Notas explicativas e citações: Salmo 116
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 116, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 116 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Salmo inteiro. Um salmo de ação de graças na pessoa de Cristo. O profeta o imagina tendo atravessado as tristezas e aflições da vida. A expiação já se cumpriu. Ele ressuscitou dos mortos. Está à destra da Majestade nas alturas; e proclama ao mundo inteiro as misericórdias que experimentou de Deus no dia de sua encarnação, e as glórias que recebeu no reino de seu Pai Celestial.
Contudo, ainda que o salmo possua essa força, e, por sua própria evidência interna, comprove a solidez dessa interpretação, ele é ainda assim altamente místico em seu modo de revelação, e exige meditação cuidadosa para trazer à tona seus verdadeiros resultados. Sua linguagem, também, não é tão exclusivamente própria do Messias a ponto de não poder ser repetida e aplicada pelo crente às suas próprias provações no mundo; de modo que, embora haja muito que encontra pronto paralelo na exaltação de Cristo no céu, há também muito que parece restrito à sua condição na terra. Depende, pois, em grande parte da mente de cada um, se receberá o salmo no sentido mais elevado da glória do Redentor, ou o restringirá apenas a uma ação de graças por bênçãos em meio àquelas aflições da vida às quais todos os homens estão sujeitos do mesmo modo, embora não na mesma medida que Jesus. A leitura mais perfeita e mais proveitosa combinaria as duas, tomando Cristo como o exemplar das misericórdias de Deus para conosco.
(Salmo 116:1) Entronizado na eternidade, e triunfante sobre o pecado e a morte — eu, Cristo — me comprazo em que meu Pai Celestial tenha ouvido as orações ansiosas que lhe fiz no dia das minhas tristezas, quando eu não tinha força na própria mente, nem auxílio dos homens; portanto, "por meus dias" — pelas eras sem fim de minha existência eterna — o invocarei em gratidão, e o louvarei de todo o coração.
(Salmo 116:3) Nos tempos tumultuados de minha encarnação, fui cercado de armadilhas e impelido rumo à minha morte. O sacerdote e o governante; o fariseu e o escriba; o rico e o pobre, todos clamavam ferozmente pela minha destruição. A nação inteira conspirou contra mim. "Os laços da sepultura" se apoderaram de mim, e fui apressado para a cruz.
(Salmo 116:4) Então, verdadeiramente, Cristo encontrou pesar e aflição. "Sua alma estava profundamente triste, até a morte." Ele orou ansiosamente ao seu Pai Celestial, para que "o cálice passasse dele." O destino do mundo inteiro estava na balança, e ele suplicou com agonia, para que sua alma fosse livrada.
(Salmo 116:5) A ruptura abrupta, neste versículo, com a narrativa direta de suas próprias tristezas, é maravilhosamente grandiosa e bela. Não menos assim é a expressão "nosso Deus", aplicada por Cristo a seus próprios discípulos e crentes. "Invoquei", diz ele, "o nome do Senhor." Mas ele ainda não declara a resposta. Deixa que ela seja inferida da certeza de que Deus é sempre gracioso para com os fiéis; sim, "nosso Deus" — o protetor da igreja cristã, assim como de mim mesmo — "nosso Deus é misericordioso."
(Salmo 116:6) Instantaneamente, porém, ele retoma. Note a energia da linguagem: Fui afligido, e ele me livrou. E como livrado? A alma de Cristo retornou livremente à sua tranquilidade; pois, embora o corpo e a estrutura tenham perecido na cruz, a alma rompeu os laços da morte. De novo, na plena estatura de homem perfeito, Cristo ressurgiu resplandecente em glória para as moradas da eternidade.
As lágrimas cessaram: as tristezas se calaram; e daí em diante, através do dia sem limites da imortalidade, ele "anda diante de Jeová, na terra dos viventes." Esta última é uma daquelas expressões no salmo que, sem reflexão, poderiam parecer mais adequadas ao estado do crente resgatado na terra do que ao de Cristo no céu. Mas, aplicando a linguagem das coisas terrenas às celestiais — o que é usual, mesmo nos escritos mais místicos da Escritura — nada pode ser mais belo do que a denominação "a terra dos viventes", quando atribuída à morada futura da alma. É a mais nobre aplicação da metáfora, e é singularmente própria àquelas moradas eternas onde morte e tristeza são igualmente desconhecidas.
- (Salmo 116:10) Esta estrofe admite uma emenda.
Senti confiança, ainda que dissesse:
"Estou gravemente afligido."
Disse em meu terror repentino:—
"Toda a humanidade é falsa." French.
Isso alude à véspera de sua crucificação, quando, esgotado pela longa vigília e pelo jejum, seu espírito quase desfaleceu na agonia do Getsêmani. Ainda assim, oprimido e ferido na alma como estava, ele confiava em Jeová, pois se sentia seguro de que este não o abandonaria. Mas, sustentado por Deus, foi desertado pelos homens — os discípulos com quem convivera; as multidões a quem ensinara; os aflitos a quem curara: "todos o abandonaram e fugiram." Nem um só — nem mesmo o "discípulo a quem ele amava" — permaneceu; e na angústia daquele abandono, ele não pôde deixar de ter o pensamento amargo de que toda a humanidade era igualmente falsa e traiçoeira.
- (Salmo 116:12) Mas aquela hora temida passou. Ele ressuscitou dos mortos, e está de pé, cingido de verdade, santidade e glória. Qual é, então, seu primeiro pensamento? Ouve-o, ó homem, e enrubesce por tua frequente ingratidão! Levantarei "o cálice da libertação" — a oferta de libação feita a Deus com sacrifício após qualquer misericórdia notável recebida — e abençoarei o Senhor que assim foi gracioso comigo. À vista do mundo inteiro pagarei meus votos passados a Jeová, e trarei nações de todas as partes da terra, reconciliadas e santas pelo sangue da minha expiação.
A linguagem destes versículos, como na parte final do salmo, é inteiramente tirada de objetos terrenos e formas de culto religioso bem conhecidas dos judeus. É nessas coisas que se exige separar o sentido espiritual do emblema externo. Por exemplo, o cálice sacramental foi, sem dúvida, extraído e instituído a partir do cálice usado em comemoração de libertações pelos judeus. É usado figuradamente por Cristo no céu; mas a mente reflexiva dificilmente deixará de ver a beleza de imaginá-lo em sua mão, em gratidão pelo seu triunfo, porque "ele rompeu os seus laços": os laços que o prenderam firme na morte, e o confinaram ao túmulo.
A afirmação de que "preciosa é aos olhos de Jeová a morte dos seus santos" inclui especialmente o sacrifício de Cristo dentro de sua alusão mais geral ao sangue derramado, em tamanha abundância, por profetas e mártires da verdade. Do mesmo modo, o culto a Jeová nos átrios de seu templo em Jerusalém é usado em figura para a divulgação aberta do cristianismo ao mundo inteiro. Os serviços do templo eram os mais solenes e mais públicos que os judeus ofereciam; e quando se diz que Cristo "oferece seus sacrifícios de ação de graças" a Deus à vista de todo o seu povo, a figura se separa facilmente do elemento mais grosseiro; e a conversão de todos os povos fica insinuada sob a forma de Cristo visto por todos. William Hill Tucker.
Versículo 1Salmo 116:1
Amo. A expressão da afeição do profeta está nesta frase curta e abrupta, "amo", que no original é uma única palavra, expressa como sentença plena e completa em si mesma, assim: amo, porque o Senhor ouviu etc. A maioria dos tradutores a verte assim, como se, por transposição, ou passagem de uma palavra de uma oração para outra, este título "Senhor" devesse se unir à primeira cláusula, assim — (hwhy emvy yk ytbha) [sic] — "amo o Senhor, porque ele ouviu", etc.
Não nego que assim o sentido se torna algo mais claro, e as palavras correm de modo mais redondo; mas não são de todo tão enfáticas. Pois quando o coração de um homem está inflamado, e sua alma tomada por uma funda percepção de algum favor grande e extraordinário, sua afeição causará interrupção na expressão disso, e fará pausas em sua fala; e por isso esta cláusula concisa e abrupta, "amo", declara uma afeição mais completa e ardente do que uma frase mais plena e redonda o faria. Grande é a força do amor verdadeiro, de modo que não pode ser suficientemente expresso. William Gouge, 1575-1653.
Amo o Senhor. Quem dera houvesse em nós corações tais que cada um pudesse dizer, como Davi, com o espírito de Davi, sobre a própria evidência: "amo o Senhor"; isso valeria mais do que tudo isto, a saber: primeiro, conhecer todos os segredos; segundo, profetizar; terceiro, mover montanhas etc., 1 Coríntios 13:1-2, etc. "Amo o Senhor" é mais do que "conheço o Senhor", pois até os réprobos são iluminados (Hebreus 6:4); mais do que "temo o Senhor", pois os demônios o temem até tremer (Tiago 2:19); mais do que "oro a Deus" (Isaías 1:15). Que mais direi? Mais do que todos os serviços, do que todas as virtudes apartadas da caridade: verdadeiramente dizem as escolas que a caridade é a forma de todas as virtudes, porque as forma todas para a aceitação, pois nada é aceito senão o que provém da caridade, ou, em outras palavras, do amor de Deus. William Slater, 1638.
Amo o Senhor, porque, etc. Quão vã e tola é a fala: "amar a Deus por seus benefícios para conosco é interesseiro, e não pode ser amor puro!" Puro ou impuro, não há outro amor que possa fluir do coração da criatura para o seu Criador. "Nós o amamos", disse o mais santo dos discípulos de Cristo, "porque ele nos amou primeiro"; e o aumento de nosso amor e obediência filial é proporcional ao aumento da percepção que temos de nossa obrigação para com ele. Nós o amamos pelos benefícios que nos concede. O amor gera amor. Adam Clarke.
Ele ouviu a minha voz. Mas será este um benefício para nós, que Deus nos ouça? Será seu ouvir nossa voz um argumento tal de seu amor? Ai! Ele pode nos ouvir, e nós não estarmos em nada melhor por isso: ele pode ouvir nossa voz, e ainda assim seu amor por nós pode ser bem pouco, pois quem não dará ouvidos a um homem, mesmo sem amá-lo em nada? Com os homens talvez possa ser assim, mas não com Deus; pois seu ouvir não é apenas voluntário, mas reservado; non omnibus dormit — não dorme para todos: seus ouvidos não estão abertos ao clamor de qualquer um; de fato, ouvir-nos é, da parte de Deus, favor tão grande, que bem pode ser considerado seu predileto aquele a quem ele se digna ouvir; e mais ainda, porque seu ouvir é sempre operativo, e com propósito de ajudar; de modo que, se ele ouve minha voz, posso estar certo de que pretende conceder minha súplica; ou antes, talvez, no modo de expressão de Davi, e no modo de proceder de Deus, ouvir minha voz não é, em efeito, menos do que conceder minha súplica. Sir Richard Baker.
Ouviu. Ao ouvir a oração, Deus dá evidência da atenção que dedica ao nosso estado, do respeito que tem por nossa pessoa, da compaixão que tem de nossas misérias, de seu propósito de suprir nossas carências, e de sua disposição de nos fazer bem segundo nossas necessidades. William Gouge.
Versículos 1–2Salmo 116:1-2
O primeiro emvy [sic] é mais um aoristo. O Senhor ouve sempre; e então, fazendo uma distinção, ygwa hjh [sic]. Ele o tem feito até aqui: adqa [sic] — Portanto o invocarei enquanto eu viver, apegando-me a ele em amor e fé! Deve-se notar, além disso, que adq [sic] aqui não é simplesmente a oração por socorro, mas inclui também o louvor e a ação de graças, segundo a dupla significação de hwhy Mvk arq [sic], em Salmo 116:4,13,17; por isso Jarchi diz muito bem: no tempo de minha angústia o invocarei, e no tempo de minha libertação o louvarei. Rudolph Stier.
Amo. Portanto o invocarei. É o amor que abre nossa boca, para que louvemos a Deus com lábios alegres: "amarei o Senhor porque ele ouviu a voz das minhas súplicas"; e então, Salmo 116:2, "o invocarei enquanto eu viver." O propósito próprio das misericórdias é atrair-nos a Deus. Quando o coração está cheio da percepção da bondade do Senhor, a língua não consegue calar-se. O amor-próprio pode nos levar às orações, mas o amor a Deus nos incita aos louvores: por isso, buscar e não louvar é ser amante de si mesmo, mais do que de Deus. Thomas Manton.
Versículos 1–12Salmo 116:1-12
Amo. Que darei eu? Amor e gratidão são como as qualidades simbólicas dos elementos, facilmente convertidas uma na outra. Davi começa dizendo: "amo o Senhor, porque ele ouviu a minha voz"; e para acender essa graça numa chama maior, ele registra as misericórdias de Deus em alguns versículos seguintes; feito isso, então ele está no ânimo certo para o louvor, e clama: "que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios?"
A esposa, quando plenamente desperta, refletindo consigo mesma sobre que amigo estivera à sua porta, e como sua doce companhia se perdera por sua indelicadeza, sacode sua indolência, levanta-se, e sai atrás dele; agora, ao correr atrás de seu amado, tendo posto sua alma num calor de amor, ela irrompe em louvores a ele da cabeça aos pés. Cântico dos Cânticos 5:10. Esse é o louvor aceitável, o que vem de um coração aquecido; e o santo precisa usar algum exercício santo para atiçar seu hábito de amor, que, como o calor natural no corpo, se preserva e aumenta pelo movimento. William Gurnall.
