Notas explicativas e citações: Salmo 25
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 25, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 25 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Salmo inteiro. Este é o primeiro dos sete Salmos alfabéticos, sendo os outros o 34, o 37, o 111, o 112, o 119 e o 145. São exemplares daquele estilo acróstico de composição que parece ter sido, em certa época, muito popular entre os judeus, como atestam numerosos exemplos desse tipo de composição encontrados em seus escritos. Outros artifícios poéticos também eram adotados. Encontramos muitos casos de poemas construídos de tal forma que um nome próprio, ou algum sentimento específico, era não raro expresso pelas letras iniciais dos versos. Veja Bibliotheca Rabbinica, de Bartolocci, vol. 2, pg. 260, onde são citados exemplos desses artifícios. George Phillips, B.D., em The Psalms in Hebrew, with a Commentary, 1846.
Salmo inteiro. Este é o primeiro Salmo totalmente alfabético... A única lição que o uso da forma alfabética pode ensinar é esta: que o Espírito Santo se dispôs a lançar suas palavras em todos os moldes do pensamento e da fala humanos; e que, por maior engenhosidade que o homem exiba em seus esforços intelectuais, deve consagrá-la ao seu Senhor, fazendo dele o "Alfa e Ômega" de suas buscas. Andrew A. Bonar.
Salmo inteiro. A graça salvadora é um segredo que ninguém conhece, senão o eleito; e nem mesmo o eleito pode conhecê-la sem uma iluminação especial: 1. Um mostrar especial — "Mostra-me os teus caminhos, ó SENHOR", diz Davi. 2. Um simples mostrar não basta; é preciso um ensinar especial — "ensina-me as tuas veredas", Salmo 25:4. 3. Um simples ensinar também não basta; é preciso um ensinar inculcador especial — "ensina-me nos teus caminhos", cf. Salmo 25:8. 4. O ensinar inculcador também não é suficiente; é preciso um ensinar diretivo especial — "guia-me no juízo, e ensina-me", Salmo 25:9. 5. O ensinar diretivo não basta; é preciso um ensinar condutor especial — "guia-me na tua verdade, e ensina-me", Salmo 25:5. 6. O ensinar condutor não será eficaz sem que haja também um ensinar seleto e especial, uma determinação da própria vontade, um ensinar eletivo — "ao homem que escolher, ensinará ele o caminho", Salmo 25:12.
E que segredo é esse? Não é a graça comum, pois esta não é o segredo do eleito, mas graça especial e peculiar. 1. A graça especial da oração — "a ti, ó SENHOR, levanto a minha alma", Salmo 25:1. 2. A graça especial da fé — "Deus meu, em ti confio", Salmo 25:2. 3. A graça especial do arrependimento — "não te lembres dos pecados da minha mocidade" etc., Salmo 25:7. 4. A graça especial da esperança — "a minha esperança está em ti", Salmo 25:21. 5. A graça especial de viver continuamente diante de Deus, na dependência dele — "os meus olhos estão continuamente no SENHOR", Salmo 25:15. 6. A qual é a raiz de todo o favor e misericórdia especiais e eternos de Deus — "lembra-te, SENHOR, das tuas ternas misericórdias e das tuas benignidades, pois são desde a antiguidade", Salmo 25:6; e ainda a misericórdia especial de Deus para com ele em particular, Salmo 25:11. William Fenner, em Hidden Manna, 1626.
Salmo inteiro. Nestes quatro Salmos que se seguem imediatamente um ao outro, podemos encontrar a alma de Davi apresentada em todas as diversas posturas da piedade — deitado, em pé, sentado, ajoelhado.
No Salmo vinte e dois, ele está totalmente deitado, caindo de bruços, rastejando no chão, quase entrando em certo grau de desespero, falando de si mesmo na história de Cristo em mistério: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"
No Salmo vinte e três, ele está em pé, e pelo favor de Deus, a despeito de seus inimigos, pisando e triunfando sobre toda oposição: "O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará."
No Salmo vinte e quatro, ele está sentado, como um doutor em sua cadeira, ou um professor em seu posto, lendo uma lição de teologia e descrevendo o caráter daquele homem — como ele deve ser — "que subirá ao monte do SENHOR", e há de, depois, participar da felicidade.
Neste Salmo vinte e cinco, ele está ajoelhado, com as mãos e a voz erguidas a Deus, e sobre estas duas dobradiças gira todo o Salmo: uma é uma súplica sincera pela misericórdia de Deus; a outra, um humilde lamento sobre a própria miséria. Thomas Fuller.
Versículo 1Salmo 25:1
A ti, Senhor, levanto a minha alma. Esse erguer do coração pressupõe um abatimento anterior da alma. A alma do homem é oprimida pelo pecado e pelos cuidados deste mundo, que, como o chumbo faz à rede, a puxam para baixo, a ponto de não poder se elevar, até que Deus envie as orações espirituais — como a cortiça à rede — para erguê-la; orações que nascem da fé, como a chama nasce do fogo, e que precisam estar livres dos cuidados seculares e de tudo que oprime.
Isso nos mostra que os mundanos não conseguem orar mais do que uma toupeira consegue voar. Mas os cristãos são como águias, que voam para cima. Vendo, pois, que o coração do homem é por natureza fixado à terra, e por si mesmo não é mais capaz de se erguer dali do que uma pedra presa ao chão — até que Deus a levante por seu poder, sua palavra e sua obra —, nossa principal súplica ao Senhor deveria ser que se agradasse de nos atrair, para que corrêssemos atrás dele; que exaltasse e erguesse nossos corações ao céu, para que não permaneçam parados na lama desta terra. Archibald Symson.
A ti, Senhor, levanto a minha alma. Um homem piedoso ora como um construtor constrói. Ora, o construtor primeiro lança o alicerce, e, como não pode terminar num só dia, volta no segundo dia e encontra de pé a estrutura que fez no primeiro; então acrescenta o trabalho do segundo dia; depois volta no terceiro dia e encontra de pé o trabalho dos dois dias anteriores; então segue para o trabalho do terceiro dia, levanta as paredes, e assim continua até que sua construção esteja concluída.
Assim é a oração: a edificação da alma, até que ela alcance o céu. Por isso, um coração piedoso ora, e alcança cada vez mais alto na oração, até que, por fim, suas orações cheguem a Deus. William Fenner.
A ti, Senhor, levanto a minha alma. A ti, na plenitude dos teus méritos; a ti, nas riquezas da tua graça; a ti, nos abraços do teu amor e nos consolos do teu Espírito; a ti, para que teus espinhos sejam minha coroa, teu sangue meu bálsamo, tua maldição minha bênção, tua morte minha vida, tua cruz meu triunfo. Assim, minha "vida está escondida com Cristo em Deus"; e, sendo assim, onde deveria estar minha alma, senão onde está minha vida? Por isso, a ti, Senhor, levanto a minha alma.
...Ó honra o teu nome de Senhor para comigo; como Senhor, repreende Satanás e reprime todas as afeições terrenas e carnais, para que não ousem sequer sussurrar uma tentação à minha alma, ou uma distração aos meus pensamentos, enquanto estou em comunhão contigo, em oração diante de tua santa ordenança. Governa-me, como Senhor, pela tua graça; dirige-me pelo teu Espírito; defende-me pelo teu poder; e coroa-me com a tua salvação.
Tu, Senhor, conservador do céu e da terra, "abres a tua mão, e satisfazes o desejo de todo ser vivente" (Salmo 145:16). Ó, abre agora a tua mão, o teu seio, a tua generosidade, o teu amor, e satisfaz os anseios da minha alma sedenta, que aqui "levanto a ti". Robert Mossom, 1657.
A ti, Senhor, levanto a minha alma. Cipriano diz que, nos tempos primitivos, o oficiante costumava preparar o ânimo do povo para a oração com o prefácio Sursum corda — "levantai os corações". Os judeus, até hoje, escrevem nas paredes de suas sinagogas estas palavras: Tephillah belo cavannah, guph belo neshamah — isto é, "uma oração sem a intenção do afeto é como um corpo sem alma". E, no entanto, sua devoção é mera aparência, diz alguém — uma cabeça sem miolo e um corpo sem alma: "Este povo se aproxima de mim com a boca... mas o seu coração está longe de mim" (Isaías 29:13).
Um homem carnal tampouco consegue erguer o coração em oração, do mesmo modo que uma toupeira não consegue voar. Até Davi acha essa tarefa difícil, pois o melhor dos corações é pesado, e por natureza se inclina para baixo, como o peso de um relógio, como o chumbo de uma rede. Que "deixemos todo o peso e o pecado que tão facilmente nos assedia", e oremos a Deus para que nos atraia a si, como o ímã atrai o ferro. John Trapp.
A ti levanto a minha alma. Isto se segue, por consequência natural, ao apelo sublime do Salmo anterior, dirigido às portas do céu, para que levantem suas cabeças e recebam a Cristo, o SENHOR dos exércitos e Rei da glória, que ascende ao céu. Como o expressa a coleta do dia da Ascensão: "Concede, ó Senhor, que, assim como cremos que teu Filho unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, ascendeu aos céus, também nós, em coração e mente, ali ascendamos"; e para o domingo depois da Ascensão: "Ó Deus, que exaltaste teu único Filho com grande triunfo ao teu reino nos céus, envia o teu Espírito Santo para nos consolar, e nos exaltar ao mesmo lugar aonde nosso Salvador Cristo já foi antes de nós." Christopher Wordsworth, in loc.
Levanto a minha alma. Alusão aos sacrifícios, que costumavam ser levantados. Por isso, as orações não respondidas, não aceitas, dizem-se impedidas de subir (Lamentações 3:44). Sempre que encontrar tais expressões no Antigo Testamento a respeito da oração, entenda-as como alusões aos sacrifícios, pois os sacrifícios eram levantados e ascendiam. Joseph Caryl.
