Salmo 141
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TÍTULO. Um Salmo de Davi. Sim, Davi sob suspeita, quase temendo falar para não se justificar de modo precipitado; Davi caluniado e cercado de inimigos; Davi censurado até por santos, e recebendo isso com mansidão; Davi lamentando a condição do partido piedoso, do qual era o líder reconhecido; Davi esperando em Deus com confiança serena. O Salmo pertence a um grupo de quatro, e se assemelha muito aos outros três. Seu sentido é tão profundo que em alguns pontos se torna obscuro, mas mesmo em sua superfície há pó de ouro. No início, o salmo se acende com o brilho do entardecer, enquanto o incenso sobe aos céus; depois vem uma noite de linguagem cujo sentido não conseguimos enxergar; e essa noite cede lugar à luz da manhã, em que nossos olhos se voltam para o Senhor.
DIVISÃO. O Salmista clama para ser aceito em oração (Salmos 141:1-2). Depois pede para ser guardado quanto à fala, preservado em coração e ação, e livrado de qualquer comunhão com os ímpios. Prefere ser repreendido pelos justos a ser lisonjeado pelos perversos, e se consola com a confiança segura de que um dia será compreendido pelo partido piedoso, e se tornará um consolo para eles (Salmos 141:3-6). Nos últimos versículos, o santo caluniado retrata a condição da igreja perseguida, volta os olhos para Deus e roga por resgate diante dos inimigos cruéis, e pelo castigo de seus opressores.
Exposição
Versículo 1Salmo 141:1
Senhor, a ti clamo. Este é o meu último recurso: a oração nunca me falha. Minha oração é penosa e fraca, digna apenas de ser chamada clamor; mas é um clamor a Jeová, e isso a enobrece. Clamei a ti, ainda clamo a ti, e sempre pretendo clamar a ti. A quem mais poderia recorrer? Que mais posso fazer? Outros confiam em si mesmos, mas eu clamo a ti. A arma da oração é uma que o crente sempre pode levar consigo, e usar em toda hora de necessidade.
Apressa-te para mim. Seu caso era urgente, e ele alegou essa urgência. O tempo de Deus é o melhor tempo, mas quando estamos duramente pressionados podemos, com santa insistência, apressar os movimentos da misericórdia. Em muitos casos, se o socorro chegasse tarde, chegaria tarde demais; e nos é permitido orar contra semelhante calamidade.
Inclina os ouvidos à minha voz, quando clamo a ti. Repare como ele fala uma segunda vez de clamar: a oração se tornara seu exercício frequente, sim, constante. Duas vezes em poucas palavras ele diz: "clamo, clamo". Como anseia ser ouvido, e ser ouvido de imediato! Há uma voz que chega ao grande Pai em cada clamor, gemido e lágrima de seus filhos: ele consegue entender o que significam mesmo quando eles são incapazes de expressá-lo.
Perturba o espírito dos santos quando temem que nenhum ouvido favorável se volte para seus clamores dolorosos: não descansam enquanto o seu "a ti" não é respondido por um "a mim". Quando a oração é o único refúgio de um homem, ele fica profundamente angustiado com a simples ideia de fracassar nela.
"Essa seria uma dor que eu não suportaria,
não me ouvisses tu nem respondesses a oração;
mas um Deus que ouve e responde à prece
me sustenta sob todo fardo."
Versículo 2Salmo 141:2
Suba a minha oração como incenso à tua presença. Assim como o incenso é cuidadosamente preparado, aceso com fogo sagrado e devotamente apresentado a Deus, assim seja a minha oração. Não devemos encarar a oração como tarefa fácil, que não exige reflexão. Ela precisa ser "apresentada"; mais que isso, precisa ser apresentada "diante do Senhor", com senso de sua presença e santa reverência ao seu nome: tampouco podemos considerar toda súplica como certa de aceitação divina, ela precisa ser apresentada diante do Senhor "como incenso", cuja oferta tinha regras a observar, sob pena de ser rejeitada por Deus.
E o levantar de minhas mãos como o sacrifício da tarde. Qualquer que fosse a forma de sua oração, seu único desejo era que fosse aceita por Deus. A oração às vezes se apresenta sem palavras, pelos próprios movimentos do corpo: joelhos dobrados e mãos erguidas são os sinais de uma oração fervorosa e expectante. Certamente o trabalho, ou o erguer das mãos na labuta, é oração se feito em dependência de Deus e para sua glória: há uma oração das mãos assim como há uma oração do coração, e nosso desejo é que esta seja tão agradável ao Senhor quanto o sacrifício da tarde.
