Notas explicativas e citações: Salmo 118
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 118, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 118 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Salmo inteiro. Este é o último dos Salmos que formam o grande Halel, que os judeus cantavam ao final da páscoa. — Adam Clarke.
Salmo inteiro. Todo o Salmo tem uma formação peculiar. Assemelha-se aos Salmos maskil, pois cada versículo tem em si mesmo seu sentido completo, seu próprio perfume e matiz; um pensamento se liga a outro como ramo a ramo e flor a flor. — Franz Delitzsch.
Salmo inteiro. Nada pode superar a força e a majestade, assim como a beleza ricamente variada, deste Salmo. Seu tema geral é bem manifesto. É a expressão profética, pelo Espírito de Cristo, daquele acento exultante de triunfo antecipado, no qual a filha virgem de Sião ridicularizará, na perspectiva imediata da vinda de seu Libertador, os exércitos reunidos do Homem do Pecado (Salmo 118:10-13). — Arthur Pridham.
Salmo inteiro. Os dois Salmos, 117 e 118, são colocados juntos porque, embora cada um seja uma porção distinta em si mesma, o 117 é um exórdio ao que se segue, um chamado e um convite ao mundo gentio e pagão para reconhecer e louvar a Jeová.
Chegamos agora à porção final do hino que Cristo e seus discípulos cantaram antes de saírem para o monte das Oliveiras. Nada poderia ser mais apropriado, ou mais adequado para consolar e encorajar, naquele momento terrível, do que uma profecia que, saltando por cima do sofrimento a suportar, mostrava a glória que depois se seguiria, e um cântico de triunfo, então apenas recitado, mas em devido tempo a ser literalmente cumprido, quando a cruz seria sucedida por uma coroa.
Este Salmo não é apenas citado com frequência no Novo Testamento, mas também foi parcialmente aplicado num período da passagem de nosso Salvador pela terra, e assim nos é dado testemunho decisivo do propósito para o qual foi originalmente e profeticamente destinado. Foi parcialmente usado quando o Messias, nos dias de sua humilhação, foi recebido com triunfo e aclamação em Jerusalém; e podemos concluir que será plenamente encenado quando nosso Senhor glorificado e triunfante, vindo com dez mil de seus santos, se levantar de novo sobre a terra e receber a saudação prometida: "Bendito o Rei que vem em nome de Jeová."
Esta representação dramática do Messias vindo em glória, para tomar seu grande poder e reinar entre nós, é distribuída ao personagem principal, "o Rei dos reis e Senhor dos senhores", a seus santos que o seguem em procissão, e a sacerdotes e levitas, representando a nação judaica.
O Conquistador e seus acompanhantes cantam o Salmo 117, um hino introdutório, convidando a todos, judeus e gentios, a compartilhar a misericordiosa bondade de Deus, e a cantar seus louvores. É um ajuntamento de todo o povo do Senhor, para serem testemunhas e partícipes de sua glória. Os versículos 1-3 são cantados por vozes isoladas. Enquanto a procissão avança, o tema do regozijo é anunciado. A primeira voz repete: "dai graças ao SENHOR; porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre." Outra voz solitária convoca Israel a reconhecer esta grande verdade; e uma terceira convida a casa de Arão, o sacerdócio, a reconhecer sua parte no amor de Jeová.
O versículo 4 é um coro; toda a procissão, os vivos e os mortos que ressuscitam para encontrar Cristo (1 Tessalonicenses 4:16), clamam em alta voz o refrão do cântico do versículo 1. Chegados ao portão do templo, ou antes, ao portão de Jerusalém, o Conquistador sozinho canta os versículos 5-7. Ele começa recontando as circunstâncias de sua angústia. Depois, conta seu refúgio: recorri a Deus, contei-lhe minhas tristezas, e ele me ouviu.
A procissão, em coro, canta os versículos 8-9, retomando a substância do cântico do Messias e ecoando plenamente o sentimento: "é melhor confiar no SENHOR do que depositar confiança nos príncipes." O Conquistador sozinho volta a cantar os versículos 10-14. Ele amplia sobre a magnitude de seus perigos, e a falta de esperança de sua situação. Não era uma dificuldade comum, nem um único inimigo; nações inteiras o cercaram.
A procissão, em coro, no versículo 15-16, atribui a grande libertação de seu Senhor à sua pessoa justa, e à sua causa justa. Justiça, equidade e verdade, tudo exigia que o Messias não fosse pisado. "Não foi teu braço, ó Jeová, que te obteve a vitória?" O Messias agora assume a linguagem de um conquistador, versículos 17-19. Meus sofrimentos foram intensos, mas foram só por uma estação. Deitei minha vida, e agora a retomo: e então, em alta voz, como quando ressuscitou a Lázaro do túmulo, ele clama aos que estão dentro dos muros: "abri-me as portas da justiça: entrarei por elas, e louvarei ao SENHOR."
Os sacerdotes e levitas lá dentro obedecem de imediato seu comando, e, ao mesmo tempo em que abrem as portas, cantam: "esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão." Ao entrar, o Conquistador sozinho repete o versículo 21. Suas tristezas terminaram, sua vitória está completa. Os objetivos pelos quais viveu e morreu, e pelos quais suas orações foram oferecidas, agora se cumprem, e assim, em poucas e breves palavras, ele exprime sua alegria e gratidão a Deus.
Os sacerdotes e levitas cantam em coro os versículos 22-24. Depositários e intérpretes das profecias havia muito tempo, agora, pela primeira vez, citam e aplicam uma, Isaías 28:16, que ocupava lugar conspícuo, mas nunca antes fora inteligível aos ouvidos judaicos. "O homem de dores", a pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a principal pedra da esquina. O Conquistador agora está dentro dos portões, e prossegue para cumprir seu bom propósito, Lucas 1:68. "Hosana, salva o teu povo, ó SENHOR, e envia-lhes agora prosperidade", versículo 25.
Os sacerdotes e levitas são levados pelo Espírito a usar as palavras preditas por nosso Senhor, Mateus 23:39. Agora, enfim, o véu é removido, e seu povo diz: "bendito aquele que vem em nome do Senhor", versículo 26. O Conquistador e seu séquito (versículo 27) agora louvam a Deus, que deu luz, libertação e salvação, e lhe oferecem o sacrifício de ação de graças por tudo o que desfrutam. O Conquistador sozinho (versículo 28) faz então um solene reconhecimento de gratidão e louvor a Jeová, e então, estando todos dentro dos portões, o corpo unido, a procissão triunfante, sacerdotes e levitas, terminam, como começaram: "dai graças ao SENHOR; porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre." — R. H. Ryland, em The Psalms restored to Messiah, 1853.
Salmo inteiro. Era o Salmo favorito de Lutero, seu belo Confitemini, que "o ajudara a sair daquilo em que nem imperador, nem rei, nem qualquer outro homem na terra poderia tê-lo ajudado." Com a exposição desta que era sua joia mais nobre, sua defesa e seu tesouro, ele se ocupou na solidão de seu Patmos (Coburgo). — Franz Delitzsch.
Salmo inteiro. Este é o meu Salmo, meu Salmo escolhido. Amo todos eles; amo toda a Sagrada Escritura, que é minha consolação e minha vida. Mas este Salmo está mais perto do meu coração, e tenho direito peculiar de chamá-lo meu. Ele me salvou de muitos perigos urgentes, dos quais nem imperador, nem reis, nem sábios, nem santos poderiam ter-me salvo. É meu amigo, mais querido para mim do que todas as honras e o poder da terra... Mas poder-se-ia objetar que este Salmo é comum a todos; que ninguém tem direito de chamá-lo seu. Sim; mas Cristo também é comum a todos, e, contudo, Cristo é meu. Não sou ciumento de minha propriedade; eu a dividiria com o mundo inteiro... E quisera Deus que todos os homens reivindicassem este Salmo como especialmente seu! Seria a mais tocante das disputas, a mais agradável a Deus — uma disputa de união e caridade perfeita. — Lutero, de sua Dedicatória de sua Tradução do Salmo 118 ao Abade Frederico de Nuremberg.