Versículo 2Salmo 116:2
Ele inclinou o seu ouvido para mim. Quão grande bênção é a inclinação do ouvido divino pode ser julgado pela conduta dos grandes homens, que não admitem à audiência um suplicante infeliz; ou, se fazem algo, recebem a parte principal da queixa por meio do oficial designado para tais assuntos, ou por meio de um servo. Mas o próprio Deus ouve imediatamente, e inclina o ouvido, ouvindo prontamente, graciosamente, constantemente, etc. Quem não oraria? Wolfgang Musculus.
E agora, porque ele inclinou o seu ouvido para mim, invocá-lo-ei enquanto eu viver: de modo que, se se esperar que eu invoque a outro qualquer, isso só há de ser quando eu estiver morto; pois enquanto eu viver, fiz voto de invocar a Deus. Mas será isso bem feito? Não farei, ao fazê-lo, mais do que terei agradecimento? Será esta a retribuição que Deus terá por sua bondade em me ouvir, que agora ele terá em mim um freguês, e jamais terá sossego por causa da minha contínua corrida a ele, e do meu invocá-lo? Ganha Deus algo com meu invocá-lo, para que eu faça disso um voto, como se, ao invocá-lo, eu lhe fizesse um favor?
Ó minha alma, gostaria que Deus de fato tivesse em mim um freguês na oração; ainda que confesse que não deveria ser tão ousado a ponto de o invocar tão continuamente, se sua própria ordem não fizesse disso um dever; pois não me ordenou Deus invocá-lo quando estou em aflição? E há algum momento em que eu não esteja em aflição, enquanto viver neste vale de misérias? E pode então haver algum momento, enquanto eu viver, em que eu não deva invocá-lo? Pois Deus há de me ordenar, e não hei de fazê-lo? Deus há de inclinar seu ouvido, e ficar atento a ouvir, e hei de eu guardar silêncio para que ele não tenha nada a ouvir? Sir Richard Baker.
Portanto o invocarei. Se o hipócrita prospera na oração, e obtém o que pede, então também ele abandona a oração, e não pedirá mais. Se de um leito de doença é levantado à saúde, deixa a oração para trás, por assim dizer, doente na cama; enfraquece em invocar a Deus, quando, ao seu chamado, Deus lhe deu força. E assim é em outros casos. Quando obtém o que desejava na oração, não tem mais vontade de orar.
Ao passo que o homem piedoso ora depois de ter prosperado, tal como orava antes, e, ainda que não caia de novo naquelas aflições, e assim não tenha ocasião de renovar as súplicas que fez em aflição, ainda assim não pode viver sem oração, porque não pode viver fora da comunhão com Deus. A criatura é como a clara de um ovo, insípida para ele, a menos que desfrute de Deus. Davi diz: "amo o Senhor, porque ele ouviu a minha voz e as minhas súplicas"; isto é, porque me concedeu aquilo que lhe supliquei. Mas será que essa concessão do que ele pedira o afastou de pedir mais? As palavras seguintes nos mostram qual foi sua resolução diante dessa concessão. "Porque ele inclinou o seu ouvido para mim, portanto o invocarei enquanto eu viver"; como se dissesse: nunca deixarei de orar, visto que fui ouvido na oração. Joseph Caryl.
Enquanto eu viver. Não em alguns poucos dias, mas em todos os dias de minha vida; pois orar em certos dias, e não em todos, é a marca de quem detesta, e não de quem ama. Ambrósio.
Versículo 3Salmo 116:3
Aqui começa a exemplificação da bondade de Deus para com seu servo; o primeiro ramo dela é uma descrição do perigo em que ele estava e do qual foi livrado. Ora, para engrandecer ainda mais a bondade de Deus em livrá-lo dele, o salmista a expõe com muita variedade de palavras e frases.
A primeira palavra, ylbx, "laços", é diversamente traduzida. Alguns a expõem como armadilhas, outros como cordas, outros como tristezas. A razão dessa diferença é que a própria palavra é metafórica. É tomada de credores cruéis, que sempre amarram bem seus devedores, como que com cordas, de modo que não consigam se soltar facilmente e ficar livres de novo. O penhor que o devedor deixa com seu credor como garantia tem este nome em hebraico; assim também uma corda com que coisas são bem amarradas; e o mastro de um navio fixado com firmeza, e amarrado de todos os lados com cordas; e bandos ou tropas de homens combinados juntos; e a dor de uma mulher em trabalho de parto, que é muito grande; e destruição com dor e angústia. Vemos assim que aqui se usa uma palavra que expõe um caso muito lamentável e inextricável.
A palavra seguinte, "da morte", twm, mostra que seu caso era mortal; a morte estava diante de seus olhos; a morte era como que ameaçada. Diz-se que ele foi "cercado" com isso em dois aspectos: (1) Para mostrar que essas tristezas não estavam longe, mas bem sobre ele, como águas que cercam um homem quando ele está no meio delas, ou como inimigos que sitiam um lugar. (2) Para mostrar que não eram poucas, mas muitas tristezas, como abelhas que se enxameiam juntas.
A palavra traduzida "angústias", yrum, no original é usada para sacos bem amarrados juntos, e pedras de sílex, e inimigos ferozes, e apertos difíceis; de modo que essa palavra também agrava sua miséria.
A palavra traduzida "inferno", lwav, é geralmente tomada no Antigo Testamento pela sepultura; deriva-se de lav, verbo que significa exigir, porque a sepultura sempre exige, e nunca se satisfaz.
A palavra traduzida "se apoderaram de mim", ygwaum, e "encontrei", auma, são ambas o mesmo verbo; diferem apenas em circunstâncias de tempo, número e pessoa. A primeira mostra que essas misérias o encontraram, e como um oficial de justiça se apoderaram dele; ele não as buscou, ele teria, de bom grado e com toda a vontade, escapado delas, se pudesse. A segunda mostra que ele de fato as encontrou; sentiu a acidez e a amargura, o ardor e a dor delas.
A palavra traduzida "aflição", hru de dwu, tem estreita afinidade com a palavra anterior traduzida "angústia", dum de dwu, e é usada para expor miséria tão grande quanto aquela; e para agravar ainda mais isso, outra palavra é acrescentada, "tristeza".
A última palavra, "tristeza", Nwgy de hgy, denota o tipo de calamidade que faz aqueles que jazem sob ela sofrerem muito, e também move outros que a contemplam a ter grande piedade deles. É frequentemente usada nas Lamentações de Jeremias. Qualquer uma dessas duas últimas palavras, aflição e tristeza, já declara um estado bem perplexo e angustiado; que dizer então das duas juntas? Pois o Espírito Santo não multiplica palavras em vão. William Gouge.
Se apoderaram de mim. A palavra original é "encontraram-me", como colocamos na margem. Elas o encontraram, como um oficial ou meirinho encontra uma pessoa que foi enviado para prender; que, assim que a encontra, logo a agarra, ou a coloca sob custódia. Quando se emitem mandados para prender um homem que se esconde, a resposta é Non est inventus, o homem não foi encontrado, não pode ser localizado, ou agarrado. As dores de Davi rapidamente o encontraram, e, tendo-o encontrado, se apoderaram dele.
Tal encontro é seguido tão certa e subitamente pelo agarrar, e pelo manter aquilo que se agarrou, que uma única palavra em hebraico serve para expressar os dois atos. Quando Deus envia aflições e tribulações como oficiais para atacar algum homem, elas o encontrarão, e, ao encontrá-lo, se apoderarão dele. Os dias de aflição se apoderarão; não há como lutar, não há como se debater com eles, não há como escapar de suas mãos. Esses mensageiros divinos não se deixarão persuadir nem subornar a soltar-te, até que Deus fale a palavra, até que Deus diga: solta-o, liberta-o.
Encontrei aflição e tristeza. Encontrei aflição que eu não buscava. Eu não estava à procura de tristeza, mas a encontrei. Há uma elegância no original. O hebraico é: "as angústias do inferno me encontraram." Elas me encontraram, eu não as encontrei; mas assim que as angústias do inferno me encontraram, encontrei aflição e tristeza, bastante, e cedo demais. Joseph Caryl.
Veja como os santos, em vez de diminuir os perigos e tribulações com que são exercitados por Deus, os engrandecem em linguagem figurada; tampouco ocultam sua angústia de alma, mas a expõem clara e voluntariamente. Bem diferente é a mente daqueles que consideram a própria glória, e não a glória de Deus. Os santos, para tornar mais ilustre a glória do socorro de Deus, declaram a seu próprio respeito coisas que pouco contribuem para sua própria glória. Wolfgang Musculus.
Versículos 3–7Salmo 116:3-7
Geralmente têm mais do céu na terra aqueles que anteriormente encontraram mais do inferno na terra. Os laços da morte me cercaram, e as angústias do inferno se apoderaram de mim: encontrei aflição e tristeza (como Jonas clamando do ventre do inferno). Mas olhe para ele, duas ou três estrofes depois, e podeis vê-lo em êxtase, como se estivesse no céu; Salmo 116:7: "Volta, ó minha alma, para o teu repouso; porque o Senhor te fez muito bem." Matthew Lawrence.
Versículo 4Salmo 116:4
O nome do Senhor. O nome de Deus, tal como é exposto na palavra, é ao mesmo tempo um nome glorioso, cheio de majestade, e um nome gracioso, cheio de misericórdia. Sua majestade produz temor e reverência; sua misericórdia, fé e confiança. Por essas graças, o coração do homem é mantido dentro de tal medida, que não presumirá além do que é conveniente, nem se desesperará além do que há motivo.
Mas onde o nome de Deus não é retamente conhecido, não há como evitar que aqueles que se apresentam diante dele acabem por se lançar contra a rocha da presunção, ou afundar no abismo do desespero. É, portanto, necessário que Deus seja conhecido por aqueles que a ele oram, para que em verdade possam dizer: "invocamos o nome do Senhor." Deixai-vos persuadir por isso a oferecer vosso sacrifício espiritual de súplica a Deus, de modo que ele atente para vossa pessoa e vossas orações, como atentou para Abel e sua oferta. Aprendei a conhecer o nome de Deus, tal como em sua palavra se dá a conhecer; e então, especialmente quando dele vos aproximardes, meditai em seu nome. Certamente Deus dará boa atenção àqueles que dele bem se lembram, e abrirá seus ouvidos, por nome, àqueles que retamente invocam seu nome. William Gouge.
Ó Senhor, rogo-te, livra a minha alma. Uma oração curta para uma súplica tão grande, e no entanto, por curta que fosse, ela prevaleceu. Se antes nos maravilhamos com o poder de Deus, agora podemos nos maravilhar com o poder da oração, que pode prevalecer junto a Deus para obter aquilo que, na natureza, é impossível, e à razão é incrível. Sir Richard Baker.
Aprendemos aqui que não há nada melhor nem mais eficaz em agonias angustiantes do que a oração assídua — então invoquei o nome do Senhor —; mas em tais orações o primeiro cuidado deve ser pela salvação da alma — "rogo-te, livra a minha alma" —; pois, feito isso, Deus também remove ou mitiga a enfermidade do corpo. Solomon Gesner.
Versículo 5Salmo 116:5
Piedoso é o Senhor, etc. Ele é gracioso em ouvir, é "justo" em julgar, é "misericordioso" em perdoar; como, então, posso duvidar de sua vontade de me ajudar? Ele é justo para recompensar segundo os méritos; é gracioso para recompensar acima dos méritos; sim, é misericordioso para recompensar sem méritos algum; como, então, posso duvidar de sua vontade de me ajudar? Ele é gracioso, e isso mostra sua generosidade; é justo, e isso mostra sua justiça; sim, é misericordioso, e isso mostra seu amor; como, então, posso duvidar de sua vontade de me ajudar? Se ele não fosse gracioso, eu não poderia esperar que me ouvisse; se não fosse justo, eu não poderia confiar em sua promessa; se não fosse misericordioso, eu não poderia esperar seu perdão; mas agora que ele é gracioso, e justo, e também misericordioso, como posso duvidar de sua vontade de me ajudar? Sir Richard Baker.
O primeiro atributo, "gracioso" (Nwgx), diz respeito especialmente àquela bondade que existe no próprio Deus. A raiz (Ngx) da qual vem significa fazer algo de graça, livremente, por vontade e boa disposição próprias. Essa é a palavra usada para expor a livre graça e a mera boa vontade de Deus, assim, "(Nxa ddva ta ytgxw) serei gracioso a quem eu quiser ser gracioso" (Êxodo 33:19). Há também um advérbio (Mgh) daí derivado, que significa gratuitamente, livremente, como quando Labão fala assim a Jacó: "servir-me-ás tu de graça?" Assim a palavra se opõe ao mérito. E com isso o profeta reconhece que a libertação que Deus concedeu foi por causa do próprio Senhor, sem mérito algum daquele que foi libertado.
