Salmo 127
Leia o Salmo 127 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Um Cântico de Romagem, para Salomão. Era justo que o construtor da casa santa fosse lembrado pelos peregrinos que subiam ao seu santuário sagrado. O título indica provavelmente que Davi o escreveu para seu filho sábio, em quem tanto se alegrava, e cujo nome, Jedidias, ou "amado do Senhor", é introduzido no segundo versículo. O espírito do seu nome, "Salomão, ou pacífico", respira por todo este encantador cântico. Se o próprio Salomão foi o autor, ele vem apropriadamente daquele que ergueu a casa do Senhor.
Note como, em cada um destes cânticos, o coração está fixo somente em Jeová. Leia os primeiros versículos destes salmos, do Salmo 120 até o presente cântico, e eles dizem assim: "Clamei ao Senhor", "Levantarei os meus olhos para os montes", "Vamos à casa do Senhor", "A ti levanto os meus olhos", "Se não fora o Senhor", "Os que confiam no Senhor", "Quando o Senhor trouxe de volta os cativos de Sião". O Senhor, e somente o Senhor, é assim louvado a cada passo destes cânticos das subidas.
Ah, que tivéssemos uma vida em que cada parada sugerisse um novo cântico ao Senhor!
ASSUNTO. Fala-se aqui da bênção de Deus sobre o seu povo como a sua única grande necessidade e privilégio. Somos ensinados que construtores de casas e cidades, de sistemas e fortunas, de impérios e igrejas, todos trabalham em vão sem o Senhor; mas sob o favor divino gozam de perfeito descanso. Os filhos, a quem em hebraico se chama "construtores", são apresentados como quem edifica famílias sob a mesma bênção divina, para grande honra e felicidade de seus pais. É O SALMO DO CONSTRUTOR. "Toda casa é edificada por algum homem, mas o que edificou todas as coisas é Deus", e a Deus seja o louvor.
Exposição
Versículo 1Salmo 127:1
Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. A palavra "vão" é a nota-chave aqui, e a ouvimos soar claramente três vezes. Homens que desejam construir sabem que precisam trabalhar, e por isso empregam toda a sua habilidade e força; mas que se lembrem de que, se Jeová não estiver com eles, os seus projetos fracassarão. Assim foi com os construtores de Babel; disseram: "Vinde, edifiquemo-nos uma cidade e uma torre"; e o Senhor devolveu as suas palavras contra eles mesmos, dizendo: "Vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua." Em vão se afadigaram, pois o rosto do Senhor estava contra eles.
Quando Salomão decidiu construir uma casa para o Senhor, tudo foi muito diferente, pois todas as coisas se uniram sob Deus para ajudá-lo em seu grande empreendimento: até os pagãos estavam à sua disposição para que ele erguesse um templo para o Senhor seu Deus. Da mesma forma Deus o abençoou na construção do seu próprio palácio; pois este versículo evidentemente se refere a toda espécie de construção de casas.
Sem Deus não somos nada. Grandes casas foram erguidas por homens ambiciosos; mas, como o tecido sem base de uma visão, desapareceram, e mal resta uma pedra que diga onde um dia estiveram. O rico construtor do Palácio de Nonsuch, se pudesse revisitar os vislumbres da lua, ficaria perplexo por não encontrar relíquia alguma de seu antigo orgulho: trabalhou em vão, pois o lugar de seu labor não guarda vestígio algum de sua obra. O mesmo se pode dizer dos construtores de castelos e abadias: quando o modo de vida que essas construções representavam deixou de ser tolerável ao Senhor, os muros maciços dos antigos arquitetos desmoronaram em ruínas, e o seu labor se dissolveu como a espuma da vaidade.
Não é só agora que gastamos nossas forças em vão sem Jeová, mas todos os que já trabalharam à parte dele caem sob a mesma sentença. Colher e martelo, serra e plaina são instrumentos de vaidade, a menos que o Senhor seja o Mestre construtor.
Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Ao redor do muro, os sentinelas caminham a passo constante; mas ainda assim a cidade está traída, a menos que o Vigia alerta esteja com eles. Não estamos seguros por causa dos guardas se Jeová se recusa a vigiar sobre nós. Mesmo que as sentinelas estejam despertas e cumpram o seu dever, ainda assim o lugar pode ser surpreendido se Deus não estiver ali. "Eu, o Senhor, a guardo" vale mais que um exército de guardas insones.
Note que o salmista não manda o construtor parar de trabalhar, nem sugere que os vigias devam negligenciar seu dever, nem que os homens devam mostrar sua confiança em Deus não fazendo nada: pelo contrário, ele supõe que farão tudo o que puderem fazer, e então proíbe que fixem sua confiança no que fizeram, e assegura que todo esforço humano será em vão a menos que o Criador manifeste o seu poder, tornando eficazes as causas segundas. A Sagrada Escritura confirma a máxima de Cromwell — "Confia em Deus, e mantém a pólvora seca": só que aqui o sentido varia, e nos é dito que a pólvora seca não trará a vitória a menos que confiemos em Deus. Feliz o homem que acerta o justo meio, trabalhando de modo a crer em Deus, e crendo em Deus de modo a trabalhar sem medo.
Na linguagem das Escrituras, uma dispensação ou sistema é chamado de casa. Moisés foi fiel como servo sobre toda a sua casa; e enquanto o Senhor esteve com aquela casa, ela se manteve firme e prosperou; mas quando ele a deixou, os que a construíam tornaram-se insensatos e seu trabalho se perdeu. Procuravam manter os muros do judaísmo, mas em vão: vigiavam cada cerimônia e cada tradição, mas o seu cuidado era inútil.
De toda igreja, e de todo sistema de pensamento religioso, isso é igualmente verdadeiro: a menos que o Senhor esteja nele, e seja honrado por ele, toda a estrutura mais cedo ou mais tarde acabará por cair em ruína irremediável. O homem pode fazer muito; pode tanto trabalhar quanto vigiar; mas sem o Senhor nada realizou, e sua vigília não afastou o mal.
Versículo 2Salmo 127:2
É em vão que vos levantais cedo, que ficais acordados até tarde, que comeis o pão de dores. Como o descanso principal deve ser encontrado no Senhor, toda ansiedade devoradora não passa de vaidade e aflição de espírito. Somos obrigados a ser diligentes, pois a isso o Senhor abençoa; não devemos ser ansiosos, pois isso desonra o Senhor e jamais garante o seu favor. Alguns se negam o descanso necessário; a manhã os vê levantar antes de terem descansado, a noite os vê labutando muito depois de o toque de recolher anunciar o fim do dia. Ameaçam levar-se ao sono da morte por negligenciarem o sono que revigora a vida.
Nem a insônia é o único sinal de sua aflição diária; economizam nas refeições, comem o alimento mais comum, na menor quantidade possível, e o que engolem é regado com as lágrimas salgadas da tristeza, pois temem que o pão de cada dia lhes falte. Duramente ganho é o seu alimento, racionado a pouco, quase nunca adoçado, mas sempre besuntado de tristeza; e tudo porque não têm fé em Deus, e não encontram alegria senão em entesourar o ouro que é sua única confiança.
Não assim, não assim o Senhor quer que os seus filhos vivam. Ele quer que levem, como príncipes de sangue, uma vida feliz e tranquila. Que tomem uma justa medida de descanso e uma porção adequada de alimento, pois isso é para a sua saúde. É claro que o verdadeiro crente jamais será preguiçoso ou perdulário; se o for, sofrerá as consequências; mas não achará necessário nem correto viver preocupado e mesquinho. A fé traz consigo a calma, e afasta os perturbadores que, de dia e de noite, assassinam a paz.
Pois assim ele dá sono aos seus amados. Pela fé, o Senhor faz com que os seus escolhidos descansem nele, em feliz liberdade de toda preocupação. O texto talvez signifique que Deus concede bênçãos aos seus amados enquanto dormem, assim como deu a Salomão o desejo do seu coração enquanto ele dormia. O sentido é praticamente o mesmo: aqueles a quem o Senhor ama são livres da inquietação e da fúria da vida, e repousam docemente no seio do seu Senhor.
