Salmo 104
Leia o Salmo 104 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
OBSERVAÇÕES GERAIS. Aqui temos um dos voos mais altos e mais longamente sustentados da musa inspirada. O salmo dá interpretação às muitas vozes da natureza, e canta docemente tanto a criação quanto a providência. O poema contém um cosmos completo: mar e terra, nuvem e luz do sol, planta e animal, luz e trevas, vida e morte — tudo se prova expressão da presença do Senhor.
Traços dos seis dias da criação são muito evidentes, e embora a criação do homem, que foi a obra coroada do sexto dia, não seja mencionada, isso se explica pelo fato de que o próprio homem é o cantor. Alguns já discerniram marcas do descanso divino do sétimo dia em Salmos 104:31. É uma versão poética do Gênesis.
Nem é apenas a condição presente da terra que aqui se canta; um indício se dá também daqueles tempos mais santos em que veremos "um novo céu e uma nova terra, em que habita a justiça", do qual o pecador será consumido, Salmos 104:35. O espírito de fervorosa louvação a Deus percorre tudo, e com ele uma nítida percepção do Ser divino como existência pessoal, amada e confiada, e não apenas adorada.
Não temos informação sobre o autor, mas a Septuaginta o atribui a Davi, e não vemos razão para atribuí-lo a outro. Seu espírito, estilo e maneira de escrever são muito manifestos aqui, e se o salmo deve ser atribuído a outrem, há de ser a uma mente notavelmente semelhante — e só poderíamos sugerir o sábio filho de Davi, Salomão, o poeta-pregador, a cujas notas sobre a história natural em Provérbios alguns versículos guardam impressionante parecença.
Seja quem for o punho humano, a extraordinária glória e a perfeição da autoria divina do próprio Espírito Santo são claras a toda mente espiritual.
DIVISÃO. Depois de atribuir bendição ao Senhor, o devoto salmista canta a luz e o firmamento, obras do primeiro e do segundo dia, Salmos 104:1-6. Por uma transição fácil, descreve a separação das águas da terra seca, a formação da chuva, dos regatos e dos rios, e o brotar das ervas verdes, produto do terceiro dia, Salmos 104:7-18.
Depois, a instituição do sol e da lua como guardiões do dia e da noite atrai a admiração do poeta, Salmos 104:19-23, e assim ele canta a obra do quarto dia. Já tendo aludido a muitas variedades de seres viventes, o salmista passa, de Salmos 104:24 a 104:30, a cantar a vida com que o Senhor se aprouve encher o ar, o mar e a terra; essas formas de existência foram o produto peculiar do quinto e do sexto dia.
Podemos considerar os versículos finais, Salmos 104:31-35, como uma meditação, hino e oração de sábado. Tudo isso se estende diante de nós como um panorama do universo visto pelo olhar da devoção. Que nos seja dada graça para render o devido louvor ao Senhor enquanto o lemos.
Exposição
Versículo 1Salmo 104:1
Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Este salmo começa e termina como o Centésimo Terceiro, e não poderia fazer melhor: quando o modelo é perfeito, merece existir em duplicata. O verdadeiro louvor começa em casa. É inútil incitar outros ao louvor se nós mesmos ficamos ingratamente calados. Devemos convocar o mais íntimo do coração a despertar e a se mover, pois somos propensos à letargia, e se estivermos assim quando chamados a bendizer a Deus, teremos grande motivo de vergonha. Quando magnificarmos o Senhor, façamo-lo de coração inteiro: o nosso melhor está muito aquém de sua dignidade; não o desonremos com um culto de coração dividido.
Ó Senhor meu Deus, tu és mui grande. Esta declaração traz uma notável mescla entre a ousadia da fé e o temor do santo assombro: pois o salmista chama ao Jeová infinito de "meu Deus", e ao mesmo tempo, prostrado de espanto diante da grandeza divina, exclama em total assombro: "Tu és mui grande." Deus era grande no Sinai, e no entanto as palavras iniciais de sua lei foram: "Eu sou o Senhor teu Deus"; sua grandeza não é razão para que a fé deixe de reivindicá-lo e chamá-lo todo seu.
Esta afirmação da grandeza de Jeová teria cabido muito bem ao final do salmo, pois é uma inferência natural, uma dedução do exame do universo; sua posição bem no início do poema é indício de que todo o salmo foi bem ponderado e digerido na mente antes de ser posto em palavras — só nessa hipótese se explica a emoção precedendo a contemplação.
Note-se também que a admiração expressa não se refere à criação e à sua grandeza, mas ao próprio Jeová. Não é "o universo é mui grande!", mas "TU és mui grande." Muitos param na criatura, e assim se tornam idólatras de espírito; passar adiante, até o próprio Criador, é verdadeira sabedoria.
Tu te vestes de glória e de majestade. Tu mesmo não és visto, mas as tuas obras, que se podem chamar tuas vestes, estão cheias de belezas e maravilhas que redundam em tua honra. As vestes tanto ocultam quanto revelam um homem, e assim são as criaturas de Deus. O Senhor se vê em suas obras como digno de honra por sua habilidade, sua bondade e seu poder, e como reivindicando majestade, pois formou todas as coisas em soberania, fazendo como quer, sem pedir licença a ninguém.
Cego há de ser quem não vê que a natureza é obra de um rei. Estes são traços solenes da mente mais severa de Deus, toques terríveis de seus atributos mais rígidos, largas linhas de mistério insondável e sombras profundas de poder avassalador, e estes fazem do quadro da criação um problema jamais solúvel, exceto admitindo que aquele que o traçou não presta contas de seus atos, mas rege todas as coisas segundo o beneplácito de sua vontade.
Sua majestade, porém, sempre se manifesta de modo a refletir honra sobre todo o seu caráter; ele faz o que quer, mas só quer aquilo que é três vezes santo, como ele mesmo. As próprias vestes do Espírito invisível nos ensinam isso, e cabe a nós reconhecê-lo com humilde adoração.