O segundo atributo, "justo" (qydu), tem relação particular com a promessa de Deus. A justiça de Deus, tomada em sentido amplo, é a integridade ou equidade de todos os seus conselhos, palavras e ações. Particularmente, a justiça de Deus se manifesta em dar recompensa e tomar vingança. Assim se diz que é "justo da parte de Deus retribuir tribulação aos que vos atribulam, e a vós, que sois atribulados, descanso" (2 Tessalonicenses 1:6-7). Mas, sendo a ocasião de mencionar a justiça de Deus, aqui neste lugar, mostrar o fundamento de seu clamor a Deus, e da libertação que Deus lhe concedeu, ela precisa necessariamente dizer respeito à palavra e à promessa de Deus, e à verdade de Deus em cumprir o que prometeu. William Gouge.
O Senhor; nosso Deus. O primeiro título, "Senhor", expõe a excelência de Deus. Apropriada é aqui sua menção, para mostrar a bendita concorrência de grandeza e bondade em Deus. Ainda que ele seja Jeová, o Senhor, ele é também gracioso, e justo, e misericordioso. O segundo título, "nosso Deus", manifesta uma relação peculiar entre ele e os fiéis que nele creem e dele dependem, como fazia este profeta. E para eles, de modo especial, o Senhor é gracioso, o que o levou a mudar assim a pessoa; pois onde havia dito na terceira pessoa "o Senhor é gracioso", aqui, na primeira pessoa, diz "nosso Deus", ainda que não se aproprie desse privilégio só para si, mas o reconheça comum a todos os de igual caráter, usando o número plural, "nosso." William Gouge.
O "Berlenburger Bibelwerk" diz: "A justiça é colocada de modo muito significativo entre a graça e a misericórdia: pois ainda é necessário que o mal seja mortificado e expulso. A graça lança, por assim dizer, o fundamento da salvação, e a misericórdia aperfeiçoa a obra; mas não antes que a justiça tenha concluído sua obra intermediária." Rudolph Stier.
Nosso Deus é misericordioso. A misericórdia é o atributo predileto de Deus; e por sua infinita sabedoria ele capacitou a misericórdia a triunfar sobre a justiça sem violar em nada sua honra ou sua verdade. O caráter de misericordioso é aquele pelo qual nosso Deus parece se comprazer em ser conhecido. Quando ele se proclamou, em meio a terrível grandeza, aos filhos de Israel, foi como "o Senhor, o Senhor Deus, misericordioso e gracioso, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado." E tal foi a impressão desse seu caráter na mente de Jonas, que ele lhe diz: "eu sabia que tu eras um Deus misericordioso."
Estas, porém, não são meras afirmações — reivindicações desse caráter feitas por Deus de um lado, e extraídas sem evidência do homem de outro; pois de qualquer maneira que olhemos para Deus, e examinemos sua conduta para com suas criaturas, percebemos que ela traz a marca da misericórdia. Nem podemos exaltar mais ao Senhor nosso Deus do que falando de sua misericórdia e nela confiando; pois "o deleite do Senhor está nos que o temem, e depositam sua confiança em sua misericórdia." John Gwyther, 1833.
Versículo 6Salmo 116:6
O Senhor guarda os símplices. Deus dedica mais cuidado àqueles que, sendo de outro modo menos cuidados, dependem inteiramente dele. Estes são, em bom sentido, símplices; símplices na estimativa do mundo, e símplices a seus próprios olhos. Como aquele que disse: "eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens, e desprezado do povo." Salmo 22:6. E de novo: "eu sou pobre e necessitado; contudo, o Senhor cuida de mim." Salmo 40:17. Estes são aqueles pobres de espírito contrito sobre quem o Senhor olha. Isaías 66:2. Desses órfãos Deus é pai; e dessas viúvas, juiz. Lede Salmo 68:5, e Salmo 146:7-9.
Sim, lede atentamente as histórias do Evangelho, e pesai bem a quem Cristo, nos dias de sua carne, concedia socorro, e achareis que eram tais símplices como aqui se pretende. Por tais objetos a livre graça e a mente misericordiosa do Senhor melhor se manifestam. Sendo o caso deles o mais miserável, em relação aos socorros humanos, tanto maior parece a misericórdia de Deus; e como não há neles nada que lhes procure favor ou socorro da parte de Deus, pois a seus próprios olhos e aos dos outros nada são, o que Deus faz por eles evidentemente aparece como feito de graça.
Veja aqui como, de todos, são justamente aqueles que parecem ter menos razão para confiar em Deus os que têm mais razão para nele confiar. Pessoas símplices, criaturas tolas, néscios desprezíveis na estimativa do mundo, que não têm mentes sutis nem astúcias engenhosas para buscar meios indiretos, têm, não obstante, o bastante para se sustentar, no grande fato de serem tais que o Senhor guarda. Ora, quem não sabe que "melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem; melhor é confiar no Senhor do que confiar em príncipes"? Salmo 118:8-9. William Gouge.
O Senhor guarda os símplices. Quão agradável é poder refletir sobre o caráter de Deus como aquele que guarda a alma. A palavra propriamente significa nos defender em qualquer hora de perigo. A palavra hebraica traduzida por "símplice" significa alguém que não tem controle sobre si mesmo, alguém que não consegue resistir ao poder e à influência dos que o rodeiam, e que, por isso, está sujeito ao maior perigo, do qual naturalmente não tem libertação. "O Senhor guarda": seu olho está sobre eles, sua mão está sobre eles, e eles não podem cair. A palavra "símplice" também significa aqueles que ignoram sua condição, e não vigiam contra seus inimigos.
Pensamento agradável, que, embora possamos ser assim ignorantes, ainda somos abençoados com os meios de escape! Podemos ser símplices ao extremo, e nossa simplicidade pode ser tal que envolva nossa mente na maior dúvida: o Senhor nos guarda, e descansemos nele. É agradável refletir que são os símplices em quem o Senhor se compraz, a quem ele ama abençoar.
Às vezes estamos exatamente na condição em que podemos nos inclinar a perguntar como podemos ser salvos. Supomos que há muitas verdades a apreender, muitos princípios a compreender, antes que possamos ser salvos. Não; "o Senhor guarda os símplices." Podemos ser capazes de conciliar quase nenhuma das doutrinas do cristianismo entre si; podemos nos encontrar na maior perplexidade quando examinamos as evidências sobre as quais se assentam; podemos estar expostos à maior dificuldade quando buscamos aplicá-las à utilidade prática; mas ainda assim podemos adotar a linguagem que temos diante de nós: o Senhor guarda os símplices; fui abatido, e ele me ajudou; volta, ó minha alma, para o teu repouso. R. S. M'All, 1834.
O Senhor guarda os símplices. O termo símplice equivale à "simplicidade" do Novo Testamento, a saber, aquela mente pura para com Deus que, sem buscar socorro de nenhum outro lado, e livre de toda dissimulação, espera a salvação somente dele. Augustus F. Tholuck.
Os símplices. São aqueles que honestamente guardam o caminho reto dos mandamentos de Deus, sem aquelas artimanhas ou desvios da política carnal, pelos quais os homens são tidos no mundo por sábios; veja Gênesis 25:27, onde Jacó é chamado homem simples. Símplices ou tolos ele os chama, porque geralmente assim são tidos entre os sábios do mundo; não que sejam tão néscios quanto se pensa; pois se o Senhor pode julgar sabedoria ou tolice, o único tolo é o ateu e o profano (Salmo 14:1); o único sábio no mundo é o cristão simples e reto (Deuteronômio 4:6), que se mantém precisamente, em todos os estados, naquele caminho simples e honesto que o Senhor lhe prescreveu.
A tais símplices, tolos de Deus, que em sua miséria e aflição se atêm apenas aos meios de libertação e consolo que o Senhor lhes prescreveu, pertence esta bênção de preservação do mal, ou da destruição: assim Salomão (Provérbios 16:17), "a vereda dos retos é apartar-se do mal." "O que guarda o seu caminho preserva a sua alma"; veja também Provérbios 19:16,23; para exemplificação, veja em Asa, 2 Crônicas 14:9-12, 16:7-9, lede o excelente discurso de Hanani, o vidente. William Slater, 1638.
Fui abatido. Por aflição e provação. O hebraico significa literalmente pender, estar suspenso, balançar, oscilar — como um balde num poço, ou como os ramos flexíveis da palmeira, do salgueiro, etc. Depois passa a significar estar frouxo, débil, fraco, como na doença, etc. Provavelmente se refere à prostração da força pela enfermidade. E ele me ajudou. Ele me deu força; ele me restaurou. Albert Barnes.
Fui abatido, e ele me ajudou. A palavra traduzida "abatido", ygtld a tld, propriamente significa ser esgotado até secar. A metáfora é tomada de tanques, ribeiros ou rios que ficam totalmente exauridos e secos, onde a água chega de todo a faltar. Assim usa Isaías esta palavra: "os ribeiros se esvaziarão e secarão", Isaías 19:6, yray wkrhw wlld. Aplicada ao homem, ela descreve alguém que está gasto, totalmente esgotado, que, como costumamos dizer, está de todo acabado, sem capacidade de se ajudar, sem meio de socorro, sem esperança de socorro de outros.
A outra palavra pela qual se expressa o socorro que Deus concedeu, e que se traduz "ajudou", eyvwhy ab evy, significa o tipo de ajuda que livra do perigo. É geralmente traduzida por "salvar". William Gouge.
Fui abatido, e ele me ajudou. Então é o tempo do socorro, quando os homens são abatidos: e por isso Deus, que faz todas as coisas a seu devido tempo, quando eu fui abatido, então me ajudou. Portanto, ó minha alma, que jamais te perturbe o quão abatida sejas, pois quando teu estado está no mais baixo, aí está o auxílio de Deus mais perto.
Podemos dizer com verdade que os caminhos de Deus não são como os caminhos do mundo; pois no mundo, quando um homem é uma vez abatido, é comumente pisoteado, e nada mais se ouve senão: "abaixo com ele, ao chão com ele": mas com Deus é diferente; pois seu deleite é levantar os que caem, e, quando são abatidos, então ajudá-los. Por isso não é caso tão duro para um homem ser abatido; não devo antes dizer que seu caso é feliz? Pois não é melhor ser abatido, e ter Deus para ajudá-lo, do que ser posto no alto e deixado a ajudar-se a si mesmo?
Ao menos, ó meu corpo, isto pode ser um consolo para ti: pois certamente serás abatido, tão baixo quanto a sepultura, que é de fato baixa; mas ali poderás descansar em esperança; pois até ali o Senhor não deixará de te ajudar. Sir Richard Baker.
Ele me ajudou. Ajudou-me tanto a suportar o pior quanto a esperar o melhor; ajudou-me a orar, senão o desejo teria falhado; ajudou-me a esperar, senão a fé teria falhado. Matthew Henry.
Versículo 7Salmo 116:7
Volta, ó minha alma, para o teu repouso. O salmista estivera em grande inquietação, e muito fora de si, como se costuma dizer; agora, tendo orado (pois a oração tem vim pacativam, uma propriedade pacificadora), ele chama sua alma ao repouso, e a embala num sono em segurança espiritual. Ó, aprende esta santa arte; familiariza-te com Deus, aquieta-te nele, e está em paz; assim te sobrevirá o bem. Jó 22:21. Sis Sabbathum Christi (sê o sábado de Cristo). Lutero. John Trapp.
Almas graciosas descansam em Deus; elas, e nenhuma outra. O que quer que outros falem de um repouso em Deus, só as almas santas sabem o que isso significa. Volta, ó minha alma, para o teu repouso, para o teu repouso em submissão calma e alegre à vontade de Deus, em deleite no seu serviço, em satisfação em sua presença, e em alegria na comunhão iniciada com ele aqui embaixo, que há de se aperfeiçoar em cima em sua plena fruição. Almas santas descansam em Deus, e em sua vontade; em sua vontade de preceito, como seu Senhor soberano, cujos mandamentos a respeito de todas as coisas são retos, e em cuja guarda há grande recompensa; em sua vontade de providência, como seu dono absoluto, que faz todas as coisas bem; nele mesmo como seu Deus, sua porção e seu maior bem, em quem terão tudo o que possam necessitar, ou de que sejam capazes de desfrutar, para completar sua bem-aventurança para sempre. Daniel Wilcox.
Volta, para o teu repouso. Volta para aquele repouso que Cristo dá aos cansados e sobrecarregados, Mateus 11:28. Volta para o teu Noé, cujo nome significa repouso, assim como a pomba, quando não encontrou repouso, voltou para a arca. Não conheço palavra mais própria para fechar os olhos à noite, ao dormir, nem para fechá-los na morte, aquele longo sono, do que esta: "volta, ó minha alma, para o teu repouso." Matthew Henry.
Volta para o teu repouso. Considerai a variedade de aspectos daquele repouso que o homem bom busca, e o fundamento sobre o qual se esforçará por realizá-lo. Ele consiste em:
Repouso das perplexidades da ignorância, e dos desvios do erro.
Repouso dos esforços vãos da autojustiça, e da inquietação de um espírito soberbo e legalista.
Repouso dos alarmes da consciência, e dos temores de punição futura.
Repouso das lutas infrutíferas de nossa natureza degenerada, e dos conflitos sem auxílio contra o pecado que habita em nós.
Repouso do temor do sofrimento temporal, e da ansiedade que surge da perspectiva de perigo e provação.
Repouso da distração da incerteza e da indecisão de espírito, e das flutuações de uma escolha por decidir. R. S. M'All.
