Notas explicativas e citações: Salmo 13
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 13, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 13 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Versículo 1Salmo 13:1
Até quando te esquecerás de mim, ó SENHOR? etc. As retiradas de Deus para com os verdadeiros crentes nunca são finais; podem ser demoradas, mas são temporárias. Assim como se diz que o espírito maligno se retirou de Cristo por um tempo (Lucas 4:13 — embora tenha abandonado aquela tentação, não abandonou o seu propósito, para não mais tentá-lo), assim também o bom Espírito se retira dos que são de Cristo apenas por um tempo, com o propósito de voltar. Quando ele mais evidentemente abandonou, é igualmente certo que, mais cedo ou mais tarde, voltará; e a felicidade do seu retorno recompensará ricamente a tristeza do seu abandono. Isaías 54:7: "Por um pequeno momento te abandonei; mas com grandes misericórdias te ajuntarei." Aqui não há apenas um ajuntamento depois de um abandono, mas "grandes misericórdias" para compensar "um pequeno momento". Aquele que se comprometeu a ser o nosso Deus para sempre não pode abandonar-nos para sempre. — Timothy Cruso, 1696.
Até quando te esquecerás de mim, ó SENHOR? Por maior que seja a necessidade urgente dos seguidores de Cristo nas provações, e o quanto se apeguem ao dever apesar disso; e por maior que seja o propósito de amor de Cristo para com eles, ainda assim ele julga por bem, muitas vezes, não vir logo a eles, mas deixar a provação seguir até chegar ao auge, e ser de fato uma provação, pondo-os seriamente à prova; pois antes de vir ele os deixa remar "cerca de vinte e cinco ou trinta estádios" (o último dos quais equivale a quase seis quilômetros, sendo oito estádios por milha); e (Marcos 6:48) ele não veio senão na quarta vigília da noite, que é a vigília da madrugada. Nós, de fato, somos muito complacentes conosco mesmos na provação, e logo começamos a pensar que já estamos suficientemente abatidos e provados, e por isso desejaríamos ser livrados; mas o nosso sábio Senhor vê que precisamos de mais. — George Hutcheson, 1657.
Até quando, etc. Investigue as causas da ira de Deus. Ele nunca se ira a não ser que haja razão muito grande, quando o forçamos a isso. Que coisa maldita há em nosso coração, ou em nossa vida, pela qual Deus esconde o rosto e franze o cenho para nós? Que desobediência específica aos seus mandamentos é essa pela qual ele tomou a vara? Jó 10:2: "Direi a Deus: Não me condenes; mostra-me por que contendes comigo"; como se dissesse: Senhor, os meus problemas e as minhas tristezas são bem conhecidos... Não devemos deixar de nos empenhar em descobrir quais são os pecados particulares que o levaram a nos arrancar pela raiz, a nos derrubar como por um redemoinho; o que é que o deixou tão longamente irado conosco, e a demorar tanto o seu socorro, para que, se houver algum mal ainda não descoberto em nossas almas, possamos lamentá-lo com tristeza oportuna, e obter perdão por ele. Não é o curso comum da providência de Deus cobrir os seus servos com escuridão tão espessa quanto esta, sob a qual as nossas almas atribuladas labutam de dia, ou antes, na noite do seu desagrado; e por isso podemos, com humildade, desejar saber por que ele conosco procede de forma tão singular; pois é de algum modo agradável ao entendimento penetrar as razões e causas das coisas. — Timothy Rogers.
Até quando te esquecerás de mim, etc. Que Deus se esqueça de Davi, que não pense nele, nem cuide dele, é coisa grave! Se os seus olhos se desviam de nós por um instante sequer, o adversário espiritual logo está pronto para nos agarrar, como o milhafre agarra o pintinho se a galinha não o vigia com cuidado...