Versículo 2Salmo 104:2
Tu, que te cobres de luz como de uma veste: envolvendo a luz em torno de si como um monarca veste seu manto. A concepção é sublime; mas nos faz sentir quão inteiramente inconcebível deve ser a glória pessoal do Senhor. Se a própria luz é apenas sua veste e seu véu, qual será o esplendor flamejante de sua essência própria! Ficamos perdidos de assombro, e não ousamos perscrutar o mistério, para não sermos cegados por sua glória insuportável.
Que estendes os céus como uma cortina — dentro da qual ele pudesse habitar. A luz foi criada no primeiro dia, e o firmamento no segundo, de modo que se seguem com propriedade neste versículo. Príncipes orientais vestem seus trajes gloriosos e depois se assentam em estado por trás de cortinas, e é sob essa imagem que se fala do Senhor; mas quão acima de toda compreensão a figura deve ser elevada, já que o manto é luz essencial, à qual sóis e luas devem seu brilho, e a cortina é o céu azul cravejado de estrelas por joias.
Este é um argumento substancial para a verdade com que o salmista iniciou seu canto: "Ó Senhor meu Deus, tu és mui grande."
Versículo 3Salmo 104:3
Que estabelece as vigas dos seus aposentos nas águas. Seus altos salões são armados com as águas que estão acima do firmamento. Os aposentos superiores da grande casa de Deus, os andares secretos muito além do nosso alcance, as câmaras palacianas em que ele reside, assentam-se sobre as correntes que formam o oceano de cima. Ao insubstancial ele empresta estabilidade; não precisa de vigas nem caibros, pois seu palácio se sustenta pelo próprio poder dele. Não devemos interpretar ao pé da letra onde a linguagem é poética; seria pura tolice fazê-lo.
Que faz das nuvens o seu carro. Quando sai de seu pavilhão secreto, é assim que ele faz seu cortejo real. É carro de ira que as nuvens de trovão profundo formam, e seu carro de misericórdia derrama fartura ao atravessar a estrada celeste.
Que anda — ou melhor, caminha — sobre as asas do vento. Com as nuvens por carruagem e os ventos por corcéis alados, o Grande Rei apressa seus movimentos, seja para a misericórdia, seja para o juízo. Temos assim a ideia de um rei ainda mais elaborada — seu alto palácio, seu carro e seus corcéis estão diante de nós; mas que palácio devemos imaginar, cujas vigas são de cristal, e cuja base é vapor consolidado!
Que carro majestoso é este, forjado das nuvens voadoras, cujas cores suntuosas nem Salomão em toda a sua glória poderia rivalizar; e que marcha digna de Deus é esta, em que asas de espírito e sopro de ventos sustentam o trono em movimento. "Ó Senhor, meu Deus, tu és mui grande!"
Versículo 4Salmo 104:4
Que faz dos seus anjos espíritos; ou "vento", pois a palavra significa uma coisa ou outra. Os anjos são espíritos puros, embora lhes seja permitido assumir forma visível quando Deus deseja que os vejamos. Deus é espírito, e é servido por espíritos em suas cortes régias. Os anjos se assemelham aos ventos em mistério, força e invisibilidade, e sem dúvida os próprios ventos são muitas vezes os anjos ou mensageiros de Deus. Deus, que faz de seus anjos ventos, pode também fazer dos ventos seus anjos, e assim é constantemente na economia da natureza.
E dos seus ministros um fogo abrasador. Aqui também podemos escolher entre dois sentidos: Deus faz seus ministros ou servos tão velozes, potentes e terríveis quanto o fogo, e, por outro lado, faz do fogo, esse elemento devorador, seu ministro, flamejando em seus recados. Que a passagem se refere a anjos é claro por Hebreus 1:7; e era muitíssimo próprio mencioná-los aqui em ligação com a luz e os céus, logo depois das vestes e da carruagem do Grande Rei.
Não devia o séquito do Senhor dos Exércitos ser mencionado tanto quanto o seu carro? Teria sido falha na descrição do universo se os anjos não tivessem sido aludidos, e este é o lugar mais próprio para sua introdução. Quando pensamos nos poderes extraordinários confiados aos seres angélicos, e na misteriosa glória dos serafins e dos quatro seres viventes, somos levados a refletir sobre a glória do Senhor a quem servem, e de novo clamamos com o salmista: "Ó Senhor, meu Deus, tu és mui grande."
Versículo 5Salmo 104:5
Que fundou a terra sobre suas bases. Assim se descreve o início da criação, quase nas mesmas palavras empregadas pelo próprio Senhor em Jó 38:4: "Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina?" E as palavras se encontram na mesma ligação, pois o Senhor prossegue dizendo: "Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam."
Para que nunca mais seja abalada. A linguagem é, naturalmente, poética, mas o fato nem por isso é menos maravilhoso: a terra está posta no espaço de tal modo que permanece tão estável como se fosse coisa fixa. Os diversos movimentos do nosso planeta se realizam de forma tão silenciosa e uniforme que, no que nos toca, tudo é tão permanente e sereno quanto se a velha noção de que ela repousava sobre colunas fosse literalmente verdadeira.
Com que delicadeza o grande Artífice equilibrou o nosso globo! Que poder deve haver naquela mão que fez um corpo tão vasto conhecer sua órbita e nela mover-se tão suavemente! Que engenheiro consegue livrar cada parte de sua maquinaria de um sacão, um solavanco ou um atrito ocasional? No entanto, ao nosso grande mundo, em seus movimentos complicados, jamais sucedeu tal coisa. "Ó Senhor, meu Deus, tu és mui grande."
Versículo 6Salmo 104:6
Tu a cobriste com o abismo como de uma veste. A terra recém-nascida foi envolvida em faixas aquosas. Nas primeiras eras, antes que o homem aparecesse, as águas soberbas dominavam toda a terra. As águas ficavam acima dos montes, nenhuma terra seca era visível, e vapor como de um caldeirão fumegante cobria tudo.
Os geólogos nos informam disso como uma descoberta, mas o Espírito Santo já havia revelado o fato muito antes. A passagem diante de nós nos mostra o Criador iniciando sua obra, lançando o fundamento para a ordem e a beleza futuras: pensar nisso com reverência nos encherá de adoração; concebê-lo de modo grosseiro e carnal seria altamente blasfemo.
