Tesouros de Davi

Salmo 25

Leia o Salmo 25 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Um Salmo de Davi. Davi é retratado neste Salmo como num retrato fiel em miniatura. Sua santa confiança, seus muitos conflitos, sua grande transgressão, seu amargo arrependimento e suas profundas angústias estão todos aqui; de modo que vemos o próprio coração do "homem segundo o coração de Deus".

É evidentemente uma composição dos últimos dias de Davi, pois ele menciona os pecados de sua juventude. Diante das dolorosas referências à astúcia e crueldade de seus muitos inimigos, não será especulação excessiva situá-lo no período em que Absalão liderava a grande rebelião contra ele.

Este tem sido chamado o segundo dos sete Salmos Penitenciais. É marca de um verdadeiro santo que suas tristezas o lembrem de seus pecados, e que sua tristeza pelo pecado o leve ao seu Deus.

ASSUNTO E DIVISÃO. Os vinte e dois versículos deste Salmo começam, no original, com as letras do alfabeto hebraico em sua ordem própria. É o primeiro exemplo que temos de um cântico acróstico ou alfabético inspirado.

Esse método pode ter sido adotado pelo autor para auxiliar a memória; e o Espírito Santo pode tê-lo empregado para nos mostrar que os recursos de estilo e as artes da poesia podem legitimamente ser usados a seu serviço. Por que não haveriam toda a engenhosidade e todo o talento do homem de ser santificados para os mais nobres fins, sendo postos sobre o altar de Deus?

Pela singularidade da estrutura do Salmo, não é fácil identificar divisões marcadas; há grandes mudanças de pensamento, mas não há variação de assunto; os estados de espírito do autor são dois — oração e meditação; e, à medida que estes aparecem alternadamente, devemos assim dividir os versículos: oração, Salmo 25:1-7; meditação, Salmo 25:8-10; oração, Salmo 25:11; meditação, Salmo 25:12-15; oração, Salmo 25:16-22.

Exposição

Versículo 1Salmo 25:1

A ti, ó SENHOR. Veja como a alma santa voa para o seu Deus como uma pomba para o seu pombal. Quando os ventos da tempestade se levantam, os navios do Senhor viram a proa e rumam para o seu bem lembrado porto de refúgio. Que misericórdia é que o Senhor se digne a ouvir nosso clamor em tempo de aflição, ainda que quase o tenhamos esquecido em nossas horas de prosperidade imaginária.

A ti, ó Jeová, elevo a minha alma. É mera zombaria erguer as mãos e os olhos se não trouxermos também a nossa alma às nossas devoções. A verdadeira oração pode ser descrita como a alma que se ergue da terra para ter comunhão com o céu; é tomar uma jornada pela escada de Jacó, deixando nossos cuidados e temores ao pé dela, e encontrando um Deus da aliança no topo.

Muitas vezes a alma não consegue se elevar; ela perdeu suas asas, e está pesada e presa à terra — mais parecida com uma toupeira escavadora do que com uma águia em voo. Nessas estações de torpor não devemos abandonar a oração, mas devemos, com o auxílio de Deus, empregar todas as nossas forças para erguer o coração. Que a fé seja a alavanca e a graça o braço, e o peso morto ainda se moverá.

Mas que esforço isso já se mostrou às vezes! Com todo o nosso puxar e esforçar-nos, temos sido completamente derrotados, até que o ímã celestial do amor de nosso Salvador exibe suas atrações onipotentes, e então nosso coração sobe até o nosso Amado como chamas de fogo em ascensão.

Versículo 2Salmo 25:2

Ó meu Deus. Este título é mais precioso do que o nome Jeová, usado na primeira frase. Já o doce cantor se aproximou de seu ajudador celestial, pois ousa segurá-lo com a mão da posse assegurada, chamando-o de meu Deus. Ó a música mais que celestial daquela palavra: "Meu Deus!"

