Salmo 27
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TÍTULO E ASSUNTO. Nada se pode extrair do título quanto à época em que este Salmo foi escrito, pois o cabeçalho, "Salmo de Davi", é comum a tantos dos Salmos. Mas, se pudermos julgar pelo conteúdo do cântico, o autor era perseguido por inimigos, Salmo 27:2-3, estava excluído da casa do Senhor, Salmo 27:4, acabava de se despedir de pai e mãe, Salmo 27:10, e era alvo de calúnia, Salmo 27:12.
Não se reúnem todas essas circunstâncias no momento em que Doegue, o edomita, falou contra ele a Saul? É um cântico de esperança alegre, bem adequado a quem, em provação, aprendeu a apoiar-se no braço Todo-Poderoso.
O Salmo pode ser lido com proveito de três maneiras: como linguagem de Davi, da Igreja e do Senhor Jesus. Assim se manifestará ainda mais maravilhosa a plenitude das Escrituras.
DIVISÃO. O poeta primeiro faz soar sua confiança segura em seu Deus, Salmo 27:1-3, e seu amor pela comunhão com ele, Salmo 27:4-6. Em seguida, entrega-se à oração, Salmo 27:7-12, e conclui reconhecendo o poder sustentador da fé em seu próprio caso, e exortando outros a seguirem seu exemplo.
Exposição
Versículo 1Salmo 27:1
O SENHOR é a minha luz e a minha salvação. Aqui há interesse pessoal, "minha luz", "minha salvação"; a alma está certa disso e, por isso, o declara com ousadia. "Minha luz" — na alma, no novo nascimento, derrama-se a luz divina como precursora da salvação; onde não há luz suficiente para ver a própria escuridão e ansiar pelo Senhor Jesus, não há evidência de salvação.
A salvação nos encontra na escuridão, mas não nos deixa ali; ela dá luz aos que se assentam no vale da sombra da morte. Depois da conversão, nosso Deus é nossa alegria, conforto, guia, mestre, e em todo sentido nossa luz; ele é luz por dentro, luz ao redor, luz refletida por nós, e luz a ser revelada a nós.
Note que não se diz apenas que o Senhor dá luz, mas que ele "é" luz; nem que ele dá salvação, mas que ele é salvação. Aquele, pois, que pela fé se apegou a Deus tem em sua posse todas as bênçãos da aliança. Nem toda luz é o sol, mas o sol é o pai de todas as luzes.
Estabelecido isso como fato, o argumento que dele se tira toma a forma de uma pergunta: a quem temerei? Pergunta que já traz em si sua própria resposta. As potências das trevas não devem ser temidas, pois o Senhor, nossa luz, as destrói; e a condenação do inferno não deve ser temida por nós, pois o Senhor é a nossa salvação.
Este é um desafio muito diferente daquele do jactancioso Golias, pois se apoia num fundamento muito diferente; não repousa sobre o vigor presunçoso de um braço de carne, mas sobre o poder real do Onipotente EU SOU.
O SENHOR é a força da minha vida. Eis um terceiro epíteto resplandecente, para mostrar que a esperança do escritor estava presa por um cordão triplo que não podia se romper. Bem podemos acumular termos de louvor onde o Senhor prodigaliza atos de graça. Nossa vida tira toda a sua força daquele que é seu autor; e, se ele se digna a nos fortalecer, não podemos ser enfraquecidos por todas as maquinações do adversário.
De quem me atemorizarei? A pergunta ousada olha tanto para o futuro quanto para o presente. "Se Deus é por nós", quem pode ser contra nós, seja agora, seja no tempo vindouro?
Versículo 2Salmo 27:2
Este verso registra uma libertação passada, e é um exemplo de como a experiência deve ser usada para reassegurar nossa fé em tempos de provação. Cada palavra é instrutiva. Quando os ímpios. É um sinal de esperança para nós quando os ímpios nos odeiam; se nossos inimigos fossem homens piedosos, seria uma dor amarga, mas quanto aos ímpios, o ódio deles é melhor que o amor deles.
Sim, os meus inimigos e os meus adversários. Eram muitos, eram de tipos diferentes, mas eram unânimes na maldade e sinceros no ódio. Vieram sobre mim — avançaram ao ataque, saltando sobre a vítima como um leão sobre sua presa. Para comer as minhas carnes, como canibais, dariam fim completo ao homem, despedaçariam seus membros, e fariam um banquete para sua malícia.
