Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 31

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 31, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 31 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Versículo 1Salmo 31:1

Em ti, ó SENHOR, confio. Fujamos, portanto, da desconfiança; a dúvida é morte, só a confiança é vida. Certifiquemo-nos de que confiamos no Senhor, e nunca aceitemos nossa confiança apenas por ouvir dizer. Nunca serei envergonhado. Se Davi ora contra ser envergonhado, esforcemo-nos também contra isso. Os que amam a Jesus deveriam ter vergonha de sentir vergonha. — C. H. S.

Livra-me na tua justiça. Para sustentar a tua fé, observe bem sobre o que ela pode repousar com segurança: sobre a justiça de Deus, tanto quanto sobre a sua misericórdia. Foi neste fundamento que o apóstolo, pela fé, esperou a coroa da justiça, 2 Timóteo 4:7-8, porque o Senhor de quem a esperava é um juiz justo; e o salmista ousa apelar à justiça de Deus, Salmo 35:24. Pois podemos estar bem certos de que aquilo que a bondade, a graça e a misericórdia de Deus o moveram a prometer, a sua verdade, a sua fidelidade e a sua justiça o moverão a cumprir. — William Gouge.

Versículos 1–3Salmo 31:1-3

As sombras são infiéis, e as rochas são falsas;

Não há confiança no bronze, não há confiança em muros de mármore;

Choupanas pobres são tão seguras quanto salões de príncipes.

Grande Deus! Não há segurança aqui embaixo;

Tu és a minha fortaleza, tu que pareces meu inimigo,

És tu que desferes o golpe, tu que hás de guardar-me do golpe.

Tu és o meu Deus; por ti eu caio ou permaneço;

Tua graça me deu coragem para resistir

A todas as torturas, menos à minha consciência e à tua mão.

Sei que a tua justiça és tu mesmo; sei,

Deus justo, que tu mesmo és também misericórdia;

Se não a ti, para onde, para onde iria eu?

— Francis Quarles.

Versículo 2Salmo 31:2

Inclina para mim o teu ouvido. Escuta minha queixa. Põe teu ouvido perto dos meus lábios, para que ouças tudo o que a minha fraqueza é capaz de proferir. Geralmente aproximamos nosso ouvido dos lábios dos doentes e moribundos para ouvir o que dizem. É a isso que o texto parece aludir. — Adam Clarke.

Livra-me depressa. Ao orar para que fosse libertado depressa, ele mostra a grandeza do seu perigo, como se dissesse: Tudo em breve estará acabado para a minha vida, a menos que Deus se apresse em me socorrer. — John Calvin.

Versículos 2-3. Sê tu a minha forte rocha, etc. Aquilo que o Senhor se comprometeu a ser para nós, por aliança, podemos orar e esperar encontrá-lo de fato. "Sê tu a minha forte rocha", diz ele, "pois tu és a minha rocha." — David Dickson.

Versículo 3Salmo 31:3

Por amor do teu nome. Se estivesse em jogo apenas a honra de uma criatura, o crédito dos ministros, ou a glória dos anjos, a salvação do homem seria, de fato, incerta. Mas cada passo envolve a honra de Deus. Suplicamos por amor do seu nome. Se Deus começasse e não continuasse, ou se levasse adiante a obra sem a completar, todos admitiriam que houve alguma razão que traria reprovação sobre o Todo-poderoso. Isso jamais pode acontecer. Deus se moveu por si mesmo para empreender a salvação do homem. Seu glorioso nome torna certo que a pedra final será posta em glória. — William S. Plumer.

Por amor do teu nome. Por causa da fama do teu poder, da tua bondade, da tua verdade, etc. Guia-me. Como um pastor a uma ovelha desgarrada, como um comandante a tropas militares, ou como alguém conduz outro que não conhece o caminho. Veja Gênesis 24:27; Neemias 9:12-13; Salmo 23:3; Salmo 73:24. Governa os meus conselhos, os meus afetos e os meus pensamentos. — Martin Geier, 1614-1681.

Versículo 4Salmo 31:4

Tira-me da rede: aquela rede bem conhecida, como diz o hebraico. — John Trapp.

Tira-me da rede que ocultamente me armaram. Com estas palavras, ele dá a entender que seus inimigos não vinham contra ele apenas com força aberta, mas tentavam cercá-lo com astúcia e artimanha, como quando o induziram, por instrução de Saul, a se tornar genro do rei, e para isso o levaram a obter duzentos prepúcios dos filisteus como dote, sob pretexto de boa vontade, buscando na verdade sua ruína; e também quando lhe armaram cilada para matá-lo em sua própria casa. Mas ele confiou em Deus, e orou para ser livrado, caso houvesse alguma empreitada semelhante contra ele no futuro. — John Mayer.

Pois tu és a minha força. A onipotência corta a rede que a astúcia tece. Quando nós, pobres seres frágeis, estamos na rede, Deus não está. Na velha fábula, o rato liberta o leão; aqui, o leão liberta o rato. — C. H. S.

Versículo 5Salmo 31:5

Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Estas foram as últimas palavras de Policarpo, de Bernard, de Huss, de Jerome of Prague, de Lutero, de Melancthon, e de muitos outros. "Bem-aventurados são aqueles", diz Lutero, "que morrem não somente pelo Senhor, como mártires, não somente no Senhor, como todos os crentes, mas também com o Senhor, exalando a vida nestas palavras: 'Nas tuas mãos entrego o meu espírito.'" — J. J. Stewart Perowne.

Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Estas palavras, como se encontram na Vulgata, gozavam do mais alto crédito entre os nossos antepassados, que as usavam em todos os perigos, dificuldades, e no artigo da morte. In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum (Nas tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito) era pronunciado pelos doentes ao expirarem, se estivessem conscientes; e, se não, o sacerdote o dizia por eles. Nas fórmulas de oração para enfermos e moribundos, estas palavras eram com frequência inseridas em latim, ainda que todo o resto da oração fosse em língua vernácula, pois se supunha haver algo de soberano na própria língua. Mas que o abuso de tais palavras não impeça a sua utilidade. Para um clamor breve nada pode ser melhor; e, quando os piedosos ou os tentados as usam com confiança, nada pode superar o seu efeito. — Adam Clarke.

Nas tuas mãos entrego o meu espírito, etc. Para que os santos entreguem o seu espírito nas mãos de Deus, por meio de Jesus Cristo? Primeiro: para que estejam seguros; isto é, preservados em sua passagem para o céu, de todos os inimigos e perigos que possam se antepor no caminho. Quando os santos morrem, os poderes das trevas, sem dúvida, se pudessem, impediriam a ascensão de suas almas a Deus. Como foram lançados fora do céu, ficam cheios de fúria ao ver alguém de nosso mundo indo para lá. Uma coisa, portanto, que o santo quer dizer ao entregar seu espírito nas mãos de Deus, é que este precioso depósito seja guardado de todos os que desejam ou tentariam a sua ruína.

E eles têm certeza de que o poder onipotente pertence a Deus: e, se este poder está empenhado em sua preservação, ninguém pode arrancá-los de sua mão. O Redentor despojou principados e potestades, e o provou com sua triunfante ascensão à glória; e tem todos os inimigos, seus e do crente, presos em cadeias, de modo que serão mais que vencedores nele e por meio dele. Anjos, para a boa ordem, são enviados para ministrar-lhes e ser sua guarda, e que fielmente os acompanharão em sua incumbência, até que sejam trazidos à presença do Senhor comum a ambos. "Eu sei", diz o apóstolo, "em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia."

Segundo: entregam a sua alma nas mãos de Deus, para que sejam admitidos a habitar com ele, mesmo naquela sua presença onde há plenitude de alegria, e onde há delícias para sempre: onde todo mal é excluído, e todo bem está presente, para saciar seus desejos, e lhes dar assunto de louvor por toda a eternidade.