Note-se que o salmista não reprime os sentimentos graciosos com que Deus o havia favorecido; ele não cai numa repugnante falsa modéstia, mas, achando em sua alma o desejo de buscar o Senhor, o confessa; crendo que tinha um interesse legítimo em Jeová, o declara; e sabendo que tinha confiança em seu Deus, o professa.

Em ti confio. A fé é o cabo que amarra nosso barco à margem, e puxando-o nos aproximamos da terra; a fé nos une a Deus, e depois nos aproxima dele. Enquanto a âncora da fé segurar, não há temor na pior tempestade; se ela viesse a falhar, não restaria esperança alguma. Devemos zelar para que nossa fé seja sã e forte, pois de outro modo a oração não pode prevalecer diante de Deus. Ai do guerreiro que lança fora o seu escudo; que defesa pode ter aquele que não encontra defesa em seu Deus?

Não seja eu envergonhado. Que minhas esperanças frustradas não me façam sentir vergonha dos meus antigos testemunhos da tua fidelidade. Não triunfem sobre mim os meus inimigos. Não permitas que nenhuma boca ímpia faça blasfema zombaria de minhas aflições, perguntando: "Onde está o teu Deus?"

Muitos estavam de olho nisso. Os melhores dos homens têm seus inimigos, e devem orar contra eles para que não vejam realizados seus desejos malignos. Há um grande zelo nos crentes pela honra de Deus, e eles não podem suportar que os incrédulos os escarneçam pelo fracasso de suas expectativas no Deus da sua salvação. Todas as outras confianças terminarão em decepção e vergonha eterna, mas a nossa confiança jamais será confundida.

Versículo 3Salmo 25:3

Sim, ninguém que espera em ti será envergonhado. O sofrimento amplia o coração ao criar a capacidade de compaixão. Se oramos ardentemente por nós mesmos, não conseguiremos por muito tempo esquecer nossos companheiros de sofrimento. Ninguém tem piedade do pobre como quem já foi ou ainda é pobre; ninguém tem tal ternura pelo doente como quem esteve muito tempo enfermo.

Devemos ser gratos pelas aflições ocasionais, se elas nos preservam de uma dureza de coração crônica; pois de todas as calamidades, um coração sem bondade é a pior, é uma praga para o seu possuidor e um tormento para os que o cercam. A oração, quando ensinada pelo Espírito Santo, jamais é egoísta; o crente não pede monopólios para si mesmo, mas gostaria que todos, em situação semelhante, participassem com ele da misericórdia divina.

A oração pode ser vista como uma promessa; nosso Pai Celestial jamais permitirá que seus filhos confiantes o encontrem infiel ou desatento. Ele sempre se lembrará de sua aliança.

Envergonhados sejam os que transgridem sem causa. Davi não havia dado a seus inimigos provocação alguma; o ódio deles era gratuito. Os pecadores não têm razão justificável nem desculpa válida para transgredir; não beneficiam ninguém, nem mesmo a si mesmos, com seus pecados; a lei contra a qual transgridem não é dura nem injusta; Deus não é um governante tirânico, a providência não é uma escravidão: os homens pecam porque querem pecar, não porque seja proveitoso ou razoável fazê-lo. Por isso a vergonha é a recompensa que lhes cabe.

Que corem de vergonha penitente agora, ou então não conseguirão escapar do desprezo eterno e da vergonha amarga que é a porção dos loucos no mundo vindouro.

Versículo 4Salmo 25:4

Mostra-me os teus caminhos, ó SENHOR. Naturezas não santificadas clamam pelo seu próprio caminho, mas os espíritos cheios de graça clamam: "Não seja feita a minha vontade, mas a tua." Nem sempre conseguimos discernir o caminho do dever, e nessas ocasiões é sabedoria recorrer ao próprio Senhor. Frequentemente os tratos de Deus conosco são misteriosos, e também então podemos apelar a ele como seu próprio intérprete, e no devido tempo ele tornará tudo claro.