Os inimigos de nossas almas não são deficientes em ferocidade; não dão quartel, e não deveriam recebê-lo em troca. Veja em que perigo estava Davi: nas garras e no aperto de inimigos numerosos, poderosos e cruéis; e, no entanto, observe sua segurança perfeita e a derrota total deles!
Eles tropeçaram e caíram. O sopro de Deus os derrubou de suas pernas. Havia pedras no caminho com as quais nunca contavam, e sobre elas deram um tombo vergonhoso. Isso foi literalmente verdade no caso de nosso Senhor no Getsêmani, quando os que vieram prendê-lo recuaram e caíram por terra; e nisso ele foi representante profético de todos os crentes que lutam e que, erguendo-se de joelhos, pelo poder da fé, lançarão seus inimigos de bruços.
Versículo 3Salmo 27:3
Ainda que um exército se acampasse contra mim, o meu coração não temeria. Antes do conflito real, enquanto a batalha ainda não foi travada, o coração do guerreiro, mantido em suspense, é muito propenso a se agitar. O exército acampado costuma inspirar maior pavor do que o mesmo exército em combate real.
Young nos fala de alguns — "que sentem mil mortes ao temer uma". Sem dúvida, a sombra do problema antecipado é, para as mentes tímidas, uma fonte de tristeza mais fértil do que o próprio problema; mas a fé aplica um emplastro fortalecedor nas costas da coragem, e joga pela janela os resíduos do cálice do tremor.
Ainda que a guerra se levantasse contra mim, nisto terei confiança. Quando chega de fato o embate das lanças, o escudo da fé desviará o golpe; e, se o primeiro choque for apenas o início de uma guerra, ainda assim as bandeiras da fé tremularão a despeito do inimigo.
Ainda que batalha se sucedesse a batalha, e uma campanha se seguisse a outra, o crente não se deixará abater pela duração do conflito. Leitor, este terceiro verso é a inferência reconfortante e lógica do segundo: a confiança é filha da experiência. Você já foi liberto de grandes perigos? Então erga o seu estandarte, vigie junto à sua fogueira de guarda, e deixe que o inimigo faça o seu pior.
Versículo 4Salmo 27:4
Uma coisa. Objetivos divididos tendem à distração, à fraqueza, à decepção. O homem de um só livro é eminente, o homem de uma só busca é bem-sucedido. Que todos os nossos afetos se prendam a um único afeto, e que esse afeto esteja posto nas coisas celestiais.
Tenho desejado — aquilo que não podemos alcançar de imediato, convém desejar. Deus nos julga muito pelo desejo de nosso coração. Aquele que monta um cavalo manco não é culpado por seu senhor de falta de velocidade, se apressa o quanto pode, e faria mais se pudesse; Deus toma a vontade pelo feito com seus filhos.
Do Senhor. Este é o alvo certo dos desejos, este é o poço em que devemos mergulhar nossos baldes, esta é a porta em que devemos bater, o banco de onde devemos sacar; desejo dos homens, e se deitar no monturo com Lázaro; desejo do Senhor, e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão.
Nossos desejos do Senhor devem ser santificados, humildes, constantes, submissos, fervorosos, e é bom que, como no salmista, todos se fundam numa só massa. Nas dolorosas circunstâncias de Davi, poderíamos esperar que ele desejasse repouso, segurança, e mil outras coisas boas; mas não — ele pôs o coração na pérola, e deixa o resto.
Isso buscarei. Desejos santos devem levar a ações resolutas. O antigo provérbio diz: "os que desejam e os que ficam querendo nunca são bons administradores da casa", e "desejar nunca enche um saco". Desejos são semente que precisa ser plantada no solo fértil da atividade, ou não darão colheita. Descobriremos que nossos desejos são como nuvens sem chuva, a menos que sejam seguidos de empenho prático.
Que possa habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida. Por causa da comunhão com o Rei, Davi ansiava habitar sempre no palácio; longe de se cansar dos serviços do Tabernáculo, ansiava por estar constantemente engajado neles, como prazer de toda a sua vida. Desejava, acima de tudo, ser um dos membros da casa de Deus, um filho nascido no lar, vivendo em casa com seu Pai.
Este é o nosso mais querido desejo, só que o estendemos àqueles dias de nossa vida imortal que ainda não amanheceram. Suspiramos pela casa de nosso Pai lá em cima, o lar de nossas almas; se pudermos habitar ali para sempre, pouco nos importam os bens ou os males desta pobre vida. "A Jerusalém dourada" é a única e exclusiva meta dos anseios do nosso coração.
