Salmo 107
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TEMA. Este é um cântico escolhido para os remidos do Senhor (Salmos 107:2). Embora celebre libertações providenciais, e por isso possa ser cantado por qualquer homem cuja vida tenha sido preservada em hora de perigo, sob esse manto ele magnifica sobretudo o Senhor por bênçãos espirituais, das quais os favores temporais são apenas tipos e sombras. O tema é a ação de graças, e os motivos para ela. A construção do salmo é altamente poética, e só como composição seria difícil achar-lhe par entre as produções humanas. Os bardos da Bíblia não ficam atrás de ninguém entre os filhos do canto.
DIVISÃO. O salmista começa dedicando seu poema aos remidos que foram reunidos do cativeiro, Salmos 107:1-3; compara então a história deles à de viajantes perdidos no deserto, Salmos 107:4-9; à de prisioneiros em grilhões de ferro, Salmos 107:10-16; à de doentes, Salmos 107:17-22; e à de marinheiros açoitados pela tempestade, Salmos 107:23-32. Nos versículos finais, o juízo de Deus sobre os rebeldes e as misericórdias de Deus para com seu próprio povo aflito tornam-se o refrão do cântico, Salmos 107:33-42; e então o salmo se encerra com uma espécie de resumo, em Salmos 107:43, que declara que os que estudam as obras e os caminhos do Senhor certamente verão e louvarão a sua bondade.
Exposição
Versículo 1Salmo 107:1
Dai graças ao Senhor, porque ele é bom. É tudo que podemos dar-lhe, e o mínimo que podemos dar-lhe; por isso, rendamos-lhe com diligência a nossa gratidão. O salmista fala a sério na exortação, daí o uso da interjeição "Ó", para intensificar suas palavras: sejamos em todo tempo inteiramente fervorosos nos louvores ao Senhor, tanto com os lábios quanto com a vida — em ação de graças e em vida de graça.
JEOVÁ, pois é este o nome aqui usado, não deve ser adorado com gemidos e clamores, mas com gratidão, porque ele é bom; e essa gratidão deve ser prestada de coração, porque a sua não é uma bondade comum: ele é bom por natureza, por essência, e provado bom em todos os atos da sua eternidade. Comparado a ele, ninguém é bom, não, nem um sequer; mas ele é essencial, perpétua e infinitamente bom, na mais alta medida.
Somos participantes perpétuos da sua bondade, e por isso devemos, acima de todas as suas criaturas, engrandecer o seu nome. Nosso louvor deve crescer pelo fato de que a bondade divina não é coisa passageira, mas, no atributo da misericórdia, permanece a mesma para sempre, pois a sua misericórdia dura para sempre. A palavra "dura" foi bem acrescentada pelos tradutores, mas ainda assim restringe um pouco o sentido, que se verá melhor se lermos: "pois a sua misericórdia é para sempre." Essa misericórdia não teve começo, e jamais conhecerá fim.
Nosso pecado exigiu que a bondade divina se manifestasse a nós na forma de misericórdia, e assim foi, e assim será eternamente; não sejamos frouxos em louvar a bondade que assim se ajusta à nossa natureza caída.
Versículo 2Salmo 107:2
Digam-no os remidos do Senhor. O que quer que outros pensem ou digam, os remidos têm razões avassaladoras para declarar a bondade do Senhor. A deles é uma redenção peculiar, e por ela devem render um louvor peculiar. O Redentor é tão glorioso, o preço do resgate tão imenso, e a redenção tão completa, que estão sob uma obrigação sete vezes maior de dar graças ao Senhor, e de exortar outros a fazer o mesmo. Que não apenas sintam assim, mas o digam; que cantem e convidem seus semelhantes a cantar também.
A quem ele redimiu da mão do inimigo. Arrebatados por um poder superior das mãos de opressões ferozes, estão obrigados, mais que todos os homens, a adorar o Senhor, seu Libertador. A deles é uma redenção divina — "ele os redimiu", e ninguém mais o fez. Seu próprio braço, sem auxílio, operou a libertação deles. Não deveriam escravos emancipados ser gratos à mão que os libertou? Que gratidão pode bastar por uma libertação do poder do pecado, da morte e do inferno? No próprio céu não há hino mais doce do que aquele cujo refrão é: "Tu nos redimiste para Deus com o teu sangue."
Versículo 3Salmo 107:3
E os ajuntou das terras, do oriente e do ocidente, do norte e do sul. O ajuntamento vem depois da redenção. Os cativos de outrora foram restaurados à própria terra, vindos de todos os quadrantes, e até de além-mar; pois a palavra traduzida por "sul" é, na verdade, "mar". Não importa o que separe, o Senhor há de reunir os seus num só corpo — primeiro na terra, por "um só Senhor, uma só fé, e um só batismo", e depois no céu, por uma bem-aventurança comum, e serão conhecidos como o único povo do único Deus.
Que Pastor glorioso deve ser aquele que assim reúne o rebanho comprado pelo sangue, vindo das regiões mais remotas, guia-o através de perigos incontáveis, e por fim o faz repousar nos verdes pastos do Paraíso! Uns vagaram para um lado, outros para outro — todos deixaram a terra de Emanuel e se afastaram tanto quanto puderam — e grandes são a graça e o poder pelos quais todos são reunidos num só rebanho pelo Senhor Jesus. Com um só coração e uma só voz, louvem os remidos ao Senhor que os reúne num só.
Versículo 4Salmo 107:4
Andaram errantes pelo deserto. Andaram errantes, pois a trilha se perdera, não restava vestígio de caminho; pior ainda, andaram errantes num deserto, onde tudo ao redor era areia ardente. Estavam perdidos no pior lugar possível, tal como o pecador que se perde no pecado; vagavam de um lado para outro em buscas e rebuscas vãs, como faz o pecador quando desperta e vê o seu estado de perdição; mas tudo terminava em nada, pois continuavam ainda no deserto, embora tivessem esperado escapar dele.
