Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 141

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 141, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 141 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Todo o Salmo. Este salmo, como o anterior, se distingue por uma brevidade densa e pelo uso de expressões raras, ao mesmo tempo em que está repleto de coincidências verbais e reais com os outros salmos de Davi. Esses indícios são tão claros e inegáveis que um crítico cético de grande renome (De Wette) o declara um dos salmos mais antigos da coletânea. — Joseph Addison Alexander.

Todo o Salmo. Poucos salmos reúnem, em tão pequeno espaço, tantas joias de verdade preciosa e santa. — Barton Bouchier.

Todo o Salmo. Muitos comentaristas têm forte opinião de que este salmo foi escrito como memorial daquela cena tão interessante da vida de Davi, registrada em 1 Samuel 24:1-22, relativa ao seu trato generoso com Saul. Embora tivesse a oportunidade de matar seu cruel perseguidor na caverna de En-Gedi, poupou-lhe a vida, cortando-lhe apenas a orla do manto, e não permitindo que seus homens o tocassem; e quando Saul saiu da caverna, Davi, indo atrás dele, repreendeu-o à distância, na linguagem mais branda e respeitosa, quanto à injustiça de sua conduta para com ele. Julga-se que o sexto versículo contém referência tão expressa a esse episódio tão marcante da história de Davi, que restam poucas dúvidas de que foi essa a ocasião em que o salmo foi composto. — Nota de James Anderson a Calvino, no lugar citado.

Todo o Salmo. As imagens e alusões do salmo são coerentes entre si: o óleo que o havia recentemente ungido; e a guarda posta à sua boca, etc., sugerida pela vigília à boca da caverna, embora, em última instância, se refira ao serviço do tabernáculo. — John Jebb.

Versículo 1Salmo 141:1

Senhor, a ti clamo. A descrença busca muitos caminhos para se livrar da tribulação; mas a fé tem apenas um caminho — ir a Deus, ou seja, pela oração, para tudo o que for necessário. — David Dickson.

Senhor, a ti clamo. Nenhuma angústia ou perigo, por maior que seja, sufocará minha fé ou fechará minha boca; ao contrário, me tornará mais fervoroso, e minhas orações, como correntes fortes em passagens estreitas, arrastarão tudo diante de si. — John Trapp.

A ti... a mim. Nossa oração e a misericórdia de Deus são como dois baldes num poço; enquanto um sobe, o outro desce. — Ezekiel Hopkins.

Note-se que a diferença de tempo verbal, "clamei" (hebraico e Vulgata) seguido de "quando clamo", indica a perseverança fervorosa do santo na oração, sem nunca cessar, enquanto durar a tribulação. E a tribulação dura enquanto estamos no mundo; por isso o apóstolo nos ensina a "orar sem cessar". — Agostinho e Bruno, em Neale e Littledale.

Versículos 1–5Salmo 141:1-5

Que o Salmista estava agora em alguma angústia, da qual estava profundamente consciente, é evidente pela veemência de espírito que expressa na reiteração de seu pedido ou súplica (Salmos 141:1); e pelo desejo de que sua "oração pudesse subir diante do Senhor como incenso, e o erguer de suas mãos como o sacrifício da tarde" (Salmos 141:2). Os expositores judeus supõem, não sem razão, que nessa alusão ele tinha em mente sua atual exclusão dos serviços sagrados do tabernáculo, de que se queixa profundamente em outros lugares.

Quanto à matéria de sua oração no início do salmo, ela diz respeito a si mesmo, e ao seu comportamento sob a condição presente, que deseja que seja inofensivo e santo, digno dele mesmo e útil aos outros. E, uma vez que estava exposto a fracassar de duas maneiras: primeiro, por uma exasperação excessiva de espírito contra seus opressores e perseguidores; e, segundo, por uma condescendência fraudulenta e pusilânime com eles em seus caminhos ímpios — que são os dois extremos aos quais os homens tendem pecaminosamente a correr em tais condições — ele ora com fervor para ser livrado de ambos.

Ao primeiro ele se refere no Salmos 141:3: Põe, Senhor, uma guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios — a saber, para que não irrompesse, sob as grandes provocações que lhe eram feitas, em uma intemperança de linguagem indigna contra seus opressores injustos, o que às vezes crueldades ferozes e desarrazoadas conseguem arrancar até dos espíritos mais serenos e moderados. Mas era o desejo deste santo Salmista, como em casos semelhantes deveria ser o nosso, que seu coração se mantivesse sempre naquela disposição, sob a condução do Espírito de Deus, a ponto de não ser surpreendido numa expressão de paixão descontrolada em nenhuma de suas palavras ou ditos.

O segundo ele contempla em sua súplica fervorosa por ser livrado dele, no Salmos 141:4: Não inclines o meu coração a nenhuma coisa má, para praticar obras ímpias com homens que praticam a iniquidade; e não coma eu das suas iguarias. Há duas partes em seu pedido, para o propósito pretendido.

  1. Que, pelo poder da graça de Deus influenciando sua mente e alma, seu coração não se inclinasse a nenhuma comunhão ou sociedade com seus adversários ímpios em sua maldade.

  2. Que fosse preservado de gostar, ou de ansiar por aquelas coisas que são as iscas e os atrativos pelos quais os homens tendem a ser atraídos para sociedades e conspirações com os obreiros da iniquidade; e não coma eu das suas iguarias. Veja Provérbios 1:10-14. Pois ele aqui descreve a condição de homens que prosperam por um tempo num curso de maldade; primeiro se entregam juntos à prática da iniquidade, e depois, juntos, se regozijam naquelas satisfações de suas paixões com que seu poder e seu interesse no mundo os proveem.

Estas são as "iguarias" para as quais um desejo e uma ânsia impotentes traem as mentes de pessoas instáveis, levando-as a ceder a caminhos de pecado e loucura: pois vejo essas "iguarias" como abrangendo tudo o que a concupiscência dos olhos, a concupiscência da carne, ou a soberba da vida podem oferecer. De todas elas Davi pede ser livrado de qualquer inclinação, especialmente quando se tornam os atrativos de um caminho de pecado.

No gozo dessas "iguarias", é prática comum dos ímpios se lisonjearem e se encorajarem mutuamente no caminho em que estão empenhados. E isso completa aquela pobre felicidade a que tantos, neste mundo, aspiram, e da qual somente são capazes. Tudo isso não passa de uma sociedade em gozos sensuais perecíveis, sem controle, e com aplauso mútuo de uns para com os outros.

A isso o Salmista tinha um cuidado especial ao voltar os olhos para outra comunhão e sociedade, que ansiava (Salmos 141:5). Ali via, não iguarias, mas repreensões: percebia aquilo que é mais oposto ao aplauso e à alegria mútuos uns nos outros, que são o sal e o cimento de toda sociedade má, pois notava repreensões e censuras para os menores deslizes que fossem observados.