A minha alma. Mas como poderei chamá-la minha, vendo que é tua — tua por compra, tua, por teres comprado com teu sangue? Sim, não é ela tua esposa, que desposaste contigo pelo Espírito, mediante a fé? E não é este santo sacramento o banquete nupcial? Se assim é, então, meu Jesus, eu estava perdido em mim mesmo, até me achar em ti; e por isso a minha alma só agora, e não antes, é verdadeiramente minha, por ser inteiramente tua; de modo que posso dizer com confiança: "a ti levanto a minha alma." Robert Mossom.
Versículos 2–3Salmo 25:2-3
Depois que Davi orou: "Deus meu, em ti confio: não seja eu envergonhado", no versículo seguinte, como que consciente de que sua oração fora restrita demais, estreita e mesquinha, ele amplia os limites dela e a assenta sobre uma base mais larga: "sim, não sejam envergonhados os que esperam em ti."
Assim, a caridade, no meio de nossas devoções religiosas, precisa de rehobote — espaço suficiente para se expandir. Nossas petições não devem ficar presas ou confinadas ao nosso próprio bem particular, mas estender-se em benefício de todos os servos de Deus, seja qual for a sua condição. Thomas Fuller.
Versículo 3Salmo 25:3
Sim, não sejam envergonhados os que esperam em ti. A saber, nem por suas próprias decepções, nem pela minha. A este último ponto, alguns acrescentam a razão de que, se ele viesse a falhar em suas esperanças, sabia que isso seria um grande desânimo para os outros. Arthur Jackson, M.A., 1593-1666.
Sejam envergonhados os que transgridem sem causa. Todos os que transgridem o fazem, em certo sentido, sem causa, já que não podem desculpar nem justificar sua conduta. Deus é tão amável e excelente em cada parte de seu grande nome, que merece nossa reverência e amor constantes. Sua lei é tão santa, justa e boa, e todos os seus preceitos, a respeito de todas as coisas, tão retos e calculados para nos fazer felizes, que a boca de todo transgressor deve ser calada. Por isso, todos nós devemos ser cobertos de vergonha, se tratados segundo o nosso merecimento, pois todos pecaram.
Mas, uma vez que Deus prometeu ser misericordioso para com aqueles que verdadeiramente se arrependem e creem sinceramente em seu santo evangelho, a vergonha será porção apenas daqueles que persistem voluntariamente em sua maldade e recusam voltar a Deus por meio de Jesus Cristo. Estes, pois, são os de quem o salmista fala como transgressores sem causa, e sem dúvida não têm desculpa para o seu pecado. William Richardson, 1825.
Sejam envergonhados os que transgridem sem causa. Que a vergonha seja enviada a seu verdadeiro dono, isto é, àqueles que agem com deslealdade, sem que eu os tenha provocado. E assim foi: Aitofel se enforcou; Absalão foi preso pela mão de Deus e despachado por Joabe; o povo que conspirou com ele, em parte pereceu pela espada, em parte fugiu para casa, muito envergonhado de sua empreitada. Ó, o poder da oração! O que não podem os santos obter, bastando pedir? John Trapp.
Versículo 4Salmo 25:4
Mostra-me os teus caminhos, ó SENHOR, etc. Há os "caminhos" dos homens e os "caminhos" de Deus; as "veredas" do pecado e as "veredas" da justiça: há "os teus caminhos" e há os meus caminhos; os teus, caminhos de verdade; os meus, caminhos de erro; os teus, que são bons aos teus olhos; os meus, que são bons aos meus próprios olhos; os teus, que levam ao céu; os meus, que levam ao inferno.
Por isso, mostra-me os teus caminhos, ó SENHOR; ensina-me as tuas veredas, para que eu não confunda meus próprios caminhos com os teus; sim, guia-me na verdade, e ensina-me, para que eu não me desvie dos teus caminhos para os meus. Mostra-me os teus caminhos, pelo ministério da tua palavra; ensina-me as tuas veredas, pela orientação do teu Espírito; "guia-me na tua verdade", pelo auxílio da tua graça. Robert Mossom.
Versículos 4–5Salmo 25:4-5
- Faça o que sabe, e Deus lhe ensinará o que fazer. Faça o que você sabe ser o seu dever presente, e Deus o instruirá quanto ao seu dever futuro, à medida que este se tornar presente. Faça questão de evitar as omissões conhecidas, e Deus o guardará das transgressões temidas. Esta regra é de grande importância, e por isso a fundamento em vocês com o texto expresso da Escritura.
"Mostra-me os teus caminhos, ó SENHOR" — isto é, aqueles caminhos em que não posso errar. "Ensina-me as tuas veredas" — isto é, aquela vereda estreita, tantas vezes desconhecida, aqueles mandamentos mais rigorosos e difíceis (versículo 5). "Guia-me na tua verdade, e ensina-me" — isto é, ensina-me com clareza, para que eu não seja enganado; ensina-me de tal modo que eu não apenas conheça a tua vontade, mas a cumpra.
Eis sua oração; mas que fundamento tem ele para esperar ser ouvido? "Porque tu és o Deus da minha salvação" — como quem diz: tu, Senhor, hás de salvar-me, e por isso não recuses ensinar-me. "Em ti espero todo o dia" — isto é, o dia inteiro, e todos os dias. Outros argumentos estão contidos nos versículos seguintes; mas qual é a resposta?
Versículo 9: "Ao manso, guiará em juízo, e ao manso ensinará o seu caminho" — isto é, aqueles que submetem o pescoço ao seu jugo, que não presumem poder guiar-se a si mesmos; nas questões necessárias, grandes e de peso, eles não errarão. Samuel Annesley, D.D. (1620-1696), em Morning Exercises at Cripplegate.
Versículo 5Salmo 25:5
Guia-me na tua verdade, e ensina-me. A alma que é insaciável na oração avança, aproxima-se de Deus, ganha algo, eleva o coração cada vez mais alto. Como uma criança que vê a mãe com uma maçã na mão, e deseja tê-la, vem e puxa a mão da mãe para consegui-la; a mãe então solta um dedo, mas ainda a segura; a criança puxa de novo; a mãe solta outro dedo, mas ainda a mantém; a criança puxa outra vez, e não deixa de puxar e chorar até tirá-la da mão da mãe.
Assim é o filho de Deus: vendo que todas as graças estão em Deus, ele se aproxima do trono da graça, suplicando por elas, e, por meio de orações fervorosas e fiéis, vai abrindo as mãos de Deus para si; pois Deus age como os pais para com os filhos, retendo-os por um tempo — não porque relute em dar, mas para torná-los mais fervorosos diante dele, e atraí-los para mais perto de si. William Fenner.
Em ti espero todo o dia. Devemos esperar todo o dia. 1. Ainda que seja um dia longo, ainda que sejamos mantidos esperando por muito tempo, muito além do que calculávamos; ainda que, tendo esperado longamente, sejamos postos a esperar ainda mais, e mandados, como o servo do profeta, a ir ainda sete vezes (1 Reis 18:43) antes de percebermos o menor sinal de que a misericórdia vem chegando...
Ainda que seja um dia escuro, esperemos ainda assim em Deus todo o dia. Embora, enquanto esperamos pelo que Deus fará, sejamos mantidos no escuro quanto ao que ele está fazendo, e quanto ao que é melhor que façamos, contentemo-nos em esperar na escuridão. Ainda que não vejamos os nossos sinais, ainda que ninguém nos diga por quanto tempo, resolvamo-nos a esperar, por mais longo que seja; pois, embora não saibamos agora o que Deus faz, saberemos depois, quando o mistério de Deus se consumar...
Ainda que seja um dia tempestuoso, devemos esperar em Deus todo o dia. Ainda que não apenas estejamos parados, sem avançar, mas que o vento seja contrário e nos empurre para trás; ainda que seja violento, e a igreja seja sacudida por tempestades, e esteja prestes a afundar, ainda assim devemos esperar o melhor, devemos esperar, e suportar a tempestade com paciência. É algum consolo que Cristo esteja no barco; a causa da igreja é a própria causa de Cristo, ele a desposou, e há de reconhecê-la como sua; ele está embarcado no mesmo casco que o seu povo — por que, então, haveríeis de temer?
Esperar em Deus é: 1. Viver uma vida de desejo voltada para Deus; esperar nele como o mendigo espera pelo seu benfeitor, com ardente desejo de receber dele o sustento, como os doentes e enfermos junto ao tanque de Betesda esperavam pela agitação da água, e aguardavam nos pórticos, desejosos de serem ajudados a entrar e serem curados...
É viver uma vida de deleite em Deus, como o amante espera pela amada. O desejo é o amor em movimento, como um pássaro em pleno voo; o deleite é o amor em repouso, como um pássaro no ninho. Ora, embora nosso desejo deva permanecer voltado para Deus, de modo que ansiemos sempre por mais dele, nosso deleite deve estar de tal forma nele, que jamais desejemos mais do que o próprio Deus...
É viver na dependência de Deus, como o filho espera pelo pai, em quem confia, e sobre quem lança todo o seu cuidado. Esperar em Deus é esperar que todo bem nos venha dele, como aquele que opera todo bem por nós e em nós, o doador de todo bem para conosco, e o protetor contra todo mal. Assim Davi se explica (Salmo 62:5): "Ó minha alma, espera somente em Deus", e continua a fazê-lo, "porque dele vem a minha esperança"...
É viver uma vida de devotamento a Deus, como o servo espera pelo seu senhor, pronto a observar sua vontade, a fazer sua obra, e em tudo consultar sua honra e seu interesse. Esperar em Deus é remeter-nos inteira e irrestritamente às suas sábias e santas direções e disposições, e a elas aquiescer e conformar-nos com alegria. O servo que espera pelo seu senhor não escolhe o próprio caminho, mas segue o seu senhor passo a passo.
Assim devemos esperar em Deus, como aqueles que não têm vontade própria senão a que está inteiramente resolvida na dele, e por isso devem procurar acomodar-se a ela. Resumido de Matthew Henry, sobre Communion with God.
