Salmo 149
Leia o Salmo 149 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Estamos quase no último Salmo, e ainda em meio aos Aleluias. Este é "um cântico novo", evidentemente destinado à nova criação, e aos homens de coração renovado. É um cântico como o que se pode entoar na vinda do Senhor, quando a nova dispensação trouxer ruína aos ímpios e honra a todos os santos. O tom é extremamente jubiloso e triunfante. Do começo ao fim ouve-se o compasso dos pés das donzelas que dançam, marcando o ritmo com o adufe e a harpa.
Exposição
Versículo 1Salmo 149:1
Louvai ao SENHOR. Especialmente vós, povo escolhido, a quem ele fez seus santos. Já o louvastes antes; louvai-o mais uma vez; sim, louvai-o para sempre. Com zelo renovado e prazer fresco, erguei o vosso cântico a Jeová.
Cantai ao SENHOR um cântico novo. Cantai, pois é o modo mais próprio de exprimir louvor reverente. Cantai um hino recém-composto, pois agora tendes um conhecimento novo de Deus. Ele é sempre novo em suas manifestações; suas misericórdias são novas cada manhã; seus livramentos são novos em cada noite de tristeza; que a vossa gratidão e ação de graças sejam novas também.
É bom repetir o antigo; é mais proveitoso inventar o novo. A novidade combina bem com o fervor. Nosso cantar deve ser "ao Senhor"; os cânticos que entoamos devem falar dele e a ele se dirigir, "porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas". Entre nossas novidades deveria haver cânticos novos: ai de nós, os homens gostam mais de inventar queixas novas do que salmos novos. Nossos cânticos novos devem ser concebidos em honra a Jeová; na verdade, todos os nossos pensamentos mais recentes deveriam correr para ele. Nunca acharemos assunto mais nobre para um cântico do que o Senhor, nem outro mais cheio de matéria fresca para um cântico novo, nem outro que sejamos tão pessoalmente obrigados a cantar como cântico novo "ao Senhor".
E o seu louvor na congregação dos santos. Os santos são preciosos, e uma congregação de santos é uma casa de tesouro cheia de joias. Deus está no meio dos santos, e por isso podemos bem desejar estar entre eles. Estão tão cheios do seu louvor que nos sentimos em casa entre eles quando nós mesmos estamos cheios de louvor. O santuário é casa de louvor tanto quanto casa de oração.
Todos os santos louvam a Deus: não seriam santos se não o fizessem. O louvor deles é sincero, adequado, oportuno e aceitável. O louvor pessoal é doce a Deus, mas o louvor reunido tem em si uma multiplicidade de doçuras. Quando os santos se reúnem, adoram o Santo. Os santos não se ajuntam para se divertir com música, nem para exaltar uns aos outros, mas para cantar o louvor daquele de quem são santos.
Uma congregação de santos é o céu na terra: não deveria Jeová, o Senhor dos santos, receber todo o louvor que dessa assembleia pode vir? No entanto, às vezes até os concílios de santos precisam ser despertados para a ação de graças; pois os santos podem estar tristes e apreensivos, e então seus espíritos precisam ser elevados a um tom mais alto, e estimulados a um culto mais alegre.
Versículo 2Salmo 149:2
Alegre-se Israel naquele que o fez. Eis aqui aquela nova criação que reclama o cântico novo. Foi Jeová quem fez de Israel Israel, e das tribos uma grande nação: que o Fundador da nação seja tido, portanto, em honra perpétua. Alegria e regozijo são evidentemente as marcas próprias do cântico novo. A religião dos mortos em pecado tende mais a entoar lamentos do que a cantar aleluias; mas quando somos renovados no espírito do nosso entendimento, nos alegramos e regozijamos naquele que nos fez. Nossa alegria está em nosso Deus e Rei: não escolhemos deleite inferior.
Alegrem-se os filhos de Sião no seu Rei. Aqueles que viram as tribos formadas em reino estabelecido, tanto quanto em nação unida, devem alegrar-se. Israel é a nação, Sião é a capital do reino: Israel se alegra no seu Criador, Sião no seu Rei. No caso do nosso Deus, nós que nele cremos nos alegramos tanto com o seu Governo quanto com a sua Criação: o seu reinado é tão verdadeiramente uma feitura nossa quanto o foi o seu poder divino.
Os filhos de Israel são felizes por serem feitos um povo; os filhos de Sião são igualmente felizes por serem governados como um povo. Em todo caráter, o nosso Deus é fonte de alegria para nós: este versículo dá licença à nossa alegria, sim, nos impõe o dever de nos alegrarmos no Senhor.
