Notas explicativas e citações: Salmo 100
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 100, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 100 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Este é o único salmo, em toda a coleção, intitulado "Um Salmo de Louvor." Supõe-se que tenha recebido essa denominação por ser peculiarmente adequado — se não planejado — para ser cantado quando se ofereciam os sacrifícios de ação de graças. Veja Levítico 7:12. Os gregos pensam que foi escrito por Davi, que aqui convida todo o mundo a unir-se aos israelitas no culto a Deus, cuja soberania divina ele aqui reconhece. — Samuel Burder.
SALMO INTEIRO. Se estivermos certos ao considerar os Salmos 93 a 99 como formando uma única série contínua, um grande oratório profético cujo título é "Jeová é Rei", e pelo qual perpassa a mesma grande ideia, este salmo pode ser visto como a doxologia que encerra o movimento. Encontramos nele ecos remanescentes da mesma grande harmonia. Ele respira a mesma alegria; está repleto da mesma esperança, de que todas as nações se curvarão diante de Jeová e confessarão que ele é Deus. — J. J. S. Perowne.
SALMO INTEIRO. Este salmo contém uma promessa do cristianismo, assim como o inverno, em seu fim, contém a promessa da primavera. As árvores estão prontas para brotar, as flores apenas escondidas sob a leve camada de terra, as nuvens carregadas de chuva, o sol brilha em sua força; falta apenas um vento ameno do sul para dar nova vida a todas as coisas. — The Speaker's Commentary, 1873.
SALMO INTEIRO. Lutero teria imortalizado o seu nome ainda que não tivesse feito mais nada além de compor a melodia majestosa e a harmonia com que costumamos cantar este salmo, e que, quando a mente está em verdadeiro espírito de adoração, parece trazer o céu à terra e elevar a terra ao céu, dando-nos antecipações das puras e sublimes delícias daquela nobre e universal assembleia em que santos e anjos celebrarão para sempre os louvores de Deus. — Ingram Cobbin.
Versículo 2Salmo 100:2
A primeira metade deste versículo vem do Salmo 2:11, com a diferença de que ali, onde o salmista trata de rebeldes ferozes, se lê "com temor", e aqui se substitui por "alegria" ou júbilo. — F. W. Hengstenberg.
Servi ao SENHOR com alegria. É sinal de que o óleo da graça foi derramado no coração quando "o óleo da alegria" brilha no semblante. O bom humor credencia a religião. — Thomas Watson.
Servi ao SENHOR. É nosso privilégio servir ao Senhor em todas as coisas. Cabe-nos agradar ao Senhor até no desatar a correia de uma sandália, e alegrar-nos com a expressão do seu favor nisso. O servo de Deus não está, ao mesmo tempo, a serviço de outro senhor; não foi contratado para um serviço ocasional; permanece no serviço do seu Deus, e não pode ocupar-se de outra coisa senão dos negócios do seu Senhor; ele come, bebe, dorme, caminha, conversa, encontra recreação — tudo isso a serviço de Deus.
Servi ao Senhor com alegria. Suportaríeis ser servidos por um criado que vai, resmungão e abatido, a cada uma de suas tarefas? Preferiríeis não ter criado algum a ter um que evidentemente acha o vosso serviço enfadonho e desagradável. — George Bowen.
Versículo 3Salmo 100:3
Sabei que o SENHOR, ele é Deus etc. A partir das razões desta exortação, aprenda-se que tal é o nosso ateísmo natural, que precisamos ser instruídos repetidas vezes de que o Senhor é Deus; dele, por ele, e para ele são todas as coisas. — David Dickson.
