Tesouros de Davi

Salmo 31

Leia o Salmo 31 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. Ao mestre de música — um Salmo de Davi. A dedicação ao mestre de música prova que este cântico de medidas mistas, com estrofes alternadas de tristeza e de dor, era destinado ao canto público. Assim se dá um golpe fatal na ideia de que só se deveria cantar louvor. Talvez os Salmos assim marcados tivessem sido deixados de lado, por serem tristes demais para o culto no templo, se o Espírito Santo não tivesse cuidado especial em indicá-los como destinados à edificação pública do povo do Senhor.

Não haveria também, nos Salmos assim designados, uma referência particular e distinta ao Senhor Jesus? Ele certamente se manifesta com muita clareza no Salmo vinte e dois, que traz este mesmo título; e no que temos diante de nós ouvimos claramente sua voz agonizante no versículo cinco. Jesus é o principal em toda parte, e em todos os cânticos sagrados de seus santos é ele o mestre de música. As suposições de que Jeremias tenha escrito este Salmo não precisam de outra resposta além do fato de que é "um Salmo de Davi".

ASSUNTO. O salmista, em dura aflição, apela ao seu Deus por ajuda, com muita confiança e santa insistência, e logo encontra a mente tão fortalecida que passa a engrandecer o Senhor pela sua grande bondade. Alguns pensaram que a ocasião, em sua vida atribulada, que deu origem a este Salmo, foi a traição dos homens de Queila, e nos sentimos bastante inclinados a essa conjectura. Mas, após reflexão, parece-nos que o tom muito pesaroso e a alusão à sua iniquidade exigem uma data posterior. Talvez seja mais satisfatório ilustrá-lo pelo período em que Absalão se rebelara, seus cortesãos haviam fugido dele, e línguas mentirosas espalhavam mil rumores maliciosos contra ele. Talvez seja até bom que não tenhamos uma época determinada, ou estaríamos tão ocupados em aplicá-lo ao caso de Davi que esqueceríamos sua adequação ao nosso próprio caso.

DIVISÃO. Não há grandes linhas de demarcação; o cântico ondula do início ao fim, descendo a vales de lamento e subindo a colinas de confiança. Contudo, por conveniência, podemos organizá-lo assim: Davi testifica sua confiança em Deus e roga por ajuda, Salmo 31:1-6; expressa gratidão pelas misericórdias recebidas, Salmo 31:7-8; descreve particularmente o seu caso, Salmo 31:9-13; roga veementemente por libertação, Salmo 31:14-18; espera confiante e agradecido uma bênção, Salmo 31:19-22; e encerra mostrando como o seu caso se aplica a todo o povo de Deus.

Exposição

Versículo 1Salmo 31:1

Em ti, ó SENHOR, confio. Não voo para outro abrigo, por mais que a tempestade uive. O salmista tem um único refúgio, e este é o melhor. Lança fora a grande âncora de esperança de sua fé na hora da tormenta. Que outras coisas sejam duvidosas, mas o fato de que confia em Jeová, Davi o afirma da maneira mais positiva; e começa com isso, para que, sob a pressão da provação, não venha depois a esquecê-lo. Esta declaração de fé é a alavanca com que ele trabalha para erguer e remover sua aflição; nela se detém como consolo para si mesmo e como argumento diante de Deus. Não se menciona mérito algum, mas a fé se apoia no favor e na fidelidade divinos, e somente neles.

Nunca serei envergonhado. Como poderia o Senhor permitir que fosse por fim envergonhado aquele que só nele confia? Isso não condiria com um Deus de verdade e graça. Traria desonra ao próprio Deus se a fé, ao final, não fosse recompensada. Seria um dia funesto para a religião se a confiança em Deus não trouxesse consolo nem socorro.

Livra-me na tua justiça. Não és injusto a ponto de abandonar uma alma confiante, ou de quebrar tuas promessas; hás de vindicar a justiça de tua misteriosa providência, e me dar libertação alegre. A fé ousa até buscar proteção na espada da justiça: enquanto Deus for justo, a fé não será deixada para se provar vã e fanática. Como soa doce a declaração de fé deste primeiro versículo, se a lemos aos pés da cruz, contemplando a promessa do Pai como sim e amém por meio do Filho; olhando para Deus com os olhos da fé, revelado em Jesus crucificado.

Versículo 2Salmo 31:2

Inclina para mim o teu ouvido. Condesce à minha condição humilde; escuta-me com atenção, como quem ouviria cada palavra. O céu, com suas glórias transcendentes de harmonia, bem poderia absorver o ouvido divino, mas o Senhor tem, a cada hora, atenção aos mais fracos gemidos de seu povo mais pobre.

