Salmo 58
Leia o Salmo 58 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Para o Cantor-mor. Embora Davi tivesse diante dos olhos o seu próprio caso, ele não escreveu como pessoa privada, mas como profeta inspirado, e por isso seu cântico é apresentado, para uso público e perpétuo, ao guardião designado da música do Templo. Al-tasquête. Aqui os ímpios são julgados e condenados, mas sobre os piedosos é solenemente pronunciado o sagrado "Não destruas". Mictão de Davi. Este é o quarto dos Salmos do Segredo Áureo, e o segundo dos "Não destruas". Esses nomes, se para mais nada servirem, ao menos ajudam a memória. Os homens dão nomes a seus cavalos, joias e outros bens preciosos, e esses nomes não visam tanto descrevê-los quanto distingui-los, e em alguns casos manifestar a alta estima do dono por seu tesouro; da mesma forma o poeta oriental deu um título ao cântico que amava, ajudando assim sua memória e expressando sua apreciação pela composição. Nem sempre devemos buscar um significado nesses títulos, mas tratá-los como trataríamos os títulos de poemas, ou os nomes de melodias.
DIVISÃO. O inimigo ímpio é acusado, Salmos 58:1-5; pede-se juízo ao Juiz, Salmos 58:6-8; e ele é visto em visão profética já executado, Salmos 58:9-11.
Exposição
Versículo 1Salmo 58:1
Falais deveras justiça, ó congregação? Os inimigos de Davi formavam um bando numeroso e unido, e por condenarem o perseguido com tanta unanimidade, tendiam a supor que seu veredito era certo. "O que todos dizem deve ser verdade" é um provérbio mentiroso, fundado na presunção que nasce das grandes coligações. Não estamos todos de acordo em perseguir esse homem até a morte, e quem ousaria insinuar que tantos grandes podem estar enganados? Contudo o perseguido lança o machado à raiz, exigindo que seus juízes respondam se estavam ou não agindo com justiça.
Bem seria se os homens às vezes parassem e considerassem isso com franqueza. Alguns dos que cercavam Saul eram perseguidores mais passivos que ativos; calavam-se quando o objeto do ódio real era caluniado. No original, esta primeira sentença parece dirigida a eles, e lhes é perguntado que justifiquem seu silêncio. O silêncio dá consentimento. Quem se abstém de defender o direito é ele mesmo cúmplice do erro.
Julgais retamente, ó filhos dos homens? Vós também sois apenas homens, ainda que vestidos de uma breve autoridade. Vosso cargo perante os homens, e vossa relação com os homens, ambos vos obrigam à retidão; mas lembrastes disso? Não deixastes de lado toda verdade quando condenastes o piedoso, e vos unistes para buscar a ruína do inocente? Contudo, ao fazer isso, não estejais tão seguros do sucesso, pois não passais de "filhos dos homens", e há um Deus que pode, e vai, reverter vossos veredictos.
Versículo 2Salmo 58:2
Antes, no coração obrais iniquidades. No fundo de vossas próprias almas fazeis o ensaio da injustiça que pretendeis praticar, e quando chega a ocasião, exercis a vingança com prazer; vosso coração está no vosso trabalho perverso, e por isso vossas mãos estão sempre prontas. Esses mesmos homens que se assentavam como juízes, e fingiam tanta indignação com as faltas imputadas à sua vítima, perpetravam em seus corações toda sorte de mal.
Sopesais a violência de vossas mãos na terra. Eram pecadores deliberados, celerados frios e calculistas. Assim como juízes retos ponderam a lei, sopesam as provas e avaliam a causa, os malignos distribuem a injustiça com premeditação, a sangue-frio. Note-se neste versículo que os homens descritos pecavam com o coração e com a mão: em privado, no coração; em público, na terra; obravam e sopesavam — eram ativos, e ainda assim deliberados.
Veja que geração os santos têm de enfrentar! Tais eram os inimigos de nosso Senhor, geração de víboras, geração má e adúltera; buscavam matá-lo porque ele era a própria justiça, mas mascaravam seu ódio à sua bondade acusando-o de pecado.
Versículo 3Salmo 58:3
Os ímpios se desviam desde o ventre. Não é de admirar que alguns homens persegam a semente justa da mulher, já que todos eles são da ninhada da serpente, e há inimizade posta entre elas. Mal nascidos e já alienados de Deus — que condição em que se encontrar! Abandonamos tão cedo o caminho reto? Começamos a ser homens no mesmo instante em que começamos a ser pecadores?