A santa esperança, o erguer das mãos que pendem cansadas, é também uma forma de adoração: que seja sempre aceitável a Deus. O Salmista faz um pedido ousado: quer que seus humildes clamores e orações sejam tão considerados pelo Senhor quanto os sacrifícios estabelecidos, da manhã e da tarde, no lugar santo. No entanto, a oração não é ousada demais, pois, afinal, o espiritual é, na estima do Senhor, superior ao cerimonial, e os bezerros dos lábios são um sacrifício mais verdadeiro que os bezerros do curral.
Até aqui temos uma oração sobre a oração: temos uma súplica específica nos dois versículos seguintes.
Versículo 3Salmo 141:3
Põe, Senhor, uma guarda à minha boca. Aquela boca havia sido usada em oração; seria lamentável que se deixasse contaminar pela mentira, pelo orgulho ou pela ira. E é isso que acontecerá, a menos que seja vigiada com cuidado, pois esses intrusos vivem à espreita junto à porta. Davi sente que, com toda a sua própria vigilância, ainda pode ser surpreendido pelo pecado, e por isso pede ao próprio Senhor que o guarde. Quando Jeová monta a guarda, a cidade fica bem protegida: quando o Senhor se torna o guarda de nossa boca, o homem inteiro fica bem guarnecido.
Guarda a porta dos meus lábios. Deus fez de nossos lábios a porta da boca, mas não conseguimos guardar essa porta por nós mesmos; por isso rogamos ao Senhor que assuma o seu controle. Que o Senhor abra e feche nossos lábios, pois não conseguimos fazer nem uma coisa nem outra corretamente se deixados a nós mesmos. Em tempos de perseguição por parte dos ímpios, estamos particularmente sujeitos a falar de modo precipitado ou evasivo, e por isso devemos zelar de modo especial por sermos preservados, nesse ponto, de toda forma de pecado. Como o Senhor é condescendente! Somos enobrecidos por sermos porteiros para ele, e ainda assim ele se digna a ser porteiro para nós.
Não inclines meu coração a nenhuma coisa má. É equivalente ao pedido "não nos deixes cair em tentação". Que nada surja na providência que desperte nossos desejos na direção errada. O Salmista aqui cuida do seu coração. Quem domina o coração é senhor do homem; mas se a língua e o coração estão sob o cuidado de Deus, tudo está seguro. Oremos para que ele nunca nos entregue às nossas próprias inclinações, ou logo nos desviaremos do caminho certo.
Para praticar obras ímpias com homens que praticam a iniquidade. Para onde o coração se inclina, a vida logo tende: desejos maus geram práticas más. A menos que a fonte da vida se mantenha pura, os riachos da vida logo se poluirão. Ai, há grande poder na companhia: até os homens bons são propensos a se deixar influenciar pela convivência; daí o temor de que possamos praticar obras ímpias quando estamos com trabalhadores ímpios. Devemos nos esforçar para não estar com eles, para não pecarmos com eles.
É ruim quando o coração toma o caminho errado sozinho; pior quando a vida corre pela estrada má sozinha; mas tende a se agravar a um grau elevado de impiedade quando o que se desvia percorre o caminho descendente cercado de toda uma horda de pecadores. Nossa prática será nossa perdição, se for má: dizer que é nosso costume e nosso hábito agrava o pecado em vez de desculpá-lo. É prática de Deus punir todos os que fazem da iniquidade uma prática. Os homens bons se horrorizam só de pensar em pecar como os outros; esse temor os leva a se ajoelhar. A iniquidade, que, traduzida, é falta de equidade, é algo a evitar como evitaríamos uma doença contagiosa.
E não coma eu de suas iguarias. Se trabalharmos com eles, logo comeremos com eles. Eles trarão seus pratos doces e delicados, na esperança de nos prender ao seu serviço pelo caminho do paladar. A armadilha é iscada com carnes deliciosas, para que sejamos capturados e nos tornemos presa da malícia deles. Se não quisermos pecar com os homens, é melhor não sentar com eles; e se não quisermos partilhar de sua maldade, não devemos partilhar de sua devassidão.
Versículo 5Salmo 141:5
Fira-me o justo; será uma bondade. Ele prefere os amargores da boa companhia às iguarias dos ímpios. Prefere ser ferido pelo justo a ser banqueteado pelo perverso. Ele autoriza a admoestação fiel, e até a convida — "fira-me o justo". Quando os ímpios sorriem para nós, sua lisonja é cruel; quando os justos nos ferem, sua fidelidade é bondosa. Às vezes os homens piedosos batem forte; não apenas insinuam o mal, mas o golpeiam; e mesmo assim devemos receber os golpes com amor, e ser gratos à mão que fere com tanto peso. Os tolos se ressentem da repreensão; os sábios se esforçam para tirar proveito dela.