Versículo 3Salmo 149:3
Louvem o seu nome com dança: cantem-lhe louvores com o adufe e a harpa. Que assim repitam o triunfo do Mar Vermelho, que sempre foi a glória típica de Israel. Miriã conduziu as filhas de Israel na dança quando o Senhor triunfara gloriosamente; não era isso o mais próprio que ela fizesse? A dança sagrada da alegria devota não é exemplo, nem sequer desculpa, para danças frívolas, muito menos para as lascivas.
Quem poderia deixar de dançar quando o Egito estava vencido, e as tribos livres? Todo modo de exprimir contentamento estava fadado a ser empregado em ocasião tão memorável. Dança, canto e instrumentos musicais foram todos convocados, e muito propriamente. Há ocasiões incomuns que reclamam expressões incomuns de alegria.
Quando o Senhor salva uma alma, sua santa alegria transborda, e ela não encontra canais suficientes para sua gratidão imensa: se o homem não salta, nem toca, nem canta, ao menos louva a Deus, e deseja mil línguas com que magnificar o seu Salvador. Quem haveria de querer que fosse diferente? Os convertidos novos não devem ser refreados na sua alegria. Deixem-nos cantar e dançar enquanto podem. Como podem lamentar agora que o Noivo está com eles?
Demos toda a liberdade à alegria. Nunca tentemos suprimi-la, mas concedamos, nos termos deste versículo, uma dupla licença para o júbilo. Se alguém deve estar alegre, são os filhos de Sião; o regozijo convém mais a Israel do que a qualquer outro povo: é loucura e culpa deles não estarem mais vezes transbordando de alegria em Deus, pois o mero pensamento nele já é deleite.
Versículo 4Salmo 149:4
Porque o SENHOR se agrada do seu povo; e por isso o povo deve agradar-se dele. Se a nossa alegria lhe é agradável, que seja completa. Que condescendência é esta da parte de Jeová, notar, amar e comprazer-se em seus escolhidos! Certamente não há nada em nossas pessoas, ou em nossos atos, que pudesse causar prazer ao Eternamente Bendito, não fosse ele condescender com homens de condição humilde. O pensamento de que o Senhor se compraz em nós é uma mina de alegria que jamais se esgota.
Ele embelezará os mansos com a salvação. São humildes, e sentem a sua necessidade de salvação; ele é gracioso, e lha concede. Lamentam a sua deformidade, e ele lhes põe uma beleza da mais fina espécie. Salva-os santificando-os, e assim eles trazem a beleza da santidade, e a beleza de uma alegria que brota da salvação plena. Ele torna o seu povo manso, e depois torna belo o manso.
Aqui está grande argumento para adorar o Senhor com o mais completo júbilo: quem se compraz assim em nós deve ser abordado com todo sinal de alegria transbordante. Deus se compraz em todos os seus filhos como Jacó amava todos os seus filhos; mas os mansos são os seus Josés, e sobre estes ele põe a túnica de muitas cores, embelezando-os com paz, contentamento, alegria, santidade e influência.
Um espírito manso e quieto é chamado "um ornamento", e certamente é "a beleza da santidade". Quando o próprio Deus embeleza um homem, ele se torna belo de fato, e belo para sempre. O versículo pode ser lido: "Ele embelezará os mansos com a salvação", ou "Ele embelezará os aflitos com o livramento", ou ainda "Ele embelezará os mansos com a vitória"; e cada uma dessas leituras dá um novo matiz de sentido, bem digno de reflexão tranquila. Cada leitura sugere também novo motivo para adoração jubilosa. "Ó vinde, cantemos ao Senhor."
Versículo 5Salmo 149:5
Alegrem-se os santos em glória. Deus os honrou, e pôs sobre eles uma glória rara; que se exultem, portanto, nisso. Ficarão abatidos e turbados aqueles para quem Deus é a sua glória? Não; que a sua alegria proclame a sua condição honrosa.
Exultem em seus leitos. Sua exultação deve exprimir-se em brados e cânticos, pois não é sentimento do qual tenham motivo para se envergonhar. O que está tão plenamente justificado pelos fatos bem pode ser proclamado em voz alta. Mesmo em seus retiros mais quietos, que rompam em cântico; quando ninguém os ouve, que cantem em voz alta a Deus. Se presos ao leito por enfermidade, que se alegrem em Deus.
Nas vigílias da noite, que não fiquem acordados a chorar, mas, como rouxinóis, que encantem as horas da meia-noite. Seus brados já não são para o campo de batalha, mas para os lugares do seu repouso: podem deitar-se em paz e ainda assim gozar a vitória com que o Senhor os embelezou. Sem lutar, a fé vence e canta a vitória. Que bênção ter os nossos leitos transformados em tronos, e os nossos retiros convertidos em triunfos!