Terceiro: entregam seus espíritos que partem nas mãos de Deus, para que seus corpos possam enfim ser ressuscitados e reunidos a eles, e assim entrar por fim na bem-aventurança preparada para os que o amam... Os fundamentos sobre os quais podem fazer isso com consolo, isto é, com esperanças vivas de serem felizes para sempre, são muitos. Para mencionar apenas dois:

(a) O interesse de Deus neles, e sobre o fundamento mais terno, o da redenção. Nas tuas mãos entrego o meu espírito; pois tu me redimiste. Redimiste-me do inferno e da ira vindoura, dando teu Filho para morrer por mim. Senhor, não sou apenas tua criatura, mas tua criatura redimida, comprada por um preço, diz o santo. Redimiste-me do poder de minha corrupção interior, e do amor a ela, e do deleite nela; e, com meu consentimento, atraíste-me para ser teu, e teu para sempre. Senhor, sou teu, salva-me imutavelmente.

(b) Sua fidelidade conhecida. Nas tuas mãos entrego o meu espírito, ó SENHOR Deus de verdade. Nas tuas mãos entrego o meu espírito, tu que tens sido um Deus de verdade, cumprindo tuas promessas a todo o teu povo que partiu deste mundo antes de mim; e assim tens sido para comigo até agora, e não posso duvidar de que continuarás assim até o fim. — Daniel Wilcox.

Nas tuas mãos. Quando essas mãos me faltarem, então estarei de fato abandonado e miserável! Quando me sustentam e me guardam, então estou seguro, exaltado, forte, e cheio de bem. Recebe-me, pois, ó Pai Eterno, por causa dos méritos e das palavras do nosso Senhor; pois ele, por sua obediência e sua morte, mereceu agora de ti tudo o que eu não mereço por mim mesmo.

Nas tuas mãos, meu Pai e meu Deus, entrego o meu espírito, a minha alma, o meu corpo, as minhas forças, os meus desejos. Ofereço às tuas mãos tudo; a elas entrego tudo o que até aqui tenho sido, para que perdoes e restaures tudo; minhas feridas, para que as cures; minha cegueira, para que a ilumines; minha frieza, para que a inflames; meu caminho perverso e errante, para que me ponhas na senda reta; e todos os meus males, para que os arranques de minha alma. Entrego e ofereço às tuas mãos santíssimas, ó meu Deus, o que eu sou, que tu conheces muito melhor do que eu mesmo posso conhecer: fraco, miserável, ferido, inconstante, cego, surdo, mudo, pobre, despido de todo bem, nada, sim, menos que nada, por causa de meus muitos pecados, e mais miserável do que eu possa saber ou expressar.

Recebe-me, Senhor Deus, e faze de mim aquilo que ele, o Cordeiro divino, quer que eu seja. Entrego, ofereço, e ponho em tuas mãos divinas todos os meus negócios, meus cuidados, meus afetos, meu êxito, meus consolos, meus trabalhos, e tudo o que sabes que há de vir sobre mim. Dirige tudo para tua honra e glória; ensina-me em tudo a fazer a tua vontade, e em tudo a reconhecer a obra de tuas mãos divinas; a nada mais buscar, e apenas com esta reflexão encontrar descanso e consolo em todas as coisas.

Ó mãos do Deus Eterno, que fizeram e ainda preservam os céus e a terra por causa de mim, e que me fizeram para vós mesmas, não permitais que eu jamais me afaste de vós. Nessas mãos possuo o meu Cordeiro, e tudo o que amo; nelas, portanto, devo estar também eu, junto com ele. Junto com ele, nestas mãos amorosas hei de dormir e repousar em paz, pois ele, ao morrer, deixou-me a esperança nelas e em suas infinitas misericórdias, colocando-me dentro delas, como meu único e especial refúgio. Já que por estas mãos vivo e sou o que sou, faze-me viver continuamente por meio delas, e nelas morrer; nelas viver no amor de nosso Senhor, e delas somente desejar e esperar todo bem; para que delas eu possa, enfim, junto com o Senhor, receber a coroa. — Fra Thome de Jesu.

Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Nenhuma forma sombria de um destino escuro se ergue diante dele ao fim de sua carreira; ainda que tenha de morrer na cruz, o semblante de seu Pai brilha diante dele. Ele não vê sua vida se derretendo nas trevas do rio da morte. Ele a entrega nas mãos de seu Pai. Não é somente no espírito geral da humanidade que ele continuará a viver. Viverá na personalidade definida de seu próprio espírito, abraçado pela proteção especial e pela fidelidade de seu Pai.

Assim, ele não entrega sua vida com desânimo à morte para a destruição, mas com consciência triunfante ao Pai para a ressurreição. Era o próprio centro de seu testamento: certeza de vida; entrega de sua vida na mão de um Pai vivo. Com voz alta ele o proclamou ao mundo, que para sempre e sempre afundará na consciência pagã da morte, do medo da morte, do desespero da imortalidade e da ressurreição, porque, para sempre e sempre, permite que a consciência da personalidade de Deus, e da união pessoal com ele, seja obscurecida e abalada. Com coração de leão, o Cristo agonizante uma vez mais testificou da vida com uma expressão ligada à palavra do antigo Salmo, e testificou que o Espírito da vida eterna já estava operante, em antecipação profética, na antiga aliança. Assim, vivendo como sempre, entregou sua vida, por meio da morte, ao Eternamente Vivo. Sua morte foi o fato último e supremo, a coroa de sua vida santa. — J. P. Lange, D.D., em "A Vida do Senhor Jesus Cristo", 1864.

Nas tuas mãos entrego o meu espírito. Davi entregou o seu espírito a Deus para que não morresse, mas Cristo, e todos os cristãos depois dele, entregam o seu espírito a Deus para que vivam para sempre pela morte, e depois da morte. Este Salmo está assim ligado ao Salmo vinte e dois. Ambos os Salmos foram usados por Cristo na cruz. Do Salmo vinte e dois derivou aquelas amargas palavras de angústia: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni?" Deste Salmo derivou aquelas últimas palavras de amor e confiança que proferiu pouco antes de sua morte. O Saltério era o hinário e o livro de orações de Cristo. — Christopher Wordsworth.

Versículo 6Salmo 31:6

Eu odeio. Os homens santos têm paixões fortes, e não são tão comedidos e tolerantes com os malfeitores quanto os latitudinários de língua macia gostariam que fossem. Quem não odeia o mal não ama o bem. Há algo como um bom ódio. — C. H. S.

Os que se apegam a vaidades enganosas. Os romanistas inventam milagres dos santos para torná-los, supõem eles, mais gloriosos. Dizem que a casa em que estava a Virgem Maria quando o anjo Gabriel a visitou foi, muitos séculos depois, transportada primeiro da Galileia para a Dalmácia, mais de dois mil quilômetros, e dali, através do mar, para a Itália, onde também se mudou de um lugar para outro, até enfim encontrar um lugar para ficar; e muitas curas milagríssimas, dizem, foram operadas por ela, e que as próprias árvores, quando ela chegava, se curvavam diante dela. Têm histórias infinitas dessa natureza, especialmente na Legenda dos Santos, que chamam de "A Legenda Dourada", livro tão cheio de disparates grosseiros que Ludovicus Vives, um papista, mas culto e sincero, exclamou com grande indignação: "Que pode haver mais abominável do que esse livro?" — e se perguntava por que o chamavam de "dourado", quando quem o escreveu era um homem "de boca de ferro e coração de chumbo".

E Melchior Canus, um bispo romano, fez a mesma censura a esse livro, e se queixa (como já fizera Vives antes dele) de que Laércio escreveu as vidas dos filósofos, e Suetônio as vidas dos Césares, com mais sinceridade do que alguns escreveram as vidas dos santos e mártires.

São vaidosos e supersticiosos ao extremo na honra que dão às relíquias dos santos: seus corpos mortos, ou partes deles; seus ossos, sua carne, seus cabelos; sim, até as roupas que usaram, ou coisas semelhantes. "Pode-se agora, em toda parte", diz Erasmo, "ver exposto para lucro" o leite de Maria, que honram quase tanto quanto o corpo consagrado de Cristo; óleo prodigioso; tantos pedaços da cruz que, se todos fossem reunidos, um grande navio mal os carregaria. Aqui se expõe o capuz de Francisco; ali, a veste íntima da Virgem Maria; num lugar, o pente de Ana; noutro, a meia de José; noutro ainda, o sapato de Tomás de Cantuária; e, em outro lugar, o prepúcio de Cristo, que, embora seja coisa incerta, adoram com mais devoção do que a pessoa inteira de Cristo. E não trazem essas coisas à luz como algo que se pode tolerar, para agradar o povo comum, mas quase toda a religião deles se assenta nelas. (Erasmo, sobre Mateus 23:5). — Christopher Cartwright.