Versículo 1Salmo 118:1
Porque ele é bom. O louvor de Deus não poderia ser expresso em menos palavras que estas, "porque ele é bom." Não vejo o que possa ser mais solene do que esta brevidade, pois a bondade é tão peculiarmente o atributo de Deus, que o próprio Filho de Deus, quando alguém se dirigiu a ele chamando-o "Bom Mestre" — alguém que, contemplando sua carne e não compreendendo a plenitude de sua natureza divina, considerava-o apenas homem —, respondeu: "Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus." E o que é isso senão dizer: se queres chamar-me bom, reconhece-me como Deus? — Agostinho.
A sua misericórdia dura para sempre. O que o final do Salmo 117 diz da verdade de Deus — que ela dura para sempre — os versículos 1-4 dizem de sua irmã, a sua misericórdia ou benignidade. — Franz Delitzsch.
Versículos 1–4Salmo 118:1-4
Assim como a salvação dos eleitos é uma só, e o amor de Deus por eles é um só, assim também seu cântico deveria ser um só, como aqui, por quatro vezes distintas, se diz: a sua misericórdia dura para sempre. — David Dickson.
Porque ouvimos aqui a sentença tão frequentemente repetida, "a misericórdia do Senhor dura para sempre", não devemos pensar que o Espírito Santo empregou tautologia vazia; nossa grande necessidade é que a exige, pois nas tentações e perigos a carne começa a duvidar da misericórdia de Deus. Por isso, nada deveria ser tão frequentemente impresso na mente quanto isto: que a misericórdia de Deus não falha, que o Pai Eterno não se cansa de remitir os nossos pecados. — Solomon Gesner.
Versículo 2Salmo 118:2
Diga agora Israel. Embora todos os eleitos tenham interesse no louvor de Deus pelas mercês adquiridas por Cristo em seu favor, os eleitos de Israel têm o primeiro lugar no cântico; pois Cristo lhes foi prometido em primeiro lugar, e deles procedeu segundo a carne, e será mais maravilhoso a respeito deles. — David Dickson.
Diga agora Israel que a sua misericórdia dura para sempre. Que os que a experimentaram a reconheçam e a declarem a outros; não apenas a creiam de coração e privadamente lhe deem graças, mas confessem-na com a boca para a glória da graça divina. — John Gill.
Versículos 2–4Salmo 118:2-4
Agora. Cuidado com a demora. As demoras são perigosas; nosso coração esfriará, e nosso afeto decairá. É bom, pois, agir enquanto se chama hoje, enquanto se chama agora. Agora, agora, agora, diz Davi; há três "agoras", e todos para nos ensinar que, pelo que sabemos, é agora ou nunca, hoje ou nunca mais; devemos louvar a Deus enquanto o coração está quente, senão nosso ferro esfriará.
Satanás tem pouca esperança de prevalecer, a menos que consiga nos persuadir a adiar nossos deveres quando o relógio bate; e assim sua estratégia é nos instar a deixá-lo para outra ocasião, tida por mais conveniente ou melhor. Faça agora mesmo, na próxima hora, no próximo dia, na próxima semana (diz ele); e por que não no próximo ano? Depois (diz ele) será tão bom quanto agora. Isto ele diz, de fato, mas o que quer dizer com "depois" é nunca: e quem não está pronto hoje não tem promessa alguma de que estará mais apto amanhã.
Não temos comando nem sobre Deus nem sobre nosso próprio coração; e, quando perdemos a oportunidade, Deus, para nos corrigir, talvez não nos dê mais o mesmo afeto. O galo dentro de nós não cantará para nos despertar, o sol não brilhará, e então corremos o risco de desistir de vez; e, uma vez que cheguemos à omissão total de um dever, por que não de outro, e de outro, e assim de todos? E então, adeus a nós. — Richard Capel (1586-1656), em Temptations, their Nature, Danger, Cure.
Versículo 4Salmo 118:4
Os que temem ao SENHOR. Estes não eram nem "da casa de Arão", isto é, dos sacerdotes ou levitas, nem "da casa de Israel", isto é, judeus de nascimento; mas podiam ser da religião judaica, e "temer ao Senhor." Eram chamados prosélitos, e aqui são convidados a louvar ao Senhor. — Joseph Caryl.
A misericórdia de Deus dura para sempre. Isto é, sua misericórdia da aliança, aquele precioso privilégio da igreja: isto é perpétuo para seu povo, e deveria permanecer perpetuamente como memorial em nosso coração. E é por isso que este é o refrão destes primeiros quatro versículos. Não há aqui repetição vazia alguma, mas notável expressão da insaciabilidade dos santos em louvar a Deus por sua misericórdia que jamais falha. Estas aves celestiais, tendo aprendido uma nota, cantam-na uma vez e outra. No último Salmo há apenas seis versículos, e contudo doze Aleluias. — Abraham Wright.
Versículo 5Salmo 118:5
Talvez o versículo 5, que diz, na angústia invoquei ao SENHOR (literalmente, "do desfiladeiro estreito"), e o SENHOR me respondeu, e me pôs num lugar largo — que descreve a libertação de Israel de seu cativeiro —, tenha sido cantado enquanto saíam de um desfiladeiro estreito para a planície; e, quando chegaram ao portão do templo, então irromperam em coro pleno nas palavras "abri-me as portas da justiça" (versículo 19). — Christopher Wordsworth.
Diz-se: invoquei ao SENHOR. Precisas aprender a invocar, e não ficar aí sentado sozinho, deitado no banco, com a cabeça caída e balançando, mordendo-te e devorando-te com teus próprios pensamentos; mas vem, ó indolente, ajoelha-te, ergue as mãos e os olhos ao céu, toma um Salmo ou uma oração, e expõe tua angústia com lágrimas diante de Deus. — Martinho Lutero.
O SENHOR me respondeu, e me pôs num lugar largo. Pode-se traduzir "o Senhor me respondeu amplamente", como fez com Salomão, quando lhe deu mais do que pedira; e como faz com seu povo, quando lhe dá suficiência e abundância de sua graça; não apenas acima de seus méritos, mas acima de seus pensamentos e expectativas. Veja Efésios 3:20. — John Gill.
Versículo 6Salmo 118:6
O SENHOR está a meu favor. A razão que o salmista dá aqui para sua confiança, ou para seu não temer, é o grande fato de que o Senhor está a seu favor; e a ideia proeminente que isso nos traz é a de Aliança — o fazer causa comum, que o grande Deus sem dúvida faz, com o homem imperfeito, embora sinceramente confiante. Sabemos muito bem a grande ansiedade demonstrada pelos homens, em todos os seus conflitos mundanos, de assegurar o auxílio de um aliado poderoso; em seus litígios, de reter os serviços de um advogado poderoso; ou, em suas tentativas de ascensão no mundo, de conquistar a amizade e o interesse de quem possa favorecer seus objetivos. Quando Herodes ficou muito irritado com os habitantes de Tiro e Sidom, estes não ousaram aproximar-se dele antes de fazer de Blasto, o camareiro do rei, seu amigo. Se tal ou tal pessoa está ao seu lado, os homens pensam que tudo vai correr bem. Quem está tão bem quanto aquele que pode dizer: "o Senhor está a meu favor"? — Philip Bennet Power, em The I Will's of the Psalms, 1861.