As formas de orientação moral, providencial e mental são todas dons preciosos de um Deus gracioso a um povo ensinável. A segunda petição, ensina-me as tuas veredas, parece significar mais do que a primeira, e pode ser ilustrada pelo caso de uma criancinha que dissesse a seu pai: "Pai, primeiro me diz qual é o caminho, e depois ensina meus pezinhos trêmulos a andar nele." Que criaturas fracas e dependentes somos! Como devemos clamar constantemente ao Forte por força!

Versículo 5Salmo 25:5

Guia-me na tua verdade, e ensina-me. O mesmo pedido do versículo anterior. A criancinha, tendo começado a andar, pede para ser ainda conduzida pela mão amparadora do pai, e ser mais instruída no alfabeto da verdade. O ensino experimental é o cerne desta oração. Guia-me segundo a tua verdade, e prova-te fiel; guia-me para dentro da verdade, para que eu conheça sua preciosidade; guia-me pelo caminho da verdade, para que eu manifeste seu espírito.

Davi sabia muito, mas sentia sua ignorância e desejava permanecer na escola do Senhor; quatro vezes nesses dois versículos ele pede matrícula no colégio da graça. Seria bom para muitos que se dizem crentes se, em vez de seguir suas próprias invenções e abrir novos caminhos de pensamento para si mesmos, buscassem os bons e velhos caminhos da verdade de Deus, e suplicassem ao Espírito Santo que lhes desse entendimentos santificados e espíritos ensináveis.

Pois tu és o Deus da minha salvação. O Trino e Uno Jeová é o Autor e Consumador da salvação de seu povo. Leitor, é ele o Deus da tua salvação? Encontras na eleição do Pai, na expiação do Filho e na vivificação do Espírito todos os fundamentos de tuas esperanças eternas? Se assim é, podes usar isso como argumento para obter novas bênçãos; se o Senhor decidiu te salvar, certamente não recusará te instruir em seus caminhos. É coisa feliz quando podemos nos dirigir ao Senhor com a confiança que Davi aqui manifesta; isso nos dá grande poder na oração, e consolo na provação.

Em ti espero todo o dia. A paciência é a bela criada e filha da fé; esperamos alegremente quando temos certeza de que não esperaremos em vão. É nosso dever e privilégio esperar no Senhor, em serviço, em adoração, em expectativa, em confiança, todos os dias de nossa vida. Nossa fé será fé provada, e se for do tipo verdadeiro, suportará provação contínua sem ceder. Não nos cansaremos de esperar no Senhor se nos lembrarmos por quanto tempo e com quanta graça ele uma vez esperou por nós.

Versículo 6Salmo 25:6

Lembra-te, ó SENHOR, das tuas ternas misericórdias e das tuas benignidades. Somos costumeiramente tentados, em tempos de aflição, a temer que nosso Deus nos tenha esquecido, ou esquecido sua costumeira bondade para conosco; por isso a alma, por assim dizer, lembra ao Senhor, e lhe suplica que se recorde daqueles feitos de amor que outrora operou para com ela. Há uma santa ousadia que assim se atreve a tratar com o Altíssimo — cultivemo-la; mas há também uma incrédula desconfiança que sugere nossos temores — combatamo-la com todas as nossas forças.

Que joias são essas duas expressões, "ternas misericórdias e benignidades"! São o mel virgem da linguagem; quanto à doçura, nenhuma palavra as excede; mas quanto aos favores graciosos que elas designam, a linguagem falha em descrevê-los.

"Quando todas as tuas misericórdias, ó meu Deus,

Minha alma erguida contempla,

Transportado com a visão, perco-me

Em espanto, amor e louvor."

Se o Senhor apenas continuar fazendo por nós no futuro como fez no passado, ficaremos bem contentes. Não buscamos mudança na ação divina, apenas ansiamos que o rio da graça jamais cesse de fluir.

Porque desde a antiguidade elas têm sido. Uma tradução mais correta seria "desde a eternidade." Davi era um crente convicto na doutrina do amor eterno de Deus. As benignidades do Senhor não são novidades. Quando lhe suplicamos que as conceda, podemos invocar o uso e o costume mais antigos. Nos tribunais os homens dão grande peso aos precedentes, e nós podemos invocá-los diante do trono da graça.

