Salmo 123
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TÍTULO. Um Cântico de Romagem. Estamos subindo. O primeiro degrau (Salmo 120) nos viu lamentando as circunstâncias perturbadoras; o seguinte nos viu erguendo os olhos para os montes e descansando em segurança certa; daí subimos ao deleite na casa do Senhor; mas aqui olhamos para o próprio Senhor, e esta é a mais alta ascensão de todas, em muitos degraus. Os olhos agora miram acima dos montes, e acima do estrado dos pés de Jeová na terra, até o seu trono nos céus.
Chamemos-o "o Salmo dos olhos". Autores antigos o chamavam Oculus Sperans, o olho da esperança. É um Salmo curto, escrito com arte rara, contendo um único pensamento e expressando-o da maneira mais cativante. Sem dúvida foi um cântico favorito entre o povo de Deus.
Conjectura-se que este breve cântico, ou antes suspiro, tenha soado pela primeira vez nos dias de Neemias, ou sob as perseguições de Antíoco. Pode ser; mas não há prova disso. Parece-nos tão provável quanto isso que aflitos de todas as épocas posteriores a Davi encontraram este salmo pronto para sua mão. Se ele parece descrever dias distantes de Davi, tanto mais evidente fica que o Salmista era também profeta, e cantou o que viu em visão.
Exposição
Versículo 1Salmo 123:1
A ti levanto os meus olhos. É bom ter alguém para quem olhar. O Salmista olhou tão alto que não podia olhar mais alto. Não para os montes, mas para o Deus dos montes ele olhou. Ele cria num Deus pessoal, e nada sabia daquele panteísmo moderno que não é mais que ateísmo vestindo folha de figueira. Os olhos erguidos representam, natural e instintivamente, o estado do coração que fixa o desejo, a esperança, a confiança e a expectativa no Senhor.
Deus está em toda parte, e no entanto é bem natural pensá-lo como estando acima de nós, naquela terra de glória que se estende além dos céus. "Ó tu que habitas nos céus" expõe justamente a ideia simples de um filho de Deus em angústia: Deus existe, Deus está no céu, Deus reside num lugar, e Deus é sempre o mesmo; por isso olharei para ele. Quando não podemos olhar para nenhum socorro ao nosso nível, é grande sabedoria olhar acima de nós; de fato, ainda que tivéssemos mil socorros, nossos olhos deveriam continuar voltados para o Senhor.
Quanto mais alto está o Senhor, melhor para a nossa fé, pois essa altura representa poder, glória e excelência, e tudo isso estará empenhado a nosso favor. Devemos ser muito gratos por termos olhos espirituais; os cegos deste mundo, por mais erudição humana que possuam, não podem contemplar o nosso Deus, pois em coisas celestiais não têm vista alguma. Contudo, precisamos usar nossos olhos com resolução, pois eles não sobem sozinhos até o Senhor; antes inclinam-se a olhar para baixo, ou para dentro, ou para qualquer parte menos para o Senhor. Que seja nossa firme resolução não deixar faltar o olhar voltado para o céu.
Se não podemos ver a Deus, ao menos olharemos em sua direção. Deus está no céu como um rei em seu palácio; ali é revelado, adorado e glorificado; dali olha para baixo, para o mundo, e envia socorro aos seus santos conforme suas necessidades exigem; por isso olhamos para cima, mesmo quando nossa tristeza é tão grande que nada mais podemos fazer. É uma condescendência abençoada da parte de Deus que ele nos permita levantar os olhos ao seu glorioso e alto trono; mais ainda, que ele nos convide, e até nos ordene, a fazê-lo.
Quando estamos olhando para o Senhor em esperança, é bom dizer-lho em oração: o Salmista usa a voz tanto quanto o olhar. Não precisamos falar na oração; um olhar dos olhos basta; pois —
A oração é o peso de um suspiro,
A queda de uma lágrima,
O relance para cima de um olhar
Quando só Deus está perto.
Ainda assim, é útil ao coração usar a língua, e fazemos bem em dirigir-nos, em palavras e frases, ao Deus que ouve o seu povo. Não é pequena alegria que o nosso Deus esteja sempre em casa: ele não está em viagem, como Baal, mas habita nos céus. Que nenhuma hora do dia nos pareça inoportuna para esperar no Senhor; nenhuma vigília da noite, escura demais para que olhemos para ele.