Assim como um pai às vezes contraria o filho para provar a sua disposição, para ver como ele vai reagir, se vai resmungar e reclamar, ficar mal-humorado e teimoso, negligenciar o seu dever para com o pai porque o pai parece negligenciá-lo, ou tentar fugir e se retirar da obediência ao pai porque este parece tratá-lo com dureza e aspereza, e assim provocá-lo a isso; assim também Deus muitas vezes contraria os seus filhos e parece negligenciá-los, para provar a sua disposição, de que material são feitos, como se sentem a respeito dele: se vão negligenciar a Deus porque Deus parece negligenciá-los, deixar de servi-lo porque ele parece esquecê-los, deixar de depender dele porque ele parece não cuidar deles, nem prover para eles, nem protegê-los.
Como o profano arauto de Jorão, que disse: "Este mal vem do SENHOR; que mais tenho eu que esperar do SENHOR?" Ou se vão, ao contrário, apegar-se constantemente a ele, ainda que pareça não os considerar, nem ter nenhum cuidado deles; e dizer com Isaías: "Ainda assim esperarei em Deus, ainda que ele tenha escondido de nós o seu rosto, e olharei para ele ainda que ele não olhe para nós"; pois "bem-aventurados são os que nele esperam; e ele não deixará de, no tempo devido, mostrar misericórdia a todos os que assim constantemente nele esperam." Isaías 8:17; 30:18.
Como Samuel procedeu com Saul: manteve-se afastado até a última hora, para ver o que Saul faria quando Samuel parecesse não manter contato com ele. Assim faz Deus com os seus santos, e com os que estão em aliança com ele; ele se retira muitas vezes, e se mantém distante por longo tempo, para provar o que farão, e que rumo tomarão, quando Deus parecer romper com eles e deixá-los no aperto, como se diz; em meio a muitas dificuldades e grande perplexidade, como acontecia com Davi nesta ocasião. — Thomas Gataker, 1637.
Quanto aos abandonos: considero-os como o pousio de uma terra magra e fraca por alguns anos, enquanto ela reúne seiva para uma colheita melhor. É possível colher ouro, onde ele se encontra, até à luz do luar. Ah, se eu pudesse apenas me arrastar um palmo, ou meio palmo, mais perto de Jesus, numa noite tão sombria quanto esta em que ele está ausente, eu consideraria isso uma ausência feliz!
Se eu soubesse que o Amado apenas se ausentou para provação, e humilhação adicional, e não por ter sido expulso de casa com novas provocações, eu perdoaria os abandonos e me calaria diante da sua ausência. Mas a ausência que Cristo comprou (que eu comprei com o meu pecado) é como duas feridas abertas ao mesmo tempo, uma de cada lado; e sobre que lado, então, posso deitar-me?
Sei que, assim como a noite e as sombras são boas para as flores, e o luar e o orvalho são melhores do que um sol contínuo, também a ausência de Cristo tem uma utilidade especial, e possui em si uma certa virtude nutritiva, dá seiva à humildade, aguça a fome, e oferece à fé um campo largo para se exercitar, e para praticar os seus dedos em agarrar o que ela não vê. — Samuel Rutherford, 1600-1661.
Versículos 1–2Salmo 13:1-2
O que o provérbio francês diz da doença é verdade de todos os males: vêm a cavalo e vão embora a pé. Já vimos muitas vezes que uma queda súbita, ou um único excesso à mesa, acompanha muitos até a sepultura; enquanto os prazeres chegam como bois, lentos e pesados, e vão embora como cavalos de posta, a toda pressa. As tristezas, por serem hóspedes demorados, hei de acolher apenas com moderação, sabendo que quanto mais delas cuidarmos, mais tempo hão de ficar; e quanto aos prazeres, já que não permanecem, e apenas param à minha porta para beber, hei de tratá-los como viajantes de passagem, com pouca cerimônia. É o melhor amigo de si mesmo aquele que menos se apega a ambos. — Joseph Hall.
ATÉ QUANDO te esquecerás de mim? ATÉ QUANDO esconderás de mim o teu rosto? ATÉ QUANDO tomarei conselhos na minha alma? A intensidade da aflição a torna difícil para a nossa firmeza; mas é pela sua duração que a paciência é posta à prova. Não é sob as provações mais agudas, mas sob as mais longas, que corremos maior risco de desfalecer. No primeiro caso, a alma reúne todas as suas forças, e sente com seriedade a necessidade de invocar socorro do alto; mas, no segundo, a mente relaxa, e afunda no desânimo. Quando Jó foi atingido por más notícias em rápida sucessão, ele as suportou com firmeza digna; mas quando não conseguiu ver fim para os seus problemas, sucumbiu diante deles. — Andrew Fuller.
