Salmo 51
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TÍTULO. Ao Músico-Chefe. Portanto, não foi escrito apenas para a meditação privada, mas para o culto público, para ser cantado. Apropriado para a solidão do arrependimento individual, este Salmo incomparável serve igualmente bem a uma assembleia de pobres de espírito. Um Salmo de Davi. É de admirar, mas é fato: houve quem negasse a autoria davídica deste Salmo. Suas objeções, porém, são frívolas — o Salmo é davídico da primeira à última linha. Seria bem mais fácil imitar Milton, Shakespeare ou Tennyson do que Davi. Seu estilo é inteiramente sui generis, tão facilmente reconhecível quanto o traço de Rafael ou o colorido de Rubens.
Quando o profeta Natã veio a ele, depois que este havia se chegado a Bate-Seba. Quando a mensagem divina despertou sua consciência adormecida e o fez ver a grandeza de sua culpa, ele escreveu este Salmo. Havia esquecido seus salmos enquanto se entregava à carne, mas voltou à harpa quando sua natureza espiritual despertou, e derramou seu cântico ao som de suspiros e lágrimas.
O grande pecado de Davi não deve ser desculpado, mas convém lembrar que seu caso reúne um conjunto excepcional de particularidades. Era homem de paixões muito fortes, soldado, monarca oriental com poder despótico; nenhum outro rei de seu tempo sentiria remorso algum por agir como ele agiu — e, por isso, não havia ao seu redor aquelas amarras de costume e convívio que, quando rompidas, tornam a ofensa ainda mais monstruosa. Ele jamais insinua qualquer atenuante, e não mencionamos esses fatos para desculpar seu pecado, detestável ao mais alto grau, mas para advertir os outros: que reflitam que a mesma libertinagem, hoje, em si mesmos, pode conter culpa ainda mais grave do que a do rei extraviado de Israel.
Ao lembrarmos seu pecado, detenhamo-nos sobretudo em seu arrependimento e na longa série de castigos que fizeram do restante de sua vida uma história tão pesarosa.
DIVISÃO. Será mais simples observar, nos primeiros doze versículos, as confissões do penitente e seu apelo por perdão, e depois, nos últimos sete, sua gratidão antecipada e o modo como resolve manifestá-la.
Exposição
Versículo 1Salmo 51:1
Tem misericórdia de mim, ó Deus. Ele apela de imediato à misericórdia de Deus, ainda antes de mencionar seu pecado. A visão da misericórdia é boa para os olhos doloridos pelo choro penitencial. O perdão do pecado há de ser sempre um ato de pura misericórdia, e é por isso que o pecador despertado corre a esse atributo. Segundo a tua benignidade. Age, Senhor, como és; concede misericórdia como a tua misericórdia. Mostra misericórdia condizente com a tua graça.
Grande Deus, tua natureza não tem limite: Que assim se ache o teu amor que perdoa.
Que palavra escolhida é essa de nossa versão inglesa, um raro composto de coisas preciosas: amor e bondade docemente unidos em um só termo — "benignidade".
Segundo a multidão das tuas ternas misericórdias. Que as tuas mais amorosas compaixões venham a mim, e que teus perdões sejam tais como estas sugerem. Revela todos os teus atributos mais brandos em meu caso, não só em essência, mas em abundância. Inumeráveis têm sido os teus atos de bondade, e vasta é a tua graça; que eu seja objeto de tua misericórdia infinita, e que a repitas toda em mim. Faze do meu caso, sozinho, um epítome de todas as tuas ternas misericórdias.
Por cada obra de graça concedida a outros, sinto-me encorajado, e rogo-te que me deixes acrescentar mais uma, e ainda maior, em minha própria pessoa, à longa lista de tuas compaixões.
Apaga as minhas transgressões. Minhas revoltas, meus excessos, estão todos registrados contra mim; mas, Senhor, apaga as linhas. Passa tua pena sobre o registro. Apaga o registro, ainda que agora pareça gravado na rocha para sempre; muitos golpes de tua misericórdia podem ser necessários para riscar a funda inscrição, mas tu tens uma multidão de misericórdias, e por isso, eu te suplico, apaga os meus pecados.
Versículo 2Salmo 51:2
Lava-me completamente. Não basta apagar o pecado; sua pessoa está manchada, e ele bem que desejaria ser purificado. Queria que o próprio Deus o limpasse, pois só ele poderia fazê-lo eficazmente. A lavagem há de ser completa, há de ser repetida; por isso clama: "Multiplica o lavar-me." O tingimento é em si imóvel, e eu, o pecador, jazi nele por tanto tempo que o carmesim se entranhou; mas, Senhor, lava, e lava, e lava outra vez, até que a última mancha se vá, e não reste vestígio algum da minha impureza.