Livra-me depressa. Não devemos fixar horas ou prazos, mas, em submissão, podemos pedir uma misericórdia tão rápida quanto certa. As misericórdias de Deus muitas vezes têm seu valor aumentado pela oportuna presteza com que ele as concede; se viessem tarde, poderiam vir tarde demais — mas ele cavalga sobre um querubim e voa sobre as asas do vento quando pretende o bem de seus amados.

Sê tu a minha forte rocha. Sê o meu Engedi, o meu Adulão; meu refúgio imutável, imóvel, inexpugnável, sublime. Uma casa de defesa para me salvar, na qual eu possa habitar em segurança, não apenas correndo a ti por um abrigo temporário, mas permanecendo em ti para a salvação eterna. Com que simplicidade este homem bom ora, e ainda assim com que peso de significado! Não usa floreios ornamentais; está sério demais para ser outra coisa senão simples. Seria bom que todos os que se ocupam da oração pública observassem a mesma regra.

Versículo 3Salmo 31:3

Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza. Aqui a alma provada declara mais uma vez sua plena confiança em Deus. As repetições da fé não são vãs. Declarar nossa dependência de Deus em tempos de adversidade é um dos principais meios de glorificá-lo. O serviço ativo é bom, mas a confiança passiva da fé não é, aos olhos de Deus, um jota menos estimada. As palavras diante de nós parecem abraçar o Senhor e se prender a ele com um aperto de fé que não se há de soltar. Os dois pronomes pessoais, como pregos firmes, se agarram à fidelidade do Senhor. Ah, que graça nos seja dada para ter o coração firmado numa crença firme e inabalável em Deus!

A figura de rocha e fortaleza pode ser ilustrada, em nossos dias, pela vasta fortaleza de Gibraltar, muitas vezes sitiada por nossos inimigos, mas jamais arrancada de nossas mãos: as antigas fortalezas, embora longe de inexpugnáveis para os modos modernos de guerra, eram igualmente importantes naquelas épocas mais remotas — quando, nos redutos das montanhas, bandos débeis se sentiam seguros. Note o fato singular de que Davi pediu ao Senhor que fosse sua rocha, Salmo 31:2, porque ele já era sua rocha; e aprenda com isso que podemos orar para desfrutar na experiência aquilo que já seguramos pela fé. A fé é o fundamento da oração.

Portanto, por amor do teu nome, guia-me e conduz-me. O salmista argumenta como um lógico, com seus "porques" e "portantos". Já que sinceramente confio em ti, diz ele, ó meu Deus, sê o meu diretor. Guiar e conduzir são duas coisas muito parecidas entre si, mas um pensamento paciente detectará matizes diferentes de sentido, sobretudo porque a segunda pode significar prover para mim. A palavra dobrada indica uma necessidade urgente — precisamos de dupla direção, pois somos tolos, e o caminho é áspero. Guia-me como a um soldado, conduz-me como a um viajante! Guia-me como a um bebê, conduz-me como a um homem; guia-me quando estiveres comigo, mas conduz-me ainda que estejas ausente; guia-me pela tua mão, conduz-me pela tua palavra.

O argumento usado é retirado do arsenal da graça livre: não por causa de algum mérito meu, mas por amor do teu nome, guia-me. Nosso apelo não se dirige a nenhuma virtude imaginária em nosso próprio nome, mas à bondade e à graciosidade gloriosas que resplandecem no caráter do Deus de Israel. Não é possível que o Senhor permita que sua própria honra seja manchada, mas isso certamente aconteceria se aqueles que nele confiam viessem a perecer. Esta foi a súplica de Moisés: "Que farás tu ao teu grande nome?"

Versículo 4Salmo 31:4

Tira-me da rede que ocultamente me armaram. Os inimigos de Davi eram tão astutos quanto poderosos; se não podiam vencê-lo pela força, procurariam capturá-lo pela astúcia. Nossos próprios inimigos espirituais são da mesma espécie — são da linhagem da serpente e buscam enredar-nos com seu engano. A oração diante de nós supõe a possibilidade de o crente ser apanhado como um pássaro; e, de fato, somos tão insensatos que isso muitas vezes acontece. Com tanta destreza o caçador faz seu trabalho que os simples logo se veem cercados por ele.

O texto pede que, mesmo já dentro das malhas da rede, o cativo seja libertado; e esta é uma petição própria, que pode ser atendida; dentre as presas do leão e do ventre do inferno pode o amor eterno resgatar o santo. Pode ser preciso um puxão forte para salvar uma alma da rede da tentação, e um puxão poderoso para arrancar um homem das armadilhas da astúcia maliciosa, mas o Senhor está à altura de toda emergência, e as redes mais habilmente armadas pelo caçador jamais conseguirão prender seus escolhidos. Ai daqueles que são tão hábeis em armar redes: os que tentam a outros serão eles mesmos destruídos. Vilões que armam ciladas em segredo serão punidos em público.

