Salmo 140
Leia o Salmo 140 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Este Salmo está no seu lugar próprio, e segue tão bem o 139 que quase se poderia ler um logo depois do outro, sem interrupção. Seria um dano sério a todo o Livro dos Salmos se a ordem fosse alterada, como certos sabichões propõem. É O Clamor de uma Alma Caçada — a súplica de um crente incessantemente perseguido e cercado por inimigos astutos, que tinham fome da sua destruição. Davi era caçado como uma perdiz nos montes, e raramente obtinha um momento de repouso. Este é o seu apelo comovente a Jeová por proteção, apelo que gradualmente se intensifica até virar uma denúncia dos seus inimigos ferozes. Junto com este sacrifício de oração, ele oferece o sal da fé; pois de modo bem marcado e enfático expressa sua confiança pessoal no Senhor como Protetor dos oprimidos, e como seu próprio Deus e Defensor. Poucos salmos curtos são tão ricos nas joias da fé preciosa.
AO MÚSICO-MOR. O escritor quis que este hino de experiência ficasse aos cuidados do mestre principal do canto, para que não fosse deixado sem ser cantado, nem entoado de modo descuidado. Provações e livramentos assim mereciam ficar na memória, e ser postos entre os mais preciosos memoriais da bondade do Senhor. Nós também temos os nossos cânticos, que não são de espécie comum, e estes devem ser cantados com o melhor do coração e da língua. Vamos oferecê-los ao Senhor por nenhuma outra mão senão a do "Músico-mor".
SALMO DE DAVI. A vida de Davi, no ponto em que ele entra em contato com Saul e Doegue, é a melhor explicação deste Salmo; e certamente não pode haver dúvida razoável de que Davi o escreveu, e o escreveu no tempo do seu exílio e perigo. A explosão tremenda no final tem aquele calor tão natural em Davi, que nunca foi morno em nada; note-se, porém, que a respeito de seus inimigos ele era muitas vezes ardente na linguagem, por indignação, mas frio na ação, pois não era vingativo. Não era mesquinha malícia, mas ira justa: ele previu, predisse e até desejou a justa vingança de Deus sobre os soberbos e ímpios, mas não se aproveitava das oportunidades para se vingar dos que o tinham prejudicado. Talvez seus apelos ao grande Rei esfriassem sua ira, e o capacitassem a deixar seus agravos sem reparação por qualquer ato pessoal de violência. "Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor"; e Davi, quando mais ferido por perseguição imerecida e mentira perversa, alegrava-se em deixar suas causas ao pé do trono, onde estariam seguras com o Rei dos reis.
Exposição
Versículo 1Salmo 140:1
Livra-me, ó SENHOR, do homem mau. Lê-se como uma cláusula do Pai-Nosso: "livra-nos do mal". Davi não suplica tanto contra um indivíduo quanto contra a espécie que ele representa, a saber, o ser cuja melhor descrição é "o homem mau". Há muitos assim pelo mundo; de fato, não encontraremos homem não regenerado que não seja, em algum sentido, um homem mau — e, no entanto, nem todos são igualmente maus. É bom para nós que nossos inimigos sejam maus: seria coisa horrível ter o bem contra nós. Quando "o homem mau" se levanta contra o piedoso, ele é um ser tão terrível quanto um lobo, ou uma serpente, ou até um demônio. Feroz, implacável, sem piedade, sem misericórdia, sem escrúpulos, ele não se importa com nada além de saciar sua malícia.
O perseguido volta-se para Deus em oração; não poderia fazer coisa mais sábia. Quem pode enfrentar o homem mau e vencê-lo, senão o próprio Jeová, cuja bondade infinita é mais que páreo para todo o mal do universo? Nós mesmos não conseguimos frustrar a astúcia do inimigo, mas o Senhor sabe livrar os seus santos. Ele pode nos manter fora do alcance do inimigo, pode nos sustentar quando estamos sob seu poder, pode nos resgatar quando nossa sorte parece selada, pode nos dar a vitória quando a derrota parece certa; e em todo e qualquer caso, se não nos livrar do homem, pode nos guardar do mal. Estejamos nós agora oprimidos em alguma medida por homens ímpios, será melhor deixar nossa defesa com Deus do que tentá-la nós mesmos.