O sentido é este: os pagãos, quando se aproxima algum perigo ou dificuldade, costumam recorrer solenemente a augúrios e adivinhações, e assim a falsos deuses, para receber deles conselho e direção; mas, ao fazê-lo, observando suas respostas com a mais supersticiosa devoção, nada ganham com isso. Estes Davi detesta, e se apega a Deus, sem esperar socorro senão dele. — H. Hammond, D.D.

Versículo 7Salmo 31:7

Eu me alegrarei e me regozijarei na tua misericórdia. No meio da tribulação, a fé fornecerá motivo de alegria, e prometerá a si mesma contentamento, especialmente pela memória das experiências passadas da misericórdia de Deus; como aqui: eu me alegrarei e me regozijarei na tua misericórdia. ... O fundamento de nossa alegria, quando encontramos uma prova da bondade de Deus para conosco, não deve estar tanto no benefício quanto na fonte do benefício; pois isso nos dá esperança de beber novamente da mesma experiência, da fonte que enviou aquele benefício. Por isso Davi diz: eu me alegrarei e me regozijarei na tua misericórdia. — David Dickson.

Tens considerado a minha tribulação:

O apelo do homem ao homem é que nunca mais

Pedirá, e que nunca antes pedira:

O apelo do homem a Deus é que ele obteve

Uma súplica anterior, e por isso suplica de novo.

Que bom Deus é o que servimos, que, quando suplicamos,

Faz de seus antigos dons os exemplos dos novos!

— Francis Quarles.

Tens conhecido a minha alma nas adversidades. Certo dia, uma pessoa que, pelas calamidades da guerra, da doença e de outras aflições, fora reduzida da fartura à pobreza, veio a Gotthold em grande angústia. Queixou-se de que acabara de encontrar um de seus antigos conhecidos, que nem sequer era parente distante seu, mas que este não se dignara a cumprimentá-lo, muito menos a falar-lhe, e desviara os olhos, passando por ele como se fosse um estranho. "Ó senhor", exclamou com um suspiro, "como isso me doeu! Senti como se um punhal me tivesse atravessado o coração!"

Gotthold respondeu: Não ache isso estranho. É o costume do mundo olhar para o alto e passar sem notar o que é humilde e baixo. Conheço, porém, Alguém que, embora habite nas alturas, se humilha para contemplar as coisas que há nos céus e na terra, Salmo 113:5-6, e de quem o profeta real testifica: tens conhecido a minha alma nas adversidades. Sim; ainda que tenhamos perdido nossos ricos trajes e venhamos a ele em farrapos; ainda que nossas formas se tenham consumido de tristeza, e envelhecido (Salmo 6:7, versão de Lutero); ainda que a doença e a dor tenham consumido nossa formosura como traça, Salmo 39:11; ainda que rubores, e lágrimas, e pó cubram nosso rosto, Salmo 69:7, ele ainda nos reconhece, e não se envergonha de nos chamar seus. Consola-te com isto: que mal, afinal, te fará, ainda que os homens te renegem, se o Senhor Deus não se esqueceu de ti? — Christian Scriver.

Versículo 8Salmo 31:8

Ele abre, e ninguém fecha. Bendigamos ao Senhor por uma porta aberta que nem os homens nem os demônios podem fechar. Ainda não estamos nas mãos do homem, porque estamos nas mãos de Deus; do contrário, nossos pés estariam no tronco, e não no amplo espaço da liberdade. Nossos inimigos, se fossem tão capazes quanto são dispostos, já há muito nos teriam tratado como o caçador trata os passarinhos, quando os fecha na própria mão. — C. H. S.

Versículo 9Salmo 31:9

Os meus olhos se consomem de tristeza. Esta expressão parece sugerir que o olho realmente sofre sob a influência da tristeza. Havia uma velha ideia, que ainda prevalece entre os pouco instruídos, de que o olho, sob extrema tristeza, e com um fluxo constante e abundante de lágrimas, poderia se consumir e perecer sob essa provação. Não há fundamento sólido para essa ideia, mas existe uma forma muito séria de doença dos olhos, bem conhecida pelos oftalmologistas pelo nome de Glaucoma, que parece ser bastante influenciada por emoções mentais de natureza depressiva.

Já conheci muitos casos marcantes em que havia uma propensão constitucional ao Glaucoma, e em que alguma tristeza súbita provocou um acesso violento da doença e induziu cegueira de natureza incurável. Nesses casos, a explicação parece ser mais ou menos a seguinte: é essencial para o bom funcionamento do olho que ele possua certo grau de elasticidade, que resulta de um equilíbrio exato entre a quantidade de fluido dentro do olho e o invólucro fibroso externo que o contém.

Se esse equilíbrio for perturbado, se o fluido aumentar indevidamente em quantidade, e o olho se tornar duro demais, dor e inflamação podem surgir repentinamente no interior do olho, e a visão pode se extinguir rapidamente. Há um conjunto especial de nervos que preside a essa condição física peculiar, e mantém o olho em estado adequado de elasticidade; e é fato notável que, ao longo de uma vida inteira, em regra, o olho preserva esse estado elástico. Se, porém, a função desses nervos for prejudicada, como pode facilmente acontecer sob a influência de tristeza extrema, ou de qualquer agente depressivo, o olho pode endurecer subitamente.

Até época relativamente recente, o Glaucoma agudo, ou endurecimento súbito do olho, acompanhado de dor intensa e inflamação, causava cegueira completa e sem esperança; mas hoje em dia é possível aliviá-lo por meio de uma cirurgia. O efeito da tristeza em causar esta forma de cegueira parece ser uma explicação do texto: os meus olhos se consomem de tristeza. Ao solicitarmos informações ao Royal London Ophthalmic Hospital sobre o efeito da tristeza no olho, recebemos o que foi dito acima, com muitas outras informações valiosas, do médico sênior GEORGE CRITCHETT. A cortesia deste senhor, e do secretário daquela nobre instituição, merece menção especial.

Versículos 9–10Salmo 31:9-10

Se queres aprender, não sabendo como orar,

Basta acrescentar fé, e dizer como dizem os mendigos:

Mestre, sou pobre, e cego, em grande aflição,

Faminto, e coxo, e frio, e sem consolo;

Ó socorre aquele que ficou encalhado no rochedo

Da dor, e da carência, e não pode ajudar a si mesmo.

Lança teu olhar sobre um miserável, e tem

Alguma piedade de mim, por amor do doce Jesus:

Mas espera! Cuidado para não acrescentar esta cláusula:

Nunca antes mendiguei, nem tornarei a fazê-lo.

— Francis Quarles.

Versículo 10Salmo 31:10

Minha iniquidade. A versão italiana traz "minhas dores"; porque, como a morte e todas as misérias vieram ao mundo por causa do pecado, a Escritura muitas vezes confunde os nomes da causa com os do efeito. — John Diodati.

Acho que, quando os santos estão sob provação e bem humilhados, pequenos pecados levantam grandes clamores na consciência; mas na prosperidade, a consciência é um papa que dá dispensas e grande liberdade aos nossos corações. A cruz é, portanto, tão necessária quanto a coroa é gloriosa. — Samuel Rutherford.

Versículo 11Salmo 31:11

Fui feito objeto de opróbrio entre todos os meus inimigos. Se alguém se esforça pela paciência e pela humildade, é hipócrita. Se se permite os prazeres deste mundo, é glutão. Se busca a justiça, é impaciente; se não a busca, é tolo. Se quer ser prudente, é mesquinho; se quer fazer os outros felizes, é dissoluto. Se se entrega à oração, é vaidoso. E esta é a grande perda da igreja: que, por meios como estes, muitos são detidos de fazer o bem! Disso se lamenta o salmista, dizendo: fui feito objeto de opróbrio entre todos os meus inimigos. — Crisóstomo, citado por J. M. Neale.