Versículo 7Salmo 104:7
À tua repreensão fugiram; à voz do teu trovão apressadamente se retiraram. Quando as águas e os vapores cobriam tudo, bastou ao Senhor falar, e no mesmo instante desapareceram. Como se fossem agentes inteligentes, as ondas se apressaram para os abismos designados e deixaram a terra livre; então os montes ergueram suas cabeças, as terras altas se levantaram do oceano, e por fim continentes e ilhas, encostas e planícies ficaram prontos para formar a terra habitável.
A voz do Senhor operou essa grande maravilha. Não é sua palavra suficiente para toda emergência? Não é bastante potente para realizar o maior dos milagres? Por essa mesma palavra as águas caudalosas da tribulação serão contidas, e as ondas bramantes do pecado, repreendidas: virá o dia em que, ao trovão da voz de Jeová, todas as águas soberbas do mal se apressarão a fugir de vez. "Ó Senhor, meu Deus, tu és mui grande."
Versículo 8Salmo 104:8
As águas vencidas passam agora a ser obedientes. Sobem aos montes, escalando em forma de nuvens até os cumes dos Alpes. Descem aos vales, ao lugar que lhes designaste: estão tão dispostas a descer em chuva, riachos e torrentes quanto estiveram ansiosas por subir em névoas.
A lealdade das águas poderosas às leis de seu Deus é notabilíssima; a inundação feroz, a corrente turbulenta, a torrente tremenda são apenas formas daquele mesmo orvalho suave que treme sobre a mínima lâmina de relva, e mesmo nessas formas mais rudes são igualmente obedientes às leis que seu Criador lhes impôs. Nem sequer uma partícula solitária de espuma jamais rompe fileira ou viola a ordem do Senhor do mar e da terra, nem as catadupas assustadoras e as inundações terríveis se rebelam contra o seu domínio.
É belíssimo, entre os montes, contemplar o sistema divino de abastecimento das águas — a subida dos vapores felpudos, a destilação do fluido puro, a alegria com que o elemento recém-nascido salta pelos rochedos para alcançar os rios, e o ímpeto vigoroso com que os rios buscam o oceano, seu lugar designado.
Versículo 9Salmo 104:9
Puseste-lhes um limite que não devem transpor — não voltarão a cobrir a terra. Esse limite foi ultrapassado uma vez, mas jamais o será outra vez. O dilúvio foi causado pela suspensão do mandato divino que continha as águas: elas conheciam sua antiga supremacia, e se apressaram a reafirmá-la, mas agora a promessa da aliança impede para sempre o retorno daquele carnaval de águas, daquela revolta das ondas — não deveríamos antes chamá-la o ímpeto arrebatado das águas indignadas, a vingar a honra ferida de seu Rei, a quem os homens haviam ofendido?
A palavra de Jeová delimita o oceano, usando apenas uma estreita faixa de areia para contê-lo em seus próprios limites: essa barreira aparentemente frágil cumpre todo o propósito, pois o mar é obediente como uma criancinha à ordem de seu Criador. A destruição dorme no leito do oceano, e embora nossos pecados bem pudessem despertá-la, suas amarras são fortalecidas pela misericórdia da aliança, de modo que não pode soltar-se de novo sobre os filhos culpados dos homens.
Versículo 10Salmo 104:10
Envia as fontes pelos vales, que correm por entre os montes. Esta é uma bela parte do arranjo que o Senhor deu às águas submetidas: elas encontram saídas por onde saltam em liberdade, ali onde sua presença será benéfica no mais alto grau. Existem depressões nas encostas dos montes, e por elas os regatos são feitos correr, muitas vezes nascendo de fontes borbulhantes que brotam das entranhas da terra.
É Deus quem envia essas fontes, como um jardineiro que faz os cursos d'água e desvia a corrente com o pé. Quando as águas estão confinadas no abismo, o Senhor lhes fixa o limite, e quando brincam em liberdade, ele as envia adiante.
Versículo 11Salmo 104:11
Dão de beber a todos os animais do campo. Quem mais lhes daria água, se não o Senhor? São seu gado, e por isso ele os conduz à bebida. Nenhum deles lhe é esquecido. Os jumentos selvagens matam a sede. O bom Senhor lhes dá o bastante, e de sobra. Eles conhecem a manjedoura do seu Amo.
Embora não suportem freio nem rédea de homem, e o homem os denuncie como indomáveis, aprendem do Senhor, e sabem muito melhor que o homem onde corre o cristal refrescante do qual precisam beber ou morrer. São apenas jumentos, e selvagens, e ainda assim nosso Pai celestial cuida deles. Não cuidará ele também de nós?
Vemos aqui, também, que nada é feito em vão; embora nenhum lábio humano se umedeça no regato do vale solitário, há outras criaturas que precisam de refrigério, e essas saciam a sede na corrente. Será isso nada? Deve tudo existir para o homem, ou então ser desperdiçado? O que, senão nosso orgulho e nosso egoísmo, poderia sugerir tal noção?
Não é verdade que as flores que desabrocham sem olhos humanos que as vejam desperdicem sua doçura, pois a abelha as encontra, e outros andarilhos alados vivem de seus sucos suculentos. O homem é apenas uma criatura entre as muitas que o Pai celestial alimenta e dá de beber.
Versículo 12Salmo 104:12
Junto a elas habitarão as aves do céu, que cantam entre os ramos. Que refrescantes estas palavras! Que memórias felizes despertam de cachoeiras espadanando e ramos entrelaçados, onde o alegre estrondo da água que cai e corre forma uma espécie de fundo sólido de música, e as doces notas melodiosas das aves são as luzes mais claras e cintilantes na harmonia.
Belas avezinhas, cantai! Que coisa melhor podeis fazer, e quem pode fazê-la melhor? Quando nós também bebermos do rio de Deus e comermos do fruto da árvore da vida, bem nos convém "cantar entre os ramos". Onde habitais, cantais; e não nos alegraremos nós no Senhor, que tem sido nossa morada em todas as gerações?
Ao voarmos de ramo em ramo, entoais vossas notas, e assim faremos nós ao passarmos pelo tempo rumo à eternidade. Não convém que as aves do Paraíso sejam superadas pelas aves da terra.
