Tesouros de Davi

Salmo 139

Leia o Salmo 139 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Um dos mais notáveis hinos sagrados. Ele canta a onisciência e a onipresença de Deus, e daí infere a derrota dos poderes do mal, pois aquele que vê e ouve os atos e as palavras abomináveis dos rebeldes há de tratá-los conforme a sua justiça.

O brilho deste Salmo é como o de uma pedra de safira, ou como o "terrível cristal" de Ezequiel; ele lampeja com tais clarões de luz que transforma a noite em dia. Como um farol, este santo cântico lança clareza até os confins do mar, e nos adverte contra aquele ateísmo prático que ignora a presença de Deus, levando a alma ao naufrágio.

TÍTULO. Ao Músico-Mor. A última vez que este título apareceu foi no Salmo 109:1-31. Este cântico sagrado é digno do mais excelente dos cantores, e é apropriadamente dedicado ao regente da música do Templo, para que ele o pusesse em melodia e cuidasse para que fosse devotamente entoado no culto solene ao Altíssimo.

Um Salmo de Davi. Ele traz a imagem e a assinatura do rei Davi, e não poderia ter saído de outra cunhagem senão a do filho de Jessé. É claro que os críticos tiram esta composição de Davi por causa de certas expressões aramaicas nela contidas. Cremos que, pelos princípios de crítica hoje em voga, seria facílimo provar que Milton não escreveu Paraíso Perdido.

Ainda estamos para aprender que Davi não pudesse ter usado expressões pertencentes "à língua da casa ancestral patriarcal". Quem sabe quanto da fala antiga pode ter sido propositalmente conservado entre aquelas mentes mais nobres que se comprazia em lembrar a descendência de sua linhagem?

Sabendo a que inferências estapafúrdias os críticos já correram em outras matérias, perdemos quase toda a confiança neles, e preferimos crer que Davi seja o autor deste Salmo, por evidências internas de estilo e conteúdo, a aceitar a determinação de homens cujos modos de julgar são manifestamente pouco confiáveis.

Exposição

Versículo 1Salmo 139:1

O SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Ele invoca em adoração a Jeová, o Deus que tudo sabe, e passa a adorá-lo proclamando um de seus atributos peculiares. Se quisermos louvar a Deus corretamente, devemos tirar a matéria do nosso louvor dele mesmo — "Ó Jeová, tu tens". Nenhum deus fingido sabe coisa alguma sobre nós; mas o verdadeiro Deus, Jeová, nos entende, e conhece intimamente nossa pessoa, natureza e caráter. Como é bom conhecer o Deus que nos conhece!

O conhecimento divino é extremamente minucioso e perscrutador; é como se ele nos tivesse revistado, como oficiais revistam um homem à procura de contrabando, ou como saqueadores vasculham uma casa em busca de despojo. Contudo não devemos levar a figura longe demais, a ponto de nos conduzir além do que se pretende: o Senhor conhece todas as coisas naturalmente, por sua própria condição, e não por qualquer esforço de sua parte. Sondar normalmente implica certa medida de ignorância que a observação remove; isso, claro, não se aplica ao Senhor; mas o sentido do salmista é que o Senhor nos conhece tão a fundo quanto se nos tivesse examinado minuciosamente, perscrutando os cantos mais secretos do nosso ser.

Este conhecimento infalível sempre existiu — "tu me sondaste" — e continua até hoje, pois Deus não pode esquecer o que já conheceu uma vez. Nunca houve tempo em que fôssemos desconhecidos de Deus, e nunca haverá momento em que estejamos fora de sua observação.

Note como o salmista torna sua doutrina pessoal: ele não diz "ó Deus, tu conheces todas as coisas", mas "tu me conheces". É sempre nossa sabedoria aplicar a verdade a nós mesmos. Que contraste maravilhoso entre o observador e o observado! Jeová e eu! Contudo esta ligação tão íntima existe, e nela está a nossa esperança. Deixe o leitor sentar-se um instante e procurar compreender os dois polos desta afirmação — o Senhor e o homem, pobre e frágil — e verá muito que admirar e diante de que se maravilhar.

Versículo 2Salmo 139:2

Tu conheces o meu assentar e o meu levantar. A mim tu conheces, e tudo o que vem de mim. Sou observado quando me assento tranquilo, e notado quando me levanto resolutamente. Meus atos mais comuns e casuais, meus movimentos mais necessários e indispensáveis, são registrados pelo tempo, e tu conheces os pensamentos íntimos que os regulam. Quer eu me abata em humilde renúncia de mim mesmo, quer me eleve em orgulho, tu vês os movimentos da minha mente, assim como os do meu corpo. Este é um fato a lembrar a cada momento: sentando-nos para refletir, ou levantando-nos para agir, somos sempre vistos, conhecidos e lidos por Jeová, nosso Senhor.