Ora, enquanto as iguarias que alguns gozam num curso de maldade próspera são a única coisa que parece ter algo de desejável entre eles, e, por outro lado, repreensões e censuras são a única coisa que parece ter alguma aspereza, ou motivo de desconforto e desagrado, na sociedade dos piedosos, Davi contrapõe aquilo que parece ser mais áspero numa sociedade àquilo que parece ser mais doce na outra, e, sem respeito a outras vantagens, prefere uma à outra.

Daí alguns lerem o início das palavras assim: Fira-me antes o justo, significando: "antes que eu coma das iguarias dos ímpios." — John Owen.

Versículo 2Salmo 141:2

Suba a minha oração diante de ti. Nota marginal: "seja dirigida". A palavra hebraica significa ajustar; estabelecer; tornar firme. O Salmista deseja que sua oração não seja como algo fraco, lânguido, que se dissipa com facilidade; mas que seja como algo firme e seguro. — Albert Barnes.

Suba a minha oração diante de ti como incenso. Literalmente: "Que a minha oração, incenso, seja posta em ordem diante de ti" — dando a entender que a oração era, na realidade, o que o incenso era no símbolo... Passando para a Escritura do Novo Testamento, ainda que só naquela porção que se refere aos tempos do Antigo Testamento, somos informados de que o povo estava ocupado em oração enquanto Zacarias oferecia incenso dentro do Santuário (Lucas 1:10); eles acompanhavam em espírito o serviço sacerdotal. E no livro do Apocalipse, as orações dos santos são, mais de uma vez, identificadas com a oferta de incenso sobre o altar de ouro diante do trono (Apocalipse 5:8; 8:3-4). — Patrick Fairbairn, em "A Tipologia da Escritura".

Suba. Oração é obra de conhecimento, obra de fé, obra de pensamento, obra de busca, obra de humildade, e não vale nada se o coração e a mão não se unirem nela. — Thomas Adam, 1701-1784.

Diante de ti como incenso, cuja fumaça fragrante ainda sobe. Mas muitas vezes, na própria subida, enquanto se esforça para ir cada vez mais alto, infimo phantasmate verberatur, diz Gregório — "é repelida de volta por imaginações terrenas que se interpõem" —, e então se atenua aos poucos, e se dissipa em nada.

Por isso o profeta ora ut dirigatur oratio, "que a sua oração seja posta diante de Deus", ut stabiliatur; assim alguns traduzem do hebraico, "que seja estabelecida", que não se evapore nem seja levada pelo vento de imaginações vãs e contrárias, que vêm ab extrinseco [de fora], e possam corrompê-la. — Anthony Farindon.

Como incenso. Que, em geral, por incenso se significa a oração, a Escritura testemunha expressamente. E há uma semelhança quádrupla entre eles:

  1. Em que era esmagado e pilado antes de ser usado. Assim procede a oração aceitável, de um coração quebrantado e contrito: Salmos 51:17.

  2. Não tinha utilidade alguma até que se pusesse fogo sob ele, e esse fogo tomado do altar. Nem tem valor ou eficácia a oração que não é acesa pelo fogo do alto, o Espírito Santo de Deus, que recebemos do nosso altar, Cristo Jesus.

  3. Naturalmente subia em direção aos céus, assim como todas as ofertas em hebraico são chamadas "elevações", ascensões. E este é o propósito da oração, subir ao trono de Deus: "a ti dirigirei a minha oração, e vigiarei"; isto é, orarei: Salmos 5:3.

  4. Produzia um suave aroma; o que era um dos propósitos dele nos serviços do templo, onde havia tanta queima de carne e sangue. Assim também a oração produz um suave aroma a Deus; um aroma de repouso, no qual ele se compraz. — John Owen.

Como incenso... como o sacrifício da tarde. Ainda que esta minha súplica deva necessariamente carecer de toda aquela solenidade de preparação exigida no serviço do teu santo Tabernáculo — a nuvem de incenso e perfume, etc., a "mincá" ou oblação de flor de farinha, etc. — que a pureza e o fervor do meu coração, e a inocência das minhas mãos, agora erguidas a ti nesta triste hora da minha angústia, sejam aceitas em lugar de tudo isso, e prevaleçam para meu resgate e refúgio seguro, meu e dos meus companheiros. — Charles Peters (—1777), em "Uma Dissertação Crítica sobre o Livro de Jó," 1751.

Como o sacrifício da tarde. Este deveria ser nosso serviço diário, assim como um cordeiro era oferecido de manhã e à tarde em sacrifício. Mas, ai! quão apagadas e mortas são as nossas devoções! Como os carros de Faraó, se arrastam pesadamente. Alguns, como a jumenta de Balaão, quase nunca abrem a boca duas vezes. — Thomas Adams.

As minhas mãos. Estender as mãos em oração crente e fervorosa é o único modo de agarrar a misericórdia. — F. E., em "Os Santos de Ebenézer," 1667.

No suntuoso culto cerimonial dos hebreus, nenhum dos sentidos ficava excluído de participar do serviço... O sentido do olfato ocupava, talvez, o lugar mais proeminente; pois a aceitação da adoração era sempre indicada por um símbolo tomado a esse sentido: "o Senhor sentiu o suave aroma". A oração do povo subia como incenso, e o erguer de suas mãos como o sacrifício da tarde.

A oferta de incenso constituía a parte essencial do culto religioso. O altar do incenso ocupava uma das posições mais destacadas e honradas no tabernáculo e no templo... Sobre esse altar, um incensário cheio de incenso derramava suas nuvens fragrantes toda manhã e toda tarde; e, anualmente, quando chegava o dia da expiação, ao entrar o sumo sacerdote no santo dos santos, ele enchia um incensário com brasas vivas tomadas do fogo sagrado sobre o altar do holocausto, e o levava para dentro do santuário, onde lançava sobre as brasas ardentes o "incenso suave, moído fino", que trazia na mão.

Sem esse incensário fumegante, ele era proibido, sob pena de morte, de entrar no terrível santuário de Jeová. Apesar da lavagem de sua carne, e das vestes de linho de que se revestia, não ousava entrar no santo dos santos com o sangue da expiação, a menos que pudesse abrigar-se pessoalmente sob uma nuvem de incenso.

Alguns escritores supuseram que o incenso foi inventado com o propósito de ocultar ou neutralizar os odores nocivos causados pelo número de animais abatidos todos os dias no santuário. Outros escritores lhe atribuíram um significado místico, e creram que era símbolo do sopro do mundo se elevando em louvor ao Criador, sendo os quatro ingredientes de que era composto representações dos quatro elementos.