Versículo 13Salmo 104:13
Ele rega os montes desde os seus aposentos. Como os montes são altos demais para serem regados por rios e regatos, o próprio Senhor os refresca com aquelas águas acima do firmamento, que o poeta descreveu num versículo anterior como as câmaras superiores do céu. As nuvens ficam retidas entre os cumes das montanhas, e inundam as encostas com chuva fertilizante. Onde o homem não pode chegar, o Senhor pode; onde nenhum outro pode regar com graça, ele pode; e onde falham todas as reservas de refrigério, ele pode suprir tudo o que é preciso a partir dos seus próprios salões.
A terra se farta do fruto das tuas obras. O resultado da obra divina é a fartura por toda parte: o solo se satura de chuva, a semente germina, os animais bebem, as aves cantam — nada fica sem provisão. Assim também é na nova criação: ele dá mais graça, enche o seu povo de bens, e faz com que todos confessem: "de sua plenitude recebemos todos, e graça sobre graça."
Versículo 14Salmo 104:14
Faz brotar a erva para o gado, e a planta para o serviço do homem. A relva cresce tanto quanto as plantas, pois o gado precisa ser alimentado tanto quanto os homens. Deus designa à criatura mais humilde a sua porção e cuida para que ela a tenha: o poder divino se manifesta tão verdadeira e tão dignamente no alimentar dos animais quanto no criar do homem; observe apenas uma lâmina de relva com olhar devoto, e você verá Deus trabalhando dentro dela.
A planta é para o homem, e ele precisa lavrar o solo, ou ela não brotará; e no entanto é Deus quem a faz crescer no jardim, o mesmo Deus que fez a relva crescer nos pastos abertos do deserto. O homem esquece isso e fala de sua produção, mas na verdade, sem Deus, ele lavraria e semearia em vão. O Senhor faz brotar cada lâmina verde e amadurecer cada espiga; basta observar com olhos abertos, e você verá o Senhor caminhando pelos campos de trigo.
Para que produza da terra o alimento. Tanto a relva para o gado quanto o trigo para o homem são alimento tirado da terra, e são sinais de que era desígnio de Deus que o próprio pó sob nossos pés, que parece mais apto a nos sepultar do que a nos sustentar, fosse na verdade transformado no sustento da vida.
Quanto mais pensamos nisso, mais maravilhoso parecerá. Quão grande é esse Deus que, dentre os sepulcros, encontra o sustento da vida, e do solo que foi amaldiçoado tira as bênçãos do trigo, do vinho e do azeite.
Versículo 15Salmo 104:15
E o vinho que alegra o coração do homem. Com a ajuda das chuvas benignas, a terra produz não apenas o necessário, mas também o luxo, aquilo que oferece um banquete além do que oferece uma refeição. Quem dera o homem fosse sábio o bastante para saber usar este produto alegrador da videira; mas, ai, muitas vezes o volta em mau proveito, e com ele se degrada. Disso ele mesmo deve levar a culpa; merece ser infeliz quem transforma até as bênçãos em maldições.
E o azeite que faz reluzir o seu rosto. Os orientais usam o azeite mais do que nós, e talvez sejam mais sábios que nós nesse aspecto: comprazem-se em ungir-se com óleos perfumados, e consideram o brilho do rosto um emblema seleto da alegria. Deus deve ser louvado por todos os produtos do solo, dos quais nenhum poderia nos chegar se ele não os fizesse crescer.
E o pão que fortalece o coração do homem. Os homens têm mais coragem depois de alimentados: muito espírito abatido já se consolou com uma boa e substancial refeição. Devemos bendizer a Deus tanto pela força do coração quanto pelo vigor do braço, pois, se as possuímos, ambas são generosidades de sua bondade.
Versículo 16Salmo 104:16
O regar dos montes não produz apenas a relva e as plantas cultivadas, mas também a espécie mais nobre de vegetação, que não entra no âmbito do cultivo humano:
"Suas veias de umidade benigna nutridas,
as florestas de Jeová erguem a fronte:
nem de outra mão senão da que as protege
teus cedros, Líbano, precisam."
As árvores do Senhor — as maiores, as mais nobres e as mais régias das árvores; aquelas também que não pertencem a homem algum, nem foram tocadas por sua mão. Fartam-se de seiva, ou estão fartas, ricamente providas, ricamente regadas, de modo que se tornam, como os cedros, cheias de resina, transbordando de vida, e verdejantes o ano todo.
Os cedros do Líbano, que ele plantou. Crescem onde ninguém jamais pensou em plantá-los, onde por séculos passaram despercebidos, e onde, neste exato momento, são gigantescos demais para que o homem os pode podar. O que teria dito nosso salmista diante de algumas das árvores do vale de Yosemite? Verdadeiramente estas merecem ser chamadas árvores do Senhor, por sua estatura imponente e sua enorme circunferência.
Assim se vê que o cuidado de Deus é eficaz e plenamente suficiente. Se árvores das quais o homem não cuida estão ainda tão fartas de seiva, podemos ter certeza de que o povo de Deus, que pela fé vive somente do Senhor, será igualmente bem sustentado. Plantados pela graça, e devendo tudo ao cuidado do nosso Pai celestial, podemos desafiar o furacão e rir do medo da seca, pois nenhum dos que nele confiam ficará jamais sem água.
Versículo 17Salmo 104:17
Onde as aves fazem seus ninhos: quanto à cegonha, os ciprestes são a sua casa. Longe de estarem necessitadas, estas árvores de Deus dão abrigo a outras criaturas; aves pequenas e grandes fazem seus ninhos entre os ramos. Assim, o que recebem do grande Senhor, procuram devolver às suas criaturas mais fracas.
Como uma coisa se encaixa na outra nesta bela criação, cada elo puxando o seu semelhante: as chuvas regam os ciprestes, e os ciprestes se tornam o lar feliz das aves; assim as nuvens de trovão constroem a casa do pardal, e a chuva que desce sustenta a base do ninho da cegonha. Observe, também, como tudo tem seu uso — os ramos oferecem um lar para as aves; e cada ser vivo tem sua acomodação — a cegonha encontra uma casa nos pinheiros.
