ou ceifada pela foice, e depois deixada a secar sob o calor ardente do sol. Há momentos em que, por abatimento do espírito, o homem sente como se toda vida o houvesse abandonado, e a existência se tornasse apenas uma morte que ainda respira. O coração partido tem uma influência maravilhosamente ressecante sobre todo o nosso ser; nossa carne, na melhor das hipóteses, não passa de erva, e, quando ferida por dores agudas, sua beleza murcha, e ela se torna coisa encarquilhada, ressecada, sem beleza.

Versículo 12Salmo 102:12

Agora a mente do autor se afasta de suas tribulações pessoais e relativas para voltar-se à verdadeira fonte de todo consolo, a saber, o próprio Senhor, e seus propósitos graciosos para com o seu povo.

Mas tu, ó Senhor, permanecerás para sempre. Eu pereço, mas tu não perecerás; minha nação quase se extinguiu, mas tu és totalmente imutável. O original traz a palavra "sentar" — "tu, Jeová, para a eternidade te assentarás": isto é, tu continuas a reinar, teu trono permanece seguro mesmo quando a tua cidade escolhida jaz em ruínas, e o teu povo peculiar é levado ao cativeiro. A soberania de Deus em todas as coisas é fundamento infalível de consolo; ele governa e reina, aconteça o que acontecer, e por isso tudo está bem.

Firme como seu trono a promessa está,

E ele pode bem guardar

O que às suas mãos entreguei já,

Até a hora decisiva chegar.

E a tua memória, por todas as gerações. Os homens me esquecerão, mas quanto a ti, ó Deus, os sinais constantes da tua presença manterão a raça humana lembrada de ti de geração em geração. O que Deus é agora, sempre o será; aquilo que nossos antepassados nos contaram do Senhor, achamos verdadeiro no tempo presente, e o que a nossa experiência nos permite registrar será confirmado por nossos filhos e pelos filhos de nossos filhos. Todas as demais coisas se desvanecem como fumaça, e murcham como a erva, mas sobre todas elas brilha a única luz eterna e imutável, e continuará a brilhar quando todas essas sombras já se tiverem esvaído no nada.

Versículo 13Salmo 102:13

Tu te levantarás e terás misericórdia de Sião. Ele cria firmemente e profetizava com ousadia que a aparente inação da parte de Deus se transformaria em ação eficaz. Outros poderiam permanecer indolentes na questão, mas o Senhor certamente se moveria. Sião fora escolhida desde antigamente, altamente favorecida, gloriosamente habitada e maravilhosamente preservada, e por isso, pela lembrança de suas antigas misericórdias, era certo que misericórdia lhe seria mostrada de novo.

Deus não deixará sempre a sua igreja em condição de baixeza; pode, por um tempo, esconder-se dela em disciplina, para fazê-la ver sua nudez e pobreza à parte dele, mas em amor há de voltar a ela, e levantar-se em sua defesa, para promover o seu bem-estar.

Pois chegou o tempo de favorecê-la, sim, chegou o tempo determinado. O decreto divino designou uma estação para abençoar a igreja, e, quando esse período chegar, abençoada ela será. Houve um tempo determinado para os judeus na Babilônia, e, quando as semanas se cumpriram, nenhum ferrolho nem grade pôde continuar a aprisionar os resgatados do Senhor. Quando chegou o tempo de os muros se erguerem pedra por pedra, nem Tobias nem Sambalate puderam deter a obra, pois o próprio Senhor se levantara, e quem pode reter a mão do Todo-poderoso? Quando chega o tempo determinado por Deus, nem Roma, nem o diabo, nem perseguidores, nem ateus podem impedir o reino de Cristo de estender os seus limites. É obra de Deus fazê-lo — ele precisa "se levantar"; ele o fará, mas tem sua própria estação designada; e, entretanto, devemos, com santa ansiedade e expectativa crente, esperar nele.

Versículo 14Salmo 102:14

Porque os teus servos se comprazem nas suas pedras, e se apiedam do seu pó. Deleitam-se nela tão grandemente que até seu entulho lhes é querido. Foi um bom presságio para Jerusalém quando os cativos começaram a sentir saudade de casa, e começaram a suspirar por ela. Podemos esperar que os judeus modernos sejam restaurados à sua própria terra quando o amor à pátria começar a movê-los, e expulsar o amor ao lucro.