Uma terceira classe, vendo no tabernáculo o palácio de Deus, o Rei teocrático de Israel, e na arca da aliança o seu trono, considerava o incenso como correspondendo simplesmente ao perfume tão generosamente usado em torno da pessoa e do séquito de um monarca oriental. É bem possível que, a princípio, tivesse sido destinado a esses propósitos e a transmitir esses sentidos, mas derivava sua importância principal, no contexto das observâncias cerimoniais do ritual mosaico, do fato de ser o grande símbolo da oração.

Era oferecido no momento em que o povo estava na postura e no ato da devoção; e supunha-se que suas orações fossem apresentadas a Deus pelo sacerdote, e subissem até ele na fumaça e no odor daquela oferta fragrante. A Escritura está repleta de alusões a isso, entendidas nesse belo sentido simbólico. A oração aceitável e prevalecente era um aroma suave ao Senhor; e a oração ilícita, ou hipócrita, ou inútil, era rejeitada com repugnância pelo órgão do olfato.

Sem dúvida os judeus sentiam, ao ver as suaves nuvens brancas de fumaça fragrante subindo lentamente do altar do incenso, como se a voz do sacerdote estivesse silenciosa, mas eloquentemente, suplicando em seu favor naquele emblema expressivo. A associação do som se perdia na do olfato, e os dois sentidos se fundiam em um só. E este modo simbólico de súplica, como observou o Dr. George Wilson, tinha esta vantagem sobre a oração falada ou escrita: apelava também aos que eram cegos e surdos, uma classe geralmente excluída do culto comunitário por sua aflição. Os que não podiam ouvir as orações do sacerdote podiam unir-se aos exercícios devocionais simbolizados pelo incenso, por meio do sentido do olfato, e as impressões sagradas, vedadas por uma via, entravam na mente e no coração por outra.

O altar do incenso ficava na mais estreita ligação com o altar do holocausto. O sangue da oferta pelo pecado era aspergido sobre os chifres de ambos no grande dia da expiação anual. De manhã e à tarde, assim que o sacrifício era oferecido, o incensário derramava seu conteúdo fragrante, de modo que o incenso perpétuo lá dentro subia simultaneamente com o holocausto perpétuo lá fora.

Sem as brasas vivas tiradas do altar do sacrifício, o incenso sagrado não podia ser aceso; e sem o incenso enchendo antecipadamente o lugar santo, o sangue da expiação, vindo do altar do holocausto, não podia ser aspergido sobre o propiciatório. Belo e expressivo tipo do sacrifício perfeito e da intercessão que tudo prevalece de Jesus — de intercessão fundada na expiação, de expiação precedida e seguida de intercessão! Belo e expressivo tipo, também, das orações dos crentes, acesas pelo fogo do altar do sacrifício de Cristo, e perfumadas pelos seus méritos! — Hugh Macmillan, em "O Ministério da Natureza," 1871.

Versículo 3Salmo 141:3

Põe, Senhor, uma guarda à minha boca, etc.

  1. Um homem jamais usaria essa linguagem sem uma convicção da importância do assunto... Tudo se conduz pela fala, nos negócios naturais, civis e religiosos: quanto, portanto, depende do bom ou mau uso da língua! Que ardor de amor e amizade santos, ou de ira e malícia, algumas poucas palavras podem acender em chama! A língua é o principal instrumento na causa de Deus; e é a principal máquina do diabo — dai-lhe isto, e ele não pede mais nada; não há dano nem miséria que ele não realize por meio dela.

O uso, a influência dela, portanto, é inexprimível; e as palavras nunca devem ser consideradas apenas como efeitos, mas como causas, cuja operação jamais se pode imaginar por completo. Suponhamos um caso — um caso, temo, comum demais. Você deixa escapar, na leviandade da conversa, ou por amor ao argumento ou à esperteza, alguma expressão irreligiosa, cética — ela se aloja na memória de uma criança, ou de um empregado — cria raízes num solo favorável a essa semente — germina aos poucos, e dá fruto na profanação do sábado; no descaso com os meios de graça; na leitura de livros impróprios; na escolha de companhias perigosas — quem pode dizer onde vai parar?

Mas há um Ser que sabe onde começou. Reconhece-se que alguns têm em seu poder, em razão de seu cargo, seus talentos e sua influência, fazer muito mais mal que outros; mas ninguém é tão insignificante a ponto de ser inofensivo.

  1. Um homem jamais usaria essa linguagem sem uma convicção de que está em perigo de transgredir. E se Davi estava consciente de sua propensão a errar, presumiremos nós algum dia da nossa segurança? Nosso perigo nasce da depravação de nossa natureza. "Enganoso é o coração, mais que todas as coisas, e desesperadamente corrupto"; e "quem pode tirar do imundo o puro?" Nosso perigo nasce do contágio do exemplo.

Não há nada em que a humanidade seja mais universalmente culpada do que nos desregramentos da fala. E, no entanto, estamos constantemente cercados por eles; e a eles nos acostumamos desde a infância impressionável. Estamos em perigo pela frequência da fala. "Na multidão de palavras não falta transgressão." Precisamos, por necessidade, falar com frequência; mas falamos, muitas vezes, sem necessidade. O dever nos chama a conviver bastante com nossos semelhantes; mas ficamos pouco no aposento retirado, e demais na multidão — e quando estamos em companhia esquecemos a advertência: "seja todo homem pronto para ouvir, tardio para falar."

  1. Um homem jamais usaria essa linguagem sem uma convicção de sua incapacidade de se preservar sozinho. A Bíblia nos ensina essa verdade, não só doutrinariamente, mas historicamente. Os exemplos de homens bons, e de homens eminentes em piedade, confirmam isso justamente no ponto que examinamos. Moisés, o homem mais manso da terra, "falou precipitadamente com os lábios". Já ouviram falar da paciência de Jó, mas ele "amaldiçoou o dia do seu nascimento"; e Jeremias, o profeta do Senhor, fez o mesmo. Pedro disse: "Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu nunca me escandalizarei; ainda que seja necessário morrer contigo, de modo nenhum te negarei." Mas como ele usou a língua poucas horas depois? Então "começou a amaldiçoar e a jurar, dizendo: Não conheço este homem!"

  2. Um homem jamais usaria essa linguagem sem uma convicção da sabedoria de recorrer a Deus pelo auxílio de que precisa. A oração é efeito da nossa fraqueza, e expressão da nossa dependência. Ela confessa a ação de Deus.

(a) Em primeiro lugar — Deus é suficiente para nos preservar.

(b) Seus socorros não se obtêm sem oração.

(c) A oração sempre traz o auxílio que suplica.

— Resumido do sermão de W. Jay, "A Regulação da Língua."