Versículo 2Salmo 123:2
Vede. Pois é digno de atenção entre os homens, e oxalá a Majestade dos céus também o note, e envie depressa a misericórdia que nossos espíritos à espera buscam. Vê, ó Senhor, como olhamos para ti, e na tua misericórdia olha para nós. Este "Vede", porém, traz um chamado para que observemos e consideremos. Sempre que os santos de Deus esperaram no Senhor, seu exemplo foi digno de séria consideração. A santificação é um milagre da graça; por isso, contemplemo-la. Que Deus tenha operado nos homens o espírito de serviço é grande maravilha, e como tal, que todos se voltem e vejam este grande espetáculo.
"Como os olhos dos servos (ou escravos) olham para a mão de seus senhores." Eles ficam de pé no fundo do salão, com as mãos cruzadas, observando os movimentos do seu senhor. Os orientais falam menos que nós, e preferem dirigir seus escravos por gestos das mãos: por isso o doméstico precisa fixar os olhos no seu senhor, ou pode perder um sinal e assim deixar de obedecê-lo. Do mesmo modo, o homem santificado ergue os olhos para Deus, e se esforça por aprender a vontade divina em cada um dos sinais que o Senhor se apraz em usar. Criação, providência, graça — todos estes são movimentos da mão de Jeová, e de cada um deles se aprende uma parte do nosso dever; por isso devemos estudá-los com cuidado, para descobrir a vontade divina.
"E como os olhos de uma serva olham para a mão de sua senhora" — esta segunda comparação pode ser usada porque as mulheres orientais são ainda mais rigorosas que os homens no treinamento de seus servos. Costuma-se pensar que as mulheres dão mais ordens, e são mais sensíveis à desobediência, que o sexo mais forte. Entre as matronas romanas, as escravas tinham vida dura, e sem dúvida era o mesmo entre a generalidade das damas orientais.
"Assim os nossos olhos esperam no Senhor nosso Deus." Os crentes desejam estar atentos a cada uma e a todas as direções do Senhor; mesmo as que parecem coisas pequenas não são pequenas para nós, pois sabemos que até de palavras ociosas seremos chamados a prestar contas, e ansiamos por prestar essa conta com alegria, e não com tristeza. Os verdadeiros santos, como servos obedientes, olham para o Senhor seu Deus com reverência: têm um santo temor e um íntimo respeito pelo Grande e Glorioso. Vigiam, obedientes, cumprindo os seus mandamentos, guiados pelo seu olhar.
Seu olhar constante está fixo, atento, em tudo o que vem do Altíssimo; prestam séria atenção, e temem deixar algo escapar por descuido ou sonolência. Olham continuamente, pois nunca há hora em que estejam de folga; em todo tempo se comprazem em servir em todas as coisas. Fixam os olhos no Senhor com expectativa, buscando provisão, socorro e segurança das suas mãos, esperando que ele tenha misericórdia deles. Para ele olham singelamente, não têm outra confiança, e aprendem a olhar submissamente, esperando com paciência no Senhor, buscando tanto na atividade quanto no sofrimento glorificar o seu nome. Quando são feridos pela vara, voltam os olhos suplicantes para a mão que os disciplina, esperando que a misericórdia logo abrande o rigor da aflição.
Há muito mais nesta figura do que podemos mostrar neste breve comentário; talvez seja mais proveitoso sugerir a pergunta: estamos assim treinados para o serviço? Ainda que sejamos filhos, aprendemos a plena obediência dos servos? Renunciamos a nós mesmos, e curvamos a nossa vontade diante da Majestade celestial? Desejamos, em todas as coisas, estar à disposição do Senhor? Se assim é, felizes nós. Embora sejamos feitos coerdeiros com Cristo, por ora pouco diferimos dos servos, e bem podemos contentar-nos em tomá-los por modelo.
Versículo 3Salmo 123:3
Tem misericórdia de nós, ó Senhor, tem misericórdia de nós. Ele se apega à palavra "misericórdia", e a incorpora numa oração veemente: a própria palavra parece prendê-lo, e ele insiste nela. É bom para nós orar sobre tudo, e transformar tudo em oração; e especialmente quando somos lembrados de uma grande necessidade, devemos tomá-la como nota-chave, e afinar nosso canto por ela. A repetição da oração diante de nós tem por fim expressar a ânsia do espírito do Salmista e sua necessidade urgente: o que ele precisava depressa, pede com insistência.
