Salmo 120
Leia o Salmo 120 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
De repente deixamos o vasto continente do Salmo cento e dezenove pelas ilhas e ilhotas dos Cânticos de Romagem. Pode ser bom dedicar-se a uma devoção prolongada em ocasião especial, mas isso não deve lançar sombra sobre as breves peças sagradas que santificam a vida piedosa dia a dia. Aquele que inspirou o salmo mais longo foi igualmente o autor das composições curtas que o seguem.
TÍTULO. UM CÂNTICO DE ROMAGEM. Já dedicamos espaço suficiente à consideração deste título, em sua aplicação a este salmo e às quatorze composições que o sucedem. Estes nos parecem ser Salmos de Peregrinação, mas não temos certeza de que fossem sempre cantados em grupo, pois muitos deles estão na primeira pessoa do singular. Sem dúvida havia peregrinos solitários, assim como caravanas que subiam juntas à casa de Deus, e para esses solitários hinos foram preparados.
ASSUNTO. Certo autor supõe que este hino foi cantado por um israelita ao sair de casa para subir a Jerusalém. Ele pensa que o homem bom sofrera com a calúnia de seus vizinhos, e ficou feliz em escapar da fofoca deles, para passar o tempo nos compromissos mais felizes das santas festas. Pode ser assim, mas esperamos que os piedosos não fossem tão insensatos a ponto de cantar sobre seus maus vizinhos justamente ao deixá-los, por alguns dias.
Se desejavam sair de casa em segurança, e voltar a um ambiente amistoso, teria sido o cúmulo da insensatez provocar aqueles que deixavam para trás cantando em voz alta um salmo de queixa contra eles. Não sabemos por que esta ode está colocada em primeiro lugar entre os Salmos de Grau, e preferimos não arriscar conjectura própria.
Preferimos o velho resumo dos tradutores — "Davi ora contra Doegue" — a qualquer suposição rebuscada; e se este for o escopo do salmo, vemos de imediato por que ele se apresentou a Davi no local onde a arca repousava, e de onde ele viera para removê-la. Ele veio buscar a arca, e no lugar onde a encontrou lembrou-se de Doegue, e derramou sua queixa a respeito dele. O autor fora gravemente caluniado, e fora torturado até a amargura pelas falsas acusações de seus perseguidores, e eis o seu apelo ao grande Árbitro do certo e do errado, perante cujo tribunal nenhum homem sofrerá por línguas caluniadoras.
Exposição
Versículo 1Salmo 120:1
Na minha angústia. A calúnia causa uma angústia das mais penosas. Quem já sentiu o fio de uma língua cruel sabe, com certeza, que ela é mais afiada que a espada. A difamação desperta nossa indignação por um senso de injustiça, e ainda assim nos vemos impotentes para combater o mal, ou para agir em nossa própria defesa. Poderíamos aparar os golpes de um facão, mas não temos escudo contra a língua de um mentiroso. Não sabemos quem foi o pai da falsidade, nem onde nasceu, nem para onde foi, nem como segui-la, nem como deter sua influência corrosiva. Ficamos perplexos, sem saber para que lado nos voltar. Como a praga de moscas no Egito, ela frustra toda oposição, e poucos conseguem resistir-lhe.
A detração nos atinge no ponto mais sensível, corta até o vivo, e deixa atrás um veneno difícil de extrair. De toda forma, é uma dolorosa angústia cair sob o poder da "calúnia, o mais imundo filhote do pecado". Mesmo em tal angústia, não precisamos hesitar em clamar ao Senhor. O silêncio para com os homens e a oração para com Deus são os melhores remédios para o mal da calúnia.
Clamei ao SENHOR (ou Jeová). O caminho mais sábio que ele poderia seguir. De pouco vale apelar aos nossos semelhantes na questão da calúnia, pois quanto mais nos agitamos nela, mais ela se espalha; de nada adianta apelar à honra dos caluniadores, pois eles não têm nenhuma, e os pedidos mais lastimáveis por justiça só aumentarão a malignidade deles e os encorajarão a novos insultos. Tanto vale suplicar a panteras e lobos quanto a difamadores de coração negro.
Contudo, quando os clamores aos homens seriam nossa fraqueza, os clamores a Deus serão nossa força. A quem devem os filhos clamar, senão ao seu pai? Não vem algum bem até dessa coisa vil, a falsidade, quando ela nos leva de joelhos e ao nosso Deus? E ele me ouviu. Sim, Jeová ouve. Ele é o Deus vivo, e por isso a oração a ele é razoável e proveitosa. O salmista lembrou e registrou este caso de oração ouvida, pois evidentemente isso o havia tocado profundamente; e agora o relata para a glória de Deus e o bem de seus irmãos.
O justo clama, e o SENHOR o ouve. O ouvido do nosso Deus não é surdo, nem sequer pesado. Ele escuta atentamente, capta o primeiro acento da súplica; faz com que cada um de seus filhos confesse: "ele me ouviu". Quando somos caluniados, é uma alegria saber que o Senhor nos conhece, e não pode ser levado a duvidar de nossa retidão: ele não ouvirá a mentira contra nós, mas ouvirá nossa oração contra a mentira.