Põe, Senhor, uma guarda à minha boca, etc. Vigilância e oração costumam andar juntas. Somos mais bem guardados quando nos recomendamos à mão de Deus. Observo aqui, primeiro, que discursos precipitados e apaixonados escapam de nós com facilidade em nossas tribulações, especialmente na perseguição. Segundo, que um homem piedoso e consciencioso é muito sensível a isso, como a todo mal. Quem deseja viver em comunhão com Deus no presente, e espera comparecer com conforto diante dele no futuro, é sensível à menor coisa que tende ao desagrado e ao desonra de Deus: este é o verdadeiro espírito de quem será reconhecido por Cristo no último dia.

Terceiro, não há maneira de evitar ser provocado à impaciência e à precipitação da fala, ou a qualquer mal, senão mantendo vigilância, e renovando nossas obrigações para com Deus. Quarto, quem quiser manter vigilância precisa recorrer ao auxílio e à assistência da graça de Deus; "Senhor, põe uma guarda à minha boca." — Thomas Manton.

Põe, Senhor, uma guarda à minha boca, etc. Assim os homens santos mantinham sessões em casa, e faziam de seus corações o presidente do júri, examinando-se como examinamos os outros. O temor do Senhor ficava à porta de suas almas, para examinar cada pensamento antes que entrasse, e à porta de seus lábios, para examinar cada palavra antes que saísse, com o que escapavam de mil pecados que nós cometemos, como se não tivéssemos outra ocupação. — Henry Smith.

Põe, Senhor, uma guarda à minha boca. Tendo a natureza feito de meus lábios uma porta para minhas palavras, que a graça guarde essa porta, para que nenhuma palavra tenha licença de sair que de algum modo tenda ao desonra de Deus, ou ao dano de outros. — Matthew Henry.

Põe uma guarda, etc. Que um selo para as palavras não ditas repouse sobre a língua. Uma guarda sobre as palavras vale mais que sobre as riquezas. — Luciano.

Guarda a porta dos meus lábios. Que ela não se mova rangendo e reclamando, como em dobradiças enferrujadas, por falta do óleo da alegria e do contentamento. Davi tinha algo a resolver com sua língua, como vemos (Salmos 39:1,3); e quando conduziu a arca, como falou de modo inadequado, como se a culpa fosse mais de Deus do que sua, por ter havido tal brecha em Uzá (1 Crônicas 13:12). Bem necessário era, pois, orar assim. — John Trapp.

Versículo 4Salmo 141:4

Não inclines o meu coração a nenhuma coisa má, etc. O prazer e a vantagem presentes do pecado são muito estimados pelo pecador, e muito mais doces para ele do que aquilo que poderia gozar licitamente; os prazeres do pecado são as suas iguarias. Nenhum homem consegue se guardar de ser capturado pelos atrativos de um caminho pecaminoso, exceto se o Senhor o preservar: e não coma eu das suas iguarias.

Os homens mais santos da Escritura foram os mais conscientes da impotência de sua própria vontade livre, e de sua incapacidade de resistir às tentações, ou de pôr em ação os princípios da graça; os mais desconfiados de si mesmos, os mais dependentes de Deus, os mais cuidadosos em usar os meios, e conscienciosos em seguir as ordenanças, como suas orações testemunham: não inclines o meu coração a nenhuma coisa má, etc. — David Dickson.

Não inclines o meu coração. Hebraico: "não se incline o meu coração." — John Jebb.

O meu coração. Aquele homem é como Esaú, que tinha uma herança, que tinha um coração, mas já não tem posse do que é seu; portanto, dá a Deus o teu coração, para que ele o guarde; e não uma parte do teu coração, não um aposento no teu coração, mas o teu coração. O coração dividido morre. Deus não é como a mãe que queria a criança dividida, mas como a mãe verdadeira, que disse: antes que seja dividida, que a outra fique com tudo.

Que o diabo fique com tudo, se aquele que o deu não é digno disso. Deus não tem sócio, portanto não aceitará repartição, mas tudo ou nada; e por isso aquele que aqui pede o teu coração, em Deuteronômio 6:5, pede "todo o teu coração, toda a tua alma e toda a tua força"; três vezes exige tudo, para que não guardemos um pensamento de reserva.

Ainda assim, é o teu coração — isto é, um coração vão, um coração estéril, um coração pecaminoso — até que o entregues a Deus; e então ele é a esposa de Cristo, o templo do Espírito Santo, e a imagem de Deus, tão transformado, formado e refinado, que Deus o chama de coração novo. Há tal disputa pelo coração como houve pelo corpo de Moisés. "Dá-me a mim", diz o Senhor; "dá-me a mim", diz o tentador; "dá-me a mim", diz o papa; "dá-me a mim", diz a riqueza; "dá-me a mim", diz o prazer — como se fosse preciso, necessariamente, dá-lo a alguém.

Ora, aqui está a escolha: se o darás a Deus ou ao diabo; o coração de Deus ou o coração do diabo — de quem serás? — Henry Smith.

E não coma eu das suas iguarias. O pecado não é apenas comida, mas comida doce; não apenas pão, mas pão agradável, para um coração mau. Daniel, por algumas semanas, não comeu pão agradável; comia pão para manter corpo e alma juntos, mas se absteve de banquetes ou boa mesa. O pecado é um banquete para o homem carnal, é a sua boa mesa; sim, são "iguarias" para ele.

Davi, falando dos homens ímpios, diz: Não inclines o meu coração a nenhuma coisa má, para praticar obras ímpias com homens que praticam a iniquidade; e não coma eu das suas iguarias. Essas "iguarias" podem ser interpretadas ou como a prosperidade que vem de práticas ímpias (alguns, por caminhos ímpios, conseguem não apenas o sustento comum, mas "iguarias"); ou essas "iguarias" são o próprio pecado: eles se banqueteavam praticando o mal: "Senhor, não coma eu das suas iguarias." Se essa é a comida deles, prefiro morrer de fome a comer com eles. — Joseph Caryl.

As suas iguarias. Os inimigos de Davi eram sensuais e luxuosos; e teriam de bom grado admitido que ele partilhasse de seus banquetes, se seu caráter se assemelhasse ao deles. Ele suplica ser preservado de qualquer indução a isso. — William Walford.

Versículo 5Salmo 141:5

Fira-me o justo, etc. Este versículo é tão obscuro que chega a ser quase ininteligível. Segundo as versões inglesas, expressa a disposição de Davi de ser repreendido por homens bons, para seu próprio benefício. Mas esse sentido não só é difícil de extrair das palavras, como é estranho ao contexto.