Andam errados desde que nascem, falando mentiras. Qualquer observador pode ver como as crianças, muito cedo, já praticam a mentira. Antes mesmo de falar, exercitam pequenas artes enganosas. Isso é ainda mais visível naqueles que crescem para se tornar peritos na calúnia; começam cedo seu ofício maligno, e não é de espantar que se tornem mestres nele. Quem sai cedo pela manhã irá longe antes da noite. Ser mentiroso é uma das provas mais seguras de um estado caído, e, sendo a falsidade universal, universal é também a depravação humana.
Versículo 4Salmo 58:4
O veneno deles é como veneno de serpente. Será o homem também um réptil venenoso? Sim, e seu veneno é como o da serpente. A víbora só tem, em suas presas, a morte para o corpo; mas o homem não regenerado carrega veneno debaixo da língua, destrutivo para a natureza mais nobre.
São como a áspide surda, que tapa o ouvido. Ao falar de serpentes, o salmista se lembra de que muitas delas já foram vencidas pela arte do encantador; mas homens como aqueles com quem ele tinha de lidar, nenhuma arte podia domar ou conter. Por isso os compara a uma serpente menos suscetível que outras à música do encantador, dizendo que recusavam ouvir a razão, tal como a áspide fecha o ouvido aos encantamentos que fascinam os demais répteis. O homem, em sua corrupção natural, parece reunir todos os defeitos da serpente, sem nenhuma de suas qualidades. Ó pecado, o que fizeste!
Versículo 5Salmo 58:5
Que não ouve a voz dos encantadores, por mais habilmente que encantem. Os ímpios não se ganham para o bem com os argumentos mais lógicos, nem com os apelos mais comoventes. Tentai todas as vossas artes, ó pregadores da palavra! Esforçai-vos por atender aos preconceitos e gostos dos pecadores, e ainda assim tereis de clamar: "Quem creu em nossa mensagem?" Não está em vossa música, mas no ouvido do pecador, a causa do fracasso, e só o poder de Deus pode removê-la.
"Podeis chamar espíritos do vasto abismo, Mas virão eles quando os chamardes?"
Não; chamamos e chamamos, e chamamos em vão, até que o braço do Senhor se revele. Nisto está, ao mesmo tempo, a culpa e o perigo do pecador. Ele deveria ouvir, mas não quer, e por não querer ouvir, não pode escapar da condenação do inferno.
Versículo 6Salmo 58:6
Quebra-lhes os dentes na boca, ó Deus. Se não têm capacidade para o bem, ao menos priva-os da capacidade para o mal. Trata-os como o encantador de serpentes trata suas serpentes: arranca-lhes as presas, quebra-lhes os dentes. O Senhor pode fazer isso, e o fará. Ele não permitirá que a malícia dos ímpios triunfe; desferirá golpe tal que os incapacite para o mal.
Arranca os grandes dentes dos leõezinhos, ó Senhor. Como se uma só criatura bruta não bastasse para completar o emblema da natureza ímpia, outro espécime da ferae naturae é trazido. Pela crueldade feroz, os ímpios são comparados a leõezinhos, monstros no vigor da idade, na fúria de seu ardor; e pede-se que seus queixais sejam esmagados, arrancados ou desfeitos, para que as criaturas se tornem daí em diante inofensivas. Bem se compreende como o filho banido de Jessé, envenenado pela calúnia peçonhenta de seus inimigos e atormentado por seu poder cruel, apelasse ao céu por uma libertação pronta e completa de seus adversários.
Versículo 7Salmo 58:7
Que se derretam como águas que correm continuamente. Como torrentes de montanha secas pelo calor do verão, que desapareçam; ou como riachos correntes cujas águas logo se vão, assim que passem; ou como água derramada, que ninguém pode recolher, assim que desvaneçam da existência. Ide-vos, riachos imundos: quanto mais cedo esquecidos, melhor para o universo.
Quando ele armar o arco para atirar suas flechas, que sejam como partidas em pedaços. Quando o Senhor sai à guerra, que seus juízos recaiam de tal modo sobre esses perseguidores que sejam de todo despedaçados, como um alvo estilhaçado por muitas flechas. Ou talvez o sentido seja: quando o ímpio marcha para o combate, que sua flecha e seu arco caiam em fragmentos, a corda cortada, o arco quebrado, as flechas sem ponta, a haste embotada; de modo que o guerreiro jactancioso não tenha com que ferir o objeto de sua inimizade. Em qualquer dos sentidos, a oração deste Salmo já se cumpriu muitas vezes como fato, e há de se cumprir de novo sempre que houver necessidade.
Versículo 8Salmo 58:8
Como a lesma que se derrete, assim passe cada um deles. Assim como a lesma abre seu próprio caminho com sua baba, e se dissolve à medida que avança, ou como sua concha é muitas vezes achada vazia, como se o morador tivesse se derretido, assim os malignos consumirão sua própria força enquanto avançam em seus desígnios malévolos, e eles próprios desaparecerão. Destruir-se por inveja e despeito é a sorte do mal-intencionado.