Pois tu és a minha força. Que doçura inexprimível se encontra nestas poucas palavras! Com que alegria podemos entrar em nossas labutas, e com que ânimo podemos suportar sofrimentos, quando podemos nos apegar ao poder celestial. O poder divino há de rasgar todas as armadilhas do inimigo, confundir suas manobras e frustrar seus ardis desonestos; feliz é o homem que tem a seu lado poder tão incomparável. Nossa própria força de pouco serviria, embaraçados nas redes da vil astúcia, mas a força do Senhor está sempre disponível; basta invocá-la, e a encontraremos bem perto. Se, pela fé, dependemos somente da força do forte Deus de Israel, podemos usar essa santa confiança como argumento em súplica.

Versículo 5Salmo 31:5

Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Estas palavras vivas de Davi foram as palavras finais de nosso Senhor ao morrer, e têm sido usadas com frequência por homens santos em sua hora de partida. Fique certo de que são palavras boas, escolhidas, sábias e solenes; podemos usá-las agora e naquela última hora tremenda. Observe que o objeto da preocupação deste homem bom, em vida e em morte, não é o seu corpo nem seus bens, mas o seu espírito; esta é a sua joia, o seu tesouro secreto; se este estiver seguro, tudo está bem.

Veja o que ele faz com sua pérola! Entrega-a à mão de seu Deus; dele veio, dele é, ele a sustentou até então, ele é capaz de guardá-la, e é muitíssimo justo que a receba. Todas as coisas estão seguras nas mãos de Jeová; o que confiamos ao Senhor estará seguro, tanto agora quanto naquele dia dos dias para o qual estamos correndo. Sem reservas, o homem bom se entrega à mão de seu Pai celestial; basta-lhe estar ali; é vida em paz e morte gloriosa repousar sob o cuidado do céu. Em todos os momentos devemos entregar, e continuar entregando, tudo o que temos ao cuidado sagrado de Jesus; então, ainda que a vida penda de um fio, e as adversidades se multipliquem como a areia do mar, nossa alma há de habitar tranquila e deleitar-se em lugares quietos de repouso.

Tu me redimiste, ó SENHOR Deus de verdade. A redenção é uma base sólida para a confiança. Davi não conhecera o Calvário como nós o conhecemos, mas a redenção temporal o animava; e não nos consolará a redenção eterna com muito mais doçura ainda? Livramentos passados são fortes argumentos para o socorro presente. O que o Senhor fez, tornará a fazer, pois ele não muda. Ele é um Deus de veracidade, fiel às suas promessas, e cheio de graça para com seus santos; ele não se afastará do seu povo.

Versículo 6Salmo 31:6

Odeio os que se apegam a vaidades enganosas. Os que não se apoiam no braço verdadeiro da força certamente fabricam para si confianças vãs. O homem precisa ter um deus, e, se não quer adorar ao único Deus vivo e verdadeiro, faz de si mesmo um tolo, presta homenagem supersticiosa a uma mentira e espera, com ansiosa esperança, por uma vil ilusão. Os que faziam isso não eram amigos de Davi; ele tinha por eles uma antipatia constante: o verbo inclui tanto o presente quanto o passado. Ele os odiava por odiarem a Deus; não suportava a presença de idólatras; seu coração se voltava contra eles por sua estupidez e maldade. Não tinha paciência com suas observâncias supersticiosas, e chama seus ídolos de vaidades da vaidade, nadas do nada. Pouca cortesia é mais do que merecem os que hoje se apegam a ritos vazios e superstições vestidas de religião.

Homens que fazem deuses de suas riquezas, de suas pessoas, de sua inteligência, ou de qualquer outra coisa, devem ser evitados por aqueles cuja fé repousa em Deus, em Cristo Jesus; e, longe de serem invejados, devem ser antes lastimados, por dependerem de puras vaidades.

Mas eu confio no SENHOR. Isto podia ser bem pouco na moda, mas o salmista ousou ser singular. O mau exemplo não deve nos tornar menos decididos pela verdade; antes, no meio da apostasia geral, devemos nos tornar mais ousados ainda. Esta adesão à sua confiança em Jeová é o grande argumento empregado do começo ao fim: o aflito voa para os braços do seu Deus, e arrisca tudo na fidelidade divina.

Versículo 7Salmo 31:7

Eu me alegrarei e me regozijarei na tua misericórdia. Pela misericórdia passada ele é grato, e pela misericórdia futura, que antecipa pela fé, ele se alegra. Em nossas intercessões mais insistentes, devemos encontrar um instante para respirar e abençoar o Senhor: o louvor jamais atrapalha a oração, mas antes lhe traz vivo refrigério. É agradável, de vez em quando, ouvir as notas dos címbalos altissonantes quando o dolente saltério domina a hora. Estas duas palavras, "alegrar" e "regozijar", são uma redundância instrutiva; não precisamos nos conter em nosso triunfo santo; este vinho podemos beber às taças, sem medo de excesso.