Por caminho solitário. Nenhuma habitação humana por perto, nenhuma outra companhia de viajantes ao alcance da voz. A solidão intensifica muito a miséria. O isolamento de um deserto exerce uma influência profundamente deprimente sobre o homem perdido naquela imensidão. O caminho do viajante no deserto já é um caminho desolado, e quando ele deixa mesmo essa trilha pobre e árida, para ficar de todo fora do trajeto humano, encontra-se em situação lastimável. Uma alma sem simpatia está às portas do inferno; um caminho solitário é o caminho do desespero.
Não acharam cidade em que morar. Como poderiam? Não havia nenhuma. Israel no deserto habitava sob tendas, e não gozava de nenhum dos confortos da vida estabelecida; os que vagam pelo Saara não encontram vila nem cidade. Os homens sob angústia de alma nada encontram em que descansar, nenhum conforto e nenhuma paz; seus esforços em busca da salvação são muitos, cansativos e frustrantes, e a solidão temível de seus corações os enche de terrível angústia.
Versículo 5Salmo 107:5
Famintos e sedentos, a alma desfalecia neles. O ânimo desmorona quando o corpo se esgota por privações prolongadas. Quem consegue manter a coragem quando está prestes a cair ao chão a cada passo, de puro cansaço? A provisão de alimento se esgotou, a água acabou nos odres, e não há campos nem rios no deserto; o coração então afunda em desespero total. Assim é a condição de uma consciência despertada antes de conhecer o Senhor Jesus: está cheia de anseios insatisfeitos, necessidades dolorosas e temores pesados. Está de todo exaurida e sem forças, e não há em toda a criação nada que possa dar-lhe alívio.
Versículo 6Salmo 107:6
Então clamaram ao Senhor na sua angústia. Só na extremidade oraram, mas a misericórdia está em que oraram então, e oraram do jeito certo — com um clamor, e à pessoa certa, o próprio Senhor. Nada mais lhes restava a fazer; não podiam ajudar-se a si mesmos, nem achar ajuda em outros, e por isso clamaram a Deus.
Súplicas arrancadas de nós pela dura necessidade não são por isso menos aceitáveis a Deus; ao contrário, têm ainda mais força, pois são evidentemente sinceras, e fazem um apelo poderoso à piedade divina. Alguns homens nunca orarão enquanto não estiverem quase morrendo de fome, e para o próprio bem é muito melhor que estejam vazios e desfalecidos do que fartos e de coração empedernido. Se a fome nos leva a ajoelhar, é mais proveitosa do que o banquete; se a sede nos impele à fonte, é melhor do que os maiores goles das alegrias do mundo; e se o desfalecimento leva ao clamor, é melhor do que a força dos poderosos.
E ele os livrou das suas angústias. A libertação segue a oração com toda a certeza. O clamor deve ter sido muito fraco, pois estavam desfalecidos, e a fé deles era tão débil quanto o clamor; mas ainda assim foram ouvidos, e ouvidos de imediato. Uma pequena demora teria sido a morte deles: mas não houve nenhuma, pois o Senhor estava pronto para salvá-los. O Senhor se compraz em intervir justamente quando mais ninguém pode ser de nenhuma valia. O caso era desesperador até Jeová intervir, e então tudo mudou de imediato; o povo estava encurralado, apertado, quase pressionado até a morte, mas o alívio lhes veio assim que começaram a lembrar-se do seu Deus e a olhar para ele em oração.
Merecem morrer de fome os que nem sequer pedem pão, e quem, perdido num deserto, não implora a ajuda de um guia, não merece piedade nem que pereça nas selvas e alimente os abutres com sua carne.
Versículo 7Salmo 107:7
E os conduziu pelo caminho certo. Há muitos caminhos errados, mas apenas um certo, e a este ninguém pode conduzir-nos senão o próprio Deus. Quando o Senhor é o guia, o caminho certamente será o certo; disso nunca precisamos duvidar. Dos labirintos sem trilha do deserto, ele conduziu os perdidos; encontrou o caminho, abriu o caminho, e capacitou-os a andar por ele, desfalecidos e famintos como estavam.
Para que fossem a uma cidade em que morar. O fim foi digno do caminho: ele não os conduziu de um deserto a outro, mas deu aos errantes uma morada, e aos cansados, um lugar de repouso. Não acharam cidade em que morar, mas ele achou uma com facilidade. O que nós podemos fazer e o que Deus pode fazer são coisas bem diferentes. Que diferença fez para eles trocar a solidão por uma cidade, o caminho sem trilha por ruas frequentadas, e o desfalecimento do coração pelo alívio de um lar! Muito maiores são as mudanças que o amor divino opera na condição dos pecadores quando Deus responde às suas orações e os leva a Jesus. Não há de ser o Senhor engrandecido por misericórdias tão especiais? Podemos nós, que as recebemos, sentar-nos em silêncio ingrato?
Versículo 8Salmo 107:8
Oh, louvem os homens ao Senhor pela sua bondade! "Homens" não aparece aqui no original, mas a palavra foi bem acrescentada pelos tradutores; o salmista gostaria que tudo quanto existe engrandecesse o nome de Jeová. Certamente os homens farão isso sem precisar de exortação, quando a libertação ainda estiver fresca na memória. Serão ingratos abomináveis os que não honrarem tal libertador por resgate tão feliz da mais cruel das mortes. É bom que os remidos sejam despertados a bendizer o Senhor repetidas vezes, pois vida preservada merece gratidão para toda a vida. Mesmo os que não enfrentaram perigo semelhante, nem obtiveram libertação semelhante, devem bendizer ao Senhor em solidariedade com seus semelhantes, partilhando da alegria deles.
E pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. Esses favores são concedidos à nossa raça, aos filhos da família a que pertencemos, e por isso devemos unir-nos ao louvor. Os filhos dos homens são tão insignificantes, tão fracos e tão imerecedores, que é grande maravilha que o Senhor faça algo por eles; mas ele não se contenta em fazer pequenas obras — emprega sua sabedoria, poder e amor para realizar prodígios em favor dos que o buscam. Na vida de cada um dos remidos há um mundo de maravilhas, e por isso de cada um deveria ressoar um mundo de louvores. Quanto aos prodígios de graça que o Senhor tem operado por sua igreja como um todo, não há como calculá-los: são tão elevados acima dos nossos pensamentos quanto os céus são altos acima da terra. Quando raiará o dia em que a raça favorecida dos homens será tão devotada ao louvor de Deus quanto é distinguida pelo favor de Deus?
Versículo 9Salmo 107:9
Pois ele sacia a alma sedenta. Este é o resumo da experiência do viajante perdido. Aquele que, em sentido natural, foi resgatado de perecer num deserto uivante deve bendizer o Senhor que o traz de volta a comer pão entre os homens. O sentido espiritual, porém, é ainda mais rico em ensino. O Senhor nos faz sentir o anseio e depois nos sacia por completo. Esse anseio nos leva à solidão, à separação, à sede, ao desfalecimento e ao desespero de nós mesmos, e tudo isso nos conduz à oração, à fé, à direção divina, à saciedade da sede da alma, e ao descanso: a boa mão do Senhor se vê em todo o processo e no resultado divino.
E enche de bondade a alma faminta. Assim como para a sede ele dá saciedade, para a fome ele dá fartura. Em ambos os casos a necessidade é atendida além do suficiente; há uma abundância na provisão bem digna de nota: o Senhor não faz nada com mesquinhez; saciar e encher são os seus modos peculiares de tratar os seus convidados; ninguém que venha para debaixo do cuidado do Senhor jamais se queixa de escassez. Nem enche o faminto com alimento comum, mas com a própria bondade. Não é tanto o bom que ele dá, mas a essência da bondade, aos suplicantes necessitados. Será que o homem, assim suprido com tal realeza, não devolverá louvor pela grandeza desse amor? Não pode ser assim. Demos graças agora mesmo, com toda a igreja dos remidos, e oremos pelo tempo em que toda a terra se encherá da sua glória.
Versículo 10Salmo 107:10
Os que habitavam nas trevas e na sombra da morte. A cela já é escura por si mesma, e o temor da execução lança uma penumbra ainda mais densa sobre a prisão. É tal a crueldade do homem para com o homem que dezenas de milhares foram feitos definhar em lugares próprios apenas para túmulos: sepulcros insalubres, sufocantes, imundos, onde adoeceram e morreram de coração partido. Enquanto isso, o pavor de uma morte súbita era a parte mais hedionda do castigo; os prisioneiros sentiam como se a sombra gélida da própria morte os congelasse até a medula.
O estado de uma alma sob convicção de pecado é vigorosamente simbolizado por tal condição; pessoas nesse estado não conseguem ver as promessas que lhes dariam conforto, permanecem paradas na inércia do desespero, temem a chegada do juízo, e por isso ficam tão angustiadas quanto se estivessem à porta da morte.
Presos em aflição e em ferro. Muitos presos ficaram assim duplamente agrilhoados, no coração e nas mãos; ou o texto pode significar que a aflição se torna para eles como uma banda de ferro, ou que as correntes de ferro lhes causavam grande aflição. Ninguém conhece essas coisas senão quem as sentiu; prezaríamos mais a nossa liberdade se soubéssemos, por experiência real, o que significam grilhões e correntes.
Em sentido espiritual, a aflição frequentemente acompanha a convicção de pecado, e então a dupla dor causa uma dupla escravidão. Nesses casos o ferro penetra na alma, os pobres cativos não conseguem mover-se por causa das suas prisões, não conseguem erguer-se à esperança por causa da sua dor, e não têm nenhum poder por causa do seu desespero. A miséria é a companheira de todos os que estão encerrados e não podem sair. Ó tu que foste libertado por Cristo Jesus, lembra-te dos que estão em prisões.
Versículo 11Salmo 107:11
Porque se rebelaram contra as palavras de Deus. Esta foi a causa geral da escravidão entre o antigo povo de Deus: foram entregues aos seus adversários porque não foram leais ao Senhor. As palavras de Deus não devem ser tratadas com leviandade, e quem se arrisca a tal rebelião acaba por trazer sobre si mesmo a escravidão.
E desprezaram o conselho do Altíssimo. Pensaram saber melhor do que o Juiz de toda a terra, e por isso abandonaram os caminhos dele e andaram pelos seus próprios. Quando os homens não seguem o conselho divino, dão a prova mais prática do seu desprezo por ele. Os que não se deixam prender pela lei de Deus, cedo ou tarde serão presos pelos grilhões do juízo. Há desprezo em excesso pelo conselho divino, mesmo entre cristãos, e por isso tão poucos deles conhecem a liberdade com que Cristo nos liberta.
Versículo 12Salmo 107:12
Por isso ele abateu o coração deles com trabalho. Nas prisões orientais os homens eram com frequência forçados a trabalhar como animais do campo. Assim como não tinham liberdade, também não tinham descanso. Isso logo subjuga o coração mais forte, e faz o jactancioso mais orgulhoso mudar de tom. Aflição e trabalho pesado bastam para domar um leão. Deus tem seus métodos de abater a altivez dos olhares rebeldes; a cela e o moinho fazem tremer até os gigantes.
Caíram, e não houve quem os ajudasse. Tropeçando na escuridão sob a tarefa exaustiva, por fim caíram de bruços no chão, mas ninguém veio ter piedade deles ou levantá-los. A queda podia ser fatal, por tudo que qualquer homem se importava com eles; a miséria deles não era vista, ou, se observada, ninguém podia interferir entre eles e seus senhores tiranos. Nessa situação lastimável, o israelita rebelde tornou-se mais humilde de ânimo, e pensou com mais ternura no seu Deus e nas suas ofensas contra ele.