Os que me viam na rua fugiam de mim. Certa vez ouvi o seguinte relato de um velho homem do mundo, e me ocorre agora, como ilustração do que estamos considerando. Ele estava numa assembleia pública, e viu ali uma pessoa se afastando da multidão e indo para um canto do salão. Aproximou-se dela — era uma velha e íntima amiga sua; dirigiu-lhe a palavra — ela, com um suspiro, disse: "Ah, tenho passado por muitos dias de tribulação desde que nos vimos pela última vez." O que faz o homem do mundo? Imediatamente se afasta da amiga aflita e se esconde na multidão. Tal é a simpatia do mundo por Cristo ou por seus servos. — Hamilton Verschoyle.

Versículo 12Salmo 31:12

Fui esquecido, como um morto, de coração. Um exemplo impressionante de como até os maiores príncipes são esquecidos na morte encontra-se no leito de morte do rei Luís XIV. "O Luís que fora jaz abandonado, uma massa de argila repugnante; entregue a algumas pessoas pobres e a sacerdotes da Chapelle Ardente, que se apressam em colocá-lo em dois caixões de chumbo, derramando abundante espírito de vinho. O novo Luís, com sua corte, já rola rumo a Choisy, através da tarde de verão: as lágrimas reais ainda correm; mas uma palavra mal pronunciada pelo Monsenhor d'Artois faz todos rirem, e não choram mais." — Thomas Carlyle, em "A Revolução Francesa."

Fui esquecido, etc. Como um homem moribundo com as cortinas fechadas, de quem os amigos já não têm esperança, e por isso desviam o olhar; ou antes, como um morto posto de lado, fora da vista e fora da memória por completo, sepultado mais no esquecimento do que na sua própria cova; quando a notícia é: "ela morreu, não incomodeis mais o Mestre." Lucas 8:49. — Anthony Tuckney, D.D., 1599-1670.

Sou como um vaso quebrado. Assim como um vaso, por mais útil que tenha sido ao seu dono, e por mais necessário que tenha sido para o seu uso, quando se quebra é jogado fora, e não mais considerado: assim é o estado de um homem abandonado por aqueles a quem serviu de amigo, enquanto foi capaz de lhes ser de proveito. — Robert Cawdray.

Versículo 13Salmo 31:13

Ouvi a difamação de muitos. Desde a minha infância, quando pela primeira vez me dei conta dos interesses da alma dos homens, fui tomado de certo assombro ao descobrir que, em toda parte, os religiosos, os piedosos, que apenas exerciam um cuidado sério com a sua própria salvação e a dos demais, eram feitos motivo de espanto e opróbrio do mundo, especialmente dos homens mais viciosos e infames; de modo que aqueles que professavam os mesmos artigos de fé, os mesmos mandamentos de Deus como sua lei, e as mesmas petições da oração do Senhor como seu desejo, e assim professavam a mesma religião, em toda parte injuriavam os que se esforçavam por viver a sério aquilo que diziam.

Pensei que isto era pura hipocrisia da parte dos ímpios e mundanos: tomar por pessoas mais intoleráveis da terra justamente aqueles que apenas levam a sério a sua própria religião, e apenas se esforçam por cumprir o que os seus próprios inimigos também prometem e votam. Se a religião é má, e a nossa fé não é verdadeira, por que estes homens a professam? Se é verdadeira e boa, por que odeiam e injuriam os que procuram vivê-la a sério, se eles próprios não a praticam? Mas não devemos esperar razão quando o pecado e a sensualidade tornaram os homens irracionais.

Mas devo confessar que, desde que observei o curso do mundo, e a concordância entre a palavra e a providência de Deus, tomei isso como prova notável da queda do homem, da verdade da Escritura, e da origem sobrenatural da verdadeira santificação: encontrar tamanha inimizade universal entre a semente santa e a semente da serpente, e ver o caso de Caim e Abel tão comumente exemplificado, com aquele que nasceu segundo a carne perseguindo aquele que nasceu segundo o Espírito. E penso que, até hoje, isso é uma grande e visível ajuda para a confirmação de nossa fé cristã. — Richard Baxter.

Difamação. Sê tão casto quanto o gelo, tão puro quanto a neve; não escaparás à calúnia. — William Shakespeare.

Enquanto juntos conspiravam contra mim, etc. Enquanto despedaçavam sua reputação, faziam-no de tal modo que encobriam a própria maldade sob a aparência de um procedimento grave e ponderado, deliberando entre si para destruí-lo como homem que já não devia ser tolerado sobre a terra. Não é de admirar, portanto, que sua mente estivesse ferida por tentações tão numerosas e tão agudas. — John Calvin.

Versículo 14Salmo 31:14

Mas eu confiei em ti, ó SENHOR. O sentido próprio é: E eu confiei em ti; mas a partícula copulativa hebraica vau (e) é usada aqui em lugar da partícula adversativa "contudo", ou "todavia". Davi, opondo a firmeza de sua fé aos assaltos das tentações que já mencionou, nega que jamais tenha desfalecido; antes, sustenta o contrário, que permaneceu firme em sua esperança de libertação da parte de Deus. Isso não significa que se gabasse de ser tão magnânimo e corajoso a ponto de não poder ser derrubado pela fraqueza da carne.

Por mais contraditório que pareça, estas coisas costumam estar unidas, como devem estar, numa mesma pessoa: que, ao mesmo tempo em que se consome de tristeza, e é privado de toda força, é ainda assim sustentado por uma esperança tão forte que não deixa de clamar a Deus. Davi, portanto, não estava tão submerso na profunda tristeza, e em outros sofrimentos pavorosos, que a luz oculta da fé não pudesse brilhar por dentro em seu coração; nem gemia tanto sob o peso de suas tentações a ponto de ser impedido de se levantar para clamar a Deus. Ele lutou através de muitos obstáculos para poder fazer a confissão que aqui faz.

Ele define, em seguida, a natureza de sua fé, a saber, que refletiu consigo mesmo assim: que Deus jamais faltaria com ele, nem o abandonaria. Notemos o modo de sua fala: Eu disse, Tu és o meu Deus. Nestas palavras ele indica que estava tão inteiramente persuadido desta verdade, de que Deus era o seu Deus, que não admitiria sequer uma sugestão em contrário. E, enquanto essa persuasão não prevalecer a ponto de tomar posse de nossas mentes, sempre vacilaremos na incerteza.

É de se observar, contudo, que esta declaração não é apenas interior e secreta — feita mais no coração do que com a língua — mas é dirigida ao próprio Deus, como a quem é a única testemunha dela. Nada é mais difícil, quando vemos nossa fé escarnecida pelo mundo inteiro, do que dirigir nossa fala somente a Deus, e nos contentarmos com este testemunho que nossa consciência nos dá, de que ele é o nosso Deus. E, sem dúvida, é prova certa da fé genuína quando, por mais furiosas que sejam as ondas que nos batem, e por mais dolorosos os assaltos que nos abalam, mantemos firme este princípio: que estamos constantemente sob a proteção de Deus, e podemos dizer-lhe livremente: Tu és o nosso Deus. — John Calvin.

Tu és o meu Deus. Quanto mais vale do que dez mil minas de ouro poder dizer: Deus é meu! O servo de Deus tem consciência disso, e não vê nisso falta alguma, mas antes uma felicidade completa; por isso se deleita nisso, e nisso se consola. Como fez, certa vez, um grande cortesão da corte do rei Ciro, favorito seu; ele estava para dar sua filha em casamento a um homem muito importante, mas não tinha, por si mesmo, grandes recursos; e então alguém lhe disse: "Ó senhor, onde arranjará os meios para dar à sua filha um dote proporcional à sua condição? Onde estão as suas riquezas?" Ele respondeu: "Que preciso eu me importar? Hópou Kŷros moi phílos — Ciro é meu amigo." Mas quanto mais podemos nós dizer, hópou Kýrios moi phílos — onde o Senhor é nosso amigo, que tem aqueles atributos excelentes e gloriosos que jamais faltarão diante de qualquer necessidade, para nos fazer felizes, sobretudo sendo nós capazes disso, e feitos à sua medida. — John Stoughton, "A Súplica do Homem Justo pela Verdadeira Felicidade," 1640.