Para a igreja de Deus, nenhum sinal pode ser mais cheio de esperança do que ver seus membros profundamente interessados em tudo o que a concerne; nenhuma prosperidade tende a repousar sobre uma igreja onde se manifesta descuido para com as ordenanças, os empreendimentos e os serviços; mas, quando até o menor e mais ínfimo assunto ligado à obra do Senhor é cuidadosamente atendido, podemos ter certeza de que chegou o tempo determinado de favorecer Sião. O membro mais pobre da igreja, o mais grave desviado, o convertido mais ignorante, deve ser precioso aos nossos olhos, por formar parte, ainda que talvez muito fraca, da nova Jerusalém. Se não nos importamos com a prosperidade da igreja a que pertencemos, precisamos nos admirar se a bênção do Senhor é retida?

Versículo 15Salmo 102:15

Assim os gentios temerão o nome do Senhor. A misericórdia dentro da igreja logo é percebida pelos de fora. Quando uma vela se acende na casa, sua luz brilha pela janela. Quando Sião se alegra em seu Deus, os gentios passam a reverenciar o seu nome, pois ouvem falar das maravilhas de seu poder, e são impressionados por elas.

E todos os reis da terra a tua glória. A restauração de Jerusalém foi uma maravilha entre os príncipes que dela ouviram falar, e sua ressurreição definitiva, em dias ainda por vir, será um dos prodígios da história. Uma igreja vivificada pelo poder divino é objeto tão marcante na história corrente que não pode escapar à atenção; governantes não podem ignorá-la, ela afeta o próprio Legislativo, e arranca dos grandes da terra um reconhecimento da obra divina.

Quisera Deus que víssemos em nossos dias tal avivamento de religião, que nossos senadores e príncipes fossem obrigados a prestar homenagem ao Senhor, e a reconhecer a sua graça gloriosa. Isso não pode acontecer até que os santos sejam melhor edificados, e mais plenamente reunidos para uma habitação de Deus no Espírito. A prosperidade interna é a verdadeira fonte da influência externa da igreja.

Versículo 16Salmo 102:16

Quando o Senhor edificar a Sião, aparecerá na sua glória. Assim como os reis exibem sua perícia, poder e riqueza na edificação de suas capitais, também o Senhor revelaria o esplendor de seus atributos na restauração de Sião, e assim ele agora se glorifica na edificação de sua igreja. Nunca o Senhor é mais honrado aos olhos de seus santos do que quando faz prosperar a igreja. Acrescentar-lhe convertidos, treiná-los para o serviço santo, instruir, iluminar e santificar a irmandade, unir todos nos laços do amor cristão, e encher todo o corpo com a energia do Espírito Santo — isso é edificar Sião.

Outros construtores apenas a incham de vaidade, e sua madeira, feno e palha se acabam quase tão depressa quanto foram amontoados; mas o que o Senhor edifica é feito com certeza e bem, e redunda em sua glória. Na verdade, quando vemos a igreja em estado de baixeza, e observamos a insensatez, o desamparo e a indiferença dos que se dizem seus construtores; e, por outro lado, a energia, a astúcia e a influência dos que se lhe opõem, estamos plenamente preparados a reconhecer que será obra gloriosa da graça onipotente se ela algum dia se erguer à sua grandeza e pureza primitivas.

Versículo 17Salmo 102:17

Ele atenderá à oração do destituído. Apenas os mais pobres do povo haviam ficado para gemer e clamar entre as ruínas da cidade amada; quanto aos demais, eram estrangeiros em terra estranha, longe do lugar santo; contudo, as orações dos cativos e dos refugos abandonados da terra seriam ouvidas pelo Senhor, que não ouve os homens pela quantidade de dinheiro que possuem, ou pela extensão das terras que chamam de suas, mas em misericórdia escuta com mais prontidão o clamor da maior necessidade.