Quando uma alma vê todos os seus esforços de autossalvação fracassarem, e sente que agora está de todo sem forças, é então que o Senhor está trabalhando para esconder do homem o orgulho e preparar o aflito para receber a sua misericórdia. O caso espiritual aqui figurativamente descrito é desesperador, e por isso oferece campo mais rico para a intervenção divina; alguns de nós lembram bem como a misericórdia brilhou em nossa prisão, e que música fizeram as correntes ao caírem de nossas mãos. Nada além do amor do Senhor poderia ter-nos libertado; sem ele, teríamos perecido de todo.
Versículo 13Salmo 107:13
Então clamaram ao Senhor na sua angústia. Nenhuma oração até então. Enquanto houvesse alguém que pudesse ajudar embaixo, não olhariam para cima. Nenhum clamor até que seus corações fossem abatidos e todas as suas esperanças estivessem mortas — só então clamaram, e não antes. Muitos homens oferecem o que chamam de oração quando estão bem de vida e pensam bem de si mesmos, mas, na realidade, o único clamor verdadeiro a Deus é aquele arrancado pela consciência de uma total impotência e miséria. Oramos melhor quando estamos caídos de face no chão, numa impotência dolorosa.
E ele os salvou das suas angústias. Rápida e prontamente ele enviou alívio. Levaram muito tempo até clamar, mas ele não demorou nada para salvar. Tinham recorrido a todo o resto antes de vir a ele, mas quando finalmente se dirigiram a ele, foram recebidos de imediato. Aquele que salva homens no deserto aberto também pode salvar na prisão fechada: ferrolhos e grades não conseguem excluí-lo, nem manter presos por muito tempo os seus remidos.
Versículo 14Salmo 107:14
Tirou-os das trevas e da sombra da morte. O Senhor, em sua providência, retira os prisioneiros de suas celas e os convida a respirar de novo o ar puro e doce, e então lhes tira os grilhões, e dá liberdade aos seus membros doloridos. Assim também liberta os homens do cuidado e da aflição, e especialmente da miséria e da escravidão do pecado. Isso ele faz com sua própria mão, pois na experiência de todos os santos está atestado que não há libertação de prisão senão pelo próprio Juiz.
E quebrou as suas cadeias. Libertou-os pela força, tornando-os livres de tal modo que não pudessem ser acorrentados de novo, pois havia despedaçado os grilhões. As libertações do Senhor são do tipo mais completo e triunfante; ele não deixa a alma nem nas trevas nem nas prisões, nem permite que os poderes do mal voltem a escravizar o cativo liberto. O que ele faz, é feito para sempre. Glória seja ao seu nome.
Versículo 15Salmo 107:15
Oh, louvem os homens ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. A visão de tal bondade faz o homem de mente reta desejar ver o Senhor devidamente honrado por sua misericórdia surpreendente. Quando as portas do calabouço se abrem de repente e as correntes se rompem, quem pode recusar-se a adorar a gloriosa bondade do Senhor? Dói o coração pensar em misericórdias tão generosas ficarem sem canto: não podemos deixar de suplicar aos homens que se lembrem de suas obrigações e exaltem o Senhor seu Deus.
Versículo 16Salmo 107:16
Porque quebrou as portas de bronze, e despedaçou as barras de ferro. Este versículo se liga ao anterior, e resume a misericórdia experimentada pelos cativos. O Senhor quebra as portas e barras mais fortes quando chega a hora de libertar seus prisioneiros: e, em sentido espiritual, o Senhor Jesus quebrou as mais poderosas prisões espirituais e nos tornou verdadeiramente livres. Bronze e ferro são como estopa diante da chama do amor de Jesus. As portas do inferno não prevalecerão contra nós, nem as barras da sepultura nos deterão. Aqueles de nós que experimentaram o seu poder redentor devem, e vão, louvar o Senhor pelas maravilhas de sua graça manifestadas em nosso favor.
Versículo 17Salmo 107:17
Os loucos, por causa da sua transgressão, e por causa das suas iniquidades, são afligidos. Muitas doenças são resultado direto de atos insensatos. Homens irrefletidos e devassos, pela embriaguez, pela gula e pela satisfação das próprias paixões, enchem o corpo com as piores doenças. O pecado está no fundo de toda dor, mas algumas dores são resultado imediato da maldade: os homens, por um curso de transgressão, afligem a si mesmos, e são loucos pela sua própria pena. Pior ainda, mesmo quando estão na aflição continuam loucos; e ainda que fossem pilados num pilão entre trigo, com uma mão de gral, a sua loucura não se apartaria deles. De uma transgressão passam a muitas iniquidades, e, sob a vara, seguem somando pecado a pecado. Ai, até o próprio povo do Senhor às vezes faz papel de louco desse jeito triste.
Versículo 18Salmo 107:18
A alma deles aborrece toda sorte de comida. O apetite abandona os homens quando estão doentes: até o melhor alimento lhes causa náusea, o estômago se revolta contra ele.
E chegam-se às portas da morte. Pela falta de alimento, e pelo poder destrutivo da sua enfermidade, vão escorregando aos poucos até jazer à porta da sepultura; nem a perícia do médico basta para deter essa marcha descendente. Como não conseguem comer, não há sustento para o organismo, e à medida que a doença se intensifica, o pouco vigor que resta se consome em dor e miséria.
Assim é com as almas aflitas pelo senso do pecado: não encontram consolo nem nas mais escolhidas promessas, mas se afastam com repugnância até mesmo do evangelho, de modo que vão decaindo aos poucos rumo à sepultura do desespero. A misericórdia está em que, embora perto das portas da morte, ainda não estão dentro do sepulcro.