Tu de longe entendes o meu pensamento. Antes que seja meu, já é conhecido de antemão e compreendido por ti. Ainda que meu pensamento seja invisível à vista, ainda que eu mesmo não perceba ainda a forma que está tomando, tu o tens sob tua consideração, e percebes sua natureza, sua origem, seu rumo, seu resultado. Nunca me julgas mal nem me interpretas de modo equivocado: meu pensamento mais íntimo é perfeitamente entendido por tua mente imparcial. Ainda que lançasses apenas um relance ao meu coração, e me visses como se vê um meteoro passageiro movendo-se ao longe, ainda assim, por aquele vislumbre, resumirias todos os sentidos da minha alma, tão transparente é tudo diante do teu olhar penetrante.

Versículo 3Salmo 139:3

Tu cercas o meu andar e o meu deitar. Meu caminho e meu leito, minha correria e meu descanso, estão igualmente dentro do círculo da tua observação. Tu me circundas como o ar circunda continuamente todas as criaturas vivas. Estou encerrado dentro do muro do teu ser; estou cercado dentro dos limites do teu conhecimento. Acordado ou dormindo, ainda assim sou observado por ti. Posso deixar o teu caminho, mas tu nunca deixas o meu. Posso dormir e esquecer-te, mas tu jamais dormitas, nem cais em esquecimento a respeito da tua criatura.

O original significa não apenas cercar, mas também joeirar e peneirar. O Senhor julga nossa vida ativa e nossa vida tranquila; ele discerne nossa ação e nosso repouso, e marca neles o que é bom e também o que é mau. Há palha em todo o nosso trigo, e o Senhor os separa com precisão infalível.

E conheces bem todos os meus caminhos. Estás familiarizado com tudo o que faço; nada te é oculto, nada te surpreende, nada é por ti mal-entendido. Nossos caminhos podem ser habituais ou acidentais, abertos ou secretos, mas com todos eles o Santíssimo está bem familiarizado. Isto deveria encher-nos de temor reverente, para que não pequemos; de coragem, para que não temamos; e de deleite, para que não nos lamentemos.

Versículo 4Salmo 139:4

Porque ainda não há palavra na minha língua, e eis, ó SENHOR, que já a sabes toda. A palavra ainda não formada, que jaz dentro da língua como semente no solo, é certa e completamente conhecida pelo Grande Perscrutador dos corações. Usa-se uma expressão negativa para tornar a afirmação positiva ainda mais forte: dizer que nenhuma palavra é desconhecida é um modo enfático de dizer que toda palavra é bem conhecida.

O conhecimento divino é perfeito, pois nenhuma palavra é desconhecida — nem mesmo uma palavra ainda não pronunciada — e cada uma é conhecida "toda", isto é, por inteiro. Que esperança de esconderijo pode restar quando a própria fala, com a qual tantos escondem seus pensamentos, é transparente diante do Senhor? Ó Jeová, quão grande és tu! Se o teu olhar tem tal poder, qual não será a força unida de toda a tua natureza!

Versículo 5Salmo 139:5

Tu me cercaste, atrás e adiante. Como se estivéssemos presos numa emboscada, ou sitiados por um exército que cercou por completo os muros da cidade, somos cercados pelo Senhor. Deus nos colocou onde estamos, e nos cerca onde quer que estejamos. Atrás de nós está Deus registrando nossos pecados, ou, em graça, apagando a lembrança deles; e diante de nós está Deus conhecendo de antemão todos os nossos atos, e provendo todas as nossas necessidades. Não podemos voltar para escapar dele, pois ele está atrás; não podemos avançar para ultrapassá-lo, pois ele está adiante. Ele não apenas nos observa, mas nos cerca; e para que não parecesse haver chance alguma de fuga, ou para que não imaginássemos que a presença que nos cerca ainda fosse distante, acrescenta-se:

E puseste sobre mim a tua mão. O prisioneiro marcha cercado por uma guarda, e preso pela mão de um oficial. Deus está muito perto; estamos inteiramente em seu poder; desse poder não há escapatória. Não se diz que Deus assim nos cercará e nos deterá, mas que já o fez — "tu me cercaste". Não haveríamos de mudar a figura e dizer que nosso Pai celestial dobrou os braços ao nosso redor, e nos acaricia com a sua mão? É bem assim com aqueles que, pela fé, são filhos do Altíssimo.

Versículo 6Salmo 139:6

Tal ciência é maravilhosa demais para mim. Não consigo abarcá-la. Mal suporto pensar nela. O tema me sobrepuja. Fico atônito e pasmo diante dele. Tal conhecimento não apenas ultrapassa minha compreensão, mas até mesmo a minha imaginação.

É tão alta, que não a posso atingir. Por mais que eu me eleve, esta verdade é elevada demais para minha mente. Ela parece estar sempre acima de mim, mesmo quando me elevo às mais altas regiões do pensamento espiritual. Não é assim com todo atributo de Deus? Podemos alcançar alguma noção do seu poder, da sua sabedoria, da sua santidade? Nossa mente não tem régua com que medir o Infinito.