Porque tens considerado a minha tribulação. Tu a viste, a pesaste, a dirigiste, lhe puseste um limite, e de todos os modos a fizeste objeto de terna consideração. A consideração de um homem significa o pleno exercício de sua mente; o que deve ser a consideração de Deus?

Tens conhecido a minha alma nas adversidades. Deus reconhece os seus santos quando outros têm vergonha de reconhecê-los; ele nunca se recusa a conhecer os seus amigos. Não pensa pior deles por causa de seus trapos e farrapos. Não os julga mal nem os rejeita quando seus rostos estão magros de doença, ou seus corações pesados de desânimo. Além disso, o Senhor Jesus nos conhece em nossas dores de um modo peculiar, tendo profunda compaixão de nós em todas elas; quando ninguém mais pode entrar em nossos pesares, por falta de os ter experimentado, Jesus mergulha conosco nas profundezas mais baixas, compreendendo o pior de nossas aflições, porque ele mesmo sentiu o mesmo. Jesus é um médico que conhece todo caso; nada lhe é novo. Quando estamos tão confusos a ponto de não conhecer o nosso próprio estado, ele nos conhece por completo. Ele nos conheceu e continuará a nos conhecer: ah, que graça nos seja dada para conhecê-lo mais! "Homem, conhece-te a ti mesmo" é um bom preceito filosófico, mas "Homem, tu és conhecido de Deus" é um consolo superlativo. Adversidades, no plural — "Muitas são as aflições do justo."

Versículo 8Salmo 31:8

E não me entregaste nas mãos do inimigo. Ser entregue na mão de alguém é ser inteiramente rendido ao seu poder; ora, o crente não está na mão da morte nem do diabo, muito menos no poder do homem. O inimigo pode obter sobre nós uma vantagem passageira, mas somos como homens presos com a porta aberta; Deus não permite que sejamos trancafiados, ele sempre provê uma saída.

Puseste os meus pés num lugar espaçoso. Bendito seja Deus pela liberdade: a liberdade civil é valiosa, a liberdade religiosa é preciosa, a liberdade espiritual é inestimável. Em todas as tribulações podemos louvar a Deus se estas nos restarem. Muitos santos tiveram suas maiores expansões de alma justamente quando seus negócios se achavam em maior aperto. Suas almas estiveram num lugar espaçoso quando seus corpos jaziam em masmorras escuras e apertadas, ou em algum outro cárcere estreito. A graça tem sido igual a toda emergência; e mais do que isso, tem feito da emergência uma oportunidade para se manifestar.

Versículo 9Salmo 31:9

Tem misericórdia de mim, ó SENHOR, porque estou angustiado. Agora o homem de Deus passa a uma descrição particular e minuciosa de seu caso doloroso. Abre o coração, expõe as feridas, e exprime a desolação de dentro. Esta primeira frase resume, de modo denso, tudo o que se segue; é o texto de seu discurso lamentoso. A miséria move a misericórdia — não é preciso mais raciocínio. "Tem misericórdia" é a oração; o argumento é tão convincente quanto simples e pessoal: "estou angustiado".

Os meus olhos se consomem de tristeza. Olhos fundos e apagados são sinais evidentes de saúde debilitada. As lágrimas tiram seu sal de nossas próprias forças, e torrentes delas costumam consumir a fonte de onde brotam. Deus quer que lhe contemos os sintomas de nossa enfermidade, não para sua informação, mas para mostrar nosso senso de necessidade.

Sim, a minha alma e o meu ventre (ou corpo). A alma e o corpo estão tão intimamente unidos que um não pode declinar sem que o outro o sinta. Nós, nestes dias, não somos estranhos ao duplo abatimento que Davi descreve; já ficamos exaustos de sofrimento físico e perturbados de angústia mental: quando dois mares assim se encontram, é bom para nós que o Piloto ao leme esteja em seu próprio elemento no meio das águas revoltas, e faça das tempestades o triunfo de sua arte.

Versículo 10Salmo 31:10

Porque a minha vida se gasta em tristeza, e os meus anos em suspiros. Tornara-se sua ocupação diária lamentar; passava todos os seus dias no calabouço da angústia. A seiva e a essência de sua existência se consumiam, como uma vela se desfaz enquanto arde. Suas adversidades encurtavam seus dias, cavando-lhe uma sepultura precoce. A tristeza é um mercado triste onde gastar toda a nossa riqueza de vida, mas ali se pode fazer um negócio muito mais rentável do que na Feira das Vaidades; é melhor ir à casa do luto do que à casa do banquete. O luto é bom vestido. O sal das lágrimas é remédio saudável. Melhor gastar nossos anos suspirando do que pecando. As duas partes desta frase transmitem a mesma ideia; mas não há palavras vãs na Escritura — a repetição é a expressão adequada de fervor e insistência.

