Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 22

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 22, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 22 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Título. — Aijeleth Shahar. O título do Salmo vigésimo segundo é Aijeleth Shahar — a corça da manhã. O salmo inteiro se refere a Cristo, contendo muito que não pode ser aplicado a outrem: a repartição de suas vestes, o lançar de sortes sobre sua túnica, etc. Ele é descrito como uma corça gentil, mansa e bela, levantada pelo caçador ao raiar do dia. Herodes começou a caçá-lo assim que ele apareceu. A pobreza, o ódio dos homens, e a tentação de Satanás se uniram na perseguição. Sempre havia algum "cão," ou "touro," ou "unicórnio," pronto para atacá-lo.

Depois de seu primeiro sermão, os caçadores se reuniram ao seu redor, mas ele era ligeiro demais de pés, e escapou. A igreja já havia visto de longe o Messias "como corço, ou filho de cervas, sobre os montes," ouvira "a voz do seu Amado," e clamara: "Eis que vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros;" às vezes ele era até visto, ao raiar do dia, nas vizinhanças do templo, e junto às cercas das vinhas.

A igreja pediu para vê-lo "sobre os montes de Beter," e sobre "os montes dos aromas." O primeiro, provavelmente, significando o lugar de seus sofrimentos, e o segundo, as sublimes elevações de luz, glória e honra, onde a "corça" jamais mais será caçada. Mas à tarde, os caçadores que vinham seguindo o "jovem corço" desde o alvorecer, conseguiram encurralá-lo nos montes de Beter.

Cristo achou o Calvário um monte escarpado, rochoso e temível — "um monte de divisão." Ali foi ele encurralado pelos caçadores até as bordas de precipícios terríveis, que se abriam à destruição lá embaixo, enquanto era cercado e mantido à distância por todas as feras de rapina e monstros da floresta infernal. O "unicórnio," e os "touros de Basã," o trespassaram com seus chifres; o grande "leão" rugiu contra ele; e o "cão" se agarrou a ele. Mas ele frustrou a todos.

Em seu próprio tempo, ele inclinou a cabeça e entregou o espírito. Foi sepultado num sepulcro novo; e seus atacantes contavam com vitória completa. Não haviam considerado que ele era uma "corça da manhã." E de fato, no tempo determinado, escapou ele da rede do caçador, e se ergueu sobre os montes de Israel VIVO, e nunca, NUNCA mais para morrer.

Agora ele está com Maria no jardim, dando prova de sua própria ressurreição; num momento está em Emaús, encorajando os discípulos tímidos e confusos demais. Nem lhe custa trabalho algum ir dali para a Galileia, a seus amigos, e novamente ao Monte das Oliveiras, "sobre os montes dos aromas," levando consigo o alvorecer do dia, revestido de vida e beleza para todo o sempre. — Christmas Evans, 1766-1838.

Título. Prontamente se admitirá que a corça é um emblema muito apropriado do homem justo, sofredor e perseguido, que encontramos neste salmo. [...] Que a corça possa ser expressão figurada significativa da inocência sofredora fica fora de dúvida pelo fato de que os ímpios e perseguidores neste salmo, cuja fisionomia peculiar é marcada por emblemas tirados da criação bruta, são designados pelos termos cães, leões, touros, etc. — E. W. Hengstenberg.

Título. "A corça." Muito simbolismo extraordinário foi, por autores antigos, conjurado e reunido em torno da corça. Segundo sua curiosa história natural, existe uma inimizade mortal entre o cervo e a serpente, e o cervo, com seu hálito quente, atrai as serpentes para fora de seus buracos a fim de devorá-las. Os antigos gramáticos derivaram Elaphas, ou cervo, de elaunein tous opheis, isto é, "afugentar as serpentes." Dizia-se até que queimar uma porção dos chifres do cervo afugentava todas as serpentes. Se uma serpente escapasse do cervo depois de atraída para fora por seu hálito, dizia-se que ficava mais veementemente venenosa do que antes. A timidez do cervo era atribuída ao grande tamanho de seu coração, no qual se pensava haver um osso em forma de cruz. — Condensado de Bible Animals, de Wood, por C. H. S.

Salmo inteiro. Esta é uma espécie de joia entre os salmos, peculiarmente excelente e notável. Contém aqueles sofrimentos profundos, sublimes e pesados de Cristo, quando agonizava em meio aos terrores e às dores da ira divina e da morte, que ultrapassam todo pensamento e compreensão humanos. Não sei se algum salmo, em todo o livro, contém matéria mais grave, ou da qual os corações dos piedosos possam perceber tão verdadeiramente aqueles suspiros e gemidos, inexprimíveis pelo homem, que seu Senhor e Cabeça, Jesus Cristo, proferiu ao lutar por nós em meio à morte, e em meio às dores e terrores do inferno. Por isso este salmo deve ser altamente estimado por todos os que têm alguma familiaridade com as tentações da fé e os conflitos espirituais. — Martinho Lutero.

Salmo inteiro. Este salmo, assim como expõe plenamente os sofrimentos de Cristo, expõe também seus três grandes ofícios. Seus sofrimentos são descritos copiosamente do início do salmo até o versículo 22. O ofício profético de Cristo, do versículo 22 ao 25. O que se profetiza sobre seus votos (versículo 25) diz respeito à sua função sacerdotal. No restante do salmo, expõe-se o ofício régio de Cristo. — William Gouge, D.D. (1575-1653), em A Commentary on the whole Epistle to the Hebrews. [Reimpresso na "Nichol's Series of Commentaries."]

Salmo inteiro. Este salmo parece ser menos profecia do que história. — Cassiodorus.

Salmo inteiro. Este salmo deve ser exposto, palavra por palavra, por inteiro e em todos os aspectos, unicamente de Cristo; sem alegoria, tropo, ou anagoge. — Bakius, citado por F. Delitzsch, D.D., em Hebreus 2:12.

Salmo inteiro. Uma profecia da paixão de Cristo, e da vocação dos gentios. — Eusebius of Cæsarea.

Versículo 1Salmo 22:1

Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Contrastamos isto com João 16:32: "não estou só, porque o Pai está comigo." Que estas palavras em Davi não contradizem as palavras de Cristo, nenhum verdadeiro crente ignora; contudo, como parecem opostas às palavras de nosso Senhor em João! Resposta: — uma coisa é falar a partir do senso presente da miséria, outra é ter confiança numa Divindade jamais separada.

A condição de Cristo, quanto ao seu estado humano (não o divino), é, em toda aparência exterior, como a nossa; concebemos a condição dos santos, às vezes, como muito lamentável, como se Deus se tivesse ido para sempre. E Cristo — para nos ensinar a clamar atrás de Deus Pai, como as crianças atrás da mãe, cujo simples afastar-se até a porta muitas vezes faz o bebê crer, e assim dizer, que seu pai se foi para sempre — apresenta, em seus próprios sofrimentos, quão sensível ele é aos nossos naquele caso.

Quanto à sua natureza divina, ele e seu Pai jamais podem separar-se nela, e assim, em momento algum, ele está só, mas o Pai está sempre com ele. — William Streat, em The Dividing of the Hoof, 1654.

Deus meu, Deus meu, etc. Há uma tradição de que nosso Senhor, pendurado na cruz, começou, como sabemos pelo evangelho, este salmo; e, repetindo-o e aos que se seguem, entregou seu bendito espírito ao chegar ao sexto versículo do Salmo trinta e um. Seja como for, ao tomar estas primeiras palavras em seus lábios, ele marcou o salmo como pertencendo a si mesmo. — Ludolph, o Cartuxo (cerca de 1350), no Comentário de J. M. Neale.

Deus meu, Deus meu, etc. Foi aflição tão aguda, tão pesada para a alma de Cristo, que fez com que aquele que fora manso, como cordeiro, sob todos os outros sofrimentos, bramisse sob este como leão. Pois tanto significam aquelas palavras de Cristo: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que estás tão longe de ajudar-me, e das palavras do meu bramido?"

Vem de uma raiz que significa uivar ou rugir como leão, e antes significa o ruído feito por uma fera do que a voz de um homem. É como se Cristo tivesse dito: ó meu Deus, nenhuma palavra pode exprimir minha angústia; não falarei, mas bramirei, uivarei minhas queixas. Derramá-las-ei em rajadas de gemidos. Brado como um leão. Não é coisa pequena que faça bramir essa criatura majestosa. E, sem dúvida, um espírito tão grande quanto o de Cristo não bramiria sob um fardo leve.

Será que Deus de fato desamparou Jesus Cristo na cruz? Então, do desamparo de Cristo brota singular consolação para o povo de Deus; sim, consolação múltipla. Principalmente é amparo nestes dois aspectos: como preventivo de vosso desamparo final, e como padrão consolador para vós em vossos atuais e tristes desamparos.

  1. O desamparo de Cristo é preventivo do vosso desamparo final. Porque ele foi desamparado por um tempo, vós não sereis desamparados para sempre. Pois ele foi desamparado por vós. É, em todo sentido, tão grave para o amado Filho de Deus, o querido deleite de sua alma, ser desamparado por Deus por um tempo, quanto seria para uma coisa tão pobre e insignificante quanto tu seres lançado fora para a eternidade. Ora, sendo isso equivalente, e suportado em teu lugar, há de te dar a mais alta segurança do mundo de que Deus jamais se retirará finalmente de ti.

  2. Além disso, este triste desamparo de Cristo se torna um padrão consolador para as pobres almas desamparadas em diversos aspectos; e o próprio dever dessas almas, em tais momentos, é contemplá-lo com fé. Embora Deus tenha desamparado a Cristo, ao mesmo tempo o sustentou poderosamente. Seus braços onipotentes estavam debaixo dele, ainda que seu rosto satisfeito lhe estivesse oculto. Não tinha, de fato, seus sorrisos, mas tinha seus amparos. Assim, cristão, exatamente assim será contigo. Teu Deus pode desviar o rosto; não arrancará o braço.

Quando alguém perguntou ao santo Sr. Baines como estava o estado de sua alma, ele respondeu: "amparos eu tenho, ainda que suavidades me faltem." Nosso Pai, nisto, trata conosco como às vezes nós mesmos tratamos com um filho teimoso e rebelde. Nós o pomos para fora de casa e lhe ordenamos que se retire de nossa vista, e ali ele suspira e chora; mas, contudo, para humilhá-lo, não o recebemos de imediato de volta à casa e ao favor; ainda assim ordenamos, ou ao menos permitimos, que os criados lhe levem comida e bebida: eis aqui cuidado e amparo paternos, ainda que sem os antigos sorrisos ou deleites manifestos. [...]