Deus está com aqueles que chama e emprega em serviço público. Josué foi exortado a ser forte e corajoso, "porque o Senhor teu Deus é contigo" (Josué 1:9). Assim também Jeremias: "Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar" (Jeremias 1:8). A presença de Deus deveria pôr vida em nós. Quando naturezas inferiores estão apoiadas por uma superior, ficam cheias de coragem: quando o amo está por perto, o cão se aventura contra criaturas maiores que ele mesmo e não teme; em outra ocasião, não o fará se seu amo estiver ausente. Quando Deus, que é supremo, está conosco, isso deveria nos tornar destemidos.
Assim foi com Davi: o SENHOR está a meu favor; não temerei o que me possa fazer o homem. Que ele faça o pior, franza o cenho, ameace, trame, se arme, golpeie; o Senhor está a meu favor, tem cuidado especial por mim, é para mim um escudo; não temerei, mas esperarei; como está no versículo seguinte: "verei o meu desejo sobre os que me odeiam", verei sua mudança ou sua ruína. Nosso socorro está no nome do Senhor, mas nossos temores estão no nome do homem. — William Greenhill.
Não temerei. Davi (ou o povo de Deus, se preferir), ensinado pela experiência, exulta em grande confiança, mas não diz "o Senhor é meu ajudador, e não sofrerei mais", sabendo que, enquanto for peregrino aqui embaixo, terá muito que sofrer de seus inimigos cotidianos; mas diz: "o Senhor é meu ajudador, não temerei o que me possa fazer o homem." — Robert Belarmino.
"Homem" aqui não significa um homem, mas a humanidade, ou o homem em oposição a Deus. — Joseph Addison, Alexander.
Versículo 8Salmo 118:8
Pode talvez parecer abaixo da dignidade e solenidade de nosso assunto observar que este versículo 8 deste Salmo é o versículo do meio da Bíblia. Há, creio eu, 31.174 versículos ao todo, e este é o 15.587º. Não desejo, nem aconselharia, que gastassem seu tempo contando por si mesmos, nem eu mesmo teria notado este assunto, se não fosse por querer sugerir uma observação a respeito: e é que, embora possamos em geral encarar tais cálculos como mera ociosidade laboriosa — e certamente já foram levados à mais minuciosa dissecção de cada parte da Escritura, como quantas vezes ocorre a palavra "Senhor", a palavra "Deus", e até a palavra "e" —, ainda assim creio que a integridade do volume sagrado deve muito a esta escrupulosa pesagem desses calculistas.
Não digo, nem penso, que tivessem tais motivos em mente; mas, quaisquer que fossem suas razões, não posso deixar de pensar que houve uma Providência soberana ao converter estas investigações triviais e aparentemente inúteis em salvaguardas e cercas adicionais em torno do texto sagrado. — Barton Bouchier.
É melhor confiar no SENHOR, etc. Lutero, sobre este texto, chama-o artem artium, et mirificam, ac suam artem, non fidere hominibus, isto é, a arte das artes, e aquela que ele bem estudara, não confiar no homem: quanto à confiança em Deus, chama-a sacrificium omnium gratissimum et suavissimum, et cultum omnium pulcherrimum, o mais agradável e doce de todos os sacrifícios, o melhor de todos os serviços que prestamos a Deus. — John Trapp.
É melhor confiar no SENHOR. Todos fazem este reconhecimento, e, contudo, mal há um em cem plenamente persuadido de que só Deus pode dar-lhe socorro suficiente. Alcançou lugar elevado entre os fiéis aquele que, descansando satisfeito em Deus, jamais deixa de nutrir esperança viva, mesmo quando não encontra ajuda alguma na terra. — João Calvino.
Frequentemente é grande causa de Deus não abençoar os meios, o fato de estarmos tão inclinados a confiar neles, e roubar de Deus sua glória, sem esperar a bênção de suas próprias mãos. Isto faz o Senhor nos contrariar, e amaldiçoar seus próprios benefícios, porque não o buscamos a ele, mas sacrificamos às nossas próprias redes, depositando confiança nos meios externos. Por isso, quando esperamos ajuda deles, Deus sopra sobre eles, e os transforma em nosso dano e destruição. — Abraham Wright.
Quando meus inimigos tiverem sido reduzidos ao desprezo, que nenhum amigo se apresente a mim como homem bom, convidando-me a repousar minha esperança nele mesmo; pois ainda assim devo confiar somente no Senhor. — Agostinho.
Versículos 8–9Salmo 118:8-9
Nada é mais proveitoso do que se demorar em verdades familiares. Houve alguma vez um homem bom que não cresse ser melhor confiar em Jeová do que depender de qualquer braço criado? Contudo Davi aqui repete esta verdade, para que, se possível, ela penetre fundo em cada mente. — William S. Plumer.
Versículo 9Salmo 118:9
É melhor confiar no SENHOR do que depositar confiança nos príncipes. Davi sabia isso por experiência, pois confiou em Saul, seu rei; em outra ocasião, em Aquis, o filisteu; em outra, em Aitofel, seu próprio conselheiro mais prudente, além de outros; e todos eles o falharam; mas ele nunca confiou em Deus sem sentir o benefício disso. — Robert Belarmino.
É melhor, etc. Literalmente, "bom é confiar em Jeová mais do que depositar confiança no homem." Esta é a forma hebraica de comparação, equivalente ao que está expresso em nossa versão, "é melhor", etc. É melhor: (1) porque o homem é fraco — mas Deus é todo-poderoso; (2) porque o homem é egoísta — mas Deus é benevolente; (3) porque o homem é frequentemente infiel e enganoso — Deus, nunca; (4) porque há emergências, como a morte, em que o homem não pode nos socorrer, por mais fiel, bondoso e amigo que seja — mas não há circunstância nesta vida, nem na morte, em que Deus não possa nos ajudar; e (5) porque a capacidade do homem de nos ajudar diz respeito, na melhor das hipóteses, apenas à vida presente — o poder de Deus será tão vasto quanto a eternidade. — Albert Barnes.
Do que depositar confiança nos príncipes. As palavras dos grandes homens, diz alguém, são como sapatos de defunto; pode ficar descalço quem por eles esperar. — John Trapp.
Os que constantemente se achegam a Deus, e dele dependem, têm vida muito mais doce do que aqueles que servem aos príncipes com grande deferência e expectativa. Um servo do Senhor está muito melhor provido do que os maiores favoritos e valimentos dos príncipes. — Thomas Manton.
Versículo 11Salmo 118:11
Quer Tértulo persiga a igreja com a língua, quer Elimas com a mão, Deus tem o comando de ambos. De fato, os ímpios são causas mediadoras de nossas aflições: os justos são como o centro, os outros a circunferência; para qualquer lado que se virem, se acham cercados; e, contudo, o centro permanece fixo e imóvel, fundado que está em Cristo.
É bom para alguns homens ter adversários; pois muitas vezes temem mais pecar, para que os inimigos não os desprezem, do que o repudiam por consciência, para que Deus não os condene. Falam mal de nós: se é verdade, corrijamos; se é falso, desprezemos; seja falso ou verdadeiro, observemos. Assim aprenderemos o bem a partir do mal deles; façamo-los nossos preceptores, e demos-lhes nossa aprendizagem.
Em tudo, igualemo-nos a eles; em nada, temamos. "O que para eles é, na verdade, indício de perdição, mas para nós de salvação" (Filipenses 1:28). A igreja é aquela torre de Davi; se há mil armas para nos ferir, há mil escudos para nos guardar (Cântico dos Cânticos 4:4). — Thomas Adams.