O hipócrita contenta-se se suas vestes forem lavadas, mas o verdadeiro suplicante clama: "lava-me". A alma descuidada contenta-se com uma limpeza nominal, mas a consciência verdadeiramente despertada deseja uma lavagem real e prática, e da espécie mais completa e eficaz.
Lava-me completamente da minha iniquidade. Isso é visto como uma grande poluição só, que contamina toda a sua natureza, e como algo inteiramente seu — como se nada fosse tão seu quanto o seu pecado. O único pecado contra Bate-Seba serviu para mostrar ao salmista toda a montanha de sua iniquidade, da qual aquele ato vil foi apenas uma pedra que rolou.
Deseja livrar-se de toda a massa de sua imundícia, que, embora antes tão pouco notada, tornara-se então um terror hediondo e obsessivo para sua mente.
E purifica-me do meu pecado. Trata-se de uma expressão mais geral, como se o salmista dissesse: "Senhor, se lavar não bastar, tenta outro processo; se a água não vale, que se experimente o fogo, que se experimente qualquer coisa, contanto que eu seja purificado. Livra-me do meu pecado por algum meio, por qualquer meio, por todo meio, mas purifica-me por completo, e não deixes culpa alguma sobre minha alma."
Não é contra o castigo que ele clama, mas contra o pecado. Muitos assassinos temem mais a forca do que o assassinato que a eles os levou. O ladrão ama o roubo, ainda que tema a prisão.
Não assim Davi: ele está enojado do pecado como pecado; seus mais altos clamores são contra o mal de sua transgressão, e não contra as dolorosas consequências dela. Quando lidamos a sério com o nosso pecado, Deus lidará com brandura conosco. Quando odiamos o que o Senhor odeia, ele logo lhe porá fim, para nossa alegria e paz.
Versículo 3Salmo 51:3
Porque eu reconheço as minhas transgressões. Aqui ele vê a pluralidade e o número imenso de seus pecados, e faz deles declaração aberta. Parece dizer: faço deles confissão completa. Não que isto seja meu argumento ao buscar perdão, mas é evidência clara de que preciso de misericórdia, e sou de todo incapaz de buscar ajuda em qualquer outra parte. Ao declarar-me culpado, fechei-me qualquer recurso contra a sentença da justiça: ó Senhor, preciso lançar-me sobre a tua misericórdia; não me recuses, eu te suplico. Tu me fizeste disposto a confessar. Ah, continua esta obra de graça com uma remissão plena e livre!
E o meu pecado está sempre diante de mim. Meu pecado como um todo jamais sai de minha mente; oprime continuamente meu espírito. Eu o ponho diante de ti porque ele está sempre diante de mim: Senhor, tira-o tanto de ti quanto de mim. Para uma consciência despertada, a dor por causa do pecado não é passageira nem ocasional, mas intensa e permanente — e isso não é sinal da ira divina, mas sim um seguro prenúncio de abundante favor.
Versículo 4Salmo 51:4
Contra ti, contra ti somente pequei. O veneno do pecado está em sua oposição a Deus: o senso que o salmista tinha do pecado contra outros antes reforçava esse sentimento do pecado contra Deus. Toda a sua má ação centrou-se, culminou e chegou ao seu clímax aos pés do trono divino. Ferir nossos semelhantes é pecado, principalmente porque, ao fazê-lo, violamos a lei de Deus. O coração do penitente estava tão tomado pelo senso do mal feito ao próprio Senhor, que toda outra confissão se via engolida num reconhecimento de coração partido pela ofensa contra ele.
E fiz o que é mal diante dos teus olhos. Cometer traição na própria corte do rei e diante de seus olhos é insolência de fato: Davi sentia que seu pecado fora cometido em toda a sua imundícia enquanto o próprio Jeová olhava. Só um filho de Deus se importa com o olhar de Deus, mas onde há graça na alma, ela reflete uma culpa terrível sobre cada ato mau, quando lembramos que o Deus a quem ofendemos estava presente quando o delito foi cometido.