Ele os faz descansar; os abençoa enquanto descansam; abençoa-os mais nesse descanso do que a outros em sua labuta e fadiga. Deus certamente dá o melhor aos seus amados, e vemos aqui que lhes dá o sono — isto é, deixar de lado a preocupação, esquecer a necessidade, entregar tranquilamente as coisas a Deus: esse tipo de sono vale mais que riquezas e honra.
Note como Jesus dormiu em meio à fúria de uma tempestade no mar. Ele sabia que estava nas mãos de seu Pai, e por isso seu espírito estava tão tranquilo que as ondas o embalaram no sono: seria muito mais frequente assim conosco, se fôssemos mais parecidos com ELE.
É de esperar que os que construíram o templo de Salomão pudessem trabalhar nele com constância e alegria. Certamente tal casa não foi construída por operários relutantes. Espera-se que os trabalhadores não fossem obrigados a se apressar de manhã nem a prolongar seu labor noite adentro; antes, gostaríamos de crer que trabalhavam com firmeza, descansando devidamente, e comendo o seu pão com alegria.
Assim, ao menos, deveria ser erguido o templo espiritual; embora, a bem da verdade, os que trabalham em seus muros estejam sempre propensos a se sobrecarregar de tantos afazeres, sempre prontos a esquecer o seu Senhor, e a imaginar que a construção deve ser feita apenas por eles mesmos.
Quanto mais felizes poderíamos ser se apenas confiássemos a casa do Senhor ao Senhor da casa! Mais importante ainda: quanto melhor seria a nossa construção e a nossa vigilância, se apenas confiássemos no Senhor que edifica e guarda a sua própria igreja!
Versículo 3Salmo 127:3
Eis que os filhos são herança do Senhor. Isto aponta para outro modo de edificar uma casa, a saber, deixando descendentes que mantenham vivo o nosso nome e a nossa família sobre a terra. Sem isso, qual é o propósito de um homem em acumular riqueza? Para que serve construir uma casa, se não tem em seu lar quem a mantenha depois dele? De que lhe vale ser dono de vastas terras, se não tem herdeiro? E, no entanto, nisto o homem é impotente sem o Senhor. O grande Napoleão, com todo o seu cuidado pecaminoso quanto a este ponto, não conseguiu criar uma dinastia. Centenas de pessoas ricas dariam metade das suas propriedades para ouvir o choro de um filho nascido do seu próprio corpo.
Os filhos são uma herança que o próprio Jeová deve conceder, ou o homem morrerá sem filhos, e assim a sua casa ficará por construir. E o fruto do ventre é a sua recompensa, uma recompensa vinda de Deus. Ele dá filhos não como castigo nem como fardo, mas como favor. São um sinal de bênção para quem sabe recebê-los e educá-los. São "bênçãos duvidosas" só porque somos pessoas duvidosas.
Onde a sociedade está corretamente ordenada, os filhos não são vistos como estorvo, mas como herança; e são recebidos não com pesar, mas como recompensa. Se na Inglaterra estamos superlotados, e parecemos embaraçados com um crescimento demasiado grande, devemos lembrar que o Senhor não nos manda permanecer nesta ilha estreita, mas quer que ocupemos aquelas regiões sem limites que esperam pelo machado e pelo arado. Mesmo aqui, porém, com todas as dificuldades de rendas limitadas, nossos melhores bens são os nossos próprios e queridos filhos, pelos quais bendizemos a Deus todos os dias.
Versículo 4Salmo 127:4
Como flechas na mão do homem valente, assim são os filhos da mocidade. Os filhos nascidos ao homem nos seus primeiros dias, pela bênção de Deus, tornam-se o conforto dos seus anos maduros. O homem de guerra alegra-se com armas que voam onde ele não pode chegar: bons filhos são as flechas do pai, lançadas para atingir o alvo que os pais visam.