Versículo 15Salmo 31:15

Os meus tempos estão nas tuas mãos. É digno de nota que, quando, em anos recentes, os homens se cansaram do longo e tedioso trajeto de suas viagens às Índias Orientais, e quiseram tentar um caminho mais curto pela passagem do Noroeste, isso sempre se mostrou malsucedido. Assim é que não devemos usar nenhum atalho; não podemos negligenciar o nosso corpo, nem naufragar a nossa saúde, nem fazer nada para apressar a morte, por acharmos que ganharemos com isso. Aquele que se apressa (mesmo por este caminho) para ficar rico não será inocente; pois os nossos tempos estão nas mãos de Deus, e, por isso, devemos deixá-los à sua santa providência. Temos muito trabalho a fazer, e não devemos, portanto, ser tão gananciosos por nosso sábado, nosso descanso, a ponto de não nos contentarmos com nosso dia de trabalho, nossa labuta. Daí resulta que uma disposição serena de espírito, como a do apóstolo, Filipenses 1:21, em que tanto ficar e trabalhar como partir e descansar são igualmente bons, é a melhor de todas as disposições. — Edward Reynolds, em "Coisas Novas e Velhas," de J. Spencer.

Os meus tempos. Ele não usa o número plural, a meu ver, sem razão; mas antes para marcar a variedade de acasos pelos quais a vida do homem costuma ser atormentada. — John Calvin.

Nas tuas mãos. O relógio pende, fazendo tique-taque contra a parede, quando cada tique do relógio é um suspiro, e uma consciência, ai de mim! Pobre relógio! Certa vez fui visitar um amigo, médico e secretário de um dos mais nobres e admiráveis asilos para insanos deste país. Uma pobre criatura, de inteligência clara e brilhante, apenas com algumas cordas desafinadas, que costumava se ocupar inocentemente em montar ou desmontar relógios, exibira, pouco antes de minha visita, alguns sintomas novos e alarmantes, atirando um relógio depois de outro contra o chão de pedra, estilhaçando-os.

Levado para um quarto mais seguro, fui vê-lo com o secretário. "Como você veio a destruir os relógios que tanto amava, você que é tão quieto?" — perguntou meu amigo; e o pobre paciente respondeu, num tom de agonia penetrante: "Eu não conseguia suportar o tique, tique, tique, e por isso o atirei no chão." Mas, quando o relógio é capaz de se entregar ao seu fabricante, à mão que segura o relógio, e que mede os momentos, isso se torna algo comovente, sim, mas belíssimo, sublime.

Transferimos nossos pensamentos do relógio para a mão que o segura. Os meus tempos, tua mão; o relógio e a hora têm um propósito, e por isso não são em vão. Deus dá ao homem permissão para contemplar duas coisas. O homem pode ver toda a obra, a totalidade do plano, e também a obra mínima, o primeiro passo rumo à totalidade do plano. Nada é mais certo, e nada os homens estão menos dispostos a perceber do que isto. Precisamos:

"Esperar por alguma vida transcendente,

Reservada por Deus para vir depois desta."

— Robert Browning.

Para este fim, o verdadeiro caminho de Deus é composto de todos os caminhos de nossa vida. Sua mão sustenta todos os nossos tempos. Os meus tempos; "a tua mão." Algumas vidas diferem muito de outras. Isto sabemos; mas veja, algumas vidas cumprem o curso da vida, alcançam a coroa da vida — vida em sua medida. Esta, ao contrário, outras a perdem por completo.

Contudo, mesmo para a força humana, deve haver um amor medido para governá-la. Diz-se que há uma lua para controlar as marés de cada mar; não haveria um poder soberano sobre as almas? Pode não parecer sempre assim, aparentemente, nas vidas mais terrenas, mas é assim nas celestiais; não mais certamente a lua governa as marés do que Deus governa as almas. Às vezes parece que o homem não encontra poder externo adequado, e se ergue destinado a ser lei para sua própria esfera; mas, mesmo então, os seus tempos estão nas mãos de Deus, assim como o caminho de uma estrela está dentro dos limites de seu sistema — como os movimentos de um satélite estão nas forças de seu planeta.

Mas, se eu não quisesse me deter em palavras ou visões mórbidas da vida, tampouco desejo que me acuse de dar apenas uma visão sombria e mórbida do mundo, e uma teologia imperfeita; muito pelo contrário. Os meus tempos estão nas tuas mãos — a mão do meu Salvador."

"Relato como pode um homem relatar da obra de Deus — tudo é amor, mas tudo é lei. Na Divindade eu a busco e a encontro, e assim há de ser:

Um rosto como o meu rosto, que te recebe; um Homem como eu

Hás de amar, e por ele seres amado para sempre; uma mão como esta mão

Há de abrir as portas de uma vida nova para ti: Vê o Cristo de pé!"

— Robert Browning.

E agora ele é "o restaurador de veredas para morar." A mão de Jesus é a mão que governa os nossos tempos. Ele regula o relógio de nossa vida. Cristo por nós, e Cristo em nós. Os meus tempos em sua mão. Minha vida não pode ser mais em vão do que foi em vão a vida do meu Salvador. — E. Paxton Hood, em "Ditos Escuros sobre uma Harpa," 1865.

Quando Davi teve Saul à sua mercê na caverna, os que estavam com ele disseram: Este é o tempo em que Deus te libertará. 1 Samuel 24:4. Não, diz Davi, o tempo não chegou para a minha libertação até que ela possa ser realizada sem pecado, e eu esperarei por esse tempo; pois é o tempo de Deus, e esse é o melhor tempo. — Matthew Henry.

Versículo 16Salmo 31:16

Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. Quando a nuvem da tribulação esconde o favor do Senhor, a fé sabe que ele pode voltar a resplandecer, e por isso ora através da nuvem, pedindo que ela se dissolva. Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. — David Dickson.

Versículo 18Salmo 31:18

Lábios mentirosos... que falam coisas duras, com soberba e desprezo, contra o justo. Os perseguidores primitivos desprezavam os cristãos como um bando de gente ruim e sem letras, e por isso costumavam pintar o Deus dos cristãos com uma cabeça de asno e um livro na mão, diz Tertuliano; para significar que, embora fingissem instrução, na verdade eram gente tola e ignorante. O Bispo Jewel, em seu sermão sobre Lucas 11:15, cita isso de Tertuliano e o aplica aos seus próprios tempos. Não fazem os nossos adversários o mesmo, diz ele, contra todos os que professam o evangelho? "Ora", dizem eles, "quem são os que favorecem esse caminho? Ninguém além de sapateiros, alfaiates, tecelões, e gente que nunca esteve na universidade." Estas são as próprias palavras do bispo. O Bispo White disse, em pleno tribunal, que os puritanos eram todos um bando de cabeças-duras. — Charles Bradbury.

Lábios mentirosos... que falam coisas duras, com soberba e desprezo, contra o justo. Naquele venerável e antigo monumento da Igreja Valdense, intitulado "A Lição Dourada," datado de 1100, encontramos um verso que foi assim traduzido:

"Se há alguém que ama e teme a Jesus Cristo,

Que não amaldiçoa, nem jura, nem mente,

Nem é impuro, nem mata, nem toma o que é alheio,

Nem se vinga de seus inimigos;

Dizem que ele é um valdense, e digno de castigo."

— Antoine Monastier, em "Uma História da Igreja Valdense," 1859.

Versículo 19Salmo 31:19

Oh, quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem. Assim como um homem previdente regulará sua generosidade para com todos, de tal modo que não defraude seus filhos ou sua família, nem empobreça sua própria casa, gastando pródiga com outros o que é seu; assim também Deus, ao exercer sua beneficência para com os estranhos à sua família, sabe muito bem reservar para os seus próprios filhos aquilo que lhes pertence, como que por direito hereditário; isto é, por causa de sua adoção. — John Calvin.