Das muitas interpretações contraditórias que já se propuseram, a mais provável é a que entende a frase como significando que os sofrimentos suportados pelo homem bom, mesmo às mãos dos ímpios, são castigos infligidos por um Deus justo, com justiça e com misericórdia, e que, como tais, podem ser comparados a um óleo de festa, que a cabeça do sofredor não deveria recusar, pois ainda terá necessidade de consolo e ocasião de invocar a Deus, em meio a provações e males ainda por experimentar. — Joseph Addison Alexander.

Fira-me o justo. A palavra hebraica raramente é usada na Escritura senão para significar um golpe severo, que abala aquele que é ferido e o faz tremer; veja Provérbios 23:35, 1 Samuel 14:16, Salmos 74:6; e é usada para o golpe do martelo na bigorna, ao forjar o ferro (Isaías 41:7).

Por isso, a palavra seguinte pode ser tomada de forma adverbial, como um suavizador daquela severidade que esta palavra implica: "que ele me fira, mas" leniter, benigne, misericorditer — "de modo brando, bondoso, amistoso, misericordioso": e assim algumas traduções trazem as palavras: "Que o justo me fira com bondade, ou com amizade." — John Owen.

Fira-me o justo; será uma bondade, etc. A graça ensinará o cristão a tomar aquelas poções que são saudáveis, ainda que não sejam saborosas. A repreensão fiel é sinal de amor, e por isso bem pode ser tida por bondade. Um ferimento assim, feito por um amigo, é curativo, e por isso Davi bem podia chamá-lo de óleo excelente.

E ele não apenas disse isso, o que é fácil e comum, mas agiu de acordo. Não fez como os papistas, que elogiam muito a água benta, mas viram o rosto quando ela é aspergida sobre eles. Quando, pelo pecado e pela permanência nele, tinha gangrenado tanto a carne e se corrompido a ponto de correr perigo de morte, ele deixou que suas feridas fossem completamente examinadas sem se ressentir.

Natã foi o cirurgião que Deus empregou para examinar aquela ferida que tinha várias bocas de tanto supurar em sua alma; e, na verdade, não brincou com o paciente, embora fosse um príncipe, mas enfiou o instrumento até o fundo; ainda assim, por mais dor que isso lhe causasse, ele suportou com paciência, e longe de se irar com o profeta, fez dele um dos seus conselheiros. É sinal de natureza corrompida um homem, como uma serpente, ao ser apenas tocado, juntar veneno e vomitá-lo sobre quem o tocou. "Repreende o sábio, e ele te amará": Provérbios 9:8. — George Swinnock.

Fira-me o justo, etc. Se o justo nos fere com repreensões, isso deve ser tomado como bondade, e como bálsamo precioso, que não quebra a nossa cabeça, mas nos cura. Não que sejamos obrigados a mentir sobre nós mesmos por complacência com o humor censurador de quem quer nos acusar; mas devemos estar mais prontos a nos censurar do que a censurar os outros, e mais prontos a confessar uma falta do que a esperar uma confissão daqueles a quem repreendemos.

A sinceridade e o arrependimento sério serão honrosos naquela pessoa que mais se esforça por evitar o pecado, e mais pronta se mostra, com penitência, a confessá-lo quando vencida por ele, e verdadeiramente grata para com aqueles que a chamam ao arrependimento; como quem deseja mais que Deus, sua lei e sua religião recebam a glória de sua santidade, do que receber ele mesmo a glória indevida da inocência, e escapar da vergonha merecida do seu pecado.

É uma das doenças mais perigosas dos professos crentes, e um dos maiores escândalos desta época, que pessoas tidas por eminentemente religiosas se mostrem mais impacientes com uma repreensão clara, ainda que justa, do que muitos bêbados, blasfemadores ou fornicadores; e, tendo passado horas ou dias na aparentemente sincera confissão de seu pecado, e lamentando diante de Deus e dos homens não conseguir fazê-lo com mais dor e lágrimas, ainda assim consideram grave injúria que outro diga a metade disso contra elas, e tomam por inimigo maligno dos piedosos quem as chamar do que elas mesmas se chamam. — Richard Baxter (1615-1691), em "Os Exercícios da Manhã."

Fira-me o justo. Se um homem justo, ou verdadeiramente sábio, fere e repreende, ele o fará: 1. Sine felle, sem amargura. 2. Sine publicatione, sem publicar, divulgar, ou contar ao mundo. 3. Sine contumelia, sem desonra — para reformar o amigo, não para desonrá-lo. 4. Sine adulatione, sem lisonja. 5. Non sine Deo, não sem Deus. — John Gore, em um sermão intitulado "Bondade Desconhecida," 1635.

O justo, etc. O ministro não pode estar sempre pregando; duas ou três horas, talvez, por semana, ele passa entre o seu povo no púlpito, segurando o espelho do evangelho diante dos rostos deles; mas as vidas dos que professam a fé, essas pregam a semana toda: se ao menos fossem santas e exemplares, seriam como uma repetição do sermão do pregador para suas famílias e vizinhos, entre os quais convivem, e manteriam o som de sua doutrina ressoando continuamente em seus ouvidos.

Isso daria aos cristãos uma vantagem amável para fazer o bem a seus vizinhos carnais por conselho e repreensão, o que hoje raramente se faz, e quando se faz, produz pouco proveito, por não vir respaldado pela própria conduta exemplar. "Convém", diz Tertuliano, "a quem quer aconselhar ou repreender outro, guardar sua palavra com a autoridade da própria conduta, para que, faltando ela, o que ele diz não o faça corar."

Não gostamos que alguém de hálito fétido chegue muito perto de nós; assim, quem repreende precisa ter uma vida de aroma agradável. Repreensões são um bom remédio, mas têm recepção desagradável; é difícil para os homens não devolvê-las na cara de quem as dá. Ora, nada é mais poderoso para impedir que uma repreensão volte assim do que a santidade da pessoa que repreende. "Fira-me o justo", diz Davi, "será uma bondade; e que ele me repreenda, será um óleo excelente, que não quebrará a minha cabeça." Vejam como isso é bem recebido vindo de tal mão, pela autoridade que a santidade carrega consigo.

Só um vil miserável feriria com desonra um homem justo por tê-lo ferido com uma repreensão, quando dada com brandura, e trabalhada nele, como óleo fermentado, com compaixão e amor pela sua alma! Assim vemos quão influente seria o poder da santidade até sobre os ímpios, e não seria menor sobre nossos irmãos e companheiros cristãos. O santo Davi declarou que tomaria como bondade que o justo o ferisse; sim, com tanta bondade como se quebrasse sobre sua cabeça um vaso de óleo precioso, o que, entre os judeus, era uma grande expressão de amor. — William Gurnall.

Será uma bondade.

  1. É uma bondade reducere errantem, trazer de volta o que se desviou.