E não desprezará a oração deles. Quando grandes reis constroem seus palácios, não é razoável esperar que se desviem para escutar todo mendigo que lhes suplica; mas, quando o Senhor edifica Sião, e aparece em seus mantos de glória, ele faz questão de ouvir toda petição do pobre e do necessitado. Não tratará suas súplicas com desprezo; inclinará seu ouvido para escutar, seu coração para considerar, e sua mão para socorrer. Que consolo há aqui para os que se consideram totalmente destituídos; sua penúria mais abjeta é aqui recebida com uma promessa dos mais condescendentes. Vale a pena ser destituído para se ter assim assegurada a atenção divina.

Versículo 18Salmo 102:18

Isto se escreverá para a geração vindoura. Um registro se fará disso, pois haverá destituídos em gerações futuras — "os pobres nunca deixarão de existir na terra" — e alegrará seus olhos ler a história da misericórdia do Senhor para com os necessitados de outrora. Registros da bondade divina deveriam ser feitos e preservados; escrevemos na história as calamidades das nações — guerras, fomes, pestilências e terremotos são registrados; quanto mais, então, deveríamos erguer memoriais da bondade amorosa do Senhor! Aqueles que em sua própria alma sofreram destituição espiritual, e dela foram libertados, não podem esquecê-la; estão obrigados a contá-la a outros, e especialmente a instruir seus filhos na bondade do Senhor.

E o povo que há de ser criado louvará ao Senhor. O salmista pretende dizer aqui que a reconstrução de Jerusalém seria um fato histórico pelo qual o Senhor seria louvado de geração em geração. Avivamentos de religião não só causam grande alegria aos que neles estão diretamente envolvidos, mas dão ânimo e deleite ao povo de Deus muito depois, e são de fato incentivos perpétuos à adoração em toda a igreja de Deus.

Este versículo nos ensina que devemos ter os olhos postos na posteridade, e especialmente devemos nos empenhar em perpetuar a memória do amor de Deus por sua igreja e por seu povo pobre, para que os jovens, ao crescerem, saibam que o Senhor Deus de seus pais é bom e cheio de compaixão. Por mais triste que estivesse o salmista quando escreveu as partes mais sombrias desta queixa, não estava tão absorto em sua própria dor, nem tão perturbado pela calamidade nacional, a ponto de esquecer as reivindicações das gerações vindouras; isso, na verdade, é prova clara de que ele não estava sem esperança por seu povo, pois quem faz planos para o bem de uma geração futura ainda não desesperou de sua nação.

O louvor de Deus deveria ser o grande objetivo de tudo o que fazemos, e assegurar-lhe uma renda de glória tanto do presente quanto do futuro é o mais nobre propósito de seres inteligentes.

Versículos 19–20Salmo 102:19-20

Porque ele olhou desde o alto do seu santuário, ou "inclinou-se do lugar alto da sua santidade"; desde o céu o Senhor contemplou a terra, olhando como um vigia desde a sua torre. Qual era o objetivo desse inclinar-se das ameias do céu? Por que este olhar fixo sobre a raça humana? A resposta é plena de assombrosa misericórdia; o Senhor não olha para a humanidade para notar seus grandes, e observar os feitos de seus nobres, mas para ouvir o gemido do prisioneiro; para libertar os que estão destinados à morte.

Ora, os gemidos dos que estão presos, longe de serem musicais, são muito horríveis de ouvir, e ainda assim Deus se inclina para escutá-los: os que estão condenados à morte costumam ser má companhia, mas Jeová se digna a curvar-se de sua grandeza para aliviar sua extrema aflição e quebrar suas cadeias. Isso ele faz por resgates providenciais, restaurando a saúde aos moribundos, e encontrando alimento para os famintos; e espiritualmente, este feito de graça se realiza pela graça soberana, que nos livra, pelo perdão, da sentença do pecado, e, pela doçura da promessa, do desespero mortal que a consciência do pecado havia criado em nós.

Bem podem louvar ao Senhor aqueles de nós que já fomos filhos da morte, mas agora somos trazidos à gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Os judeus em cativeiro, no tempo de Hamã, estavam destinados à morte, mas o seu Deus achou para eles um caminho de escape, e eles alegremente guardaram a festa de Purim em memória disso; que todas as almas que foram libertadas da astuciosa malícia do antigo dragão engrandeçam com ainda maior gratidão o Senhor de infinita compaixão.