A minha força esmorece por causa da minha iniquidade. Davi vê até o fundo de sua tristeza, e ali descobre o pecado escondido. É uma tribulação proveitosa aquela que nos leva a nos afligirmos por causa de nossa iniquidade. Seria este o pior crime do salmista, que agora lhe roía o coração e devorava suas forças? É bem provável que sim. Os bocados do pecado, ainda que doces na boca, revelam-se veneno nas entranhas: se de bom grado dermos ao pecado uma parte de nossa força, ele em breve tomará de nós o resto. Perdemos vigor físico, mental, moral e espiritual por causa da iniquidade.

E os meus ossos se consomem. A fraqueza penetrava as partes mais íntimas de seu ser; as partes mais firmes de sua estrutura sentiam a decrepitude geral. Triste situação é esta em que um homem se encontra.

Versículo 11Salmo 31:11

Fui feito objeto de opróbrio entre todos os meus inimigos. Alegravam-se de ter algo a me atirar; meu estado de tristeza era música para eles, porque, com malícia, interpretavam-no como um juízo do céu sobre mim. O opróbrio é pouco considerado por quem não é chamado a suportá-lo, mas quem passa sob o seu chicote sabe quão fundo ele fere. Os melhores homens podem ter os inimigos mais amargos, e ficar sujeitos aos escárnios mais cruéis.

Mas sobretudo entre os meus vizinhos. Os que estão mais próximos podem cravar o punhal mais fundo. Sentimos mais os desprezos daqueles que deveriam nos mostrar simpatia. Talvez os amigos de Davi temessem ser identificados com sua fortuna em declínio, e por isso se voltaram contra ele para conquistar, se não o favor, ao menos a clemência de seus opositores. O interesse próprio governa a maioria dos homens: os laços mais sagrados são logo rompidos sob sua influência, e ações da mais completa vileza são cometidas sem escrúpulo.

E fui um temor para os meus conhecidos. Quanto mais íntimos antes, mais distantes se tornaram. Nosso Senhor foi negado por Pedro, traído por Judas, e abandonado por todos na hora de sua maior necessidade. Toda a manada se volta contra o cervo ferido. O leite da bondade humana talha quando um crente desprezado é vítima de acusações caluniosas.

Os que me viam na rua fugiam de mim. Com medo de serem vistos na companhia de um homem tão completamente desprezado, os que antes buscavam sua companhia fugiam dele como se estivesse contaminado pela peste. Quão vil coisa é a calúnia, que pode assim fazer de um santo eminente, antes admirado por seu povo, o alvo geral, a aversão universal da humanidade! A que extremos de desonra pode a inocência ser reduzida!

Versículo 12Salmo 31:12

Fui esquecido, como um morto, de coração. Todo o valor da juventude de Davi já se apagara da memória; ele fora o salvador de sua nação, mas seus serviços estavam sepultados no esquecimento. Os homens logo esquecem as mais profundas obrigações; a popularidade é passageira ao mais alto grau: aquele que hoje está na boca de todos pode amanhã ser esquecido por todos. Melhor seria a um homem estar morto do que ser sufocado pela calúnia. Dos mortos não dizemos senão o bem, mas, no caso do salmista, só diziam o mal. Não devemos esperar a recompensa da filantropia deste lado do céu, pois os homens pagam mal até aos seus melhores servos, e os põem porta afora quando já não têm mais o que tirar deles.

Sou como um vaso quebrado — coisa inútil, acabada, sem valor, posta de lado, esquecida. Triste condição para um rei! Vejamos aqui o retrato do Rei dos reis em sua humilhação, quando ele se esvaziou a si mesmo, sem reputação, e tomou a forma de servo.

Versículo 13Salmo 31:13

Porque ouvi a difamação de muitos. Uma só víbora caluniadora já é morte para todo conforto — o que dizer do veneno de uma ninhada inteira? O que o ouvido não escuta o coração não lamenta; mas, no caso de Davi, as vozes acusadoras eram altas o bastante para invadir seu sossego — bocas imundas se haviam tornado tão ousadas que despejavam suas mentiras na própria presença da vítima. Simei foi apenas um representante de uma classe, e seu grito de "Sai, homem sanguinário" era apenas o discurso comum de milhares de filhos de Belial. Toda a matilha de Belzebu pode estar em plena caçada contra um homem, e, ainda assim, ele pode ser o ungido do Senhor.

O terror me rodeava por todos os lados. Ele estava cercado de sugestões terríveis, ameaças, lembranças e pressentimentos; nenhum lado estava livre do ataque incessante.