E que ele me repreenda; será um excelente óleo, que não quebrará a minha cabeça. Óleo não quebra cabeças, e a repreensão não faz mal a ninguém; ao contrário, assim como o óleo refresca e perfuma, também a repreensão, quando bem recebida, adoça e renova o coração. Meu amigo precisa me amar muito se vai me falar dos meus defeitos: há uma unção nele, se é honesto o bastante para apontar meus erros. Muitos já tiveram a cabeça quebrada nos banquetes dos ímpios, mas ninguém à mesa de um repreensor sincero.
O óleo da lisonja não é excelente; o óleo tão generosamente usado no banquete do folgazão não é excelente; cabeças quebradas e corações partidos acompanham as unções dos desregrados; mas é diferente com as censuras mais severas dos piedosos: nem sempre são doces, mas são sempre excelentes; podem por um momento machucar o coração, mas nunca o quebram, nem à cabeça.
Pois ainda a minha oração estará nas suas calamidades. Os homens piedosos nunca se enfurecem com amigos sinceros a ponto de guardar rancor contra eles; se assim fosse, ao vê-los na aflição, se voltariam contra eles zombando de suas repreensões. Longe disso: essas almas sabiamente gratas se preocupam profundamente ao ver seus instrutores em apuros, e oferecem por eles suas melhores orações.
Não apenas oram por eles, mas simpatizam tão de perto e tão sinceramente que suas orações estão "nas suas calamidades", lá embaixo na masmorra com eles. Tão verdadeira é a fraternidade cristã que estamos com nossos amigos na doença ou na perseguição, sofrendo suas dores; de modo que a oração do nosso coração está em suas tristezas. Quando nada mais pudermos dar aos homens bons, demos-lhes nossas orações, e façamos isso em dobro por aqueles que nos deram suas repreensões.
Versículo 6Salmo 141:6
Este é um versículo cujo sentido parece difícil de alcançar. Refere-se aos justos entre os israelitas? Cremos que sim. Davi certamente quer dizer que, quando os líderes deles caíssem para nunca mais se erguer, eles se voltariam para ele e passariam a ter prazer em ouvir sua voz.
Quando os seus juízes forem derrubados em lugares pedregosos, ouvirão as minhas palavras; porque são doces. E assim aconteceu: a morte de Saul fez com que os melhores da nação voltassem os olhos para o filho de Jessé como o ungido do Senhor; suas palavras se tornaram doces para eles. Muitos daqueles homens bons que haviam falado com severidade da partida de Davi de sua terra, e de sua ida para o meio dos filisteus, ainda assim lhe eram caros pela fidelidade que tinham, e a eles ele retribuiu apenas com boa vontade, orações de amor e palavras doces, sabendo que, com o tempo, eles esqueceriam suas falhas e o escolheriam como líder.
Eles o feriram quando errou, mas reconheceram suas qualidades. Ele, por sua vez, não guardou ressentimento, mas os amou por sua honestidade. Oraria por eles quando sua terra jazesse sangrando aos pés de inimigos estrangeiros; viria em socorro deles quando seus antigos líderes fossem mortos; e suas palavras de coragem e esperança seriam doces aos seus ouvidos.
Esse me parece um bom sentido, coerente com o contexto. Ao mesmo tempo, outras interpretações, mais elaboradas, têm seus admiradores eruditos, e a elas voltaremos em nossas notas de outros autores.
Versículo 7Salmo 141:7
O caso de Davi parecia sem esperança: a causa de Deus em Israel era como coisa morta, como um esqueleto quebrado, apodrecido e lançado para fora da sepultura, para voltar ao pó do qual veio.
Os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura. Não parecia haver vida, coesão, forma, ordem ou liderança entre o partido piedoso em Israel: Saul o havia demolido e espalhado todas as suas partes, de modo que já não existia como um conjunto organizado. O próprio Davi era como um daqueles ossos ressecados, e o restante dos piedosos estava mais ou menos na mesma condição. Não parecia haver vitalidade nem união entre a santa semente; sua causa jazia à porta da morte.