Para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Ele não podia apresentar argumento algum contra a justiça divina, ainda que ela procedesse de imediato a condená-lo e puni-lo por seu crime. Sua própria confissão, e o testemunho do próprio juiz sobre toda a transação, colocam a transgressão além de qualquer questão ou debate; a iniquidade foi indiscutivelmente cometida, e foi inquestionavelmente um mal hediondo, e por isso o curso da justiça era claro e além de toda controvérsia.
Versículo 5Salmo 51:5
Eis que fui formado em iniquidade. Fica atônito com a descoberta de seu pecado inato, e passa a expô-lo. Isso não pretendia justificá-lo, mas antes completar a confissão. É como se dissesse: não só pequei desta vez, mas sou, por natureza, um pecador. A fonte de minha vida está poluída, tanto quanto as suas correntes. Minhas tendências de nascença estão fora do esquadro da equidade; inclino-me naturalmente às coisas proibidas. A minha é uma doença constitucional, que torna minha própria pessoa detestável à tua ira.
E em pecado me concebeu minha mãe. Volta ao momento mais primitivo do seu ser, não para caluniar sua mãe, mas para reconhecer as raízes profundas de seu pecado. É uma torção maldosa da Escritura negar que o pecado original e a depravação natural sejam aqui ensinados. Decerto os que cavilam contra essa doutrina precisam ser ensinados pelo Espírito Santo quanto aos primeiros princípios da fé. A mãe de Davi era serva do Senhor, ele nasceu em casto matrimônio, de bom pai, e ele mesmo era "o homem segundo o coração de Deus"; e ainda assim sua natureza era tão caída quanto a de qualquer outro filho de Adão, e bastou a ocasião para manifestar esse triste fato. Em nossa formação fomos deformados, e quando fomos concebidos, nossa natureza concebeu o pecado. Ai da pobre humanidade! Apregoem-na os que quiserem, mas bem-aventurado é aquele que, em sua própria alma, aprendeu a lamentar sua condição perdida.
Versículo 6Salmo 51:6
Eis. Aqui está o grande assunto para reflexão. Deus não deseja apenas virtude exterior, mas pureza interior, e o senso de pecado do penitente se aprofunda ainda mais quando, como que espantado, ele descobre essa verdade, e o quanto está longe de satisfazer a exigência divina. O segundo "eis" contrapõe-se propositalmente ao primeiro: como é grande o abismo que se abre entre eles!
Tu desejas a verdade no íntimo. Realidade, sinceridade, verdadeira santidade, fidelidade de coração — estas são as exigências de Deus. Ele não se importa com a aparência de pureza; olha para a mente, o coração e a alma. Sempre o Santo de Israel avaliou os homens por sua natureza interior, e não por suas professões exteriores; para ele, o íntimo é tão visível quanto o exterior, e julga com razão que o caráter essencial de uma ação está no motivo de quem a pratica.
E no oculto me farás conhecer a sabedoria. O penitente sente que Deus lhe ensina uma verdade sobre sua natureza que antes não percebia. O amor do coração, o mistério de sua queda, e o caminho de sua purificação — esta sabedoria oculta todos devemos alcançar; e é grande bênção poder crer que o Senhor "nos fará conhecê-la". Ninguém pode ensinar nossa natureza mais íntima senão o Senhor, mas ele pode instruir-nos com proveito. O Espírito Santo pode escrever a lei em nosso coração, e essa é a soma da sabedoria prática. Pode pôr o temor do Senhor por dentro, e esse é o princípio da sabedoria. Pode revelar Cristo em nós, e ele é a sabedoria essencial. Almas tão pobres, tolas e desarranjadas como as nossas ainda serão postas em ordem, e a verdade e a sabedoria reinarão em nosso interior.
Versículo 7Salmo 51:7
Purifica-me com hissopo. Aspergi sobre mim o sangue expiatório pelos meios instituídos. Dá-me a realidade que as cerimônias legais simbolizam. Nada senão sangue pode tirar minhas manchas de sangue; nada senão a mais forte purificação pode valer para me purificar.
Que a oferta pelo pecado purgue o meu pecado. Que aquele que foi designado para expiar exerça sobre mim seu sagrado ofício; pois ninguém precisa dele mais do que eu.
A passagem pode ser lida tanto como voz de fé quanto como oração, e assim se leria: "Tu me purgarás com hissopo, e ficarei limpo." Imundo como sou, há tal poder na propiciação divina, que meu pecado há de desvanecer-se por completo.
Como o leproso sobre quem o sacerdote realizou os ritos de purificação, serei outra vez admitido na assembleia do teu povo e poderei compartilhar dos privilégios do verdadeiro Israel; e também diante de teus olhos, por meio de Jesus meu Senhor, serei aceito.