Se estes salmos eram cantados na subida da arca ao Monte Sião, e depois pelos peregrinos a Jerusalém nas festas anuais e no retorno da Babilônia, encontraremos na vida de Davi uma razão para que este seja o primeiro deles. Não foi este servo de Deus quem se encontrou com Doegue, o edomita, quando consultou o oráculo por meio de Abiatar, e não foi aquela criatura miserável quem acreditou nele e o traiu a Saul? Isso deixou uma impressão muito dolorosa e permanente na memória de Davi, e por isso, ao iniciar a jornada da arca, ele derramou seu lamento diante do Senhor a respeito do grande e monstruoso agravo daquele "cão de Doegue", como Trapp espirituosamente o chama.
O poeta, como o pregador, pode achar vantajoso "começar baixo", pois assim tem mais espaço para subir: o próximo salmo está uma oitava inteira acima deste hino pesaroso. Sempre que somos maltratados, pode nos consolar ver que não estamos sozinhos em nossa miséria — trilhamos uma estrada onde Davi deixou suas pegadas.
Versículo 2Salmo 120:2
Livra a minha alma, ó SENHOR, dos lábios mentirosos. Será preciso poder divino para salvar um homem desses instrumentos mortais. Os lábios são macios: mas quando são lábios mentirosos, sugam a vida do caráter e são tão assassinos quanto navalhas. Os lábios nunca deveriam ficar vermelhos com o sangue da reputação de homens honestos, nem untados com falsidades maliciosas.
Davi diz: "livra a minha alma": a alma, a vida do homem, está em perigo por causa dos lábios mentirosos; as cobras não são mais venenosas, nem os próprios demônios mais impiedosos. Alguns parecem mentir só pelo gosto de mentir, é o esporte e o espírito deles: seus lábios mereceriam ser beijados com ferro em brasa; mas não cabe aos amigos de Jesus retribuir aos homens conforme merecem. Ah, seria melhor uma geração muda do que uma geração mentirosa! A faculdade da fala se torna uma maldição quando é degradada a uma arma vil para ferir os homens pelas costas. Precisamos ser livrados da calúnia pela contenção que o Senhor impõe às línguas perversas, ou então ser livrados dela tendo nosso bom nome limpo da difamação do mentiroso.
E da língua enganadora. Isso é ainda pior que a falsidade descarada. Aqueles que bajulam e adulam, e o tempo todo têm inimizade no coração, são seres horríveis; são semente do diabo, e ele opera neles segundo sua própria natureza enganadora. É melhor encontrar feras e serpentes do que enganadores: estes são uma espécie de monstro cujo nascimento vem de baixo, e cujo fim se situa muito mais abaixo ainda.
Deve servir de advertência a mentirosos e enganadores o fato de que todos os homens bons oram contra eles, e que até os maus têm medo deles. Aqui há boa razão de oração para o crente. "Livra-nos do mal" pode ser usado com ênfase a respeito deste assunto. De fofoqueiros, mexeriqueiros, escritores de cartas anônimas, forjadores de parágrafos de jornal, e de toda sorte de mentirosos, bom Senhor, livra-nos!
Versículo 3Salmo 120:3
Que te será dado? Qual é a recompensa esperada pela calúnia? Deveria ser algo grandioso, para valer a pena trabalhar numa atmosfera tão imunda e arruinar a própria alma. Poderiam mil mundos ser suborno suficiente para atos tão vis? O mentiroso não terá boa recompensa: encontrará o que merece; mas o que será isso? Que castigo pode igualar seu crime?
O salmista parece não conseguir sugerir um castigo à altura. É a pior das ofensas — esta detração, esta calúnia, esta difamação. Um julgamento severo e esmagador lhe seria destinado, se os homens fossem punidos por suas transgressões. Mas que castigo seria pesado o bastante? Que forma tomaria a punição? Ó mentiroso, que te será dado? Ou o que te será feito, língua falsa? Como serás visitado?
A lei de talião mal se aplica ao caso, pois ninguém pode caluniar o caluniador — ele é escuro demais para ser enegrecido; nem ninguém entre nós o enegreceria, ainda que pudesse. Criatura miserável! Ele luta com armas que homens verdadeiros não podem tocar. Como a lula, envolve-se numa escuridão de tinta que os homens honestos não conseguem penetrar. Como o fedorento gambá, exala um odor de falsidade que os verdadeiros não conseguem suportar; e por isso muitas vezes escapa, não castigado por aqueles a quem mais prejudicou.
Seu crime, em certo sentido, torna-se seu escudo; os homens não se importam em enfrentar inimigo tão vil. Mas o que fará Deus com as línguas mentirosas? Ele proferiu contra elas suas mais terríveis ameaças, e as executará terrivelmente a seu tempo.