Versículos 1–4Salmo 13:1-4
Tudo se transforma estranhamente; toda a sua formosura, e beleza, e glória, se desvanece quando a vida se vai: a vida é a coisa agradável; é doce e reconfortante; mas a morte, com seus pálidos acompanhantes, desperta em toda parte horror e aversão. Os santos de Deus temem a retirada do seu favor, e o esconder do seu rosto; e, quando este se esconde, um desfalecimento, um frio espanto e temor se apodera de cada parte do ser, e sentem uma estranha amargura, e angústia, e tribulação, que faz tremer as suas juntas, e lhes é como as próprias dores da morte. — Timothy Rogers.
Versículos 1–5Salmo 13:1-5
- A oração ajuda no aumento e no crescimento da graça, pondo em exercício os hábitos da graça. Ora, assim como o exercício traz benefício ao corpo, também a oração o traz à alma. O exercício ajuda a digerir, ou a expelir pela respiração, aqueles humores que sufocam os espíritos. Quem se movimenta pouco, vemos, engorda e logo se sufoca de fleuma, do que o exercício claramente livra o corpo. A oração é o campo de exercício do santo, onde as suas graças respiram; é como o vento para o ar, que clareia a alma; como o fole para o fogo, que limpa o carvão daquelas cinzas que o sufocam.
O cristão, enquanto está neste mundo, vive num clima insalubre; ora as delícias do mundo entorpecem e embotam o seu amor a Cristo; ora as tribulações que nele encontra abafam a sua fé na promessa.
Como poderia o cristão livrar-se dessas enfermidades, se não tivesse um trono de graça a que recorrer, onde, uma vez que a sua alma entre em estado de derretimento, ele — como alguém posto num suor benfazejo — logo expele a malignidade da sua doença, e volta ao seu bom estado?
Quantas vezes vemos o santo profeta, ao se ajoelhar pela primeira vez para orar, cheio de medos e dúvidas, e que, antes de terminar o dever, já cresce numa doce familiaridade com Deus, e em repouso no seu próprio espírito! (Salmo 13:1) Ele começa a sua oração como se pensasse que Deus jamais voltaria a lhe lançar um olhar bondoso: Até quando te esquecerás de mim, ó SENHOR? Para sempre? Mas, já tendo se exercitado um pouco no dever, a sua enfermidade se desfaz, as névoas se dissipam, e a sua fé irrompe como o sol em toda a sua força, versos 5 e 6: Confiei na tua misericórdia; o meu coração se regozijará na tua salvação. Cantarei ao Senhor. Assim a sua fé põe a mesa, esperando que em breve se sirva um banquete: aquele que agora questionava se algum dia ouviria boas novas do céu, tem tanta força na fé que já se alegra com a esperança daquela misericórdia que tem certeza de que virá por fim. Abraão começou com cinquenta, mas a sua fé foi ganhando terreno diante de Deus a cada passo, até reduzir o preço daquelas vidas a dez. — William Gurnall.
Versículos 1–6Salmo 13:1-6
Sejam quais forem os desânimos que encontres na tua assiduidade aos meios de graça de Deus, sê como o azeviche inglês, que se acende com água, e não como os nossos fogos comuns, que ela apaga; que eles aumentem, e não diminuam, a tua resolução e coragem; que uma recusa não te derrube; sê violento, dá um segundo assalto ao reino dos céus. Os pais, às vezes, se escondem para fazer os filhos continuarem buscando.
Aquele que a princípio não quis abrir a boca, nem dignar-se de uma palavra para a mulher cananeia, ao fim, diante da sua súplica contínua e fervorosa, abre a mão e lhe concede tudo o que pede: "Ó mulher, seja-te feito como queres." A importunidade contínua é uma oratória irrefutável. E, na verdade, se depois de todo o teu esforço encontrares Jesus Cristo, isso não compensará a tua longa paciência?