Lava-me. Que não seja apenas em figura que eu esteja limpo, mas por uma purificação espiritual real, que remova a poluição da minha natureza. Que o processo de santificação, tanto quanto o de perdão, se aperfeiçoe em mim. Salva-me dos males que meu pecado criou e nutriu em mim.
E ficarei mais branco que a neve. Ninguém além de ti pode branquear-me, mas tu, em graça, podes superar a própria natureza em seu estado mais puro. A neve logo recolhe fumaça e poeira, derrete-se e desaparece; tu podes dar-me uma pureza duradoura.
Ainda que a neve seja branca por dentro tanto quanto na superfície externa, podes operar em mim igual pureza interior, e tornar-me tão limpo que só uma hipérbole poderá expressar minha condição imaculada. Senhor, faze isso; minha fé crê que o farás, e bem sabe que podes.
Dificilmente a Sagrada Escritura contém um versículo mais cheio de fé do que este. Considerando a natureza do pecado, e o senso profundo que o salmista tinha dele, é uma fé gloriosa poder ver no sangue mérito suficiente — antes, plenamente suficiente — para purgá-lo por completo.
Considerando também a profunda corrupção natural e inata que Davi via e experimentava por dentro, é um milagre de fé que ele pudesse alegrar-se na esperança de perfeita pureza em seu íntimo.
Acrescente-se, porém, que essa fé não é maior do que a palavra garante, do que o sangue da expiação encoraja, do que a promessa de Deus merece. Que algum leitor, mesmo agora, ainda a arder sob o pecado, ganhe ânimo para fazer ao Senhor a honra de confiar tão firmemente no sacrifício consumado do Calvário e na infinita misericórdia ali revelada.
Versículo 8Salmo 51:8
Faze-me ouvir júbilo e alegria. Ele ora sobre sua tristeza tarde no Salmo; começou de imediato com seu pecado; pede para ouvir o perdão, e só depois pede para ouvir a alegria. Busca consolo no tempo certo e na fonte certa.
Seu ouvido se tornara pesado de tanto pecar, e por isso ora: "Faze-me ouvir." Nenhuma voz poderia reviver suas alegrias mortas, senão aquela que vivifica os mortos.
O perdão de Deus lhe daria dupla alegria — "júbilo e alegria." Nenhuma bem-aventurança mesquinha aguarda o perdoado; ele não só terá uma alegria duplamente florescente, como a ouvirá; ela cantará com exultação.
Há alegria que se sente, mas não se ouve, pois contende com temores; mas a alegria do perdão tem uma voz mais alta que a voz do pecado. A voz de Deus falando paz é a música mais doce que um ouvido pode escutar.
Para que se regozijem os ossos que tu quebraste. Ele era como um pobre desgraçado cujos ossos estão esmagados, esmagados não por meios comuns, mas pela própria onipotência.
Ele gemia não sob meras feridas da carne; suas forças mais firmes, e ao mesmo tempo mais sensíveis, foram "despedaçadas por completo"; sua masculinidade se tornara uma sensibilidade deslocada, dilacerada, trêmula.
Contudo, se aquele que esmagou também curasse, cada ferida se tornaria uma nova boca para o canto, e cada osso que antes tremia de agonia se tornaria igualmente sensível a intenso deleite.
A figura é ousada, e ousado é também o suplicante. Ele pede algo grande; busca alegria para um coração pecador, música para ossos esmagados. Oração absurda em qualquer lugar, senão ao trono de Deus! E ali mesmo seria a mais absurda de todas, não fosse a cruz onde Jeová Jesus levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro.
Um penitente não precisa pedir para ser servo contratado, nem se acomodar num contentamento desesperado de luto perpétuo; pode pedir alegria, e a terá; pois, se quando os pródigos voltam o pai se alegra, e os vizinhos e amigos se regozijam e se alegram com música e dança, que necessidade haveria de que o próprio restaurado ficasse desgraçado?
Versículo 9Salmo 51:9
Esconde a tua face dos meus pecados. Não olhes para eles; esforça-te por não os ver. Eles se impõem no caminho; mas, Senhor, recusa-te a contemplá-los, para que, se os consideras, tua ira não se acenda, e eu morra.
