Tesouros de Davi

Salmo 114

Leia o Salmo 114 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

ASSUNTO E DIVISÃO. Este sublime CÂNTICO DO ÊXODO é uno e indivisível. A verdadeira poesia atinge aqui seu ápice: nenhuma mente humana jamais conseguiu igualar, muito menos superar, a grandeza deste Salmo. Fala-se de Deus conduzindo seu povo do Egito a Canaã, e fazendo toda a terra tremer diante de sua vinda. As coisas inanimadas são retratadas imitando as ações de criaturas vivas quando o Senhor passa. São interpeladas e questionadas com força de linguagem admirável, até que se enxerga a própria cena diante dos olhos. O Deus de Jacó é exaltado como aquele que comanda o rio, o mar e o monte, fazendo toda a natureza prestar homenagem e tributo diante de sua gloriosa majestade.

Exposição

Versículo 1Salmo 114:1

Quando Israel saiu do Egito. O cântico começa com uma explosão, como se o furor poético não pudesse ser contido, e transbordasse todos os limites. A alma elevada e tomada por um senso de glória divina não consegue esperar para construir um preâmbulo: lança-se direto ao meio do tema. Israel saiu do Egito de modo enfático — saiu do meio da população entre a qual estivera disperso, saiu de sob o jugo da escravidão, e saiu de sob o punho pessoal do rei que fizera do povo escravos nacionais. Israel saiu com mão poderosa e braço estendido, desafiando todo o poder do império, e fazendo todo o Egito se contorcer em dores agudas, como se a nação escolhida estivesse, por assim dizer, nascendo de dentro dele.

A casa de Jacó, dum povo de língua estranha. Eles haviam descido ao Egito como uma única família — "a casa de Jacó" — e, embora tivessem se multiplicado enormemente, permaneciam tão unidos, e eram vistos por Deus de forma tão plena como uma só unidade, que é correto chamá-los de casa de Jacó. Eram como um só homem em sua disposição de deixar Gósen; por mais numerosos que fossem, nem um único indivíduo ficou para trás. A unanimidade é sinal aprazível da presença divina, e um de seus frutos mais doces.

Um dos incômodos deles no Egito era a diferença de línguas, que era muito grande. Os israelitas parecem ter considerado os egípcios gagos e balbuciantes, já que não conseguiam entendê-los, e muito naturalmente os tinham por bárbaros, pois estes com frequência os espancavam por não compreenderem suas ordens. A língua de capatazes estrangeiros nunca soa musical ao ouvido de um exilado. Como é doce para um cristão que foi forçado a ouvir a conversa imunda dos ímpios, quando enfim é tirado do meio deles para habitar entre os seus!

Versículo 2Salmo 114:2

Judá era o seu santuário, e Israel o seu domínio. O pronome "seu" aparece onde esperaríamos encontrar o nome de Deus; mas o poeta está tão tomado de pensamento a respeito do Senhor que se esquece de mencionar seu nome — como a esposa no Cântico, que começa: "Beije-me ele", ou como Madalena, que exclamou: "Diz-me onde o puseste."

Da menção a Judá e Israel, certos críticos inferiram que este Salmo deve ter sido escrito depois da divisão dos dois reinos; mas isso é apenas mais um exemplo da base extremamente frágil sobre a qual muitas vezes se constrói uma hipótese. Antes da formação dos dois reinos, Davi já dissera: "Vai, numera Israel e Judá"; e isso era linguagem comum, pois Urias, o heteu, disse: "A arca, e Israel e Judá, habitam em tendas." De modo que nada se pode inferir do uso dos dois nomes. Nenhuma divisão em dois reinos pode ter sido pretendida aqui, pois o poeta fala da saída do Egito, quando o povo estava tão unido que ele acabara de chamá-lo de "a casa de Jacó". Seria tão razoável provar pelo primeiro versículo que o Salmo foi escrito quando o povo estava unido quanto provar pelo segundo que sua autoria data da separação.

Judá era a tribo que abria caminho na marcha do deserto, e fora previsto em profecia que seria a tribo real; daí sua menção poética neste lugar. O sentido da passagem é que todo o povo, ao sair do Egito, foi separado para o Senhor, para ser um povo peculiar, uma nação de sacerdotes cujo lema deveria ser: "Santidade ao Senhor." Judá era a "coisa santa" do Senhor, separada para seu uso especial. A nação era peculiarmente o domínio de Jeová, pois era governada por uma teocracia em que só Deus era Rei. Era seu domínio num sentido em que o resto do mundo estava fora de seu reino.

Aqueles eram os dias de juventude de Israel, o tempo de seus desposórios, quando ela ia atrás do Senhor no deserto, com seu Deus abrindo caminho com sinais e milagres. Todo o povo era o santuário da Divindade, e seu acampamento era um só grande templo. Que mudança deve ter havido para os piedosos entre eles, das idolatrias e blasfêmias dos egípcios para o culto santo e o governo justo do grande Rei em Jesurum. Viviam num mundo de maravilhas, onde Deus se via no pão maravilhoso que comiam e na água que bebiam, tanto quanto no culto solene do seu lugar santo. Quando o Senhor está manifestamente presente numa igreja, e seu governo gracioso é obedientemente reconhecido, que época de ouro chegou, e que privilégios honrosos seu povo desfruta! Que assim seja entre nós.