Preserva-me do homem violento. O mal no coração ferve em malícia, e por fim explode em paixão. O mal é coisa desgovernada quando ganha liberdade para se manifestar; e assim "o homem mau" logo se transforma em "o homem violento". Que vigilância, força ou coragem pode preservar o filho de Deus do engano e da violência? Há apenas um Preservador seguro, e nossa sabedoria está em nos abrigar sob a sombra das suas asas. É coisa comum que homens bons sejam atacados por inimigos: Davi foi atacado por Saul, Doegue, Aitofel, Simei e outros; até Mordecai, sentado humildemente à porta, teve seu Hamã; e nosso Senhor, o Perfeito, foi cercado por aqueles que tinham sede do seu sangue. Não podemos, portanto, esperar atravessar o mundo sem inimigos, mas podemos esperar ser livrados das suas mãos, e preservados da sua fúria, de modo que nenhum dano real venha da sua malignidade. Esta bênção deve ser buscada pela oração, e esperada pela fé.
Versículo 2Salmo 140:2
Que imaginam maldades no coração. Eles não conseguem ser felizes a menos que estejam tramando e planejando, conspirando e maquinando. Parecem ter um único coração, pois estão completamente unidos na sua malícia; e com todo o coração e toda a alma perseguem a sua vítima. Uma peça de maldade não lhes basta; trabalham no plural, e preparam muitas flechas para o seu arco. O que não conseguem realmente fazer, ainda assim gostam de pensar, e de ensaiar no palco da sua fantasia cruel. É coisa terrível ter um coração doente assim. Quando a imaginação se compraz em fazer mal aos outros, é sinal certo de que toda a natureza está muito avançada na maldade.
Continuamente se ajuntam para a guerra. São uma comissão de oposição em sessão permanente: nunca suspendem os trabalhos, mas consideram perpetuamente a questão que tudo absorve: como fazer o maior mal possível ao homem de Deus. São um exército de prontidão sempre pronto para a peleja: não só vão às guerras, mas moram nelas. Embora sejam a pior companhia possível, ainda assim se suportam mutuamente, e estão continuamente juntos, confederados para o combate.
Os inimigos de Davi eram tão violentos quanto maus, tão astutos quanto violentos, e tão persistentes quanto astutos. É difícil lidar com pessoas que só se sentem em seu elemento quando estão de espada em punho contra você. Um caso assim clama por oração, e a oração clama a Deus.
Versículo 3Salmo 140:3
Afiaram a língua como a serpente. O movimento rápido da língua de uma víbora dá a impressão de que ela a está afiando; assim também os maliciosos movem a língua num ritmo tal que se poderia supor que estão no próprio ato de desgastá-la até uma ponta, ou de esfregá-la até um fio afiado. Era uma noção comum que as serpentes inoculavam seu veneno pela língua, e os poetas usavam essa ideia como expressão poética, embora seja certo que a serpente fere com as presas e não com a língua. Não devemos supor que todos os autores que usaram tal linguagem estavam enganados quanto à história natural, mais do que se poderia acusar de ignorância em astronomia um escritor que fala do sol "viajando" de leste a oeste. De que outro modo poderiam os poetas falar, senão conforme a aparência das coisas a um olho imaginativo? O grande poeta do mundo põe isto em "Rei Lear":
Ela me feriu com a língua,
bem como a serpente, no próprio coração.
No caso dos caluniadores, eles literalmente picam com a língua, tão ágil na malícia, e tão penetrante e cortante, que não é de forma alguma injusto chamá-la de afiada. "Veneno de víboras está debaixo dos seus lábios." O mais mortal de todos os venenos é a calúnia dos inescrupulosos. Alguns homens não se importam com o que dizem, contanto que possam vexar e ferir.
Nosso texto, porém, não deve ficar restrito a alguns poucos indivíduos, pois na epístola inspirada aos Romanos o apóstolo o cita como sendo verdadeiro a respeito de todos nós. Somos tão depravados por natureza que as criaturas mais venenosas são o nosso justo retrato. A antiga serpente não só nos inoculou com seu veneno, como nos fez também produtores desse mesmo veneno: ele está debaixo dos nossos lábios, pronto para uso, e, ai de nós, é usado com demasiada liberdade quando nos irritamos e desejamos vingança contra quem nos causou aborrecimento. É tristemente espantoso o quanto até homens bons dizem coisas duras quando provocados; sim, até mesmo os que a si mesmos se chamam "perfeitos", a sangue-frio, não são tão mansos quanto pombas quando suas pretensões à impecabilidade são questionadas de modo direto. Este veneno da maledicência jamais cairia dos nossos lábios, por mais que fôssemos provocados, se não estivesse ali em outros momentos; mas por natureza temos tanto estoque de palavras venenosas quanto uma naja tem de veneno. Ó Senhor, tira as bolsas de veneno, e faze com que nossos lábios não deixem cair senão mel.