Versículo 21Salmo 102:21

Para anunciar o nome do Senhor em Sião, e o seu louvor em Jerusalém. Grande misericórdia demonstrada aos que dela muito necessitam é o método mais claro de revelar os atributos do Altíssimo. Ações falam mais alto que palavras; feitos de graça são uma revelação ainda mais impressionante que as promessas maisternas. Jerusalém restaurada, a igreja reedificada, almas desanimadas encorajadas, e todas as demais manifestações do poder de Jeová de abençoar, são outros tantos manifestos e proclamações afixados nos muros de Sião para publicar o caráter e a glória do grande Deus.

Cada dia de experiência deveria ser para nós uma nova gazeta de amor, um boletim da corte vindo do céu, um despacho diário do quartel-general da graça. Somos obrigados a informar disso a nossos irmãos cristãos, tornando-os cooperadores em nosso louvor, ao ouvirem falar da bondade que experimentamos. Enquanto as misericórdias de Deus falam com tanta eloquência, não devemos ficar mudos. Comunicar aos outros o que Deus fez por nós pessoalmente e pela igreja em geral é dever tão evidente que não deveríamos precisar de estímulo para cumpri-lo. Deus mantém sempre os olhos na glória de sua graça em tudo o que faz, e não devemos, por má vontade, defraudá-lo da renda de seu louvor.

Versículo 22Salmo 102:22

Quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servir ao Senhor. A grande obra de restaurar a arruinada Sião há de ser proclamada naquelas eras douradas em que as nações gentias se converterem a Deus; mesmo aqueles tempos gloriosos não poderão desprezar esse grande acontecimento, que, como a passagem de Israel pelo Mar Vermelho, jamais será eclipsado e jamais deixará de despertar o entusiasmo do povo escolhido. Feliz será o dia em que todas as nações se unirem no único culto a Jeová; então as histórias dos tempos antigos serão lidas com admiração adorante, e a mão do Senhor será vista como sempre repousando sobre o exército sacramental de seus eleitos: então clamores de louvor exultante subirão ao céu em honra daquele que soltou os cativos, libertou os condenados, ergueu as desolações dos séculos, e fez de pedras e entulho um templo para o seu culto.

Versículo 23Salmo 102:23

Ele enfraqueceu a minha força no caminho. Aqui o salmista desce de novo à corda pesarosa, e derrama a sua queixa pessoal. Sua tristeza abatera o seu espírito, e chegara mesmo a causar fraqueza em seu corpo, de modo que era como um peregrino que mancava pela estrada, pronto para deitar-se e morrer.

Ele abreviou os meus dias. Embora tivesse esperanças brilhantes para Jerusalém, temia que houvesse de partir desta vida muito antes de essas visões se tornarem realidade; sentia que estava definhando e seria homem de vida curta. Talvez esta seja também a nossa sorte, e nos ajudará muito a contentar-nos com ela, se estivermos persuadidos de que o mais grandioso de todos os interesses está seguro, e a boa e velha causa está segura nas mãos do Senhor.

Versículo 24Salmo 102:24

Eu disse: ó meu Deus, não me leves no meio dos meus dias. Recorreu à oração. Que remédio melhor há para o desalento e a depressão do coração? Podemos licitamente pedir a recuperação da doença e esperar ser ouvidos. Homens bons não devem temer a morte, mas também não lhes é proibido amar a vida: por muitas razões, o homem que tem a melhor esperança do céu pode ainda assim considerar desejável continuar aqui um pouco mais, por causa de sua família, seu trabalho, a igreja de Deus, e até a própria glória de Deus. Alguns leem a passagem: "Não me faças subir", que eu não ascenda como fumaça que desaparece, não me arrebates como Elias num carro de fogo, pois até agora só vi a metade dos meus dias, e essa metade pesarosa; concede-me viver até que a manhã tempestuosa se tenha suavizado numa tarde luminosa de existência mais feliz.