Apaga todas as minhas iniquidades. Repete a oração do primeiro versículo, ampliando-a com a palavra "todas". Nem toda repetição é "vã repetição". Almas em agonia não têm espaço para variar a linguagem: a dor tem de contentar-se com um único tom. O rosto de Davi se envergonhava ao olhar para seu pecado, e nenhum pensamento diversório conseguia removê-lo de sua memória; por isso ele roga ao Senhor que faça com seu pecado o que ele mesmo não pode fazer. Se Deus não escondesse sua face do nosso pecado, teria de escondê-la de nós para sempre; e se ele não apaga os nossos pecados, terá de apagar nosso nome do livro da vida.
Versículo 10Salmo 51:10
Cria. O quê! O pecado nos destruiu de tal modo que o Criador precisa ser chamado outra vez? Que ruína, então, o mal opera entre os homens!
Cria em mim. Eu, em minha estrutura exterior, ainda existo; mas estou vazio, deserto, oco. Vem, pois, e que teu poder se manifeste numa nova criação dentro do meu velho eu caído. Tu fizeste um homem no mundo no princípio; Senhor, faze um novo homem em mim!
Um coração puro. No sétimo versículo pediu para ser limpo; agora busca um coração à altura dessa limpeza; mas não diz "purifica meu velho coração" — é experiente demais quanto à impossibilidade de remediar a velha natureza. Ele gostaria que o velho homem fosse sepultado como coisa morta, e que uma nova criação viesse ocupar seu lugar. Ninguém além de Deus pode criar um coração novo, assim como uma terra nova. A salvação é uma manifestação maravilhosa do poder supremo; a obra dentro de nós é tão inteiramente da Onipotência quanto a obra realizada por nós.
Os afetos precisam ser corrigidos primeiro, ou toda a nossa natureza se desviará. O coração é o leme da alma, e até que o Senhor o tome em mãos, navegamos em rumo falso e sujo. Ó Senhor, tu que uma vez me fizeste, agrada-te de me refazer, e renova-me nas minhas partes mais secretas.
Renova um espírito reto dentro de mim. Ele já esteve ali, Senhor; põe-no ali de novo. A lei em meu coração tornou-se como uma inscrição difícil de ler: reescreve-a, ó Criador gracioso. Remove o mal, como te tenho suplicado; mas, substitui-o pelo bem, para que em meu coração varrido, vazio e enfeitado, de onde o diabo saiu por um tempo, não entrem e habitem sete outros espíritos piores que o primeiro. As duas frases formam uma oração completa: criar o que ali não existe de todo; renovar o que ali existe, mas em estado tristemente débil.
Versículo 11Salmo 51:11
Não me lances fora da tua presença. Não me joguem fora como algo sem valor; não me bane, como a Caim, da tua face e do teu favor. Permite que eu me assente entre os que compartilham o teu amor, ainda que só me seja permitido guardar a porta. Mereço ser para sempre excluído de teus átrios; mas, ó bom Senhor, permite-me ainda o privilégio que é para mim tão caro quanto a própria vida.
Não tires de mim o teu Espírito Santo. Não retires seus consolos, conselhos, socorros e vivificações; do contrário, sou de fato um homem morto. Não me deixes como deixaste Saul, quando nem por Urim, nem por profeta, nem por sonho quiseste responder-lhe. Teu Espírito é minha sabedoria — não me deixes na minha loucura; ele é minha força — não me abandones à minha própria fraqueza. Não me afastes de ti, e nem tu te afastes de mim. Mantém a união entre nós, que é minha única esperança de salvação. Será grande maravilha se um espírito tão puro se digna a permanecer num coração tão vil quanto o meu; mas, Senhor, tudo isso já é uma só maravilha; por isso faze-o, pela tua misericórdia, eu te suplico com fervor.
Versículo 12Salmo 51:12
Restitui-me o júbilo da tua salvação. Conhecera a salvação, e a conhecera como obra do próprio Senhor; sentira também o júbilo que nasce de ser salvo no Senhor, mas o perdera por um tempo, e por isso ansiava por sua restauração. Ninguém além de Deus pode devolver esse júbilo; ele pode fazê-lo; nós podemos pedi-lo; ele o fará para sua própria glória e para nosso benefício. Esse júbilo não vem primeiro, mas segue o perdão e a pureza: nessa ordem é seguro; em qualquer outra, é presunção vã ou delírio insensato.