Versículo 6Salmo 149:6
Estejam os altos louvores de Deus em sua boca, e uma espada de dois gumes em sua mão. Parece que nem sempre estão em seus leitos, mas prontos para feitos de valentia. Quando chamados a combater, os mansos são muito difíceis de vencer; são tão firmes no conflito quanto constantes na paciência. Além disso, o seu modo de lutar é de espécie extraordinária, pois cantam a Deus mas mantêm as espadas nas mãos.
Podem fazer duas coisas ao mesmo tempo: se não empunham a colher e a espada, ao menos cantam e golpeiam. Nisto Israel não foi exemplo, mas figura: não copiaremos o povo escolhido fazendo guerra literal, mas cumpriremos o emblema travando guerra espiritual. Louvamos a Deus e combatemos as nossas corrupções; cantamos com júbilo e guerreamos com afinco contra todo tipo de mal.
Nossas armas não são carnais, mas são poderosas, e ferem tanto de costas quanto de fio. A palavra de Deus é toda gume; para qualquer lado que a voltemos, desfere golpes mortais contra a falsidade e a maldade. Se não louvarmos, entristeceremos no combate; e se não lutarmos, tornar-nos-emos presunçosos no cântico. O versículo indica uma feliz fusão entre o corista e o cruzado.
Note-se como cada coisa no crente é enfática: se canta, são altos louvores, louvores fundos na garganta, como diz o original; e se luta, é com a espada, e a espada é de dois gumes. O Deus vivo dá vida vigorosa aos que nele confiam. Não são de tom neutro: os homens tanto os ouvem quanto os sentem. Quieto é o seu espírito, mas nessa própria quietude reside o trovão de uma força irresistível. Quando homens piedosos travam batalha contra os poderes do mal, cada combate é alto louvor ao Deus da bondade. Até o tumulto da nossa santa guerra é parte da música das nossas vidas.
Versículo 7Salmo 149:7
Para executar vingança sobre as nações, e castigos sobre os povos. Isto foi uma vez, literalmente, o dever de Israel: quando entraram em Canaã, cumpriram a justa sentença do Senhor sobre nações culpadas.
Nesta hora, sob a dispensação mais branda da graça, não lutamos contra carne e sangue; ainda assim a nossa guerra não é menos severa, nem a nossa vitória menos certa. Todo mal será por fim derrubado: o Senhor manifestará a sua justiça contra os malfeitores, e nessa guerra os seus servos cumprirão a sua parte. Os santos julgarão o mundo. Tanto o combate quanto a vitória ao fim dele trarão glória a Deus, e honra aos seus santos.
Versículo 8Salmo 149:8
Para prender os seus reis com cadeias, e os seus nobres com grilhões de ferro. Assim são os maiores inimigos de Jeová e do seu povo reduzidos à vergonha, tornados impotentes, e eles mesmos castigados.
Isto foi o orgulho de Israel em fato real; é o nosso, espiritualmente. Os principais poderes do mal serão contidos e por fim destruídos. Aqueles que fizeram cativos os piedosos serão eles mesmos feitos cativos. Os poderes do mal não podem prender o nosso Rei, mas pelo poder dele o seu próprio rei será preso com grande cadeia, e encerrado no abismo sem fundo, para que enfim seja pisado sob os pés dos santos.
Versículo 9Salmo 149:9
Para executar sobre eles o juízo escrito. Isto competia a Israel como nação, e eles o fizeram, e depois se alegraram no Deus que dava sucesso às suas armas. Nós louvamos o nosso Deus de outra maneira; não somos executores da justiça, mas arautos da misericórdia.
Seria coisa triste que alguém abusasse deste texto: para que nenhum crente belicoso se sinta levado a isso, lembramos que a execução não deve ir além da sentença e do mandado; e nós não recebemos mandado de execução contra os nossos semelhantes. Os cristãos não têm comissão de vingança; cabe-lhes executar a ordem de misericórdia, e somente isso.
Esta honra têm todos os seus santos. Todos os piedosos partilharam dos triunfos do Senhor quando ele feriu os inimigos de Israel. Temos honra semelhante, mas ela se mostra em vitórias de outra espécie. Todos os santos são enviados em missões pelo seu Senhor santo. As honras descritas neste Salmo são comuns a toda a família da graça; e o serviço que o Senhor designa deve ser assumido por cada um deles, sem exceção.
O Senhor honra aqui todos os seus escolhidos, e os glorificará todos no porvir: esta regra não conhece exceção. Certamente nisto temos o melhor argumento para glorificar o Senhor; por isso encerramos o nosso cântico novo com outro Aleluia: Louvai ao Senhor.