Enquanto juntos conspiravam contra mim, tramavam tirar-me a vida. Os ímpios agem em conluio em seus ataques contra os excelentes da terra: é de admirar que os pecadores costumem estar mais de acordo entre si do que os santos, e geralmente conduzam sua obra maligna com muito mais cuidado e previsão do que os justos mostram em seus empreendimentos santos. Observe a crueldade dos inimigos de um homem bom! Não se contentam com nada menos que seu sangue — para isso conspiram e tramam. Melhor cair no poder de um leão do que na vontade de perseguidores maliciosos, pois a fera pode poupar sua presa se estiver saciada, mas a malícia é implacável e cruel como o lobo. De todos os demônios, o mais cruel é a inveja. Quão duramente foi cercado o salmista quando as flechas envenenadas de mil arcos se voltaram todas contra sua vida! Ainda assim, em tudo isso, sua fé não faltou, nem seu Deus o abandonou. Aqui está um encorajamento para nós.

Versículos 14–18Salmo 31:14-18

Nesta seção do Salmo, ele renova as suas orações, insistindo nos mesmos argumentos do início: os que lutam com fervor tentam, uma vez e outra, os mesmos meios para alcançar o seu objetivo.

Versículo 14Salmo 31:14

Mas eu confiei em ti, ó SENHOR. Apesar de todas as circunstâncias aflitivas, a fé de Davi manteve seu apoio, e não se desviou de seu objeto. Que cláusula bendita e salvadora é esta! Enquanto nossa fé, que é o nosso escudo, estiver a salvo, a batalha pode ser difícil, mas seu resultado final não é questão de dúvida; se ela nos pudesse ser arrancada, seríamos tão certamente mortos quanto Saul e Jônatas nos lugares altos do campo.

Eu disse: Tu és o meu Deus. Proclamou em voz alta sua fidelidade decidida a Jeová. Não era crente de tempo bom apenas, sabia manter sua fé em geada rigorosa, e a envolvia como uma veste feita para afastar todos os males do tempo. Quem pode dizer o que Davi disse não precisa invejar a Cícero a sua eloquência: "Tu és o meu Deus" tem mais doçura do que qualquer outra frase que a linguagem humana possa formar. Note que esta fé aderente é aqui mencionada como argumento junto a Deus, para que honre sua própria promessa enviando uma pronta libertação.

Versículo 15Salmo 31:15

Os meus tempos estão nas tuas mãos. O árbitro soberano do destino sustenta em seu próprio poder todos os desfechos de nossa vida; não somos destroços à deriva no oceano do acaso, mas somos guiados pela sabedoria infinita rumo ao porto desejado. A providência é uma almofada macia para cabeças ansiosas, um bálsamo para a preocupação, uma sepultura para o desespero.

Livra-me da mão dos meus inimigos, e dos que me perseguem. É lícito desejar escapar da perseguição, se esta for a vontade do Senhor; e, quando isso não nos for concedido na forma que desejamos, a graça sustentadora nos dará libertação de outra forma, capacitando-nos a rir com desdém de toda a fúria do inimigo.

Versículo 16Salmo 31:16

Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. Dá-me o sol do céu na minha alma, e eu desafiarei as tempestades da terra. Permite que eu desfrute do sentimento do teu favor, ó SENHOR, e da consciência de que estás satisfeito com o meu modo de viver, e todos os homens podem franzir a testa e caluniar à vontade. Basta sempre a um servo agradar ao seu senhor; outros podem ficar insatisfeitos, mas ele não é servo deles, não são eles que lhe pagam o salário, e suas opiniões não têm peso algum para ele.

Salva-me por causa das tuas misericórdias. O homem bom não conhece outro argumento além da misericórdia; qualquer que fosse o argumento legal que outros pudessem alegar, Davi jamais sonhou em fazê-lo.

Versículo 17Salmo 31:17

Não me deixes ser envergonhado, ó SENHOR, porque te invoquei. Não deixes que minhas orações sejam envergonhadas! Não enchas bocas profanas de zombarias contra a minha confiança no meu Deus.

Sejam envergonhados os ímpios, e emudeçam na sepultura. Faze com que vejam, para seu espanto, os meus direitos restaurados e o próprio orgulho deles horrivelmente confundido. Um espírito mais brando governa nossas orações sob o reinado manso do Príncipe da Paz, e, por isso, só podemos usar palavras como estas em seu sentido profético, sabendo muito bem que a vergonha e o silêncio da morte são a melhor porção que os pecadores ímpios podem esperar. Aquilo que desejaram para os crentes desprezados cairá sobre eles próprios, por um decreto de justiça retributiva contra o qual não podem reclamar — "Como amou a maldição, assim ela venha sobre ele."