Volta, ykwv. Esta é exatamente a palavra que o anjo usou para com Hagar, quando fugia de sua senhora: "volta", Gênesis 16:9. Assim como Hagar, pelo trato áspero de sua senhora, fugiu dela; assim a alma deste profeta, por causa da aflição, decaiu de sua antiga e tranquila confiança em Deus. Assim como o anjo, portanto, ordena a Hagar "volta para tua senhora", assim o entendimento deste profeta ordena à sua alma que volte para o seu repouso. William Gouge.
Repouso. A palavra "repouso" está no plural, indicando repouso completo e integral, em todos os tempos e em todas as circunstâncias. A. Edersheim.
Versículos 7–8Salmo 116:7-8
Porque o Senhor te fez muito bem. Ele de fato te fez muitíssimo bem, pois onde fizeste súplica por apenas uma coisa, ele te concedeu três. Pediste apenas que minha alma fosse livrada, e ele livrou também meus olhos e meus pés; e com uma libertação, em cada um deles, a maior que poderia haver: pois que maior libertação para minha alma do que ser livrada da morte? Que maior libertação para meus olhos do que ser livrado das lágrimas? Que, para meus pés, do que ser livrado de tropeçar?
De modo que, se agora, ó minha alma, não voltares ao teu repouso, mostrar-te-ás a mais insaciável, vendo que não tens apenas mais do que pediste, mas de fato tanto quanto era possível pedir. Mas pode minha alma morrer? E, se não, que benefício é livrar minha alma daquilo a que ela não está sujeita? A alma, de fato, ainda que imortal, tem suas formas de morrer. É um tipo de morte para a alma separar-se do corpo, mas o tipo mais verdadeiro é separar-se de Deus; e de ambos esses tipos de morte ele livrou minha alma.
Do primeiro, livrando-me de uma doença perigosa que ameaçava uma dissolução de minha alma e meu corpo; do outro, livrando-me da culpa do pecado, que ameaçava uma separação do favor de Deus; e não são esses benefícios grandes o bastante para dar à minha alma justa causa de voltar ao seu repouso? Sir Richard Baker.
Versículos 7–9Salmo 116:7-9
Volta, ó minha alma, para o teu repouso... Andarei. Como podem estas duas coisas coexistir? Motus et quies privative opponuntur, diz o filósofo, movimento e repouso se opõem privativamente; ora, andar é um movimento, sendo ato da faculdade locomotiva. Como, então, poderia Davi voltar ao seu repouso e ainda assim andar?
Deve-se saber que o andar e o repouso aqui mencionados, sendo de natureza divina, não se opõem um ao outro; o repouso espiritual não torna ninguém ocioso, e por isso não é inimigo do andar; o andar espiritual não cansa ninguém, e por isso não é inimigo do repouso. De fato, estão tão longe de ser opostos que são subservientes um ao outro, e é difícil dizer se aquele repouso é a causa deste andar, ou este andar a causa daquele repouso. De fato, ambos são verdadeiros, pois quem repousa em Deus não pode deixar de andar diante dele, e é andando diante dele que passamos a repousar em Deus.
Voltar ao repouso é ato de confiança, pois não há repouso senão em Deus, nem em Deus senão pela fé confiante e pela dependência nele. Andar diante de Deus é ato de obediência; quando desobedecemos, vagamos e nos desviamos; só pela obediência andamos. Ora, estas duas coisas estão tão longe de ser inimigas que são companheiras e sempre andam juntas; a confiança sendo meio de vivificar a obediência, e a obediência de fortalecer a confiança. Nathaniel Hardy.
Versículo 8Salmo 116:8
Livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés de tropeçar. Eis aqui uma libertação, não de um, mas de muitos perigos, a saber, "morte", "lágrimas", "tropeço." Libertações isoladas são como fios; mas, quando multiplicadas, tornam-se como uma corda entrançada de muitos fios, mais potente para nos atrair a Deus. Qualquer misericórdia isolada é como um elo, mas muitos favores são como uma corrente de vários elos, para nos prender mais fortemente ao nosso dever; vis unita fortior (a força unida é mais forte).
Gotas frequentes de chuva não podem deixar de fazer impressão até na pedra, e misericórdias renovadas bem podem prevalecer sobre o coração de pedra. Parisiensis conta a história de um homem sobre quem (não obstante seus caminhos notórios e viciosos) Deus se agradou de acumular favores, de modo que por fim ele exclamou: "Vicisti, benignissime Deus, indefatigabili sua bonitate, ó Deus gracioso, tua incansável bondade venceu minha obstinada maldade"; e desde aquele momento se dedicou ao serviço de Deus. Não é de admirar, então, se Davi, ao ser livrado de tão numerosas e penosas aflições, faça esta sua resolução: "andar diante do Senhor na terra dos viventes." Nathaniel Hardy.
Assim como uma alma humilde e sensível empacota muitas aflições em uma só, uma alma agradecida divide uma só misericórdia em vários ramos particulares, como aqui o salmista distingue: a libertação de sua alma da morte, de seus olhos das lágrimas, e de seus pés de tropeçar. David Dickson.
Alguns distinguem os três detalhes assim: livrou minha alma da morte, dando-me uma boa consciência; meus olhos das lágrimas, dando-me uma consciência tranquila; meus pés de tropeçar, dando-me uma consciência esclarecida e segura. William Gouge.
Os meus pés de tropeçar. Refere-se ele a cair em miséria e mal penais, ou em pecado? Há um lapsus moralis (lapso moral), como em 1 Coríntios 10:12. Erro eu? Ou Davi deveria aqui ser entendido como falando de pecar? Assim Salmo 73:2: "meus pés quase se desviaram; meus passos quase escorregaram." E, se não me engano, o texto se inclina a esse sentido, subindo sempre do menor ao maior.
Primeiro. É maior benefício ser guardado da tristeza do que da morte, pois há maior alívio da miséria. Não é maior benefício ser guardado da sensação de aflição do que ser guardado da morte, que é o maior dos males temporais; mas é maior benefício, a olhos graciosos, ser guardado do pecado do que da morte. Segundo. Como seus olhos das lágrimas? Se não guardado do pecado? Isso certamente lhe teria custado muitas lágrimas, como a Pedro (Mateus 26:75). Mas entenda-se isso de lapsu morali (a respeito do lapso moral), de modo que a gradação continua subindo para engrandecer o benefício de Deus: sim, o que considero a maior bênção, nessas aflições ele me manteve firme em meu curso de piedade, e não permitiu que as aflições desviassem meu coração dele.
Ainda assim, a olhos graciosos, o benefício parece maior por ser livrado de pecar do que da maior aflição externa. Esta é a razão pela qual Paulo (Romanos 8:37) triunfa sobre todas as aflições. 2 Coríntios 11:22-33 e 2 Coríntios 12:1-10. Ele as considera sua glória, sua coroa; mas, falando do prevalecer da corrupção em particular, se lastima como o homem mais miserável vivo. Romanos 7:24. William Slater.
Versículo 9Salmo 116:9
Andarei, etc. É uma santa resolução o que este versículo registra. O versículo anterior mencionara, entre as misericórdias concedidas, "livraste os meus pés de tropeçar"; e o primeiro uso do membro restaurado é: "andarei diante do Senhor." Isso me lembra o mendigo aleijado à Porta Formosa do templo, a quem Pedro disse: "em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda"; e "imediatamente os seus artelhos e tornozelos recuperaram força, e ele, saltando, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus." É marca muito segura de coração agradecido empregar o dom para o louvor de quem o deu, da maneira que ele mais desejaria que fosse empregado. Barton Bouchier.
Quando tu, minha alma, voltares a este repouso, deverás andar, para que tenhas algum exercício em teu repouso, e para que teu descanso não te torne inquieta. Andarei diante do Senhor na terra dos viventes. Pois agora que meus pés estão livres de tropeçar, como poderia melhor empregá-los senão andando? Foram livres de tropeçar para que ficassem parados e ociosos? Não, minha alma, mas para me encorajar a andar: e onde há tão bom caminhar quanto na terra dos viventes?
Ai, que caminhar é este no inverno, quando todas as coisas estão mortas, quando a própria relva jaz enterrada, e quase nada com vida se pode ver? Mas é agradável o caminhar quando a natureza estende seu tapete verde para ser pisado, e então é a terra dos viventes, quando as árvores mostram que vivem, produzindo, senão frutos, ao menos folhas; quando os vales mostram que vivem, produzindo doces flores para deleitar o olfato, ao menos relva fresca para agradar aos olhos.
Mas é este o andar na terra dos viventes que Davi quer dizer? Ó minha alma, andar na terra dos viventes é andar nas veredas da justiça: pois não há morte para a alma como o pecado, nem causa de lágrimas para os olhos como a culpa da consciência, nem tropeço para os pés como cair de Deus: e por isso, a bem dizer, a alma jamais pode voltar ao seu repouso se não andarmos por dentro nas veredas da justiça; e não podemos bem dizer se este repouso é causa daquele andar, ou se o andar é causa deste repousar: mas isto podemos dizer, que são certamente companheiros um do outro, o que, em efeito, é apenas isto: que a justificação jamais pode existir sem a santificação. Paz de consciência e piedade de vida jamais podem existir uma sem a outra.
Ou será, talvez, que Davi quer dizer aquela terra dos viventes onde Enoque e Elias vivem, com o Deus vivo? Mas, se assim o entende, como pode falar com tanta confiança, e dizer: "andarei na terra dos viventes"? Como se pudesse ali chegar a andar por sua própria força, ou a seu próprio prazer? Ele, portanto, dá sua razão: "cri, por isso falei", pois a voz da fé é forte, e fala com confiança; e porque, em fé, ele crê que há de chegar a andar na terra dos viventes, por isso o diz com confiança: andarei na terra dos viventes. Sir Richard Baker.
Andarei diante do Senhor na terra dos viventes, isto é, passarei toda a minha vida sob seu cuidado e proteção paternal. O profeta tem em vista o costume dos homens, e principalmente dos pais: pois aqueles que amam ardentemente seus filhos os têm sempre em pensamento, e ali os carregam, jamais cessando de cuidado e ansiedade por eles, mas estando sempre atentos à sua segurança. Omnis enim in natis chari stat cura parentis (pois todo o cuidado do pai amado repousa sobre os filhos). As crianças, portanto, se diz, andam diante e à vista de seus pais, porque os têm como guardiões constantes de sua saúde e segurança. Assim também os piedosos, nesta vida, andam diante de Deus, isto é, são defendidos por seu cuidado e proteção. Mollerus.
Andarei diante do Senhor. Conforme uma leitura diferente da primeira palavra, "hei de" e "quero", a cláusula assume vários sentidos; se lida "hei de andar", são palavras de confiante expectativa; se "quero andar", são palavras de obediente resolução. Segundo a primeira, o salmista promete algo a si mesmo da parte de Deus; segundo a segunda, promete algo de si mesmo a Deus. Ambas as construções são prováveis e proveitosas. "Diante de Deus"; isto é, a seu serviço; ou, "diante de Deus", isto é, sob seu cuidado. Consideremos ambos os sentidos.
- Andarei diante do Senhor na terra dos viventes; isto é, continuando neste mundo, terei oportunidade de servir a Deus. Não foi porque aqueles santos homens tivessem menos segurança do amor de Deus do que nós, mas porque tinham maior afeto pelo serviço de Deus do que nós, que esta vida lhes era tão amável aos olhos. Para este propósito, os raciocínios de Davi e Ezequias a respeito da morte e da sepultura são bem dignos de nota. "Louvar-te-á o pó? Anunciará ele a tua verdade?", assim Davi, Salmo 30:9. "A sepultura não pode te louvar, a morte não pode te celebrar"; assim Ezequias, Isaías 38:18. Eles viam que a morte os tornaria inúteis para a honra de Deus, e por isso oravam por vida.
Isso nos deixa ver por que um homem religioso pode desejar a vida: para que ande diante do Senhor, e o sirva no lugar em que o colocou. De fato, aquela alegria, esperança e desejo de vida que se funda nesta consideração não é apenas lícita, mas louvável; e verdadeiramente aqui há grande diferença entre o ímpio e o piedoso. Andar na terra dos viventes é o desejo do ímpio, sim, se possível, ele andaria aqui para sempre; mas para quê? Apenas para desfrutar de suas concupiscências, saciar-se de prazer, e aumentar sua riqueza: ao passo que o objetivo do piedoso, ao desejar viver, é poder "andar diante de Deus", promover sua glória, e cumprir seu serviço. Por essa razão, alguém observou de modo apropriado que Davi não diz: agora me saciarei de delícias em minha cidade real, mas: andarei diante do Senhor na terra dos viventes.
- E, muito adequadamente a esta interpretação, este "diante do Senhor" significa sob o olhar cuidadoso do Senhor. As palavras, segundo o hebraico, podem ser lidas: diante da face do Senhor, pelo que se entende sua presença, e não a geral, diante da qual todos os homens andam, mas a especial, diante da qual só os homens bons andam. De fato, nesse sentido, a face de Deus equivale a seu favor; e assim como ser lançado de sua vista é estar sob sua ira, andar diante de sua face é estar em favor com ele: de modo que o sentido é, como o salmista disse, viverei segura e tranquilamente neste mundo sob a proteção cuidadosa do Todo-Poderoso; e esta é a confiança que aqui parece proferir com tanta alegria, que a graciosa providência de Deus velará sobre ele pelo resto de seus dias. Nathaniel Hardy, em um sermão intitulado "Thankfulness in Grain," 1654.