Seu ninho é chamado de casa porque essa ave exibe virtudes domésticas e amor materno que fazem seus filhotes comparáveis a uma família. Sem dúvida este antigo escritor já vira ninhos de cegonha em ciprestes; costumam construir sobre casas e ruínas, mas há também evidência de que, onde existem florestas, se contentam com pinheiros.
Já caminhou o leitor por uma floresta de grandes árvores e sentiu o temor reverente que toma o coração na sublime catedral da natureza? Então há de se lembrar de ter sentido que cada ave era sagrada, por habitar em tão sacra solidão. Aqueles que não conseguem ver ou ouvir Deus senão em edifícios góticos, ao som de órgãos e vozes de coro paramentado, não conseguirão entrar no sentimento que faz a alma simples e não sofisticada ouvir "a voz do Senhor Deus, que andava no jardim."
Versículo 18Salmo 104:18
Os altos montes são refúgio para as cabras montesas; e os rochedos, para os arganazes. Todos os lugares fervilham de vida. Chamamos nossas cidades de populosas, mas não estarão as florestas e os altos montes mais densamente povoados de vida? Falamos de lugares inabitáveis, mas onde estão eles? A gamurça salta de rochedo em rochedo, e o coelho escava a terra. Para uma criatura, a altura dos montes; para outra, o oco dos rochedos — cada qual serve de proteção:
"Longe, sobre os rochedos, a cabra montesa vagueia,
os rochedos dão ao arganaz sua morada."
Assim toda a terra está cheia de vida feliz, cada lugar tem seu habitante próprio, nada está vazio, vão nem desperdiçado. Veja como cabras, cegonhas, arganazes e pardais, cada um contribui com um verso ao salmo da natureza; não temos nós também nossos cânticos para entoar ao Senhor? Por pequenos que sejamos na escala das coisas importantes, preencha cada um sua esfera, e assim honremos o Senhor que nos fez com um propósito.
Versículo 19Salmo 104:19
A ordem estabelecida para as grandes luzes é agora o tema do louvor. A lua é mencionada primeiro, pois no dia judaico é a noite que abre caminho. Ele fez a lua para as estações. Pelo minguar e crescer da lua, o ano se divide em meses e semanas, e por esse meio se fixavam as datas exatas dos dias santos. Assim a lâmpada da noite é posta a serviço do homem, e, ao fixar o período das assembleias religiosas (como fazia entre os judeus), entra em ligação com o que ele tem de mais nobre. Nunca consideremos os movimentos da lua como resultado inevitável de uma lei impessoal e inanimada, mas como a ordenação do nosso Deus.
O sol sabe o seu ocaso. Em imagem finamente poética, o sol é representado como sabendo quando se retirar da vista, e afundar abaixo do horizonte. Nunca se demora pelo caminho, nem hesita como se estivesse indeciso sobre quando descer; sua hora designada para se pôr, embora esteja constantemente variando, ele sempre cumpre até o segundo. Nós precisamos ser despertados de manhã, mas ele se ergue pontualmente, e embora alguns precisem consultar o relógio para saber a hora do repouso, ele, sem relógio algum a consultar, se esconde no céu ocidental no exato instante em que chega a hora marcada. Por tudo isso o homem deve louvar o Senhor do sol e da lua, que fez estas grandes luzes serem nossos cronômetros, e assim mantém nosso mundo em ordem, sem sofrer confusão que nos perturbe.
Versículo 20Salmo 104:20
Tu fazes as trevas, e vem a noite. Correndo as cortinas para nós, ele prepara nosso quarto de dormir para que possamos descansar. Se não houvesse trevas, suspiraríamos por elas, pois acharíamos o repouso muito mais difícil, se o dia cansado jamais se aquietasse em noite. Vejamos a mão de Deus no véu do sol, e nunca temamos a escuridão, seja natural, seja providencial, pois ambas são feitas pelo próprio Senhor.
Nela se arrastam todos os animais do bosque. É então o dia do leão, sua hora de caçar o alimento. Por que não teria o animal selvagem sua hora, tal como o homem? Ele tem um serviço a cumprir; não deveria também ter seu alimento? A escuridão convém mais aos animais do que ao homem; e os homens mais brutais são os que amam mais as trevas do que a luz. Quando as trevas da ignorância pairam sobre uma nação, então toda sorte de superstições, crueldades e vícios abundam; o evangelho, como o nascer do sol, logo limpa o mundo das devastações abertas destes monstros, e eles buscam moradas mais congeniais. Vemos aqui o valor da luz verdadeira, pois podemos ter certeza: onde há noite, também haverá animais selvagens para matar e devorar.
Versículo 21Salmo 104:21
Os leõezinhos rugem atrás da presa, e buscam de Deus o seu alimento. Esta é a interpretação poética de um rugido. A quem rugem os leões? Certamente não à sua presa, pois o som terrível tende a alarmar suas vítimas e afugentá-las. Eles, à sua maneira, expressam seu desejo de alimento, e a expressão do desejo é uma espécie de oração.
Deste fato nasce o pensamento devoto de que o animal selvagem apela ao seu Criador por comida. Mas nem para os leões nem para os homens basta a busca da oração; é preciso também a busca prática, e os leões bem o sabem. O que pediram, à sua própria linguagem, saem a buscar; sendo nisso muito mais sábios que muitos homens, que oferecem orações formais nem de longe tão fervorosas quanto as dos leõezinhos, e depois negligenciam os meios pelos quais o objeto de suas petições poderia ser alcançado.
Os leões rugem e buscam; muitos são mentirosos diante de Deus, e rugem, mas nunca buscam. Como é reconfortante o pensamento de que o Espírito traduz a voz de um leão e a acha ser uma busca de alimento junto a Deus! Não poderemos esperar que nossos pobres clamores e gemidos quebrados, que em nossa aflição chamamos "a voz do nosso rugido", Salmos 22:1, sejam entendidos por ele, e interpretados a nosso favor? Evidentemente ele considera o sentido, mais do que a música da expressão, e lhe dá a melhor interpretação.