Selá. Este é trabalho pesado. Sobe, sobe, coração meu! Não afundes demais. Não caias no tom mais baixo. Levanta-te a Deus.
Versículo 4Salmo 140:4
Guarda-me, ó SENHOR, das mãos do ímpio. Cair nas mãos deles seria de fato uma calamidade. Davi, na sua situação mais lastimável, preferia cair na mão de um Deus que castiga a ser deixado no poder dos homens. Nenhuma criatura entre os animais selvagens da floresta é inimigo tão terrível do homem quanto o próprio homem, quando guiado pelo mal e impelido pela violência. O Senhor, pela providência e pela graça, pode nos guardar do poder do ímpio. Só ele pode fazer isso, pois nem a nossa própria vigilância nem a fidelidade dos amigos conseguem nos garantir contra os ataques sinuosos do inimigo. Precisamos ser preservados tanto das mãos lisas quanto das mãos ásperas dos ímpios, pois suas lisonjas podem nos ferir tanto quanto suas calúnias. As mãos do exemplo deles podem nos contaminar, e assim nos fazer mais mal do que as mãos da sua opressão. Jeová precisa ser o nosso guarda, ou as mãos más farão o que os corações maus imaginaram e os lábios maus ameaçaram.
Preserva-me do homem violento. Sua paixão intensa o torna terrivelmente perigoso. Ele vai golpear de qualquer jeito, usar qualquer arma, ferir de qualquer lado: é tão furioso que fica indiferente à própria vida, contanto que possa realizar seu desígnio detestável. Senhor, preserva-nos pela tua onipotência quando os homens nos atacam com sua violência. Esta oração é sábia e apropriada.
Que planejaram transtornar os meus passos. Eles resolvem desviar o homem bom da sua resolução, buscam frustrar seus desígnios, ferir sua integridade e destruir seu caráter. Os próprios caminhos deles são maus, e por isso odeiam os do justo, vendo que eles são uma repreensão constante contra si. Este é um argumento poderoso a usar em oração diante de Deus: ele é o patrono da santidade, e quando as vidas puras do seu povo estão em perigo de ruína, pode-se esperar que ele intervenha. Que os piedosos nunca se esqueçam de orar, pois esta é uma arma contra a qual o inimigo mais determinado não pode resistir.
Versículo 5Salmo 140:5
Os soberbos me armaram um laço. Soberbos como são, rebaixam-se a esta ação vil: usam um laço, e o escondem, para que a vítima seja capturada como uma pobre lebre morta sem aviso — morta em seu percurso habitual, por um laço que não conseguia ver. Os inimigos de Davi desejavam prendê-lo no seu caminho de serviço, no rumo costumeiro da sua vida. Saul armou muitos laços para Davi, mas o Senhor o preservou. Ao nosso redor há laços de um tipo ou de outro, e será bem guardado, sim, divinamente guardado, quem nunca cair em nenhum deles.
E cordas. Com elas fecham a rede e amarram o cativo. Assim fazem os caçadores de pássaros, e os que armam ciladas para certos animais grandes. As cordas do amor são agradáveis, mas as cordas do ódio são cruéis como a própria morte.
Estenderam uma rede à beira do caminho. Onde ficará perto da presa; onde o menor desvio do caminho trará a vítima para dentro dela. Certamente a via comum deveria ser segura: homens que saem do caminho bem podem ser presos numa rede, mas o caminho do dever é proverbialmente o caminho da segurança; ainda assim, não é seguro em nenhum lugar quando pessoas maliciosas andam soltas. Pássaros são presos em redes, e homens são presos pelo engano. Satanás instrui seus filhos na arte de caçar pássaros, e eles bem depressa aprendem a estender redes: talvez já estejam fazendo isso conosco; façamos o nosso apelo a Deus a respeito disso.