Os teus anos são por todas as gerações. Tu vives, Senhor; deixa-me também viver. Uma plenitude de existência está contigo; deixa-me dela participar. Note-se o contraste entre ele mesmo definhando e prestes a expirar, e o seu Deus que vive na plenitude da força para todo o sempre; este contraste é cheio de poder consolador para o homem cujo coração está firmado no Senhor. Bendito seja o seu nome, ele não falha, e, portanto, a nossa esperança não nos há de faltar, nem vamos desesperar por nós mesmos ou por sua igreja.

Versículo 25Salmo 102:25

Desde a antiguidade lançaste os fundamentos da terra. Criar não é obra nova para Deus, e por isso "fazer de Jerusalém um louvor na terra" não lhe será difícil. Muito antes de a cidade santa ser posta em ruínas, o Senhor fez um mundo do nada, e não lhe será trabalho erguer os muros de seus escombros e repor as pedras em suas fileiras. Nós não podemos nem continuar a nossa própria existência, nem dar existência a outros; mas o Senhor não apenas é, mas é o Criador de todas as coisas que existem; por isso, quando os nossos assuntos estão na maré mais baixa, não desesperamos de modo algum, porque o Senhor Todo-poderoso e Eterno ainda pode nos restaurar.

E os céus são obra das tuas mãos. Tu podes, portanto, não apenas lançar os fundamentos de Sião, mas completar seu telhado, assim como arquejaste o mundo com seu teto de azul; os andares mais altos do teu palácio terreno serão empilhados nas alturas sem dificuldade quando empreenderes a sua construção, pois és o arquiteto das estrelas e das esferas em que elas se movem. Quando uma grande obra há de ser realizada, é eminentemente reconfortante contemplar o poder de quem se comprometeu a executá-la; e, quando a nossa própria força se esgota, é imensamente animador ver a energia infalível que ainda está empenhada em nosso favor.

Versículo 26Salmo 102:26

Eles perecerão, mas tu permanecerás. O poder que os fez os há de dissolver, tal como a cidade do teu amor foi destruída por tua ordem; mas nem a cidade em ruínas nem a terra em ruínas podem mudar em ti, reverter o teu propósito, ou diminuir a tua glória. Tu permaneces de pé quando todas as coisas caem.

Sim, todos eles envelhecerão como uma veste; como um manto os mudarás, e eles serão mudados. O tempo desgasta todas as coisas, a moda se torna obsoleta e passa. A criação visível, que é como a veste do Deus invisível, está envelhecendo e se gastando, e o nosso grande Rei não é tão pobre que precise usar sempre os mesmos trajes; ele há de, em breve, dobrar os mundos e pô-los de lado como vestes gastas, e há de se revestir de novas roupas, fazendo um novo céu e uma nova terra, onde habita a justiça. Com que prontidão tudo isso será feito. "Tu os mudarás, e eles serão mudados"; assim como na criação, também na restauração a onipotência abrirá seu caminho sem obstáculo.

Versículo 27Salmo 102:27

Mas tu és o mesmo, ou "tu és ele". Assim como um homem permanece o mesmo depois de trocar de roupa, também o Senhor é para sempre o Imutável, ainda que suas obras na criação possam mudar, e as operações de sua providência possam variar. Quando o céu e a terra fugirem da temível presença do grande Juiz, ele não será alterado por essa terrível confusão, e o mundo em chamas não produzirá nele mudança alguma.

Da mesma forma, o salmista se lembrava de que, quando Israel foi vencido, sua capital destruída e seu templo arrasado, o seu Deus permanecia o mesmo ser autoexistente e autossuficiente, e restauraria o seu povo, assim como há de restaurar os céus e a terra, concedendo ao mesmo tempo uma glória nova, jamais conhecida antes. A doutrina da imutabilidade de Deus deveria ser mais considerada do que é, pois a negligência dela tinge a teologia de muitos mestres religiosos, e os leva a proferir muitas coisas cujo absurdo há muito já teriam percebido, se se lembrassem da declaração divina: "Eu sou Deus, não mudo; por isso vós, filhos de Jacó, não sois consumidos."