Como quando alguém corta e racha lenha sobre a terra. Eles eram como madeira dividida e lançada em pedaços: não como uma única peça, nem sequer como um feixe, mas todos despedaçados e completamente divididos. Deixando de lado a palavra "lenha", que os tradutores acrescentaram, a figura se refere ao rachar sobre a terra, o que provavelmente significa arar, mas pode indicar qualquer outra forma de cortar e partir, como derrubar uma floresta, arrancar arbustos, ou de outro modo causar confusão e divisão.
Quantas vezes homens bons pensaram assim da causa de Deus! Aonde quer que olhassem, morte, divisão e destruição os encaravam de frente. Cortados e rachados, irremediavelmente separados! Espalhados, sim, espalhados à boca da sepultura! Fendidos e reduzidos a lenha para o fogo! Assim pareceu, por vezes, a causa de Deus e da verdade.
"Sobre a terra" a perspectiva era miserável; o campo da igreja estava arado, cavado e revolvido: tinha se tornado como o pátio de um lenhador, onde tudo estava condenado a ser despedaçado. Já vimos igrejas nesse estado, e ficamos de coração partido. Que misericórdia existir sempre um lugar acima da terra para onde podemos olhar! Ali vive Aquele que dará ressurreição à sua causa, e reunião ao seu povo disperso. Ele fará subir os ossos mortos da boca da sepultura, e fará viver de novo os feixes ressecados. Imitemos o Salmista no próximo versículo, e olhemos para o Deus vivo.
Versículo 8Salmo 141:8
Mas os meus olhos estão postos em ti, ó Senhor Deus. Ele olhou para o alto e manteve ali os olhos fixos. Considerou mais o dever que as circunstâncias; considerou mais a promessa que a providência externa; e esperou mais de Deus que dos homens. Não fechou os olhos por indiferença ou desespero, nem os voltou para a criatura numa confiança vã, mas entregou os olhos ao seu Deus, e não viu nada a temer.
Jeová, meu Senhor, é também a minha esperança. Tomé chamou Jesus de Senhor e Deus, e Davi aqui fala de seu Deus e Senhor. Os santos se comprazem em demorar-se nos nomes divinos, seja adorando, seja suplicando.
Em ti está a minha confiança. Não somente em teus atributos ou em tuas promessas, mas em ti mesmo. Outros poderiam confiar onde escolhessem, mas Davi se apegava ao seu Deus: nele confiava sempre, unicamente, com segurança e sem reservas.
Não deixes a minha alma desamparada. Como ficaria se o Senhor não se lembrasse e não cumprisse sua promessa. Ser desamparado nas circunstâncias já é ruim, mas ser desamparado na alma é muito pior; ser abandonado pelos amigos é uma calamidade, mas ser abandonado por Deus seria a destruição. Desamparado de Deus é desamparo em toda a sua força. O consolo é que Deus disse: "Não te deixarei, nem te desampararei."
Versículo 9Salmo 141:9
Guarda-me dos laços que me armaram. Ele já havia pedido, no Salmos 141:3, que a porta de sua boca fosse guardada; mas sua oração agora cresce para "guarda-me". Ele parece mais preocupado com a tentação disfarçada do que com os ataques abertos. Homens corajosos não temem a batalha, mas odeiam as tramas secretas. Não suportamos ser presos como animais desprevenidos; por isso clamamos ao Deus da sabedoria por proteção.
E das armadilhas dos que praticam a iniquidade. Esses obreiros do mal buscavam apanhar Davi na fala ou nos atos. Isso já era, em si, uma iniquidade, e portanto condizia com o resto de sua conduta. Eram maus eles mesmos, e queriam ou torná-lo igual a eles, ou fazê-lo parecer assim.
Se não conseguissem apanhar o homem bom de um jeito, tentariam de outro; laços e armadilhas se multiplicariam, pois de qualquer forma estavam decididos a causar sua ruína. Ninguém poderia preservar Davi senão o Onisciente e Onipotente; ele também nos preservará. É difícil escapar de laços que não se pode ver, e evitar armadilhas que não se pode descobrir. Com razão o Salmista, tão caçado, podia clamar: "guarda-me".
Versículo 10Salmo 141:10
Caiam os ímpios nas suas próprias redes, enquanto eu, no entanto, escapo. Talvez não seja uma oração cristã, mas é muitíssimo justa, e é preciso muita graça para nos abstermos de gritar amém a ela; de fato, a graça não trabalha no sentido de nos fazer desejar outra coisa quanto aos inimigos dos homens santos. Não desejamos todos que o inocente seja livrado, e o culpado colha o fruto da própria malícia? Claro que sim, se somos homens justos. Não há nada de errado em desejar, no nosso próprio caso, o que desejamos para todos os homens bons. Ainda assim, há um caminho mais excelente.