Puseram-me armadilhas. Um instrumento de destruição não lhes basta; têm tanto medo de perder a presa que multiplicam suas armadilhas, usando artifícios diferentes, de modo que de um jeito ou de outro possam capturar a vítima. Aqueles que evitam o laço e a rede ainda podem ser presos numa armadilha, e por isso armadilhas são colocadas em todos os lugares prováveis. Se um homem piedoso pode ser aliciado, ou subornado, ou intimidado, ou irritado, os ímpios farão a tentativa. Prontos estão para torcer suas palavras, interpretar mal suas intenções, desviar seus esforços; prontos para bajular, mentir, e se rebaixar ao último grau, contanto que possam alcançar seu propósito abominável.
Selá. A harpa precisa ser afinada de novo depois de tal esforço, e o coração precisa se levantar em direção a Deus.
Versículo 6Salmo 140:6
Eu disse ao SENHOR: Tu és o meu Deus. Aqui estava o apoio e a esperança de Davi. Ele tinha a certeza de que Jeová era o seu Deus, expressou essa certeza, e a expressou diante do próprio Jeová. Precisa ser uma certeza boa e plena aquela que um homem ousa apresentar diante do Senhor que sonda o coração. O salmista, quando caçado pelo homem, dirigia-se a Deus. Muitas vezes, quanto menos dissermos aos nossos inimigos, e quanto mais dissermos ao nosso melhor Amigo, melhor nos irá: se dissermos algo, que seja dito ao Senhor. Davi se alegrava por já ter dito que Jeová era o seu Deus: estava contente por já se ter comprometido, e não tinha vontade nenhuma de recuar. O Senhor era propriedade de Davi por escolha deliberada, à qual ele novamente apõe o selo com prazer. Os ímpios rejeitam a Deus, mas os justos o recebem como seu, seu tesouro, seu prazer, sua luz e sua delícia.
Ouve a voz das minhas súplicas, ó SENHOR. Já que tu és meu, rogo-te que ouças o meu clamor. Não podemos pedir este favor ao deus de outro homem, mas podemos buscá-lo junto ao nosso próprio Deus. As orações dos santos têm uma voz nelas; são súplicas expressivas mesmo quando soam como gemidos inarticulados. O Senhor consegue discernir uma voz nos nossos lamentos, e pode e vai atendê-la. Porque ele é Deus, pode nos ouvir; porque ele é o nosso Deus, vai nos ouvir. Contanto que o Senhor apenas nos ouça, estamos contentes: a resposta pode vir conforme a sua própria vontade, mas suplicamos ser ouvidos: uma alma em angústia é grata a qualquer um que seja bondoso e paciente o bastante para escutar sua história, mas é especialmente grata por uma audiência com Jeová. Quanto mais considerarmos a sua grandeza e a nossa pequenez, a sua sabedoria e a nossa insensatez, tanto mais nos encheremos de louvor quando o Senhor atender ao nosso clamor.
Versículo 7Salmo 140:7
Ó DEUS, SENHOR, força da minha salvação, tu cobriste a minha cabeça no dia da batalha. Ao olhar para trás, para perigos e livramentos passados, o homem bom sentia que teria perecido se o Senhor não tivesse segurado um escudo sobre a sua cabeça. No dia do choque das armas, ou de vestir a armadura (como alguns leem), o Senhor glorioso tinha sido seu Protetor constante. Golias tinha seu escudeiro, e Saul também, e cada um destes guardava o seu senhor; ainda assim tanto o gigante quanto o rei pereceram, enquanto Davi, sem armadura nem escudo, matou o gigante e frustrou o tirano. O escudo do Eterno é proteção melhor que um elmo de bronze. Quando as flechas voam em enxame e o machado de guerra racha para os dois lados, não há cobertura para a cabeça como o poder do Todo-Poderoso.
Vejam como o filho da providência glorifica o seu Preservador! Ele o chama não só de sua salvação, mas de força dela, pela qual, com força incomparável, tinha sido capacitado a sobreviver à astúcia e à crueldade dos seus adversários. Ele havia obtido um livramento no qual a força do Onipotente ficava claramente à vista. Esta é uma expressão grandiosa de louvor, um fundamento gracioso de consolo, um argumento poderoso na oração. Aquele que cobriu a nossa cabeça no passado não nos abandonará agora. Portanto, batalhemos o bom combate, e não temamos ferida mortal: o SENHOR Deus é o nosso escudo, e a nossa grandíssima recompensa.