Versículo 22Salmo 104:22
O sol se levanta. Cada noite tem sua manhã, para fazer o dia. Se não víssemos o sol nascer tão frequentemente, o teríamos como o maior dos milagres, e a mais assombrosa das bênçãos.
Eles se ajuntam, e se deitam em suas covas. Assim ficam fora do caminho do homem, e ele raramente os encontra, a não ser que o deseje. Os guerreiros da floresta se recolhem a seus quartéis quando se ouve o tambor da manhã, encontrando nos recessos de suas covas uma escuridão própria para seu sono; ali se deitam e digerem seu alimento, pois Deus repartiu também a eles sua porção de descanso e prazer. Houve um que, neste aspecto, foi mais pobre que leões e raposas, pois não tinha onde reclinar a cabeça: todos foram providos, exceto o seu Provedor encarnado. Bendito Senhor, tu te curvaste abaixo da condição dos brutos, para erguer homens piores que brutos!
É muitíssimo notável como o Senhor controla os mais ferozes dos animais com muito mais facilidade do que o pastor governa suas ovelhas. Ao cair da noite, eles se separam e saem, cada um em sua misericordiosa incumbência de acabar com as misérias dos doentes e decrépitos entre os animais herbívoros. Os mais jovens desses animais, sendo rápidos de pés, facilmente lhes escapam e se beneficiam do exercício, e na maior parte só são alcançados e mortos aqueles para quem a vida teria sido uma agonia prolongada. Nesse sentido, os leões são mensageiros de misericórdia, e são enviados por Deus tanto quanto o cão de caça é enviado pelo homem em seus recados.
Mas estes poderosos caçadores não podem estar sempre à solta; precisam voltar às suas tocas quando o homem entra em cena. Quem ajuntará estas criaturas ferozes e as encerrará? Quem as acorrentará e as tornará inofensivas? O sol basta para isso. Ele é o verdadeiro domador de leões. Eles se ajuntam como se fossem tantas ovelhas, e em seus próprios refúgios se mantêm prisioneiros até que a escuridão que retorna lhes conceda outra licença para vaguear.
Por meios simplesmente majestosos, os propósitos divinos se cumprem. De modo semelhante, até os demônios estão sujeitos a nosso Senhor Jesus, e pela simples difusão da luz do evangelho estes demônios rugidores são expulsos do mundo. Não há necessidade de milagres ou demonstrações de poder físico: o Sol da Justiça se levanta, e o diabo, e os falsos deuses, e as superstições e os erros dos homens, todos buscam seus esconderijos nos lugares escuros da terra, entre as toupeiras e os morcegos.
Versículo 23Salmo 104:23
O homem sai. Chegou a sua vez, e o nascer do sol preparou tudo para ele. Deixa seu leito quente e as comodidades do lar para buscar o alimento diário; este trabalho lhe é bom, tanto por mantê-lo longe do mal, quanto por exercitar suas faculdades. Para o seu trabalho e para a sua lida até a tarde. Ele sai não para folgar, mas para trabalhar; não para vadiar, mas para labutar; ao menos, esta é a sorte da melhor parte da humanidade.
Fomos feitos para o trabalho, e devemos trabalhar, e nunca deveríamos resmungar que assim foi ordenado. As horas de trabalho, porém, não deveriam ser demasiado longas. Se o trabalho dura o equivalente ao dia de luz, isso é certamente tudo o que qualquer homem deveria esperar de outro; e no entanto há pobres criaturas tão mal pagas que em doze horas não conseguem ganhar pão suficiente para se livrarem da fome. Vergonha para os que ousam impor tal fardo a mulheres e crianças indefesas. O trabalho noturno também deveria ser evitado o máximo possível. Há doze horas em que o homem deve trabalhar: a noite é destinada ao descanso e ao sono.
A noite, então, tanto quanto o dia, tem sua voz de louvor. É mais suave e recolhida, mas nem por isso menos verdadeira. A lua ilumina um solene silêncio de adoração entre os pinheiros, através do qual o vento noturno respira suavemente suas "canções sem palavras". De vez em quando um som se ouve, que, por mais simples que seja de dia, soa entre as sombras assustador e estranho, como se a presença do desconhecido tivesse enchido o coração de tremor, e feito sentir a influência do Infinito.
A imaginação desperta; a incredulidade acha o silêncio e a solenidade desagradáveis; a fé olha para os céus acima de si e vê as coisas celestiais com mais clareza ainda na ausência da luz do sol, e a adoração se curva diante do Grande Invisível! Há espíritos que guardam as vigílias da noite, e o encanto de sua presença já foi sentido por muitos peregrinos nas solidões da natureza: também Deus mesmo está fora, a noite inteira, e a glória que se oculta é muitas vezes sentida como ainda maior que a que se revela. Bendize, ó minha alma, ao Senhor.
Versículo 24Salmo 104:24
Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras. Não são apenas muitas em número, mas multiformes em variedade. Mineral, vegetal, animal — que amplitude de obras estes três nomes sugerem! Nem mesmo duas da mesma classe são exatamente iguais, e as classes são mais numerosas do que a ciência pode contar. Obras nos céus acima, e na terra abaixo, e nas águas debaixo da terra; obras que perduram pelas eras, obras que chegam à perfeição e passam num ano, obras que, com toda a sua beleza, não sobrevivem a um dia; obras dentro de obras, e obras dentro destas — quem pode contar uma entre mil?
Deus é o grande operário, o ordenador da variedade. Cabe a nós estudar suas obras, pois são grandes, e buscadas por todos os que nelas se comprazem. O reino da graça contém obras tão multiformes e tão grandes quanto o da natureza, mas só os escolhidos do Senhor as discernem.
Em sabedoria as fizeste todas, ou as forjaste todas. Todas são suas obras, forjadas pelo seu próprio poder, e todas exibem sua sabedoria. Foi sábio fazê-las como são — nenhuma poderia faltar; cada elo é essencial à cadeia da natureza — os animais selvagens tanto quanto os homens, os venenos tanto quanto as ervas odoríferas. São sabiamente feitas — cada uma se encaixa em seu lugar, o preenche, e é feliz em assim fazê-lo. Como um todo, o "todas" da criação é uma obra sábia, e por mais que esteja entremeada de mistérios e nublada de terrores, tudo coopera para o bem, e, como uma única peça harmoniosa e completa de artesanato, responde ao propósito do grande Operário.