Oh, quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem. Observe a frase "reservaste para eles": sua misericórdia e bondade se destinam a eles, como um pai que separa determinada quantia de dinheiro, e escreve na bolsa: "Esta é a porção para tal filho." Mas como chega o cristão a ter este direito a Deus, e a todo aquele vasto e incontável tesouro de felicidade que há nele? Isto, de fato, precisa ser bem atendido: é a fé que lhe dá bom título a tudo isso. O que o faz filho, o faz herdeiro. Ora, a fé o faz filho de Deus. João 1:12: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome." Portanto, se não quiser pôr em dúvida o seu direito de nascença, e trazer para uma triste disputa em sua alma o seu interesse em Cristo e aqueles gloriosos privilégios que o acompanham, olhe para a sua fé. — William Gurnall.

Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem. Quando reflito sobre as palavras do teu profeta, parece-me que ele quer retratar Deus como um pai que, sem dúvida, mantém seus filhos sob disciplina, e os sujeita à vara; mas que, com todo o seu trabalho e esforço, ainda assim visa apenas reservar para eles um tesouro que possa contribuir para o seu bem-estar quando chegarem à maturidade, e aprenderem o uso prudente dele. Meu Pai, neste mundo escondes de teus filhos a tua grande bondade, como se não lhes pertencesse. Mas, sendo teus filhos, podemos estar bem certos de que o tesouro celestial não será concedido a mais ninguém. Por esta razão, suportarei minha sorte com paciência. Mas, ah! de tempos em tempos, sopra até mim um pouco de ar daquela terra celeste, para refrescar meu coração pesaroso; então esperarei com mais calma pela sua plena fruição. — Christian Scriver.

Oh, quão grande é a tua bondade. Para coroar o dever da meditação, deixe-me acrescentar mais uma coisa — que a meditação seja elevada até a admiração: não devemos apenas ser afetados, mas transportados, arrebatados e enlevados pelas belezas e transcendências das coisas celestiais; pratique a meditação até a admiração, esforce-se pelo mais alto grau, aproximando-se o máximo possível dos padrões mais elevados, os padrões dos santos e anjos no céu, cujos atos são os mais puros, os mais elevados êxtases e admirações.

Assim eram estes tão excelentes artistas na meditação; Davi, um grande praticante da admiração na meditação, como muitas vezes vemos nos Salmos: assim em Salmo 8:1,9; Salmo 31:19, "Oh, quão grande é a tua bondade", etc.; Salmo 104:24, "Ó SENHOR, quão variadas são as tuas obras", etc.; e em outros lugares, a meditação e a admiração de Davi eram como sua harpa, bem afinada e excelentemente tocada, nos ares mais raros e nos tons mais elevados; como o ouro precioso, e a lapidação primorosa; ou a pedra mais rica, e o polimento e engaste mais requintados. Assim também o bendito Paulo, que era um grande artista na meditação, agia com elevada admiração; sua alma ardia e se inflamava nela: era como um pássaro de asa forte e longa, que se eleva e se ergue ao alto, e sai do campo de visão. — Nathanael Ranew.

Diante dos filhos dos homens, isto é, abertamente. O salmista aqui talvez se refira às bênçãos temporais concedidas aos piedosos, evidentes a todos. Alguns, porém, supuseram que a referência seja à recompensa dos justos, concedida com a mais completa publicidade no dia do juízo; o que melhor concorda com a nossa interpretação da primeira parte do versículo. — Daniel Cresswell, D.D., F.R.S. (1776-1844), in loc. (no lugar citado).

Creiam, senhores, vocês não podem conceber que amigo terão em Deus, se apenas se deixarem persuadir a entrar em aliança com ele, a ser dele, inteiramente dele. Digo-lhes: muitos que outrora pensavam e faziam como vocês fazem agora, isto é, davam pouco valor a Cristo e odiavam a Deus, e não viam beleza alguma nele, estão agora de todo outra opinião; não trocariam, por dez mil mundos, o interesse que têm nele. Ah, quem ousaria dizer que ele é um Senhor duro? Quem, conhecendo-o, diria que é um amigo indelicado?

Ah, o que fazem as pobres criaturas, que nutrem pensamentos tão ásperos e amargos a respeito de Deus? O quê, pensam que não há nada naquela Escritura: Oh, quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem! Fala o salmista amplo demais? Diz ele mais do que ele mesmo e outros poderiam provar? Pergunte a ele, e lhe dirá, no versículo vinte e um, que bendiz a Deus. Estas eram coisas sobre as quais podia falar, por sua própria experiência pessoal; e muitos milhares como ele, a quem o Senhor mostrou sua maravilhosa bondade, e por isso ele suplica com tanto fervor ao povo de Deus que o ame, e expresse mais fortemente seu senso da bondade dele, para que o mundo também seja encorajado a ter bons pensamentos sobre ele. — James Janeway.

Muito digna de nota é aquela expressão do salmista: Oh, quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem; que operaste, diante dos filhos dos homens, para os que em ti confiam. Na primeira cláusula, diz-se que a bondade de Deus está reservada; na segunda, que foi operada. A bondade é reservada na promessa, operada na realização; e aquela bondade que está reservada é operada para os que confiam em Deus; e assim, como a fidelidade de Deus nos compromete a crer, também a nossa fé, por assim dizer, compromete a fidelidade de Deus a cumprir a promessa. — Nathanael Hardy.

Versículo 20Salmo 31:20

Tu os esconderás secretamente num pavilhão, longe da contenda das línguas. Isto o nosso amado Deus faz secretamente, de modo que nenhum olho humano possa ou consiga ver, e os ímpios não sabem que um crente está, em Deus, e na presença de Deus, tão bem protegido, que nenhum opróbrio ou desprezo, e nenhuma língua contenciosa pode lhe fazer mal. — Arndt, citado por W. Wilson, D.D.

Versículo 22Salmo 31:22

Eu disse na minha pressa: estou cortado de diante dos teus olhos: contudo, tu ouviste a voz das minhas súplicas. Quem diria que aquelas orações teriam alguma vez prevalecido aos ouvidos de Deus, misturadas que estavam com tanta incredulidade no coração do suplicante! — William Secker.

Eu disse na minha pressa, estou cortado de diante dos teus olhos. Não, não, cristão; uma oração enviada com fé, segundo a vontade de Deus, não se pode perder, ainda que seja adiada. Podemos dizer dela o que Davi disse da espada de Saul e do arco de Jônatas, que nunca voltam vazios. Por isso Davi acrescenta: contudo, tu ouviste a voz das minhas súplicas quando a ti clamei. — John Flavel.

Eu disse na minha pressa, estou cortado de diante dos teus olhos, etc. Aproveitemos nós, para quem outrora era noite, a alegria desta manhã que agora resplandece sobre nós. Sejamos admiradores contínuos da graça e da misericórdia de Deus para conosco. Ele nos preveniu com sua bondade, quando não via em nós senão impaciência e incredulidade, quando éramos como Jonas no ventre do inferno; suas entranhas se comoveram por nós, e seu poder nos trouxe a salvo à terra. O que fizemos nós para apressar sua libertação, ou para obter sua misericórdia? Se ele nunca tivesse vindo em nosso socorro até ver algo em nós que o convidasse, ainda não teríamos sido socorridos. Não contribuímos mais para a nossa restauração do que contribuímos para o nascer do sol, ou para a chegada do dia. Éramos como ossos secos, sem movimento e sem força, Ezequiel 37:1-11. E também dissemos que "estávamos cortados quanto à nossa parte, e nossa esperança se fora"; e ele fez entrar o fôlego em nós, e vivemos.

Quem é Deus como o nosso Deus, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado? Que não retém a sua ira para sempre? Que é tardio para a ira e se compraz na misericórdia? Que esteve irado conosco por um momento, mas nos dá esperança de sua bondade eterna? Ah! Que amor devemos a Cristo, que intercedeu por nós quando nós mesmos não tínhamos nada a dizer! Que nos tirou de uma cova de leões, e das fauces do leão que ruge! Poder dizer, como disse a Sra. Sarah Wright: "Alcancei misericórdia, eu que pensava que meu tempo de misericórdia estava para sempre passado; tenho esperança do céu, eu que pensava já estar condenada pela incredulidade; muitas vezes eu disse, não há esperança no meu fim, e pensei tê-lo visto; estava tão desesperada, que não me importava o que fosse de mim.