Embora Deus tenha desamparado a Cristo, ainda naquele momento ele podia justificar a Deus. Assim lemos: "ó meu Deus (diz ele), clamo de dia, mas tu não me ouves; também de noite, e não me calo; mas tu és santo." Não é teu espírito, na tua medida, formado como o de Cristo nisto? Não podes dizer, mesmo quando ele escreve coisas amargas contra ti, que ele é, apesar de tudo, um Deus santo, fiel e bom? Sou desamparado, mas não injustiçado. Não há uma só gota de injustiça em todo o mar de minhas tristezas. Ainda que ele me condene, devo e hei de justificá-lo: isto também é conforme Cristo. — John Flavel.

Deus meu, Deus meu. A repetição exprime desejo fervoroso — "Deus meu," em sentido especial, como em suas palavras depois da ressurreição a Maria Madalena: "subo para meu Deus e vosso Deus"; "Deus meu," não apenas como Filho de Deus, mas naquela natureza que assumiu, como o Filho amado, em quem o Pai se compraz; que é amado do Pai e que ama o Pai mais que todo o universo. Observa-se que esta expressão, "Deus meu," se repete três vezes. — Dionysius, citado por Isaac Williams.

Deus meu. Era possível a Cristo, pela fé, saber que era amado de Deus, e ele de fato sabia que era amado de Deus, mesmo quando, quanto ao sentido e à sensação, provava da ira de Deus. Fé e ausência de sensação não são incompatíveis; pode não haver senso presente do amor de Deus, e pode até haver senso presente de sua ira, e, ainda assim, pode haver fé ao mesmo tempo. — John Row, em Emmanuel, 1680.

Esta palavra, "Deus meu," encerra mais do que todos os filósofos do mundo poderiam dela extrair. — Alexander Wedderburn, 1701.

Que há algo de força, sentido e sentimento singulares nestas palavras é manifesto por isto: os evangelistas nos deram este versículo, deliberadamente, nas próprias palavras do hebraico, a fim de mostrar sua força enfática. E, além disso, não me lembro de nenhum outro lugar nas Escrituras onde tenhamos esta repetição, Eli, Eli. — Martinho Lutero.

"Por quê?" Não o "por quê" da impaciência ou do desespero, não o questionamento pecaminoso de alguém cujo coração se rebela contra o seu castigo, mas antes o clamor de uma criança perdida, que não consegue entender por que seu pai a deixou, e que anseia ver de novo o rosto de seu pai. — J. J. Stewart Perowne.

"Meu bramido." (hebr.), parece denotar primariamente o bramido do leão; mas, aplicado a seres inteligentes, geralmente exprime angústia mental profunda, derramada em tons audíveis e até veementes. Salmos 38:9; 33:3; Jó 3:24. Assim derramou o Messias sofredor forte clamor e lágrimas, àquele que era poderoso para salvá-lo da morte. Hebreus 5:7. — John Morison.

Quando Cristo se queixa de haver sido desamparado por Deus, não devemos entender que foi desamparado pela Primeira Pessoa, nem que houve dissolução da união hipostática, nem que perdeu o favor e a amizade do Pai; mas significa-nos que Deus permitiu que sua natureza humana passasse por aqueles tormentos terríveis, e sofresse morte ignominiosa, da qual poderia, se quisesse, livrá-lo com a maior facilidade.

Nem tais queixas procediam de impaciência ou ignorância, como se Cristo ignorasse a causa de seu sofrimento, ou não estivesse inteiramente disposto a suportar tal abandono em seu padecer; tais queixas eram apenas uma declaração de seus sofrimentos amaríssimos. E visto que, por todo o curso de sua paixão, nosso Senhor sofreu com tal paciência, a ponto de não deixar escapar um único gemido ou suspiro, agora, para que os circunstantes não viessem facilmente a crer que ele fora tornado impassível por algum poder superior, protesta, ao se aproximarem seus últimos momentos, que é verdadeiro homem, verdadeiramente passível; desamparado por seu Pai em seus sofrimentos, cuja amargura e agudeza ele então intimamente sentia. — Robert Bellarmine (Cardeal), 1542-1621.

Os teólogos costumam dizer que Cristo, desde o momento de sua concepção, teve a visão de Deus, estando sua alma humana imediatamente unida à Divindade; Cristo, desde o próprio instante de sua concepção, teve a visão de Deus. Ora, para nosso Salvador, que sabia por experiência quão doce fora o conforto do rosto de seu Pai, e que vivera todos os seus dias sob os cálidos raios e influências da Divindade, e tivera sua alma continuamente refrigerada pelo senso da presença divina, ser deixado naquele horror e escuridão, sem gosto algum de conforto, sem vislumbre algum da Divindade irrompendo sobre sua alma humana — que aflição imensa isso deve ter sido para ele! — John Row.

O desamparo, em si mesmo, não é pecado; pois Cristo suportou sua amargura, sim, estava tão profundamente nele que, ao morrer, disse: "por que me desamparaste?" O nosso não é desamparo total, final; parcial o têm tido, e têm, os melhores. Deus desvia o rosto, o próprio Davi se perturba: "o justo viverá pela fé," e não pelo sentimento. — Richard Capel.

Ah, como o próprio coração se derreterá de amor, quando nos lembrarmos que, assim como fomos angustiados por nossos pecados contra ele, ele esteve em agonias ainda maiores por nós? Tivemos fel e absinto, mas ele provou um cálice mais amargo. A ira de Deus secou nossos espíritos, mas ele foi abrasado por uma ira ainda mais flamejante. Esteve sob dor violenta no jardim, e na cruz; inefável foi a tristeza que sentiu, desamparado por seu Pai, abandonado por seus discípulos, afrontado e reprovado por seus inimigos, e sob maldição por nossa causa.

Este Sol esteve sob um eclipse dolente; este Senhor vivo se agradou em morrer, e em sua morte esteve sob o semblante carrancudo de um Deus irado. Aquele rosto que sempre lhe sorrira lhe foi então oculto; e sua alma sentiu aquele horror e aquela escuridão que jamais sentira antes. De modo que, embora não houvesse separação entre a natureza divina e a humana, ele sofreu dores iguais às que nós merecíamos sofrer no inferno para sempre.

Deus de tal modo suspendeu a eficácia de sua graça que, naquela hora, ela não manifestou sobre ele força nem virtude alguma. Não teve conforto do céu, nenhum de seus anjos, nenhum de seus amigos, mesmo naquela hora dolorosa em que mais precisava de consolo. Como um leão ferido na floresta, assim bramiu e clamou, embora não houvesse desespero nele; e, mesmo desamparado, havia confiança e esperança nestas palavras: "Deus meu, Deus meu." — Timothy Rogers.

Eis conforto para as almas desamparadas; o próprio Cristo foi desamparado; portanto, se tu és desamparado, Deus não trata contigo de modo diferente do que tratou com Cristo. Podes ser amado de Deus e não o sentir; assim foi Cristo — era amado do Pai, e contudo não tinha senso nem sentimento presente daquele amor.

Isto pode ser grande conforto para almas santas sob a suspensão daqueles consolos e manifestações que às vezes sentiram; o próprio Cristo passou por tal suspensão; logo, tal suspensão do consolo divino pode coexistir com o amor de Deus. Poderias concluir, talvez: "sou um hipócrita, e por isso Deus me desamparou" — esta é a queixa de alguns cristãos vacilantes; mas não tens razão para assim concluir: não houve falha na obediência de Cristo, e ainda assim Cristo foi desamparado quanto ao consolo; logo, o desamparo, quanto ao consolo, pode coexistir com a verdade da graça, sim, com a mais alta medida de graça; assim foi em nosso Salvador. — John Row.

Senhor, tu sabes o que é para uma alma ser desamparada; foi outrora teu próprio caso, quando te queixaste: "Deus meu, por que me desamparaste?" — não, ó meu Senhor, que te faltasse o amparo divino, mas não tinhas (ao que parece) aquela alegria interior que em outros tempos te enchia; agora que estás em tua glória, tem piedade de um verme em miséria, que geme e te deseja mais que a todas as coisas: Senhor, pagaste caro por meu bem, que o bem venha a mim. — Joseph Symonds, 1658.

O primeiro versículo exprime uma espécie de sofrimento que jamais, em nenhum outro tempo, foi sentido neste mundo, e jamais voltará a ser — a vingança do Todo-poderoso sobre seu filho — "meu Deus, por que me desamparaste?" — R. H. Ryland.

Versículo 2Salmo 22:2

Ó meu Deus, eu clamo de dia, e tu não me ouves, etc. Quão semelhante é esta expostulação à de um filho humano com seu pai terreno! Baseia-se no fundamento do parentesco — "sou teu; clamo de dia e de noite, e não sou ouvido. Tu és meu Deus, e nada se faz para me silenciar. No dia de minha vida clamei; nesta hora noturna de minha morte suplico. No jardim do Getsêmani ocupei a noite com orações; com contínuos suspiros passei por esta manhã tão marcante. Ó meu Deus, ainda não me ouviste, por isso ainda não me calo; não posso cessar até que respondas."

Aqui Cristo insiste em sua súplica de um modo que só corações filiais adotam. O filho sabe que o pai anseia por ele. Sua importunidade é fortalecida pela confiança no amor paternal. Não guarda silêncio, não lhe dá descanso, porque confia em seu poder e disposição de conceder o alívio desejado. Isto é natural. É o argumento do coração, um apelo aos anseios íntimos de nossa natureza.

É também bíblico, e assim se afirma: "se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais dará vosso Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem?" Lucas 11:13. — John Stevenson, em Christ on the Cross, 1842.

O régio profeta diz: "Senhor, clamo a ti de dia, e tu não me ouves; também de noite, e isto não me há de parecer loucura." (Versão dos Setenta.) Alguns talvez pensassem ser grande ponto de loucura um homem clamar e chamar a quem tapa os ouvidos, e parece não ouvir. Contudo, esta loucura dos fiéis é mais sábia que toda a sabedoria do mundo. Pois bem sabemos que, por mais que Deus pareça, à primeira vista, não ouvir, o Senhor é refúgio seguro a seu tempo — na aflição. Salmos 9:9. — Thomas Playfere.