"A fé", diz Dickson, "deve usar as experiências e relê-las diante de Deus, tirando-as do registro de uma memória santificada, como um escrivão diante daquele que não pode esquecer." Com um Deus imutável, é um argumento dos mais eficazes lembrar-lhe suas antigas misericórdias e seu amor eterno. Ao remontarmos tudo o que desfrutamos até a fonte do amor eterno, alegraremos grandemente nosso coração, e prestam-nos péssimo serviço aqueles que tentam nos dissuadir de meditar sobre a eleição e os temas correlatos.

Versículo 7Salmo 25:7

Não te lembres dos pecados da minha mocidade. O pecado é a pedra de tropeço. É isso que precisa ser removido. Senhor, decreta uma anistia para todos os meus pecados, e especialmente para as loucuras impetuosas e ardentes dos meus anos de juventude. As ofensas que lembramos com arrependimento, Deus esquece; mas se nós as esquecermos, a justiça as trará de volta para o castigo.

O mundo faz vista grossa aos pecados dos jovens, e no entanto eles não são, afinal, tão pequenos assim; os ossos de nossos festins juvenis à mesa de Satanás ainda se espetarão dolorosamente em nossa garganta quando formos velhos. Quem presume sobre sua juventude está envenenando sua velhice. Quantas lágrimas podem molhar esta página enquanto alguns de nós refletimos sobre o passado!

Nem as minhas transgressões. Outra palavra para os mesmos males. Penitentes sinceros não conseguem despachar suas confissões apressadamente; sentem-se obrigados a usar muitas lamentações, pois seus pecados, que pululam, os ferem com tristezas inumeráveis. Um doloroso senso de um único pecado leva o crente ao arrependimento por toda a massa de suas iniquidades. Nada além do perdão mais pleno e mais claro satisfará uma consciência plenamente despertada. Davi queria que seus pecados não apenas fossem perdoados, mas esquecidos.

Segundo a tua misericórdia lembra-te de mim, por causa da tua bondade, ó SENHOR. Davi e o ladrão moribundo respiram a mesma oração, e sem dúvida a fundamentavam na mesma súplica: a graça livre e a bondade imerecida de Jeová. Não ousamos pedir que nossa porção seja medida pelas balanças da justiça, mas oramos para sermos tratados pela mão da misericórdia.

Versículos 8–10Salmo 25:8-10

Estes três versículos são uma meditação sobre os atributos e os atos do Senhor. Aquele que labuta no campo da colheita da oração deve, de vez em quando, fazer uma pausa e refrescar-se com uma refeição de meditação.

Versículo 8Salmo 25:8

Bom e reto é o SENHOR; por isso ensinará aos pecadores o caminho. Aqui a bondade e a retidão do caráter divino se veem em amigável união; quem quiser vê-las assim unidas em laços de perfeita amizade deve ficar ao pé da cruz e contemplá-las combinadas no sacrifício do Senhor Jesus. Não é menos verdadeiro do que maravilhoso que, por meio da expiação, a justiça de Deus advoga tão fortemente quanto a sua graça pela salvação dos pecadores que Jesus morreu para salvar.

Além disso, assim como um homem bom naturalmente procura fazer os outros semelhantes a si, também o Senhor nosso Deus, em sua compaixão, conduzirá os pecadores ao caminho da santidade e os conformará à sua própria imagem; assim a bondade de nosso Deus nos leva a esperar a recuperação dos homens pecadores.

Não podemos concluir, da bondade de Deus, que ele salvará aqueles pecadores que continuam a vagar por seus próprios caminhos, mas podemos ter a certeza de que ele renovará o coração dos transgressores e os guiará ao caminho da santidade. Que aqueles que desejam ser libertos do pecado tirem consolo disto. O próprio Deus se dignará a ser o professor dos pecadores. Que escola tosca é esta para Deus ensinar! O ensino de Deus é prático; ele ensina aos pecadores não apenas a doutrina, mas o caminho.