Versículo 4Salmo 120:4
Flechas agudas do valente. Veloz, certeiro e agudo será o julgamento. As palavras deles foram como flechas, e assim será o castigo delas. Deus cuidará para que seu castigo seja comparável a uma flecha, aguda em si mesma, e cravada com toda a força com que um homem valente a dispara de seu arco de aço — flechas agudas do valente.
Nem uma só forma de julgamento bastará para vingar este pecado complexo. O caluniador sentirá dores comparáveis a brasas de zimbro, que se acendem depressa, ardem com fúria e queimam por muito tempo. Ele sentirá flechas agudas e fogos ainda mais agudos. Sentença terrível! Todos os mentirosos terão sua parte no lago que arde com fogo e enxofre. O verme deles não morre, e o fogo deles não se apaga.
As brasas de zimbro retêm o calor por muito tempo, mas o inferno arde para sempre, e a língua enganadora não pode se iludir com a esperança de escapar do fogo que ela mesma acendeu. Que crime é este, ao qual o Todo-misericordioso destina uma sentença tão terrível! Odeiemos isso com ódio perfeito. É melhor ser vítima da calúnia do que ser seu autor. Os dardos da difamação erram o alvo, mas não as flechas de Deus: as brasas da malícia esfriam, mas não o fogo da justiça. Evite a calúnia como evitaria o inferno.
Versículo 5Salmo 120:5
Ai de mim, que peregrino em Meseque, que habito nas tendas de Quedar! Os homens cheios de graça se afligem com a conversa dos ímpios. Nosso poeta sentia-se tão pouco à vontade entre vizinhos mentirosos como se tivesse vivido entre selvagens e canibais. Os traidores ao seu redor eram tão maus quanto o inqualificável turco. Ele exclama: "Ai de mim!" O pecado deles o horrorizava, a inimizade deles o afligia.
Ele tinha alguma esperança no fato de ser apenas um peregrino em Meseque; mas, à medida que os anos passavam, o tempo se arrastava pesadamente, e ele temia ter de chamar-se morador de Quedar. As tribos nômades a que ele se refere estavam constantemente em guerra umas com as outras; era hábito delas viajar armadas até os dentes; eram uma espécie de ciganos saqueadores, com a mão contra todo homem e a mão de todo homem contra elas; e a estas ele comparava os falsos de coração que haviam atacado seu caráter. Os que difamam o justo são piores que canibais, pois os selvagens só comem os homens depois de mortos, mas estes desgraçados os devoram vivos.
"Ai de mim, que em Meseque
peregrino há tanto tempo;
que nas tendas habito
que a Quedar pertencem.
Minha alma, com quem odeia a paz,
há muito tem morado;
eu sou pela paz; mas quando falo,
para a batalha eles se preparam.
Minha alma, aflita, geme e definha
por alcançar aquela costa serena,
onde todos os cansados descansam,
e os que perturbam não afligem mais."
Versículo 6Salmo 120:6
Há muito habita a minha alma com aquele que odeia a paz. Muito, muito tempo, tempo demais fora ele exilado entre tais bárbaros. Um pacificador é uma bênção, mas quem odeia a paz é uma maldição. Hospedar-se com tais pessoas por uma noite já é perigoso, mas habitar com elas é horrível.
O verso pode se aplicar a qualquer um dos difamadores do salmista: ele já vira o bastante dele e ansiava por deixar tal companhia. Talvez o doce cantor não tenha percebido de início a natureza do homem, pois este era um enganador; e quando o descobriu, viu-se incapaz de livrar-se dele, e assim foi obrigado a permanecer junto a ele.
Vêm-nos à mente Doegue, Saul, Aitofel e os filhos de Zeruia — estes últimos, não como inimigos, mas como soldados de sangue quente que muitas vezes eram fortes demais para Davi. Que mudança para o homem de Deus, da quietude do aprisco para a agitação da corte e o tumulto do combate! Como deve ter ansiado por deixar de lado o cetro, e retomar o cajado.
Ele sentia que o tempo de sua convivência com espíritos briguentos era longo, longo demais; e só o suportava porque, como traz a versão do Livro de Oração, era constrangido a assim permanecer.
Versículo 7Salmo 120:7
Eu sou pela paz. Propriamente, "eu sou paz"; desejoso de paz, pacífico, tolerante — na verdade, a própria paz. Mas quando falo, eles são pela guerra. Minhas palavras mais amáveis parecem provocá-los, e num instante já estão de punhal em riste. Nada os agrada; se me calo, contam-me como taciturno, e se abro a boca, contestam e disputam.
Que aqueles que habitam com companhia tão belicosa se consolem lembrando que tanto Davi quanto o Senhor de Davi suportaram a mesma provação. É a sorte dos santos encontrar inimigos até na própria casa. Outros além de Davi habitaram no covil dos dragões. Outros além de Daniel foram lançados numa cova de leões.
Enquanto isso, que aqueles que estão em lugares de descanso tranquilo e moradas pacíficas sejam profundamente gratos por tal sossego. Deus nobis haec otia fecit: Deus nos deu esta tranquilidade. Que seja nosso o cuidado de nunca infligir aos outros aquilo do qual nós mesmos fomos poupados.