Versículos 2–3Salmo 22:2-3

Ora, o que Deus ouve dele, agora que ele nada ouve de Deus, quanto ao livramento suplicado? Nenhum murmúrio contra os procedimentos de Deus; antes, ouve-se justamente o contrário, pois ele justifica e louva a Deus: "mas tu és santo, tu que habitas entre os louvores de Israel." Observa se não podes colher algo do modo como Deus recusa aquilo que se pede, o que pode adoçar-te a recusa! Talvez descubras que ele te nega, mas com semblante sorridente, e a introduz com algumas expressões de graça e favor, que podem assegurar-te que sua recusa não procede de desagrado.

Assim como farias com um amigo querido que, talvez, viesse pedir-te emprestada uma soma em dinheiro; não ousas emprestá-la, porque vês claramente que não é para o bem dele; mas, ao dar-lhe a recusa, para que não a interprete mal, como se procedesse de falta de amor e consideração, prefacia-la com alguma linguagem de teu sincero afeto por ele, dizendo que o amas, e por isso o recusas, e estarás pronto a fazer por ele mais do que aquilo importa. Assim Deus, às vezes, envolve suas recusas em tão doces indícios de amor, que previne todo ciúme que possa surgir nos corações de seu povo. — William Gurnall.

Os que têm água encanada chegando às suas casas, se a água não vem, não concluem que a fonte esteja seca, mas que os canos estão entupidos ou quebrados. Se a oração não prospera, devemos estar certos de que a falha não está em Deus, mas em nós mesmos; se apenas estivéssemos maduros para a misericórdia, ele está pronto a estendê-la a nós, e até espera com esse propósito. — John Trapp.

Versículo 3Salmo 22:3

Mas tu és santo. Eis o triunfo da fé — o Salvador se manteve como rocha no vasto oceano da tentação. Tão altas quanto se erguiam as vagas, assim crescia sua fé, como o recife de coral, tornando-se cada vez maior e mais forte, até se fazer ilha de salvação para nossas almas naufragadas. É como se ele tivesse dito: "não importa o que eu suporte. Que as tempestades urrem sobre mim; que os homens desprezem; que os demônios tentem; que as circunstâncias oprimam; e que o próprio Deus me desampare — ainda assim Deus é santo; não há injustiça nele." — John Stevenson.

Mas tu és santo. Parece estranho que o coração, em sua escuridão e tristeza, encontre conforto neste atributo de Deus? Não, pois a santidade de Deus é apenas outro aspecto de sua fidelidade e misericórdia. E naquele nome notável, "o Santo de Israel," somos ensinados que aquele que é o Deus "santo" é também o Deus que fez aliança com seu escolhido. Seria impossível a um israelita pensar na santidade de Deus sem pensar também naquela relação de aliança. "Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo," foram as palavras com que Israel foi lembrado de sua relação com Deus. Veja especialmente Levítico 19:1. Vemos algo deste sentimento em passagens como Salmos 89:16-19; 99:5-9; Oséias 11:8-9; Isaías 41:14; 47:4. — J. J. Stewart Perowne.

Ainda que as tentações fossem tão negras quanto pudessem ser, a fé não dará ouvidos a palavra alguma de mal falada contra Deus, mas sempre justificará a Deus. — David Dickson.

Versículos 4–5Salmo 22:4-5

Aqueles que veem neste salmo referência primária ao Rei de Israel atribuem grande beleza a estas palavras, pela conjectura muito agradável de que Davi, ao compô-las, estava peregrinando em Maanaim, onde Jacó, em sua angústia, lutou com o anjo, e obteve bênçãos tão notáveis. Que, num lugar tão grandemente consagrado por associações do passado, ele fizesse seu apelo ao Deus de seus pais, era, a um só tempo, ditame do sentimento patriarcal e da religião. — John Morison, D.D., em Morning Meditations.

Versículo 5Salmo 22:5

"Tu os livraste," mas a mim não me livrarás; antes, tu os livraste porque a mim não me livrarás. — Gerhohus.

Versículo 6Salmo 22:6

Mas eu sou verme, e não homem. Um pescador, ao lançar seu anzol no rio, não o lança nu, descoberto e à mostra, pois sabe que assim o peixe jamais morderá; por isso esconde o anzol dentro de um verme, ou de alguma outra isca, e assim o peixe, mordendo o verme, é apanhado pelo anzol. Assim Cristo, falando de si mesmo, diz: Ego vermis et non homo. Ele, vindo realizar a grande obra de nossa redenção, cobriu e escondeu sua Divindade dentro do verme de sua natureza humana.

A grande serpente das águas, Leviatã, o diabo, pensando engolir o verme de sua humanidade, foi apanhado no anzol de sua divindade. Este anzol se fincou em suas mandíbulas, e o dilacerou gravemente. Ao pensar destruir Cristo, destruiu seu próprio reino, e perdeu seu próprio poder para sempre. — Lancelot Andrewes.

Sou verme. Cristo se chama a si mesmo "verme" [...] por causa da opinião que os homens do mundo tinham dele [...] os judeus estimavam a Cristo como um verme, e o tratavam como tal; era repugnante e odiado por eles; todos o pisavam, e o calcavam aos pés, como se faz com os vermes [...] A paráfrase caldaica o traduz aqui como verme fraco; e, embora Cristo seja o Deus poderoso, e também o Filho do homem, a quem Deus fortaleceu para si mesmo, havia contudo uma fraqueza em sua natureza humana, e por meio dela foi crucificado (2 Coríntios 13:4).

Alguns observaram que a palavra (hebr.) ali usada significa o verme escarlate, ou o verme que está no grão ou na baga com que se tinge o escarlate; e como este verme escarlate parecia nosso Senhor, quando, por zombaria, foi vestido com um manto escarlate; e especialmente quando apareceu em suas vestes tingidas, e vermelho em seu traje, como quem pisa no lagar; quando seu corpo estava coberto de sangue, quando pendia na cruz, sangue este derramado para fazer os pecados carmesins e escarlates brancos como a neve. — John Gill.

Sou verme. A alma humilde se esvazia de todo pensamento inchado de si mesma. Bernard chama a humildade de autoaniquilação. Jó 22:29: "salvarás o humilde"; no hebraico é "aquele que é de olhos baixos." O homem humilde tem de si mesmo pensamentos mais baixos do que outros poderiam ter dele; Davi, ainda que rei, olhava-se a si mesmo como "verme": "sou verme, e não homem." Bradford, um mártir, subscrevia-se, contudo, "um pecador." Jó 10:15: "se eu for justo, ainda assim não levantarei a cabeça": como a violeta, doce flor, mas de cabeça pendente. — Thomas Watson.

"Verme." Tão pisado, calcado, maltratado, esbofeteado e cuspido, escarnecido e atormentado, que mais parecia um verme que um homem. Contemplai que grande desprezo suportou o Senhor da Majestade, para que sua confusão fosse nossa glória; seu castigo, nossa bem-aventurança celestial! Sem cessar, imprime este espetáculo, ó cristão, em tua alma! — Dionysius, citado por Isaac Williams.

Sou verme. Entre os hindus, quando um homem se queixa e se abomina, pergunta: "o que sou eu! Um verme! Um verme!" "Ah, o homem soberbo! Ele me considerou um verme; bem gostaria de lhe dizer: 'somos todos vermes.'" "Verme, sai rastejando da minha presença." — Joseph Roberts.

Versículo 7Salmo 22:7

Todos os que me veem zombam de mim, etc. Imaginai esta cena terrível. Contemplai esta multidão heterogênea de ricos e pobres, de judeus e gentios! Alguns ficam em grupos e olham fixamente. Outros se reclinam à vontade e fitam. Outros se movem, inquietos, com satisfação diante do evento. Há um ar de satisfação em todo semblante. Nenhum se cala. A velocidade da fala parece lenta demais. O tema é grande demais para que um só membro o profira. Todo lábio, toda cabeça, todo dedo, é agora uma língua.

Os rudes soldados, também, se ocupam à sua maneira grosseira. A obra de sangue terminou. Tornou-se necessário refresco. Fornecem-lhes sua bebida costumeira de vinagre e água. À medida que cada um se satisfaz, aproximam-se da cruz, oferecem um pouco ao Salvador, e o convidam a beber, retirando-a em seguida. Lucas 23:36. Sabem que ele deve estar sofrendo sede intensa, e por isso a agravam com a zombaria do refresco.

Cruéis romanos! E vós, ó judeus regicidas! Não bastava a morte? Era preciso acrescentar zombaria e escárnio? Neste triste dia, Cristo vos fez, de fato, um só povo! Terrível unidade — que vos constituiu conjuntos zombadores e assassinos do Senhor da glória! — John Stevenson.

Todos os que me veem zombam de mim, etc. Houve, em nossos próprios dias, pessoas cujos crimes suscitaram tal detestação que o povo provavelmente as teria despedaçado, antes e mesmo depois de seu julgamento, se as tivesse tido em seu poder. Contudo, quando essas mesmíssimas pessoas odiosas foram executadas conforme sua sentença, se talvez não houvesse um só espectador que desejasse vê-las escapar, também não se achou nenhum tão perdido de sensibilidade a ponto de insultá-las em seus momentos derradeiros. Mas, quando Jesus sofre, todos os que o veem zombam dele; arreganham os lábios, meneiam a cabeça; insultam seu caráter e sua esperança. — John Newton.

Arreganham os lábios. Projetar o lábio inferior é, no Oriente, considerado forte indicação de desprezo. Seu emprego se restringe, sobretudo, às classes inferiores. — Illustrated Commentary.

Versículos 7–8Salmo 22:7-8

Foi depois de sua crucificação, durante as horas em que esteve pendurado na cruz, que este tipo de sofrimento — o tormento de ver e ouvir o escárnio e a zombaria feitos contra a verdade de sua pessoa e doutrina — mais abundou, e de tantos e tais modos de zombaria e insulto que alguns consideram este o maior sofrimento e a maior dor que ele suportou em sua sacratíssima paixão.

Pois, geralmente, consideram-se mais dolorosas de suportar as coisas de que somos mais sensíveis; e assim parece a essas pessoas que sofrimentos dessa espécie contêm em si mais motivo de dor do que quaisquer outros.

E, portanto, embora todos os tormentos do Senhor tenham sido muito grandes — a ponto de cada um parecer o maior, sem que se possa fazer comparação entre eles —, ainda assim esta espécie de sofrimento parece ser a mais dolorosa. Porque, em outras aflições, não apenas a dor delas, mas as próprias aflições em si, podiam ser desejadas por nós, como algo que sofremos por amor, a fim de por meio delas evidenciar esse amor.