Na terra dos viventes. Estas palavras admitem uma tríplice interpretação, sendo entendidas por alguns, especialmente, como a terra da Judeia. Por outros, erroneamente, como a Jerusalém que é de cima. Pela maioria, e mais provavelmente, como esta terra habitável, o mundo presente.
Aquela exposição que Caetano, Lorino, e outros, dão às palavras não deveria ser rejeitada, os quais concebem que, por "terra dos viventes", Davi aqui entende a Judeia, na qual, ou antes sobre a qual, constituído rei, ele se resolve a andar diante de Deus, e a servi-lo. Não é improvável que seja essa "terra dos viventes" na qual o salmista, quando exilado, "creu ver a bondade do Senhor"; é certamente aquela "terra dos viventes" na qual Deus promete "pôr sua glória"; nem foi este título, sem justa razão, atribuído a esse país. (a) Em parte, porque era uma "terra" que oferecia os mais fartos sustentos e conforto da vida natural, quanto à salubridade do clima, à bondade do solo, ao transbordar de leite e mel, com outras conveniências tanto de alimento quanto de deleite. (b) Principalmente, porque era a "terra" na qual o Deus vivo era adorado, e onde ele se dignou colocar seu nome; ao passo que as outras partes do mundo adoravam coisas sem vida, das quais o salmista diz: "têm boca, e não falam; olhos têm, e não veem; ouvidos têm, e não ouvem."
A terra dos viventes é interpretada pelos antigos como sendo aquele país celestial, o lugar dos bem-aventurados. De fato, esta denominação combina muito bem com o céu: este mundo é desertum mortuorum (um deserto de mortos), pelo menos de homens moribundos; só aquele é regio virorum (uma região de vivos), uma região de santos vivos. "Aquele que é a nossa vida" está no céu, sim, "a nossa vida está escondida com ele em Deus", e por isso não se pode dizer que vivemos até lá chegarmos. Neste sentido, sem dúvida, aquele devoto bispo e mártir, Babilas, usou estas palavras, o qual, condenado por Numeriano, o imperador, a uma morte injusta, pouco antes de sua execução repetiu este e os dois versículos precedentes, em voz alta. Nem é impróprio a nenhum santo moribundo consolar-se com igual aplicação destas palavras, e dizer, em confiante esperança daquela visão bendita: andarei diante do Senhor na terra dos viventes.
Mas sem dúvida o sentido literal e próprio destas palavras é o da permanência de Davi no mundo; durante a qual, onde quer que estivesse, ele "andaria diante de Deus"; pois esse parece ser o ênfase do número plural, "terras", segundo o original. O mundo consiste de muitos países, várias terras, e é possível aos homens, seja por força, seja contra a vontade, mudar de um país para outro: mas o homem bom, quando muda de país, não muda de religião; sim, onde quer que esteja, se resolve a servir seu Deus. Nathaniel Hardy.
Terra dos viventes. Quão impróprio, quão vergonhoso, quão odioso é que homens mortos estejam aqui sobre a face da terra, que é "a terra dos viventes." Que os há, é verdade demais. "Aquela que vive em prazeres está morta enquanto vive", 1 Timóteo 5:6; Sardes tinha nome de que vivia, mas estava morta, Apocalipse 3:1; "os mortos sepultem os seus mortos", Mateus 8:22; todos os homens naturais estão "mortos em pecados", Efésios 2:1, 2 Coríntios 5:14. William Gouge.
Versículos 9–12Salmo 116:9-12
A palavra hebraica traduzida por "andar" significa uma ação contínua, ou a reiteração de uma ação. Davi resolve que não apenas dará uma volta ou duas com Deus, ou andará um pequeno trecho com Deus, como fez Orfa com Rute, para depois se despedir de Deus, como Orfa fez de sua sogra, Rute 1:10-15; mas resolve, aconteça o que acontecer, andar constante, resoluta e perpetuamente diante de Deus; ou diante da face do Senhor.
Ora, andar diante da face do Senhor implica um andar muito exato, circunspecto, acurado e preciso diante de Deus; e, de fato, nenhum outro andar é adequado ou agradável aos olhos de Deus. Mas será isto tudo o que fará ao receber tão notáveis misericórdias? Ah, não! Pois resolve tomar o cálice da salvação, e invocar o nome do Senhor, e oferecer sacrifício de ação de graças, Salmo 116:13, 17. Mas será isto tudo o que fará? Ah, não! Pois resolve pagar imediatamente seus votos ao Senhor na presença de todo o seu povo, Salmo 116:14, 18.
Mas será isto tudo o que fará? Ah, não! Pois resolve amar o Senhor melhor do que nunca, e mais do que nunca, Salmo 116:1-2. Ele já amava a Deus antes com amor verdadeiro, mas, tendo agora recebido tão raras misericórdias de Deus, resolve amá-lo com amor mais elevado, com amor mais inflamado, com amor mais ativo e vigoroso, e com amor mais crescente e aumentado do que nunca. Thomas Brooks.
Versículo 10Salmo 116:10
Cri, por isso falei. Não basta crer, a menos que também confesses abertamente diante de incrédulos, tiranos e todos os demais. Depois do crer, segue-se a confissão; e por isso aqueles que não fazem confissão devem temer; ao passo que, ao contrário, devem esperar aqueles que declaram em voz alta o que creram. Paulus Palanterius.
Cri, por isso falei. Isto é, creio firmemente no que digo, por isso não tenho escrúpulo algum em dizê-lo. Isto deveria ligar-se ao versículo anterior, e o ponto final deveria vir depois de "falei." Samuel Horsley.
Cri, etc. Alguns traduzem as palavras assim: "cri, quando disse: sou grandemente afligido: cri quando disse na minha pressa: todo homem é mentiroso"; q.d. (isto é, como se dissesse): ainda que tenha tido meus altos e baixos, ainda que tenha passado por vários estados de coração e temperamentos de alma em minhas provações, ainda assim cri sempre, jamais larguei minha posse, meu firme apego a Deus, em minha perturbação. John Trapp.
O coração e a língua devem andar juntos. A língua deveria ser sempre a intérprete do coração, e o coração deveria ser sempre o inspirador da língua; o que se fala com a língua deveria primeiro estar gravado no coração e dali extraído. Assim deveria ser em todas as nossas comunicações e exortações, especialmente quando falamos ou exortamos sobre as coisas de Deus, e dispensamos os mistérios do céu. Davi falava de seu coração quando falava de sua fé.
Cri, por isso falei. Crer é ato do coração, "com o coração se crê"; de modo que dizer "cri, por isso falei" é como se ele dissesse: eu nunca teria falado estas coisas, se meu coração não estivesse limpo e reto nelas. O apóstolo retoma exatamente essa mesma declaração de Davi (2 Coríntios 4:13): "Segundo está escrito: cri, e por isso falei; nós também cremos, e por isso falamos"; isto é, não movemos os outros a crer senão naquilo que nós mesmos cremos, e do qual estamos plenamente seguros. Joseph Caryl.
Fui grandemente afligido. Depois que nosso menestrel fez menção da fé e do falar a palavra de Deus, pelo que se hão de entender todas as boas obras que procedem e brotam da fé, ele agora canta sobre a cruz, e mostra que foi muito gravemente perturbado, gravemente ameaçado, sem caridade blasfemado, mal falado, maliciosamente perseguido, cruelmente atormentado, e feito sofrer toda sorte de tormentos por proferir e declarar a palavra de Deus. "Cri", diz ele, "por isso falei; mas fui muito gravemente perturbado." A palavra de Cristo e a cruz são companheiras inseparáveis. Assim como a sombra segue o corpo, assim a cruz segue a palavra de Cristo: e assim como o fogo e o calor não podem ser separados, também o evangelho de Cristo e a cruz não podem ser arrancados um do outro. Thomas Becon (1511-1567 ou 1570).
Versículos 10–11Salmo 116:10-11
O sentido parece ser este: falei como declarei (Salmo 116:4) porque confiava em Deus. Fui grandemente afligido, estive em extrema angústia, estive em grande espanto e tremor (pois a palavra traduzida "pressa" significa tanto tremor quanto pressa, como se traduz em Deuteronômio 20:3); e nessas circunstâncias não confiei no homem; disse: "todo homem é mentiroso" — isto é, não digno de confiança; daqueles que hão de falhar e enganar a esperança dos que neles confiam, de acordo com Salmo 62:8-9. Jonathan Edwards.
Versículo 11Salmo 116:11
Disse na minha pressa: todo homem é mentiroso. Antes, em êxtase de desespero, eu disse: toda a raça humana é uma ilusão. Samuel Horsley.
Todo homem é mentiroso. Isto é, todo homem que fala do modo comum dos homens acerca da felicidade, e dá grande valor às coisas frágeis e perecíveis deste mundo, é mentiroso; pois a felicidade verdadeira e sólida não se encontra na terra dos viventes. Esta explicação resolve o sofisma proposto por São Basílio. Se todo homem é mentiroso, então Davi era mentiroso; portanto ele mente quando diz que todo homem é mentiroso — contradizendo-se assim a si mesmo, e destruindo sua própria posição. Isto se responde facilmente; pois quando Davi falou, não o fez como homem, mas por inspiração do Espírito Santo. Robert Bellarmino.
Todo homem é mentiroso. Juvenal disse: "ousa fazer algo digno de deportação e prisão, se pretendes ter alguma importância. A honestidade é louvada, mas passa fome." Um panfleto foi publicado há algum tempo com o título "A quem enforcaremos?" Um título bem apropriado poderia agora ser escrito com uma pequena mudança: "Em quem confiaremos?" De "A New Dictionary of Quotations," 1872.
Versículos 11–15Salmo 116:11-15
Parece que dar a mentira a alguém não era ofensa tão grave nos dias de Davi como é hoje; pois de outro modo como ousaria ele proferir tais palavras, "todo homem é mentiroso", que não é menos do que dar a mentira ao mundo inteiro? E, no entanto, penso que nenhum homem o desafiará por dizer isso; assim como não desafia São João por dizer que todo homem é pecador; e de fato, como poderia qualquer homem evitar ser mentiroso, vendo que o próprio ser do homem é em si uma mentira? Não é apenas vaidade, e posto na balança menos do que vaidade; mas uma verdadeira mentira, que promete grandes coisas, e não é capaz de nada, como diz Cristo: "sem mim nada podeis fazer": e assim Cristo parece entrar em cena, para ser o segundo de Davi, e confirmar sua palavra, de que todo homem é mentiroso. E agora que o mundo faça o pior que puder, e receba a acusação como quiser, pois Davi, tendo Cristo ao seu lado, sempre poderá defender sua causa contra o mundo inteiro, porque Cristo venceu o mundo.
Mas, ainda que se possa dizer que todo homem é mentiroso, nem todos os homens em todas as coisas; pois então o próprio Davi seria mentiroso nisto: mas todos os homens, talvez, em alguma coisa ou outra, em algum momento ou outro, de algum modo ou outro. A verdade absoluta não se encontra em nenhum homem, senão naquele homem que não era apenas homem; pois, se fosse apenas isso, talvez também nele não se encontrasse, visto que verdade absoluta e divindade são como coisas relativas, jamais encontradas separadas.
Mas em que coisa é que todos os homens seriam mentirosos? De fato, nesta, por exemplo: em pensar que Deus não se importa, e não ama aqueles a quem permite ser afligidos; pois antes deveríamos pensar que ele mais ama aqueles a quem permite ser mais afligidos; e podemos dizer com verdade que ele nunca teria permitido que seu servo Jó fosse afligido tão excessivamente, se não o amasse tão ternamente; pois nada se perde ao sofrer aflições. Não, minha alma, elas apenas servem para compor o maior peso de glória, quando este se revelar.
Mas sejam as aflições de Deus o que forem, ainda assim sempre reconhecerei que jamais poderão ser, em grau algum, tão grandes quanto os seus benefícios: e, ah, se eu pudesse pensar em algo que lhe pudesse retribuir por todos os seus benefícios! Pois hei de receber dele benefícios tão grandes, tão infinitos, e nada lhe retribuir por gratidão? Mas, ai, que tenho eu para retribuir? Toda a minha retribuição a ele será apenas tomar mais dele: pois tudo o que posso fazer é apenas tomar o cálice da salvação, e invocar o seu nome, e que retribuição há nesse tomar? Se eu pudesse tomar o cálice da tribulação, e bebê-lo por amor dele, isso seria uma retribuição de algum valor; mas isto, Deus sabe, não é obra para mim fazer. Foi obra dele, que disse: "podeis vós beber do cálice que eu hei de beber?" De fato, ele bebeu do cálice da tribulação, para que pudéssemos tomar o cálice da salvação; mas então, ao tomá-lo, devemos invocar o seu nome; o seu nome, e nenhum outro; pois de outro modo o faríamos cálice de condenação, visto que não há nome debaixo do céu no qual possamos ser salvos, senão somente o nome de Jesus.
Ainda assim, talvez seja alguma retribuição ao Senhor se eu pagar meus votos, e fizer, por assim dizer, minha penitência abertamente; pagarei, portanto, meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo. Mas não poderia ele pagar seus votos tão bem em seu quarto, entre Deus e ele mesmo, quanto fazê-lo publicamente? Não, minha alma, não basta assim; ele precisa pagá-los na presença de todo o seu povo; não para que seja aplaudido por bom pagador; pois, ainda que os pague, jamais poderá pagá-los por inteiro; mas para que os homens, vendo suas boas obras, glorifiquem a Deus por seu exemplo.