A terra está cheia das tuas riquezas. Não é uma casa pobre, mas um palácio; não uma ruína faminta, mas um depósito bem provido. O Criador não colocou suas criaturas numa morada onde a mesa está vazia e a despensa desprovida; ele encheu a terra de alimento; e não só do necessário puro, mas de riquezas — iguarias, luxos, belezas, tesouros. Nas entranhas da terra escondem-se minas de riqueza, e em sua superfície fervilham colheitas de fartura.
Todas essas riquezas são do Senhor; deveríamos chamá-las não "a riqueza das nações", mas "as tuas riquezas", ó Senhor! Não é em um só clima que se encontram essas riquezas de Deus, mas em todas as terras — até o oceano Ártico tem suas coisas preciosas, que os homens suportam grande dificuldade para conquistar, e o sol ardente do equador amadurece uma produção que tempera o alimento de toda a humanidade. Se sua casa aqui embaixo está tão cheia de riquezas, o que dizer de sua casa lá em cima, onde
"As próprias ruas são pavimentadas de ouro,
De um brilho límpido e fino"?
Versículo 25Salmo 104:25
Eis este mar grande e espaçoso. Dá ele um exemplo do número e da variedade imensos das obras de Jeová, apontando para o mar. "Vede", diz ele, "aquele oceano, estendendo-se para os dois lados e abraçando tantas terras; também ele fervilha de vida animal, e em seus abismos jazem tesouros incontáveis. Os gentios faziam do mar uma província diferente da terra, e davam seu comando a Netuno, mas nós sabemos com certeza que Jeová governa as ondas."
Nele há répteis sem número, animais pequenos e grandes; leia-se coisas que se movem e animais pequenos e grandes, e temos o sentido verdadeiro. O número de formas minúsculas de vida animal é, na verdade, incontável: quando uma única onda fosforescente pode carregar milhões de infusórios, e em torno de um fragmento de rocha exércitos de seres microscópicos podem se reunir, renunciamos a toda ideia de aplicar aritmética a tal caso.
O mar, em muitas regiões, parece estar todo vivo, como se cada gota fosse um mundo. Nem são essas pequenas criaturas as únicas habitantes do mar, pois ele contém mamíferos gigantescos que excedem em volume os que percorrem a terra, e uma vasta multidão de peixes enormes que vagueiam entre as ondas, escondendo-se nas cavernas do mar como o tigre se oculta na selva, ou o leão vagueia pela planície. Verdadeiramente, ó Senhor, tu fazes o mar tão rico nas obras das tuas mãos quanto a própria terra.
Versículo 26Salmo 104:26
Ali andam os navios. De modo que aquele oceano não é de todo deserto de gente. É a estrada das nações, e une, mais do que separa, terras distantes.
Ali está o leviatã, que tu formaste para nele folgar. Aquela baleia enorme faz do mar seu terreno de recreio, e ali se diverte, como Deus determinou que fizesse. O pensar nessa criatura assombrosa levou o salmista a adorar o poderoso Criador que a criou, formou-a para o seu lugar, e a fez feliz nele. Nossos mapas antigos costumam representar um navio e uma baleia sobre o mar, mostrando assim quão natural, tanto quanto poético, é ligar ambos à menção do oceano.
Versículo 27Salmo 104:27
Todos estes esperam de ti. Vêm à tua volta como as aves ao redor da porta do fazendeiro na hora da ração, e olham com expectativa. Homens ou marmotas, águias ou formigas, baleias ou peixinhos, todos igualmente confiam no teu cuidado.
Para lhes dares o mantimento a seu tempo; isto é, quando dele precisam, e quando está pronto para eles. Deus tem um tempo para todas as coisas, e não alimenta suas criaturas aos arrancos; dá-lhes o pão de cada dia, em quantidade proporcional às suas necessidades. Isto é tudo que qualquer de nós deveria esperar; se até as criaturas brutas se contentam com o suficiente, não devemos ser mais gananciosos do que elas.
Versículo 28Salmo 104:28
O que tu lhes dás, eles recolhem. Deus o dá, mas eles precisam recolhê-lo, e se alegram por assim fazer, pois de outro modo seu recolher seria em vão. Esquecemos muitas vezes que os animais e as aves, em sua vida livre, têm de trabalhar para obter alimento, tal como nós; e ainda assim é verdade, tanto com eles quanto conosco, que nosso Pai celestial alimenta a todos. Quando vemos os pintinhos catando o milho que a dona de casa espalha do avental, temos uma boa ilustração da maneira pela qual o Senhor supre as necessidades de todo ser vivo — ele dá, e eles recolhem.
Abres a tua mão, e eles se fartam de bens. Aqui está a liberalidade divina, com sua mão aberta, enchendo criaturas necessitadas até que não queiram mais; e aqui está a onipotência divina, alimentando um mundo apenas abrindo a mão. Que seria de nós se aquela mão se fechasse? Não haveria necessidade de golpe algum; o simples fechá-la produziria a morte pela fome. Louvemos o Senhor de mão aberta, cuja providência e graça saciam nossa boca de coisas boas.
Versículo 29Salmo 104:29
Escondes o teu rosto, e eles se perturbam. Tão dependentes estão todos os seres vivos do sorriso de Deus, que um cenho carregado os enche de terror, como se fossem convulsionados de angústia. Assim é no mundo natural, e certamente não menos no espiritual: os santos, quando o Senhor esconde o rosto, ficam em terrível perplexidade.
Tiras-lhes o fôlego, e morrem, e voltam ao seu pó. O fôlego parece coisa trivial, e o ar uma substância impalpável de pouca importância; contudo, uma vez retirado, o corpo perde toda a vitalidade, e volta a esfarelar-se na terra de onde originalmente foi tirado. Todos os animais estão sob essa lei, e nem os habitantes do mar dela estão isentos. Tão dependente está toda a natureza da vontade do Eterno.