Questionamos, então, por isso? Digamos antes que, por isso, cremos e adoramos. Não nos surpreende que o Deus gloriosíssimo esteja, em seu conhecimento, muito acima de todo conhecimento que possamos alcançar: há de ser necessariamente assim, visto que somos seres tão pobres e limitados; e, mesmo na ponta dos pés, não conseguimos alcançar o degrau mais baixo do trono do Eterno.

Versículo 7Salmo 139:7

Aqui o tema é a onipresença — uma verdade à qual a onisciência naturalmente conduz.

Para onde me irei do teu Espírito? Não que o salmista desejasse afastar-se de Deus, ou fugir do poder da vida divina; mas ele faz esta pergunta para expor o fato de que ninguém pode escapar do ser onipresente e da observação do Grande Espírito Invisível. Repare como o autor torna o assunto pessoal para si mesmo — "para onde me irei?" Seria bom se todos aplicássemos assim a verdade ao nosso próprio caso. Seria sábio que cada um dissesse: o Espírito do Senhor está sempre ao meu redor; Jeová é onipresente para mim.

Ou para onde fugirei da tua presença? Se, tomado de pavor, eu me apressasse a escapar daquela proximidade de Deus que se tornara meu terror, para que lado eu poderia me voltar? "Para onde?" "Para onde?" Ele repete o clamor. Nenhuma resposta lhe retorna. A réplica ao seu primeiro "para onde?" é o seu próprio eco — um segundo "para onde?"

Da vista de Deus ele não pode se esconder, mas isso não é tudo — da presença imediata, real e constante de Deus ele não pode se retirar. Estamos, quer queiramos quer não, tão perto de Deus quanto nossa alma está do nosso corpo. Isso torna terrível a obra de pecar; pois ofendemos o Todo-Poderoso face a face, e cometemos atos de traição ao próprio pé do seu trono. Afastar-nos dele, ou fugir dele, não podemos: nem por viagem paciente nem por fuga apressada podemos nos retirar da Divindade que tudo circunda. Sua mente está em nossa mente; ele mesmo está dentro de nós. Seu Espírito paira sobre o nosso espírito; nossa presença está sempre em sua presença.

Versículo 8Salmo 139:8

Se subir ao céu, lá tu estás. Preenchendo a mais alta região com sua presença ainda mais alta, Jeová está no lugar celestial, em casa, sobre o seu trono. A ascensão, se fosse possível, seria inútil para fins de fuga; seria, de fato, voar para o centro do fogo a fim de evitar o calor. Ali seria ele imediatamente confrontado pela terrível personalidade de Deus. Note as palavras abruptas — "TU, ALI".

Se fizer no inferno a minha cama, eis que ali estás também. Descendo às mais baixas profundezas imagináveis entre os mortos, ali encontraríamos o Senhor. TU!, diz o salmista, como se sentisse que Deus era o único grande Ser existente em todos os lugares. Seja o que for o Hades, ou quem quer que ali esteja, uma coisa é certa: Tu, ó Jeová, ali estás.

Duas regiões, uma de glória e outra de trevas, são postas em contraste, e este único fato se afirma de ambas — "ali estás tu". Quer nos ergamos, quer nos deitemos, quer alcemos voo, quer façamos nossa cama, encontraremos Deus perto de nós. Um "eis" é acrescentado à segunda oração, pois parece maior maravilha encontrar Deus no inferno que no céu, no Hades que no Paraíso. É claro que a presença de Deus produz efeitos muito diferentes nesses lugares, mas ela está, sem dúvida, em cada um; a bem-aventurança de um, o terror do outro. Que pensamento terrível, que alguns homens pareçam decididos a fixar sua morada noturna no inferno — uma noite que jamais conhecerá manhã.

Versículo 9Salmo 139:9

Se tomar as asas da alva, e habitar nas extremidades do mar, se eu pudesse voar com toda a rapidez, e encontrar morada onde o marinheiro ainda não sulcou as profundezas, ainda assim eu não conseguiria alcançar os limites da presença divina. A luz voa com velocidade inconcebível, e lampeja para além de todo o alcance humano; ela ilumina o mar grande e largo, e faz suas ondas brilharem ao longe; mas sua rapidez falharia por completo se empregada para fugir do Senhor.

Ainda que voássemos nas asas da brisa da manhã, e nos lançássemos em oceanos desconhecidos de carta e mapa, ali encontraríamos o Senhor já presente. Aquele que salva até o extremo estaria conosco até as partes mais extremas do mar.

Versículo 10Salmo 139:10

Até ali me guiará a tua mão. Só poderíamos fugir de Deus pelo seu próprio poder. O Senhor estaria nos guiando, cobrindo, preservando, sustentando, mesmo quando fôssemos fugitivos dele.

