Salmo 1
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TÍTULO. Este Salmo pode ser tido como O SALMO-PREFÁCIO, porque anuncia o conteúdo do Livro inteiro. O desejo do salmista é nos ensinar o caminho da bem-aventurança e nos advertir da destruição certa dos pecadores. Esta é a matéria do primeiro Salmo, que se pode encarar, sob certos aspectos, como o texto sobre o qual todos os outros Salmos compõem um sermão divino.
DIVISÃO. Este Salmo tem duas partes. Na primeira (do versículo 1 ao fim do 3º), Davi mostra em que consiste a felicidade e a bem-aventurança do homem piedoso, quais são os seus exercícios e que bênçãos ele receberá do Senhor. Na segunda parte (do versículo 4 ao fim), ele contrasta o estado e o caráter do ímpio, revela o futuro e descreve, em linguagem expressiva, a sua condenação final.
Exposição
Versículo 1Salmo 1:1
"BEM-AVENTURADO" — repare como este Livro dos Salmos abre com uma bênção, exatamente como abriu o famoso Sermão do Monte do nosso Senhor! A palavra traduzida por "bem-aventurado" é das mais expressivas. No original ela está no plural, e há discussão se é adjetivo ou substantivo. Isso nos ensina duas coisas: quantas são as bênçãos que vão repousar sobre o homem que Deus justificou, e quão perfeita e grande é a bem-aventurança que ele vai desfrutar. Poderíamos ler assim: "Oh, as bem-aventuranças!" E podemos muito bem tomá-la (como faz Ainsworth) por uma aclamação alegre da felicidade do homem que recebeu graça. Que a mesma bênção repouse sobre nós!
Aqui o homem agraciado é descrito das duas formas: negativamente (versículo 1) e positivamente (versículo 2). É um homem que não anda no conselho dos ímpios. Ele toma um conselho mais sábio e anda nos mandamentos do Senhor seu Deus. Para ele, os caminhos da piedade são veredas de paz e de doçura. Seus passos são ordenados pela Palavra de Deus, e não pelas astúcias e maquinações perversas dos homens carnais. É um sinal rico de graça interior quando o andar exterior se transforma e a impiedade é posta para longe do que fazemos.
Note em seguida: nem se detém no caminho dos pecadores. A companhia dele agora é mais seleta do que era. Ainda que ele mesmo seja pecador, é agora um pecador lavado no sangue, vivificado pelo Espírito Santo e renovado no coração. De pé, pela rica graça de Deus, na congregação dos justos, ele não ousa se misturar à multidão que pratica o mal.
Diz-se ainda: "nem se assenta na roda dos escarnecedores." Ele não encontra descanso nenhum nos escárnios do ateu. Que os outros zombem do pecado, da eternidade, do inferno e do céu, e do Deus Eterno. Este homem aprendeu uma filosofia melhor que a do incrédulo, e tem consciência demais da presença de Deus para suportar ouvir que blasfemem do seu nome. A cadeira do escarnecedor pode ser muito alta, mas está muito perto da porta do inferno. Fujamos dela, porque em breve estará vazia, e a destruição vai tragar o homem que se assenta nela. Repare na gradação do primeiro versículo: ele não ANDA no conselho dos ímpios, nem se DETÉM no caminho dos pecadores, nem se ASSENTA na RODA dos ESCARNECEDORES.
Quando os homens vivem no pecado, vão de mal a pior. No começo apenas andam no conselho dos descuidados e ímpios, que se esquecem de Deus — o mal ainda é prático, não habitual. Depois se habituam ao mal e se detêm no caminho dos pecadores declarados, que violam de propósito os mandamentos de Deus. E, se ninguém os detém, dão mais um passo e se tornam eles mesmos mestres pestilentos e tentadores dos outros: assim se assentam na roda dos escarnecedores. Tomaram o seu grau no vício e, como verdadeiros Doutores da Perdição, são empossados e admirados pelos outros como Mestres em Belial.
Mas o homem bem-aventurado, o homem a quem pertencem todas as bênçãos de Deus, não pode ter comunhão nenhuma com gente assim. Ele se guarda puro desses leprosos; lança para longe de si as coisas más como roupa manchada pela carne; sai do meio dos ímpios e vai para fora do arraial, levando o vitupério de Cristo. Que haja graça para estarmos assim separados dos pecadores!