E sustenta-me com o teu espírito voluntário. Consciente da fraqueza, lembrado de sua queda tão recente, ele busca ser mantido de pé por um poder superior ao seu. Aquele Espírito régio, cuja santidade é verdadeira dignidade, é capaz de nos fazer andar como reis e sacerdotes, em toda a retidão da santidade; e assim o fará, se buscarmos seu gracioso sustento. Tais influências não nos escravizam, mas nos emancipam; pois a santidade é liberdade, e o Espírito Santo é um Espírito livre. Nos caminhos mais ásperos e traiçoeiros, estamos seguros com tal Guarda; nas melhores veredas, tropeçamos se deixados a nós mesmos. Pedir júbilo e pedir sustento andam bem juntos; tudo se perde do júbilo se o pé não é guardado; e, por outro lado, o júbilo é algo que muito sustenta, e grandemente auxilia a santidade; entretanto, o Espírito livre, nobre e régio está na raiz de ambos.
Versículo 13Salmo 51:13
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos. Era sua firme resolução ser mestre de outros; e certamente ninguém instrui os demais tão bem quanto aqueles que foram, por experiência própria, ensinados por Deus. Caçadores furtivos recuperados fazem os melhores guardas-florestais. O grau de P.S., ou Pecador Salvo, é mais necessário a um evangelista que ganha almas do que qualquer título acadêmico. A matéria do pecador perdoado será boa, pois foi ensinado na escola da experiência, e sua maneira será tocante, pois falará com simpatia, como quem sentiu o que declara.
O público que o salmista escolheria é memorável — ele instruiria transgressores como ele mesmo; outros talvez os desprezassem, mas "uma dor em comum nos torna maravilhosamente bondosos". Se indigno de edificar santos, ele se insinuaria junto aos pecadores, e humildemente lhes falaria do amor divino. A misericórdia de Deus para com um é ilustração de seu proceder habitual, de modo que o nosso próprio caso nos ajuda a entender os seus "caminhos", ou seus modos gerais de agir; talvez também Davi, com esse termo, se refira à parte preceptiva da palavra de Deus, a qual, tendo ele quebrado e por causa dela sofrido, sentia que podia defender e recomendar à reverência de outros ofensores.
E os pecadores se converterão a ti. Minha queda será a restauração de outros. Tu abençoarás meu testemunho comovente para a recuperação de muitos que, como eu, se desviaram para caminhos tortuosos. Sem dúvida este Salmo, e toda a história de Davi, têm produzido, por muitas eras, os mais salutares resultados na conversão de transgressores, e assim o mal tem sido convertido em bem.
Versículo 14Salmo 51:14
Livra-me da culpa de sangue. Ele fora instrumento da morte de Urias, o heteu, seguidor fiel e devotado, e agora confessa esse fato. Além disso, seu pecado de adultério era crime capital, e ele se coloca entre os que merecem a morte. Penitentes sinceros não dão voltas nem confessam seus pecados numa elegante perífrase; vão direto ao ponto, chamam as coisas pelo nome, e fazem confissão plena. Que outro caminho é razoável ao lidar com o Onisciente?
Ó Deus, tu Deus da minha salvação. Ele não se atrevera a chegar tão perto antes. Até aqui fora "ó Deus"; mas agora clama: Tu, Deus da minha salvação. A fé cresce pelo exercício da oração. Ele confessa o pecado mais claramente neste versículo do que antes, e ainda assim trata com Deus com mais confiança: crescer para cima e para baixo ao mesmo tempo é perfeitamente coerente. Só o Rei pode remitir a pena de morte; é, pois, alegria para a fé que Deus seja Rei, e que ele seja o autor e consumador de nossa salvação.
E a minha língua cantará em alta voz a tua justiça. Esperar-se-ia antes que ele dissesse: cantarei da tua misericórdia; mas Davi enxerga o modo divino de justificação, aquela justiça de Deus da qual Paulo mais tarde falaria, pela qual os ímpios são justificados, e promete cantar, sim, cantar com vigor esse justo caminho de misericórdia. Afinal, é a justiça da misericórdia divina o seu maior prodígio.
Note-se como Davi, no versículo anterior, pregaria, e agora, aqui, cantaria. Nunca podemos fazer demais pelo Senhor, a quem devemos mais que tudo. Se pudéssemos ser pregador, corista, porteiro, abridor de bancos e lavador de pés, tudo em um só, ainda seria pouco para mostrar toda a nossa gratidão. Um grande pecador perdoado faz um grande cantor. O pecado tem voz alta, e assim deve ter a nossa gratidão. Não cantaremos nossos próprios louvores se formos salvos, mas nosso tema será o Senhor, nossa justiça, em cujos méritos estamos justamente aceitos.