Versículo 8Salmo 140:8
Não concedas, ó SENHOR, os desejos do ímpio. Até eles dependem de ti; não podem fazer mais do que tu permites. Tu os reténs; nenhum deles pode mover a língua sem a tua licença e permissão. Por isso te suplico que não os deixes ter o que querem. Ainda que ousem orar ao seu deus, não ouças as orações deles contra homens inocentes. Certamente o SENHOR Jeová não será cúmplice do malévolo; os desejos deles jamais serão os desejos dele; se têm sede de sangue, ele não vai satisfazer a crueldade deles.
Não realizes o seu mau desígnio. Estão tão unidos que parecem um só homem nos seus desejos; mas não ouças as orações deles. Ainda que mão se junte com mão, e desejem e planejem como um só homem, mesmo assim não lhes empresta a ajuda da tua providência. Não permitas que os planos maliciosos deles tenham êxito. O Senhor pode permitir, por um tempo, que o sucesso acompanhe a política dos ímpios, por razões sábias que nos são desconhecidas, mas nos é permitido orar para que não seja assim. A petição "livra-nos do mal" inclui e permite tal súplica.
Para que não se exaltem. Se bem-sucedidos, os ímpios certamente se tornam orgulhosos, e insultam o justo sobre quem triunfaram, e isso é um mal tão grande, e tão desonroso para Deus, que o salmista o usa em sua súplica como argumento contra deixá-los prosperar. A glória dos ímpios se opõe à glória de Deus. Se Deus parece favorecê-los, eles crescem demais para este mundo, e suas cabeças batem contra os céus. Esperemos que o Senhor não permita que isso aconteça.
Selá. Aqui, exaltemos nossos pensamentos e louvores bem acima da cabeça dos pecadores que se autoexaltam. Quanto mais se elevam na vaidade, mais alto nos elevemos na confiança.
Versículo 9Salmo 140:9
Quanto aos que me cercam, cubra-os o mal dos seus próprios lábios. Ao Senhor que havia coberto a sua cabeça em meio ao estrondo das armas, o salmista apela contra os seus inimigos, para que as cabeças deles sejam cobertas num sentido bem diferente — cobertas com a recompensa da sua própria malícia. Os inimigos de Davi eram tantos que o cercavam, envolvendo-o como caçadores cercam sua presa. Não é de admirar que ele se volte ao Senhor em sua necessidade extrema. O poeta representa seus adversários como tão unidos que parecem ter uma só cabeça; pois há muitas vezes uma unanimidade entre espíritos maus que os torna mais fortes e terríveis para os seus propósitos vis.
A lex talionis, ou lei da retaliação, muitas vezes traz sobre os homens violentos o próprio mal que planejaram e falaram contra os outros: suas flechas caem sobre eles mesmos. Quando os lábios de um homem soltam maldições, elas provavelmente, como galinhas, voltam para o poleiro. Uma pedra arremessada para o alto tende a cair sobre a cabeça de quem a lançou. As palavras de Davi podem ser lidas, no futuro, como profecia; mas neste versículo, pelo menos, não há necessidade de fazer isso para suavizar o seu tom. É tão justo que a maldade que os homens tramam e a calúnia que falam recaiam sobre eles mesmos, que todo homem justo há de desejá-lo: quem não o deseja pode querer ser considerado humano e semelhante a Cristo, mas as chances são de que tenha uma cumplicidade dissimulada com o ímpio, ou seja deficiente num senso viril de certo e errado.
Quando homens maus caem nas covas que cavaram para os inocentes, acreditamos que até os anjos se alegram; certamente os mais gentis e ternos filantropos, por mais que se compadeçam dos que sofrem, devem também aprovar a justiça que os faz sofrer. Suspeitamos que alguns dos nossos críticos excessivamente brandos só precisariam ser postos no lugar de Davi, e se tornariam muito mais amargos do que ele jamais foi.
Versículo 10Salmo 140:10
Caiam sobre eles brasas ardentes. Então saberão que espalhar tições não é o esporte que pensavam ser. Quando pedras de granizo e brasas de fogo descerem sobre eles, como escaparão? Até os céus acima dos ímpios são capazes de despejar vingança sobre eles.
Sejam lançados no fogo. Eles acenderam as chamas da contenda, e é justo que sejam lançados nelas. Aqueceram a fornalha da calúnia sete vezes mais do que se costumava aquecê-la, e nela serão devorados. Quem teria pena de Nabucodonosor se ele fosse lançado em sua própria fornalha de fogo ardente?