Versículo 12Salmo 118:12
Cercaram-me como abelhas. Os inimigos de Cristo são tão maldosos que, ao lutar contra o seu reino, não se importam com o que lhes possa acontecer, contanto que firam seu povo; mas, assim como a abelha se destrói ao ferroar, e perde a vida ou o poder junto com o ferrão, assim também eles. Tudo o que os inimigos da igreja de Cristo podem fazer contra seu povo é apenas incomodá-lo externamente; suas feridas são como a picada de uma abelha, isto é, causam dor e inchaço, e apenas um breve incômodo, mas não são mortais. — David Dickson.
Cercaram-me como abelhas. Ora, como o vento de nordeste era naturalmente adverso a qualquer progresso para nordeste, foi necessário que o barco fosse rebocado pela tripulação. Enquanto a corda era puxada pela grama nas margens, aconteceu que perturbou um enxame de abelhas. Num instante, como uma grande nuvem, elas se lançaram sobre os homens que puxavam; cada um deles se atirou de cabeça na água e correu para regressar ao barco. O enxame os seguiu de perto, e em poucos segundos encheu cada canto e fresta do convés.
Que cena de confusão se seguiu, é fácil imaginar. Sem qualquer pressentimento de mal, eu arrumava minhas plantas em minha cabine, quando ouvi ao meu redor uma correria que a princípio tomei apenas por brincadeiras de meus homens, já que era esse o costume do dia. Chamei para perguntar o significado do barulho, mas só obtive gestos afobados e olhares de censura como resposta. O grito de "Abelhas! Abelhas!" logo chegou aos meus ouvidos, e eu me pus a acender um cachimbo. Minha tentativa foi de todo em vão; num instante, milhares de abelhas estavam ao meu redor, e fui impiedosamente picado por todo o rosto e as mãos.
Em vão tentei proteger o rosto com um lenço, e quanto mais violentamente eu agitava as mãos, tanto mais violenta se tornava a fúria dos insetos irritados. A dor enlouquecedora ora estava na minha face, ora no olho, ora no cabelo. Os cães debaixo da minha cama saltaram desesperados, derrubando tudo pelo caminho. Perdendo quase todo o controle de mim mesmo, atirei-me ao rio; mergulhei fundo, mas tudo em vão, pois as picadas continuavam a chover sobre minha cabeça.
Sem atender ao aviso de meus homens, arrastei-me pela grama dos juncos até a margem pantanosa. A grama lacerava-me as mãos, e tentei alcançar terra firme, esperando encontrar abrigo no bosque. De repente, quatro braços poderosos me agarraram e me arrastaram de volta com tanta força que pensei que fosse sufocar na lama. Fui obrigado a voltar a bordo, e fugir era coisa nem de se pensar... Ao anoitecer, eu estava pronto para um confronto com uma dezena de búfalos, ou um par de leões, antes que ter mais alguma coisa a ver com abelhas; e este era um sentimento com que toda a tripulação do navio concordava de coração. — George Schweinfurth, em The Heart of Africa, 1873.
Davi disse de seus inimigos que o cercaram como abelhas; não disse como vespas. Pois, embora usassem seu ferrão, ele achou também mel nelas. — Peter Smith, 1644.
Cercaram-me como abelhas.
Como vespas, provocadas por crianças em sua brincadeira,
despejam-se de suas moradas pela larga estrada,
em enxames atacam o viajante inocente,
afiam todos os seus ferrões, e convocam toda a sua fúria,
todas se erguem em armas, e com clamor geral,
defendem seus domos de cera e sua prole zunidora;
assim das tendas a legião fervorosa se espalha em enxame,
tão alto o seu clamor, e tão agudas as suas armas. — Homero.
Apagam-se como fogo de espinhos. A ilustração do "fogo de espinhos" deriva do fato de que eles rapidamente se incendeiam numa labareda, e então a chama logo se apaga. Nos países orientais, era comum queimar os campos na época seca do ano, para limpá-los de espinhos, urzes e ervas daninhas. Naturalmente, nessa época eles se incendiavam depressa, ardiam rapidamente, e logo se consumiam. Assim o salmista diz que foi com seus inimigos. Ele os alcançou, por mais numerosos que fossem, como o fogo percorre um campo em tempo de seca, queimando tudo diante de si. — Albert Barnes.
Em nome do SENHOR. Isto tem sido entendido como o tessera, a senha de ataque, ou sinal para o combate, como as de Ciro — "Júpiter é nosso líder e aliado", "Júpiter, nosso capitão e preservador" (Ciropédia 1.3 e 7); e a de Gideão (Juízes 7:18). Estando essa interpretação fundada apenas na repetição, não seria mais provável que se destinasse a servir à execução musical? — Samuel Burder.
Versículo 13Salmo 118:13
Empurraste-me com força, para que eu caísse. A apóstrofe é forte, e provavelmente dirigida a alguma pessoa em particular na batalha, que colocara Davi em grande perigo. — Samuel Burder.
Empurraste-me com força, para que eu caísse. De fato o fizeste. Fizeste tua parte, ó Satanás, e foi bem feita. Conhecias todos os meus pontos mais fracos, viste onde minha armadura não estava bem afivelada, e me atacaste na hora certa e do jeito certo. O grande poeta espanhol Calderón conta de alguém que usou uma pesada armadura por um ano inteiro, e a deixou de lado por uma hora, e naquela hora o inimigo veio, e o homem pagou com a vida por sua negligência. "Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam." — John Mason Neale.
Versículo 14Salmo 118:14
O SENHOR é minha força e meu cântico, e tornou-se a minha salvação. "Minha força", que sou capaz de resistir a meus inimigos; "minha salvação", que sou livre de meus inimigos; "meu cântico", que posso alegremente louvá-lo e cantar dele depois de ser libertado. — William Nicholson, 1662.
Bons cânticos, boas promessas, bons provérbios, boas doutrinas não pioram com a idade. O que se cantou logo após a travessia do mar Vermelho é aqui cantado pelo profeta, e será cantado até o fim do mundo pelos santos do Altíssimo. — William S. Plumer.
E tornou-se a minha salvação. Não que ele tenha se tornado algo que antes não era, mas porque seu povo, quando creu nele, se tornou o que antes não era; e então ele passou a ser salvação para eles, voltados que estavam para ele, o que não era para eles quando dele estavam apartados. — Agostinho.
Versículo 15Salmo 118:15
A voz de júbilo e de salvação está nas tendas dos justos. Cada um deveria zelar para que sua habitação seja uma das tendas dos justos, e para que ele mesmo, juntamente com sua casa, ande em justiça (Lucas 1:75). E deveria ser tão diligente em hinos e cânticos sagrados, que seus aposentos ressoassem com eles. — Martin Geier.
Versículo 16Salmo 118:16
A destra do SENHOR faz proezas. Três vezes ele celebra a destra de Deus, para exprimir seu desejo fervoroso de dizer o máximo possível; ou, segundo pensam alguns, em referência à Sagrada Trindade. — John Trapp.
Versículo 17Salmo 118:17
Não morrerei, mas viverei. Como Cristo ressuscitou, "não morreremos, mas viveremos"; não morreremos eternamente, mas viveremos neste mundo a vida da graça, e no mundo vindouro a vida da glória; para que em ambos possamos declarar as "obras" e entoar os louvores de Deus, nosso Salvador. Somos "castigados" por nossos pecados, mas "não entregues à morte" e à destruição eterna; antes, o nosso ser "castigado" é agora prova de que não somos assim entregues; "pois que filho há a quem o pai não castigue?" (Hebreus 12:7). — George Horne.