Versículo 19Salmo 107:19
Então clamam ao Senhor na sua angústia. Juntam-se, enfim, à legião dos que oram. Até Saul está entre os profetas. O louco põe de lado suas roupas coloridas diante da perspectiva da mortalha, e recolhe-se de joelhos. Que remédio a graça do Senhor faz muitas vezes da doença da alma do corpo!
E ele os salva das suas angústias. A oração é tão eficaz num leito de doente quanto no deserto ou na prisão; pode ser tentada em qualquer lugar e circunstância, com resultado certo. Podemos orar sobre nossas dores e fraquezas do corpo, e podemos também esperar respostas. Quando não temos apetite para comida, podemos ter apetite para a oração. Quem não consegue alimentar-se da palavra de Deus ainda pode voltar-se para o próprio Deus e encontrar misericórdia.
Versículo 20Salmo 107:20
Enviou a sua palavra, e os sarou. O homem não é curado só por remédio, mas é pela palavra que sai da boca de Deus que o homem é restaurado de descer à sepultura. Uma palavra basta para isso; uma palavra já o fez milhares de vezes.
E os livrou das suas destruições. Escapam, embora perigos os tivessem cercado, perigos muitos e mortais. A palavra do Senhor tem grande poder libertador; basta-lhe falar, e os exércitos da morte fogem num instante. As almas doentes de pecado devem lembrar-se do poder da Palavra, e ocupar-se muito em ouvi-la e nela meditar.
Considerados espiritualmente, estes versículos descrevem uma alma doente de pecado: insensata, mas já despertada para o senso da culpa, recusa consolo de qualquer e de todo lado, e uma letargia de desespero a paralisa por completo. À sua própria vista, nada resta senão a destruição total, sob muitas formas: as portas da morte se abrem diante dela, e, a seu próprio ver, é arrastada nessa direção. Então a alma é levada a clamar, na amargura da sua dor, ao Senhor, e Cristo, a Palavra eterna, vem com poder curador na mais dura extremidade, salvando até o fim.
Versículo 21Salmo 107:21
Oh, louvem os homens ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. É espantoso que homens possam ser restaurados da doença e ainda assim recusar-se a bendizer ao Senhor. Pareceria impossível que se esquecessem de tão grande misericórdia, pois deveríamos esperar ver tanto eles quanto os amigos a quem foram restituídos unidos num ato de gratidão para toda a vida. No entanto, quando dez são curados, raramente mais de um volta para dar glória a Deus. Ai, onde estão os nove? Quando uma cura espiritual é operada pelo grande Médico, o louvor é um dos sinais mais seguros de saúde renovada. Uma mente resgatada da doença do pecado e das penosas dores da convicção deve, e vai, adorar Jeová-Rafá, o Deus que cura: ainda assim seria bom que houvesse mil vezes mais até disso.
Versículo 22Salmo 107:22
E ofereçam sacrifícios de ação de graças. Nesse caso, que haja dádivas e ofertas, tanto quanto palavras. Que o bom Médico receba seu honorário de gratidão. Que a vida se torne um sacrifício para aquele que a prolongou, que o gesto de gratidão abnegada se repita vez após vez: é preciso haver muitos sacrifícios alegres para celebrar tão maravilhoso benefício.
E anunciem as suas obras com júbilo. Coisas assim merecem ser contadas, pois o testemunho pessoal honra a Deus, alivia a nós mesmos, conforta os outros, e coloca todos os homens diante de fatos sobre a bondade divina que não poderão ignorar.
Versículo 23Salmo 107:23
Os que descem ao mar em navios. A navegação era tão pouco praticada entre os israelitas que os marinheiros eram revestidos de um alto mistério, e seu ofício era visto como algo de ousadia e perigo singulares. Histórias do mar arrepiavam todos os corações de temor, e quem tinha ido a Ofir ou a Társis e voltado vivo era visto como homem de renome, um velho marinheiro a ser ouvido com atenção reverente. As viagens eram vistas como uma descida a um abismo — "descer ao mar em navios" — ao passo que agora nossos marujos, mais ousados e mais acostumados, falam do "alto mar".
Que fazem negócio em grandes águas. Se não tivessem negócio a fazer, nunca se arriscariam no oceano, pois nunca lemos nas Escrituras de nenhum homem tomando o mar por diversão: tão avesso era o espírito israelita à vida marítima que nem mesmo se ouve falar de Salomão mantendo um barco de lazer. O Mediterrâneo era "o grande mar" para Davi e seus compatriotas, e eles viam com não pouca admiração os que tinham negócios nele.
Versículo 24Salmo 107:24
Estes veem as obras do Senhor. Mais do que os que habitam em terra, estes veem as maiores obras do Senhor, ou ao menos as que os que ficam em casa julgam ser assim quando ouvem o relato delas. Em vez de o oceano se revelar um deserto de águas, ele está repleto das criaturas de Deus, e se tentássemos escapar da sua presença voando para as partes mais remotas dele, apenas nos lançaríamos nos braços de Jeová, e nos encontraríamos bem no centro da sua oficina.
E as suas maravilhas nas profundezas. Veem maravilhas nele e sobre ele. Ele mesmo é uma maravilha, e fervilha de maravilhas. Os marinheiros, por terem menos objetos ao redor, são mais atentos aos que têm do que os homens de terra, e por isso se diz que veem as maravilhas nas profundezas. Ao mesmo tempo, o oceano de fato contém muitas das mais impressionantes criaturas de Deus, e é o palco de muitos dos mais tremendos fenômenos físicos pelos quais o poder e a majestade do Senhor se revelam entre os homens. As principais maravilhas a que o salmista alude são uma tempestade repentina e a calmaria que a segue. Nem todos os crentes têm a mesma experiência profunda; mas, para fins sábios, para que façam negócio por ele, o Senhor manda alguns dos seus santos ao mar da angústia da alma, e ali veem, como outros não veem, as maravilhas da graça divina. Navegando sobre as profundezas da depravação interior, as águas devastadoras da pobreza, as ondas da perseguição e as vagas ásperas da tentação, precisam de Deus mais do que todos os outros, e o encontram.