E agora repare no seu caráter positivo. "O seu prazer está na lei do Senhor." Ele não está debaixo da lei como maldição e condenação; está dentro dela, e tem prazer em estar nela como regra de vida. Tem prazer, além disso, em meditar nela, em lê-la de dia e pensar nela de noite. Toma um texto e o carrega consigo o dia inteiro; e nas vigílias da noite, quando o sono foge dos seus olhos, medita na Palavra de Deus. No dia da prosperidade, canta salmos tirados da Palavra de Deus; e na noite da aflição, se consola com as promessas do mesmo livro.
"A lei do Senhor" é o pão diário do verdadeiro crente. E, no entanto, nos dias de Davi, como era pequeno o volume da inspiração — eles mal tinham algo além dos cinco primeiros livros de Moisés! Quanto mais deveríamos nós dar valor a toda a Palavra escrita, que temos o privilégio de guardar em casa! Mas que mau tratamento damos a este anjo vindo do céu! Não somos todos investigadores das Escrituras como os de Bereia.
Quão poucos entre nós podem reivindicar a bênção deste texto! Talvez alguns possam alegar uma espécie de pureza negativa, por não andarem no caminho dos ímpios. Mas deixe-me perguntar: o seu prazer está na lei de Deus? Você estuda a Palavra de Deus? Faz dela o homem da sua mão direita, o seu melhor companheiro e o seu guia de cada hora? Se não, esta bênção não pertence a você.
Versículo 3. "E será como a árvore plantada" — não uma árvore silvestre, mas "uma árvore plantada", escolhida, tida como propriedade, cultivada e protegida daquele último e terrível desarraigamento, porque "toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada" (Mateus 15:13). "Junto a ribeiros de águas" — de modo que, ainda que um rio venha a faltar, ele tem outro. Os rios do perdão e os rios da graça, os rios da promessa e os rios da comunhão com Cristo são fontes que nunca secam.
Ele é "como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo" — e não graças fora de tempo, como figos temporãos, que nunca têm sabor pleno. O homem que se deleita na Palavra de Deus, sendo ensinado por ela, produz paciência no tempo do sofrimento, fé no dia da provação e santa alegria na hora da prosperidade. A fertilidade é qualidade essencial do homem agraciado, e essa fertilidade tem que vir a seu tempo.
"E a sua folha não cairá": a sua palavra mais tênue será eterna, e os seus pequenos atos de amor serão lembrados. Não é só o fruto dele que será preservado, mas também a folha. Ele não perderá nem a sua beleza nem a sua fecundidade.
"E tudo quanto fizer prosperará." Bem-aventurado o homem que tem uma promessa como esta. Mas nem sempre devemos medir o cumprimento de uma promessa pelos nossos próprios olhos. Quantas vezes, meus irmãos, se julgarmos pelos sentidos fracos, não chegamos à conclusão triste de Jacó: "Todas estas coisas são contra mim!" Porque, embora saibamos que temos parte na promessa, somos de tal modo provados e atribulados que a vista enxerga justamente o contrário do que a promessa anuncia. Mas ao olho da fé esta palavra é firme, e por ela percebemos que as nossas obras prosperam mesmo quando tudo parece ir contra nós.
Não é a prosperidade exterior o que o cristão mais deseja e mais preza; é a prosperidade da alma. Muitas vezes, como Josafá, construímos navios para irem a Társis buscar ouro, e eles se quebram em Eziom-Geber. Mesmo aí existe um prosperar verdadeiro, porque muitas vezes é para a saúde da alma que nos convém ser pobres, enlutados e perseguidos. As nossas piores coisas são muitas vezes as nossas melhores coisas. Assim como há uma maldição embrulhada nas misericórdias do ímpio, há uma bênção escondida nas cruzes, nas perdas e nas tristezas do justo. As provações do santo são lavoura divina, e é por ela que ele cresce e dá fruto abundante.
Versículo 4Salmo 1:4
Chegamos agora ao segundo ponto do Salmo. Neste versículo, o contraste com o mau estado dos ímpios serve para realçar as cores daquele quadro belo e agradável que vem antes. A tradução mais enérgica da Vulgata e da versão dos Setenta é: "Não assim os ímpios, não assim." Devemos entender com isso que tudo o que se diz de bom sobre o justo não vale no caso do ímpio. Como é terrível ter uma dupla negativa posta sobre as promessas! E, no entanto, é exatamente esta a condição do ímpio.
Repare no uso do termo "ímpio". Como vimos na abertura do Salmo, estes são os principiantes no mal, e os menos ofensivos dos pecadores. Se este é o estado triste de quem segue tranquilo na sua moralidade e negligencia o seu Deus, qual não será a condição dos pecadores declarados e dos incrédulos sem pudor?