Não morrerei, mas viverei. Viver significa, não meramente estar vivo, mas viver com conforto, ter contentamento em nossa vida; viver é prosperar. Assim a palavra é frequentemente usada na Escritura. "Não morrerei, mas viverei." Davi não se via como imortal, nem que jamais morreria; sabia que estava sujeito ao estatuto da morte: mas o sentido é, não morrerei agora, não morrerei pelas mãos destes homens, não morrerei da morte que planejaram para mim; ou, quando diz "não morrerei, mas viverei", seu sentido é: viverei com conforto e prosperidade, viverei como um rei. Aquilo que traduzimos (1 Samuel 10:24) como "Deus salve o rei" é, literalmente, "que o rei viva", isto é, que ele prospere e tenha bons dias; que tenha paz com todos, ou vitória sobre seus inimigos. — Joseph Caryl.
Não morrerei, etc. Vale registrar o seguinte incidente: "Wycliffe já estava envelhecendo, mas o Reformador estava mais desgastado pelos ataques incessantes de seus inimigos, e por seus trabalhos incessantes e sempre crescentes, do que pelo peso dos anos, pois ainda não tinha sessenta. Adoeceu. Com alegria sem limites, os frades ouviram que seu grande inimigo estava morrendo. Certamente ele estaria tomado de horror e remorso pelo mal que lhes fizera, e eles se apressariam a seu leito para receber a expressão de sua penitência e pesar.
Num instante, uma pequena multidão de coroas tonsuradas se reuniu em torno do leito do doente — delegados das quatro ordens de frades. Começaram com brandura', desejando-lhe saúde e restabelecimento de sua enfermidade'; mas logo mudando de tom, exortaram-no, como a alguém à beira da sepultura, a fazer confissão plena, e exprimir seu pesar sincero pelas ofensas que infligira à ordem deles.
Wycliffe permaneceu em silêncio até que terminassem, então, fazendo seu servo erguê-lo um pouco no travesseiro, e fixando neles seus olhos penetrantes, disse em alta voz: `Não morrerei, mas viverei, e declararei os feitos maus dos frades.' Os monges se lançaram para fora do quarto, atônitos e confusos." — J. A. Wylie, em The History of Protestantism.
Não morrerei, não absolutamente, pois veja Salmo 89:48; Hebreus 9:27; mas não no meio de meus dias, Salmo 102:24; nem segundo a vontade de meus inimigos, que "me empurraram para que eu caísse" (Salmo 118:13). Mas, ao contrário, viverei, não simplesmente como até então vivera, na maior angústia, o que seria uma vida miserável, uma morte em vida: mas de modo vivo, jubiloso, feliz. Disto, ele diz estar seguro; assim a palavra afirma. Sobre que fundamento ele repousa? Salmo 118:14-15, "porque Deus se tornara sua salvação", e "a destra do Senhor faz proezas." — Jacob Alting.
E declararei as obras do SENHOR. Matéria de louvor abunda em todas as obras divinas, tanto na criação e preservação em geral quanto na redenção de nossas almas: principalmente, que Deus, além da vida da natureza, nos deu a vida da graça, sem a qual não poderíamos propriamente louvá-lo e declarar suas obras. — Rivetus.
E declararei as obras do SENHOR. Na segunda parte do versículo, ele aponta o uso próprio da vida. Deus não prolonga a vida de seu povo para que se regale de comida e bebida, durma quanto quiser, e desfrute de toda bênção temporal; mas para que o magnifique por seus benefícios, que ele diariamente derrama sobre eles. — João Calvino.
Segundo Matthesius, Lutero tinha este versículo escrito na parede de seu escritório.
Versículo 18Salmo 118:18
O SENHOR me castigou severamente. Humores fortes exigem remédio forte para purgá-los. Onde a corrupção está profundamente enraizada no coração, um assunto leve ou pequeno não basta para expulsá-la. Não; é preciso muito alvoroço e agitação para fazê-lo. — Thomas Horton.
Mas não me entregou à morte. Poderia ter sido pior, pode dizer o santo aflito, e ainda será melhor; é com misericórdia e na medida certa que Deus castiga seus filhos. É cuidado dele que "o espírito não desfaleça diante dele, nem as almas que ele fez" (Isaías 57:16). Se o filho desmaia sob o açoite, Deus deixa cair a vara, e se põe a beijá-lo, para lhe trazer de volta a vida. — John Trapp.
Versículo 19Salmo 118:19
Abri-me as portas da justiça. Portas conquistadas por sua justiça, a quem diariamente dizemos "só tu és santo"; portas que precisaram da Via Dolorosa e da cruz, antes de poderem girar em seus gonzos. Numa certa tarde tempestuosa, depois que o sol esteve escurecido por três horas, o mundo ouviu de novo falar daquele Éden do qual, quatro mil anos antes, Adão fora banido. "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso."
Ó bendito malfeitor, que assim entrou nos jardins celestiais! Ó ladrão feliz, que assim roubou o reino dos céus! E veja com que valentia ele agora entra nele. "Abri-me as portas da justiça." Não "Deus, tem piedade de mim, pecador"; não "Senhor, se quiseres, podes me purificar." Mas isto é o que se chama a onipotência da súplica na oração. "Bem-aventurados os que fazem os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar pelas portas na cidade." — John Mason Neale.
Versículo 21Salmo 118:21
Eu te louvarei: porque tu me ouviste. Há um ponto que gostaríamos de destacar especialmente, que é o louvor por ter Deus ouvido a oração. Neste ponto, quase acima de todos os outros, Deus é frequentemente roubado de seu louvor. Os homens oram; recebem resposta a suas orações; e então se esquecem de louvar. Isto acontece especialmente nas coisas pequenas; deveríamos sempre lembrar que tudo o que vale a pena pedir em oração, também vale a pena agradecer.
O fato é que não reconhecemos a Deus nessas coisas pequenas tanto quanto deveríamos; se louvamos, é pelo recebimento da bênção, com a qual ficamos contentes, deixando de lado aquele de quem a bênção proveio. Isto não é aceitável a Deus; precisamos vê-lo na bênção, se quisermos verdadeiramente louvar.
O salmista diz: "eu te louvarei: porque tu me ouviste"; ele louvava não só por ter recebido, mas também por ter sido ouvido — porque o Deus vivo, como Deus que ouve, se manifestara em suas misericórdias. E quando sabemos que Deus nos ouviu, não demoremos nosso louvor; se adiamos nossa ação de graças talvez apenas para a noite, podemos esquecer de louvar de todo; e, se louvarmos, será provavelmente com apenas metade do calor que animaria nosso cântico no primeiro momento.
Deus ama uma resposta rápida por suas bênçãos; uma só frase de gratidão sincera vale mais do que todo o formalismo de um serviço mais elaborado. Há um frescor no louvor imediato que é como o viço sobre o fruto; ser espontâneo acrescenta a ele um valor inefável. Trace, pois, caro leitor, uma ligação entre o seu Deus e a sua bênção. Reconheça seu ouvido atento tanto quanto sua mão generosa, e sejam suas as palavras do salmista: "eu te louvarei: porque tu me ouviste." — Philip Bennet Power.
Versículo 22Salmo 118:22
A pedra. A principal pedra da esquina. Cristo Jesus é uma pedra: nenhuma firmeza, senão nele. Uma pedra fundamental: nenhuma edificação, senão sobre ele. Uma pedra angular: nenhuma junção nem reconciliação, senão nele. — James Ford, 1856.
A pedra que os construtores rejeitaram, etc. Para aplicá-la a Cristo, "a Pedra" é o fundamento de tudo. Duas coisas lhe sucedem; duas coisas tão contrárias quanto possível: 1. Rejeitada, lançada fora; depois, requisitada de novo, e feita cabeça do edifício. Assim, há duas partes à vista: 1. A rejeição; 2. A elevação; que são seus dois estados, sua humilhação e sua exaltação.