Muitas vezes estive à própria beira da morte e do inferno, mesmo às próprias portas de ambos, e então Cristo os fechou. Fui como Daniel na cova dos leões, e ele tapou a boca daqueles leões, e me libertou. A bondade de Deus é insondável; quão grande é a excelência da sua majestade, que ainda assim quis olhar para alguém como eu; que me deu paz, a mim que estava cheia de terror, e que andava continuamente como que em meio a fogo e enxofre." — Timothy Rogers.

Eu disse na minha pressa, estou cortado de diante dos teus olhos: isto é, tu me abandonaste por completo, e não devo esperar ser olhado ou considerado por ti nunca mais. Hei de perecer um dia pela mão de Saul, e assim serei cortado de diante dos teus olhos, arruinado enquanto tu olhas, 1 Samuel 27:1. Isto disse ele em sua fuga (assim o leem alguns), o que indica a angústia de seus assuntos: Saul estava logo atrás dele, pronto para agarrá-lo, o que tornava a tentação forte; na sua pressa (assim o lemos nós), o que indica a perturbação e a confusão de sua mente, que tornava a tentação surpreendente, de modo que o pegou desprevenido. Note-se que é coisa comum falar mal quando falamos com pressa e sem consideração; mas o que falamos mal com pressa, devemos arrepender-nos com calma, sobretudo aquilo que falamos com desconfiança a respeito de Deus. — Matthew Henry.

Eu disse na minha pressa. Às vezes surge uma paixão súbita, e sai em palavras iradas e ásperas, pondo tudo em alvoroço e combustão: logo depois nossos corações se voltam contra nós, e então desejamos: "Ah, quem me dera ter mordido a língua, e não lhe ter dado tal liberdade desenfreada." Às vezes irrompemos em censuras precipitadas contra alguns que talvez sejam melhores do que nós mesmos, e, ao refletirmos sobre isso, ficamos envergonhados de que a flecha do tolo tenha sido disparada tão depressa, e desejamos ter estado nos julgando a nós mesmos quando estávamos censurando nossos irmãos. — Richard Alleine.

Contudo, tu ouviste a voz das minhas súplicas quando a ti clamei. Como se dissesse: quando orei com tão pouca fé que, por assim dizer, desfiz minha própria oração, concluindo meu caso como algo desesperado; ainda assim Deus perdoou meu espírito apressado, e me deu aquela misericórdia que eu quase não tinha fé para esperar; e que uso faz ele desta experiência, senão levantar a esperança de todo santo em tempo de necessidade? "Esforçai-vos, e ele fortalecerá o vosso coração, todos vós que esperais no SENHOR." — William Gurnall.

Ele confessa a grande angústia em que estava, e quão fraca era a sua fé sob a tentação; isto faz para sua própria vergonha, para que possa dar maior glória a Deus. Daí aprendemos: primeiro, a fé dos piadosos pode ser afrouxada, e até a fé mais forte pode, às vezes, mostrar sua fraqueza. Eu disse na minha pressa, estou cortado de diante dos teus olhos. Segundo, ainda que a fé seja abalada, ela está fixa na raiz, como uma árvore batida pelo vento, mas que mantém firme agarramento a um bom solo. Ainda que a fé pareça ceder, não falha; e mesmo em seu momento mais fraco, ela se manifesta em algum ato, como um lutador; pois aqui a expressão da fraqueza da fé de Davi é dirigida a Deus, junto com sua oração fervorosa: estou cortado de diante dos teus olhos: contudo, tu ouviste a voz das minhas súplicas.

Terceiro, a fé que ora, por mais fraca que seja, não será desconsiderada por Deus; pois, "contudo", diz ele, "tu ouviste a voz das minhas súplicas". Quarto, pode haver numa alma, ao mesmo tempo, tanto a tristeza que oprime quanto a esperança que sustenta; tanto a escuridão da tribulação quanto a luz da fé; tanto a dúvida desesperada quanto o firme agarramento à verdade e à bondade de Deus; tanto um desfalecer quanto um lutar; uma aparente cedência na luta, e ainda assim uma fé que se esforça contra toda oposição; tanto uma pressa insensata quanto uma firmeza constante da fé; como aqui: eu disse na minha pressa, etc. — David Dickson.

Davi expressa seu espanto pela condescendência do Senhor em ouvir sua oração. Como nos admiramos da bondade de um homem qualquer ao atender nossos desejos! Quanto mais devemos admirar-nos da humildade e da bondade da mais soberana Majestade dos céus e da terra! — Stephen Charnock.

Versículo 23Salmo 31:23

Amai o SENHOR, todos vós, seus santos. O santo salmista, nestas palavras, com todo o calor de um zelo afetuoso, nos incita ao amor de Deus, que é a paixão incomparavelmente mais nobre de uma mente razoável, sua glória mais brilhante e sua mais requintada felicidade; e é, como fica evidente pela natureza da coisa, e por toda a extensão da revelação divina, o resumo abrangente daquele dever que devemos ao nosso Criador, e a própria alma que anima uma vida religiosa: que "amemos o Senhor com todo o nosso coração, e força, e mente." — William Dunlap, A.M., 1692-1720.

Ó amai o SENHOR, todos vós, seus santos, etc. Algumas poucas palavras devem ser atendidas para o esclarecimento do sentido. "Santos", no texto, pode ser lido como "vós que sentis misericórdias". "Fiéis" é palavra que às vezes se toma por pessoas, às vezes por coisas; e assim se diz que o Senhor preserva homens verdadeiros, e verdades, homens fiéis, e fidelidades. Ele retribui abundantemente ao que procede com soberba; ou, o Senhor retribui abundantemente; o Senhor, que faz coisas maravilhosas.

"Abundantemente" é ou in cumulum (em acúmulo), abunde (com fartura), ou in nepotes (para os netos), como alguns prefeririam; mas eu antes elogiaria do que tentaria emendar traduções: embora desejasse que algumas das horas de contenda de meus doutos irmãos fossem antes gastas em esclarecer os originais, e assim transmitir a pura Escritura à posteridade, do que em arranhar uns aos outros com suas penas afiadas, fazendo dos púlpitos rinhas de galo. — Hugh Peter, "Sermão pregado diante de ambas as Casas do Parlamento," do Lorde Prefeito e dos Vereadores da Cidade de Londres, e da Assembleia de Teólogos, no último Dia de Ação de Graças, 2 de abril, pela recuperação do Oeste, e a dissolução de cinco mil cavalarianos do Rei, etc., 1645.

E retribui abundantemente ao que procede com soberba. A próxima pergunta é: como Deus retribui ao que procede com soberba? Nisso, ainda que os procedimentos do Senhor sejam diversos, e muitas vezes seus caminhos estejam nas nuvens, e seus juízos, no abismo, e o último centavo será pago ao soberbo no grande dia; ainda assim ele nos deixou saber tanto de sua mente que, mesmo nesta vida, ele dá algo aos soberbos, a que chama "o dia da retribuição", que costuma se manifestar nestes pontos particulares:

Primeiro, por via de retaliação — pois Adoni-Bezeque, que gostava de cortar polegares, teve seus próprios polegares cortados, Juízes 1:7. Assim também os pobres judeus que gritavam tão alto, "Crucifica-o, crucifica-o", foram, muitos deles, tantos os crucificados que, se acreditarmos em Josefo, não havia madeira suficiente para fazer cruzes, nem, no lugar de costume, espaço suficiente para erguer as cruzes já feitas. Ciladas se armam, e covas se cavam, geralmente pelos soberbos para si mesmos, do que a Escritura, do princípio ao fim, dá testemunho abundante.

Segundo, por decepções vergonhosas, raramente colhendo o que semeiam, nem comendo o que caçam, o que fica mais claro no Estado judaico, quando Cristo estava entre eles. Judas o trai para conseguir dinheiro, e mal viveu o suficiente para gastá-lo. Pilatos, para agradar a César, resiste a todos os conselhos contra isso, e cede àquele assassinato, pelo qual arruinou tanto a si mesmo quanto a César. Os sacerdotes judeus, para manter aquele domínio e honra (que julgavam ter sido roubados deles pelo filho de José e Maria) clamaram alto pela sua morte, o que se provou sepultura para eles e sua glória.