Ele é quem nos fez... somos seus. Ora, o fundamento da propriedade de Deus sobre todas as coisas é o fato de tê-las criado todas. Por isso, podeis observar, em muitas passagens onde se afirma essa propriedade do Senhor, que este é o fundamento a ela anexado: Salmo 89:11-12, os céus, a terra, o mundo inteiro e tudo o que neles há são teus. Por quê? "Tu os fundaste." E assim são todas as regiões e confins do mundo, norte e sul, oeste e leste; pois Tabor ficava a oeste e Hermom a leste; todos são teus, porque tu os criaste. Assim também o mar e a terra, Salmo 95:5. E, como todas as coisas são medidas pelo tempo, também o próprio tempo, medida de todas as coisas, Salmo 74:16-17. "Tu fizeste a luz", isto é, a lua para a noite e o sol para o dia. Ele reivindica para si todos os climas da terra e todas as estações do ano por essa razão: ele os fez. Isso ficará ainda mais evidente e inquestionável se atentarmos para os seguintes pontos:
Ele fez tudo para si mesmo. Não foi contratado por ninguém para fazê-lo em nome de outro — pois, nesse caso, às vezes quem faz não é o dono; mas o Senhor empregou-se a si mesmo nessa grande obra, e para si mesmo a empreendeu e a concluiu. Provérbios 16:4; Colossenses 1:15-16.
Ele fez todas as coisas do nada, seja sem matéria alguma, seja apenas com a que ele mesmo havia antes feito do nada. Um oleiro, quando faz um vaso de barro, se o barro com que o faz não é seu, não é o dono pleno do vaso, embora o tenha moldado: "a forma é dele, a matéria é de outro"; mas, como o Senhor fez tudo do nada, ou de matéria que ele mesmo havia feito, tudo é inteiramente dele, matéria e forma, tudo por completo.
Ele fez tudo sem a ajuda ou a colaboração de qualquer outro. Não houve quem o auxiliasse, nem quem cooperasse minimamente com ele na obra da criação... Aqueles que auxiliam e colaboram com outro na feitura de algo podem reivindicar parte nisso; mas aqui não cabe tal reivindicação, pois foi o Senhor sozinho quem fez tudo, sozinho quem tudo criou. Tudo é somente dele.
Ele sustenta todas as coisas do mesmo modo como as criou; continua o ser de todas as coisas do mesmo modo como o deu. Ele o faz por si mesmo, sem outro sustento, sem qualquer auxiliar. Tudo desabaria em nada num só instante, se ele não o sustentasse a cada instante. De modo que todas as coisas, por essa razão, têm a cada momento o seu ser dele, e também o seu bem-estar, e todos os meios que a isso conduzem; e por isso tudo é propriedade sua. — David Clarkson.
Ele é quem nos fez. O imperador Henrique, estando à caça num domingo chamado Quinquagésima, e tendo seus companheiros se dispersado, chegou sozinho à entrada de certo bosque; e, vendo uma igreja próxima, dirigiu-se a ela e, fingindo-se soldado, pediu simplesmente ao sacerdote que celebrasse uma missa. Ora, aquele sacerdote era homem de notável piedade, mas de aspecto tão disforme que parecia antes um monstro do que um homem. Ao observá-lo com atenção, o imperador começou a espantar-se profundamente de que Deus, de quem procede toda beleza, permitisse que um homem tão disforme administrasse os seus sacramentos.
Mas logo, quando a missa começou, e chegaram à passagem "Sabei que o Senhor, ele é Deus", que era entoada por um menino, o sacerdote repreendeu o menino por cantar com descuido, e disse em voz alta: "Ele é quem nos fez, e não nós a nós mesmos." Tocado por essas palavras, e crendo que o sacerdote fosse um profeta, o imperador o elevou, muito contra a sua vontade, ao arcebispado de Colônia, sé que ele viria a honrar com sua devoção e excelentes virtudes. De Flowers of History, de Roger de Wendover (1237).
Ele é quem nos fez... somos seus. Muitos já colheram bálsamo de consolo nestas palavras; como, por exemplo, Melâncton, desconsoladamente pesaroso diante do corpo de seu filho em Dresden, em 12 de julho de 1559. Mas em "Ele nos fez, e somos seus" há também uma rica mina de consolo e de admoestação, pois o Criador é também o Dono; o seu coração se apega à sua criatura, e a criatura deve tudo inteiramente a ele, sem o qual não teria vindo a existir, nem continuaria existindo. — F. Delitzsch.