E talvez ainda mais, porque Davi era rei, e o exemplo do rei prevalece muito junto ao povo, para levá-los a pagar seus votos a Deus: mas, sobretudo, para que, por este meio, a piedade de Davi não seja estéril, mas produza também uma prole de piedade no povo: o que talvez seja uma razão mística pela qual se contava como maldição em Israel ser estéril; pois aquele que não paga seus votos a Deus na presença de seu povo bem pode ser dito estéril em Israel, visto que não gera filhos para Deus por seu exemplo.
E talvez também os votos a que Davi aqui se refere fossem o cumprimento de algumas coisas humildes, indignas em aparência para a dignidade de um rei; como quando se considerou coisa baixa nele dançar diante da arca; ele então prometeu que se tornaria ainda mais baixo: e neste caso, pagar seus votos diante do povo se torna questão de necessidade: pois, assim como não há honra para um homem quando está sozinho consigo mesmo, também não há vergonha para um homem senão diante do povo: e por isso, para mostrar que não se envergonha de fazer coisa alguma, por mais humilde que seja, desde que sirva para glorificar a Deus, "ele pagará seus votos na presença de todo o seu povo." E o fará ainda que lhe custe a vida, pois, se morrer por isso, sabe que preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos.
Mas o que é precioso é comumente desejado: e deseja Deus, então, a morte de seus santos? Ele deseja, sem dúvida, aquela morte de seus santos que é morrer para o pecado: mas quanto a qualquer outra morte de seus santos, por isso se diz que é preciosa a seus olhos, porque ele a guarda com maior cuidado. E por isso há tantas moradas diversas na casa de Deus, para que àqueles cuja morte lhe é preciosa ele possa designar as moradas mais gloriosas.
Esta é, de fato, a recompensa do martírio, e o encorajamento dos mártires, embora seus sofrimentos sejam mais que insuportáveis, suas aflições mais que intoleráveis; ainda assim isto compensa tudo: que "preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos." Pois se é tão grande felicidade ser aceito diante dele, quão grande felicidade deve ser ser precioso diante dele? Quando Deus, na criação, contemplou todas as suas obras, diz-se que viu que eram todas muito boas: mas não se diz que alguma delas fosse preciosa a seus olhos. Como, então, veio a morte a ser preciosa a seus olhos, ela que não era obra sua, mas destruidora de suas obras?
É possível que uma coisa que destrói suas criaturas tenha, a seus olhos, título de mais valor do que as próprias criaturas? Ó minha alma, este é um dos milagres de seus santos, e talvez um daqueles que Cristo quis dizer, quando disse a seus apóstolos que maiores milagres do que ele fizera eles mesmos fariam: pois que maior milagre do que este, que a morte, que em si mesma é coisa mais vil aos olhos de Deus, uma vez abraçada por seus santos, como que por seu simples toque, se torna preciosa a seus olhos?
Transformar uma coisa de vil em preciosa, não é isso um milagre maior do que transformar água em vinho? De fato, é assim; a morte não prejudica seus santos, mas seus santos dignificam a morte. A morte nada tira da felicidade de seus santos, mas seus santos acrescentam brilho à vileza da morte. É feliz a morte por ter alguma vez encontrado algum dos santos de Deus; pois de outro modo não haveria maneira, no mundo, de jamais ser tida em alguma conta: mas por que digo "no mundo"? Pois de nenhuma conta é ela no mundo, apesar de tudo isso: é apenas aos olhos de Deus; mas, na verdade, isto só já é tudo em tudo; pois ser precioso aos olhos de Deus é mais para se prezar do que o próprio mundo.
Pois quando o mundo passar, e toda a sua glória for lançada ao pó; então se erguerão troféus para a morte de seus santos: e quando todos os monumentos do mundo forem inteiramente apagados, e todos os registros de todo riscados; ainda assim a morte de seus santos permanecerá registrada, em belas letras vermelhas no calendário do céu. Se há glória reservada para os que morrem no Senhor; muito mais serão glorificados os que morrem pelo Senhor.
Muitas vezes me maravilhei por que Deus permite que seus santos morram; não me refiro à morte natural, pois sei que statutum est omnibus semel mori (está determinado a todos morrer uma vez); mas a morte que é por violência, e com tortura: pois quem poderia suportar ver aqueles a quem ele ama tão cruelmente tratados? Mas agora vejo a razão disso; pois preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. E que maravilha, então, se ele permite que seus santos morram; quando, ao morrer, são lavrados, e feitos joias aptas para serem engastadas em seu gabinete; pois assim como Deus tem um odre que enche com as lágrimas de seus santos, também posso dizer que tem um gabinete que adorna com as mortes de seus santos: e, ó minha alma, se pudesses apenas compreender que glória é servir de joia no adorno do gabinete de Deus, jamais te admirarias de que ele permita que seus santos sejam entregues à morte, ainda que com tormentos jamais tão grandes, pois é apenas o mesmo que diz São Paulo: "as aflições deste tempo presente não são dignas de ser comparadas com a glória que há de ser revelada." Sir Richard Baker.
Versículo 12Salmo 116:12
Que darei eu ao Senhor? Retribuir ao Deus verdadeiro, de modo verdadeiro e correto, é a suma da verdadeira religião. Essa noção é consoante às Escrituras: assim: "dai a Deus o que é de Deus." Mateus 22:21. Assim como a verdadeira lealdade é dar a César o que é de César, também a verdadeira piedade é dar a Deus o que é de Deus. E assim, naquela parábola da vinha arrendada a lavradores, tudo o que devemos a Deus se expressa pela entrega do fruto da vinha; Mateus 21:41. Atos particulares de religião assim se expressam nas Escrituras, Salmo 56:12; Oseias 14:2; 2 Crônicas 34:31.
Seja, então, este o sentido do xwhyl kyva xm de Davi: "que darei eu ao Senhor?" "Em que coisas, e por que meios, promoverei a religião em seu exercício? Como me mostrarei devidamente religioso para com aquele que constante e abundantemente tem sido generoso em seus benefícios para comigo?" Henry Hurst.
Todos os seus benefícios para comigo. Que recompensa daremos ao Senhor por todos os benefícios que concedeu? Da sombria escuridão da inexistência ele nos despertou para o ser; ele nos enobreceu com o entendimento; nos ensinou artes para promover os meios de vida; ordenou à terra fecunda que desse seu sustento; ordenou aos animais que nos reconhecessem como seus senhores.
Para nós descem as chuvas; para nós o sol espalha seus raios criadores; erguem-se os montes, florescem os vales, oferecendo-nos habitação grata e refúgio abrigado. Para nós correm os rios; para nós murmuram as fontes; o mar abre seu seio para admitir nosso comércio; a terra esgota seus tesouros; cada novo objeto apresenta novo deleite; toda a natureza derrama seus tesouros a nossos pés, pela graça generosa daquele que quer que tudo seja nosso. Basílio, 326-379.
Todos os seus benefícios. Assim como a obediência parcial não é boa, também a gratidão parcial não vale nada: não que algum santo seja capaz de guardar todos os mandamentos, ou enumerar todas as misericórdias de Deus, muito menos retribuir reconhecimento particular por cada misericórdia isolada; mas assim como ele "tem respeito a todos os mandamentos" (Salmo 119:6), assim deseja valorizar altamente cada misericórdia, e, na medida de seu poder, dar a Deus o louvor de todas elas.
Uma alma honesta não ocultaria dívida alguma que tem para com Deus, mas convoca a si mesma a prestar contas de todos os seus benefícios. Pular uma nota numa lição pode estragar a graça da música; a ingratidão por uma misericórdia deprecia nossa gratidão pelas demais. William Gurnall.
Versículo 13Salmo 116:13
Tomarei o cálice da salvação. Provavelmente pode aludir à oferta de libação, Números 28:7; pois os três últimos versículos parecem sugerir que o salmista estava agora no templo, oferecendo a oferta de cereais, a oferta de bebida, e sacrifícios ao Senhor. "Cálice" é frequentemente usado pelos hebreus para denotar fartura ou abundância. Assim, "o cálice do tremor" é uma abundância de miséria; "o cálice da salvação", uma abundância de felicidade. Adam Clarke.
Cálice da salvação. Nas sagradas Escrituras se faz menção a ofertas de bebida, Gênesis 25:14, Levítico 23:13, Números 15:5; que eram certa quantidade de vinho que se costumava derramar diante do Senhor; como a própria notação da palavra sugere, vindo de uma raiz dmg, effudit, que significa derramar. Assim como as ofertas de cereais, também as ofertas de bebida eram trazidas ao Senhor em forma de gratulação e ação de graças.
Alguns, por isso, em alusão a isso, expõem o texto assim, como promessa e voto do salmista, de testemunhar sua gratidão pública por meio de tal rito externo e solene, como era prescrito na lei. A isso ele chama cálice, porque aquela oferta de bebida estava contida num cálice e dali se derramava; e acrescenta este epíteto, "salvação", porque aquele rito era um reconhecimento de salvação, preservação e libertação da parte do Senhor. Depois de seus solenes sacrifícios de gratulação, costumavam ter um banquete.
Quando Davi trouxe a arca de Deus ao tabernáculo, ofereceram holocaustos e ofertas de paz, e, terminados estes, "repartiu a todo o Israel, tanto homem como mulher, a cada um, um pão, e um bom pedaço de carne, e um odre de vinho." 1 Crônicas 16:8. Com isso se subentende que ele fez um banquete tão farto que teve o que dar a todo o povo ali reunido. Neste banquete, o anfitrião costumava tomar um grande cálice, e, ao erguê-lo, declarar a ocasião daquele banquete, e então, em testemunho de gratidão, beber dele diante dos convidados, para que eles, por sua vez, também bebessem em sua honra.
Isto se chamava cálice de salvação, ou de libertação, porque reconheciam, com seu uso, que Deus os havia salvo e livrado. Quase no mesmo sentido o apóstolo chama o cálice sacramental de o cálice da bênção. Aqui o profeta usa o número plural, assim, "cálice de salvações", pelo que, segundo a elegância hebraica, ele quer dizer muitas libertações, uma após a outra; ou alguma grande e extraordinária libertação que valia por muitas, ou que abrangia muitas dentro de si.
A palavra traduzida "tomarei" (ava a avg) propriamente significa erguer, e nesse sentido pode ser mais adequadamente aplicada ao antes mencionado tomar do cálice festivo e erguê-lo diante dos convidados. A maioria de nossos expositores mais recentes deste salmo aplica esta frase, "tomarei o cálice da salvação", à antes mencionada oferta gratulatória de bebida, ou ao tomar e erguer o cálice da bênção no banquete, depois do sacrifício solene. Ambos apontam para a mesma coisa, que é que os santos de outrora costumavam testemunhar sua gratidão por grandes libertações com algum rito externo e solene. William Gouge.
Cálice da salvação. Yeshuoth: Salmo 18:50, 28:8, 53:6. O cálice da salvação, simbolizado pelo cálice eucarístico da Ceia Pascal. Sião, que bebera do "cálice do tremor" (Isaías 51:17, 22), poderia agora se levantar e beber do cálice da salvação. Para a igreja, estas palavras receberam um sentido ainda mais profundo por Mateus 26:27. Jesus, naquela noite de Páscoa, bebeu do vinho amargo da ira de Deus, para poder reencher o cálice de alegria e saúde para o seu povo. William Kay.
Versículos 13–14Salmo 116:13-14
17-19. Um modo adequado de expressar nossa gratidão a Deus é por atos solenes de adoração, secretos, sociais e públicos. "O quarto secreto será o primeiro lugar onde o coração se comprazerá em derramar suas alegrias vivas; dali o sentimento se estenderá ao altar familiar: e dali novamente prosseguirá até o santuário do Altíssimo." (J. Morison). A todo homem Deus enviou uma grande provisão de benefícios, e nada senão a perversidade pode negar-lhe o louvor de nossos lábios. William S. Plumer.
Versículo 14Salmo 116:14
Um homem que quisesse manter seu crédito quanto à verdade de sua palavra escolheria, para testemunhas do cumprimento, aqueles mesmos que foram testemunhas de sua promessa. Creio que Davi tomou este cuidado ao pagar e cumprir seus votos: "farei isso", diz ele, "agora na presença de todo o seu povo." O povo era testemunha de suas angústias, orações e votos; e ele honrará a religião cumprindo à vista deles o que selou, assinou e entregou como seu voto ao Senhor. Não busques mais testemunhas do que a providência tornou cientes de teus votos, para que isso não seja interpretado como ostentação e vã autoglorificação: toma tantas quantas evitem que o bom exemplo se perca, ou que sejas suspeito de falsificar teu voto.
Em suma, com franqueza: fizeste teu voto num leito de doença diante de tua família, e diante da vizinhança? Cuida de cumpri-lo diante deles; que vejam que és o que prometeste ser. Este cuidado em teu voto será meio de fazê-lo o mais proveitoso para a religião, enquanto todos os que ouviram ou souberam de teu voto testemunhem que és agradecido, e assim dás a outros ocasião de glorificar teu Pai que está nos céus. Henry Hurst (1690), em "The Morning Exercises."