Versículo 9Salmo 25:9

Os mansos guiará ele em juízo. Os espíritos mansos gozam de grande favor junto ao Pai do manso e humilde Jesus, pois ele vê neles a imagem de seu Filho unigênito. Eles conhecem sua necessidade de orientação, e estão dispostos a submeter seu próprio entendimento à vontade divina, e por isso o Senhor se digna a ser seu guia.

Os espíritos humildes são, neste versículo, dotados de uma rica herança; que se animem. A tribulação leva os espíritos mansos ao fim de sua sabedoria, e os impele a agir sem discrição, mas a graça vem em socorro, ilumina sua mente para seguir o que é justo, e os ajuda a discernir o caminho em que o Senhor quer que andem.

Orgulhosos de sua própria sabedoria, os tolos não querem aprender, e por isso perdem o caminho para o céu, mas os corações humildes se assentam aos pés de Jesus, e encontram a porta da glória, pois aos mansos ensinará o seu caminho. Bendito mestre! Favorecido discípulo! Divina lição! Minha alma, familiariza-te com tudo isso.

Versículo 10Salmo 25:10

Esta é uma regra sem exceção. Deus é bom para com aqueles que são bons. A misericórdia e a fidelidade abundarão para com aqueles que, pela misericórdia, são feitos fiéis. Sejam quais forem as aparências externas que ameacem, devemos firmar em nossa mente que, enquanto a graça nos habilita a obedecer à vontade do Senhor, não precisamos temer que a Providência nos cause qualquer prejuízo real.

Haverá misericórdia em cada bocado desagradável, e fidelidade em cada gota amarga; que nosso coração não se perturbe, mas descansemos pela fé na aliança imutável de Jeová, que está ordenada em todas as coisas e é segura.

No entanto, esta não é uma verdade geral para ser pisoteada pelos porcos; é uma pérola para o pescoço de uma criança. As almas cheias de graça, descansando pela fé na obra consumada do Senhor Jesus, e santificadas pelo Espírito Santo, guardam a aliança do Senhor e andam em seus testemunhos; estas encontrarão todas as coisas cooperando para o seu bem, mas para o pecador não há promessa semelhante. Os que guardam a aliança serão guardados pela aliança; os que seguem os mandamentos do Senhor encontrarão a misericórdia do Senhor seguindo-os.

Versículo 11Salmo 25:11

Esta sentença de oração pareceria fora de lugar, se não fosse pelo fato de que a oração está sempre em seu lugar, seja em tempo oportuno ou inoportuno. Tendo a meditação refrescado o salmista, ele volta ao seu árduo trabalho, e luta com Deus pela remissão de seu pecado.

Por causa do teu nome, ó SENHOR. Eis aqui uma súplica bendita e nunca falha. Não por nós ou por nosso mérito, mas para glorificar tua misericórdia, e para manifestar a glória de teus atributos divinos.

Perdoa a minha iniquidade. Ela é confessada, é aborrecida, está consumindo meu coração com tristeza; Senhor, perdoa-a; que teus próprios lábios pronunciem minha absolvição.

Pois é grande. Pesa tanto sobre mim que te suplico que a remova. Sua grandeza não é dificuldade alguma para ti, pois és um Deus grande, mas a miséria que ela me causa é meu argumento junto a ti para um perdão rápido. Senhor, o paciente está gravemente enfermo; portanto, cura-o. Perdoar a um grande pecador te trará grande glória; portanto, por causa do teu nome, perdoa-me.

Observe como este versículo ilustra a lógica da fé, que é totalmente contrária à do espírito legalista; a fé não busca mérito na criatura, mas atenta para a bondade do Criador; e, em vez de se abalar com os deméritos do pecado, olha para o sangue precioso, e suplica com ainda mais vigor por causa da urgência do caso.

Versículo 12Salmo 25:12

Quem é o homem que teme ao SENHOR? Que a pergunta provoque autoexame. Os privilégios do evangelho não são para todo pretendente. És tu da semente real, ou não?

A esse ensinará ele o caminho que deve escolher. Aqueles cujo coração é reto não hão de errar por falta de direção celestial. Onde Deus santifica o coração, ele ilumina a mente.