Versículo 25Salmo 107:25
Pois ele ordena: sua palavra basta para tudo; ele apenas precisa querê-lo, e a tempestade se levanta.
E levanta o vento tempestuoso. Parecia estar adormecido antes, mas conhece a ordem do seu Senhor, e se levanta de imediato em toda a sua fúria.
Que ergue as suas ondas. A superfície vítrea do mar se quebra, e miríades de cristas brancas surgem, enfurecendo-se e jogando-se de um lado para outro conforme o vento sopra sobre elas. Onde antes jaziam quietas, as ondas se erguem em toda a força e saltam rumo ao céu assim que o uivar do vento as desperta. Assim, basta uma palavra de Deus, e a alma se encontra em águas turbulentas, arremessada de um lado a outro por mil aflições. Dúvidas, medos, terrores, ansiedades erguem a cabeça como outras tantas ondas raivosas, assim que o Senhor permite que os ventos da tempestade batam sobre nós.
Versículo 26Salmo 107:26
Sobem até o céu. Erguidos na crista da onda, os marinheiros e seus navios parecem escalar os céus, mas é só por um instante, pois logo, na cava do mar, tornam a descer às profundezas. Como se o navio fosse apenas uma ave marinha, os marinheiros são atirados "para cima e para baixo, para cima e para baixo, do sopé da onda ao topo da vaga".
A sua alma se derrete de angústia. Exaustos, encharcados, desanimados, sem esperança de escape, o coração deles se transforma em água, e parecem não ter mais nenhuma coragem. Aqueles que já estiveram na profundeza espiritual numa das grandes tempestades que às vezes agitam a alma sabem o que este versículo significa. Nesses ciclones espirituais a presunção alterna-se com o desespero, a indiferença com a agonia! Não sobra ânimo para nada, a coragem se vai, a esperança quase morre. Tal experiência é tão real quanto o balançar de uma tempestade literal, e muito mais dolorosa. Alguns de nós já atravessamos muitos furacões internos assim, e de fato vimos as obras maravilhosas do Senhor.
Versículo 27Salmo 107:27
Andam vacilantes, e cambaleiam como um bêbado. O movimento violento do navio impede que se firmem nas pernas, e o medo lhes tira toda a capacidade de raciocinar, de modo que parecem homens embriagados.
E toda a sua sabedoria se esvai. O que mais podem fazer? Já usaram todo recurso conhecido da navegação, mas o navio está tão forçado e maltratado que não sabem mais como mantê-lo à tona. Também aqui o diário de bordo do marinheiro espiritual coincide com o do marinheiro do mar. Cambaleamos de modo apavorante! Não conseguíamos nos firmar em nada, nem nos segurar em nada. Não sabíamos o que fazer, e nada poderíamos ter feito mesmo que soubéssemos. Estávamos como homens fora de si, e sentíamos como se a própria destruição fosse melhor do que aquele horrível estado de suspenso. Quanto a juízo e sabedoria, foram completamente lavados de nós; sentíamo-nos totalmente sem saída.
Versículo 28Salmo 107:28
Então clamam ao Senhor na sua angústia. Embora sem saída, tinham ainda juízo bastante para orar; o coração se derreteu, e escorreu em clamores de socorro. Isso foi bom, e terminou bem, pois está escrito: E ele os tira das suas angústias. A oração é boa numa tempestade. Podemos orar cambaleando e vacilando, e orar quando estamos sem saída. Deus nos ouvirá em meio ao trovão e nos responderá do meio da tempestade. Ele trouxe as angústias sobre os marinheiros, e por isso fizeram bem em voltar-se a ele para removê-las; e não olharam em vão.
Versículo 29Salmo 107:29
Ele muda a tempestade em bonança. Revela seu poder nas transformações súbitas e maravilhosas que ocorrem à sua ordem. Ordenou a tempestade, e agora decreta a calmaria: Deus está em todos os fenômenos naturais, e fazemos bem em reconhecer sua obra.
De modo que as ondas se aquietam. Curvam-se em silêncio a seus pés. Onde vagas enormes saltavam ao alto, mal se vê uma ondulação. Quando Deus faz paz, é paz de verdade, a paz de Deus que excede todo entendimento. Ele pode, num instante, mudar a condição da mente de um homem, de modo que lhe pareça um milagre absoluto ter passado tão de repente do furacão à calmaria. Que o Senhor assim opere no leitor, caso seu coração esteja abalado pela tempestade de aflições externas ou medos internos. Senhor, diz a palavra, e a paz virá de imediato.
Versículo 30Salmo 107:30
Então se alegram, porque se aquietaram. Ninguém consegue apreciar este versículo se nunca esteve numa tempestade no mar. Nenhuma música pode ser mais doce do que o rangido da corrente quando os marinheiros lançam a âncora; e nenhum lugar parece mais desejável do que a pequena enseada, ou a ampla baía, onde o navio repousa em paz.
Assim os leva ao porto que desejavam. Quanto mais dura a viagem, mais os marinheiros anseiam pelo porto, e o céu se torna cada vez mais "um porto desejado", à medida que nossas provações se multiplicam. Por tempestades e por ventos favoráveis, tanto pela tormenta quanto pelo bom tempo, o grande Piloto e Governador do mar traz os marinheiros a porto, e o seu povo ao céu. A ele pertence a glória da bem-sucedida travessia do tempo, e quando estivermos ancorados no rio da vida lá em cima, cuidaremos para que seus louvores não sejam esquecidos. Já teríamos naufragado há muito, não fosse a sua mão preservadora, e nossa única esperança de sobreviver às tempestades do futuro se apoia na sua sabedoria, fidelidade e poder. Nosso porto celestial ressoará em gritos de alegria grata assim que alcançarmos a sua praia bendita.