E a tua destra me susterá. Nas partes mais extremas do mar, minha captura seria tão certa quanto em casa: a destra de Deus ali agarraria e deteria o fugitivo. Ainda que fôssemos enviados à mais distante missão, podemos confiar com segurança na mão direita sustentadora de Deus, conosco em toda misericórdia, sabedoria e poder. O missionário explorador, em suas andanças solitárias, é guiado; em sua fraqueza solitária, é sustentado. Ambas as mãos de Deus estão com os seus próprios servos para sustentá-los, e contra os rebeldes para derrubá-los; e, nesse sentido, pouco importa a que reinos se dirijam, a energia ativa de Deus permanece ao redor deles.

Versículo 11Salmo 139:11

Se disser: Ora, as trevas me encobrirão, a escuridão densa pode me oprimir, mas não pode excluir-me de ti, nem a ti de mim. Tu vês tão bem sem luz quanto com luz, pois não dependes da luz — que é tua própria criatura — para o pleno exercício das tuas percepções. Além disso, tu estás presente comigo seja qual for a hora; e, estando presente, descobres tudo o que penso, sinto ou faço. Os homens ainda são tão tolos a ponto de preferir a noite e as trevas para seus atos maus; mas é tão impossível que algo se esconda do Senhor que tanto faria transgredir em plena luz do dia.

Trevas e luz nisto concordam:

Grande Deus, ambas te são iguais.

Tua mão alcança os teus inimigos tão depressa

nas sombras da meia-noite quanto ao meio-dia radiante.

Um homem bom não desejará ser escondido pela escuridão; um homem sábio não esperará tal coisa. Se fôssemos tão tolos a ponto de nos julgarmos seguros por estar o lugar envolto em trevas da meia-noite, bem poderíamos ser tirados dessa falsa segurança pelo fato de que, no que diz respeito a Deus, sempre habitamos na luz; pois até a própria noite resplandece com força reveladora — até a noite será luz ao meu redor.

Pensemos nisso sempre que formos tentados a tomar licença das trevas — há luz ao nosso redor. Se a escuridão é luz, quão grande é aquela luz em que habitamos! Note bem como Davi mantém seu cântico na primeira pessoa; cuidemos de fazer o mesmo ao clamar com Agar: "Tu, ó Deus, me vês."

Versículo 12Salmo 139:12

Sim, com toda a certeza, além de toda negação. As trevas não te ocultam; elas nada velam, não são em grau algum meio de ocultação. Escondem dos homens, mas não de Deus.

Mas a noite resplandece como o dia: é apenas outra forma de dia: ela brilha, revelando tudo; "resplandece como o dia" — manifestando tudo o que se faz com igual clareza e nitidez.

As trevas e a luz te são igualmente iguais. Esta frase parece resumir tudo o que veio antes, e nega com a maior ênfase até a mais leve ideia de esconder-se sob o manto da noite. Os homens se apegam a essa noção, porque é mais fácil e menos custoso esconder-se nas trevas do que viajar a lugares remotos; por isso, o pensamento tolo é aqui despedaçado por afirmações que, em suas variadas formas, o abatem por completo.

Contudo os ímpios ainda se deixam enganar por suas noções rasteiras de Deus, e perguntam: "Como saberia Deus?" Devem imaginar que ele é tão limitado em seu poder de observação quanto eles próprios; mas, se apenas refletissem por um instante, concluiriam que aquele que não pudesse ver no escuro não poderia ser Deus, e que aquele que não estivesse presente em todo lugar não poderia ser o Criador Todo-Poderoso.

Certamente Deus está em todos os lugares, em todos os tempos, e nada pode, de forma alguma, escapar de sua mente que tudo observa e tudo compreende. O Grande Espírito abrange em si mesmo todo o tempo e todo o espaço, e ainda assim é infinitamente maior do que estes, ou do que qualquer outra coisa que tenha feito.

Versículo 13Salmo 139:13

Pois tu possuíste os meus rins. Tu és o dono das minhas partes e paixões mais íntimas: não apenas aquele que habita e observa, mas o senhor e possuidor reconhecido do meu eu mais secreto. A palavra "rins" designa os rins propriamente ditos, que os hebreus supunham ser a sede dos desejos e anseios; mas talvez indique aqui a porção mais oculta e vital do homem; a esta Deus não só inspeciona e visita, mas ela lhe pertence; ele está tão em casa ali quanto um senhorio em sua própria propriedade, ou um proprietário em sua própria casa. Tu me cobriste no ventre de minha mãe. Ali eu jazia oculto — coberto por ti. Antes que eu pudesse conhecer-te, ou qualquer outra coisa, tu já tinhas cuidado de mim, e me escondias como um tesouro até que julgasses conveniente trazer-me à luz. Assim o salmista descreve a intimidade que Deus tinha com ele. Em sua parte mais secreta — os seus rins — e em sua condição mais secreta — ainda por nascer —, ele estava sob o controle e a guarda de Deus.