Pagarei os meus votos, etc. Foxe, em seus Acts and Monuments, relata o seguinte sobre o mártir John Philpot: "Foi com os xerifes ao lugar da execução; e, ao entrar em Smithfield, o caminho estava enlameado, e dois oficiais o ergueram para carregá-lo até a estaca. Então ele disse, bem-humorado: 'como, ireis me fazer papa?' Estou contente em fazer o resto do caminho a pé. Mas, chegando primeiro a Smithfield, ajoelhou-se ali, dizendo estas palavras: 'pagarei os meus votos em ti, ó Smithfield.'"
Versículo 15Salmo 116:15
Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. Ela tem valor ou importância nos seguintes aspectos: (1) por ser a remoção de mais um dos redimidos para a glória — o acréscimo de mais um às felizes hostes lá em cima; (2) por ser um novo triunfo da obra da redenção, atestando o poder e o valor dessa obra; (3) por muitas vezes fornecer prova mais direta da realidade da religião do que qualquer argumento abstrato poderia dar. Quanto a causa da religião foi promovida pelas mortes pacientes de Inácio, Policarpo, Latimer e Ridley, e Huss, e Jerônimo de Praga, e as hostes de mártires! Que não deve o mundo, e a causa da religião, a cenas como as que ocorreram nos leitos de morte de Baxter, e Thomas Scott, e Halyburton, e Payson! Que argumento para a verdade da religião, que ilustração de seu poder sustentador, que fonte de consolo para os que estão prestes a morrer, refletir que a religião não abandona o crente quando ele mais precisa de seu apoio e consolação; que ela pode nos sustentar na mais severa provação de nossa condição aqui; que pode iluminar o que nos parece, de todos os lugares, o mais escuro, sombrio, lúgubre, repulsivo — "o vale da sombra da morte." Albert Barnes.
Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. A morte dos santos é preciosa aos olhos do Senhor. Primeiro, porque ele "não vê como o homem vê." Ele não julga segundo a aparência; vê todas as coisas como realmente são, não parcialmente: mede a duração de seu povo, não no mapa do tempo, mas na escala infinita da eternidade; pesa a felicidade deles, não na pequena balança do prazer terreno, mas na balança equilibrada e justa do santuário.
Em seguida, penso que a morte dos santos é preciosa aos olhos do Senhor porque eles são tirados do mal vindouro; são livrados do fardo da carne; resgatados pelo sangue do Redentor, são sua propriedade adquirida, e agora ele os recebe a si mesmo. O pecado e a tristeza cessam para sempre; não há mais morte, a morte de Cristo é a sua redenção; pela morte ele venceu aquele que tinha o poder da morte; por isso, eles nele podem dizer: "ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó sepultura, onde está a tua vitória?"
De novo, a morte dos santos é preciosa aos olhos do Senhor, pois nela ele frequentemente vê as mais finas evidências da obra de seu próprio Espírito na alma; ele vê a fé em oposição aos sentidos, apoiando-se nas promessas de Deus. Repousando naquele que é poderoso para salvar, ele vê a esperança mesmo contra a esperança, ancorando a alma segura e firme naquele que penetrou além do véu; ele vê a paciência conformando-se à vontade de um Pai — a humildade curvando-se sob sua mão soberana — o amor brotando de um coração agradecido.
De novo, a morte dos santos é preciosa aos olhos do Senhor, pois desperta a ternura dos amigos cristãos sobreviventes, e é farta nas ações de graças de muitos corações ansiosos; suscita a solidariedade da caridade cristã, e realiza aquela comunhão dos santos de que fala o Apóstolo, quando diz: "se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um se alegra, todos se alegram." ... A morte dos santos é preciosa, porque a solidariedade da oração se derrama de muitos corações cristãos bondosos... Nem é isso tudo — a morte dos santos é preciosa, pois esse é o dia deles de ver Jesus face a face. Sermão de Patrick Pounden em "The Irish Pulpit," 1831.
Preciosa. A morte deles é preciosa (jakar); a palavra do texto é in pretio fuit, magni estimatum est (foi tida em preço, foi avaliada em muito). Veja como a palavra é traduzida em outros textos.
Honrada, Isaías 43:4 (jakarta): "tu foste precioso a meus olhos, tens sido honrado."
Muito estimado, 1 Samuel 18:30: "seu nome era muito estimado."
Caro, Jeremias 31:20. An filius (jakkir) pretiosus mihi Ephraim: "é Efraim meu filho caro?"
Esplêndido, claro, ou glorioso, Jó 31:26. Si vidi lunam (jaker) pretiosam et abeuntem: "a lua andando em esplendor."
Reuni todas essas expressões, e teremos então a força da palavra de Davi: "a morte dos santos é preciosa"; isto é, (1) honrada; (2) muito estimada; (3) cara; (4) esplêndida e gloriosa aos olhos do Senhor. Samuel Totshell, em "The House of Mourning," 1660.
Preciosa. Convém advertir, em primeiro lugar, sobre o sentido primário aparente da frase, a saber, que o Deus Todo-Poderoso vigia, e dá alto valor às vidas santas e úteis de seu povo, e não permitirá levianamente que essas vidas sejam abreviadas ou destruídas. Em segundo lugar, as palavras nos levam a advertir sobre o controle que ele exerce sobre as circunstâncias de sua morte. Estas estão sob seu especial arranjo. São importantes demais, em sua estimativa, para serem deixadas ao acaso. De fato, o acaso não existe. Na intervenção das causas segundas, ele cuida sempre de dirigi-las e controlá-las para o bem.
Que o mais fraco crente entre vós esteja bem seguro, "plenamente convencido disto mesmo", que ele jamais permitirá que vosso grande inimigo tire proveito de nada, na maneira de vossa morte, para vos fazer mal espiritual. Não; pelo contrário, ele toma todas as suas circunstâncias sob sua imediata e especial disposição. Este pensamento admite, talvez, uma terceira ilustração: quando os santos estão morrendo, o Senhor olha para eles, e é misericordioso para com eles. Quem pode dizer quantas vezes ele responde à oração, mesmo nos casos de crentes moribundos? Nunca deixa de sustentar, mesmo quando não julga bom poupar. Pelos sussurros de seu amor, pelo testemunho de seu Espírito, pela certeza de sua presença, pela revelação preparatória da glória celestial, ele fortalece seus aflitos, ele arruma toda a sua cama em sua enfermidade.
Ah! E quando, talvez, mal possuem uma cama para definhar, quando a pobreza ou outras circunstâncias calamitosas não lhes deixam, na dor da doença, outro lugar de repouso senão o chão nu para seus corpos inquietos, e seu seio para seus espíritos, alguma vez acham eles que Deus os falta? Não; muitos homens santos dormiram o sono da morte com o mártir missionário, em terra estranha e inóspita, ou com o missionário Smith, no chão de um calabouço, e ainda assim
"Jesus fez de seu leito de morte
Tão macio quanto travesseiros de penas."
Quando nenhum outro olho via, quando nenhum outro coração sentia, para estes dois mártires que jamais serão esquecidos, homens de Deus assassinados, e apóstolos de Jesus, então foram preciosos aos olhos de Deus, e ele estava presente com eles. E assim é com todos os seus santos, que são fiéis até a morte.
Em quarto lugar, somos autorizados, pelo texto e pelo teor da Escritura, a afirmar que o Senhor atribui grande importância ao próprio leito de morte. Isso é, em sua estimativa — seja qual for na nossa — precioso demais, importante demais, para ser ignorado; e por isso é frequentemente, com ênfase, embora sempre com aplicação prática, registrado na Escritura. É possível, certamente, dar-lhe importância demais, substituindo, como critério de caráter, aquilo que se pode professar sob a excitação de sofrimentos moribundos, pelo testemunho de uma carreira uniforme e conspícua de vida santa. Mas é igualmente indefensável, e até ingrato para com Deus, dar-lhe importância de menos, dar pouca conta a um bom fim, quando ligado a um bom começo e a uma perseverança paciente em fazer o bem.
"O quarto onde o homem bom encontra seu destino
É privilegiado além do curso comum da vida virtuosa."
Suas ocorrências são às vezes tão carregadas de utilidade permanente quanto de bem presente. O encerramento da carreira de um cristão na terra, seu desafio, na força de seu Salvador, a seu mais temível inimigo, a boa confissão que reconhece quando é capacitado a testemunhar diante dos que o cercam em seu leito de morte, tudo isso é precioso e importante aos olhos do Senhor, e assim deveria ser à nossa vista, e reverter, não apenas em vantagem sua, mas em benefício dos sobreviventes, "para o louvor da glória de sua graça." W. M. Bunting, em sermão na City Road Chapel, 1836.
Por que precisariam eles temer de antemão a morte, tendo o Senhor tanto cuidado dela quanto tem? Podemos com segurança, sem presunção, e devemos com firmeza, sem vacilar, descansar nisto: que sendo nosso sangue precioso aos olhos de Deus, ou não será derramado, ou é oportuno, e nos será proveitoso que o seja. Sobre este fundamento, "os justos são ousados como o leão", Provérbios 28:1. "Nem temem o que o homem lhes possa fazer." Hebreus 13:6. Os mártires estavam, sem dúvida, bem instruídos nisso, e muito sustentados por isso.
Quando o temor da morte impede de algum dever, ou puxa para algum mal, então lembra-te deste dito: "preciosa é aos olhos do Senhor a morte de seus favoritos." Pois quem não tomaria valentemente, sem desfalecer, uma morte tal que é preciosa aos olhos de Deus? William Gouge.
Seus santos sugere apropriação. Em outro lugar, Jeová afirma: "todas as almas são minhas." Mas ele tem uma propriedade especial em — e, portanto, direito sobre — todos os santos. Foi ele que os fez tais. Separado de Deus não poderia haver santidade. E assim como seu direito, seu direito original, sobre todos os homens, está ligado aos fatos de terem sido criados e dotados por sua mão, e por isso sujeitos a seu governo moral, assim, e muito mais, todos os seres santos, todos os homens santos, que devem à sua graça sua própria existência como tais, que deixariam de ser santos se pudessem deixar de ser seus santos, a quem ele recriou em Cristo Jesus pela comunicação de seu próprio amor, de sua própria pureza, de sua própria natureza, a quem ele continuamente sustenta neste estado elevado, assim, e muito mais, tais pessoas pertencem a Deus. São "seus santos", por ele e nele, santos de sua feitura, de sua modelagem e de seu estabelecimento, e por isso somente seus.
Que esta referência à poderosa ação de Deus por seu Espírito em vós, vossa ligação, vossa ligação espiritual com ele, e vossa experiência de seu poder salvador — que esta referência converta o mistério na misericórdia da santificação em vossos corações.
"Seus santos" denota, em segundo lugar, devotamento. São santos não apenas por ele, mas para ele; santos ao Senhor, santificados ou separados para seu serviço, entregues a si mesmos ao adorável Redentor.
"Seus santos" pode sugerir semelhança — estreita semelhança. Tais caracteres são enfaticamente semelhantes a Deus, santos e puros; filhos de seu Pai que está nos céus; certificando a todos ao redor seu parentesco filial com ele, por sua manifesta participação em sua natureza, por refletirem sua imagem e semelhança.
"Seus santos" sugere associações de afeto, de complacência. "O Senhor se compraz nos que o temem, em todos os que esperam em sua misericórdia"; "um povo próximo a ele"; "a porção do Senhor é o seu povo"; e "feliz é o povo que está em tal caso, sim, feliz é o povo cujo Deus é o Senhor." Condensado de um sermão de W. M. Bunting, 1836.
Santos. As pessoas entre as quais ele implicitamente se conta, chamadas santos, são no original designadas por uma palavra (Mydymx) que denota um especial respeito de Deus para com elas. A raiz de onde essa palavra procede significa misericórdia (dmx, consecravit, benefecit — consagrou, fez o bem). Por isso os hebreus deram tal nome à cegonha, ave que, entre as aves, é a mais misericordiosa; e isso não apenas as velhas para com as jovens, como a maioria, mas também as jovens para com as velhas, que costumam alimentar e carregar quando, pela idade, não conseguem mais ajudar-se a si mesmas.
Este título é atribuído aos homens em duplo respeito: 1. Passivamente, quanto à mente e afeição de Deus para com eles; 2. Ativamente, quanto à sua mente e afeição para com os outros. A bondade misericordiosa de Deus é grande para com eles; e a misericórdia e bondade deles são grandes para com seus irmãos. São, portanto, por uma espécie de excelência e propriedade, chamados "homens de misericórdia." Isaías 57:1. Em vista dessa dupla acepção da palavra, alguns a traduzem "misericordiosos, ternos, ou corteses", Salmo 18:25. Outros, com uma paráfrase de muitas palavras, porque não têm uma só palavra adequada para expressar o sentido pleno, assim: "aqueles a quem Deus segue com generosidade, ou a quem Deus estende sua generosidade." Este último tomo como o mais próprio para este lugar; pois, sendo a palavra tomada passivamente por aqueles que são feitos partícipes da bondade de Deus, ela mostra a razão daquela alta estima em que Deus os tem, a saber, sua própria graça e favor. Temos em português uma palavra que, neste sentido passivo, corresponde bem ao hebraico, que é esta: favorito. William Gouge.
A morte, agora, assim como também fez à minha, visitou muitas vezes vossa casa; e, de fato, ela fez terrível estrago entre nossos consolos. Ainda seremos vingados deste inimigo — este Rei dos Terrores. Não consigo, às vezes, deixar de cerrar o punho diante dele, e rugir em minha agonia e angústia: "serás tragado na vitória!" Há, contudo, também, entretanto, este consolo: "ó morte, onde está o teu aguilhão?" "Preciosa é aos olhos do Senhor a morte para os seus santos", em primeiro lugar; em segundo lugar, e apoiando-se na morte propiciatória, "preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos." O Espírito Santo, Salmo 116:15, declara o primeiro; nossos tradutores, homens honestos, inferiram muito justa e verdadeiramente o segundo. Somos-lhes gratos.