Em ti espero todo o dia. Em ti, cuja mão generosa, cujo seio de amor, sim, cujas entranhas de misericórdia não apenas se abrem, mas se ampliam para todos os penitentes humildes. Em ti espero — espero para ouvir a voz secreta do teu Espírito, falando paz à minha consciência; espero para sentir o vigor revigorante da tua graça, avivando minha obediência; espero para ver o poder subjugador do Espírito Santo dominando meu pecado rebelde; espero para sentir a virtude reconfortante das tuas consolações celestiais, refrescando minha alma desfalecida. Por todas essas tuas bênçãos, ó Deus da minha salvação, em ti espero todo o dia.
"Todo o dia": nunca tão satisfeito com a tua bondade a ponto de não ansiar ainda mais avidamente pela tua plenitude celestial; por isso, agora, refresca os meus desfalecimentos, não apagues os meus anseios; mas, quanto mais livremente concederes, tanto mais avidamente eu deseje; quanto mais doce for a tua misericórdia, tanto mais ardentes sejam os meus anseios.
Que assim toda a minha vida na terra seja um contínuo respirar por aquela comunhão eterna contigo no céu; assim, assim, deixa-me esperar, por toda a minha vida, todo o dia. Robert Mossom.
Versículo 6Salmo 25:6
As tuas ternas misericórdias. Ó, como um abismo chama por outro abismo! As profundezas das minhas multiplicadas misérias clamam, clamam em alta voz, pela profundeza das tuas múltiplas misericórdias; aquela misericórdia pela qual perdoas o meu pecado e socorres as minhas fraquezas; aquela misericórdia pela qual me santificas por tua graça, e me consolas por teu Espírito; aquela misericórdia pela qual me livras do inferno, e me fazes possuidor do céu. Lembra-te, Senhor, de todas essas tuas misericórdias, tuas ternas misericórdias, que têm sido, desde a antiguidade, para com os teus santos. Robert Mossom.
As tuas ternas misericórdias e as tuas benignidades... têm sido desde a antiguidade. Que a antiguidade do amor divino eleve nossos corações a uma estima muito preciosa e honrosa por ele. Peças de antiguidade, ainda que de metal comum e de pouco uso ou valor, quão veneradas são pelos eruditos! E antigas cartas de privilégio, com que cuidado os homens as preservam, ainda que contenham apenas privilégios temporários, e por vezes de importância trivial!
Quanto mais, então, deveria a grande carta do céu, tão mais antiga que o próprio mundo, ser guardada em lembrança eterna, e seus pensamentos serem preciosíssimos para nós, acompanhando-nos ao deitar, ao levantar, e durante todo o dia!... O que é desde a eternidade há de ser até a eternidade; se a raiz é eterna, também o são os ramos...
O amor divino é uma fonte eterna, que nunca deixa de correr enquanto houver um vaso vazio, ou capaz de conter mais; e está aberta a todos os que vêm: vinde, pois; e, se não tiverdes o suficiente do vosso próprio, ide emprestar vasos, vasos vazios, e não poucos; "pagai as vossas dívidas com o que sobejar, e vivei do resto" (2 Reis 4:7), até a eternidade. Elisha Coles, em God's Sovereignty, 1678.
Versículo 7Salmo 25:7
Não te lembres dos pecados da minha mocidade, nem das minhas transgressões. Em primeiro lugar, considerando que ele não havia começado a pecar apenas recentemente, mas que por muito tempo vinha acumulando pecado sobre pecado, ele se curva, por assim dizer, sob o peso acumulado; e, em segundo lugar, insinua que, se Deus o tratasse segundo o rigor da lei, não somente os pecados de ontem, ou de poucos dias, viriam a julgamento contra ele, mas todos os casos em que ofendera, mesmo desde a sua infância, poderiam agora, com justiça, ser lançados à sua conta.
Assim, sempre que Deus nos aterroriza com seus juízos e com os sinais de sua ira, tragamos à memória não apenas os pecados que cometemos recentemente, mas também todas as transgressões de nossa vida passada, o que nos dará motivo para renovada vergonha e renovado pranto. João Calvino.
Não te lembres dos pecados da minha mocidade. Esta pode parecer uma oração supérflua de Davi; pois, por caridade, deve-se presumir que ele já havia, muito antes, suplicado perdão pelos pecados de sua juventude; que, ao suplicar, Deus lho concedera; e que, ao conceder, Deus jamais o revogara. Que necessidade tinha então Davi de apresentar esta petição pelo perdão de um pecado já antigo, cometido há muito tempo, e há muito tempo remitido por Deus? A esta objeção dou uma resposta em quatro partes.
Primeiro: embora Davi, sem dúvida, já tivesse se arrependido sinceramente dos pecados de sua juventude, ele sentia que, se Deus fosse rigoroso em notar o que fora malfeito, ainda que se tivesse arrependido daqueles pecados, teria pecado também naquele mesmo arrependimento.
Segundo: embora Deus tivesse perdoado os pecados de Davi a ponto de livrá-lo da condenação eterna, ele não lhe havia remitido as aflições temporais que, porventura, o pressionavam neste presente, e por isso ele ora, neste Salmo, pela remoção ou pelo alívio delas. Assim, o sentido de suas palavras seria este: não te lembres, Senhor, dos pecados da minha mocidade — isto é, Senhor, aliviai e diminuí as aflições que pesam sobre mim nesta minha velhice, justamente infligidas por causa dos meus pecados de juventude.
Terceiro: o perdão de Deus para pecados passados é sempre concedido sob a condição de que o perdoado se comprometa a um bom comportamento dali em diante; se ele o quebra, merece, no rigor da justiça, perder o benefício de seu perdão. Ora, Davi tornou a pecar depois, naquela grande transgressão com Bate-Seba e Urias, o que, no extremo da justiça, poderia ter feito com que todos os seus pecados de juventude fossem punidos de novo sobre ele.
Por fim, ainda que se conceda que Davi estivesse certamente seguro do perdão dos pecados de sua juventude, os servos de Deus podem orar pelas bênçãos que já possuem — não para obtê-las, o que seria desnecessário, mas para conservá-las, o que é necessário. Sim, Deus se agrada de tais orações de seus santos, e as interpreta como louvores a ele; e então estas palavras, não te lembres dos pecados da minha mocidade, equivalem a isto: bendita seja a tua graciosa bondade, que me perdoaste os pecados da minha mocidade. Thomas Fuller.
Não te lembres dos pecados da minha mocidade. Davi, depois de ter sido chamado pelo poder da palavra, clama: "Senhor, não te lembres..." etc., pois os pecados de sua juventude, antes do seu chamado, atormentavam e feriam sua consciência. Ó amados, os pecados da vossa juventude, ainda que fôsseis tão convertidos quanto Jó, ainda assim trarão grande inquietação e grande horror quando chegardes à velhice. As luxúrias da juventude, as vaidades da juventude, e os prazeres sensuais dos vossos dias de mocidade lançarão um fundamento de tristeza quando chegardes aos cabelos brancos, perto de vossas sepulturas. Assim, Jó 20:11. Christopher Love, 1654.
Não te lembres dos pecados da minha mocidade; que eles não te movam a punir-me, nem a vingar-te de mim por causa deles; assim como os homens, quando se lembram das injúrias sofridas, buscam vingar-se daqueles que as cometeram. William Greenhill.
Não te lembres dos pecados da minha mocidade. Não é seguro estar em desacordo com o "Ancião de Dias". John Trapp.
Os pecados da minha mocidade. Antes de chegarmos ao ponto principal, precisamos primeiro livrar o texto do embaraço de uma dupla objeção. A primeira é esta: pode parecer (dirão alguns) muito improvável que Davi tivesse quaisquer pecados de juventude, se considerarmos as circunstâncias em que passou sua mocidade.
A primeira foi a pobreza. Lemos que seu pai, Jessé, era tido por homem idoso, mas não lemos que fosse tido por homem rico; e provavelmente seus sete filhos eram a maior parte de sua riqueza. Segunda, a labuta. Davi, ainda que o caçula, não foi feito querido, mas sim serviçal; enviado por seu pai a apascentar as ovelhas prenhes, onde parece ter aprendido a inocência e a simplicidade do próprio rebanho que guardava. Terceira, a piedade (Salmo 71:5): "Porque tu és a minha esperança, Senhor Deus; tu és a minha confiança desde a minha mocidade." E, de novo, no versículo dezessete do mesmo Salmo: "Ó Deus, tu me ensinaste desde a minha mocidade." Davi começou cedo a ser bom, um jovem santo, contrariando aquele provérbio funesto — não se tornou um velho demônio. E, mais ainda, esteve constantemente na fornalha da aflição (Salmo 88:15): "Desde a minha mocidade tenho sofrido os teus terrores, com a mente perturbada."
A pergunta então será: como pôde aquela água corromper-se, se era clarificada todos os dias? Como pôde aquele aço enferrujar, se era regularmente limado? Como pôde a alma de Davi, em sua juventude, enegrecer-se de pecado, se era constantemente polida pelo sofrimento?
Mas a resposta é simples: pois, embora Davi fosse, no essencial, um homem segundo o coração de Deus (a melhor cópia do melhor original), ele teve, especialmente em sua juventude, suas falhas e fraquezas, sim, seus pecados e transgressões. Ainda que a Escritura não mencione nenhum pecado eminente em sua juventude — sendo o caso de Bate-Seba justamente atribuído à sua idade mais madura e avançada. Não concluirei que Davi fosse de temperamento libertino por causa de sua compleição corada. É uma inferência tão injuriosa concluir que todos os belos são maus, quanto é uma conclusão falsa e lisonjeira dizer que todos os deformados são honestos. Antes, podemos deduzir a mocidade licenciosa de Davi pelo fato de ter tido tantas mulheres e concubinas.