Como o aborto da mulher, que não vejam o sol. Solene é esta maldição, mas com que certeza recai sobre tantos réprobos! São como se nunca tivessem existido. Seu caráter é disforme, hediondo, repulsivo. Mais próprios de serem escondidos numa sepultura ignorada do que contados entre os homens. Sua vida jamais amadurece, seus intentos são abortivos, sua única realização é ter trazido miséria aos outros e horror a si mesmos.
Homens como Herodes, Judas, Alva, Bonner — não teria sido melhor para eles nunca terem nascido? Melhor para as mães que os geraram? Melhor para as terras que amaldiçoaram? Melhor para a terra em que suas carcaças pútridas ficam escondidas do sol? Todo homem não regenerado é um aborto. Ele erra a verdadeira forma da humanidade feita à imagem de Deus; apodrece na escuridão do pecado; nunca vê, nem verá, a luz de Deus em pureza, no céu.
Versículo 9Salmo 58:9
Antes que vossas panelas sintam os espinhos. Tão súbita é a ruína dos ímpios, tão grande fracasso é sua vida, que jamais veem alegria. Sua panela é posta ao fogo para preparar um banquete de alegria, e o combustível é colocado por baixo, mas antes que os espinhos peguem fogo, antes que qualquer calor possa atingir a panela — sim, mal o combustível toca o vaso de cozinhar — uma tempestade vem e tudo arrasta; a panela é virada, o combustível espalhado para todo lado. Talvez a figura suponha que os espinhos, que são o combustível, já estejam acesos, e então a chama é tão rápida que, antes que se produza qualquer calor, o fogo já se apagou, a carne permanece crua, o homem fica frustrado, sua obra é um fracasso completo.
Ele os arrebatará como com um redemoinho. Cozinheiro, fogo, panela, carne, tudo desaparece de uma vez, arrastado para a destruição.
Tanto vivo quanto em seu furor. Bem no meio da vida do homem, e no furor de sua ira contra o justo, o perseguidor é arrasado por um tornado; seus desígnios são frustrados, seus artifícios malogrados, e ele próprio destruído. A passagem é difícil, mas provavelmente é este o seu sentido, e um sentido bem terrível. O celerado maligno arma sua grande caldeira fervente, ajunta seu combustível, pretende fazer o papel de canibal com os piedosos; mas conta sem o dono da casa, ou antes, sem o Senhor dos Exércitos, e a tempestade inesperada remove todo vestígio dele, de seu fogo e de seu banquete — e isso num instante.
Versículo 10Salmo 58:10
O justo se alegrará quando vir a vingança. Ele não terá parte nenhuma em executá-la, nem se alegrará no espírito de vingança; mas sua alma justa se conformará aos juízos de Deus, e ele se alegrará de ver a justiça triunfante. Não há nada nas Escrituras dessa simpatia pelos inimigos de Deus que os traidores modernos tanto gostam de exibir como a mais fina espécie de benevolência. No fim diremos "Amém" à condenação dos ímpios, e não sentiremos disposição alguma para questionar os caminhos de Deus com os impenitentes.
Lembrai como João, o discípulo amado, o expressa: "E depois destas coisas ouvi uma grande voz de uma grande multidão no céu, que dizia: Aleluia; a salvação, e a glória, e a honra, e o poder, pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que havia corrompido a terra com a sua fornicação, e vingou o sangue dos seus servos, derramado pela mão dela. E outra vez disseram: Aleluia. E a fumaça dela subiu para todo o sempre."
Ele lavará os pés no sangue dos ímpios. Ele triunfará sobre eles; serão tão completamente vencidos que sua ruína será final e fatal, e sua libertação, completa e coroada. A condenação dos pecadores não há de manchar a felicidade dos santos.
Versículo 11Salmo 58:11
De modo que o homem dirá. Todo homem, por mais ignorante que seja, será obrigado a dizer: em verdade, deveras, certamente, há uma recompensa para o justo. Se mais nada for verdade, isto é. Os piedosos não são, afinal, abandonados e entregues a seus inimigos; os ímpios não hão de levar a melhor; verdade e bondade são recompensadas ao fim.
Deveras há um Deus que julga na terra. Todos os homens serão forçados, à vista do juízo final, a ver que há um Deus, e que ele é o justo governador do universo. Duas coisas, afinal, hão de se revelar com clareza: que há um Deus, e que há uma recompensa para o justo. O tempo removerá as dúvidas, resolverá as dificuldades e revelará os segredos; entretanto, o olhar previdente da fé já discerne a verdade desde agora, e se alegra com ela.