Versículo 15Salmo 51:15
Senhor, abre os meus lábios. Ele tem tanto medo de si mesmo que entrega todo o seu ser ao cuidado divino, e teme falar até que o Senhor desate sua boca emudecida pela vergonha. Como o Senhor pode maravilhosamente abrir nossos lábios, e que coisas divinas nós, pobres tolos, podemos derramar sob sua inspiração! Esta oração de um penitente é uma petição de ouro para um pregador — Senhor, ofereço-a por mim e por meus irmãos. Mas pode servir bem a qualquer um a quem a vergonha do pecado faça gaguejar nas orações, e, quando plenamente respondida, a língua do mudo começa a cantar.
E a minha boca anunciará o teu louvor. Se Deus abre a boca, certamente terá dela o fruto. Conforme o guarda no portão, assim é a natureza do que sai dos lábios de um homem; quando a vaidade, a ira, a falsidade ou a luxúria destrancam a porta, saem em bando as piores vilanias; mas se o Espírito Santo abre o postigo, então a graça, a misericórdia, a paz, e todas as virtudes saem em harmoniosas danças, como as filhas de Israel quando saíram ao encontro de Davi, ao voltar com a cabeça do filisteu.
Versículo 16Salmo 51:16
Porque tu não desejas sacrifício. Esse foi o tema do Salmo anterior. O salmista estava tão iluminado que enxergava muito além do ritual simbólico; seu olho de fé contemplava com deleite a expiação real.
Do contrário, eu o daria. Teria ficado bem contente em apresentar dezenas de milhares de vítimas, se estas resolvessem o caso. De fato, qualquer coisa que o Senhor prescrevesse, ele teria oferecido com alegria. Estamos prontos a dar tudo o que temos, contanto que sejamos livres de nossos pecados; e, uma vez perdoado o pecado, nossa alegre gratidão está pronta para qualquer sacrifício.
Tu não te comprazes em holocausto. Sabia que nenhuma forma de sacrifício queimado era propiciação satisfatória. Sua profunda necessidade de alma o fazia olhar do tipo para o antítipo, do rito externo para a graça interior.
Versículo 17Salmo 51:17
Os sacrifícios de Deus são o espírito quebrantado. Todos os sacrifícios te são apresentados num só, pelo homem cujo coração quebrantado te oferece o mérito do Salvador. Quando o coração pranteia pelo pecado, tu te agradas mais do que quando o novilho sangra sob o machado. "Um coração quebrantado" é expressão que traz profunda dor, amargando a própria vida; carrega em si a ideia de uma angústia quase mortal, naquela região tão vital que é a própria fonte da vida. Tão excelente é um espírito humilhado e pesaroso pelo pecado, que não é apenas um sacrifício — é uma pluralidade de excelências, e é preeminentemente o sacrifício de Deus.
Um coração quebrantado e contrito, ó Deus, tu não desprezarás. Um coração esmagado é um coração perfumado. Os homens desprezam os que se veem desprezíveis a si mesmos, mas o Senhor não vê como o homem vê. Ele despreza o que os homens estimam, e valoriza o que eles desprezam. Deus nunca rejeitou um penitente humilde e chorando, e nunca o fará, enquanto Deus for amor, e enquanto Jesus for chamado o homem que recebe os pecadores. Novilhos e carneiros ele não deseja, mas corações contritos ele busca; sim, um só destes lhe é melhor do que todas as variadas ofertas do antigo santuário judaico.
Versículo 18Salmo 51:18
Faze bem, segundo o teu beneplácito, a Sião. Derrama bênçãos, segundo teu costume, sobre o teu monte santo e a tua cidade escolhida. Sião era o lugar predileto de Davi, sobre o qual esperara erguer um templo. A paixão dominante nele é tão forte que, tendo desobrigado sua consciência, ele ainda precisa ter uma palavra para Sião. Sentia que atrapalhara o projeto de honrar o Senhor ali como desejava, mas orava a Deus para que, ainda assim, o lugar de sua arca fosse glorioso, e para que estabelecesse seu culto e seu povo adorador.
Edifica os muros de Jerusalém. Este fora um dos projetos de Davi, cercar a cidade santa com muros, e ele deseja vê-lo concluído; mas cremos que tinha em mente um sentido mais espiritual, e orava pela prosperidade da causa e do povo do Senhor. Havia causado dano com seu pecado, e, por assim dizer, derrubara os seus muros; por isso implora ao Senhor que desfaça o mal e estabeleça sua igreja. Deus pode fazer prosperar sua causa, e em resposta à oração, assim o fará. Sem sua edificação, trabalhamos em vão; por isso somos ainda mais insistentes e constantes na oração. Não há graça alguma em nós se não sentirmos pela igreja de Deus, e não tomarmos duradouro interesse em seu bem-estar.