Versículo 14Salmo 139:14

Eu te louvarei: uma boa resolução, e uma que ele já vinha executando. Os que louvam a Deus são justamente os homens que hão de louvá-lo. Os que desejam louvar têm à mão os temas da adoração. Nós, com demasiada frequência, esquecemos nossa criação, e toda a perícia e bondade dispensadas à nossa constituição; mas o doce cantor de Israel era mais bem instruído, e por isso prepara para o músico-mor um cântico sobre o nosso nascimento e toda a formação que o precede.

Não podemos começar cedo demais a bendizer nosso Criador, que tão cedo começou a nos abençoar: já no próprio ato da criação ele criou motivos para louvarmos o seu nome.

Porque de um modo admirável e maravilhoso fui formado. Quem consegue olhar sequer para um modelo da nossa anatomia sem espanto e reverência? Quem poderia dissecar uma porção da estrutura humana sem maravilhar-se com sua delicadeza, e tremer diante de sua fragilidade? O salmista mal havia espiado pelo véu que oculta os nervos, tendões e vasos sanguíneos da inspeção comum; a ciência da anatomia lhe era de todo desconhecida; e, ainda assim, ele tinha visto o bastante para despertar sua admiração pela obra e sua reverência pelo Obreiro.

Maravilhosas são as tuas obras. Estas partes da minha constituição são todas obra tua; e, embora sejam obras domésticas, bem diante dos meus próprios olhos, são maravilhosas ao mais alto grau. São obras dentro de mim mesmo, e contudo estão além do meu entendimento, e parecem-me tantos milagres de perícia e poder. Não precisamos ir aos confins da terra em busca de maravilhas, nem sequer atravessar nossa própria soleira; elas abundam em nosso próprio corpo.

E a minha alma o sabe muito bem. Ele não era agnóstico — sabia; não era cético — sua alma sabia; não era iludido — sua alma sabia muito bem. Sabem de fato e em verdade aqueles que primeiro conhecem o Senhor, e depois conhecem todas as coisas nele. Ele foi levado a conhecer a natureza maravilhosa da obra de Deus com segurança e precisão, pois havia descoberto por experiência que o Senhor é um Obreiro mestre, realizando maravilhas inimitáveis ao cumprir seus desígnios de bondade.

Se somos maravilhosamente formados ainda antes de nascer, que diremos do trato do Senhor conosco depois que deixamos sua oficina secreta, e ele dirige nosso caminho pela peregrinação da vida? Que não diremos daquele novo nascimento, ainda mais misterioso que o primeiro, e que exibe ainda mais o amor e a sabedoria do Senhor?

Versículo 15Salmo 139:15

Os meus ossos não te foram encobertos, a parte substancial do meu ser esteve diante do teu olhar que tudo vê; os ossos que compõem minha estrutura foram unidos pela tua mão. Os materiais essenciais do meu ser, antes mesmo de arranjados, estavam todos ao alcance do teu olhar. Eu estava oculto de todo conhecimento humano, mas não do teu: tu sempre me conheceste intimamente.

Quando fui formado em oculto. Com toda a delicadeza e beleza, descreve-se aqui a formação do nosso ser antes do tempo do nosso nascimento. Um grande artista frequentemente trabalha sozinho em seu ateliê, e não permite que sua obra seja vista até que esteja concluída; assim também o Senhor nos formou onde nenhum olho podia ver, e o véu não foi levantado até que cada membro estivesse completo. Boa parte da formação do nosso homem interior ainda prossegue em segredo: por isso, quanto mais solidão, melhor para nós. A verdadeira igreja também está sendo formada em segredo, de modo que ninguém possa clamar: "Ei-la aqui!" ou "Ei-la ali!", como se o que é visível pudesse jamais ser idêntico ao corpo invisivelmente crescente de Cristo.

E entretecido nas profundezas da terra. "Bordado com grande perícia" é uma descrição poética precisa da criação das veias, tendões, músculos, nervos etc. Que tapeçaria pode igualar a fábrica humana? Esta obra é realizada tão em segredo como se fosse feita na sepultura, ou na escuridão do abismo. As expressões são poéticas, velando com beleza — sem contudo ocultar de todo — o sentido real. O conhecimento íntimo que Deus tem de nós desde o nosso princípio, e mesmo antes dele, é aqui exposto de maneira encantadora. Não poderá aquele que assim nos formou de modo tão maravilhoso quando ainda não éramos, continuar sua obra de poder até nos aperfeiçoar, ainda que nos sintamos incapazes de auxiliar no processo, e jazamos em grande tristeza e aversão a nós mesmos, como se lançados nas profundezas da terra?

Versículo 16Salmo 139:16

Os teus olhos viram a minha substância, ainda imperfeita, enquanto o vaso ainda estava sobre a roda, o Oleiro via tudo. O Senhor conhece não só a nossa forma, mas a nossa substância: este é, de fato, um conhecimento substancial. A observação do Senhor sobre nós é atenta e intencional — "os teus olhos viram". Além disso, a mente divina discerne todas as coisas com a mesma clareza e certeza com que os homens percebem pela visão real. O seu não é conhecimento por ouvir dizer, mas o conhecimento que vem da vista.