  2. Sanare aegrotum, curar o doente.

  3. Suscitare lethargum, despertar, estimular o letárgico, o sonolento.

  4. Ligare insanum, prender o louco.

  5. Liberare perditum, salvar o perdido, aquele em perigo iminente. — John Gore.

Será um óleo excelente, que não quebrará a minha cabeça. Algumas pessoas se orgulham de ser diretas, ou, como dizem, "honestas"; mas pessoas muito diretas fazem pouco bem aos outros, e conquistam pouco amor para si. As Escrituras recomendam mansidão e bondade. A repreensão deveria cair como o orvalho, e não como uma tempestade de granizo. O "óleo" se infiltra; a pedra fere e depois ricocheteia.

Cristãos devem tomar cuidado de não se apaixonarem pela tarefa de "repreender". Tais "guardas espirituais" fazem muito mal sem pretender. São, numa igreja, o que uma pessoa muito espirituosa e sarcástica é na sociedade, ou o que um fofoqueiro é numa escola; e se aproximam bastante daquela classe que o apóstolo chama de "intrometidos nos negócios alheios". Nossa maneira deve ser terna e cativante. O prego da repreensão, diz um velho escritor, precisa ser bem untado de bondade antes de ser cravado.

Mexer nas faltas alheias é como tentar mover alguém aflito por gota reumática: precisa ser feito devagar e com ternura, e não devemos nos assustar com um grito ou dois. O grande ponto é mostrar à pessoa que você realmente a ama; e se você manifesta isso diante de Deus, ele abençoará seus esforços, e lhe dará favor aos olhos do irmão que errou. — Christian Treasury.

Será um óleo excelente. Diz-se que certos óleos têm efeito muito salutar sobre a cabeça; por isso, em febres, ou em outros males que afetam a cabeça, os médicos sempre recomendam óleo. Já conheci pessoas transtornadas que se curaram em pouquíssimo tempo apenas com a aplicação de um óleo especial na cabeça. Há, porém, outros tipos que, acredita-se, quando assim aplicados, produzem delírio. Assim, as repreensões dos justos eram comparadas a "óleo excelente", que produzia um efeito muito salutar sobre a cabeça.

Tão comum é esse costume de ungir a cabeça, que todos os que podem pagar o fazem toda semana. Mas, por estranho que pareça, o alto da cabeça é o local escolhido para o castigo; assim, senhores de escravos, maridos ou mestres-escola batem com os nós dos dedos na cabeça dos infratores. Se algum menino chega atrasado à escola, ou esquece a lição, o professor diz a algum dos outros meninos: "Vá bater na cabeça dele!" "Some daqui, sujeito! ou baterei na sua cabeça." Se um homem é assim castigado por um inferior, ele cita o velho provérbio: "Se minha cabeça vai ser batida, que seja com os dedos que têm anéis" — referindo-se a um homem de posição.

"Sim, sim; que um homem santo me bata na cabeça! e daí? é um óleo excelente." "Meu senhor tem batido na minha cabeça, mas tem sido bom óleo para mim." — Joseph Roberts.

Óleo, que não quebrará a minha cabeça. Quando tomei este texto pela primeira vez, pareceu-me uma expressão muito estranha e inusitada. Se o Salmista tivesse dito: "será uma pedra que não quebrará a minha cabeça", teríamos entendido facilmente; mas falar de um óleo, ou um bálsamo, que sabemos ser tão suave, tão macio, tão delicado e brando unguento, que se fale dele quebrando a cabeça com óleo, é estranho.

Confesso que isso me intrigou por algum tempo, até que por fim entendi que podia ser dito por contrários; como quando um médico dá ao paciente algum peitoral ou cordial, e diz: "Tome isto, não lhe fará mal"; querendo dizer que lhe fará bem. Assim este óleo não quebrará a minha cabeça; isto é, ele a curará, estando quebrada pela minha própria corrupção, pelas tentações de Satanás, e pela má influência daqueles que me lisonjeiam em meus pecados. — John Gore.

Se Davi pôde dizer do inimigo que o amaldiçoava: "Deixai-o, pois o Senhor lhe ordenou que amaldiçoasse"; com muito mais segurança podes dizer do amigo que te repreende: "Deixai-o, pois o Senhor lhe ordenou que ferisse." E como o apóstolo diz dos ministros, que Deus "vos roga por nosso intermédio"; assim persuadi-vos de que Deus vos repreende por meio deles. — John Gore.

Era o dito de um pagão, embora não fosse um dito pagão, "que aquele que quiser ser bom precisa ter ou um amigo fiel que o instrua, ou um inimigo vigilante que o corrija." Assassinaríamos um médico porque veio nos curar; ou o odiaríamos mais por querer nos fazer melhores? A espada flamejante da repreensão serve apenas para nos afastar do fruto proibido da transgressão. Fira-me o justo; será uma bondade; e que ele me repreenda; será um óleo excelente, que não quebrará a minha cabeça. Que ele me fira como com um martelo, pois é isso que a palavra significa. Um Boanerges é tão necessário quanto um Barnabé. — William Seeker.

Pois ainda a minha oração estará nas suas calamidades. Isto é, se algum dia aqueles que me repreendem caírem em calamidade, embora possam pensar que me provocaram tanto ao me repreender que perderam o meu amor, e se puseram fora das minhas orações, ou que eu nunca mais falarei bem deles ou por eles; ainda assim orarei por eles de todo o coração, conforme o caso exigir.

Orarei por eles quando mais precisarem de oração, justamente "nas suas calamidades". Alguns intensificam ainda mais o sentido assim: quanto mais aguda a repreensão deles, mais me sinto obrigado a orar por eles. Isso mostra um espírito excelente, não se deixar impedir de fazer o bem a outros por nada do que digam ou façam contra nós, nem por suas repreensões mais ásperas (ainda que talvez equivocadas). Assim foi que aquele homem bom, Jó, "orou por seus amigos", que tinham falado muito contra ele, e não apenas o haviam repreendido sem razão, mas censurado sem caridade. — Joseph Caryl.

Versículo 6Salmo 141:6

Quando os seus juízes forem derrubados, etc. Quando os julgamentos reservados para os líderes dos meus inimigos caírem sobre eles, perceberão tarde demais quão razoáveis eram as minhas palavras, e desejarão tê-las ouvido antes. — Joseph Addison Alexander.

Derrubados. O verbo traduzido "derrubados" é usado a respeito de Jezabel em 2 Reis 9:33: "Lançai-a abaixo. E a lançaram abaixo." — Speaker's Commentary.