Quantas maravilhas um homem bom pode realizar, se tem filhos afetuosos para secundar seus desejos e se emprestar aos seus projetos! Para isso, precisamos ter os nossos filhos em mãos enquanto ainda são crianças, ou dificilmente o teremos quando já forem adultos; e devemos procurar apontá-los e endireitá-los, para fazer deles flechas ainda na juventude, para que não se tornem tortos e inúteis na vida adulta.
Que o Senhor nos favoreça com filhos leais, obedientes e afetuosos, e neles encontraremos os nossos melhores auxiliares. Vamos vê-los lançados para a vida, para nosso conforto e alegria, se desde o início cuidarmos para que sejam direcionados ao ponto certo.
Versículo 5Salmo 127:5
Feliz o homem que tem a sua aljava cheia deles. Aqueles que não têm filhos lamentam o fato; os que têm poucos filhos logo os veem partir, e a casa fica silenciosa, e sua vida perde um encanto; os que têm muitos filhos piedosos são, no geral, os mais felizes. Certamente, um grande número de filhos significa um grande número de provações; mas, quando estas são enfrentadas com fé no Senhor, significa também uma massa de amor e uma multidão de alegrias.
O autor deste comentário registra, por observação própria, que tem visto a infelicidade mais frequente nos casamentos sem filhos; que ele mesmo tem sido muito grato por dois excelentes filhos; mas, como ambos já cresceram e ele não tem mais filho em casa, sente, sem sombra de queixa, nem mesmo desejando que as coisas fossem diferentes, que poderia ter sido uma bênção ter tido uma família mais numerosa: por isso concorda de todo o coração com o veredicto do salmista aqui expresso.
Ele conheceu uma família com umas doze filhas e três filhos, e não espera testemunhar sobre a terra felicidade doméstica maior do que a que coube a esses pais, que se alegravam em todos os seus filhos, assim como os filhos se alegravam em seus pais e uns nos outros.
Quando filhos e filhas são flechas, é bom ter uma aljava cheia deles; mas se são apenas gravetos, nodosos e inúteis, quanto menos deles, melhor. Embora sejam felizes os que têm a aljava cheia, não há razão para duvidar de que muitos são felizes sem aljava alguma; pois uma vida tranquila talvez não precise de arma tão guerreira. Além disso, uma aljava pode ser pequena e ainda assim estar cheia; e então a bênção está garantida. Em todo caso, podemos estar certos de que a vida do homem não consiste na abundância de filhos que possui.
Não serão envergonhados, mas falarão com os seus inimigos à porta. Podem enfrentar inimigos tanto na justiça quanto na luta. Ninguém se atreve a mexer com um homem que pode reunir ao seu redor um clã de filhos corajosos. Fala com autoridade aquele cujos próprios filhos dão peso às suas palavras, pela resolução de cumprir a vontade do pai. Esta é a bênção de Abraão, a antiga bênção da aliança: "A tua semente possuirá a porta dos seus inimigos"; e ela é certa, de alguma forma, para todos os amados do Senhor. Não triunfa o Senhor Jesus assim na sua semente?
Olhando de modo literal, este favor vem do Senhor: sem a sua vontade não haveria filhos para edificar a casa, e sem a sua graça não haveria bons filhos para serem a força de seus pais. Se isto deve ser deixado nas mãos do Senhor, deixemos também toda outra coisa nas mesmas mãos. Ele assumirá por nós e fará prosperar os nossos esforços confiantes, e desfrutaremos de uma vida tranquila, e provaremos ser os amados do Senhor pela calma e sossego do nosso espírito.
Não precisamos duvidar de que, se Deus nos dá filhos como recompensa, também nos enviará o alimento e a roupa que sabe que eles precisam. Aquele que é pai de uma multidão de filhos espirituais é, sem dúvida, feliz. Pode responder a todos os opositores apontando para as almas que foram salvas por seu intermédio. Os convertidos são, verdadeiramente, a herança do Senhor, e a recompensa do trabalho de parto da alma do pregador. Por meio deles, sob o poder do Espírito Santo, a cidade da igreja é ao mesmo tempo edificada e guardada, e a glória disso pertence ao Senhor.