E no teu livro estavam escritos todos os meus membros, que em continuação foram formados, quando ainda não havia nenhum deles. Um arquiteto desenha suas plantas, e elabora suas especificações; assim também o grande Formador da nossa estrutura registrou todos os nossos membros no livro dos seus propósitos. Que tenhamos olhos, ouvidos, mãos e pés, tudo se deve ao sábio e gracioso propósito do céu: assim foi ordenado no secreto decreto pelo qual todas as coisas são como são. Os propósitos de Deus dizem respeito aos nossos membros e faculdades. Sua forma, seu feitio, e tudo a seu respeito foram determinados por Deus muito antes de existirem. Deus nos viu quando não podíamos ser vistos, e escreveu sobre nós quando nada havia de nós para escrever. Quando ainda nenhum de nossos membros existia, todos esses membros já estavam diante do olhar de Deus no caderno de esboços da sua presciência e predestinação.

Este verso é extremamente difícil de traduzir, mas não pensamos que nenhuma das emendas propostas seja melhor que a versão que nos oferece a Versão Autorizada. O grande número de palavras em itálico avisará ao leitor inglês que o sentido é difícil de alcançar e de expressar, e que seria imprudente fundar qualquer doutrina sobre as palavras inglesas; felizmente não há tentação para isso.

A grande verdade expressa nestas linhas foi, por muitos, referida à formação do corpo místico do nosso Senhor Jesus. Naturalmente, o que é verdade do homem, como homem, é enfaticamente verdade daquele que é o homem representativo. O grande Senhor sabe quem pertence a Cristo; seu olhar percebe os membros escolhidos que ainda hão de se tornar um só com a pessoa viva do Cristo místico. Os eleitos que ainda não nasceram, ou ainda não foram renovados, estão, contudo, escritos no livro do Senhor.

Assim como a forma de Eva cresceu em silêncio e sigilo sob a mão formadora do Criador, também nesta hora está sendo formada a Noiva para o Senhor Jesus; ou, para mudar a figura, está sendo preparado um corpo no qual a vida e a glória do Senhor que nele habita serão para sempre manifestadas. O Senhor conhece os que são seus: ele tem íntimo e especial conhecimento dos membros do corpo de Cristo; vê sua substância, ainda que imperfeita.

Versículo 17Salmo 139:17

Quão preciosos me são também os teus pensamentos, ó Deus! Ele não se alarma com o fato de que Deus sabe tudo a seu respeito; ao contrário, sente-se consolado, e até enriquecido, como quem recebe um cofre de joias preciosas. Que Deus pense nele é o tesouro e o prazer do crente. Ele exclama: "Quão custosos, quão valiosos são os teus pensamentos, quão cara me é a tua atenção perpétua!" Ele pensa nos pensamentos de Deus com deleite; quanto mais deles, mais lhe agrada. É uma alegria que vale mundos que o Senhor pense em nós, que somos tão pobres e necessitados: é uma alegria que enche toda a nossa natureza pensar em Deus, retribuindo amor por amor, pensamento por pensamento, à nossa pobre maneira.

Quão grande é a soma deles! Quando lembramos que Deus pensou em nós desde a antiga eternidade, continua a pensar em nós a cada instante, e pensará em nós quando o tempo já não existir mais, podemos bem exclamar: "Quão grande é a soma!" Pensamentos como os que são naturais ao Criador, ao Preservador, ao Redentor, ao Pai, ao Amigo, fluem continuamente do coração do Senhor. Pensamentos do nosso perdão, da nossa renovação, do nosso sustento, do nosso provimento, da nossa educação, do nosso aperfeiçoamento, e mil outros tipos brotam perpetuamente na mente do Altíssimo.

Deveria encher-nos de admiração reverente e surpresa respeitosa que a mente infinita de Deus voltasse tantos pensamentos para nós, que somos tão insignificantes e tão indignos! Que contraste tudo isto faz com a noção daqueles que negam a existência de um Deus pessoal e consciente! Imagine um mundo sem um Deus pensante e pessoal! Conceba uma providência sombria de maquinaria! — uma paternidade da lei! Tal filosofia é dura e fria. Tanto valeria a um homem apoiar a cabeça sobre o fio de uma navalha quanto buscar descanso em tal fantasia. Mas um Deus que sempre pensa em nós faz um mundo feliz, uma vida rica, um porvir celestial.

Versículo 18Salmo 139:18

Se eu os contasse, seriam mais numerosos que a areia. Esta figura mostra que os pensamentos de Deus são de todo inumeráveis; pois nada pode superar em número os grãos de areia que cingem o oceano principal e todos os mares menores. A tarefa de contar os pensamentos de amor de Deus seria interminável. Se tentássemos fazer a conta, necessariamente falharíamos, pois o infinito não cabe na régua do nosso débil intelecto. Ainda que pudéssemos contar as areias da praia, mesmo assim não conseguiríamos numerar os pensamentos de Deus, pois são "mais numerosos que a areia". Isto não é a hipérbole da poesia, mas o fato sólido da afirmação inspirada: Deus pensa em nós infinitamente: há um limite para o ato da criação, mas não para a força do amor divino.