Mas o que pretendo fazer? Não esperem que eu lhes conte os pecados particulares, quando ele mesmo não sabia contar os seus. Salmo 19: "Quem pode entender os seus erros?" Ou como poderiam os pecados de Davi ser conhecidos por mim, se ele mesmo confessa que lhe eram desconhecidos, o que o levou a dizer: "Senhor, purifica-me dos pecados ocultos"? Mas, para silenciar nossa curiosidade, e deixar que fale nossa consciência: se a juventude de Davi, que foi pobre, laboriosa e piedosa, foi culpada de pecados, que diremos daqueles cuja criação foi rica, licenciosa e ímpia? E deixo o resto para ser tratado com vergonha, tristeza e silêncio na consciência de cada homem. Thomas Fuller.
Os pecados da minha mocidade. Dois discípulos idosos, um deles com oitenta e sete anos, se encontraram certo dia. "Pois bem", perguntou o mais jovem ao seu companheiro de peregrinação, "há quanto tempo você se interessa pela religião?" "Cinquenta anos", respondeu o velho. "E então, alguma vez já se arrependeu de ter começado, ainda jovem, a se devotar à religião?" "Ah, não!", disse ele, e as lágrimas escorreram por suas faces enrugadas; "eu choro quando penso nos pecados da minha mocidade; é isso que me faz chorar agora." De K. Arvine, Cyclopaedia of Moral and Religious Anecdotes, 1859.
Segundo a TUA misericórdia, não a minha; pois abandonei aquelas misericórdias que fizeste minhas (Jonas 2:8; Salmo 59:10,17), sendo cruel comigo mesmo pelo meu pecado, pela desconfiança da tua promessa, e pela presunção em tua misericórdia. Sim, seja, pelo bem da TUA bondade, não da minha, pois em mim, isto é, em minha carne, não habita coisa boa alguma. Que a tua bondade, então, seja o motivo, e a tua misericórdia a regra de toda essa graça, e de todas as bênçãos que concedes à minha alma. Robert Mossom.
Segundo a tua misericórdia. Moisés foi o primeiro a trazer esta feliz expressão, "segundo a tua misericórdia" (não sei onde mais seja usada por outro homem), isto é, segundo a infinita misericórdia que há em teu coração e em tua natureza. Davi foi o próximo a usá-la (Salmo 25), e no grande caso de seu pecado e adultério (Salmo 51:1), pedindo "que ele tivesse misericórdia dele, segundo a multidão de suas misericórdias." E, assim como necessitava de todas as misericórdias em Deus, confessou o pecado de sua natureza, e recorreu às misericórdias na natureza de Deus.
Mas é em Salmo 25:7 que me detenho; ali ele não se contenta apenas com a expressão "segundo a tua misericórdia", mas acrescenta outra frase: "por amor da tua misericórdia", e "por causa da tua bondade". Muis observa, nessa mesma coerência, que "bom e reto é o SENHOR" (Salmo 25:8), centra-se em sua natureza. Tu tens uma natureza misericordiosa; trata-me segundo ela, e por causa dela — "segundo a tua misericórdia", "por causa da tua bondade". A mediação desse atributo foi o fundamento de sua fé e de sua oração aqui.
Quando termina, ele se remete a Moisés: Salmo 25:11, "por amor do teu nome, ó SENHOR, perdoa a minha iniquidade, pois é grande." Ele se refere àquele nome proclamado diante de Moisés (Êxodo 34:6,7).
Mas dirás: como podem essas expressões — "por amor do teu nome", "por causa da tua bondade", "por amor da tua misericórdia" — significar o mesmo que "por si mesmo", "por sua própria causa"? Como envolvem elas a própria Divindade? Olha para Isaías 43:25: "Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim mesmo" — isto é, por mim mesmo. Isaías 48:11: "Por amor de mim, por amor de mim mesmo, o farei." Tens isso duas vezes num só versículo; e o que num lugar é "por amor da misericórdia", em outro é "por amor de mim mesmo" — "e eis que sou eu, eu sou aquele que, como Deus, o faz." Que é isto, senão Jeová, Jeová, Deus misericordioso? Thomas Goodwin.
Versículo 8Salmo 25:8
Bom e reto é o Senhor; por isso ensinará o caminho aos pecadores. Assim como a eleição é efeito da soberania de Deus, o nosso perdão é fruto da sua misericórdia, o nosso conhecimento uma corrente da sua sabedoria, a nossa força uma marca do seu poder, assim a nossa pureza é um raio da sua santidade. Assim como a retidão da criatura na primeira criação foi efeito da sua santidade, também a pureza da criatura pela nova criação é um sorvo dessa mesma perfeição. Ele é chamado o Santo de Israel mais vezes em Isaías — esse profeta evangélico —, ao erguer Sião e formar para si um povo, do que em todo o restante das Escrituras.
— Stephen Charnock.
Bom e reto é o Senhor; por isso ensinará o caminho aos pecadores. Não será o Senhor, que é bom, tão gracioso para com os seus inimigos quanto exige que sejamos para com os nossos? É a sua própria lei: "Se encontrares o boi do teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, sem falta lho tornarás a levar." Êxodo 23:4.
Ora, Deus nos encontra a nós, pecadores, e todos os pecadores como tais são seus inimigos; ele nos encontra desgarrados como o animal sem entendimento; e então? Não nos trará ele de volta a si mesmo, o único proprietário, pelo primeiro direito da criação e pelo direito ainda mais firme da redenção?
— Robert Mossom.
Versículo 9Salmo 25:9
Os mansos guiará ele em juízo; ou os pobres (a saber, em espírito) ele fará andar em juízo, pisar certo, caminhar com prudência, portar-se sabiamente, como fez Davi (1 Samuel 24:1-22), de modo que Saul o temeu. A consciência natural não pode deixar de curvar-se diante da imagem de Deus, que resplandece nos corações e na vida dos verdadeiramente religiosos.
— John Trapp.
Os mansos guiará ele em juízo. Foram feitos mansos, isto é, desejosos de ser ensinados, e orando para que assim seja; mas, sentindo agora a sua indignidade, temem que Deus não os ensine. Isso pode acontecer a outros pecadores, mas não a eles. Por isso lhes é dito quem pode esperar ser ensinado: justamente aqueles que desejam e pedem em oração ser ensinados.
— John Berridge, 1716-1793.
Ele guiará os pobres em juízo. Nunca se achará essa docilidade em homem algum, enquanto o coração — naturalmente exaltado e cheio de orgulho — não for humilhado e subjugado. Como a palavra hebraica denota o pobre ou o aflito, e é empregada em sentido metafórico para designar o manso e humilde, é provável que Davi, sob este termo, inclua tanto as aflições que servem para refrear e domar a rebeldia da carne quanto a própria graça da humildade. É como se dissesse: quando Deus primeiro os humilha, então estende bondosamente a mão para eles, e os conduz e guia por todo o curso da sua vida. — John Calvin.
Os mansos, etc. Orgulho e ira não têm lugar na escola de Cristo. O próprio Mestre é "manso e humilde de coração"; muito mais, certamente, devem sê-lo os discípulos. Quem não tem consciência da própria ignorância não pode ter desejo nem capacidade de conhecimento, seja humano, seja divino.
— George Horne.
O Senhor ensinará os seus segredos aos humildes; não ensinará discípulos orgulhosos.
— Thomas Goodwin.
Tais como os que se prostram a seus pés e dizem: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve"; tais cujos corações são flexíveis e dóceis, tratáveis e ensináveis, de modo que uma criancinha os pode conduzir. Isaías 11:6.
Agostinho foi um destes. Diz ele: "Aqui estou eu, um velho, pronto a aprender com um jovem, meu coadjutor no ministério, que mal leva um ano de serviço."
— John Trapp.
Versículo 10Salmo 25:10
Todos os caminhos do Senhor — a palavra hebraica ארחות (orchoth) significa as trilhas ou sulcos feitos pelas rodas dos carros ao passarem repetidas vezes sobre o mesmo terreno. Misericórdia e verdade são os caminhos em que Deus constantemente anda para com os filhos dos homens; e ele lhes mostra misericórdia, e cumpre a sua verdade, com tanta frequência, que os seus caminhos são facilmente reconhecíveis.
Quão frequentes, quão profundamente marcadas, e quão multiplicadas são essas trilhas sobre cada família e cada indivíduo! Para onde quer que vamos, vemos que a misericórdia e a verdade de Deus ali estiveram, pelas marcas profundas que deixaram atrás de si. Mas ele é ainda mais misericordioso para com os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos; isto é, para com os que se conformam não só à letra, mas ao espírito da sua religião pura.
— Adam Clarke.
Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade. Assim como a sua natureza é amor e verdade, também todos os seus caminhos são misericórdia e verdade. São "misericórdia" quanto a visarem o nosso bem, e "verdade" quanto ao cumprimento das suas promessas e à sua fidelidade para conosco; portanto, seja o que for que te aconteça, ainda que seja totalmente contrário ao que esperavas, interpreta-o com amor.
Muitas ações dos homens são de tal natureza que não se lhes pode dar boa interpretação, nem fazer delas boa leitura; por isso os intérpretes restringem aquele dito do amor de que "tudo crê", etc.; isto é, credibilia, tudo o que é crível — pois pôr tudo por conta da caridade acabaria por destruir a própria caridade.
Mas nenhum dos caminhos de Deus é assim; deles o amor e a fé sempre podem extrair um bom sentido. A bono Deo nil nisi bonum — de um Deus bom não vem senão o que é bom; por isso diz Jó: "Ainda que ele me mate, nele confiarei." Procura descobrir algum bom propósito seu no presente; e, se nenhum se apresentar à tua conjectura, resolve-o pela fé, e tira dele o melhor proveito.
— Thomas Goodwin.
Aos que guardam, etc.: para estes, ele nunca se afasta do caminho da misericórdia.
— Thomas Goodwin.
Versículo 11Salmo 25:11
Por amor do teu nome, ó Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande. Não posso fazer melhor do que citar uma daquelas belas passagens do grande Vieyra, que lhe deram a fama de primeiro pregador do seu tempo: "Confesso, meu Deus, que assim é; que somos todos pecadores no mais alto grau." Ele prega num jejum, por ocasião da ameaça de destruição do domínio português no Brasil pelos holandeses.