Homens que arriscam muitas vezes numa loteria, mesmo tirando vinte prêmios em branco, se depois ganharem uma bacia e um jarro de ouro, sentem-se plenamente satisfeitos. Suponha que continuasses batendo à porta por vinte, ou mesmo quarenta anos; ainda assim, se por fim, nem que seja apenas uma hora antes de morreres, o teu coração se abrir a Cristo, e ele for recebido em tua alma, e ao morreres o céu se abrir para ti, e a tua alma for recebida nele, isso não te recompensará infinitamente por todo o teu labor?
Ah, pensa nisso, e resolve nunca ficar mudo enquanto Deus estiver surdo, nunca deixar a oração até que Deus dê uma resposta graciosa. E, para tua consolação, saiba que aquele que começou o seu Salmo com Até quando te esquecerás de mim, ó SENHOR? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? vem a concluí-lo com: Cantarei ao Senhor, porque me tem tratado com bondade. — George Swinnock.
Versículo 2Salmo 13:2
Até quando? Há muitas situações da vida do crente em que as palavras deste Salmo podem ser consolo, e ajudar a reanimar uma fé que desfalece. Certo homem jazia junto ao tanque de Betesda, tendo uma enfermidade havia trinta e oito anos (João 5:5). Uma mulher teve um espírito de enfermidade por dezoito anos, antes de ser "livre" dele (Lucas 13:11). Lázaro, a vida inteira, sofreu sob doença e pobreza, até ser libertado pela morte e transportado ao seio de Abraão (Lucas 16:20-22). Que todo aquele, então, que se sinta tentado a usar as queixas deste Salmo, assegure ao seu coração que Deus não se esquece do seu povo; o socorro virá por fim, e, entretanto, todas as coisas cooperarão para o bem daqueles que o amam. — W. Wilson, D.D.
Até quando tomarei conselhos na minha alma, tendo tristeza no meu coração todo dia? Há quem se detenha a remoer a própria culpa e miséria, a ponto de negligenciar as maiores misericórdias recebidas. Embora seja próprio conhecer o próprio coração, para fins de convicção, se dali esperarmos consolo, nos veremos tristemente decepcionados. Assim parece ter sido, por algum tempo, o caso de Davi. Ele parece ter estado em grande aflição; e, como é comum nesses casos, os seus pensamentos se voltaram para dentro, remoendo o que deveria fazer, e qual seria o desfecho das coisas. Enquanto assim se exercitava, tinha tristeza no coração todo dia; mas, recorrendo a Deus em busca de alívio, conseguiu: confiando na sua misericórdia, o seu coração se alegrou na sua salvação. Há muitas pessoas que, em suas aflições, imitam Davi na primeira parte dessa experiência: quisera eu que o imitássemos também na última. — Andrew Fuller.
Versículos 2–4Salmo 13:2-4
Até quando se exaltará o meu inimigo sobre mim? É grande alívio para o miserável e o aflito ser objeto da compaixão alheia. Já é algum alívio quando outros, ainda que não possam nos ajudar, parecem verdadeiramente comovidos com a tristeza do nosso caso; quando, pela bondade das suas palavras e das suas ações, aliviam um pouco as feridas que não podem curar. Mas é um acréscimo indizível à cruz quando, estando um homem abatido sob o peso do desagrado de Deus, os outros zombam da sua calamidade, ou o insultam, ou lhe falam com aspereza; isso inflama e exaspera uma ferida já grande o bastante; e é coisa dura, quando alguém tem nos ouvidos um som terrível, ver todo amigo se tornar um filho do trovão.
É coisa fácil, para quem está tranquilo, tratar com severidade os que estão aflitos; mas mal sabem eles quanto os seus discursos severos e as suas palavras iradas trespassam a própria alma do aflito. É fácil culpar os outros por se queixarem, mas se esses mesmos tivessem sentido, ainda que por pouco tempo, o que é estar sob o temor da ira de Deus, descobririam que também não poderiam deixar de se queixar. Não há como isso deixar de tornar qualquer pessoa inquieta e desassossegada, quando ela sente que Deus é seu inimigo. Não admira que faça de cada pessoa que vê, e de cada lugar em que está, testemunha da sua dor.