Versículo 31Salmo 107:31
Oh, louvem os homens ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens! Que o mar proclame os louvores de Jeová pela sua graça libertadora. Assim que o marinheiro toca a praia, que erga o hino solene ao céu, e que outros, ao vê-lo resgatado das fauces da morte, se unam à sua ação de graças.
Versículo 32Salmo 107:32
E o exaltem também na congregação do povo. A gratidão por tais misericórdias deve ser dada em público, no lugar onde os homens se reúnem para adorar.
E o louvem na assembleia dos anciãos. O louvor deve ser apresentado com grande solenidade, na presença de homens de anos, experiência e influência. Serviço tão alto e tão grave deve ser prestado por favores tão grandes e distintos, e por isso que o sacrifício seja apresentado com o devido decoro e com séria gravidade. Muitas vezes, quando os homens ouvem falar de um escape por pouco de um naufrágio, passam pelo assunto com um comentário descuidado sobre sorte, mas nunca se deveria brincar assim com isso. Quando um coração já passou por grandes tempestades espirituais e finalmente encontrou paz, seguirá como dever e como privilégio o reconhecimento da misericórdia do Senhor diante do seu povo, e é bom que isso se faça na presença dos que exercem cargo na igreja, e que, pela maturidade dos anos, são mais capazes de apreciar o testemunho.
Versículo 33Salmo 107:33
Ele transforma rios em deserto, e mananciais em terra seca. Quando o Senhor trata com homens rebeldes, pode logo privá-los das bênçãos de que se sentem mais seguros: seus rios e fontes perenes, eles consideram certos de nunca lhes serem tirados, mas o Senhor, com uma palavra, pode privá-los até mesmo destes. Em climas quentes, depois de longas secas, os riachos falham por completo, e até as fontes deixam de correr, e isso também já aconteceu em outras partes do mundo quando grandes convulsões da superfície da terra ocorreram.
Na providência, essa catástrofe física encontra seu paralelo quando os negócios deixam de dar lucro e as fontes de riqueza são feitas fracassar; assim como quando saúde e força são tiradas, quando apoios amigos são retirados, e associações agradáveis se desfazem. Assim também, nas coisas da alma, os ministérios mais prósperos podem secar, as meditações mais deleitosas deixam de nos beneficiar, e os exercícios religiosos mais frutíferos ficam vazios do refrigério de graça que antes davam. Uma vez que
É Deus quem eleva nossos consolos ao alto,
Ou os afunda na sepultura,
convém andarmos diante dele com gratidão reverente, e vivermos de modo que não se torne necessário a ele afligir-nos.
Versículo 34Salmo 107:34
Terra frutífera em terra salgada. Isso já aconteceu em muitos casos, e notavelmente no caso da própria terra do salmista, que outrora foi a glória de todas as terras e hoje é quase um deserto.
Pela maldade dos que nela habitam. O pecado está no fundo da dor. Foi ele que primeiro tornou o solo estéril nos dias do pai Adão, e continua a exercer um efeito destruidor sobre tudo o que toca. Se não temos o sal da santidade, logo receberemos o sal da esterilidade, pois o texto, no hebraico, diz: "uma terra frutífera em salinidade." Se não quisermos dar ao Senhor uma colheita de obediência, ele pode proibir o solo de nos dar uma colheita de pão, e então? Se transformamos o bem em mal, podemos nos admirar de que o Senhor nos pague na mesma moeda, e devolva nossa vileza ao nosso próprio seio? Muita igreja estéril deve seu triste estado atual ao seu comportamento inconsistente, e muito cristão estéril chegou a essa condição lamentável por um andar descuidado e não santificado diante do Senhor. Que os santos hoje úteis não corram o risco de sofrer a perda das suas bênçãos, mas que estejam vigilantes para que tudo lhes corra bem.
Versículo 35Salmo 107:35
Ele transforma o deserto em lago. Com outro toque de mão, ele mais do que restaura o que em juízo havia tirado. Faz sua obra de misericórdia em escala real, pois vê-se um lago profundo onde antes só havia um ermo arenoso. Não é por leis naturais, agindo por alguma força inata, que essa maravilha se opera, mas por ele mesmo — ELE TRANSFORMA.
E a terra seca em mananciais. Continuidade, abundância e frescor perpétuo estão todos implícitos em "mananciais", e estes são criados onde tudo era seco. Essa maravilha de misericórdia é a exata reversão do ato de juízo, e operada pela mesma mão. Assim também na igreja, e em cada santo individual, a misericórdia do Senhor logo opera mudanças maravilhosas onde a graça restauradora e renovadora começa sua obra benigna. Oxalá víssemos este versículo cumprido em tudo ao nosso redor, e dentro dos nossos próprios corações: então estas palavras nos serviriam de exclamação de espanto grato, e de cântico de louvor bem merecido.
Versículo 36Salmo 107:36
E ali faz habitar os famintos, onde ninguém antes podia habitar. Eles vão apreciar a mudança e prezar a sua graça; assim como a esterilidade da terra causou a sua fome, também a sua fertilidade a banirá para sempre, e se estabelecerão como povo feliz e agradecido, bendizendo a Deus por cada punhado de trigo que a terra lhes dá. Ninguém está tão pronto a devolver um tributo de louvor a Deus por grandes misericórdias quanto quem já conheceu a falta delas. Almas famintas fazem música doce quando o Senhor as enche de seus dons graciosos. Estamos famintos? Ou estamos satisfeitos com as vagens deste pobre mundo de porcos?
Para que preparem uma cidade em que habitar. Quando a terra é regada e os homens a cultivam, cidades surgem e fervilham de habitantes; quando a graça abunda onde antes reinava o pecado, os corações encontram paz e habitam no amor de Deus como numa cidade forte. A igreja se edifica onde antes tudo era ermo, quando o Senhor faz correr os largos rios e riachos da graça do evangelho.