Versículo 18Salmo 31:18

Emudeçam os lábios mentirosos. Uma oração cristã e muito justa; quem, senão um homem mau, daria aos mentirosos mais licença do que a necessária? Que Deus os faça calar, seja levando-os ao arrependimento, seja pondo-os em profunda vergonha, seja colocando-os em posições onde o que disserem não valha de nada.

Que falam coisas duras, com soberba e desprezo, contra o justo. O pecado dos caluniadores está, em parte, na matéria do seu discurso; "falam coisas duras", coisas que ferem fundo os sentimentos dos homens bons, magoando-os cruelmente naquele ponto sensível — a sua reputação. O pecado se agrava ainda mais pela forma do discurso: falam com soberba e desprezo; falam como se eles próprios fossem a nata da sociedade, e o justo apenas a escória da vulgaridade. Pensamentos orgulhosos de si mesmo geralmente vêm acompanhados de estimativas rebaixadoras dos outros. Quanto mais espaço tomamos para nós, menos sobra para o nosso próximo.

Que iniquidade é esta, que caracteres indignos sejam sempre os mais estridentes em vociferar contra os homens bons! Não têm capacidade alguma de apreciar o valor moral, do qual estão inteiramente destituídos, e, ainda assim, têm a desfaçatez de subir ao tribunal e julgar homens ao lado dos quais não passam de palha. Uma santa indignação bem pode nos levar a desejar qualquer coisa que livre o mundo de tal impertinência insuportável e detestável arrogância.

Versículos 19–22Salmo 31:19-22

Estando cheio de fé, o salmista dá glória a Deus pela misericórdia que tem por certo será a sua porção.

Versículo 19Salmo 31:19

Oh, quão grande é a tua bondade! Não é singular encontrar frase tão alegre ligada a tanta tristeza? Verdadeiramente, a vida de fé é um milagre. Quando a fé conduziu Davi ao seu Deus, fê-lo cantar de imediato. Ele não nos diz quão grande era a bondade de Deus, pois não podia; não há medidas capazes de expressar a bondade incomensurável de Jeová, que é a própria bondade. O santo espanto usa interjeições onde os adjetivos falham por completo. Pontos de exclamação nos convêm quando palavras de explicação de nada valem. Se não podemos medir, podemos ao menos maravilhar-nos; e, ainda que não possamos calcular com exatidão, podemos adorar com fervor.

Que reservaste para os que te temem. O salmista, em contemplação, divide a bondade em duas partes: aquela que está guardada e aquela que já foi realizada. O Senhor tem reservado para o seu povo provisões além de toda conta. No tesouro da aliança, no campo da redenção, nos cofres das promessas, nos celeiros da providência, o Senhor já proveu para todas as necessidades que possam vir a ocorrer a seus escolhidos. Devemos com frequência considerar essa bondade reservada de Deus, ainda não distribuída aos escolhidos, mas já preparada para eles: se nos ocuparmos bastante com tais contemplações, seremos levados a sentir uma devota gratidão, como a que ardia no coração de Davi.

Que tens realizado, diante dos filhos dos homens, para os que em ti confiam. A misericórdia celestial não está toda escondida no depósito; de mil maneiras já se revelou em favor daqueles que ousam declarar sua confiança em Deus; diante de seus semelhantes, esta bondade do Senhor tem sido exibida, para que uma geração incrédula ficasse repreendida. Esmagadoras são as provas do favor do Senhor para com os crentes; a história transborda de exemplos surpreendentes, e nossas próprias vidas estão cheias de prodígios de graça. Servimos a um bom Senhor. A fé recebe já hoje uma grande recompensa, mas espera sua herança plena no futuro. Quem não desejaria lançar sua sorte com os servos de um Senhor cujo amor sem limites enche de espanto todas as mentes santas?

Versículo 20Salmo 31:20

No esconderijo da tua presença os esconderás do orgulho do homem. O orgulho é uma arma farpada: o escárnio do orgulhoso é ferro que entra na alma; mas os que confiam em Deus estão a salvo, alojados no Santo dos Santos, no pátio mais interno, onde nenhum homem ousa intrometer-se; ali, na morada secreta de Deus, a mente do santo repousa em paz, paz que o pé do orgulho não consegue perturbar. Os que habitam ao pé da cruz de Cristo se tornam insensíveis aos escárnios dos altivos. As feridas de Jesus destilam um bálsamo que cura todas as cicatrizes que as armas serrilhadas do desprezo possam nos infligir; de fato, quando revestido do mesmo sentir que houve em Cristo Jesus, o coração fica invulnerável a todos os dardos do orgulho.