Em cada um destes se pode observar dois graus, a quibus e quosque, por quem e até onde. Por quem rejeitada? Pesamos a palavra, aedificantes: não por homens sem habilidade, mas por operários, construtores profissionais; o que a torna tanto pior. Até onde? Pesamos a palavra — reprobaverunt; até a reprovação total. Não é improbaverunt, desagradado, como não apta para algum lugar eminente; mas reprobaverunt, totalmente reprovada, para qualquer lugar que fosse.
De novo, exaltada, por quem? As palavras seguintes são a Domino, por Deus, tão bom construtor, aliás melhor do que o melhor deles; o que compensa o anterior. E até onde? Colocada por ele, não em qualquer parte do edifício, mas na parte mais à vista (a esquina), e no lugar mais alto dela, a própria cabeça. Assim, rejeitada, e isso pelos construtores, e reduzida ao estado mais baixo: e do estado mais baixo exaltada in caput anguli, ao lugar mais elevado de todos; e isso pelo próprio Deus. — Lancelot Andrewes.
A pedra que os construtores rejeitaram, etc. Não precisamos nos admirar de que não só os poderes do mundo costumam ser inimigos de Cristo, e de que os arquitetos de políticas, esses construtores, deixem Cristo de fora de sua obra, mas de que os pretensos construtores da igreja de Deus, embora usem o nome de Cristo e dele se sirvam para seus fins, rejeitem a ele mesmo, e se oponham ao poder de seu reino espiritual. Pode haver engenho e erudição, e muito conhecimento das Escrituras, entre aqueles que odeiam o Senhor Jesus Cristo, e o poder da piedade, e corrompem o culto de Deus. É o espírito de humildade e obediência, e a fé salvadora, que ensinam os homens a estimar a Cristo, e a edificar sobre ele.
A vaidade e a insensatez da opinião destes construtores aparece nisto: são dominados pelo grande Arquiteto da igreja; seu propósito permanece. Apesar de rejeitarem a Cristo, ele ainda é feito a principal pedra da esquina. Lançaram-no fora com seus insultos, e entregando-o para ser crucificado e depois lançado na sepultura, fazendo rolar uma pedra sobre esta pedra que haviam rejeitado, para que não mais aparecesse, e assim se julgaram seguros. Mas dali mesmo ele ressurgiu, e se tornou a cabeça da esquina. — Robert Leighton.
A pedra que os construtores rejeitaram, etc. Isto é, Deus enviou uma pedra viva, preciosa, escolhida, à terra; mas os judeus, que então tinham a construção da igreja, rejeitaram aquela pedra, e disseram dela: "este homem, que não observa o sábado, não é de Deus", e "não temos rei senão César", e "aquele sedutor disse: ressuscitarei depois de três dias"; e muitas outras coisas semelhantes. Mas esta pedra, assim rejeitada pelos construtores como imprópria para erguer o edifício espiritual, tornou-se a cabeça da esquina; foi feita, por Deus, o arquiteto principal, o vínculo para unir os dois muros e mantê-los juntos; isto é, foi feita cabeça de toda a igreja, composta de judeus e gentios; e cabeça tal, que quem não estiver sob ela não pode ser salvo; e quem estiver edificado sob ela, a pedra viva, certamente será salvo.
Ora, tudo isto é obra do Senhor, feita por sua eleição e desígnio, sem qualquer intervenção da parte do homem, e por isso é maravilhoso aos nossos olhos. Pois quem há que não deva considerar coisa maravilhosa encontrar um homem crucificado, morto e sepultado, ressuscitando, depois de três dias, dentre os mortos, imortal, com poder ilimitado, e declarado Príncipe de homens e anjos, e um caminho aberto por ele, para o homem mortal, ao reino dos céus, à sociedade dos anjos, a uma imortalidade feliz? — Robert Belarmino.
A pedra que os construtores rejeitaram. Aqui vemos com quão forte e inexpugnável escudo o Espírito Santo nos arma contra a vanglória vazia do clero papal. Seja embora que possuam o nome "construtores-chefes"; mas se renegam a Cristo, segue-se necessariamente que também nós devamos renegá-lo? Antes desprezemos e pisemos aos pés todos os seus decretos, e reverenciemos esta pedra preciosa sobre a qual repousa nossa salvação. Pela expressão "tornou-se a cabeça da esquina" devemos entender o fundamento real da igreja, que sustenta todo o peso do edifício; sendo necessário que as esquinas formem a força principal dos edifícios. — João Calvino.
A pedra, etc. Isto é: eu, a quem os grandes e os governantes do povo rejeitaram (1 Samuel 26:19), como os construtores de uma casa rejeitam uma pedra imprópria para nela ser empregada, agora me tornei rei sobre Israel e Judá; e um tipo daquele Rei glorioso que doravante será, do mesmo modo, rejeitado (Lucas 19:14; Lucas 20:17), e então será por Deus exaltado para ser Senhor de todo o mundo, e o fundamento da felicidade de todos os homens. — Thomas Fellton.
A pedra. O autor da Historia Scholastica menciona como tradição que, na construção do segundo templo, havia uma pedra particular sobre a qual era literalmente verdade o que aqui se narra parabolicamente, a saber, que ela tinha o azar de ser repetidamente tomada pelos construtores, e outras tantas vezes rejeitada, e por fim foi achada perfeitamente apta para o lugar mais honroso, o da principal pedra angular, que unia os lados dos muros; a extraordinariedade disso ocasionou o dito que se segue: "isto vem do Senhor; é maravilhoso aos nossos olhos." — Henry Hammond.
A principal pedra da esquina. Como assim, "da esquina"? A esquina é o lugar onde dois muros se encontram: e há muitos pares neste edifício: os dois muros das nações, judeus e gentios; os dois das condições, escravo e livre; os dois do sexo, macho e fêmea; o grande par (que celebramos neste dia de Páscoa) dos vivos e dos mortos; acima de tudo, o maior par de todos, céu e terra. — Lancelot Andrewes.
Tornou-se a principal pedra da esquina.
Mais alto ainda, e sempre mais alto, ele passa além daquelas fileiras acima,
onde os serafins se acendem com a chama de amor sem fim;
passa-os, pois nem mesmo os serafins jamais amaram tão bem quanto ele,
que suportou, por seu amado, açoites, espinhos, e a árvore vergonhosa;
sempre mais além, sempre em frente, onde nenhum pé de anjo pode pisar,
onde os vinte e quatro anciãos se prostram em temor místico:
onde os quatro seres viventes estranhos cantam seu hino diante do trono,
o Desprezado e rejeitado passa, em seu poder solitário;
passa através do arco-íris deslumbrante, até que, à direita do Pai,
ele se assenta, seu Coigual, Deus de Deus, e Luz de Luz.
— R. F. Littledale.
Principal pedra da esquina. Já é claro a todos, por graça divina, a quem a Sagrada Escritura chama de pedra angular. A ele, de fato, que, tomando para si de um lado o povo judeu, e do outro o povo gentio, une, por assim dizer, dois muros num único edifício da Igreja; aqueles de quem está escrito, "ele fez de ambos um só"; que se exibiu como a Pedra angular, não só nas coisas de baixo, mas também nas de cima, porque uniu na terra as nações dos gentios ao povo de Israel, e ambos juntos aos anjos. Pois, em seu nascimento, os anjos exclamaram: "na terra, paz, boa vontade para com os homens." — Gregório, citado por Henry Newland, 1860.