Para contemplar a formosura do Senhor. Um exercício tanto para adoradores terrenos quanto celestiais. Não devemos entrar nas assembleias dos santos a fim de ver e ser visto, ou apenas ouvir o ministro; devemos ir aos ajuntamentos dos justos, intentos no objetivo gracioso de aprender mais sobre o Pai amoroso, mais sobre o Jesus glorificado, mais sobre o Espírito misterioso, a fim de que possamos admirar com mais amor, e adorar com mais reverência, o nosso glorioso Deus.
Que palavra é essa, "a formosura do Senhor"! Pense nisso, caro leitor! Melhor ainda — contemple-a pela fé! Que visão será aquela quando todo fiel seguidor de Jesus contemplar "o Rei em sua formosura"! Ah, por essa visão infinitamente bendita!
E indagar em seu templo. Devemos fazer de nossas visitas à casa do Senhor reuniões de indagação. Não somente pecadores buscando, mas santos já assegurados também devem indagar. Devemos indagar quanto à vontade de Deus e como podemos praticá-la; quanto ao nosso interesse na cidade celestial, e como podemos estar mais seguros dele. Não precisaremos fazer indagações no céu, pois ali conheceremos como somos conhecidos; mas, entretanto, devemos assentar-nos aos pés de Jesus, e despertar todas as nossas faculdades para aprender dele.
Versículo 5Salmo 27:5
Este verso dá excelente razão para o desejo do salmista pela comunhão com Deus, a saber, que assim ele estava seguro na hora do perigo. Pois no tempo da angústia, aquele tempo de necessidade, aquele tempo em que outros me abandonam, ele me esconderá em seu pavilhão: ele me dará o melhor abrigo no pior dos perigos.
O pavilhão real erguia-se no centro do exército, e ao seu redor os homens valorosos montavam guarda a todas as horas; assim, naquela soberania divina que o poder onipotente jurou manter, o crente é pacificamente escondido — escondido não por si mesmo, às escondidas, mas pelo rei, que o hospeda com generosidade.
No esconderijo do seu tabernáculo me esconderá. O sacrifício vem em auxílio da soberania para proteger os eleitos do mal. Ninguém, antigamente, ousava entrar no lugar santíssimo sob pena de morte; e se o Senhor escondeu ali o seu povo, que inimigo se atreverá a molestá-lo?
Ele me porá sobre uma rocha. Aqui a imutabilidade, a eternidade e o poder infinito vêm em auxílio da soberania e do sacrifício. Como é bendita a posição do homem a quem o próprio Deus põe em alto, acima de seus inimigos, sobre uma rocha inexpugnável que jamais poderá ser tomada de assalto! Bem podemos desejar habitar com o Senhor, que tão eficazmente protege o seu povo.
Versículo 6Salmo 27:6
E agora será exaltada a minha cabeça sobre os meus inimigos ao redor de mim. Ele está inteiramente certo disso. Os homens piedosos de antigamente oravam com fé, sem nada duvidar, e falavam da resposta às suas orações como uma certeza. Davi estava, pela fé, tão seguro de uma vitória gloriosa sobre todos os que o cercavam, que arranjou em seu próprio coração o que faria quando seus inimigos jazessem todos prostrados diante dele; aquele arranjo era tal como a gratidão sugeria.
Portanto oferecerei no seu tabernáculo sacrifícios de júbilo. Aquele lugar por que ansiava em seu conflito, veria a sua alegria agradecida no seu retorno triunfante. Ele não fala de jubileus a serem oferecidos em seu palácio, e banquetes em seus salões de festim, mas escolhe a santa alegria como o mais próprio para uma libertação tão divina.
Cantarei. Este é o modo mais natural de expressar gratidão. Sim, cantarei louvores ao Senhor. O voto é confirmado pela repetição, e explicado pelo acréscimo, acréscimo esse que consagra todo o louvor a Jeová. Que quem quiser se cale; o crente, quando sua oração é ouvida, deve e fará ouvir também o seu louvor; e que quem quiser cante às vaidades do mundo, o crente reserva a sua música somente para o Senhor.
Versículo 7Salmo 27:7
Ouve, ó Senhor, quando clamo com a minha voz. O pêndulo da espiritualidade oscila da oração ao louvor. A voz que, no verso anterior, se afinava em música, aqui se volta ao clamor. Como bom soldado, Davi sabia manejar suas armas, e se sentia bem à vontade com a arma de "toda oração". Note a sua ânsia de ser ouvido.