Versículo 4Salmo 114:4

Os montes saltaram como carneiros, e os outeiros como cordeiros. À vinda do Senhor ao monte Sinai, os montes se moveram — ou saltando de alegria na presença do seu Criador, como cordeirinhos, ou, se preferirem, saltando de seus lugares em pavor diante da terrível majestade de Jeová, e fugindo como um rebanho de ovelhas assustado. Os homens temem os montes, mas os montes tremem diante do Senhor.

Ovelhas e cordeiros se movem levemente nos prados; mas os montes, que costumamos chamar de eternos, foram feitos mover-se com a mesma facilidade que as criaturas mais ágeis. Carneiros em sua força, e cordeiros em sua brincadeira, não se agitam mais do que se agitaram os montes sólidos quando Jeová passou marchando. Nada é imóvel senão o próprio Deus: os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos, mas a aliança da sua graça permanece firme para todo o sempre.

Assim mesmo se movem montes de pecado e outeiros de aflição quando o Senhor vem à frente para conduzir seu povo ao seu Canaã eterno. Nunca temamos, mas antes que a nossa fé diga a este monte: "Sê removido daqui e lançado no mar", e será feito.

Versículo 5Salmo 114:5

Que tinhas, ó mar, que fugiste? Estavas terrivelmente amedrontado? Faltou-te a força? Secou-se o teu próprio coração? Que tinhas, ó mar, que fugiste? Eras vizinho do poder de Faraó, mas nunca temeste seus exércitos; vento tempestuoso jamais pôde prevalecer para te dividir em duas partes; mas quando o caminho do Senhor esteve em tuas grandes águas, foste tomado de pavor, e te tornaste fugitivo diante dele.

Tu, Jordão, que retrocedeste? Que tinhas, ó rio de corrente rápida? Tuas fontes não haviam secado, nem se abrira abismo para te engolir! A proximidade de Israel e do seu Deus bastou para te fazer retroceder os passos.

Que têm todos os nossos inimigos, que fogem quando o Senhor está do nosso lado? Que tem o próprio inferno, que é completamente derrotado quando Jesus levanta bandeira contra ele? "O temor se apoderou deles ali"; de medo DELE, os mais valentes tremeram e ficaram como mortos.

Versículo 6Salmo 114:6

Ó montes, que saltastes como carneiros; e vós, outeiros, como cordeiros? Que tínheis, que assim fostes movidos? Só há uma resposta: a majestade de Deus vos fez saltar. Uma mente cheia de graça repreenderá a natureza humana por sua estranha insensibilidade, quando o mar e o rio, os montes e os outeiros, são todos sensíveis à presença de Deus. O homem é dotado de razão e inteligência, e ainda assim vê imóvel o que a criação material contempla com temor. Deus chegou mais perto de nós do que jamais esteve do Sinai, ou do Jordão, pois assumiu a nossa natureza, e mesmo assim a massa da humanidade não é afastada de seus pecados, nem movida nos caminhos da obediência.

Versículo 7Salmo 114:7

Treme, ó terra, na presença do Senhor, na presença do Deus de Jacó. Ou "diante do Senhor, o Adonai, o Amo e Rei." Muito bem convém que o Salmo chame de novo toda a natureza a sentir um temor sagrado, porque seu Soberano ainda está no seu meio.

"Treme quando Jeová passa,

Treme, terra, à vista do Deus de Israel."

Que o crente sinta que Deus está perto, e servirá ao Senhor com temor e se alegrará com tremor. O temor não é expulso pela fé; antes, torna-se mais profundo. O Senhor é mais reverenciado onde é mais amado.

Versículo 8Salmo 114:8

Que converteu a rocha em lago de águas, fazendo um lago ou charco estagnar-se a seus pés, tornando o deserto uma lagoa: tão abundante era o suprimento de água da rocha que ficou como água represada num reservatório. A pederneira em fonte de águas, que fluíam livremente em riachos, seguindo as tribos em suas marchas errantes. Veja o que Deus pode fazer! Parecia impossível que a rocha de sílex se tornasse fonte; mas ele fala, e é feito. Não só os montes se movem, mas as rochas produzem rios quando o Deus de Israel quer que assim seja.

"Da pedra e da rocha sólida ele traz

O lago que se espalha, as fontes que jorram."

"Engrandecei ao Senhor comigo, e exaltemos juntos o seu nome", pois é ele, e só ele, quem faz maravilhas como estas. Ele supre nossas necessidades temporais de fontes das mais improváveis, e nunca deixa secar a corrente da sua liberalidade. Quanto às nossas necessidades espirituais, todas são supridas pela água e pelo sangue que jorraram outrora da rocha ferida, Cristo Jesus: por isso, exaltemos o Senhor nosso Deus.

Nossa libertação de sob o jugo do pecado é vivamente prefigurada na saída de Israel do Egito, e assim também foi a vitória do nosso Senhor sobre os poderes da morte e do inferno. O Êxodo deveria, portanto, ser lembrado com fervor pelos corações cristãos. Não falou Moisés no monte da transfiguração com o nosso Senhor sobre "o êxodo" que ele deveria em breve realizar em Jerusalém? E não está escrito que as hostes lá do alto cantam o cântico de Moisés, servo de Deus, e do Cordeiro? Não esperamos nós mesmos outra vinda do Senhor, quando diante do seu rosto céu e terra fugirão, e não haverá mais mar? Unamo-nos então aos cantores em torno da mesa da Páscoa e façamos nosso o seu Hallel, pois nós também fomos tirados da escravidão e guiados como rebanho por uma terra deserta, onde o Senhor supre nossas necessidades com o maná celestial e a água da Rocha eterna. Louvai ao Senhor.

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