A morte de vossa adorável criança, a mais adorável nas belezas da santidade, com tudo o que nela havia de mais aflitivo e cheio de dura provação, é, contudo, entre as coisas de vossa pequena família, algo bem precioso aos olhos do Senhor; e isto, nela, é o que mais vos agrada; precioso, por causa do valor infinito, permanente e imutável da morte do próprio filho santo de Deus, Jesus. A calma tão admirável, o consolo tão sentido, sim, a alegria em meio à tribulação tão grande, puseram diante de vossos olhos um novo testemunho, tocante ao coração, de que, passados mil e oitocentos anos, "a morte dos seus santos" ainda é tão preciosa como sempre aos olhos do Senhor.
Tomai vosso livro da vida, aspergido com o sangue da aliança, e em vosso registro de família, colocai a morte de Rosanna entre as coisas preciosas a vossos olhos também — deveria antes ter dito, igualmente. Apresentai minhas mais afetuosas lembranças à srta. S. Dizei-lhe que enxugue essa lágrima — Rosanna não precisa dela. Espero que estejam todos bem em L., e que vossos jovens tomem com bom ânimo o caminho do Senhor. Meu caro irmão, "vai-te, teu filho vive", ainda é tão fresco quanto sempre foi, dos lábios daquele que vive para todo o sempre, e ressoa com som mais elevado e mais doce ainda do que quando foi ouvido pela primeira vez nos ouvidos e no coração do pai que trouxera e depositara seu filho doente e moribundo aos pés daquele que tem as chaves do inferno e da morte. John Jameson, em "Letters; True Fame," etc., 1838.
Versículo 16Salmo 116:16
Ó Senhor, deveras eu sou teu servo. Tu me fizeste livre, e sou impaciente para ser de novo atado. Rompeste os laços do pecado; agora, Senhor, ata-me com as cordas do amor. Livraste-me da tirania de Satanás, faze-me como um de teus servos contratados. Devo minha liberdade, minha vida, e tudo o que tenho, ou espero, ao teu generoso resgate: e agora, ó meu gracioso, meu Divino Amigo e Redentor, deponho a mim mesmo e tudo o que sou a teus pés. Samuel Lavington, 1728-1807.
Sou teu servo. Os santos sempre tiveram santo orgulho em ser servos de Deus; não pode haver maior honra do que servir a tal Senhor, que comanda o céu, a terra e o inferno. Não penses que honras a Deus servindo-o; mas é assim que Deus te honra, ao se dignar a te fazer seu servo. Davi não podia buscar dar a si mesmo título maior do que este: "ó Senhor, deveras eu sou teu servo, e filho da tua serva", e isto ele falava não na linguagem de um elogio humano, mas na humilde confissão de um crente. Sim, tanto exalta o apóstolo esta excelência, que coloca o título de servo antes do de apóstolo; primeiro servo, depois apóstolo. Grande era seu ofício por ser apóstolo, maior sua bênção por ser servo de Jesus Cristo; o primeiro é um chamado externo, o outro uma graça interna. Houve um apóstolo condenado, jamais algum servo de Deus. Thomas Adams.
Sou teu servo. Esta expressão do rei de Israel implica:
Um humilde senso de sua distância de Deus e de sua dependência dele. Esta é a primeira visão que um penitente tem de si mesmo quando volta a Deus. É a primeira visão que um homem bom tem de si mesmo em suas aproximações a, ou comunhão com, Deus. E, de fato, é o que deveria ser inseparável do exercício de qualquer outra afeição piedosa. Ter, por assim dizer, pensamentos elevados e honrosos da majestade e grandeza do Deus vivo, e uma profunda e reverente impressão da presença imediata e contínua do Deus que sonda os corações, isso naturalmente produz o maior autoabatimento, e a mais sincera sujeição de espírito diante de nosso Criador. Leva a confessá-lo como Senhor sobre tudo, tendo o mais absoluto direito, não apenas à obediência, mas à disposição de todas as suas criaturas. Não posso deixar de pensar que isso nos é transmitido na linguagem do salmista, quando ele diz: "ó Senhor, deveras eu sou teu servo." Ele era um príncipe entre seus súditos, e tinha muitas outras distinções honrosas, tanto naturais quanto adquiridas, entre os homens; mas tinha consciência de ser servo e súdito do Rei dos reis; e a força de sua expressão, "deveras, eu sou teu servo", não apenas significa a certeza da coisa, mas quão profunda e fortemente sentia convicção de sua verdade.
Esta declaração do salmista implica uma confissão de que ele estava vinculado por particular aliança e consentimento a Deus, e uma repetição do mesmo por nova adesão. Isso, sendo certamente verdade quanto a ele, tendo-se dedicado muitas vezes a Deus, tomo-o como confirmado pela repetição da expressão aqui, "ó Senhor, deveras eu sou teu servo; sou teu servo." Como se dissesse: "ó Senhor, é inegável; é impossível recuar disso. Sou teu por muitos laços. Sou, por natureza, teu súdito e tua criatura; e muitas vezes confessei teu direito e prometi meu próprio dever." Não preciso mencionar-vos nem o exemplo nos escritos do salmista, nem as ocasiões em sua história, em que solenemente se entregou a Deus. Basta dizer que era muito próprio que ele frequentemente trouxesse isso à memória, e o confessasse diante de Deus, pois, embora não pudesse tornar o direito de seu Criador ainda mais forte, certamente tornaria a culpa de sua própria violação dele tanto maior.
Esta declaração do salmista é expressão de sua peculiar e especial relação com Deus. "Sou teu servo, e filho da tua serva." Há outra passagem em seus escritos onde ocorre a mesma expressão: Salmo 86:16. "Volta-te para mim, e tem misericórdia de mim; dá a tua força ao teu servo, e salva o filho da tua serva." Há alguma variação entre os intérpretes na forma de ilustrar esta frase. Alguns a tomam como forma figurada de afirmar que ele estava vinculado da maneira mais forte a Deus, tal como aquelas crianças nascidas de uma serva, e nascidas na própria casa dele, eram, da mais absoluta maneira, propriedade de seu senhor. Outros a tomam por significar não apenas que foi criado na igreja visível de Deus, mas numa família piedosa, e educado em seu temor; e outros ainda a fariam significar, ainda mais especialmente, que a mãe do salmista era mulher eminentemente piedosa. E de fato não penso que fosse essa uma circunstância, se verdadeira, indigna de ele lembrar, nem do Espírito de Deus de registrar. John Witherspoon, 1722-1797.
Ó Senhor, sou teu servo, por duplo direito; (e, ah, quem me dera pudesse te servir em dobro;) como és o Senhor da minha vida, e sou filho da tua serva: não de Hagar, mas de Sara; não da escrava, mas da livre; e por isso te sirvo não em temor, mas em amor; ou, por isso em temor, porque em amor: e é então que o serviço é melhor feito, quando feito em amor. Em amor, de fato, estou obrigado a te servir, pois soltaste os meus laços; os laços da morte que me cercavam, ao me livrar de uma doença perigosa, e me restaurar à saúde: ou, num sentido mais elevado, soltaste os meus laços ao me livrar de ser cativo, para ser servo; e, mais ainda, de ser servo, para ser filho: e mais ainda, de ser filho da tua serva, para ser filho de ti mesmo. Sir Richard Baker.
Bendizei a Deus pelo privilégio de serem filhos de pais piedosos. Melhor ser filho de pai piedoso do que de pai rico. Espero que nenhum de vós tenha espírito tão vil que condene seus pais por causa de sua piedade. Certamente é grande privilégio quando podeis ir a Deus, e alegar a aliança de vosso Pai: "Senhor, deveras eu sou teu servo; sou teu servo, e filho da tua serva." Assim fez Salomão, 1 Reis 8:25-26: "Senhor, cumpre a tua palavra a teu servo Davi, meu pai." Não serdes nascidos de infiéis, nem de papistas, nem de defensores da superstição e do formalismo, mas numa família estrita, séria e piedosa, é grande vantagem que tendes. É melhor ser filho de ministros fiéis do que de nobres. Thomas Manton, em um sermão pregado diante dos Filhos do Clero.
Soltaste os meus laços. As misericórdias são dadas para nos encorajar no serviço de Deus, e deveriam ser lembradas para esse fim. A chuva desce sobre a terra, não para que fique mais estéril, mas mais fértil. Somos apenas mordomos; as misericórdias que desfrutamos não são nossas, mas devem ser aproveitadas para o serviço de nosso Senhor. Grandes misericórdias deveriam comprometer a grande obediência. Deus começa o Decálogo com uma lembrança de sua misericórdia ao tirar os israelitas do Egito: "eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito." Com quanto afeto reconhece o salmista sua relação com Deus como seu servo, ao considerar como Deus soltara seus laços: "ó Senhor, deveras eu sou teu servo; soltaste os meus laços!" A lembrança de tua misericórdia me fará não conhecer outra relação senão a de servo para contigo.
Quando lembramos que salário temos de Deus, devemos também lembrar que devemos mais serviço, e mais vivacidade no serviço, a ele. O dever é apenas a consequência natural da misericórdia. É irracional nos encorajarmos em nosso caminho para o inferno com a lembrança do céu, alimentar liberdade no pecado com a consideração da generosidade de Deus. Quando lembramos que tudo o que temos ou somos é dádiva da liberalidade de Deus, deveríamos nos considerar obrigados a honrá-lo com tudo o que temos, pois ele há de receber honra de todos os seus dons. É sinal de que visávamos à glória de Deus ao pedir misericórdia, quando também visamos à glória de Deus ao desfrutá-la. É sinal de que o amor soprou a lembrança da misericórdia em nossos corações, quando ao mesmo tempo sopra em nós a resolução de aproveitá-la. Não são nossas línguas, mas nossas vidas que devem louvá-lo. As misericórdias não são dadas a um só membro, mas a todo o homem. Stephen Charnock.
Versículo 17Salmo 116:17
O sacrifício de louvor.
"Quando todo o coração é puro, cada desejo ardente
Sublimado pelo fogo etéreo do santo amor,
Sobre palavras aladas nossos pensamentos ofegantes podem erguer-se,
E subir ao céu, sacrifício agradecido." James Scott.
Versículo 18Salmo 116:18
Votos. Serão os votos bem compostos tais promotores da religião? E devem ser feitos com tanta cautela? E vinculam com tanto rigor? Então, tende certeza de esperar até que Deus vos dê ocasiões justas e adequadas para fazer votos. Não sejais precipitados demais em fazer votos: é apressamento inconsiderado e tolo dos cristãos criar mais ocasiões de votar do que Deus lhes proporciona. Fazei vossos votos, e não os poupeis, tantas vezes quantas Deus vos ordenar; mas não o façais mais vezes do que isso. Poderíeis estranhar que eu vos dissuada de fazer votos com frequência, quando tendes misericórdias tão constantes; e com razão poderíeis estranhar, se Deus esperasse vosso vínculo e garantia extraordinários para cada misericórdia ordinária: mas ele não o exige; contenta-se com a garantia ordinária de gratidão para as misericórdias ordinárias; quando ele pede garantia e reconhecimento extraordinários, ao conceder misericórdias extraordinárias, então dai-o e fazei-o. Henry Hurst.
Agora. Deus deu ordem para que nenhuma parte da oferta de ação de graças fosse guardada até o terceiro dia, para nos ensinar a apresentar nossos louvores quando os benefícios são recém-recebidos, os quais de outro modo logo perderiam o viço e se corromperiam, como o peixe. "Pagarei os meus votos agora", diz Davi. Samuel Clarke (1599-1682), em "A Mirror or Looking glass, both for Saints and Sinners."
Na presença de todo o seu povo. Por causa do bom exemplo. Isto também era próprio de um príncipe, Ezequiel 46:10. O assento do rei no santuário era aberto, para que todos pudessem vê-lo ali, 2 Reis 11:14, e 2 Reis 23:3. John Trapp.
Na presença de todo o seu povo. Sede ousados, sede ousados, servos do Senhor, ao proclamar os louvores do vosso Deus. Ide em meio às multidões; e no meio delas louvai ao Senhor. Homens ímpios são ousados demais em derramar suas blasfêmias para a desonra de Deus; não se importam com quem os ouça. Não hesitam em fazê-lo no meio das cidades. Serão eles mais audazes para desonrar a Deus, do que vós zelosos para honrá-lo? Certamente Cristo se mostrará tão pronto a vos confessar, quanto vós sois, ou podeis ser, para o confessar a ele. Mateus 10:32. Esta santa ousadia é o caminho certo para a glória. William Gouge.
Versículo 19Salmo 116:19
Ele não diz simplesmente "no meio de Jerusalém", mas no meio de ti, ó Jerusalém. Fala à cidade como quem a amava e nela se comprazia. Vemos aqui como os santos se afeiçoavam à cidade em que estava a casa de Deus. Assim deveríamos nos comover em espírito para com aquela igreja em que Deus habita, o templo que ele habita, que é edificado, não de pedras, mas das almas dos fiéis. Wolfgang Musculus.