Os fariseus não se importam nada em ser ouvidos pelo Senhor, contanto que sejam ouvidos pelos homens, ou encantem seu próprio orgulho com suas devoções sonoras; mas, para um homem genuíno, o ouvido do Senhor é tudo. A voz pode ser usada com proveito até na oração privada; pois, embora não seja necessária, é muitas vezes útil, e ajuda a evitar distrações.
Tem também misericórdia de mim. A misericórdia é a esperança dos pecadores e o refúgio dos santos. Todos os suplicantes aceitáveis se detêm bastante neste atributo. E responde-me. Podemos esperar respostas à oração, e não devemos ficar tranquilos sem elas, assim como não ficaríamos se tivéssemos escrito uma carta a um amigo sobre negócio importante e não recebêssemos resposta.
Versículo 8Salmo 27:8
Neste verso somos ensinados que, se quisermos que o Senhor ouça a nossa voz, devemos ter o cuidado de responder à voz dele. O coração verdadeiro deve ecoar a vontade de Deus, como as rochas entre os Alpes repetem, na música mais doce, as notas da trompa do camponês.
Observe que o mandamento estava no plural, dirigido a todos os santos: buscai. Mas o homem de Deus o transformou em singular por uma aplicação pessoal: o teu rosto, Senhor, buscarei. A voz do Senhor é muito eficaz onde todas as outras vozes falham.
Quando disseste, então o meu coração, minha natureza mais íntima, foi movido a uma resposta obediente. Note a prontidão da resposta — mal foi dito e já estava feito; assim que Deus disse "buscai", o coração disse "buscarei". Ah, quisera termos mais dessa santa prontidão! Prouvera a Deus que fôssemos mais moldáveis à mão divina, mais sensíveis ao toque do Espírito de Deus.
Versículo 9Salmo 27:9
Não escondas de mim a tua face. A palavra "longe" não está no original, e é um acréscimo bastante supérfluo dos tradutores, já que até o menor esconder-se da face do Senhor já é grande aflição para o crente. O mandamento de buscar a face do Senhor seria doloroso se o Senhor, retirando-se, tornasse impossível ao buscador encontrá-lo. Um sorriso do Senhor é o maior dos consolos; sua carranca, o pior dos males.
Não rejeites com ira o teu servo. Outros servos haviam sido rejeitados quando se mostraram infiéis, como por exemplo seu antecessor Saul; e isso tornava Davi, mesmo consciente de muitas faltas, muito ansioso para que a longânima paciência divina o mantivesse em favor. Esta é uma oração muito apropriada para nós, sob semelhante sentimento de indignidade.
Tu tens sido o meu auxílio. Com que verdade podemos nos juntar a esta declaração; por muitos anos, em circunstâncias de variada provação, temos sido sustentados por nosso Deus, e devemos e temos de confessar nossa obrigação. Diz-se que "a ingratidão é natural ao homem caído", mas para os homens espirituais ela é antinatural e detestável.
Não me deixes, nem me desampares. Uma oração para o futuro, e uma inferência a partir do passado. Se o Senhor tivesse a intenção de nos deixar, por que começou conosco? O auxílio passado é apenas esforço desperdiçado se a alma agora for abandonada. A primeira petição, "não me deixes", pode se referir a abandonos temporários, e a segunda palavra, à retirada final da graça; ambas devem ser objeto de oração contrária, e quanto à segunda, temos promessas imutáveis a invocar.
Ó Deus da minha salvação. Um título doce, digno de muita meditação.
Versículo 10Salmo 27:10
Quando meu pai e minha mãe me deixarem. Esses parentes queridos serão os últimos a me desertar; mas, se o leite da bondade humana viesse a secar até em seus peitos, há um Pai que jamais se esquece. Alguns dos maiores santos foram expulsos por suas famílias, e perseguidos por causa da justiça.
Então o Senhor me recolherá. Abraçará a minha causa, me levantará de minhas dores, me carregará em seus braços, me elevará acima dos meus inimigos, e ao fim me receberá em sua morada eterna.
Versículo 11Salmo 27:11
Ensina-me o teu caminho, ó Senhor. Ele não ora para que se lhe permita seguir seu próprio caminho, mas para ser informado quanto à senda em que o justo Jeová deseja que ele ande. Esta oração revela um humilde senso de ignorância pessoal, grande disposição para aprender, e obediência alegre de coração.