Por isso, os açoites, a coroa de espinhos, as bofetadas, a cruz, o fel, o vinagre e os demais tormentos corporais, além de atormentarem o corpo, muitas vezes serviam para promover a honra divina, que ele estimava acima de tudo.

Mas blasfemar contra Deus, desmentir as verdades eternas, deturpar a suprema demonstração da divindade e majestade do Filho de Deus — ainda que Deus saiba extrair disso o bem que pretende — são coisas que, por sua própria natureza, afetam tão gravemente a honra divina que, embora possam ser suportadas por justas razões, jamais poderiam ser desejadas por ninguém; antes, devem ser abomináveis a todos.

Nosso Senhor, então, sendo, de todos, o mais zeloso da honra divina, pela qual também morreu, encontrou nesta espécie de sofrimento, mais do que em qualquer outra, muito que abominar e nada que desejar. Por isso, com razão pode-se considerá-la a maior de todas, e aquela em que, mais do que em qualquer outra, ele exibiu o maior sofrimento e a maior paciência.

— Fra Thomé de Jesus, em Os Sofrimentos de Jesus, 1869.

Versículos 7–9Salmo 22:7-9

Todos os que me veem fazem de mim motivo de riso; escarnecem de mim com seus lábios e meneiam a cabeça, dizendo: este velhaco entregava tudo ao Senhor; que ele agora o livre, se quiser, pois muito o ama. Mas és tu quem me tirou do ventre de minha mãe, meu próprio refúgio, desde os seios de minha mãe. Assim que vim a este mundo, fui posto em teu colo; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe.

— Do Saltério de Davi em inglês, fielmente traduzido do latim, em Salmos Devotos etc., por E. Whitchurche, 1547.

Versículo 8Salmo 22:8

Aqui estão registradas algumas das próprias palavras com que os perseguidores de nosso Senhor expressaram seu escárnio e zombaria. Que notável encontrá-las num Salmo escrito centenas de anos antes! — John Stevenson.

Versículos 9–10Salmo 22:9-10

A fé se fortalece muito com evidências constantes do favor de Deus. Foi com isso que sustentou a sua fé aquele que disse a Deus: "Tu és aquele que me tirou do ventre: tu me fizeste esperar quando eu estava aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado desde o ventre: tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe." "Tu és a minha confiança desde a minha mocidade. Por ti tenho sido sustentado desde o ventre: tu és aquele que me tirou das entranhas de minha mãe" (Salmo 71:5-6).

Não foi apenas a disposição de Obadias para com Deus, mas também a evidência que ele tinha, com isso, da afeição de Deus por ele, que o fez dizer a Elias, com confiança: "Temo ao Senhor desde a minha mocidade" (1 Reis 18:12). Por muito tempo de antigo favor, dão-se muitas demonstrações de uma afeição firme, fixa e inabalável. De modo que, se por causa das tentações uma ou mais dessas evidências forem postas em dúvida, ainda assim outras permanecerão para sustentar a fé, e para impedir que ela definhe de todo e caia por completo. Assim como uma casa sustentada por muitas colunas: ainda que algumas sejam removidas, pelo apoio das que restam a casa continuará de pé. — William Gouge.

Davi reconhece antigas misericórdias — aquelas misericórdias que lhe foram concedidas há muito tempo eram ainda frescas e novas em sua memória. E esta é uma das disposições de um coração agradecido: lembrar-se das misericórdias que outro teria esquecido por completo, ou nunca considerado. Assim faz Davi aqui; as misericórdias de sua infância, de sua meninice, de seus primeiros anos — que se poderia imaginar já estarem, agora em sua velhice, de todo esquecidas — ele aqui se dispõe a lembrar e trazer aos seus pensamentos.

"Tirou-me do ventre": quando foi isso? Pode ter sido há sessenta anos, quando Davi escreveu os Salmos. Ele pensa nas misericórdias que Deus lhe concedeu quando ele não era capaz de pensar nem considerar o que lhe era dado; e assim somos ensinados, à imitação deste santo exemplo posto diante de nós, a lembrar e reconhecer, em nossos anos mais maduros, as misericórdias que Deus nos concedeu em nossa menoridade. — Thomas Horton.

Aqui a tribulação começa a se tornar mais leve, e a esperança se inclina para a vitória; um apoio, ainda que pequeno e buscado com profunda ansiedade, é agora encontrado. Pois, depois de sentir que havia sofrido sem paralelo nem exemplo — de modo que as obras maravilhosas de Deus manifestadas aos pais não lhe traziam nenhum socorro —, ele chega às obras maravilhosas de Deus para consigo mesmo, e nelas encontra a boa vontade de Deus para com ele, manifestada para com ele sozinho de um modo tão singular. — Martinho Lutero.

A áspera severidade dos vários escárnios com que os inimigos assaltaram nosso Senhor não teve outro efeito senão levar o Salvador a fazer um apelo direto a seu Pai... Esse apelo está diante de nós nestes dois versículos. É de natureza incomum e notável. O argumento em que se funda é dos mais fortes e conclusivos. Ao mesmo tempo, é o mais oportuno e apropriado que se poderia fazer.

Podemos assim parafraseá-lo: "Estou agora reduzido, como homem, ao meu último extremo. Dizem que Deus me rejeita; mas não pode ser assim. Desde o meu primeiro instante de existência ele cuidou ternamente de mim. Quando eu nem podia pedir, nem sequer pensar em sua bondade, ele a derramou sobre mim. Se, por seu mero beneplácito, ele me trouxe à vida no início, certamente não me abandonará agora que dela saio. Em oposição, portanto, a todos os seus escárnios, posso e apelarei a ele mesmo."

"Meus inimigos declaram, ó Deus, que tu me rejeitaste — mas tu és aquele que me tirou do ventre. Afirmam que eu não confio, nem preciso confiar em ti; mas tu me fizeste esperar (ou, na margem, me guardaste em segurança) quando eu estava aos seios de minha mãe. Insinuam que não me reconhecerás como teu Filho; mas sobre ti fui lançado desde o ventre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe." — John Stevenson.

Versículo 10Salmo 22:10

"Sobre ti fui lançado desde o ventre: tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe." Há uma passagem nobre em Eusébio, em que ele mostra a ligação entre a encarnação e a paixão de nosso Senhor: que ele bem podia se consolar, pendurado na cruz, ao lembrar-se de que aquele mesmo corpo então "mais desfigurado do que o de qualquer homem, e sua aparência mais do que a dos filhos dos homens" (Isaías 52:14) era o mesmo que fora glorificado pelo Pai com tão singular honra, quando o Espírito Santo veio sobre Maria, e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra.

Que este corpo, portanto, ainda que agora tão dilacerado e tão mutilado, assim como fora outrora a maravilha, seria para sempre a alegria dos anjos; e, tendo revestido a imortalidade, seria o sustento do seu povo fiel até o fim dos tempos. — J. M. Neale, no lugar citado.

Eu era como alguém abandonado por seu pai, e inteiramente lançado sobre a Providência. Eu não tinha pai na terra, e minha mãe era pobre e desamparada. — Matthew Poole.

Versículo 11Salmo 22:11

"Não fiques longe de mim, pois a angústia está perto"; portanto, é chegada a hora de estenderes a tua mão para socorrer. Hominibus profanis mirabilis videtur hæc ratio — a pessoas profanas esta parece ser uma razão estranha, diz um intérprete; mas é uma razão muito boa, como bem sabia este profeta, que por isso a toma como sua súplica. — John Trapp.

Versículo 12Salmo 22:12

"Fortes touros de Basã me cercaram." Esses animais são notáveis pela maneira orgulhosa, feroz e taciturna com que exercem sua grande força. Tais eram os perseguidores que agora cercavam nosso Senhor. Eram, primeiro, inimigos humanos, e depois, inimigos espirituais; e ambos se distinguiam igualmente pela maneira orgulhosa, feroz e taciturna com que o atacavam. — John Stevenson.

Versículos 12–13Salmo 22:12-13

"Basã" era um país fértil (Números 32:4), e o gado ali criado era gordo e "forte" (Deuteronômio 32:14). Como eles, os judeus, naquela boa terra, "engordaram e recalcitraram", ensoberbeceram-se e se rebelaram; abandonaram a Deus "que os fez, e desprezaram a Rocha da sua salvação." — George Horne.

Versículo 13Salmo 22:13

Um bebê indefeso, ou um cordeiro inofensivo, cercado por touros furiosos e leões famintos, bem representava o Salvador cercado por seus perseguidores insultuosos e sanguinários. — Thomas Scott, 1747-1821.

Versículo 14Salmo 22:14

"Estou derramado como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas." Ele estava desfalecido. Sobreveio-lhe tal sensação de langor e desfalecimento que a linguagem não basta para exprimi-la, e por isso se emprega a imagem da "água derramada" para representá-la.

Assim como a água cai do vaso ao chão, veja como suas partículas se separam cada vez mais umas das outras. Sua velocidade aumenta à medida que cai. Ela não tem poder para se deter no meio do caminho, muito menos para voltar ao seu lugar. É o retrato exato da fraqueza total.

Assim se sentiu o nosso Senhor quando pendurado na cruz. Estava desfalecido de fraqueza. As sensações que se experimentam ao se estar prestes a desmaiar são muito avassaladoras. Parecemo-nos, à nossa própria consciência, não ser senão fraqueza, como água derramada. Todos os nossos ossos parecem relaxados e desconjuntados; é como se não os tivéssemos.

A força dos ossos se vai, a junção das articulações se afrouxa, e o vigor muscular foge. Uma vertigem enfermiça nos domina. Não temos poder para suportar. Todo o ânimo se perde. Nossa força desaparece como a da cera, da cera derretida, que goteja sobre os objetos ao redor e se perde.

Assim descreve Daniel as suas sensações ao contemplar a grande visão: "Não ficou força alguma em mim, pois o meu vigor se tornou em corrupção, e não retive força nenhuma" (Daniel 10:8).

Quanto ao desfalecimento que nosso Senhor experimentou, devemos notar, porém, esta circunstância adicional e notável: que ele não desmaiou por completo. O alívio da inconsciência ele recusou. Quando a consciência cessa, toda percepção da dor termina necessária e instantaneamente. Mas nosso Senhor conservou plena consciência durante toda aquela cena terrível, e suportou pacientemente, por considerável período, aquelas sensações — para nós insuportáveis — que precedem o desmaio propriamente dito. — John Stevenson.