Mas longe de considerar isso motivo para cessar a minha súplica, vejo nisso um argumento novo e convincente, capaz de influenciar a tua bondade. Tudo quanto disse antes se apoia unicamente na glória e na honra do teu santíssimo Nome. Propter nomen tuum (por causa do teu nome). E que motivo mais glorioso posso oferecer a esse mesmo Nome, senão que os nossos pecados são muitos e grandes?
Por amor do teu nome, ó Senhor, tem misericórdia do meu pecado, pois é grande. Peço-te, diz Davi, que perdoes não os pecados de cada dia, mas pecados numerosos, mas pecados grandes: multum est enim (pois é grande). Ó motivo digno do peito de Deus! Ó consequência que só tem força quando se apoia na bondade suprema!
De modo que, para obter a remissão dos seus pecados, o pecador alega a Deus que eles são muitos e grandes. Assim é, na verdade; e isso não por amor do pecador, nem por amor do pecado, mas por amor da honra e da glória de Deus; glória essa que, quanto maiores e mais numerosos forem os pecados que ele perdoa, tanto mais se enobrece e se exalta.
O mesmo Davi distingue, na misericórdia de Deus, grandeza e multidão: grandeza, secundum magnam misericordiam tuam (segundo a tua grande misericórdia); multidão, et secundum multitudinem miserationum tuarum (e segundo a multidão das tuas compaixões). E, como a grandeza da misericórdia divina é imensa, e a multidão das suas benignidades é infinita, e como o imenso não se pode medir, nem o infinito se pode contar, para que uma e outra tenham, de certo modo, uma matéria proporcional de glória, é necessário que os pecados a perdoar sejam grandes, para corresponder à própria grandeza da misericórdia, e que sejam muitos, para corresponder à própria multidão das benignidades. Multum est enim.
Razão tenho, pois, ó Senhor, para não me perturbar por serem os nossos pecados muitos e grandes. Razão tenho também para te pedir conta de por que não te apressas em perdoá-los?
— Vieyra, citado por J. M. Neale.
Por amor do teu nome, ó Senhor, perdoa a minha iniquidade. É noção corriqueira entender por "nome" honra e glória. Quando Deus diz a Davi: "Fiz-te um nome como o nome dos grandes que há na terra"; quando a igreja diz a Deus: "Tu adquiriste para ti um nome, como se vê hoje"; é evidente que por "nome" se entende glória. Condiz com isso o fato de os hebreus chamarem os homens famosos אנשי השם (anshei hashem, homens de nome), Gênesis 6:4, e os latinos, viri nominum, homens de nome, título que o poeta adorna com estes epítetos: Magnum et memorabile nomen — grande e memorável nome.
Assim, quando Deus perdoa o pecado, fá-lo por amor do seu nome, isto é, por amor da sua própria honra e glória. Na verdade, a própria glória de Deus é o fim último de todos os seus atos. Assim como ele é o primeiro, também é o último, a causa eficiente e a causa final; e nada há feito por ele que não seja para ele. O fim das nossas ações deve estar na glória dele, porque tanto o nosso ser quanto o nosso agir vêm dele; mas o fim da obra dele é a sua própria glória, porque o seu ser e o seu agir vêm dele mesmo e são dele mesmo.
Entre todas as obras divinas, nenhuma manifesta mais a sua glória do que esta, a da remissão. O pecado, ao ser cometido, traz a Deus grande desonra; e, no entanto, ao ser perdoado, Deus adquire para si grande honra. "É glória do homem" — e muito mais de Deus — "passar por cima de uma ofensa"; assim como os atos de poder, também os atos de graça são sobremaneira honrosos. Os atributos da graça, misericórdia, bondade e clemência de Deus não resplandecem em nada tanto quanto no perdão dos pecados.
Paulo fala das riquezas de bondade que acompanham a paciência de Deus; quanto maiores não devem ser as riquezas do perdão? E mais: Deus ordenou de tal modo o caminho do perdão, que nele reluz não só a glória da sua misericórdia, mas também a da sua justiça, e até a da sua sabedoria, na maravilhosa combinação de ambas. Nomen quasi notamen, quia notificat — o nome é aquilo que torna conhecido; e, pela remissão dos pecados, Deus dá a conhecer os seus atributos escolhidos e gloriosos; e é para este fim que ele a concede.
É uma consideração que pode ser o nosso consolo. Visto que Deus perdoa os pecados por amor do seu nome, ele estará tão disposto a perdoar muitos pecados quanto poucos, grandes quanto pequenos; de fato, quanto maiores e mais numerosos forem os nossos pecados, tanto maior será o perdão e, por consequência, tanto maior será a glória de Deus. Por isso Davi, considerando o nome e a glória de Deus, faz da grandeza da sua iniquidade um motivo para o perdão.
Na verdade, lançar-se a pecados graves para que Deus se glorifique ao perdoá-los é uma presunção odiosa; mas esperar que esses pecados graves em que caímos possam, e serão, perdoados por Deus a nós, sendo verdadeiramente arrependidos, por amor do seu nome, é uma expectativa bem fundada, capaz de sustentar o nosso ânimo contra as mais fortes tentações ao desespero.
— Nathanael Hardy.
Perdoa a minha iniquidade, pois é grande. Ele alega a grandeza do seu pecado, e não a sua pequenez: reforça a sua oração com esta consideração, que os seus pecados são muito hediondos. Mas como poderia fazer disso um argumento para o perdão? Respondo: porque quanto maior era a sua iniquidade, tanto mais necessidade tinha do perdão. É como se dissesse: Perdoa a minha iniquidade, pois é tão grande que não posso suportar o castigo; o meu pecado é tão grande que estou em necessidade extrema de perdão; a minha situação será extremamente miserável, a menos que te agrades de me perdoar.
Ele se vale da grandeza do seu pecado para reforçar o seu pedido de perdão, assim como um homem se valeria da grandeza da sua calamidade para pedir socorro. Quando um mendigo pede pão, alega a grandeza da sua pobreza e necessidade. Quando um homem em aflição clama por piedade, que argumento mais adequado pode invocar do que o extremo da sua situação? E Deus admite um argumento como este: pois nada em nós o move à misericórdia, senão a miséria da nossa situação. Ele não tem piedade dos pecadores porque são dignos, mas porque precisam da sua piedade.
Nisto consiste em grande parte a glória da graça pela redenção de Cristo: na sua suficiência para perdoar os maiores pecadores. Todo o desígnio do caminho da salvação existe para este fim, glorificar a graça gratuita de Deus. Deus trazia no coração, desde toda a eternidade, glorificar este atributo; e foi por isso que se concebeu o plano de salvar pecadores por meio de Cristo. A grandeza da graça divina aparece sobretudo nisto: que Deus, por Cristo, salva os maiores ofensores.
Quanto maior for a culpa de um pecador, tanto mais gloriosa e maravilhosa é a graça manifesta no seu perdão. Romanos 5:20: "Onde o pecado abundou, superabundou a graça." O apóstolo, ao contar quão grande pecador havia sido, nota a abundância da graça no seu perdão, do qual a sua grande culpa foi a ocasião. 1 Timóteo 1:13-14: "Eu, que antes era blasfemo, e perseguidor, e ultrajador; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. Mas a graça de nosso Senhor superabundou, com fé e amor que há em Cristo Jesus."
O Redentor é glorificado em provar-se suficiente para redimir os que são extremamente pecadores, em provar-se o seu sangue suficiente para lavar a maior culpa, em ser capaz de salvar os homens até o extremo, e em redimir até da maior miséria. É honra de Cristo salvar os maiores pecadores quando a ele acorrem, assim como é honra de um médico curar as doenças ou feridas mais desesperadas.
Portanto, sem dúvida, Cristo estará disposto a salvar os maiores pecadores, se a ele acorrerem; pois não hesitará em glorificar-se a si mesmo, e em enaltecer o valor e a virtude do seu próprio sangue. Vendo que assim se entregou para redimir pecadores, não relutará em mostrar que é capaz de redimir até o extremo.
— Jonathan Edwards.
Perdoa a minha iniquidade, pois é grande. Há algum homem que seja miserável? São grandes as suas misérias? São elas espirituais, são temporais? Sem dúvida, se ele se humilha ao senti-las, e se vê indigno de qualquer misericórdia, ainda assim pode estar certo de alcançar misericórdia.
Ainda que haja males espirituais, se um homem se vê miserável e desventurado, quanto mais pesada lhe parecer a sua iniquidade, tanto maior é a esperança de misericórdia para ele: a misericórdia do Senhor está sobre todas as suas obras, por isso ele é muito mais misericordioso para com tais homens. Se alguém tem o sentimento das suas misérias e da sua indignidade, pode usar este argumento para pedir misericórdia — as minhas misérias são grandes —, tal como fez Davi: "Ó Senhor, tem misericórdia de mim, e perdoa a minha iniquidade, pois é grande."
E quanto mais miseráveis os homens se sentem, tanto mais aptos se tornam a receber a misericórdia de Deus. Assim foi com o publicano, e assim foi com o filho pródigo; portanto, nunca duvides — por maiores que sejam as tuas iniquidades — de que há em Deus um mar de misericórdia.
Bernard observa bem a diferença entre justiça e misericórdia: a justiça exige que haja mérito, mas a misericórdia volta os olhos para os que são miseráveis; e, diz o padre, a verdadeira misericórdia se comove com a miséria; a misericórdia não se detém em inquérito, mas se alegra em encontrar ocasião de exercer-se.
— Richard Stock.
A minha iniquidade... é grande. Os que vêm a Deus para ter os seus pecados perdoados encaram-nos como grandes pecados. "Perdoa a minha iniquidade, pois é grande." A palavra original tanto significa "muitos" quanto "grandes" — "os meus pecados são grandes e muitos", muitos pecados grandes pesam sobre mim; perdoa, oh, perdoa-os, ó Senhor, etc.