Ouvirão as minhas palavras; porque são doces. Isto é especialmente verdadeiro de todas as palavras que Davi falou por inspiração, ou que o Espírito de Deus lhe falou; articuladamente em seu livro de Salmos; a respeito do Messias, da aliança da graça e de suas bênçãos; das ricas experiências de graça que teve, e das várias doutrinas do evangelho por ele declaradas; palavras que eram doces, agradáveis e cativantes para os que têm ouvidos para ouvir tais coisas; ou cujos ouvidos estão abertos para ouvi-las, de modo a entendê-las e distingui-las, mas não para os outros. — John Gill.

Ouvirão as minhas palavras; porque são doces. Aqueles que antes desprezavam a palavra de Deus vão saboreá-la e se alegrar com ela quando estiverem na aflição; pois é isso que abre o ouvido para a instrução. Quando o mundo é amargo, a palavra é doce. A inocência oprimida não consegue ganhar ouvidos entre os que vivem em pompa e prazer; mas quando eles próprios forem derrubados, terão pensamentos mais compassivos para com os aflitos. — Matthew Henry.

Porque são doces. Serão agradáveis; brandas; suaves; equitativas; justas. Depois dos decretos duros e severos de Saul, depois de suportar seus atos de tirania, o povo ficará contente em me acolher, e em viver sob as leis de uma administração justa e igualitária. A passagem, portanto, expressa confiança de que Saul e suas hostes seriam derrubados, e que o povo da terra saudaria com alegria a subida ao trono daquele que fora ungido para reinar sobre eles. — Albert Barnes.

Versículos 6–7Salmo 141:6-7

O comportamento brando e submisso de Davi para com Saul e seus amigos é posto lado a lado, por contraste, na luz mais forte, a partir dos exemplos de cada tipo aqui trazidos. O primeiro é a humanidade de Davi para com Saul, ao poupar-lhe a vida em duas ocasiões diferentes, quando podia destruí-lo à vontade.

Os seus juízes foram dispensados nos lugares rochosos; e ouviram as minhas palavras, que são doces; isto é, "os seus príncipes foram dispensados em segurança, quando eu os tinha à minha mercê naqueles desertos rochosos; e apenas me ouviram argumentar com eles nas palavras mais brandas."

O outro é a barbárie e a crueldade de Saul para com Davi (ou seus amigos, o que é praticamente o mesmo) no horrendo massacre de Aimeleque e dos sacerdotes, pela mão de Doegue, o edomita, feito de modo tão selvagem que ele o compara a cortar e rachar lenha; assim como quando alguém corta e racha, assim os nossos ossos foram espalhados sobre a terra, à ordem de Saul; pois assim leio as palavras hebraicas, le-pi Saul, "à boca", isto é, ao comando de Saul.

Se supusermos que esta passagem se refere à primeira vez em que Davi poupou Saul, a saber, quando o teve em seu poder na caverna de En-Gedi (aqui chamada chede sela, os flancos da rocha, ou os lugares rochosos), o discurso que ele fez nessa ocasião, ao chamar por Saul (e que está registrado em 1 Samuel 24:8-16), bem poderia ser chamado de palavras doces ou agradáveis.

Pois elas expunham a sua própria inocência e o comportamento injusto do rei para com ele numa luz tão forte, e com tanta mansidão e brandura, que até mesmo aquele príncipe de coração duro não pôde deixar de se sentir profundamente comovido no momento; e nos é dito (1 Samuel 24:16-17) que "ele levantou a voz e chorou." — Charles Peters.

Versículo 7Salmo 141:7

Os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura, etc. A referência primária pode ser à matança dos sacerdotes por ordem de Saul, 1 Samuel 22:16-19. A linguagem, porém, pode ilustrar os muitos massacres, como o da véspera de São Bartolomeu, tão numerosos a ponto de espalhar-se pela face da terra, marcando a passagem de mártires piedosos deste mundo para um melhor, e testemunhando onde o sangue dos mortos será revelado para o julgamento de seus assassinos. — W. Wilson.

Os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura, etc. Supondo o extremo mais radical, é um olhar de esperança para o futuro: ainda que seus ossos e os ossos de seus seguidores estivessem espalhados à boca do Sheol (cf. a imagem síria do Sheol: "o pó sobre o seu limiar", al-escufteh, Deutsche Morgenländische Zeitschrift, 20, 513), sua alma embaixo, seus ossos em cima — ainda assim seria apenas como quando alguém, ao arar, rompe a terra; isto é, não jazem ali para continuar jazendo, mas para se levantarem de novo, como a semente lançada brota da terra revolvida. — Franz Delitzsch.

Os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura. Isto é: eu e minha companhia estamos em condição de morte, livres entre os mortos; sim, se capturados, sofreríamos as mortes mais cruéis, seríamos despedaçados, ou arrancados membro a membro, e deixados sem sepultura; e nossos corpos mortos mutilados por uma desumanidade bárbara, como lenhadores fazem as lascas voarem para todo lado. Este é o caso perigoso de mim e dos meus partidários. — John Trapp.

Os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura. Isto parece um forte quadro oriental, uma linguagem quase figurada; mas que pode ser estritamente verdadeira, é o que demonstra o seguinte relato: "Às cinco horas deixamos Garigana, seguindo ainda para o nordeste; e, um quarto após as seis da noite, chegamos à aldeia de mesmo nome, cujos habitantes haviam todos perecido de fome no ano anterior; seus ossos miseráveis todos insepultos, e espalhados pela superfície do solo onde antes ficava a aldeia. Acampamos entre os ossos dos mortos, pois não se encontrava espaço livre deles; e no dia 23, às seis da manhã, cheios de horror diante desse espetáculo miserável, partimos para Teawa." (Viagens de James Bruce.) Para os judeus, tal espetáculo deve ter sido terrível, pois a falta de sepultura era considerada uma das maiores calamidades que podiam lhes acontecer. — "Costumes Orientais," de Burder.

Como quando alguém ara e racha a terra. Esta cláusula pode ser explicada não como rachar lenha, mas como arar, sentido ao qual o primeiro verbo se aplica em árabe. Como (alguém) arando e rachando (abrindo sulcos) na terra, não para mutilar sua superfície, mas para torná-la fértil e produtiva, (assim) os nossos ossos estão espalhados à boca do inferno, como o meio necessário de uma gloriosa ressurreição. — Joseph Addison Alexander.

Quem pode assistir à abertura de uma sepultura, e contemplar as ruínas então reveladas, sem exclamar: os nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura, como quando alguém corta e racha lenha sobre a terra? — George Horne.

Versículo 8Salmo 141:8

Os meus olhos estão postos em ti, ó Senhor Deus. Se você quiser manter a mente fixa na oração, mantenha o olhar fixo. Muita vaidade entra pelos olhos. Quando os olhos vagam na oração, o coração vaga. Pensar em manter o coração fixo na oração, mas deixar os olhos vaguearem por aí, é como pensar em manter a casa segura, mas deixar as janelas abertas. — Thomas Watson.