Aquele que nos fez, isto é, nos fez o que somos, um povo para si mesmo; como em Salmo 95:5, 1 Samuel 12:6, e Deuteronômio 32:6. Não fomos nós que nos fizemos seus (compare com Ezequiel 29:3). "Ele (e não nós mesmos) nos fez seu povo, e o rebanho que ele apascenta." — Andrew A. Bonar.
"Não nós" é acrescentado, porque qualquer participação, da parte da igreja, na realização da salvação a ela concedida, enfraqueceria o testemunho que isso presta à exclusiva divindade do Senhor. — F. W. Hengstenberg.
Versículos 3–5Salmo 100:3-5
Convém saber o que Deus é em si mesmo, e o que ele é para nós. O conhecimento é a mãe da devoção e de toda obediência; sacrifícios cegos jamais agradarão a um Deus que tudo vê. Saber isso — ou seja, considerá-lo e aplicá-lo — torna a adoração mais atenta e constante, mais íntima e séria. Consideremos, pois, estas sete coisas a respeito do Senhor Jeová, com quem lidamos em todos os atos do culto religioso.
Que o Senhor é Deus, o único Deus vivo e verdadeiro; que ele é um ser infinitamente perfeito, autoexistente e autossuficiente, e a fonte de todo ser.
Que ele é o nosso Criador: foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos. Não nos fizemos, nem poderíamos ter nos feito; é prerrogativa de Deus ser sua própria causa; o nosso ser é derivado e dependente.
Que, por isso, ele é o nosso legítimo dono. Os massoretas, alterando uma letra no hebraico, leem: "Ele nos fez, e dele somos", ou "a ele pertencemos." Juntando as duas leituras, aprendemos que, porque Deus "nos fez, e não nós a nós mesmos", por isso não somos nossos, mas dele.
Que ele é o nosso soberano Governante. Somos o seu povo, ou súditos, e ele é o nosso príncipe, o nosso regente ou governador, que nos dá leis como agentes morais, e nos pedirá contas do que fazemos.
Que ele é o nosso generoso Benfeitor; não somos apenas as suas ovelhas, às quais ele tem direito, mas as ovelhas do seu pasto, das quais ele cuida.
Que ele é um Deus de misericórdia e bondade infinitas (Salmo 100:5); o Senhor é bom, e por isso faz o bem; a sua misericórdia é eterna.
Que ele é um Deus de verdade e fidelidade inviolável; a sua verdade permanece por todas as gerações, e nenhuma palavra sua cairá por terra como ultrapassada ou revogada. — Matthew Henry.
Versículo 4Salmo 100:4
Entrai pelas suas portas; pois até para os mais culpados as portas da sua igreja estão abertas. — Francis Hill Tucker.
Sobre a palavra todah [a palavra usada em Levítico 7:12 para os sacrifícios de ação de graças], o Rabino Menachen observa: todos os sacrifícios serão abolidos; mas o sacrifício de ação de graças permanecerá. — George Phillips.
A primeira parte deste salmo pode ter sido entoada pelo precentor quando a oferta de paz era trazida ao altar; e este último versículo pode ter sido a resposta, cantada por todo o coro, no momento em que o fogo era aplicado à oferta. — Daniel Cresswell.
Versículo 5Salmo 100:5
A sua misericórdia é eterna. A misericórdia eterna e imutável de Deus é o primeiro motivo da nossa conversão a ele, e da nossa perseverança firme em sua aliança, e será o assunto do louvor incessante na eternidade. Assim como o Senhor é bom, e a sua misericórdia é eterna, também a plena perfeição desses atributos, num estado perfeito, suscitará louvor incansável de corações que jamais desfalecem. — W. Wilson.