Mas há consolo, em nossas tentações e em nossos temores, no fato de termos um amigo tão compassivo quanto Cristo, a quem podemos recorrer. "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; mas um que foi tentado em tudo, à nossa semelhança, mas sem pecado." Hebreus 4:15. — Timothy Rogers.
Versículo 3Salmo 13:3
Alumia os meus olhos, para que eu não durma o sono da morte. Em tempo de doença e tristeza, os "olhos" ficam opacos e pesados; e ficam cada vez mais assim conforme a morte se aproxima, que os fecha na escuridão. Por outro lado, a saúde e a alegria tornam os órgãos da visão brilhantes e cintilantes, como que lhes comunicando "luz" de dentro para fora. As palavras, portanto, podem ser bem aplicadas à recuperação do corpo natural e, por extensão, do corpo político, de suas respectivas enfermidades. Nem descrevem com menor propriedade a restauração da alma a um estado de saúde espiritual e santa alegria, que se manifestará da mesma maneira, com "os olhos do entendimento iluminados"; e, neste caso, a alma é salva do sono do pecado, assim como o corpo, no outro, do sono da morte. — George Horne.
Por que escondes o teu rosto? Talvez digas: ninguém pode ver o teu rosto e viver. Ah, Senhor, deixa-me morrer, para que eu te veja; deixa-me ver-te, para que eu morra: eu não queria viver, mas morrer; para ver a Cristo, desejo a morte; para viver com Cristo, desprezo a vida. — Agostinho.
Até quando esconderás de mim o teu rosto? Ó excelente esconder, que se tornou a minha perfeição! Meu Deus, escondes o teu tesouro, para acender o meu desejo! Escondes a tua pérola, para inflamar o buscador; demoras a dar, para me ensinares a importunar; pareces não ouvir, para me fazer perseverar. — John Anselm, 1034-1109.
Versículo 4Salmo 13:4
Ah! podes suportar o desprezo; a língua envenenada
daqueles a quem a ruína apraz, o escárnio afiado,
os reprovos lascivos da corja vil;
que, pelas mesmas ações, se bem-sucedidas,
seriam pródigos em teu louvor?
Para resumir tudo em uma só coisa — podes suportar
os olhares de escárnio, a alegria maligna,
ou, mais ainda, a detestável piedade de um rival —
de um rival triunfante?
— James Thomson, 1700-1748.
E os que me atribulam se alegram quando eu vacilo — compõem comédias com as minhas tragédias. — John Trapp.
Versículo 5Salmo 13:5
Confiei na tua misericórdia; o meu coração se regozijará na tua salvação. A fé se alegra na tribulação, e triunfa antes da vitória. O doente se contenta ao sentir o remédio agir, ainda que por ora o deixe pior, porque espera que lhe traga saúde. Nós nos alegramos nas aflições, não porque sejam alegres no momento presente, mas porque hão de cooperar para o nosso bem. Assim como a fé se alegra, também triunfa na segurança do bom êxito; pois ela não vê segundo a aparência exterior, mas, quando todos os meios falham, mantém Deus à vista, e o contempla presente para o nosso socorro. — John Ball.
Confiei na tua misericórdia; o meu coração se regozijará na tua salvação. Ainda que a paixão possua os nossos corpos, que "a paciência possua as nossas almas." A lei da nossa profissão nos vincula a uma guerra; patiendo vincimus — vencemos suportando —, as nossas tribulações terão fim, a nossa vitória é eterna.
Eis aqui o triunfo de Davi (Salmo 18:38-40): "Eu os feri, de modo que não puderam levantar-se; caíram debaixo dos meus pés. Sujeitaste debaixo de mim os que se levantavam contra mim. Também me deste o pescoço dos meus inimigos," etc. Eles têm feridas por feridas; e os que pisavam o pobre são agora pisados pelo pobre. O Senhor sujeitará a nós aqueles que quiseram nos sujeitar a si mesmos; e, ainda que por pouco tempo tenham cavalgado sobre as nossas cabeças, agora, por fim, pisaremos eternamente sobre os seus pescoços.