Em covas profundas, para que não se levantem mais. Fizeram essas valas ou fossos para o piedoso, e é justo que eles mesmos caiam neles e jamais escapem. Quando um justo cai, ele se levanta de novo; mas quando o homem ímpio desce, "cai como Lúcifer, para nunca mais ter esperança". O salmista, nesta passagem, retrata graficamente a Sodoma do perseguidor ímpio: fogo cai sobre ele do céu; a cidade se incendeia, e ele é lançado na conflagração; o vale de Sidim está cheio de poços de betume, e nesses ele é arrastado. Um julgamento extraordinário alcança o ofensor extraordinário: acima, ao redor, abaixo, tudo é destruição. Ele teria consumido o justo, e agora é ele mesmo consumido. Assim será: assim seja.
Versículo 11Salmo 140:11
Não se estabeleça na terra o homem de língua maligna. Pois isso seria uma praga estabelecida, uma maldição perpétua. Homens de língua falsa e cruel são de maior utilidade quando vão adubar o solo em que apodrecem como cadáveres: enquanto vivos, são o terror do bom e o tormento do pobre. Deus não permitirá que os oradores especiosos da falsidade conservem o poder que obtêm temporariamente com o discurso enganoso. Podem se tornar proeminentes, mas não podem se tornar permanentes. Serão desapossados e destituídos, por mais que digam em contrário. Todo mal traz em si o elemento da decadência; pois o que é ele senão corrupção? Por isso os maiores poderes da oratória são insuficientes para assentar sobre um alicerce seguro a causa que traz consigo uma mentira.
O mal caçará o homem violento até derrubá-lo. Ele caçou o bom, e agora o seu próprio mal o há de caçar. Ele tentou transtornar os passos do justo, e agora a sua própria injustiça há de provar a sua ruína. Como foi violento, assim será violentamente atacado e caçado até cair. O pecado é o seu próprio castigo; o homem violento não precisará de destino mais funesto do que colher o que semeou. É horrível para um caçador ser devorado pelos seus próprios cães; ainda assim, este é o destino certo do perseguidor.
Versículo 12Salmo 140:12
Sei que o SENHOR fará justiça ao aflito, e defenderá o direito do pobre. Ao longo de todo o Salmo, o escritor está bravamente confiante, e fala de coisas sobre as quais não tinha dúvida: de fato, nenhum Salmo pode ser mais grandiosamente positivo do que este protesto contra a calúnia. O santo caluniado conhecia o cuidado de Jeová para com os aflitos, pois havia recebido dele provas concretas. "Eu a manterei" é o lema do grande Defensor dos direitos dos necessitados. Que confiança isso deveria criar no peito dos perseguidos e dos empobrecidos! Os prósperos e os ricos podem defender sua própria causa, mas os que não o são hão de descobrir que Deus ajuda aqueles que não podem ajudar a si mesmos. Muitos falam como se o pobre não tivesse direitos dignos de nota, mas mais cedo ou mais tarde vão descobrir seu engano, quando o Juiz de toda a terra começar a tratar com eles.
Versículo 13Salmo 140:13
Certamente os justos darão graças ao teu nome. O Salmo anterior também teve seu "certamente", mas este é mais agradável. Assim como certamente Deus matará o ímpio, ele salvará o oprimido, e encherá seu coração e sua boca de louvores. Quem quer que se cale, os justos darão graças; e o que quer que sofram, o desfecho será que sobreviverão à provação, e engrandecerão o Senhor pela sua graça libertadora. Na terra, dentro em breve, e no céu, para sempre, os puros de coração cantarão ao Senhor. Quão altos e doces serão os cânticos dos redimidos na era milenar, quando os mansos herdarem a terra, e se deleitarem na abundância da paz!
Os retos habitarão na tua presença. Assim darão graças da forma mais verdadeira e plena. Esta permanência diante do Senhor lhe renderá "cânticos sem palavras", e por isso ainda mais espirituais e verdadeiros. O viver e o andar deles com o seu Deus será a forma prática da sua gratidão. Sentados em santa paz, como filhos à mesa do pai, seus semblantes e sua linguagem alegres falarão da sua elevada estima e do seu ardente amor por aquele que se tornou a sua morada. A que altura subimos neste Salmo — de ser caçado pelo homem mau a habitar na presença divina; assim a fé eleva o santo das profundezas mais baixas aos cumes do repouso pacífico. Com razão o cântico está pontilhado de Selás, ou elevações.