A esquina. Beda a interpreta como razão pela qual os construtores judeus rejeitaram nosso Salvador Cristo para o lugar principal: quia in uno pariete stare amabant. Não podiam suportar esquina alguma; tinham de ficar sozinhos sobre seu próprio muro único; ser por si mesmos, sem se unir a gentios ou samaritanos. E não suportavam a Cristo, porque pensavam que, se ele fosse ouvido, ele se inclinaria para esse lado. Alias oves oportet me adducere (João 10:16). Outras ovelhas, eles não podiam tolerar. Mas certamente deve haver um propósito, alias oves adducendi, de trazer outras, de unir uma esquina, senão não fazemos secundum exemplar, não edificamos segundo o modelo de Cristo; nosso estilo de construção não é como o dele. — Lancelot Andrewes.
Versículos 22–27Salmo 118:22-27
No consenso de todos os expositores, neste Salmo está prefigurada a vinda de Cristo, e seu reino do evangelho. Isto se manifesta por uma exaltação, por uma exultação, por uma petição, por uma bênção.
A exaltação: versículo 22, a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a principal pedra da esquina. Os judeus rejeitaram esta pedra, mas Deus edificou sua igreja sobre ela.
A exultação: versículo 24, este é o dia que o Senhor fez; regozijar-nos-emos e nos alegraremos nele. Dia mais bendito que aquele em que ele fez o homem, quando terminara de fazer o mundo; "regozijemo-nos, e alegremo-nos nele."
A petição: versículo 25, salva-nos agora, imploro-te, ó Senhor: ó Senhor, imploro-te, envia agora prosperidade. Sua justiça não te permitiria salvar sem o Messias; ele veio: "salva agora, ó Senhor, imploro-te." Nosso Salvador veio; que a misericórdia e a salvação venham com ele.
A bênção torna tudo claro: versículo 26, bendito aquele que vem em nome do Senhor. Pois o que Davi aqui profetizou, o povo depois o cumpriu (Mateus 21:9): "bendito aquele que vem em nome do Senhor." O corolário, ou resumo, está no meu texto: versículo 27, Deus é o Senhor, que nos mostrou luz: atai o sacrifício com cordas, até aos chifres do altar. — Thomas Adams.
Versículo 24Salmo 118:24
Este é o dia que o SENHOR fez. 1. Aqui está a doutrina do sábado cristão: "é o dia que o Senhor fez" — fez notável, fez santo, o distinguiu dos outros dias; ele o fez para o homem: por isso se chama o dia do Senhor, pois traz sua imagem e sua inscrição. 2. O dever do sábado: "regozijar-nos-emos e nos alegraremos nele"; não só na instituição do dia, que há tal dia designado, mas na ocasião dele, o Cristo se tornando "a cabeça da esquina." Nisto devemos regozijar-nos, tanto como honra dele quanto como vantagem nossa. Os dias de sábado devem ser dias de regozijo, e então nos são como os dias do céu. Veja que bom Mestre servimos, que, tendo instituído um dia para seu serviço, ordena que seja passado em santa alegria. — Matthew Henry.
Este é o dia, etc. A "rainha dos dias", como os judeus chamam o sábado. Arnóbio interpreta este texto do sábado cristão; outros, do dia da salvação, por Cristo exaltado a ser a principal pedra da esquina; em oposição àquele dia funesto da queda do homem. — John Trapp.
Porque os crentes sempre têm razão para consolo, por isso lhes é ordenado regozijar-se sempre (Filipenses 3:1; 4:4). Quer lhes venham ao coração seus pecados, quer seus sofrimentos, não devem entristecer-se como os que não têm esperança. Nas condições mais tristes, têm o Espírito de consolação. Há semente de alegria semeada dentro deles quando é enterrada sob os torrões, e não aparece acima do solo. Mas há tempos especiais em que Deus chama este grão a brotar.
Têm alguns dias vermelhos, alguns dias santos no calendário de suas vidas, nos quais esta alegria, como o vinho num casamento, é mais oportuna; mas entre todos esses dias, nunca ela sabe tão bem, nunca tem gosto tão agradável, quanto no dia do Senhor. A alegria não convém a ninguém tanto quanto a um santo, e não fica tão bem a nenhuma estação quanto a um sábado. A alegria em Deus nos outros dias é como o pio dos pássaros no inverno, que é agradável; mas a alegria no dia do Senhor é como seu canto trinado e suas belas notas na primavera, quando todas as outras coisas têm um aspecto igualmente deleitoso.
Este é o dia que o SENHOR fez (ele que fez todos os dias, mas especialmente este dia — e o que se segue?) regozijar-nos-emos e nos alegraremos nele. Nestas palavras temos o consolo, ou alegria, da igreja, e a estação, ou dia, dela. Seu consolo era grande: "regozijar-nos-emos e nos alegraremos." Estas expressões não são repetições desnecessárias, mas mostram a abundância ou o alto grau de sua alegria. A estação dela: "este é o dia que o Senhor fez."
Compare esta passagem com Mateus 11:22-23, e Atos 4:11, e verá que os versículos precedentes são uma predição profética da ressurreição de Cristo, e assim este versículo prediz a alegria da igreja naquele dia memorável e glorioso. E, de fato, se "um banquete se faz para o riso" (Eclesiastes 10:19), então aquele dia em que Cristo festeja seus santos com as mais escolhidas misericórdias bem pode exigir sua maior alegria espiritual.
Um dia de ação de graças tem dupla precedência sobre um dia de jejum. Num dia de jejum, olhamos para a ira de Deus; num dia de ação de graças, olhamos para o favor de Deus. No primeiro, atentamos especialmente para nossas corrupções; no segundo, para as compaixões de Deus; por isso um dia de jejum pede tristeza, um dia de ação de graças pede alegria. Mas o dia do Senhor é o mais alto dia de ação de graças, e merece muito mais do que o Purim judaico ser um dia de festa e alegria, e um bom dia. — George Spinnock.
Dia que o SENHOR fez. Assim como o sol no céu faz o dia natural com sua luz, assim Cristo, o Sol da Justiça, faz o nosso um dia espiritual. — Starke.
Dia que o SENHOR fez. Adão introduziu um dia de tristeza, mas outro dia foi feito por Cristo: Abraão viu seu dia de longe, e se alegrou; caminhemos, já agora, em sua luz. — Johann David Friesch, 1731.
Versículo 25Salmo 118:25
Salva. Entre os hebreus, salvação é palavra ampla, abrangendo todos os favores de Deus que possam conduzir à preservação; e por isso o salmista, em outro lugar, estende este ato tanto ao homem quanto ao animal, e, como se comentasse a si mesmo, explica swson, "salva", por euodwson, "prospera". É título tão querido de Deus, que o profeta nunca tem dele o suficiente. — Joseph Hall.
Salva-nos agora, imploro-te, ó SENHOR. Que ele tenha as aclamações do povo, como é costume na entronização de um príncipe; que cada um de seus súditos leais clame de alegria: "salva-nos agora, imploro-te, ó Senhor." Isto é como o vivat rex, e exprime tanto uma alegria sincera por sua ascensão à coroa, quanto satisfação plena em seu governo, e afeto zeloso pelos seus interesses e sua honra. Hosana significa "salva-nos agora, imploro-te." Senhor, salva-me, imploro-te; seja este Salvador o meu Salvador; e, por conseguinte, meu Governante: seja eu tomado sob sua proteção, e reconhecido como um de seus súditos voluntários.
Seus inimigos são meus inimigos; Senhor, imploro-te, salva-me deles. Envia-me parte naquela prosperidade que seu reino traz consigo para todos os que a acolhem. Que minha alma prospere e esteja em saúde, naquela paz e justiça que seu governo traz (Salmo 72:3). Que eu tenha vitória sobre as paixões que guerreiam contra minha alma, e que a graça divina avance em meu coração, conquistando e para conquistar. — Matthew Henry.