A primeira frase é uma descrição negativa do ímpio; a segunda é o retrato positivo. Aqui está o caráter dele: "são como a palha" — sem valor nenhum em si mesmos, mortos, imprestáveis, sem substância e facilmente levados. E aqui está a sua condenação: "o vento a espalha". A morte vai arrebatá-los com o seu sopro terrível para dentro do fogo, onde serão inteiramente consumidos.
Versículo 5Salmo 1:5
Eles vão estar ali de pé para serem julgados, mas não para serem absolvidos. Ali o temor vai se apoderar deles. Não se sustentarão no seu lugar, mas fugirão; não ficarão de pé em sua própria defesa, porque vão corar e ser cobertos de eterno desprezo.
Os santos bem podem suspirar pelo céu, porque nenhum homem mau vai habitar ali, "nem os pecadores na congregação dos justos". Todas as nossas congregações na terra são mistas. Toda Igreja tem um demônio dentro dela. O joio cresce nos mesmos sulcos que o trigo. Não há eira que já esteja de todo limpa da palha. Pecadores se misturam com santos, como a escória se mistura ao ouro. Os diamantes preciosos de Deus ainda estão no mesmo campo que os seixos. Deste lado do céu, os Lós justos vivem atormentados pelos homens de Sodoma.
Alegremo-nos, então, de que na "universal assembleia e igreja dos primogênitos" lá do alto não será admitida uma única alma não renovada. Os pecadores não conseguem viver no céu. Estariam fora do seu elemento. Mais depressa um peixe viveria em cima de uma árvore do que o ímpio no Paraíso. O céu seria um inferno insuportável para o homem impenitente, mesmo que o deixassem entrar; mas esse privilégio nunca será dado a quem persevera nas suas iniquidades. Que Deus nos conceda um nome e um lugar nos seus átrios lá em cima!
Versículo 6Salmo 1:6
Ou, como o hebraico diz de forma ainda mais completa: "O Senhor está conhecendo o caminho dos justos." Ele olha o tempo todo para o caminho deles e, ainda que muitas vezes esteja em névoa e escuridão, o Senhor o conhece. Se estiver entre as nuvens e a tempestade da aflição, ele o compreende. Ele conta os cabelos da nossa cabeça; não vai permitir que mal nenhum nos aconteça. "Ele conhece o caminho que eu tomo: provando-me, sairei como o ouro" (Jó 23:10).
"Mas o caminho dos ímpios perecerá." Não são só eles que vão perecer: o caminho deles perece junto. O justo grava o seu nome na rocha; o ímpio escreve a sua memória na areia. O justo abre os sulcos da terra e semeia aqui uma colheita que só será ceifada por inteiro quando ele entrar nos gozos da eternidade. O ímpio, porém, lavra o mar; e ainda que pareça haver um rastro luzente atrás da sua quilha, as ondas vão passar por cima dele, e o lugar que o conheceu não o conhecerá mais para sempre.
O próprio "caminho" do ímpio perecerá. Se ficar na memória, será na memória dos maus; porque o Senhor fará apodrecer o nome do ímpio, e esse nome se tornará fedor nas narinas dos bons, conhecido pelos próprios ímpios apenas pela podridão.
Que o Senhor purifique os nossos corações e os nossos caminhos, para escaparmos da condenação dos ímpios e gozarmos a bem-aventurança dos justos!
Obras sobre este salmo
The Way to Blessedness: a Commentary on the First Psalm. Por PHINEAS FLETCHER. Londres, 1632.
A Discourse about the State of True Happiness, pregado em certos sermões em Oxford e em Paul's Cross. Por ROBERT BOLTON. Londres, 1625.
David's Blessed Man; or, a Short Exposition on the First Psalm, directing a Man to True Happiness. Por SAMUEL SMITH, pregador da Palavra em Prittlewell, Essex. 1635. [Reimpresso na Nicol's Series of Commentaries.]
Meditations and Disquisitions upon the First Psalm of David — Blessed is the Man. Por SIR RICHARD BAKER, cavaleiro. Londres, 1640. [O mesmo volume contém Meditations upon "Seven Consolatorie Psalms of David", a saber: 23, 27, 30, 84, 103 e 116.]
The Christian on the Mount; or a Treatise concerning Meditation, em que se discutem largamente a necessidade, a utilidade e a excelência da meditação. Por THOMAS WATSON. 1660.