Guia-me por vereda plana. Aqui se busca ajuda tanto quanto direção; não precisamos apenas de um mapa do caminho, mas de um guia que nos auxilie na jornada. Deseja-se aqui uma senda que seja aberta, honesta, direta, em oposição ao caminho da astúcia, que é intrincado, tortuoso, perigoso.
Homens bons raramente prosperam em especulações refinadas e em cursos duvidosos; a simplicidade franca é o melhor espírito para um herdeiro do céu: deixemos os truques enganosos e as conveniências políticas para os cidadãos do mundo — a Nova Jerusalém reconhece como seus cidadãos os homens de coração simples. Esaú era um caçador astuto, Jacó era homem simples, que habitava em tendas.
Por causa dos meus inimigos. Estes nos apanharão se puderem, mas o caminho de honestidade manifesta e simples está a salvo de sua fúria. É admirável observar como a simplicidade honesta frustra e ludibria a astúcia da maldade. A verdade é sabedoria. "A honestidade é a melhor política."
Versículo 12Salmo 27:12
Não me entregues à vontade dos meus inimigos; ou eu seria como vítima lançada aos leões, para ser despedaçada e totalmente devorada. Graças a Deus que nossos inimigos não podem fazer conosco o que querem, ou Smithfield logo estaria em chamas outra vez.
Porque falsas testemunhas se levantaram contra mim. A calúnia é uma arma antiquada, tirada do arsenal do inferno, e ainda está em uso abundante; e por mais santo que um homem seja, sempre haverá alguns que o difamarão. "Dê a um cão um mau nome, e enforque-o"; mas glória seja a Deus, o povo do Senhor não são cães, e seus maus nomes não os prejudicam.
E os que respiram crueldade. É o seu fôlego vital odiar o bem; não podem falar sem amaldiçoá-lo; assim era Paulo antes da conversão. Os que respiram crueldade bem podem esperar que os mandem respirar seu ar nativo no inferno; que os perseguidores se acautelem!
Versículo 13Salmo 27:13
O desfalecimento do coração é uma fraqueza comum; até mesmo aquele que matou Golias esteve sujeito aos seus ataques. A fé leva seu frasco de cordial aos lábios da alma, e assim evita o desfalecimento. A esperança é o bálsamo do céu para a tristeza presente.
Nesta terra dos que morrem, é a nossa bem-aventurança olhar e ansiar por nossa bela porção na terra dos viventes, de onde a bondade de Deus baniu a maldade do homem, e onde espíritos santos encantam com sua companhia aqueles santos perseguidos que foram vilipendiados e desprezados entre os homens.
Devemos crer para ver, não ver para crer; devemos esperar o tempo determinado, e saciar a fome de nossa alma com antegostos da bondade eterna do Senhor, que em breve será nosso banquete e nosso cântico.
Versículo 14Salmo 27:14
Espera no Senhor. Espere à sua porta com oração; espere aos seus pés com humildade; espere à sua mesa com serviço; espere à sua janela com expectativa. Pretendentes muitas vezes só recebem frieza de patronos terrenos após longa e obsequiosa espera; mas quem tem seu patrono nos céus alcança o melhor êxito.
Anima-te. Um lema de soldado. Que seja também o meu. Precisaremos de coragem, e para exercê-la temos tanta razão quanto necessidade, se somos soldados do Rei Jesus.
E ele fortalecerá o teu coração. Ele pode aplicar o emplastro exatamente sobre o ponto fraco. Que o coração se fortaleça, e toda a máquina da humanidade se enche de poder; um coração forte faz um braço forte. Que força é essa que o próprio Deus dá ao coração? Leia o "Livro dos Mártires", e veja seus gloriosos feitos de bravura; ou melhor, vá a Deus, e obtenha você mesmo tal poder.
Espera, digo, no Senhor. Davi, nas palavras "eu digo", põe o seu próprio selo particular na palavra que, como homem inspirado, fora movido a escrever. É o seu testemunho tanto quanto o mandamento de Deus; e, de fato, quem escreve estas breves notas achou por si mesmo tão doce, tão revigorante, tão proveitoso chegar-se a Deus, que também por sua própria conta se sente obrigado a escrever: "Espera, EU DIGO, no Senhor."
Obras sobre este salmo
Excellent Encouragements against Afflictions, containing David's Triumph over Distress; or an Exposition of Psalm 27. Por THOMAS PIERSON, M.A. (Reimpresso na Nichol's Series of Puritan Commentaries.)
Meditations upon the 27th Psalm of David. Por SIR RICHARD BAKER.