Todos queremos escolher o nosso próprio caminho; mas que misericórdia é quando o Senhor dirige essa escolha, e faz do livre-arbítrio boa vontade! Se fazemos da nossa vontade a vontade de Deus, Deus nos deixará ter a nossa vontade. Deus não viola nossa vontade, mas deixa muito à nossa escolha; contudo, ele instrui nossa vontade, e assim escolhemos o que é agradável aos seus olhos.

A vontade deve estar sujeita à lei; há um caminho que devemos escolher, mas somos tão ignorantes que precisamos ser ensinados, e tão obstinados que ninguém além do próprio Deus pode nos ensinar eficazmente.

Versículo 13Salmo 25:13

Aquele que teme a Deus não tem mais nada a temer. A sua alma habitará em bem. Ele se hospedará na câmara do contentamento. Tanto se pode dormir profundamente na caminha do canto quanto na Grande Cama de Ware; não é a abundância, mas o contentamento, que dá a verdadeira paz.

Mesmo aqui, tendo aprendido pela graça tanto a ter fartura quanto a passar necessidade, o crente habita em paz; mas quão profunda será a paz de sua alma para sempre! Ali ele desfrutará do otium cum dignitate (o ócio com dignidade); paz e glória hão de andar juntas. Como um guerreiro cujas batalhas terminaram, ou um lavrador cujos celeiros estão cheios, sua alma repousará, e se regozijará para sempre.

E a sua semente herdará a terra. Deus se lembra de Isaque por causa de Abraão, e de Jacó por causa de Isaque. Os filhos dos homens bons têm uma boa porção para começar a vida, mas muitos deles, ai de nós, transformam a bênção do pai em maldição.

A promessa não se quebra porque, em alguns casos, os homens voluntariamente se recusam a recebê-la; além disso, é em seu sentido espiritual que ela agora se cumpre; nossa semente espiritual herda tudo o que se quis dizer com "a terra", ou Canaã; eles recebem a bênção da nova aliança. Que o Senhor nos faça pais alegres de muitos filhos espirituais, e não teremos temor algum quanto ao seu sustento, pois o Senhor fará de cada um deles príncipes em toda a terra.

Versículo 14Salmo 25:14

O segredo do SENHOR é com os que o temem. Alguns leem "a amizade": significa relação familiar, intimidade confidencial e comunhão seleta. Este é um grande segredo. As mentes carnais não podem adivinhar o que se quer dizer com isso, e mesmo os crentes não conseguem explicá-lo em palavras, pois precisa ser sentido para ser conhecido.

A vida espiritual superior é necessariamente um caminho que o olho da águia não conheceu, e que o filhote do leão não percorreu; nem a sabedoria natural nem a força podem forçar uma porta para esta câmara interior. Os santos têm a chave dos hieróglifos do céu; podem decifrar enigmas celestiais. São iniciados na comunhão dos céus; ouviram palavras que não lhes é possível repetir aos seus semelhantes.

E lhes mostrará a sua aliança. Sua antiguidade, segurança, justiça, plenitude, graciosidade e excelência lhes serão reveladas ao coração e ao entendimento, e, acima de tudo, a própria parte deles nela será selada em suas almas pelo testemunho do Espírito Santo.

Os desígnios de amor que o Senhor tem para com seu povo na aliança da graça, ele se agradou de mostrar aos crentes no Livro da Inspiração, e pelo seu Espírito nos conduz ao mistério, o próprio mistério oculto da redenção. Quem não sabe o significado deste versículo jamais o aprenderá num comentário; que olhe para a cruz, pois o segredo está ali.

Versículo 15Salmo 25:15

Os meus olhos estão continuamente para o SENHOR. O autor afirma estar firme em sua confiança, e constante em sua expectativa; ele olha com confiança, e espera com esperança. Podemos acrescentar a este olhar de fé e esperança o olhar obediente do serviço, o olhar humilde da reverência, o olhar admirado do assombro, o olhar estudioso da meditação, e o olhar terno do afeto. Felizes os que nunca desviam os olhos de seu Deus. "O olho", diz Salomão, "nunca se satisfaz de ver", mas esta visão é a mais satisfatória do mundo.