Não deixes a minha alma desamparada. O hebraico literal é: "não derrames a minha alma", mas guarda-a no teu cálice de salvação. — Agellius. Compare Isaías 53:12: "derramou a sua alma até a morte."

Não deixes a minha alma desamparada, ou, "não lances fora a minha alma." Isto é, não lances fora a minha vida, como água, que não tem valor algum, é lançada fora do vaso que a contém. — Daniel Cresswell.

Não deixes a minha alma desamparada. Sua alma sabia o que era estar "desamparada"; ele conhecera a miséria da mendicância espiritual e da pobreza da alma. Para ele não era como a pobreza natural é para o rico, um assunto de especulação, mera questão de teoria; mas um assunto de experiência pessoal e dolorosa...

Está na margem: "não deixes a minha alma nua." Não me despojes de toda esperança; não me deixes completamente nu; não me abandones à mendicância e à miséria da natureza; não me deixes descer à cova com todos os meus pecados sobre a cabeça; não deixes a minha alma desamparada de perdão e paz. — Joseph C. Philpot.

Versículos 8–10Salmo 141:8-10

Ó não derrames minha alma, eu rogo,

do laço escuro guarda o meu caminho,

as câmaras da rede cega e traiçoeira,

que os poderes do mal armaram no meu rumo.

Repara neles ocultos, o bando ímpio,

baixos na trama que às escuras teceram:

enquanto, com o coração atento e olhar vigilante,

espero minha hora de passar vitorioso.

— John Keble.

Versículos 9–10Salmo 141:9-10

Laços, armadilhas, redes. O método usual para capturar ou matar o leão na Palestina era por meio de covas ou redes, às quais há muitas referências nas Escrituras. O modo de caçar o leão com redes era idêntico ao que se pratica na Índia nos dias de hoje.

Descoberta a localização precisa da toca do leão, arma-se ao redor dela um muro circular de rede; ou, se só se conseguem poucas redes, elas são armadas em forma curva, com o lado côncavo voltado para o leão. Então enviam cães para o matagal, atiram pedras e paus contra a toca, disparam flechas dentro dela, jogam tochas acesas sobre ela, e assim irritam e alarmam o animal a tal ponto que ele se lança contra a rede, que é feita de modo a cair e envolver o animal em suas dobras.

Se as redes são poucas, os batedores vão para o lado oposto da toca, e induzem o leão a fugir na direção onde não vê inimigos, mas onde certamente esbarrará na rede traiçoeira. Outros animais grandes e perigosos também eram capturados pelo mesmo meio.

Outro método, mais comum, por ser mais fácil e mais barato, era cavar um fosso profundo, cobrindo a boca com uma leve camada de galhos e terra, e conduzindo o animal sobre essa cobertura traiçoeira. É um método mais fácil que o da rede, porque, uma vez cavado o fosso, o único trabalho está em lançar a cobertura sobre a boca dele. Mas não é tão adequado para capturar animais vivos, pois é provável que se machuquem, seja na queda dentro do fosso, seja nos meios usados para tirá-los de lá de novo. Animais, portanto, capturados em fossos são geralmente, embora nem sempre, mortos antes de serem retirados.

A rede, porém, envolve o animal tão perfeitamente, e o deixa tão indefeso, que pode ser facilmente amarrado e levado embora. A rede de caça é muito cara, e exige uma grande equipe de homens para operá-la, de modo que só um homem rico poderia usá-la na caçada.

Além da rede, vários outros métodos de capturar aves eram usados pelos antigos judeus, assim como acontece hoje. Meninos, por exemplo, que capturam aves para seu próprio consumo, e não para o mercado, podem fazê-lo por meio de várias armadilhas, a maioria delas feitas segundo o princípio do laço, ou armadilha de corda. Às vezes um grande número de laços de crina é armado em lugares para onde as aves são atraídas, de modo que, ao saltitarem por ali, muitas certamente ficam presas nos laços. Às vezes o laço é engenhosamente suspenso numa passagem estreita que as aves provavelmente atravessarão, e às vezes se emprega uma simples armadilha de queda. — J. G. Wood.

Versículo 10Salmo 141:10

Nas suas próprias redes. A palavra traduzida "redes" ocorre apenas neste lugar, assim como a palavra estreitamente correspondente em Salmos 140:10, traduzida "covas profundas", também ocorre só ali. — Speaker's Commentary.

Ir para o salmo

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5
  6. 6
  7. 7
  8. 8
  9. 9
  10. 10
  11. 11
  12. 12
  13. 13
  14. 14
  15. 15
  16. 16
  17. 17
  18. 18
  19. 19
  20. 20
  21. 21
  22. 22
  23. 23
  24. 24
  25. 25
  26. 26
  27. 27
  28. 28
  29. 29
  30. 30
  31. 31
  32. 32
  33. 33
  34. 34
  35. 35
  36. 36
  37. 37
  38. 38
  39. 39
  40. 40
  41. 41
  42. 42
  43. 43
  44. 44
  45. 45
  46. 46
  47. 47
  48. 48
  49. 49
  50. 50
  51. 51
  52. 52
  53. 53
  54. 54
  55. 55
  56. 56
  57. 57
  58. 58
  59. 59
  60. 60
  61. 61
  62. 62
  63. 63
  64. 64
  65. 65
  66. 66
  67. 67
  68. 68
  69. 69
  70. 70
  71. 71
  72. 72
  73. 73
  74. 74
  75. 75
  76. 76
  77. 77
  78. 78
  79. 79
  80. 80
  81. 81
  82. 82
  83. 83
  84. 84
  85. 85
  86. 86
  87. 87
  88. 88
  89. 89
  90. 90
  91. 91
  92. 92
  93. 93
  94. 94
  95. 95
  96. 96
  97. 97
  98. 98
  99. 99
  100. 100
  101. 101
  102. 102
  103. 103
  104. 104
  105. 105
  106. 106
  107. 107
  108. 108
  109. 109
  110. 110
  111. 111
  112. 112
  113. 113
  114. 114
  115. 115
  116. 116
  117. 117
  118. 118
  119. 119
  120. 120
  121. 121
  122. 122
  123. 123
  124. 124
  125. 125
  126. 126
  127. 127
  128. 128
  129. 129
  130. 130
  131. 131
  132. 132
  133. 133
  134. 134
  135. 135
  136. 136
  137. 137
  138. 138
  139. 139
  140. 140
  141. 141
  142. 142
  143. 143
  144. 144
  145. 145
  146. 146
  147. 147
  148. 148
  149. 149
  150. 150

Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Fonte