Tu os esconderás secretamente num pavilhão, longe da contenda das línguas. As línguas devem ser mais temidas do que feras — e, quando se voltam umas contra as outras, é como se toda uma matilha de lobos fosse solta; mas o crente está seguro mesmo neste perigo, pois o pavilhão real do Rei dos reis lhe dará abrigo tranquilo e serena segurança. O tabernáculo secreto do sacrifício e o pavilhão real da soberania oferecem dupla segurança ao povo do Senhor em suas piores angústias. Observe a ação imediata de Deus: "Tu os esconderás", "Tu os guardarás" — o próprio Senhor está pessoalmente presente para o resgate dos seus aflitos.

Versículo 21Salmo 31:21

Bendito seja o SENHOR. Quando o Senhor nos abençoa, não podemos fazer menos do que abençoá-lo em resposta.

Porque me mostrou a sua maravilhosa bondade numa cidade forte. Seria isto em Maanaim, onde o Senhor lhe deu vitória sobre as hostes de Absalão? Ou se referiria a Rabá dos amonitas, onde alcançou triunfos notáveis? Ou, melhor ainda, seria Jerusalém a cidade forte onde mais experimentou a espantosa bondade do seu Deus? A gratidão nunca fica sem assuntos; seus marcos de Ebenézer se erguem tão próximos uns dos outros que cercam o seu caminho ao céu de ambos os lados. Seja em cidades, seja em vilarejos, nosso bendito Senhor se revelou a nós, e jamais esqueceremos aqueles lugares santificados: o monte solitário de Hermon, ou o vilarejo de Emaús, ou a rocha de Patmos, ou o deserto de Horebe são todos igualmente célebres quando Deus se manifesta a nós vestido de amor.

Versículo 22Salmo 31:22

A confissão das faltas é sempre própria; e, quando refletimos sobre a bondade de Deus, devemos ser lembrados dos nossos próprios erros e ofensas.

Porque eu disse na minha pressa. Geralmente falamos mal quando estamos com pressa. Palavras apressadas ficam apenas um momento na língua, mas muitas vezes ficam por anos sobre a consciência.

Estou cortado de diante dos teus olhos. Este foi um discurso indigno; mas a incredulidade sempre terá um canto no coração do crente mais firme, e desse canto ela verterá muitas coisas maldosas contra o Senhor, se o curso da providência não for tão suave quanto a natureza poderia desejar. Nenhum santo jamais foi, ou jamais poderia ser, cortado de diante dos olhos de Deus, e, no entanto, sem dúvida muitos pensaram assim, e mais de um o disse. Que para sempre sejam banidas de nossas mentes tais suspeitas sombrias.

Contudo, tu ouviste a voz das minhas súplicas quando a ti clamei. Que misericórdia, que, ainda que não creiamos, Deus permanece fiel, ouvindo a oração mesmo quando trabalhamos sob dúvidas que desonram o seu nome. Se considerarmos os obstáculos no caminho de nossas orações, e o modo pobre como as apresentamos, é uma maravilha das maravilhas que elas alguma vez prevaleçam junto ao céu.

Versículo 23Salmo 31:23

Amai o SENHOR, todos vós, seus santos. Uma exortação profundamente comovente, que mostra com clareza o profundo amor do autor pelo seu Deus: há ainda mais beleza na expressão, porque revela amor a um Deus que fere, amor que muitas águas não puderam apagar. Abençoar a quem dá é fácil, mas apegar-se a quem tira é obra da graça. Todos os santos são beneficiados pelas misérias santificadas de um deles, se são levados por exortações sinceras a amar ainda mais o seu Senhor. Se os santos não amam ao Senhor, quem o fará? O amor é a dívida universal de toda a família dos salvos: quem gostaria de ser dispensado de pagá-la?

Razões para o amor são dadas, pois o amor que crê não é cego. Porque o SENHOR preserva os fiéis. Eles têm de esperar o seu tempo, mas a recompensa chega afinal, e, enquanto isso, toda a malícia cruel de seus inimigos não pode destruí-los. E retribui abundantemente ao que procede com soberba. Também isto é motivo de gratidão: o orgulho é tão detestável em seus atos que aquele que lhe dá o seu devido merecimento é digno do amor de todas as mentes santas.

Versículo 24Salmo 31:24

Esforçai-vos, e ele fortalecerá o vosso coração. Mantenha o ânimo, que nenhum pensamento covarde empalideça o seu rosto. O medo enfraquece, a coragem fortalece. A vitória espera pelas bandeiras dos valentes.

E ele fortalecerá o vosso coração. Poder do alto será dado do modo mais eficaz, administrando força à própria fonte da vitalidade. Longe de nos abandonar, o Senhor se aproximará muito de nós em nossa adversidade, e porá em nós o seu próprio poder.

Todos vós que esperais no SENHOR. Cada um de vós, levantai a cabeça e cantai de alegria no coração. Deus é fiel, e não falha nem mesmo com seus pequeninos que apenas esperam; por que, então, haveríamos de temer?

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