Ao abrir este ponto, mostrarei por que os que vêm pelo caminho certo em busca de perdão encaram os seus pecados como grandes pecados.
Os pecadores que vêm a Deus em busca de perdão, e o encontram, encaram os seus pecados como grandes pecados, porque são cometidos contra um Deus grande — grande em poder, grande em justiça, grande em santidade. Eu sou um verme, e ainda assim peco, e peco ousadamente contra um Deus tão grande; um verme erguer-se contra um Deus grande e infinito! Oh, isso faz de todo pecado pequeno um grande pecado, e clama por grande vingança da parte de um Deus tão grande.
Porque pecaram contra grande paciência, desprezando a bondade, a tolerância e a longanimidade de Deus, o que se chama "entesourar ira". Romanos 2:4-5...
Os pecados parecem grandes porque são cometidos contra grandes misericórdias. Oh, contra quantas misericórdias e bondades pecam os pecadores, transformando todas as misericórdias de Deus em pecado!...
O que aumenta o pecado aos olhos dos pobres pecadores que clamam por perdão é terem pecado contra grande luz — luz na consciência; isso agrava sobremaneira o pecado, especialmente para os que estão sob os meios do evangelho; e é, de fato, o pecado de todos nesta nação. Nada abate mais uma alma do que isso, nada torna mais difícil crer no perdão, quando humilhada por causa dele...
A permanência no pecado aumenta muito o pecado para uma pobre alma que busca o perdão, especialmente para os que não se converteram muito cedo. Salmo 68:21. "Oh, acrescentei pecado a pecado", diz uma pobre alma, "gastando o melhor tempo da minha juventude no pecado, quando poderia estar adquirindo o conhecimento de Jesus Cristo e honrando a Deus."
Isto pesava profundamente no espírito de Davi, como se vê no versículo sétimo: "Ah, não te lembres dos pecados da minha mocidade." No entanto, não encontramos que a juventude de Davi tenha sido notoriamente pecaminosa; mas, visto que ele não empregou a sua juventude em adquirir conhecimento e em servir plenamente ao Senhor, isso lhe pesava como fardo e queixa diante do Senhor.
Quanto mais, então, para aqueles cuja juventude se gastou em nada além de vaidade, profanidade, mentira, blasfêmia, profanação do sábado, jogos, diversões, excesso de libertinagem e coisas semelhantes — quando Deus grava isso nas suas consciências, deve ser penoso e abominável para as suas almas...
Multidões de pecados fazem o pecado parecer grande; foi isso que levou Davi a clamar por "multidão de misericórdias". Salmo 51:1-19 e Salmo 40:12...
Outra coisa que aumenta o pecado é ter sido cometido contra propósitos e resoluções de abandonar tais e tais pecados; e, no entanto, tudo quebrado, às vezes contra votos solenes, contra orações...
O pecado parece grande quando visto por uma pobre alma, porque foi pecado reinante. Romanos 5:21. "O pecado reinou para a morte", etc. Oh, diz um pobre pecador humilhado, eu não apenas cometi pecado, mas fui servo e escravo do pecado...
O pecado na fonte o torna grande. Pode-se dizer que há mais água na fonte do que nos poços e correntes que ela forma... Assim também na natureza, no coração, há, como na fonte, mais do que nas manifestações exteriores dele no homem visível...
Um pecador que se aproxima de Deus em busca de perdão vê o seu pecado como grande, porque por ele foi levado cativo pelo diabo, à vontade deste...
O pecado parece grande porque grande é a ira de Deus contra o pecado. Romanos 2:12. O modo como qualquer pecador é livrado dessa ira mostra que o pecado é extremamente grande, pelo preço e resgate pagos para a salvação dele dos seus pecados — o preço do sangue do Filho eterno de Deus...
Por fim, esta consideração também aumenta o pecado: quando um pobre ser atraiu e tentou outros a pecar com ele, especialmente aqueles que viveram de modo mais vão e dissoluto; e isso pesa muito sobre muitas pobres almas depois de uma convicção profunda.
— Anthony Palmer (—1678), em The Gospel New Creature.
Não alego, Senhor, os meus méritos, eu que sou menor que o menor das tuas misericórdias; e assim como não olho para o meu mérito, também tu não olhes para o meu demérito; assim como não considero a minha dignidade, também tu não consideres a minha indignidade; mas tu, que és chamado o Deus de misericórdia, sê para mim o que és chamado; confirma a glória do teu próprio nome sendo misericordioso para com o meu pecado — do qual não posso dizer, como Ló disse de Zoar, "Não é ele pequeno?"
Não, é grande, pois é cometido contra ti, um Deus tão grande e tão bom para comigo; grande, porque o meu lugar, o meu chamado, o meu cargo são grandes. O sol, quanto mais alto está, menor parece; mas os meus pecados, quanto mais alto estou, maiores se tornam, até aos teus olhos e aos olhos dos outros.
— Robert Mossom.
Alegamos a grandeza dos nossos pecados não para nos afastar da misericórdia, mas para obtê-la: "Perdoa a minha iniquidade" — por quê? "Pois é grande." "Sara a minha alma, porque pequei contra ti", Salmo 41:4. "Faze-o por amor do teu nome; pois as nossas rebeldias são muitas, pecamos contra ti", Jeremias 14:7.
Este é um argumento poderoso, quando sinceramente invocado por um espírito humilde e contrito. Ele glorifica a Deus como aquele que é abundante em bondade, rico em misericórdia, e em quem há perdões e redenção copiosa; e honra a Cristo como infinito em misericórdia.
Por isso também o próprio Senhor, quando quer despertar-se a atos escolhidos de misericórdia para com o seu pobre povo, primeiro agrava ao máximo o pecado deles contra ele, e depois manifesta o seu ato régio de graça para com eles. Assim em Isaías 43:22-25: "Tu não me invocaste, ó Jacó; antes te cansaste de mim, ó Israel; não me honraste com os teus sacrifícios, mas me cansaste com as tuas iniquidades. Eu, eu mesmo, sou aquele que apago as tuas transgressões por amor de mim, e não me lembrarei dos teus pecados."
— Thomas Cobbet, 1608-1686.
"Ah", diz Faraó, "tirai estas rãs imundas, este trovão pavoroso!" Mas o que diz o santo Davi? "Senhor, tira a iniquidade do teu servo!" Um queria livrar-se do castigo, o efeito do pecado; o outro, do pecado, a causa do castigo. E é bem verdade que um verdadeiro cristão se perturba mais com o pecado do que com rãs e trovões; ele vê mais imundície no pecado do que em rãs e sapos, mais horror nele do que no trovão e no relâmpago.
— Jeremiah Dyke, Worthy Communicant, 1645.
Faraó lamentava mais os golpes duros que caíam sobre ele do que o coração duro que havia dentro dele. Esaú não chorou por ter vendido o direito de primogenitura, que foi o seu pecado, mas por ter perdido a bênção, que foi o seu castigo. Isso é como chorar com uma cebola; o olho verte lágrimas porque arde.
Um marinheiro lança ao mar, numa tempestade, a carga cujo retorno ele deseja quando os ventos se acalmam. Muitos se queixam mais das dores com que nasceram do que dos pecados com que nasceram; tremem mais diante da vingança do pecado do que diante do veneno do pecado; um os encanta, o outro os assusta.
— William Secker.
Versículo 12Salmo 25:12
Que homem é aquele que teme ao Senhor? Bem-aventurado será ele — 1. No sagrado conhecimento da vontade de Cristo: "a ele ensinará o caminho que deve escolher." 2. Bem-aventurado será na quieta paz de uma boa consciência: "a sua alma habitará em bem-estar." 3. Bem-aventurado será no presente conforto de uma descendência esperançosa: "a sua semente herdará a terra." Robert Mossom.
Que homem é aquele que teme ao Senhor? Nada é tão eficaz para obter a graça, para reter a graça, como estar sempre diante de Deus não com sabedoria própria, mas com temor. Feliz de ti, se o teu coração estiver repleto de três temores: um temor pela graça recebida, um temor maior pela graça perdida, e o maior temor de todos para recuperar a graça. Bernardo.
Aquele que teme ao Senhor. O temor presente gera a segurança eterna: temam a Deus, que está acima de tudo, e não haverá necessidade de temer o homem em nada. Agostinho.
A ele ensinará o caminho que deve escolher, isto é, que o homem de bem venha a preferir. Deus o dirigirá em todos os seus tratos para que faça uma boa escolha, e lhe dará bom êxito. Isso não está no poder do próprio homem fazer. Jeremias 10:23. John Trapp.
Versículo 13Salmo 25:13
A sua alma habitará em bem-estar; e a sua semente herdará a terra. O santo temor de Deus destrói todos os temores pecaminosos dos homens, assim como a serpente de Moisés devorou todas as serpentes dos magos. O temor de Deus tem este bom efeito: faz com que as demais coisas deixem de ser temidas. Assim, a alma daquele que teme ao Senhor habita, tanto em descanso quanto em bondade, tanto em paz quanto em paciência, até que este momento do tempo seja tragado na plenitude da eternidade, e ele troque a sua morada terrena por uma mansão celestial, e a sua paz espiritual por uma bem-aventurança eterna e sem fim. Robert Mossom.
A sua alma habitará em bem-estar. Permanecerá em meio ao bem, como está na Vulgata. Diferente da alma de Adão, que, posta na posse das delícias do paraíso, ali permaneceu apenas por alguns dias ou horas. Gerhohus, citado por J. M. Neale.
A sua alma habitará em bem-estar. Ele expressa com grande doçura a deleitação espiritual quando diz: "a sua alma permanecerá em meio ao bem." Pois tudo o que é carnalmente doce produz, sem dúvida, uma deleitação por algum tempo para os que dele desfrutam, mas não pode permanecer muito com eles; porque, enquanto pelo seu sabor desperta o apetite, pela sua passagem engana o desejo. Mas os deleites espirituais, que não passam ao serem provados, nem diminuem ao refrescarem, nem enfastiam ao saciarem, podem permanecer para sempre com quem os possui. Hugo Vitorino (1130), citado por J. M. Neale.