E os teus anos não terão fim. Deus vive para sempre; nenhuma decadência pode acontecer-lhe, nem destruição alcançá-lo. Que alegria é esta! Podemos perder os nossos amigos terrenos mais queridos, mas não o nosso Amigo celestial. Os dias dos homens muitas vezes se abreviam de repente, e, na melhor das hipóteses, são poucos, mas os anos da destra do Altíssimo não podem ser contados, pois não têm primeiro nem último, começo nem fim. Ó minha alma, alegra-te sempre no Senhor, pois ele é sempre o mesmo.

Versículo 28Salmo 102:28

Os filhos dos teus servos continuarão. O salmista já havia, no início do Salmo, olhado para uma geração futura, e aqui fala com confiança de que tal linhagem haveria de surgir, ser preservada e ser abençoada por Deus. Alguns leem como uma oração: "que os filhos dos teus servos permaneçam." De qualquer forma, é palavra cheia de bom ânimo para nós; podemos suplicar o favor do Senhor para a nossa descendência, e podemos esperar que a causa de Deus e da verdade se reavive nas gerações futuras.

Esperemos que aqueles que hão de nos suceder não sejam tão teimosos, incrédulos e errantes quanto fomos nós. Se a igreja foi diminuída e rebaixada pela morna condição da geração presente, supliquemos ao Senhor que levante uma ordem melhor de homens, cujo zelo e obediência conquistem e sustentem uma longa prosperidade. Que os nossos próprios entes queridos estejam entre a geração melhor, que há de continuar nos caminhos do Senhor, obediente até o fim.

E a sua descendência será estabelecida diante de ti. Deus não negligencia os filhos de seus servos. É a regra que o Isaque de Abraão seja do Senhor, que o Jacó de Isaque seja amado do Altíssimo, e que o José de Jacó encontre favor aos olhos de Deus. A graça não é hereditária, mas Deus gosta de ser servido pela mesma família desde tempos imemoriais, tal como muitos grandes proprietários de terras sentem prazer em ter as mesmas famílias como arrendatárias em suas propriedades, de geração em geração.

Aqui está a esperança de Sião: seus filhos a reconstruirão, sua descendência restaurará suas antigas glórias. Podemos, portanto, não apenas por nós mesmos, mas também por amor à igreja de Deus, orar diariamente para que nossos filhos e filhas sejam salvos, e guardados pela graça divina até o fim — estabelecidos diante do Senhor.

Assim atravessamos a nuvem, e no próximo salmo nos banharemos ao sol. Tal é a experiência variada do crente. Paulo, no capítulo sete de Romanos, clama e geme, e depois, no capítulo oito, se regozija e salta de alegria; e assim, do gemido do Salmo cento e dois, avançamos agora para os cânticos e as danças do Salmo cento e três, bendizendo o Senhor porque, "ainda que o pranto dure a noite toda, pela manhã vem a alegria."

Obras sobre este salmo

BISHOP FISHER'S Treatise on the Penitential Psalms. (Veja-se "Treasury of David", Vol. II, pg. 114.) Há uma edição em 12mo, impressa no ano MDCCXIV, além das já referidas acima.

Em "Meditations on Twenty select Psalms, by Sir ANTHONY COPE, Chamberlain to Queen Katherine Parr. Reprinted from the edition of 1547; ... By WILLIAM H. COPE, M.A. 1848", há uma meditação sobre este Salmo.

Meditations and Disquisitions upon the Seven Psalms of David, commonly called the Penitentiall Psalmes, By Sir RICHARD BAKER, Knight. 1639. pg. 139-180.

Zion's Joy in her King Coming in his Glory. Wherein the estate of the Poore distressed Church of the Gentiles (travailing in the Wildernesse towards the new Jerusalem of the Jewes) in her utmost extremities, and height of her Joyes, is lively delineated; In some Meditations upon that Propheticall Psalme 102, wherein the sense is opened, and many difficult places of Scripture inlightned by a harmony, and consent of the Scriptures. Delightfull and profitable to be read in these times of the Churches troubles, and much longed for restauration and deliverance. By FINIENS CANUS VOVE. Compiled in Exile, and lately now revised and somewhat augmented as the weight of the Subject and the revolution of the times required... 1643. 4to.

Em "Sermons on the Seven Penitential Psalms, Preached during Lent, 1838", do Rev. CHARLES OXENDON, há uma exposição deste Salmo.

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