Porque ele tirará os meus pés da rede. Observe a condição conflitante em que uma alma cheia de graça pode se encontrar: seus olhos estão no céu, e ainda assim seus pés às vezes estão numa rede; sua natureza mais nobre não cessa de contemplar as glórias de Deus, enquanto suas partes mais baixas suportam as misérias do mundo.

Uma rede é a metáfora comum para a tentação. O Senhor frequentemente guarda seu povo de cair nela, e se caíram, ele os resgata. A palavra "tirará" é uma palavra brusca, e os santos que caíram em pecado descobrem que os meios de sua restauração nem sempre são fáceis para a carne; o Senhor puxa por nós com dureza, para nos fazer sentir que o pecado é coisa amargamente exagerada.

Mas que misericórdia há aqui! Crente, sê muito grato por isso. O Senhor nos livrará dos artifícios astutos de nosso cruel inimigo, e mesmo que por fraqueza tenhamos caído em pecado, ele não nos deixará ser totalmente destruídos, mas nos tirará de nosso estado perigoso; ainda que nossos pés estejam na rede, se nossos olhos estiverem voltados para Deus, a misericórdia certamente há de intervir.

Versículo 16Salmo 25:16

Seus próprios olhos estavam fixos em Deus, mas ele temia que o Senhor tivesse desviado dele o seu rosto em ira. Muitas vezes a incredulidade sugere que Deus nos virou as costas. Se sabemos que nos voltamos para Deus, não precisamos temer que ele se afaste de nós, mas podemos clamar ousadamente: Volta-te para mim.

O motivo da desavença está sempre em nós mesmos, e quando este é removido, nada impede o pleno gozo da comunhão com Deus. Tem misericórdia de mim. Os santos ainda precisam se apoiar no chão da misericórdia; apesar de toda a sua experiência, não conseguem ir além da oração do publicano: "Tem misericórdia de mim."

Porque estou desamparado e aflito. Ele estava só e abatido. Jesus esteve, nos dias de sua carne, exatamente numa condição assim; ninguém podia penetrar nas profundezas secretas de suas dores, ele pisou o lagar sozinho, e por isso é capaz de socorrer, no sentido mais pleno, aqueles que trilham o caminho solitário.

"Cristo não me leva por câmaras mais escuras

Do que ele mesmo atravessou antes; quem entra no reino de Deus,

Deve entrar por esta porta."

Versículo 17Salmo 25:17

Os problemas do meu coração se multiplicaram. Quando a tribulação penetra no coração, é tribulação de verdade. No caso presente, o coração estava inchado de tristeza como um lago transbordante por enormes enchentes; isso é usado como argumento para o livramento, e é um argumento poderoso.

Quando chega a hora mais escura da noite, podemos esperar a alvorada; quando o mar está em sua maré mais baixa, a maré certamente há de virar; e quando nossas tribulações se multiplicam ao seu grau máximo, então podemos orar com esperança: tira-me das minhas angústias.

Versículo 18Salmo 25:18

Olha para a minha aflição e para a minha dor. Note as muitas provações dos santos; aqui temos nada menos que seis palavras, todas descrevendo tristeza: "Desamparado, aflito, tribulações multiplicadas, angústias, aflição e dor."

Mas observe ainda mais o espírito submisso e confiante de um verdadeiro santo; tudo o que ele pede é: "Senhor, olha para a minha triste condição"; ele não dita, nem sequer expressa uma queixa; um olhar de Deus há de contentá-lo, e, sendo esse concedido, nada mais pede.

Ainda mais notável é o modo como o crente, em sua aflição, descobre a verdadeira fonte de todo o mal, e lança o machado à raiz dele. Perdoa todos os meus pecados, é o clamor de uma alma que está mais enferma de pecado do que de dor, e preferiria ser perdoada a ser curada. Bendito é o homem para quem o pecado é mais insuportável do que a doença; não passará muito tempo antes que o Senhor lhe perdoe a iniquidade e lhe cure as doenças. Os homens são lentos para ver a íntima ligação entre o pecado e a tristeza; só um coração ensinado pela graça a sente.