"Estou derramado como água": isto é, no pensamento de meus inimigos estou inteiramente destruído. "Pois certamente temos de morrer, e somos como água derramada sobre a terra, que não se pode recolher outra vez" (2 Samuel 14:14). "Que maravilha", pergunta Santo Bernardo, "que o nome do Esposo seja como unguento derramado, quando ele mesmo, pela grandeza do seu amor, foi derramado como água!" — J. M. Neale.

"Estou derramado como água", isto é, estou quase além de toda recuperação, como água derramada sobre a terra. — John Trapp.

"Todos os meus ossos se desconjuntaram." O cavalete de tortura foi concebido como uma dor das mais requintadas, até mesmo pelo terror que causa. E a cruz é um cavalete, sobre o qual ele foi estendido até que, diz o Salmo, "todos os seus ossos se desconjuntaram."

Mas mesmo apenas ficar em pé, como ele ficou pendurado, por três longas horas seguidas, sustentando somente os braços estendidos, já ouvi dizerem alguns que o sentiram, ser uma dor quase incrível. Mas as mãos e os pés, cravados de modo tão cruel — parte, entre todas, das mais sensíveis, por causa da textura dos nervos ali mais concentrados —, não podiam deixar de tornar sua dor desmedidamente dolorosa.

Não foi à toa que dolores acerrimi dicuntur cruciatus (diz o autor pagão) — que as dores mais agudas e amargas de todas recebem daí o seu nome, e são chamadas cruciatus, dores como as da cruz. Havia um sentido em lhe darem, como boas-vindas à cruz, um cálice misturado com fel ou mirra; e, como despedida, uma esponja de vinagre — para mostrar, por um, a amargura, e pelo outro, a agudeza das dores desta morte dolorosa. — Lancelot Andrewes.

"Todos os meus ossos se desconjuntaram." Sabemos que a maior e mais intolerável dor que o corpo pode suportar é a que provém de um osso fora do lugar, ou de uma articulação deslocada. Ora, quando o Senhor foi erguido na cruz, e seu corpo sagrado ficou pendurado no ar pelos cravos, todas as articulações começaram a ceder, de modo que os ossos se separavam uns dos outros tão visivelmente que, em verdade (como Davi profetizara), dava para contar todos os seus ossos; e assim, por todo o corpo, ele suportou um tormento agudíssimo.

Enquanto nosso Senhor sofria estes tormentos, seus inimigos, que tão ardentemente haviam desejado vê-lo crucificado, longe de se compadecerem dele, encheram-se de alegria, como quem celebra uma vitória. — Fra Thomé de Jesus.

Versículo 15Salmo 22:15

"Minha força se secou," etc. A inflamação deve ter começado cedo e violentamente nas partes feridas — logo se estendendo às que estavam distendidas — e ter terminado num alto grau de ardor febril por todo o corpo. Os fluidos do corpo assim se secariam, e as partículas aquosas do sangue seriam absorvidas.

A pele, ressecada pelo sol escaldante até o meio-dia, seria incapaz de fornecer ou de absorver qualquer umidade. A perda de sangue pelas mãos e pelos pés apressaria a dessecação. Por isso nosso Senhor diz: "Minha força se secou como um caco de barro, e minha língua se apega às minhas mandíbulas."

A febre devoraria o pouco de força que lhe restava. E a SEDE, essa mais intolerável de todas as privações corporais, deve ter sido avassaladora. Seu corpo lhe parecia, ao sentir, como um caco de barro que fora queimado no forno do oleiro. Parecia não ter restado nele nem força nem substância.

Tão débil se tornara, tão ressecado e seco que a ARIDEZ DA BOCA — uma das precursoras da dissolução iminente — já se apossara dele: "Minha língua se apega às minhas mandíbulas, e me puseste no pó da morte." — John Stevenson.

"Minha força se secou"; não como na prova do ouro e da prata, mas "como um caco de barro", como o vaso de barro ressecado pelo calor — dito em humilhação. — Isaac Williams, no lugar citado.

"Um caco de barro." (hebr.) traduzido por "caco de barro" é palavra que denota um pedaço de louça de barro, frequentemente em estado quebrado. Empregada no versículo em questão, parece receber considerável esclarecimento da palavra correspondente em ÁRABE, que exprime aspereza da pele, e bem poderia transmitir à mente a ideia da aparência corporal de alguém em quem a umidade dos fluidos fora ressecada pelo excesso da dor. — John Morison.

Naquela hora, quais foram os seus sentimentos, é perigoso defini-lo: não os conhecemos; seria demasiada ousadia querer determiná-los. Foi para muito bom propósito que os antigos Pais da igreja grega, em sua liturgia, depois de haverem enumerado todas as dores particulares tal como são registradas em sua paixão, e depois de, por todas e por cada uma delas, terem clamado por misericórdia, encerram, ao final, com isto: Dia agnōstōn kopōn kai basanōn, eleēson kai sōson hēmas — Pelas tuas dores e sofrimentos desconhecidos, sentidos por ti, mas não claramente conhecidos por nós, tem misericórdia de nós e salva-nos. — Lancelot Andrewes.

Versículo 16Salmo 22:16

"Cães me cercaram." Tão grande e variada foi a malignidade exibida pelos inimigos de nosso Senhor que as características combinadas de duas espécies de animais ferozes não bastavam para representá-la. Introduz-se, por isso, outra figura emblemática.

A assembleia dos ímpios é comparada à dos "cães" que rondam as cidades, vasculham cada canto, rosnam sobre a carniça e a devoram avidamente por inteiro — como "cães", com seu uivo selvagem em plena perseguição, com faro infalível rastreando sua vítima, com olhar vigilante sobre todos os seus movimentos, e com uma determinação que nada abala, eles a perseguem até a morte.

O modo oriental de caçar, tanto antigamente quanto hoje, é da mais extrema crueldade e falta de piedade. Bate-se um círculo de vários quilômetros de circunferência; e os homens, impelindo tudo à frente e estreitando o cerco à medida que avançam, encurralam a presa por todos os lados. Tendo-a assim aprisionado, os caçadores cruéis passam a abatê-la a seu bel-prazer. Assim fizeram os inimigos de nosso Senhor: muito antes de sua crucificação, está registrado que usaram os planos mais traiçoeiros para tê-lo em seu poder. — John Stevenson.

"Cães me cercaram." Na caçada do leão, convoca-se todo um distrito para comparecer; os homens, formando-se primeiro em círculo, cercam um espaço de sete a oito quilômetros de extensão, conforme o número de pessoas e a natureza do terreno escolhido para a ação.

Os que vão a pé avançam primeiro, correndo para os matagais com seus cães e lanças, para levantar a caça; enquanto os cavaleiros, mantendo-se um pouco atrás, ficam sempre prontos para atacar ao primeiro ímpeto da fera. Deste modo prosseguem, sempre estreitando seu círculo, até que finalmente todos se fecham juntos, ou encontram alguma outra caça que os desvie. — Dr. Shaw, Viagens, citado em Paxton, Ilustrações da Escritura.

"Traspassaram-me as mãos e os pés"; a saber, quando cravaram Cristo na cruz (Mateus 27:35; João 20:25). Aqui deixe-me, permita-se, seguir a gradação do orador: Facinus vincire civem Romanum etc. — Foi muito que o Filho de Deus fosse atado; mais, que fosse açoitado; mais que tudo, que fosse morto; Quid dicam in crucem tolle? Mas que direi a isto, que foi crucificado? Essa foi a mais vil e ignominiosa; foi também um gênero cruel e maldito de morte, que, no entanto, ele não recusou; e aqui temos um claro testemunho da sua cruz. — John Trapp.

"Traspassaram-me as mãos e os pés." De todos os suplícios sangrentos, o da crucificação é um dos mais terríveis — nenhuma parte vital é atingida de imediato por ele. As mãos e os pés, providos dos órgãos mais numerosos e sensíveis, são perfurados por cravos, que necessariamente precisam ter algum tamanho para servir ao seu propósito.

O rasgar das fibras delicadas das mãos e dos pés, a laceração de tantos nervos, e o rompimento de tantos vasos sanguíneos, devem produzir uma agonia intensa. Os nervos da mão e do pé estão intimamente ligados, através do braço e da perna, aos nervos de todo o corpo; sua laceração, portanto, deve ser sentida por toda a estrutura.

Veja-se o resultado melancólico até mesmo da picada de uma agulha num só dos nervos mais remotos. Não raro se produz por isso um espasmo nos músculos do rosto, que trava as mandíbulas de modo inseparável. Quando, pois, as mãos e os pés de nosso bendito Senhor foram trespassados por cravos, ele deve ter sentido as pontadas mais agudas atravessarem cada parte do seu corpo. Sustentado apenas por seus membros lacerados, e suspenso por suas mãos trespassadas, nosso Senhor teve quase seis horas de tormento a suportar. — John Stevenson.

"Traspassaram-me as mãos e os pés." Assim testifica aquele profeta evangélico: "Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos" (Isaías 49:16). Não fomos ali gravados quando suas mãos foram trespassadas por nós?

"Cavaram-me as mãos e os pés." E cavaram-nas tão fundo que as próprias marcas permaneceram depois de sua ressurreição, e os dedos deles foram nelas metidos como prova. Alguns pensaram que essas cicatrizes ainda permanecem em seu corpo glorioso, para serem mostradas em sua segunda vinda: "Verão aquele a quem traspassaram."

Isso é improvável, mas isto é certo: permanece ainda uma marca nas mãos de Cristo e em seu coração — o selo e o trazer ali dos eleitos, como joias preciosas. — Thomas Adams.

Versículo 17Salmo 22:17

"Poderia contar todos os meus ossos: eles me olham e ficam a mirar-me." A pele e a carne se distendiam pela postura do corpo na cruz, de modo que os ossos, como através de um véu fino, se tornavam visíveis, e podiam ser contados. — George Horne.

"Poderia contar todos os meus ossos." Pois, assim como o primeiro Adão, por sua queda, perdeu o manto da inocência, e desde então precisou de outras vestes, assim o segundo Adão se dispôs a ser despojado de suas vestes terrenas, para que dali em diante se pudesse dizer a nós: "Trazei o primeiro manto, e vesti-o nele" (Lucas 15:22). — Gerhohus, citado por J. M. Neale.