Versículo 19Salmo 51:19
Naqueles dias de alegre prosperidade, teus santos apresentarão em grande abundância as mais ricas e santas ofertas de gratidão a ti, e tu te agradarás de aceitá-las. Uma alma salva espera ver suas orações respondidas numa igreja renovada, e então tem a certeza de que Deus será grandemente glorificado. Embora não tragamos mais sacrifícios pelo pecado, ainda assim, como sacerdotes de Deus, nossos solenes louvores e ofertas votivas são ofertas de gratidão aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.
Não trazemos ao Senhor nossas coisas menores — nossas rolas e pombinhos — mas lhe apresentamos nossos melhores bens, nossos novilhos. Alegramo-nos por, neste tempo presente, sermos capazes de cumprir pessoalmente a declaração deste versículo: também nós, antevendo o futuro, aguardamos os dias da presença divina, quando a igreja de Deus, com indizível alegria, oferecerá dons sobre o altar de Deus, os quais ofuscarão de longe tudo o que se viu nestes dias menos entusiasmados. Apressa-o, ó Senhor.
Obras sobre este salmo
Exposition of the Fifty-first Psalm, por MARTIN LUTHER, em "Select Works of Martin Luther, translated by Rev. Henry Cole." Vol. I, pp. 51-197.
"An Exposition upon the 51 Psalm," em "Certain Godly and Learned Expositions upon Divers Parts of Scripture. As they were preached and afterwards more briefly penned by that worthy man of God, Maister GEORGE ESTEY... Late preacher of the word of God in St. Edmund's Burie." 1603. (4to.)
"David's Penitential Psalm Opened: in Thirtie Severall Lectures Thereon. By SAM. HIERON. 1617." (4to.)
"Good News from Canaan; or, An Exposition on the 51 Psalm," em "The Workes of Mr. William Cowper, Late Bishop of Galloway." 1629. (Fólio.)
"David's Repentance; or, A Plaine and Familiar Exposition of the LI. Psalm: First Preached, and Now Published for the Benefit of God's Church. Wherein euery Faithful Christian May Set Before his Eyes the Patterne of Vnfeigned Repentance, Whereby We May Take Heed of the Falling into Sin Again. The Eighth Edition, Newly Revised and Profitably Amplified by the Author, SAMVEL SMITH, Preacher of the Word of God at Prittlewell in Essex... 1630." (12mo.)
"A Godly and Fruitful Exposition of the Fifty-one Psalm, the Fifth of the Penitential," em ARCHIBALD SYMSON'S "Sacred Septenarie." 1638.
"Meditations and Disquisitions upon the 51 Psalm of David," em "Meditations and Disquisitions upon the Seven Psalms of David, Commonly Called the Penitential Psalmes." Por SIR RICHARD BAKER, Knight. 1639.
"CLII. Lectures upon Psalm LI. Preached at Ashby Delazovch, in Leicester Shire. By the Late Faithful, and Worthy Minister of Jesus Christ, Mr. ARTHUR HILDERSAM. 1642." (Fólio.)
"An Exposition of the One-and-Fiftieth Psalm," em pp. 51-239, de "Sermons with Some Religious and Divine Meditations. By the Right Reverend Father in God, ARTHVRE LAKE, Late Lord Bishop of Bath and Wells." 1639. (Fólio.)
"David's Broken Heart; or, an Exposition upon the Whole Fifty-one Psalm. By that Reverend Divine Doctor SAMUEL PAGE, Late Pastour of Deptford Stroud, in Kent... 1646." (4to.)
Exposição do Salmo 51, em "Chandler's Life of David." Vol. 2, pp. 254-273.
"The Portraiture of the Christian Penitent: Attempted in a Course of Sermons upon Psalm LI... By the Rev. CHA. DE COETLOGON, A.M. 1775."
"Lectures on the Fifty-first Psalm, Delivered in the Parish Church of St. James', Bristol. By the Rev. THOMAS T. BIDDULPH, A.M. 1835."
"The Penitent's Prayer: a Practical Exposition of the Fifty-first Psalm. By the Rev. THOMAS ALEXANDER, M.A., Chelsea."