Note-se aqui que a morte é causada pelo ato de Deus: "tiras-lhes o fôlego"; somos imortais até que ele ordene que morramos, e assim também os pequenos pardais, que não caem ao chão sem o nosso Pai.
Versículo 30Salmo 104:30
Envias o teu espírito, e são criados; e renovas a face da terra. A perda do fôlego os destrói, e pelo hálito de Jeová se cria uma nova geração. As obras do Senhor são majestosamente simples, e se realizam com desenvoltura régia — um sopro cria, e sua retirada destrói.
Se lermos "espírito" como está em nossa versão, isso também é instrutivo, pois vemos o Espírito Divino saindo para criar vida na natureza, tal como o vemos nos domínios da graça. No dilúvio, o mundo foi despojado de quase toda vida; e no entanto, com que presteza o poder de Deus repovoou os lugares desolados! No inverno, a terra cai num sono que a faz parecer gasta e envelhecida, mas com que prontidão o Senhor a desperta com a voz da primavera, e a faz vestir de novo a beleza da sua juventude. Tu, Senhor, fazes todas as coisas, e a ti seja dada a glória do teu nome.
Versículo 31Salmo 104:31
A glória do Senhor durará para sempre. Suas obras podem passar, mas não sua glória. Nem que fosse só pelo que já fez, o Senhor merece ser louvado sem cessar. Seu próprio ser e caráter garantem que ele seria glorioso, ainda que todas as criaturas estivessem mortas.
O Senhor se alegrará nas suas obras. Assim foi no princípio, quando descansou no sétimo dia e viu que tudo era muito bom; assim é ainda, em certa medida, onde a beleza e a pureza na natureza ainda sobrevivem à Queda; e assim será ainda mais plenamente quando a terra for renovada, e o rastro da serpente for limpo do globo.
Este versículo é escrito da maneira mais ardente. O poeta acha o coração alegrado ao contemplar as obras do Senhor, e sente que o próprio Criador deve ter experimentado indizível deleite ao exercer tanta sabedoria, bondade e poder.
Versículo 32Salmo 104:32
Ele olha para a terra, e ela treme. O Senhor, que graciosamente exibiu seu poder em atos e obras de bondade, poderia, se assim lhe aprouvesse, ter-nos oprimido com os terrores da destruição, pois basta um relance de seus olhos para que a terra sólida se abale de medo.
Toca os montes, e eles fumegam. O Sinai todo fumegava quando o Senhor sobre ele desceu. Foi apenas um toque, mas bastou para fazer o monte dissolver-se em chamas. Até o nosso Deus é fogo consumidor. Ai daqueles que o provocarem a franzir-lhes o cenho, pois perecerão ao toque da sua mão. Se os pecadores não fossem de todo insensíveis, um relance dos olhos do Senhor os faria tremer, e os toques da sua mão na aflição acenderiam seus corações em arrependimento. "De razão todas as coisas mostram algum sinal", exceto o coração insensível do homem.
Versículo 33Salmo 104:33
Cantarei ao Senhor enquanto eu viver, ou, literalmente, "em minhas vidas". Aqui e no porvir, o salmista continuaria a louvar o Senhor, pois o tema é infindável, e permanece para sempre fresco e novo. As aves cantavam os louvores de Deus antes de os homens serem criados, mas os homens redimidos cantarão suas glórias quando as aves já não existirem mais. Jeová, que sempre vive e nos faz viver, será exaltado e enaltecido para sempre nos cânticos dos homens redimidos.
Cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu existir. Uma resolução tão feliz para si mesmo quanto glorificadora para o Senhor. Note-se o doce título — meu Deus. Nunca cantamos tão bem quanto quando sabemos que temos parte nas coisas boas de que cantamos, e uma relação com o Deus a quem louvamos.
Versículo 34Salmo 104:34
A minha meditação nele será doce. Doce tanto a ele quanto a mim. Eu me deleitarei em assim contemplar suas obras e pensar em sua pessoa, e ele graciosamente aceitará minhas notas de louvor. A meditação é a alma da religião. É a árvore da vida no meio do jardim da piedade, e muito refrescante é o seu fruto para a alma que dela se alimenta.
E, assim como é boa para o homem, também o é para Deus. Assim como a gordura do sacrifício era a porção do Senhor, também as nossas melhores meditações lhe são devidas, e lhe são muitíssimo agradáveis. Devemos, pois, tanto por nosso próprio bem quanto pela honra do Senhor, ocupar-nos muito da meditação, e essa meditação deve se voltar principalmente para o próprio Senhor: deve ser "meditação nele". Por falta dela, muita comunhão se perde, e muita felicidade se desperdiça.
Eu me alegrarei no Senhor. Para a mente meditativa, cada pensamento sobre Deus está cheio de alegria. Cada um dos atributos divinos é uma fonte de deleite, agora que em Cristo Jesus estamos reconciliados com Deus.
Versículo 35Salmo 104:35
Sejam os pecadores consumidos da terra, e os ímpios não sejam mais. Eles são a única mancha na criação.
"Toda paisagem agrada,
e só o homem é vil."
Em santa indignação, o salmista bem gostaria de livrar o mundo de seres tão vis que não amam seu gracioso Criador, tão cegos que se rebelam contra o seu Benfeitor. Ele apenas pede aquilo que os homens justos esperam como o desfecho da história: pois é sobremaneira desejável o dia em que, em todo o reino de Deus, não restará um único traidor ou rebelde. O modo cristão de colocar isso será pedir que a graça converta pecadores em santos, e conquiste os ímpios para os caminhos da verdade.
Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Aqui está o remate de tudo — o que quer que os pecadores façam, permanece tu, minha alma, firme em tua bandeira, e fiel ao teu chamado. O silêncio deles não deve calar-te, mas antes provocar-te a redobrado louvor, para compensar a falta deles. Nem podes tu sozinha realizar a obra; outros precisam vir em teu auxílio.
Ó santos, louvai ao Senhor. Que os vossos corações clamem ALELUIA — pois esta é a palavra em hebraico. Palavra celestial! Que ela encerre o salmo, pois que mais resta dizer ou escrever? ALELUIA. Louvai ao Senhor.