Quando desperto, ainda estou contigo. Teus pensamentos de amor são tantos que minha mente nunca se afasta deles, eles me cercam a toda hora. Vou para minha cama, e Deus é meu último pensamento; e quando desperto, encontro minha mente ainda pairando junto aos portões do seu palácio; Deus está sempre comigo, e eu estou sempre com ele. Isto é, de fato, a vida.

Se durante o sono minha mente vagueia em sonhos, ainda assim vagueia apenas em terreno santo, e no instante em que desperto meu coração está de volta com o seu Senhor. O salmista não diz "quando desperto, volto a ti", mas "ainda estou contigo"; como se suas meditações fossem contínuas, e sua comunhão ininterrupta. Em breve nos deitaremos para dormir pela última vez: Deus conceda que, quando a trombeta do arcanjo nos despertar, nos encontremos ainda com ele.

Versículo 19Salmo 139:19

Certamente matarás o ímpio, ó Deus. Não pode haver dúvida quanto a isso, pois tu viste todas as suas transgressões, que de fato foram cometidas na tua presença; e já suportaste por tempo demais as suas provocações, tão abertamente manifestas diante de ti. Crimes cometidos diante da face do Juiz dificilmente ficarão impunes. Se o olhar de Deus se aflige com a presença do mal, é apenas natural esperar que ele remova o objeto ofensor. Deus, que vê todo mal, há de matar todo mal.

Entre os soberanos terrenos, o pecado pode ficar impune por falta de provas, ou a lei pode ficar sem execução por falta de firmeza no juiz; mas isso não pode acontecer no caso de Deus, o Deus vivo. Ele não porta a espada em vão. Tal é o seu amor pela santidade e seu ódio pela injustiça, que ele há de travar guerra até a morte contra aqueles cujo coração e vida são ímpios. Deus não permitirá para sempre que sua bela criação seja desfigurada e contaminada pela presença da maldade: se algo é certo, isto é certo — que ele há de livrá-lo dos seus adversários.

Apartai-vos de mim, pois, homens sanguinários. Homens que se comprazem na crueldade e na guerra não são companhia adequada para os que andam com Deus. Davi expulsa os homens de sangue de sua corte, pois está cansado daqueles de quem Deus está cansado. Ele parece dizer: "se Deus não vos deixa viver com ele, eu não vos deixarei viver comigo. Vós destruiríeis outros, e por isso não vos quero em minha sociedade. Vós mesmos sereis destruídos, não vos desejo em meu serviço. Apartai-vos de mim, pois vos apartais de Deus."

Assim como nos comprazemos em ter o Deus santo sempre perto de nós, também desejaríamos ardentemente ter os homens ímpios removidos o mais longe possível de nós. Trememos na companhia dos ímpios, temendo que sua sentença caia de repente sobre eles, e que os vejamos cair mortos aos nossos pés. Não desejamos que nosso lugar de convívio se transforme em cadafalso de execução; por isso, que os condenados sejam removidos da nossa companhia.

Versículo 20Salmo 139:20

Pois falam contra ti maliciosamente. Por que suportaria eu sua companhia quando sua conversa me enoja? Eles despejam suas traições e blasfêmias sempre que lhes apraz, fazendo-o sem a menor desculpa ou provocação; que se vão, pois, para onde possam encontrar companheiro mais afim do que eu poderia ser. Quando homens falam contra Deus, com certeza também falarão contra nós, se isso lhes servir de proveito; por isso, homens ímpios não são o material de que se fazem verdadeiros amigos. Deus deu a esses homens suas línguas, e eles as voltam contra o seu Benfeitor, maliciosamente, por pura má vontade, e com grande perversidade.

E teus inimigos tomam o teu nome em vão. Este é o seu divertimento: insultar o glorioso nome de Jeová é sua diversão. Blasfemar o nome do Senhor é uma maldade gratuita, na qual não pode haver prazer algum, e da qual não pode haver lucro algum. Este é um sinal certo dos "inimigos" do Senhor: têm a ousadia de atacar a sua honra, e tratar a sua glória com irreverência.

Como poderia Deus fazer diferente de matá-los? Como poderíamos nós fazer diferente de nos afastar de toda espécie de associação com eles? Que prodígio de pecado é que homens ousem falar mal de um Ser tão bom quanto o Senhor nosso Deus! A ousadia dos que falam maliciosamente é um fato singular, e é ainda mais singular quando refletimos que o Senhor contra quem falam está ao redor deles, e leva a peito toda desonra que lhe rendem contra o seu santo nome. Não devemos nos admirar de que os homens nos caluniem e escarneçam, pois fazem o mesmo com o Deus Altíssimo.