Versículo 37Salmo 107:37
E semeiam os campos, e plantam vinhas, que produzem frutos de aumento. Os homens trabalham quando Deus trabalha. A sua bênção anima o semeador, alegra o plantador, e recompensa o trabalhador. Não só necessidades, mas também luxos são desfrutados — vinho tanto quanto trigo — quando os céus são feitos derramar a chuva necessária para encher os cursos d'água. As visitações divinas trazem grandes riquezas espirituais, alimentam obras variadas de fé e trabalhos de amor, e fazem abundar todo bom fruto para o nosso conforto e para o louvor de Deus. Quando Deus envia a bênção, ela não substitui, mas anima e desenvolve o esforço humano. Paulo planta, Apolo rega, e Deus dá o crescimento.
Versículo 38Salmo 107:38
Também os abençoa, de modo que se multiplicam muito; e não deixa diminuir o seu gado. A bênção de Deus é tudo. Ela não só torna os homens felizes, como faz os próprios homens existirem, causando sua multiplicação sobre a terra. Quando o Senhor fez o primeiro casal, abençoou-os e disse "sede fecundos e multiplicai-vos", e aqui ele restaura a bênção primordial.
Observe-se que os animais, tanto quanto os homens, prosperam quando Deus favorece o seu povo: partilham com os homens da bondade ou da severidade da providência divina. Pragas e pestes são afastadas do rebanho e da manada quando o Senhor tem boas intenções para com um povo; mas quando o castigo é a intenção, rebanhos e manadas apodrecem sobre a face da terra. Quisera que as nações, no dia da sua prosperidade, reconhecessem a mão graciosa de Deus, pois é à sua bênção que devem tudo o que têm.
Versículo 39Salmo 107:39
De novo se diminuem e se abatem, pela opressão, pela aflição e pela dor. Assim como muda o caráter deles, mudam também as circunstâncias. Sob a antiga dispensação, isso era muito claramente observável; os altos e baixos de Israel eram consequência direta dos seus pecados e do seu arrependimento. As provações são de vários tipos; aqui temos três palavras para aflição, e há muitas outras: Deus tem muitas varas, e nós temos muitas dores; e tudo porque temos muitos pecados. Nações e igrejas logo diminuem em número quando diminuem em graça. Se estamos baixos no amor a Deus, não é de admirar que ele nos abata em outros aspectos. Deus pode inverter a ordem da nossa prosperidade, e nos dar um diminuendo onde tínhamos um crescendo; por isso andemos diante dele com grande ternura de espírito, conscientes da nossa dependência do seu favor.
Versículos 40–41Salmo 107:40-41
Nestes dois versículos vemos como o Senhor, à sua vontade, gira a roda da providência. Sem nenhum respeito pela grandeza imaginária do homem, ele derruba príncipes e os faz vagar no exílio, assim como eles fizeram vagar seus cativos, expulsando-os de terra em terra: ao mesmo tempo, tendo sempre um olhar terno para com os pobres e necessitados, o Senhor liberta os aflitos e os coloca numa posição de conforto e felicidade. Isso se vê repetidas vezes no rolo da história, e na experiência espiritual notamos o seu paralelo: os autossuficientes são levados a desprezar a si mesmos e a buscar em vão ajuda no deserto da própria natureza, enquanto pobres almas convictas se juntam à família do Senhor e habitam em segurança como ovelhas do seu rebanho.
Versículo 42Salmo 107:42
Os justos verão isso, e se alegrarão. A providência divina causa alegria ao verdadeiro povo de Deus; eles veem a mão do Senhor em todas as coisas, e se deleitam em estudar os caminhos da sua justiça e da sua graça.
E toda a iniquidade fechará a sua boca. O que ela pode dizer? A providência de Deus é muitas vezes tão conclusiva nos seus argumentos de fato, que não há como replicar ou questionar. Não é por muito tempo que o descaramento da impiedade consegue ficar calado, mas quando os juízos de Deus se manifestam, ele é forçado a segurar a língua.
Versículo 43Salmo 107:43
Quem é sábio observará estas coisas, e todos entenderão as benignidades do Senhor. Quem repara na providência jamais ficará muito tempo sem um reparo da providência. É sábio observar o que o Senhor faz, pois ele é maravilhoso em conselho; deu-nos olhos para ver, e é tolice fechá-los justamente quando mais há para observar; mas devemos observar com sabedoria, senão logo poderemos confundir a nós mesmos e a outros com reflexões apressadas sobre os tratos do Senhor. De mil maneiras se mostra a benignidade do Senhor, e se olharmos com prudência, chegaremos a uma compreensão melhor dela. Compreender o deleitoso atributo da benignidade é uma conquista tão agradável quanto proveitosa: os que forem hábeis nessa arte estarão entre os mais doces cantores para a glória de Jeová.
Obras sobre este salmo
Pe lagov. Nec inter vivos, nec inter mortuos — Nem entre os Vivos, nem entre os Mortos. Ou, um APROVEITAMENTO do MAR. Sobre
Os Nove Versículos Náuticos do Salmo 107... Por DANIEL PELL, Pregador da Palavra. Londres... 1659 (8vo.).
A Special Treatise of God's Providence, and of Comforts against all kinds of crosses and calamities to be fetched from the same. Com uma exposição do Salmo 107. Por P. Baro. Traduzido para o inglês por I. L. (John Ludham), B. L. (Londres, 1588, 8vo. Letra gótica.)
A Practical Comment on the Hundred and Seventh Psalm. Pregado na Palestra de Quinta-feira, na Igreja de St. Dunstan-in-the-West, Londres. Por William Romaine, Palestrante da referida Igreja. Londres, 1767. (8vo.)