Eis, então, a recompensa da humilde paciência e da confiante esperança. Speramus et superamus — esperamos e vencemos. Deuteronômio 32:31: "O nosso Deus não é como o deus deles, sendo os nossos próprios inimigos os juízes disso." Salmo 20:7: "Uns confiam em carros, e outros em cavalos." Mas nenhum carro tem força para resistir, nem cavalo velocidade para escapar, quando Deus persegue. Verso 8: "Eles são abatidos e caem; nós nos levantamos e estamos de pé." A confiança deles os enganou; caem, e nunca mais se levantam. O nosso Deus nos socorreu; nós nos levantamos, não por um breve respiro, mas para estar de pé para sempre. — Thomas Adams.
Ninguém vive tão facilmente, tão agradavelmente, quanto os que vivem pela fé. — Matthew Henry.
Por isso digo outra vez: "Vive pela fé"; outra vez digo: vive sempre por ela, alegra-te pela fé no Senhor. Ouso dizer com franqueza que é culpa e negligência tua, no exercício dela, se permites que o teu próprio humor melancólico, ou Satanás, interrompam a tua alegria e a tua prontidão espiritual, e te retenham em abatimento e tristeza em qualquer tempo.
E se és de constituição triste? De temperamento sombrio? Não é a fé capaz de corrigir a natureza? Não é ela mais forte que qualquer erva medicinal? Não prefere, com razão, um teólogo e médico experiente um grão dela a todas as drogas da botica, para este efeito? Não tem ela virtude soberana para desafogar todos os cuidados, expelir todos os medos e tristezas, esvaziar a mente de todos os maus pensamentos e paixões, e alegrar o homem todo?
Mas de que adianta a alguém ter um remédio à mão, se não o usa? Trazer uma espada à cinta, como soldado, e não a desembainhar no momento do ataque? Quando o abatimento te tomar, se dissesses à tua alma em uma ou duas palavras: "Alma, por que estás abatida? sabe e considera em quem crês" — não voltaria ela logo ao seu repouso? Não repreenderia o Mestre os ventos e as tempestades, e acalmaria de imediato a tua mente perturbada?
Não tem cada homem algo que costuma usar para afastar o abatimento, para expulsar o mau espírito, como Davi com a sua harpa? Uns com boa companhia, outros com um copo de vinho, a maioria com um cachimbo de tabaco, sem o qual não conseguem nem montar nem andar. Se um dia lhes falta, ficam incomodados de fluxos e torpor de espírito. Os que vivem em pântanos e ares ruins não ousam sair sem um trago matinal de alguma bebida forte. Pobres, tolos, fumacentos remédios, em comparação com o menor gosto — se não fosse desonrar a fé, eu diria: baforada — ou trago da fé. — Samuel Ward, 1577-1653.
Versículo 6Salmo 13:6
Cantarei ao Senhor, porque me tem tratado com bondade. A fé impede que a alma afunde sob provações pesadas, trazendo à memória as experiências passadas do poder, da misericórdia e da fidelidade de Deus para com a alma aflita. Foi assim que o salmista se sustentou na aflição.
Ah, diz a fé, lembra-te do que Deus tem feito tanto pelo teu homem exterior quanto pelo interior: ele não apenas livrou o teu corpo quando em apuros, mas fez grandes coisas pela tua alma; ele te tirou de um estado de natureza sombria, entrou contigo numa relação de aliança, fez passar diante de ti a sua bondade; ele te ajudou a orar, e muitas vezes ouviu as tuas orações e as tuas lágrimas. Não te tirou ele antes do poço horrível, e do lodo pegajoso, e não pôs um cântico novo na tua boca, e não te fez resolver nunca mais ceder a pensamentos e temores tão incrédulos? E quão impróprio é, agora, que te deixes afundar na aflição? — John Willison, 1680-1750.