No recebimento dos dons de Deus, eles não os devoram sem sentir a sua doçura, mas de fato os saboreiam, de modo que a menor porção lhes basta mais para satisfazê-los do que a maior abundância basta para satisfazer os ímpios. Assim, na medida em que cada homem se contenta com a sua condição, e alegremente cultiva um espírito de paciência e tranquilidade, diz-se que a sua alma habita no bem. João Calvino.
"A terra", ou a região, a saber, Canaã; que foi prometida e dada como penhor de toda a aliança da graça, e de todas as suas promessas, sendo, portanto, posta por sinédoque em lugar de todas elas. O sentido é: a sua semente será abençoada. Matthew Poole.
Versículo 14Salmo 25:14
O segredo do Senhor é com os que o temem, etc. É o justo que é amigo de Deus; é a ele que Deus se une em amorosa intimidade; é a ele que Deus revela o seu segredo, dizendo-lhe qual miséria e quais tormentos reservou para os que florescem neste mundo pela iniquidade. E, de fato, o Senhor não odeia mais o ímpio do que ama o piedoso: se ele se mantém longe do perverso, por ser este uma abominação para ele, o seu próprio segredo estará com o justo, como com o seu mais querido amigo.
É uma honra para aquele a quem um segredo é confiado por outro; uma honra maior para aquele a quem o rei confia o seu próprio segredo; mas quão honrado é aquele a quem Deus confiou o seu segredo? Pois onde está o segredo de Deus, ali está o seu coração, e ali está ele mesmo.
Assim foi o seu segredo com São João, de quem São Bernardo diz, a propósito do início do seu evangelho: "Não te parece que ele mergulhou nas entranhas do Verbo divino e, dos segredos do seu peito, extraiu a sagrada essência da sabedoria oculta?" Assim foi o seu segredo com São Paulo, que diz: "Falamos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria oculta, que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu" (1 Coríntios 2:7-8).
São Gregório lê, no lugar de "o segredo de Deus", como faz a Vulgata Latina, sermocinatio Dei — a comunicação de Deus está com o justo; mas acrescenta: Dei sermocinari est per illustrationem suae praesentiae humanis mentibus arcana revelare (a comunicação de Deus consiste em, pela iluminação da sua presença, revelar segredos às mentes dos homens).
Mas consideremos as palavras de modo um pouco mais geral. Não há menos um segredo da piedade do que há de qualquer outro ofício ou profissão. Muitos professam uma arte ou um ofício, mas não prosperam nele, porque não têm o seu segredo e mistério; e muitos professam a piedade, mas pouco se beneficiam dela, porque não têm o seu verdadeiro segredo.
Aquele com quem Deus está em segredo no coração, esse o tem; e aquele que é justo em segredo, onde nenhum homem o vê, esse é o homem justo com quem está o segredo do Senhor. Michael Jermin, D.D., 1591–1659.
O segredo do Senhor é com os que o temem, etc. Há um sentido vital em que "o homem natural não discerne as coisas do Espírito de Deus", e no qual todas as realidades da experiência cristã ficam totalmente ocultas à sua percepção. Falar-lhe de comunhão com Deus, do sentimento do perdão, da viva expectativa do céu, do testemunho do Espírito Santo, das lutas da vida espiritual, seria como discorrer com um cego sobre cores, ou com um surdo sobre harmonia musical. John Morison.
O segredo do Senhor é com os que o temem, etc. Ainda que a aliança do Senhor com a igreja visível seja aberta e clara em si mesma para todos os homens, em todos os seus artigos, é contudo um mistério conhecer a íntima e doce comunhão que uma alma pode ter com Deus em virtude dessa aliança; e o homem que teme a Deus conhecerá esse mistério, quando os que são apenas pactuantes na letra permanecerão ignorantes dele; pois só aos que temem a Deus é feita esta promessa — que a eles o Senhor mostrará a sua aliança. David Dickson.
O segredo do Senhor é com os que o temem. O evangelho, embora publicado a todo o mundo, é chamado um mistério, e um mistério oculto, pois ninguém o conhece senão os santos, que são ensinados por Deus e são seus discípulos (João 6:45). Essa passagem mostra que deve haver um ensino secreto da parte de Deus, e uma aprendizagem secreta: "Se ouviram, e foram ensinados por Deus." Ora, Deus não ensina senão os santos, pois todos os que assim são ensinados vêm a ele: "Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a mim."
Mas dirão: não conhecem muitos homens carnais o evangelho, e não discorrem sobre as coisas nele contidas, pela força do saber? Respondo, a partir do texto (Colossenses 1:26-27), que, embora possam conhecer as coisas que o evangelho revela, não conhecem as suas riquezas e a sua glória — aquele mesmo rico conhecimento de que fala a palavra lhes falta, e por isso não as conhecem; como uma criança e um joalheiro que olham para uma pérola: ambos a contemplam e a chamam pelo mesmo nome, mas a criança ainda não a conhece como pérola, no seu valor e riqueza, como a conhece o joalheiro, e por isso não se pode dizer que a conheça.
Ora, em Mateus 13:45, só o cristão é comparado a um mercador que encontra uma pérola de grande valor — isto é, descobre que ela o é — e vende tudo o que tem por ela, pois conhece o seu valor. Mas dirão: não conhecem os homens carnais o valor das coisas do evangelho, e não podem discorrer sobre a rica graça de Cristo e o seu valor? Respondo que sim, como um homem que decorou um inventário e também os preços, e assim pode conhecê-lo; mas nunca foi levado ao tesouro e ao erário para ver as próprias joias, o guarda-roupa da graça e a justiça de Cristo, para ver a sua glória; pois todas essas coisas são "espiritualmente discernidas", como diz expressamente o apóstolo (1 Coríntios 2:14). Thomas Goodwin.
O segredo do Senhor é com os que o temem. A verdade e a sinceridade de Deus para com o seu povo aparecem na abertura e na franqueza do seu coração para com eles. Um amigo reservado e fechado cai, com razão, sob suspeita no pensamento dos seus amigos; mas aquele que carrega, por assim dizer, uma janela de cristal no peito, através da qual o seu amigo pode ler os próprios pensamentos escritos no seu coração, livra-se de toda suspeita de infidelidade. Deveras, assim de coração aberto é Deus para com os seus santos: "O segredo do Senhor é com os que o temem."
Ele nos dá a sua chave, que nos deixa entrar no seu próprio coração, e nos dá a conhecer quais são os seus pensamentos — sim, quais eram, a nosso respeito, antes que uma só pedra fosse lançada nos fundamentos do mundo; e isso não é outra coisa senão o seu Espírito (1 Coríntios 2:10-11), "aquele que conhece as profundezas de Deus"; pois ele estava à mesa do conselho no céu, onde tudo foi tratado.
A este seu Espírito ele empregou para expor e publicar nas Escrituras, por ele ditadas, a substância daqueles desígnios de amor que passaram entre a Trindade das Pessoas para a nossa salvação; e, para que nada falte à nossa satisfação, ele designou o mesmo Espírito Santo para habitar nos seus santos, para que, assim como Cristo no céu apresenta a ele os nossos desejos, também o Espírito nos interprete, a partir da sua palavra, a mente dele; palavra essa que responde ao coração de Deus, como rosto responde a rosto no espelho. William Gurnall.
O segredo do Senhor. Este "segredo" é chamado segredo de três modos. 1. Segredo aos olhos da mera natureza — e não é este o sentido aqui, pois assim a graça de Cristo é segredo apenas para os pagãos e para os que são cegos como eles, já que os cristãos comuns a conhecem — a sua casca. 2. Segredo aos olhos da natureza instruída — nem é este o sentido, pois assim a graça de Cristo é segredo apenas para a espécie ignorante de cristãos; muitos pregadores carnais que se assentam sob um bom ministério a conhecem, e a sua entrecasca.
- Segredo aos olhos da natureza iluminada — e é este o sentido aqui, pois assim a graça de Cristo é segredo para todos os professores não santificados, sejam eruditos ou iletrados, a saber, o seu âmago; pois, ainda que grandes doutores, clérigos profundos e teólogos versados, porém não convertidos, conheçam a doutrina da graça e a verdade da graça; ainda que saibam disputar sobre a graça e falar da glória da graça, e até provar um pouco da boa palavra da graça, e compreendê-la de modo geral, talvez tão bem quanto São Paulo e São Pedro, como fez Judas — ainda assim o conhecimento especial e espiritual dela, com toda a sua iluminação dogmática, é para eles um segredo. William Fenner.
O segredo. Armínio e o seu grupo saqueiam todos os segredos de Deus, divulgando-os e comunicando-os igualmente à semente da mulher e à da serpente; fazem do eterno amor eletivo de Deus não um segredo, mas uma ideia vulgar; fazem do mistério de Cristo, e dele crucificado, não um segredo, mas algo tão comum quanto um remédio de boticário; fazem da graça especial de Deus não um segredo, mas uma qualidade comum; da fé, não um segredo, mas uma virtude geral; do arrependimento e da nova criatura, não um segredo, mas um dom universal.
Não há favor secreto para São Pedro, mas fazem de Deus parte neutra, sem amar mais a Pedro do que a Judas; nenhum desígnio secreto para uma pessoa mais do que para outra, mas que Cristo poderia ter morrido por todos e nenhum homem ser salvo; nenhuma obra secreta do Senhor em uns mais do que em outros; mas, seja o que for que Deus Pai tenha feito ao criar, Deus Filho ao redimir, ou Deus Espírito Santo ao santificar, todo o mundo foi deixado à sua própria sorte — tome quem quiser, recuse quem não quiser. Dizem que Deus quer que os homens se salvem, mas que ele mesmo não fará a obra; antes, que seja este ou aquele homem, por sua própria determinação, quem se salve. William Fenner.