"Eles me olham e ficam a mirar-me." Sensivelmente consciente de sua condição na cruz, os sentimentos delicados do santo Salvador foram profundamente feridos pelo olhar da multidão. Com rosto impudente olhavam para ele. Para vê-lo melhor, paravam ao passar. Com deliberada insolência reuniam-se em grupos, e faziam comentários uns aos outros sobre sua conduta e aparência. Escarnecendo de seu corpo nu, emaciado e trêmulo, "olhavam e ficavam a mirá-lo." — John Stevenson.

"Eles me olham e ficam a mirar-me." Ah, quão diferente é aquele olhar que o pecador desperto dirige ao Calvário, quando a fé ergue os olhos para aquele que agonizou, sangrou e morreu pelos culpados! E que gratidão deveriam sentir os homens perecíveis, ao saberem que daquele que pende na árvore maldita se ouve proceder o convite: "Olhem para mim, e sejam salvos, todos os confins da terra, pois eu sou Deus, e não há outro além de mim." — John Morison.

Versículo 18Salmo 22:18

"Repartem entre si as minhas vestes," etc. Inteiramente nus pendiam os crucificados na cruz, e os executores recebiam as suas roupas. Nada indica que houvesse sequer um pano ao redor da cintura. As roupas se tornavam propriedade dos soldados, segundo o costume romano. A veste externa era provavelmente dividida em quatro partes, rasgando-se as costuras. Quatro soldados eram destacados como guarda, conforme o código romano. A veste interior, por ser tecida sem costura, não podia ser dividida; e isso levou os soldados a lançar sortes. — J. P. Lange, D.D., sobre Mateus 27:35.

"Repartem entre si as minhas vestes," etc. Não faltarão instrumentos para crucificar a Cristo, nem que seja só por suas roupas velhas, e essas de pouco valor; pois estes soldados o crucificam, ainda que só ganhem suas vestes como recompensa.

Cristo se dispôs a sofrer nu, para com isso nos ensinar: Primeiro, que toda carne está realmente nua diante de Deus por causa do pecado (Êxodo 32:25; 2 Crônicas 28:19), e por isso convinha que o nosso Fiador sofresse nu.

Segundo, que ele se ofereceu como um cativo real em seus sofrimentos, para que assim pudesse satisfazer plenamente a justiça, estando sob o poder de seus inimigos, até se redimir com mão forte, tendo pago inteiramente o preço; pois por isso ele se dispôs a ser despojado, nu, como os vencedores costumam fazer com os prisioneiros.

Terceiro, que, ao assim sofrer nu, ele expiaria o nosso mau uso das vestes, e nos compraria a liberdade de usarmos vestimenta adequada, condizente com a nossa condição.

Quarto, que, por este sofrimento nu, ele compraria para os que a ele se refugiam o serem cobertos de justiça e glória, e o andarem com ele vestidos de branco para sempre; e apontaria para a nudez daqueles que, não sendo encontrados vestidos de sua justiça, não serão revestidos de imortalidade e glória (2 Coríntios 5:2-3).

Quinto, ele também, por isso, ensinaria a todos os seus seguidores a se disporem à nudez ao segui-lo, como parte de sua conformidade com a sua Cabeça (1 João 4:17; Romanos 8:35; Hebreus 11:37), e que, por isso, não se apeguem demais às suas vestes quando as tiverem. — George Hutcheson, 1657.

"E lançaram sortes sobre a minha veste." Por trivial que possa parecer este ato de lançar sortes sobre a veste de nosso Senhor, ele é dos mais significativos. Contém uma dupla lição.

Ensina-nos quão grandemente era estimada aquela túnica sem costura; e quão pouco o era aquele a quem pertencera. Parecia dizer: esta veste vale mais do que o seu dono. Assim como se disse das trinta moedas de prata: "Belo preço, pelo qual fui avaliado por eles", também poderíamos dizer, a respeito do lançar da sorte: "Quão baratamente foi tido Cristo!" — John Stevenson.

Versículo 20Salmo 22:20

"Minha querida" seria melhor traduzido como "minha solitária, ou desamparada". Pois ele quer dizer que sua alma estava solitária e abandonada por todos, e que não havia ninguém que o buscasse como amigo, ou cuidasse dele, ou o consolasse: como temos no Salmo 142:4, "Faltou-me refúgio; ninguém cuidou da minha alma; olhei à minha direita, mas não havia quem me quisesse conhecer"; isto é, a solidão é, em si mesma, uma certa cruz, e especialmente assim em tão grandes tormentos, nos quais é penosíssimo estar imerso sem exemplo e sem companheiro.

E, no entanto, em tal estado, cada um de nós deve estar, em algum sofrimento ou outro, e especialmente no da morte; e devemos ser levados a clamar com o Salmo 25:16: "Volta-te para mim, e tem misericórdia de mim, pois estou desolado e aflito." — Martinho Lutero.

"O cão." É quase impossível para um europeu fazer ideia do incômodo intolerável causado, nas vilas e cidades do Oriente, pela multidão de cães que infestam as ruas. Os nativos, acostumados desde a infância a esse incômodo, tornam-se indiferentes a ele; mas, para um estrangeiro, essas criaturas são a maior praga a que fica sujeito; pois, como nunca lhes é permitido entrar numa casa, e não são propriedade de nenhum dono em particular, não exibem nenhum daqueles hábitos de que a espécie domesticada, entre nós, se mostra capaz, e são desprovidos de todas aquelas qualidades sociais que muitas vezes tornam o cão o amigo fiel e dedicado do homem.

A raça parece degenerar por completo nas regiões quentes do Oriente, e se aproximar do caráter das feras de rapina, pois em temperamento são ferozes, astutos, sanguinários, e possuidores da voracidade mais insaciável; e mesmo em sua própria forma há algo repulsivo: suas feições agudas e selvagens, seus olhos de lobo, suas orelhas longas e pendentes, seus rabos retos e pontudos, seus corpos magros e emaciados, quase inteiramente sem ventre, dão-lhes um aspecto de miséria e degradação que contrasta tristemente com a condição e as qualidades gerais da raça na Europa.

Essas criaturas hediondas, temidas pelo povo por sua ferocidade, ou evitadas por serem inúteis e imundas, veem-se obrigadas a rondar por toda parte em busca de uma existência precária. Costumam correr em bandos, e sua ferocidade natural, inflamada pela fome e pela consciência da própria força, faz delas as visitas mais incômodas e perigosas para o estrangeiro que inesperadamente se encontra em sua vizinhança, pois não hesitarão em agarrar tudo o que ele tiver consigo, e mesmo, caso ele caia e fique de algum modo indefeso, em atacá-lo e devorá-lo.

Esses animais, impelidos pela fome, devoram avidamente tudo o que lhes aparece pelo caminho; fartam-se das substâncias mais pútridas e repugnantes que se jogam pelas cidades, e de nada gostam tanto quanto de carne humana — banquete com que a barbárie dos países despóticos da Ásia frequentemente os supre, já que os corpos dos criminosos executados por assassinato, traição ou violência raramente são sepultados, e ficam expostos até que os fragmentos dilacerados sejam levados pelos cães. — De Ilustrações da Escritura, pelo falecido professor George Paxton, D.D., revisado e ampliado por Robert Jamieson, 1843.

Versículo 21Salmo 22:21

"Salva-me da boca do leão." Satanás é chamado leão, e com razão; pois tem todas as propriedades do leão: ousado como o leão, forte como o leão, furioso como o leão, terrível como o rugido do leão. Sim, pior: falta ao leão a astúcia e a suspeita; nisto o diabo supera o leão. O leão poupa o que está prostrado; o diabo não poupa ninguém. O leão, saciado, se abstém; o diabo, saciado, devora. Ele busca a todos; não diga o simples: "Ele não reparará em mim"; nem o astuto: "Ele não conseguirá me enganar"; nem o nobre: "Ele não ousará se meter comigo"; nem o rico: "Ele não ousa me desafiar"; pois ele busca devorar a todos. Ele é o nosso adversário comum; cessemos, pois, todas as nossas contendas entre nós, e lutemos contra ele. — Thomas Adams.

"Salva-me... dos chifres dos unicórnios." Os que estão em grande aflição pelo poder ou pela crueldade de outros costumam clamar aos seus deuses: "Ah! Salva-me da presa do elefante! Da boca do tigre e das presas do javali, livra-me, livra-me! Quem me salvará do chifre do Kāndam?" Este animal está hoje extinto nessas regiões, e não é fácil determinar o que era; a palavra no Sathur Agarathi é traduzida por "boi da selva." — Joseph Roberts.

"Os chifres dos unicórnios." Voltando-se para a Bíblia judaica, encontramos que a palavra (hebr.) é traduzida por búfalo, e não há dúvida de que essa tradução é quase correta; e hoje os naturalistas quase concordam que o reêm do Antigo Testamento deve ter sido o hoje extinto urus... A presença desses chifres oferece uma notável confirmação de uma passagem bem conhecida nos familiares Comentários de Júlio César: "Os uri são pouco menores que os elefantes em tamanho" (magnitudine paulo infra elephantos); "mas são touros em sua natureza, cor e figura. Grande é sua força, e grande sua rapidez; e não poupam nem o homem nem o animal quando os avistam." — J. G. Wood, M.A., F.L.S., em Animais da Bíblia, 1869.

Versículo 22Salmo 22:22

"Anunciarei o teu nome a meus irmãos." Tendo assim obtido alívio da opressiva escuridão, e recuperado a posse consciente da alegria e da luz do rosto de seu Pai, os pensamentos e desejos do Redentor voltam a fluir pelo seu canal habitual: a glória de Deus na salvação de sua igreja. — John Stevenson.

"Meus irmãos." Isto dá evidência tanto da profunda condescendência do Filho de Deus quanto da alta exaltação dos filhos dos homens; pois, para o Filho de Deus, ser irmão dos filhos dos homens é um grande grau de humilhação, e para os filhos dos homens serem feitos irmãos do Filho de Deus é um alto grau de exaltação; pois os irmãos de Cristo são, nesse sentido, filhos de Deus, herdeiros do céu, reis — não terrenos, mas celestiais; não temporários, mas eternos. Esta consideração de Cristo por seus irmãos é um grande encorajamento e consolo para aqueles que são desprezados e escarnecidos pelos homens deste mundo por professarem a Cristo. — William Gouge.

Versículo 24Salmo 22:24

"Pois ele não desprezou nem abominou a oração do pobre, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando eu a ele clamei, ele me ouviu." Que aquele, portanto, que deseja ser da descendência de Israel, e se alegrar na graça do evangelho, se faça pobre, pois esta é uma verdade estabelecida: o nosso Deus é aquele que tem consideração pelos pobres!