Cantarei ao Senhor. O senhor João Philpot, tendo ficado algum tempo na carvoaria do bispo de Londres, foi chamado pelo bispo, que, entre outras perguntas, quis saber por que estavam tão alegres na prisão — cantando (como diz o profeta) Exultantes in rebus pessimis, regozijando-vos na vossa maldade, quando deveriam antes lamentar-se e entristecer-se.
O senhor Philpot respondeu: "Meu senhor, a alegria que fazemos é apenas cantar certos Salmos, como nos é ordenado por Paulo, para nos alegrarmos no Senhor, cantando juntos hinos e Salmos; pois estamos num lugar escuro e sem conforto, e por isso assim nos consolamos. Confio, portanto, que vossa senhoria não se irará, visto que o apóstolo diz: 'Se alguém está de coração reto, que cante Salmos'; e nós, para declarar que somos de mente reta para com Deus, ainda que em miséria, nos reanimamos com tal canto."
Depois de mais alguma conversa, disse ele: "Fui levado de volta à carvoaria de meu senhor, onde eu, com meus seis companheiros de prisão, nos recolhemos juntos na palha, tão alegremente (graças a Deus) quanto outros em suas camas de penas."
E, numa carta a um amigo, escreve assim: "Recomenda-me ao senhor Elsing e à sua esposa, e agradece-lhes por me proporcionarem algum alívio na prisão; e diz-lhes que, embora a carvoaria de meu senhor seja bem escura, ela é mais desejável para o fiel do que o palácio da rainha. O mundo se admira de como podemos estar tão alegres sob misérias tão extremas; mas o nosso Deus é onipotente, e transforma a miséria em felicidade. Crede-me, não há no mundo alegria como a que o povo de Deus tem sob a cruz de Cristo: falo por experiência, e por isso crede-me, e não temais nada do que o mundo possa fazer-vos, pois quando aprisionam os nossos corpos, põem as nossas almas em liberdade para conversar com Deus; quando nos derrubam, eles nos erguem; quando nos matam, nos enviam à vida eterna.
Que maior glória pode haver do que sermos feitos conformes à nossa Cabeça, Cristo? E isso se faz pela aflição. Ó bom Deus, quem sou eu, para que me concedas tão grande misericórdia? Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele. Este é o caminho, ainda que estreito, cheio da paz de Deus, e que leva à bem-aventurança eterna. Ah, como salta o meu coração de alegria por estar tão perto de senti-la! Deus me perdoe a minha ingratidão, e a minha indignidade de tão grande glória.
Tenho tanta alegria que, ainda que esteja num lugar de trevas e pranto, não consigo lamentar-me; mas de noite e de dia estou tão cheio de alegria como nunca antes estive; louvado seja o nome do Senhor para sempre. Os nossos inimigos se irritam, se enfurecem e rangem os dentes por causa disso. Ó orai sem cessar para que esta alegria jamais nos seja tirada; pois ela ultrapassa todas as delícias deste mundo. Esta é a paz de Deus que excede todo entendimento. Esta paz, quanto mais os escolhidos de Deus são afligidos, mais a sentem, e por isso não podem desfalecer nem pelo fogo nem pela água." — Samuel Clarke, Mirrour, 1671.
Cantarei ao Senhor. Quão diferente é o fim deste Salmo do seu começo! — John Trapp.
Cantarei ao Senhor, etc. Nunca soube o que era ter Deus ao meu lado em todas as voltas, e a cada investida de Satanás para me afligir, etc., como o tenho encontrado desde que vim parar aqui; pois, à medida que os temores se apresentavam, assim vinham também os apoios e os ânimos; sim, quando me sobressaltei, como que por nada além da minha própria sombra, ainda assim Deus, sendo muito terno comigo, não permitiu que eu fosse molestado, mas com uma ou outra passagem da Escritura me fortalecia contra tudo; a tal ponto que muitas vezes disse: se fosse lícito, eu poderia até orar por maior tribulação, por causa do maior consolo. Eclesiastes 7:14; 2 Coríntios 1:5. — John Bunyan, 1628-1688.