E o pobre povo que o crucificou (por temor de que os romanos tomassem sua cidade) teve, pela morte dele, suas portas abertas aos romanos — sim, o próprio César, temendo uma grande mudança em seu governo por causa de Cristo viver perto dele (o que hoje ainda coloca toda a arte de governar do mundo em movimento), sofreu tal mudança que, em breve, não tinha nem coroa nem cetro de que se gabar, se você ler a história de Tito e Vespasiano — tudo isso, tratos de Deus com os soberbos, é exposto a nós de modo elegantíssimo pelo salmista: "Eis que ele está com dores de parto de iniquidade, e concebeu maldade, e deu à luz falsidade. Cavou uma cova, e a escavou, e caiu na cova que fez." — Hugh Peters.

Versículo 24Salmo 31:24

Esforçai-vos. A coragem cristã pode ser descrita assim: é a audácia destemida de um coração santificado ao se lançar em dificuldades e suportar durezas por uma boa causa, ao chamado de Deus. O gênero, a natureza comum dela, é uma audácia destemida. Este ânimo, como alguns o chamam, é comum tanto aos homens quanto a alguns animais. Diz-se que o leão é o mais forte entre os animais, que não recua diante de nada, Provérbios 30:30. E há uma elegante descrição do cavalo de guerra quanto à sua ousadia, Jó 39:19 e seguintes. E esta ousadia que existe nos animais é apresentada como uma parcela desta mesma coragem que Deus se apraz em dar aos homens, Ezequiel 3:9. Esta é a promessa do Senhor: "Como diamante, mais duro do que o sílex, fiz a tua testa." A palavra "mais duro" é a mesma, em hebraico, que aqui em meu texto — fortiorem petra (mais forte que a rocha) — a rocha que não teme intempérie alguma, verão ou inverno, sol e chuva, calor e frio, geada e neve; não cora, não recua, não muda sua compleição, é sempre a mesma. Coisa semelhante é a coragem, em sua natureza comum.

Segundo, considere o sujeito: é o coração, o castelo onde a coragem comanda e exerce disciplina militar; está, por assim dizer, dentro do peito, é a alma do soldado valente. Alguns entendem que a nossa palavra "coragem" deriva de cordis actio, a própria ação do coração. Um homem valente é descrito, 2 Samuel 17:10, como um homem cujo coração é como o coração de um leão. E, às vezes, o original traduzido por "corajoso", como em Amós 2:16, pode com mais propriedade ser vertido como "homem de coração". Amados, o valor não consiste num olhar penetrante, num semblante terrível, em palavras grandiosas; mas consiste na fibra, no vigor que está dentro do peito. Às vezes um covarde pode morar sob o signo de uma voz rugidora e de um semblante severo; ao passo que a verdadeira fortaleza pode se encontrar no peito daquele cujo comportamento externo promete pouco ou nada disso.

Terceiro, note a qualificação deste mesmo sujeito; eu disse "um coração santificado"; pois não estou agora falando da fortaleza como virtude moral, da qual são capazes os pagãos que não têm Deus, e pela qual muitos, entre os que não são cristãos, foram dignamente elogiados. Mas estou agora discorrendo sobre a coragem como virtude teológica, como qualificação graciosa, dada ao povo de Deus por aliança especial. E há três coisas que a caracterizam, e que a distinguem da virtude moral da fortaleza: primeiro, a raiz de onde brota; segundo, a regra pela qual é dirigida; terceiro, o fim ao qual se refere.

A raiz de onde brota é o amor a Deus: todos os santos de Deus que amam ao Senhor, esforcem-se. O amor de Cristo me constrange a fazer estas empreitadas ousadas e valentes, diz o apóstolo, 2 Coríntios 5:14. A regra pela qual é dirigida é a palavra de Deus — o que o Senhor se agradou de deixar registrado nas páginas santas para orientação do cristão, 1 Crônicas 22:12-13: "Somente te dê o SENHOR sabedoria e entendimento, e te dê ele mandado acerca de Israel, para que guardes a lei do SENHOR teu Deus. Então prosperarás, se tiveres cuidado de cumprir os estatutos e os juízos que o SENHOR ordenou a Moisés acerca de Israel: sê forte, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes." Sê homem de fibra, mas que a tua fibra seja segundo o meu pensamento, segundo esta regra.

E o fim ao qual se refere é Deus. Pois todo homem santificado, sendo homem que se nega a si mesmo e que engrandece a Deus, tem em Deus o seu centro, onde repousam seus atos e seus empreendimentos; e sua alma não se satisfaz, sim, não pode se satisfazer, senão em Deus. — Simeon Ash, "Sermão pregado diante dos Comandantes das Forças Militares da renomada Cidade de Londres, 1642."

Esforçai-vos. Devo sugerir alguns dos serviços pesados que são impostos sobre todas as nossas consciências? A obra da mortificação, de arrancar os próprios olhos, de decepar as próprias mãos, de cortar os próprios pés; você acha que um fraco de espírito, um homem que não tem ânimo forte, fará isso? Ora, massacrar as concupiscências carnais é (por assim dizer) para um homem, retalhar e desmembrar o próprio corpo; é obra dolorosa e penosa, como para um homem cortar os próprios pés, decepar as próprias mãos, e arrancar os próprios olhos, como Cristo e o apóstolo Paulo o expressam.

Além disso, há, no peito do cristão, fortalezas a serem batidas, fortificações a serem demolidas; há colinas altas e montanhas que devem ser niveladas ao chão; há trincheiras a serem feitas, vales a serem aterrados. Ó amados, nem preciso mencionar as colinas que se erguem diante de nós no caminho do céu, que devemos escalar, e os rochedos escarpados que devemos superar; e, sem coragem, certamente a obra posta em nossas mãos não será cumprida.

Há também os muros de Jerusalém a serem reparados, e o templo a ser reedificado novamente. Se Neemias não tivesse sido homem de espírito valente, jamais teria levado a cabo aquela obra da igreja, aqueles serviços pesados que empreendeu. Como isto se aplica a nós no tempo presente, no tempo de nossa reforma já começada, não digo, mas antes remeto à consideração de vocês. Peço-lhes que leiam Neemias 4:17-18: "Os que edificavam no muro, e os que traziam as cargas, e os que carregavam, cada um com uma das mãos fazia a obra, e na outra tinha a arma. E, quanto aos edificadores, cada um trazia a sua espada cingida aos lombos, e assim edificava; e o que tocava a trombeta estava junto a mim." Enquanto trabalhavam, estavam todos prontos para a guerra. — Simeon Ash.

E ele fortalecerá o vosso coração. Lança-te tu mesmo, com ousada empreitada, por ele, e sua providência será docemente exercida para o teu bem. Um digno comandante, quão cuidadoso é ele com um bravo soldado, um homem que lutará à boca do canhão! Ouve ele dizer que um osso está quebrado? Manda chamar o ossologista. Está ele por sangrar até a morte? Chama o cirurgião; que corra depressa para evitar aquele perigo. Vai ele enfraquecendo cada vez mais? Há algo no acampamento que possa restaurar seu ânimo? Não recuses nada; nada é bom demais, caro demais; quisesse ele comer ouro, tê-lo-ia.

Assim é com Deus. Ah, que cartas de louvor ele dá, na manifestação de seu próprio amor por eles em Pérgamo, precisamente neste fundamento: "Tu", diz o Senhor, "tu sustentaste o meu nome, e não o negaste, mesmo naqueles dias em que Antipas, minha fiel testemunha, foi morto entre vós, onde Satanás habita!" Tu lutaste por Cristo na cova onde o diabo dava as ordens; tu ficaste firme e te manifestaste por ele quando outros homens perderam o ânimo e a coragem. Eis um homem que Deus reconhecerá; um tal terá o coração e a mão de Deus, para lhe fazer honra, para lhe dar consolo. E, por isso, apelo à consciência de vocês: não vale a pena ter esta coragem? Não vale a pena buscá-la? — Simeon Ash.

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