E observe a plenitude e a diligência do profeta. Ele não se contentou em dizer "não desprezará", mas acrescenta: "e não abominará"; e, ainda: "não desviará o seu rosto"; e de novo: "ouvirá". E então acrescenta a si mesmo como exemplo, dizendo: "quando eu clamei", como traz a nossa tradução.

É como se dissesse: "Atentai e aprendei com o meu exemplo, vós que fostes feitos os mais vis de todos os homens, e contados entre os ímpios; quando eu era desprezado, rejeitado, lançado fora, eis que fui tido na mais alta estima, acolhido e ouvido."

Que este estado de coisas, portanto, depois deste meu exemplo encorajador, não vos amedronte; o evangelho exige que um homem tenha esse caráter antes que possa ser salvo. Digo estas coisas porque a nossa fraqueza requer tanta exortação, para que não se tema ser humilhada, nem desespere quando humilhada, e assim possa, depois de carregar a cruz, receber a salvação. — Martinho Lutero.

Versículo 25Salmo 22:25

"O meu louvor será de ti na grande congregação," etc. A alegria e a gratidão do nosso adorável Senhor se elevam a tal altura, diante desta grande libertação, e seu coração transborda de tão fresca e bendita consciência da proximidade de seu Pai celestial, que ele torna a derramar a expressão do seu louvor. Por essa repetição, ele nos ensina que isto não é um arroubo passageiro de gratidão, mas uma determinação permanente, uma resolução plena e firme. — John Stevenson.

"Na grande congregação." Os santos são as testemunhas mais próprias dos deveres sagrados. Aquilo que, no Salmo 116:14, está implícito sob esta restrição — "na presença de todo o seu povo" — é, no Salmo 22:25, mais expressamente indicado por uma descrição mais patente, assim: "Pagarei os meus votos diante dos que o temem." Ninguém, senão os verdadeiros santos, teme verdadeiramente a Deus.

Primeiro: esta característica do povo de Deus, o temerem ao Senhor, mostra que eles farão o melhor uso possível de tais deveres sagrados e solenes realizados em sua presença. Glorificarão a Deus por este vosso zelo; unirão o seu espírito ao vosso espírito neste cumprimento aberto do dever; tornar-se-ão seguidores vossos, e aprenderão convosco a fazer votos e a pagá-los ao Senhor, e isso abertamente, publicamente.

Segundo: quanto aos demais, não passam de porcos e cães, que não são próprios para que se lancem diante deles tais pérolas preciosas e coisas santas, para que não as pisem com os pés. — William Gouge.

Versículo 26Salmo 22:26

"Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao Senhor os que o buscam; o vosso coração viverá para sempre." Um banquete espiritual está preparado na igreja para os "mansos" e humildes de coração. A morte de Cristo foi o sacrifício pelo pecado; a sua carne é verdadeiramente comida, e o seu sangue é verdadeiramente bebida. Os pobres de espírito se alimentam desta provisão, em seus corações, pela fé, e se fartam; e assim, enquanto "buscam" ao Senhor, também o "louvam", e os seus "corações" (ou almas) são preservados para a vida eterna. — Ilustrações Práticas do Livro dos Salmos, 1826.

"Os mansos." Boaventura gravou este doce dito do nosso Senhor — "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" — em seu estúdio. Quem dera este dito estivesse gravado em todas as vossas frontes, e em todos os vossos corações! — Charles Bradbury.

"Louvarão ao Senhor os que o buscam; o vosso coração viverá para sempre." Ora, eu bem gostaria de conhecer o homem que já tentou formar leis capazes de atar os corações dos homens, ou preparar recompensas capazes de alcançar as almas e as consciências dos homens!

Deveras, se algum mortal fizesse uma lei ordenando que os seus súditos o amassem com todo o coração e toda a alma, e não ousassem, sob pena de sua maior indignação, alimentar um pensamento traiçoeiro contra a sua régia pessoa, sem antes confessá-lo, ou então sofreriam sua vingança — mereceria ser mais ridicularizado por seu orgulho e loucura do que Xerxes, ao lançar seus grilhões no Helesponto para acorrentar as ondas à sua obediência; ou Calígula, que ameaçava o ar, caso ousasse chover enquanto se divertia, mas que nem ele mesmo ousava olhar para o céu quando trovejava.

Certamente um hospício seria mais próprio para tal pessoa do que um trono — quem tanto perdesse a razão a ponto de pensar que os pensamentos e os corações dos homens estivessem sob a sua jurisdição. — William Gurnall.

"O vosso coração" — isto é, não o vosso homem exterior, mas o homem oculto do coração (Ezequiel 36:26); o homem novo, que é criado à imagem de Deus em justiça e verdadeira santidade — "viverá para sempre." A vida que o anima é a vida do Espírito de Deus. — John Stevenson.

Versículo 27Salmo 22:27

"Todos os confins da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão diante dele." Esta passagem é uma predição da conversão dos gentios. Ela nos fornece duas ideias interessantes: a natureza da verdadeira conversão, e a extensão dela sob o reinado do Messias.

  1. A NATUREZA da verdadeira conversão: é "lembrar-se" — é "converter-se ao Senhor" — e "adorar diante dele". Este é um processo simples e claro. Talvez o primeiro exercício religioso da mente de que temos consciência seja a reflexão. Um estado de não regeneração é um estado de esquecimento. Deus é esquecido. Os pecadores perderam todo justo senso de sua glória, autoridade, misericórdia e juízo; vivendo como se não houvesse Deus, ou como se pensassem que não há nenhum.

Mas, se somos levados a ser sujeitos da verdadeira conversão, seremos levados a lembrar-nos destas coisas. Esta mudança divina é bem expressa pelo caso do filho pródigo, que se diz ter "caído em si", ou voltado a seu juízo certo. Além disso, a verdadeira conversão não consiste apenas em lembrar-se, mas em "converter-se ao Senhor". Esta parte da passagem expressa um abandono sincero dos nossos ídolos, quaisquer que tenham sido, e uma aquiescência ao caminho evangélico da salvação somente por Cristo. Mais uma vez, a verdadeira conversão a Cristo virá acompanhada da sua "adoração". A adoração, como exercício religioso, é a homenagem do coração, apresentada a Deus segundo a sua vontade revelada.

  1. A EXTENSÃO da conversão sob o reino do Messias: "Todos os confins da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão diante dele." Convinha que a adesão dos gentios fosse reservada para o dia do evangelho, a fim de que enriquecesse o triunfo de Cristo sobre os seus inimigos, e se mostrasse ser, como de fato é, "o trabalho de sua alma".

Esta grande e boa obra, iniciada nos dias dos apóstolos, deve prosseguir, e "deve crescer", até que "todos os confins da terra se lembrem e se convertam", e "todas as famílias das nações adorem diante dele". A obra da conversão tem sido individual; Deus tem ajuntado os pecadores um a um. Assim é hoje conosco; mas não será sempre assim. As pessoas acorrerão a Sião como pombas às suas janelas.

Além disso, a obra da conversão tem, até agora, se limitado a certas partes do mundo. Mas virá o tempo em que "todas as famílias da terra" adorarão. Estas esperanças não são o voo de uma imaginação ardente; fundam-se nas verdadeiras palavras de Deus. Por fim, enquanto nos preocupamos com o mundo, não esqueçamos as nossas próprias almas. Pois, se o mundo inteiro fosse salvo e nós nos perdêssemos, de que nos aproveitaria isso? — Condensado de Andrew Fuller.

"Todos os confins da terra se LEMBRARÃO" — esta é uma expressão notável. Ela implica que o homem se esqueceu de Deus. Representa todas as gerações sucessivas do mundo como se fossem uma só, e então exibe essa única geração, como se tivesse estado outrora no paraíso, subitamente se lembrando do Senhor que ali conhecera, mas que há muito havia esquecido... As nações convertidas, aprendemos por este versículo, não apenas obterão a lembrança de sua antiga perda, mas também serão preenchidas com o conhecimento do dever presente. — John Stevenson.

"Todas as nações da terra" ((hebr.) jizkeru, da mesma raiz hebraica de (hebr.) azkir) "se lembrarão"; por quê? o que é isso? ou do que se lembrarão? Justamente disto: converter-se-ão ao Senhor, e o adorarão, em seu nome, em suas ordenanças; como se explica nas palavras seguintes deste versículo: "e todas as famílias das nações" ((hebr.) jishtachavu, "se inclinarão" a si mesmas, ou) "adorarão diante de ti", etc.

E assim no Salmo 86:9: "Todas as nações que fizeste virão" ((hebr.) vejishtachavu) "e adorarão diante de ti"; e como o farão? Justamente registrando, lembrando e fazendo menção da glória do teu nome; como nas palavras seguintes ((hebr.) vicabbedu lishmecha), "e glorificarão o teu nome." — William Strong, Comunhão dos Santos com Deus, 1656.

Versículos 27–28Salmo 22:27-28

O único objetivo constante do Filho, em tudo, foi a glória do Pai: ele veio para fazer a sua vontade, e a cumpriu com toda a intensidade invariável do mais celestial afeto. Que será, então, a alegria transbordante de seu coração, quando, em seu reino glorioso, ele vir o Pai glorificado além de toda medida?

O louvor, a honra e a bênção que serão prestados ao Pai naquele dia, por meio dele, de modo que Deus seja tudo em todos, o farão sentir que não sofreu dor demasiada por tão preciosa consumação.

Cada nota de ação de graças que subir ao Pai — seja das aves do céu, seja dos animais do campo, seja dos peixes do mar, seja das colinas, seja das montanhas, seja das árvores da floresta, seja dos rios dos vales — tudo alegrará o seu coração, como algo doce aos ouvidos de Deus, por causa daquele que os redimiu, até a eles, da maldição, e lhes restituiu uma harmonia mais musical do que a que irrompeu deles no dia do nascimento de sua criação.

E o homem! O homem renovado e regenerado! Por cuja alma o sangue foi derramado, e para a redenção de cujo corpo a morte foi vencida — como será o coro de sua ação de graças, em seus inteligentes e articulados aleluias, o incenso que aquele Salvador ainda amará apresentar ao Pai, aroma suave por meio de si mesmo, que, para santificar o seu povo com o seu próprio sangue, sofreu fora do arraial.