Note que ele deixou a primeira pessoa do singular pela do plural. Todos os santos precisam de misericórdia; todos a buscam; todos a terão, por isso oramos — "tem misericórdia de nós." Um escravo, ao ser corrigido, olha para a mão do senhor para que o castigo cesse, e assim também olhamos para o Senhor buscando misericórdia, e a suplicamos de todo o coração. Nossos adversários desdenhosos não terão misericórdia de nós; não a peçamos das mãos deles, mas voltemo-nos para o Deus de misericórdia, e busquemos somente o seu socorro.
"Pois estamos sobremaneira cheios de desprezo", e isto é um ácido que corrói a alma. Observe as palavras enfáticas. O desprezo é amargura, absinto misturado com fel; quem o sente bem pode clamar por misericórdia ao seu Deus. Cheios de desprezo, como se o vinho amargo tivesse sido despejado até transbordar. Este se tornara o pensamento principal de suas mentes, a tristeza peculiar de seus corações. Excluindo todos os outros sentimentos, um sentimento de escárnio monopolizava a alma e a tornava indizivelmente infeliz.
Outra palavra se acrescenta como advérbio — sobremaneira cheios. Cheios até transbordar, como se fossem comprimidos e depois empilhados. Um pouco de desprezo eles podiam suportar, mas agora estavam saturados dele, e cansados dele. Admiramo-nos da tríplice menção da misericórdia quando este mal predominava assim? Nada fere, amarga e supura mais que o desdém. Quando nossos companheiros nos diminuem, somos por demais propensos a diminuir a nós mesmos e às consolações preparadas para nós. Ah, que sejamos cheios de comunhão, e então o desprezo escorrerá de nós, e jamais poderá encher-nos com seu vinagre mordaz.
Versículo 4Salmo 123:4
A nossa alma está sobremaneira cheia do escárnio dos que vivem à vontade. Não conhecendo tribulações próprias, os que vivem à vontade tornam-se cruéis e escarnecem o povo do Senhor. Já tendo os piedosos em secreto desprezo, mostram-no escarnecendo-os abertamente. Note quem faz isto: não são os pobres, os humildes, os aflitos, mas os que levam vida alegre e estão satisfeitos consigo mesmos. Estão em circunstâncias fáceis; são leves de coração por causa de uma consciência entorpecida, e assim chegam facilmente a zombar da santidade; são leves por não precisarem de nada, e por não lhes ser exigido trabalho árduo algum; são leves quanto a qualquer ânsia de melhorar, pois a vaidade que têm de si mesmos é ilimitada.
Tais homens levam tudo com leveza, e por isso escarnecem do cuidado santo daqueles que vigiam a mão do Senhor. Dizem: Quem é o Senhor, para que lhe obedeçamos à voz? E então se voltam com um olhar de desprezo e zombam dos que temem ao Senhor. Ai daqueles que vivem à vontade em Sião; o seu desprezo pelos piedosos apressará e aumentará a sua própria desgraça.
O efeito nocivo da isenção de aflição fica aqui singularmente evidente. Ponha um homem em perfeita comodidade, e ele escarnecerá dos piedosos que sofrem, tornando-se ele mesmo soberbo no coração e na conduta.
"E do desprezo dos soberbos". Os soberbos pensam tanto de si mesmos que necessariamente pensam ainda menos dos que lhes são superiores. O orgulho é ao mesmo tempo desprezível e desprezador. O desprezo dos grandes da terra é muitas vezes particularmente acre: alguns deles, como certo estadista conhecido, são "mestres de troça, zombaria e escárnio", e nunca parecem tão à vontade em sua acrimônia quanto quando um servo do Senhor é a vítima do seu veneno. É bastante fácil escrever sobre este assunto, mas ser escolhido como alvo do desprezo é coisa bem diferente. Grandes corações já se quebraram, e espíritos corajosos já murcharam sob o poder maldito da falsidade e a praga horrível do desprezo.
Para nosso consolo, podemos lembrar que o nosso divino Senhor foi desprezado e rejeitado pelos homens, e mesmo assim não cessou o seu serviço perfeito até ser exaltado para habitar nos céus. Levemos a nossa parte deste mal, que ainda hoje grassa debaixo do sol, e creiamos firmemente que o desprezo dos ímpios se converterá em nossa honra no mundo vindouro: mesmo agora ele serve de certidão de que não somos do mundo, pois se fôssemos do mundo, o mundo nos amaria como seus.