Versículo 19Salmo 25:19

Considera os meus inimigos. Observa-os, pesa-os, contém-nos, derrota-os. Porque são muitos. Precisariam dos olhos de Argos para vigiá-los, e dos braços de Hércules para enfrentá-los, mas o Senhor é mais que suficiente para derrotá-los. Os demônios do inferno e os males da terra são todos vencidos quando o Senhor descobre o seu braço.

Eles me odeiam com ódio cruel. É o hálito da semente da serpente odiar; seu progenitor foi um odiador, e eles próprios precisam imitá-lo. Não há ódio tão cruel quanto o que é irracional e injusto. Um homem pode perdoar a quem o injuriou, mas a quem ele mesmo injuriou, odeia implacavelmente. "Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos" ainda é a palavra de nosso Mestre para nós.

Versículo 20Salmo 25:20

Ó guarda a minha alma longe do mal, e livra-me quando nele eu cair. Esta é outra versão da oração: "Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal."

Não seja eu envergonhado. Este é o único temor que, como um fantasma, assombrava a mente do salmista. Ele tremia com medo de que sua fé se tornasse objeto de zombaria pela extremidade de sua aflição. Corações nobres podem suportar quase tudo, menos a vergonha. Davi era de espírito tão cavalheiresco que podia suportar qualquer tormento antes de ser posto em desonra.

Porque em ti confio. E, portanto, o nome de Deus estaria comprometido se seus servos fossem abandonados; isto o coração crente de modo algum pode suportar.

Versículo 21Salmo 25:21

A integridade e a retidão me preservem. Que melhores salvaguardas práticas um homem pode desejar? Se não prosperarmos tendo estas como nossas guias, é melhor para nós sofrermos adversidade. Até mesmo o mundo ímpio admite que "a honestidade é a melhor política."

O herdeiro do céu torna sua garantia ainda mais segura, pois, além da retidão de sua vida pública, ele recruta o cuidado protetor do céu na oração secreta: porque em ti espero. Fingir esperar em Deus sem santidade de vida é hipocrisia religiosa, e confiar na própria integridade sem invocar a Deus é ateísmo presunçoso. Talvez a integridade e a retidão aqui referidas sejam aqueles atributos justos de Deus, sobre os quais a fé se apoia como garantia de que o Senhor não abrirá mão de sua palavra.

Versículo 22Salmo 25:22

Redime a Israel, ó Deus, de todas as suas tribulações. Esta é uma oração muito abrangente, que inclui todos os fiéis e todas as suas provações. A tristeza ensinou ao salmista a compaixão, e lhe deu comunhão com o povo provado de Deus; por isso ele se lembra deles em suas orações.

Israel, o provado, o que luta, o herói vitorioso, digno representante de todos os santos. Israel no Egito, no deserto, nas guerras com os cananeus, no cativeiro, digno tipo da igreja militante na terra.

Jesus é o Redentor da tribulação assim como do pecado; ele é um Redentor completo, e de todo mal ele resgatará todo santo. A redenção pelo sangue está consumada: ó Deus, envia-nos a redenção pelo poder. Amém e amém.

Obras sobre este salmo

A Godly and Fruitful Exposition on the Twenty-fifth Psalme, o segundo dos Salmos Penitenciais; (em A Sacred Septenarie). Por ARCHIBALD SYMSON. 1638. (Veja página 74.)

The Preacher's Tripartie, in Three Books. O primeiro, para despertar devoção em meditações divinas sobre o Salmo XXV. Por R. MOSSOM, Pregador da Palavra de Deus, falecido em St. Peter's, Paul's Wharf, Londres, 1657. Fólio.

Seis sermões em Expository Discourses, pelo falecido Rev. WILLIAM RICHARDSON, subcantor da Catedral de York. 1825.

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