Ele lhes manifestará a sua aliança, ou: e os fará conhecer (pois o infinitivo aqui é tido como posto pelo tempo futuro do indicativo, como em Eclesiastes 3:14-15,18; Oseias 9:13; 12:3) a sua aliança, isto é, fará com que a compreendam claramente, tanto os seus deveres ou condições quanto as suas bênçãos ou privilégios — nenhum dos quais os ímpios compreendem corretamente.
Ou: fará com que a conheçam pela experiência, isto é, cumprindo-a para com eles; ao passo que, pelo contrário, Deus ameaça fazer os ímpios conhecerem a sua quebra de promessa (Números 14:34). Ou, como está nas margens das nossas Bíblias, "e a sua aliança" (isto é, ele se comprometeu, por sua promessa ou aliança) a fazê-los conhecê-la — a saber, o seu segredo, isto é, que ele lhes manifestará a sua palavra ou o seu favor. Matthew Poole.
Não é o saber nem o esforço que pode dar penetração nos segredos de Deus, aqueles arcana imperii (segredos de estado) — "os mistérios do reino dos céus" (Mateus 13:11), "a mente de Cristo" (1 Coríntios 2:16). Essas coisas vêm por revelação, e não pelo discurso da razão, e devem, portanto, ser obtidas pela oração. Os que diligentemente o buscam farão parte do seu Conselho Privado, conhecerão os segredos da sua alma, e serão admitidos numa graciosa intimidade e amizade: "Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer" (João 15:15). John Trapp.
Andar com Deus é o melhor caminho para conhecer a mente de Deus; amigos que andam juntos revelam um ao outro os seus segredos: "O segredo do Senhor é com os que o temem." Noé andou com Deus, e o Senhor lhe revelou um grande segredo, o de destruir o mundo antigo e de tê-lo na arca. Abraão andou com Deus, e Deus o fez parte do seu conselho privado: "Ocultarei eu a Abraão o que faço?" (Gênesis 24:40; 18:17). Deus, às vezes, docemente se abre à alma na oração e na santa ceia, assim como Cristo se deu a conhecer aos discípulos no partir do pão (Lucas 24:35). Thomas Watson.
Versículo 15Salmo 25:15
Os meus olhos estão continuamente voltados para o SENHOR. Embora não possamos vê-lo, por causa da nossa distância e escuridão presentes, devemos olhar para ele, para o lugar onde habita a sua honra, como aqueles que desejam conhecê-lo a ele e à sua vontade, dirigindo tudo à sua honra como o alvo que buscamos, empenhando-nos nisto: que, "quer presentes, quer ausentes, sejamos aceitos por ele." — Matthew Henry.
Os meus olhos. Como o sentido da visão é muito rápido, e exerce total influência sobre todo o corpo, não é incomum encontrar todos os afetos designados pelo termo "olhos." — John Calvin.
Ele tirará os meus pés da rede. Uma pomba infeliz, cujos pés ficaram presos na armadilha do caçador, é um belo emblema da alma enredada nos cuidados ou nos prazeres do mundo; da qual ela deseja, pelo poder da graça, alçar voo e repousar junto ao seu Redentor glorificado. — George Horne.
Versículo 17Salmo 25:17
As angústias do meu coração se multiplicaram. Que nenhum homem bom se surpreenda por sua aflição ser grande, e para ele de caráter inexplicável. Sempre foi assim com o povo de Deus. O caminho para o céu está encharcado com as lágrimas e o sangue dos santos. — William S. Plumer.
Tira-me das minhas angústias. Não devemos queixar-nos de Deus, mas podemos queixar-nos a Deus. Com submissão à sua santa vontade, podemos clamar com fervor por socorro e libertação. — William S. Plumer.
Tempos especiais de tribulação e recurso especial à oração por uma libertação especial.
Versículo 18Salmo 25:18
Olha para a minha aflição e para a minha dor; e perdoa todos os meus pecados. Devemos observar aqui que a enfermidade e a fraqueza do corpo vêm do pecado, e são fruto do pecado. Alguns são fracos, e alguns estão doentes, "por esta causa." Não preciso me demorar em provar isso, pois há capítulos inteiros para tal, como Deuteronômio 28:27 e seguintes, e muitos Salmos, o 107 e outros.
É pela enfermidade da alma que Deus visita com a enfermidade do corpo. Ele visa a cura da alma ao tocar o corpo. E, por isso, nesse caso, quando Deus visita com enfermidade, devemos pensar que a nossa tarefa está mais no céu, com Deus, do que com os homens ou com remédios. Comece primeiro pela alma.
Assim foi com Davi, Salmo 32:5: até que ele lidou francamente com Deus, sem nenhum tipo de engano, e confessou os seus pecados, ele bramia; o seu vigor se converteu na secura do verão. Mas, quando lidou direta e claramente com Deus, e confessou os seus pecados, então Deus os perdoou, e curou também o seu corpo.
Por isso, o melhor método, quando Deus nos visita dessa maneira, é pensar que devemos lidar com Deus. Comece ali a cura, pela alma. Quando ele visita o corpo, é por causa da alma: "Muitos estão fracos e doentes entre vós." — Richard Sibbes.
Olha para a minha aflição e para a minha dor. Na enfermidade do corpo, confie em Jesus: ele é tão poderoso e tão disposto a nos ajudar agora quanto foi para ajudar outros nos dias da sua carne. Todas as coisas nos são possíveis, se cremos. Basta uma palavra dele para repreender toda sorte de tempestades e tormentas.
Não façamos como Asa, que confiou somente no médico, ou nos meios subordinados; antes, saibamos que todo remédio é meio morto sem ele. 2 Crônicas 16:12. Portanto, ao usar os meios, corra a Cristo, para que ele trabalhe com eles, e saiba que dele vem a virtude e a força para abençoar ou amaldiçoar toda sorte de meios. — Richard Sibbes.
Versículo 19Salmo 25:19
Considera os meus inimigos, etc. Ou olha para eles; mas com outro tipo de olhar; assim como ele olhou através da coluna de fogo para os egípcios, e os perturbou, Êxodo 14:24, com um olhar de ira e vingança. Os argumentos que ele usa são tirados tanto da quantidade quanto da qualidade dos seus inimigos, do seu número e da sua natureza.
Porque são muitos: os corações do povo de Israel, em geral, estavam com Absalão, 2 Samuel 15:12-13; e assim também os inimigos espirituais do povo do Senhor são muitos: os seus pecados e corrupções, Satanás e os seus principados e potestades, e os homens deste mundo.
E me odeiam com ódio cruel: como o de Simeão e Levi, Gênesis 49:5-7; o ódio deles irrompeu de maneira cruel, em atos de força e crueldade; e era ainda mais cruel por ser sem causa. Tal é o ódio de Satanás e dos seus emissários contra os seguidores de Cristo, que respiram crueldade, sedentos por seu sangue, e se embriagam com ele; até as suas ternas misericórdias são cruéis, e muito mais o seu ódio. — John Gill.
Considera os meus inimigos. Deus não precisa açular muitas criaturas para castigar o homem: ele mesmo faz isso a si mesmo. Não há espécie de criatura tão prejudicial a si própria quanto ele. Algumas prejudicam outras espécies e poupam a própria, mas a humanidade, em toda sorte de agressões, destrói a si mesma. Homem para homem é mais astuto que a raposa, mais cruel que o tigre, e mais feroz que o leão; em uma palavra, se for deixado a si mesmo, o homem é um demônio para o homem. — William Struther, Christian Observations, 1629.
Versículos 19–20Salmo 25:19-20
Considera os meus inimigos... guarda a minha alma, e livra-me. Podemos dizer da concupiscência original, fortalecida e intensificada pelas transgressões habituais, que o seu nome é legião, pois são muitas. Como a Hidra, é um corpo com muitas cabeças; e quando cortamos uma cabeça, uma impiedade monstruosa, logo brota outra de natureza igualmente monstruosa, de culpa venenosa.
Assim, desde o ventre, do pecado original e do costume pecaminoso, como do ventre do cavalo de Troia, sai todo um exército de concupiscências imundas, para cercar a alma em todas as suas faculdades, e também o corpo em todos os seus membros. — Robert Mossom.
Considera os meus inimigos... guarda a minha alma, e livra-me. Veja os comentários sobre "Salmo 25:19" para mais informações.
Versículo 20Salmo 25:20
Não seja eu envergonhado; porque em ti confio. Quando Davi chega ao versículo 20, somos lembrados de Coriolano, refugiando-se no salão de Ácio Túlio, e sentando-se ali como um estrangeiro indefeso, reclamando a hospitalidade do rei, embora soubesse que merecia a morte por suas mãos. O salmista lança-se sobre a compaixão de um Deus ofendido, com sentimento semelhante: "Confio em ti!" — Andrew A. Bonar.
Versículo 21Salmo 25:21
Porque confio, ou espero em ti. Assim como a preservação é uma criação contínua, também o esperar é uma confiança contínua; pois aquilo que a confiança crê pela fé, ela espera pela esperança; e assim a confiança é um composto de ambas. — Robert Mossom.
Versículo 22Salmo 25:22
Redime a Israel, ó Deus, de todas as suas angústias. Se não quiseres ter piedade de mim e ajudar-me, poupa ao menos o teu povo, que sofre por minha causa, e em meus sofrimentos. — Matthew Poole.
Redime a Israel, etc. In vita vel post mortem meam (Rabino Davi) — ou seja, enquanto eu viver, ou depois da minha morte. Este é o cuidado e a oração de todo homem bom. Ninguém está em condições de orar pela igreja que não tenha primeiro feito as pazes com Deus. — John Trapp.
Este, o mais belo dos "salmos, hinos e cânticos espirituais," encerra-se com uma doce súplica — tal como todo verdadeiro israelita de Deus desejaria ter nos lábios ao partir: "Redime a Israel, ó Deus, de todas as suas angústias." Ela respira a mesma santa aspiração do idoso Simeão: "Agora, Senhor, despedes o teu servo em paz, porque os meus olhos já viram a tua salvação." — Barton Bouchier.