Quão obstruídos ou danificados estão os canais, neste mundo mau, por onde o louvor e a glória do nosso Deus deveriam fluir como um rio! Como Cristo então testemunhará, para o deleite de sua alma, tudo limpo e restaurado! Nenhum frio no coração, nenhuma gagueira na língua, nos louvores a seu Pai! Nenhum entendimento embotado, nem olho fraco, na apreensão de sua glória! Nenhuma mão relutante, nem pé tropeçando, no cumprimento de seus mandamentos.

Deus, a glória de suas criaturas: a glória delas, o seu serviço e o seu amor; e tudo isso, a recompensa de Jesus por ter sofrido uma só vez. — C. J. Goodhart, M.A., em Preleções da Quaresma em Bloomsbury, 1848.

Versículo 29Salmo 22:29

"E se prostrarão os que descem ao pó; a sua alma não vive:" isto é, aquele cuja alma não vive, por um hebraísmo; querendo dizer que aquele que está na condição mais desesperada, sem esperança de vida e de salvação, cujos pecados são tão notórios, também "comerá" deste banquete, e se converterá a Deus para "adorá-lo" e servi-lo; sendo assim arrancado das fauces da morte e da destruição eterna, como que prestes, até esta mesma hora, a ser por elas tragado.

A nova tradução, "Ninguém pode manter viva a sua própria alma", por não concordar com o hebraico, torna o sentido mais confuso. Por "aquele que desce ao pó, cuja alma não vive", alguns entendem os mais miseravelmente pobres, que nada têm com que se alimentar para que sua vida se preserve, e que, no entanto, também se alimentarão deste banquete tanto quanto os ricos, e louvarão a Deus.

Ainsworth se inclina tanto para os pobres em sentido espiritual e miseráveis, por serem os mais ímpios, quanto para os pobres em sentido material; e há uma exposição de Basílio que entende por "ricos" os ricos em fé e graça — quanto a isso, ou aos ricos propriamente ditos, ele é indiferente. Mas, como se diz "a gordura da terra", prefiro a primeira, para que o fim do versículo melhor corresponda à primeira parte; a segunda, por "aqueles que descem ao pó", entende os miseravelmente pobres.

De modo que há aqui um lugar-comum de consolo para todos, tanto ricos quanto pobres, se forem súditos do reino de graça de Deus: as suas almas serão igualmente alimentadas por ele e salvas. — John Mayer.

"Todos os que descem ao pó"; seja aqueles que estão trêmulos à beira da sepultura, seja aqueles que ocupam os caminhos humildes e retirados da vida. Como os grandes e opulentos da terra estão indicados na primeira cláusula, não é de todo estranho supor que a imagem de "descer ao pó" represente os pobres e humildes da humanidade, incapazes de se sustentarem e de prover as suas necessidades múltiplas.

Se a sepultura for aludida, como pensam muitos eminentes teólogos, o belo sentimento do versículo será que multidões de pecadores moribundos serão levadas a adorar a Jeová, e que aqueles que não podem salvar-se nem livrar-se a si mesmos buscarão o abrigo que ninguém encontra senão os que se achegam ao propiciatório. "Ricos e pobres", observa o Bispo Horne, "são convidados" — isto é, a "adorar a Deus"; "e vem a hora em que toda a raça de Adão, quantos dormem no 'pó' da terra, incapazes de se erguerem dali, vivificados e chamados pela voz do Filho do Homem, deverão dobrar o joelho diante do Rei Messias." — John Morison.

Ser levado ao pó é, à primeira vista, uma circunlocução ou descrição da morte: "Louvar-te-á o pó? Anunciará ele a tua verdade?" (Salmo 30:9). Isto é: louvar-te-ei quando estiver entre os mortos? "Que proveito há no meu sangue, quando eu descer à cova?" Não que, por certo, eu possa te trazer o tributo de louvor quando a minha vida já se tiver esvaído.

Em segundo lugar, ser levado ao pó é uma descrição de qualquer condição baixa e pobre. "Todos os que são gordos sobre a terra" (isto é, os grandes e poderosos) "comerão e adorarão"; "todos os que descem ao pó" (isto é, os humildes e vis) "se prostrarão diante dele." Como se dissesse: ricos e pobres, altos e baixos, o rei e o mendigo, igualmente precisam da salvação por Jesus Cristo, e devem submeter-se a ele para serem salvos, pois, como se segue ali, "ninguém pode manter viva a sua própria alma."

O cativeiro dos judeus na Babilônia é expresso sob essas noções de morte e de habitação no pó (Isaías 26:19), para mostrar quão profunda era a sua condição, de modo que nenhum poder, senão o daquele que pode ressuscitar os mortos, poderia realizar a sua libertação. — Joseph Caryl.

"Ninguém pode manter viva a sua própria alma." E, no entanto, olhamos para trás, para a nossa conversão, e para as suas agonias de sinceridade, os seus sentimentos de dependência profunda e desamparada — de que Cristo era, de modo absoluto, o nosso provedor diário, a cada hora necessário — como algo passado, uma etapa da vida espiritual que já se encerrou. E nos contentamos que assim seja.

O Espírito de Deus se moveu sobre a nossa morte, e soprou em nós o fôlego de vida. A minha alma se tornou uma alma viva. Mas será isso suficiente? A palavra de Deus diz: Não. "Ninguém pode manter viva a sua própria alma." O meu coração diz: Não. A verdade deve sempre corresponder à verdade. Eu não posso (ah! não tentei, e não fracassei?) — eu não posso manter viva a minha própria alma.

Não podemos viver de nós mesmos. A nossa vida física se sustenta por suprimento de fora — ar, alimento, calor. Assim também deve ser a vida espiritual. Jesus dá, Jesus nos alimenta dia a dia; do contrário, a vida há de definhar e morrer. "Ninguém pode manter viva a sua própria alma." Não basta ser vivificado. Preciso ser alimentado, guiado, ensinado e mantido em vida.

Mãe, que trouxeste ao mundo um bebê vivo, está a tua obra concluída? Não hás de amamentá-lo, alimentá-lo e cuidar dele, para que se mantenha vivo? Senhor, eu sou este bebê. Vivo, de fato, pois posso ansiar e chorar. Não me deixes, ó meu Salvador. Não abandones a obra das tuas próprias mãos. Em ti eu vivo. Sustenta-me, carrega-me, alimenta-me, deixa-me permanecer em ti.

"Porque do Senhor é o reino, e ele é o governador entre as nações. Todos os que são gordos sobre a terra comerão e adorarão; todos os que descem ao pó se prostrarão diante dele; e ninguém pode manter viva a sua própria alma."

No nosso trabalho para Deus, precisamos lembrar-nos disto. Não é a conversão, o despertar dos pecadores, o grande e, para muitos, o único objetivo do trabalho para Deus? Deveria ser assim? Pensemos nesta outra obra. Ajudemos a manter vivo. Talvez seja menos notável, assim como pode ser menos notável alimentar uma criança faminta do que resgatar um homem que se afoga. Mas caminhemos menos pela vista, mais pela fé.

Não negligenciemos, de fato, chamar à vida os que estão espiritualmente mortos. Mas, ah! vigiemos pelas necessidades mais ocultas dos vivos — as almas que desfalecem, que passam fome, que desmaiam, mas que ainda podem andar e falar, e encobrir a sua carência e a sua dor. Sejamos colaboradores de Deus em toda a sua obra. E, com profundo sentimento de coração da necessidade de constante suprimento de vida vindo do alto, procuremos ver quão frequentemente, quão livremente, podemos nos tornar canais destas correntes da "água da vida" — pois "ninguém pode manter viva a sua própria alma." — Mary B. M. Duncan, em Horas Bíblicas, 1856.

Tendo considerado a vastidão e a glória da perspectiva, o nosso Senhor contempla, em seguida, a realidade e a minúcia de seu cumprimento. Ele põe diante de sua mente casos individuais e fatos particulares. Parece contemplar este quadro do futuro como nós contemplamos uma grande pintura histórica do passado. Parece natural fitar, em silenciosa admiração, o quadro como um todo, depois fixar a atenção em grupos particulares, e testemunhar o nosso senso da excelência geral, discorrendo sobre a verdade e a beleza das várias partes. — John Stevenson.

Versículo 30Salmo 22:30

"Uma semente o servirá." Esta expressão figurada significa Cristo e o seu povo, que prestam verdadeira obediência a Deus — são chamados por este nome em sentido espiritual e figurado, mas muito apropriado. A ideia é tirada das operações do lavrador, que cuidadosamente reserva, todo ano, uma porção do seu grão para semente.

Ainda que seja pequena, comparada a toda a produção da sua colheita, ele a estima muitíssimo, e a avalia pelo valor daquela safra que ela poderá produzir no outono seguinte. E ele não olha somente para a quantidade; presta atenção especial à qualidade da semente. Reserva apenas a melhor; antes, descartará a sua própria se estiver estragada, para conseguir uma melhor.

A menor quantidade de semente verdadeiramente boa é, para ele, objeto de grande desejo; e, se por grave falha nas colheitas ele não puder obter mais que um único grão, ainda assim o aceitaria com gratidão, o preservaria com cuidado, e o plantaria no solo mais favorável. Tal é a fonte de onde se tira a metáfora. — John Stevenson.

Versículo 31Salmo 22:31

"E anunciarão a sua justiça." A ocupação da semente é "anunciar": testemunhar, a partir da própria experiência, do próprio conhecimento e das próprias convicções, aquele grande assunto, tema ou lição que aprenderam. ... Anunciarão a justiça de Deus, o Espírito Santo, nas suas convicções de pecado, nas suas repreensões à consciência, no seu abandono do impenitente e na sua permanência com o crente. E, de modo especial, anunciarão a justiça de Deus, o Filho, durante a sua vida humana, nos seus sofrimentos e na sua morte como fiador do homem, pela qual ele "engrandeceu a lei, e a fez honrosa" (Isaías 42:21), e por causa da qual podem chamá-lo por este nome: "O Senhor, Justiça Nossa" (Jeremias 23:6). — John Stevenson.

"Um povo que há de nascer." Que é isto? Que povo existe que não nasça? Pelo que entendo, penso que se diz isto por esta razão: porque o povo dos outros reis é formado por leis, por costumes e por hábitos — pelos quais, no entanto, nunca se consegue mover um homem à verdadeira justiça. É apenas uma fábula de justiça, uma simples cena ou representação de teatro. Pois mesmo a lei de Moisés não podia formar o povo dos judeus senão para a hipocrisia. Mas o povo deste Rei não é formado por leis para compor uma aparência externa: é gerado pela água e pelo Espírito para uma nova criatura de verdade. — Martinho Lutero.

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