Versículo 21Salmo 139:21

Não odeio eu, ó SENHOR, os que te odeiam? Ele era um bom odiador, pois odiava apenas aqueles que odiavam o bem. Deste ódio ele não se envergonha, mas o apresenta como uma virtude da qual gostaria que o Senhor desse testemunho. Amar todos os homens com benevolência é nosso dever; mas amar com prazer qualquer homem ímpio seria um crime. Odiar um homem por si mesmo, ou por algum mal que nos tenha feito, seria errado; mas odiar um homem porque ele é inimigo de toda bondade e adversário de toda justiça, isto não é nada mais nem nada menos que uma obrigação.

Quanto mais amamos a Deus, mais indignados nos tornaremos com os que lhe recusam o afeto. "Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema, maranata." Verdadeiramente, "o ciúme é cruel como a sepultura". O súdito leal não pode ser amigo do traidor.

E não me aflijo eu com os que se levantam contra ti? Ele apela ao céu que não tinha prazer algum naqueles que se rebelavam contra o Senhor; pelo contrário, era levado a lamentar-se ao ver o mau proceder deles. Como Deus está em toda parte, ele conhece nossos sentimentos para com os profanos e ímpios, e sabe que, longe de aprovar tais caracteres, a própria visão deles é penosa aos nossos olhos.

Versículo 22Salmo 139:22

Odeio-os com ódio perfeito. Ele não deixa isso como questão em aberto. Não ocupa posição neutra. Seu ódio aos homens maus, viciosos, blasfemos é intenso, completo, enérgico. Ele é tão inteiro em seu ódio à maldade quanto em seu amor ao bem.

Tenho-os por meus inimigos. Ele torna isso um assunto pessoal. Eles podem não ter lhe feito mal algum, mas, se estão ofendendo a Deus, às suas leis e aos grandes princípios da verdade e da justiça, Davi lhes declara guerra. A maldade traz os homens ao favor dos espíritos injustos; mas os exclui da comunhão dos justos. Recolhemos a ponte levadiça e guarnecemos as muralhas quando um homem de Belial passa junto ao nosso castelo. Seu caráter é um casus belli; não podemos deixar de contender com os que contendem contra Deus.

Versículo 23Salmo 139:23

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração. Davi não é cúmplice de traidores. Já os renegou formalmente, e agora apela a Deus para que não guarda vestígio algum de companheirismo com eles. Ele quer que o próprio Deus o sonde, e o sonde a fundo, até que cada ponto do seu ser seja conhecido, lido e entendido; pois tem certeza de que, mesmo em tal investigação, não se encontrará nele cumplicidade alguma com os homens ímpios. Ele desafia a mais completa investigação, a mais íntima busca: precisa ser um homem verdadeiro aquele que se põe deliberadamente em tal crivo. Ainda assim, cada um de nós pode desejar tal sondagem; pois seria uma calamidade terrível que o pecado permanecesse em nosso coração desconhecido e não descoberto.

Prova-me, e conhece os meus pensamentos. Aplica sobre mim todo e qualquer teste. Por fogo e por água, que eu seja examinado. Lê não só os desejos do meu coração, mas os pensamentos fugazes da minha mente. Conhece, com todo o conhecimento penetrante, tudo o que é ou foi nos aposentos da minha mente. Que misericórdia haver um ser que pode nos conhecer à perfeição! Ele está intimamente à vontade conosco. Ele se inclina graciosamente para nós, e está disposto a dobrar sua onisciência a serviço da nossa santificação. Oremos como Davi orou, e sejamos honestos como ele. Não podemos esconder nosso pecado: a salvação está no caminho oposto, numa descoberta clara do mal, e numa ruptura eficaz com ele.

Versículo 24Salmo 139:24

E vê se há em mim algum caminho mau, vê se há no meu coração, ou na minha vida, algum hábito mau desconhecido de mim mesmo. Se houver tal caminho mau, tira-me dele, tira-o de mim. Não importa quão querido se tenha tornado o erro, nem quão profundamente eu tenha me predisposto a seu favor: digna-te livrar-me dele por completo, eficazmente, e de imediato, para que eu não tolere nada contrário à tua vontade. Assim como odeio os ímpios em seu caminho, também odiaria todo caminho mau em mim mesmo.

E guia-me pelo caminho eterno. Se já me introduziste no bom caminho antigo, digna-te manter-me nele, e conduzir-me cada vez mais adiante por ele. É um caminho que estabeleceste desde a antiguidade, fundado em princípios eternos, e é o caminho pelo qual os espíritos imortais correrão com alegria pelos séculos dos séculos. Não terá fim, mundo sem fim. Dura para sempre, e os que nele estão duram para sempre. Conduz-me a ele, ó Senhor, e conduz-me por toda a sua extensão. Pela tua providência, pela tua palavra, pela tua graça, e pelo teu Espírito, guia-me para sempre.

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