Salva-nos agora, ou "hosana." Nossas ações de graças na terra devem sempre vir acompanhadas de orações por novas mercês, e pela continuação de nossa prosperidade; nossos aleluias, com hosanas. — Ingram Cobbin.
Salva-nos agora, imploro-te, ó SENHOR, etc. Hosana. O clamor das multidões que se aglomeravam na procissão triunfal de nosso Senhor entrando em Jerusalém (Mateus 21:9,18; Marcos 11:9,15; João 12:13) foi tirado deste Salmo, do qual costumavam recitar os versículos 25-26 na festa dos tabernáculos. Naquela ocasião, o grande Halel, composto pelos Salmos 113 a 118, era entoado por um dos sacerdotes, e em certos intervalos as multidões se uniam nas respostas, agitando seus ramos de salgueiro e palma, e clamando, ao agitá-los, "Aleluia", ou "Hosana", ou "ó Senhor, imploro-te, envia agora prosperidade."
Isto se fazia na recitação dos versículos 1 e 29; mas, segundo a escola de Hilel, na frase "salva-nos agora, imploramos-te." A escola de Shamai, ao contrário, diz que era nas palavras "envia agora prosperidade." Rabban Gamaliel e R. Josué foram observados por R. Akiba a agitar seus ramos apenas nas palavras "salva-nos agora, imploramos-te" (Mishná, Sucá, 3.9). Em cada um dos sete dias que durava a festa, o povo se aglomerava no átrio do templo, e ia em procissão em torno do altar, colocando seus ramos inclinados para ele; as trombetas soando enquanto clamavam "Hosana."
Mas no sétimo dia marchavam sete vezes ao redor do altar, clamando enquanto isso o grande Hosana ao som das trombetas dos levitas (Lightfoot, Temple Service, 16.2). Espera-se que até as crianças que pudessem agitar os ramos de palma tomassem parte na solenidade (Mishná, Sucá, 3.15; Mateus 21:15). Do costume de agitar os ramos de murta e salgueiro durante o culto, o nome "Hosana" foi por fim transferido para os próprios ramos, de modo que, segundo Elias Levita (Thisbi, s.v.), "os feixes de salgueiros do ribeiro que carregam na festa dos tabernáculos se chamam Hosanas." — William Aldis Wright, em Smith's Dictionary of the Bible, 1863.
Envia agora prosperidade. Deus a enviará, mas seu povo deve orar por ela. "Vim por causa de tuas orações" (Daniel 10:12). — John Trapp.
Versículo 26Salmo 118:26
Bendito aquele que vem em nome do SENHOR. Deve-se notar a diferença entre Cristo e o Anticristo, pois Cristo não veio em seu próprio nome, mas no nome do Pai; do que ele mesmo testemunhou (João 5:43): "eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis." Assim, todos os ministros fiéis da Igreja não devem vir em seu próprio nome, ou no nome de Baal, ou de Mamom e de seu próprio ventre, mas no nome de Deus, com legítima vocação; a respeito do que veja Hebreus 5; Apocalipse 10; Apocalipse 15. — Solomon Gesner.
Versículo 27Salmo 118:27
Deus é o SENHOR, que nos mostrou luz. O salmista claramente possuía luz, pois diz: "Deus é o Senhor, que nos mostrou luz." Ele estava, então, evidentemente na posse de luz; e esta luz nele estava como "a luz da vida." Esta luz brilhara em seu coração; os raios e feixes da verdade divina haviam penetrado em sua consciência. Ele trazia consigo uma luz que viera de Deus; nesta luz via luz, e nesta luz discernia tudo o que a luz manifestava.
Assim, por esta luz interior, sabia o que era bom e o que era mau, o que era doce e o que era amargo, o que era verdadeiro e o que era falso, o que era espiritual e o que era natural. Ele não dizia: esta luz veio do esforço da criatura, esta luz foi produto de minha própria sabedoria, esta luz foi a natureza transmutada por alguma ação de minha própria vontade, e assim gradualmente surgiu à existência por longo tempo e assídua cultivação. Mas atribui toda a luz que possuía a Deus, o Senhor, como único autor e único doador dela.
Ora, se Deus, o Senhor, algum dia nos mostrou a mesma luz que mostrou a seu servo de outrora, carregamos conosco, em maior ou menor grau, uma convicção solene de que recebemos esta luz dele. Haverá, de fato, muitas nuvens de escuridão a encobri-la; haverá muitas vezes dúvidas e temores, pairando como névoas e neblinas sobre nossas almas, se a luz que recebemos vem ou não de Deus.
Mas em momentos solenes, quando o Senhor se compraz em reavivar um pouco sua obra; em tempos e estações em que se digna atrair a nós os afetos de nosso coração, trazer-nos à sua presença, esconder-nos em certa medida na cova de sua mão, e dar-nos acesso a ele mesmo — nesses momentos e estações carregamos conosco, apesar de toda a nossa descrença, apesar de todas as sugestões do inimigo, apesar de todas as dúvidas e temores e suspeitas que se levantam das profundezas da mente carnal, apesar de todas essas obras contrárias e minagens — carregamos conosco, nesses momentos, uma convicção solene de que temos luz, e de que esta luz a recebemos de Deus. E por quê? Porque podemos olhar para trás, para um tempo em que não andávamos em tal luz, em que não sentíamos tal luz, em que tudo o que era espiritual e celestial nos era escuro, e nós éramos escuros para eles.
Aquelas coisas que o Espírito de Deus capacita um homem a fazer são, na Escritura, às vezes chamadas sacrifícios. "Para que ofereçamos", lemos, "sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por Jesus Cristo." O apóstolo fala de "receber, de Epafrodito, as coisas que foram enviadas pelos irmãos de Filipos; um cheiro suave, sacrifício aceitável e agradável a Deus" (Filipenses 4:18). Assim ele diz à igreja hebraica: "mas não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir (isto é, com as necessidades do povo de Deus), pois com tais sacrifícios Deus se agrada" (Hebreus 13:16).
Pois bem, estes sacrifícios espirituais que um homem oferece a Deus também estão atados aos chifres do altar. Não são agradáveis aos olhos de Deus, a menos que estejam atados aos chifres do altar, de modo a derivar toda a sua aceitação do altar. Nossas orações só são aceitáveis a Deus quando são oferecidas por meio da cruz de Jesus. Nossos louvores e ações de graças só são aceitáveis a Deus quando estão ligados à cruz de Cristo, e sobem ao Pai por meio da propiciação de seu Filho amado. As ordenanças da casa de Deus só são aceitáveis a Deus como sacrifícios espirituais quando estão atadas aos chifres do altar.
Ambas as ordenanças do Novo Testamento — o batismo e a ceia do Senhor — foram atadas pelas próprias mãos de Deus aos chifres do altar; e ninguém nem passou corretamente por uma, nem recebeu corretamente a outra, sem ter sido primeiro espiritualmente atado pela mesma mão aos chifres do altar. Todo ato de liberalidade, todo copo de água fria dado em nome de um discípulo, todo sentimento de simpatia e afeto, toda palavra bondosa, toda ação compassiva mostrada a um irmão; tudo isso, cada um deles, só é aceitável a Deus quando sobe até ele pela mediação de seu Filho amado.
E, portanto, todo sacrifício de nosso próprio conforto, ou de nossa própria vantagem, de nosso próprio tempo, ou de nosso próprio dinheiro, para o proveito dos filhos de Deus, é um sacrifício espiritual e aceitável apenas na medida em que está atado aos chifres do altar, ligado à cruz de Jesus, e recebendo toda a sua fragrância e aroma de sua ligação com o incenso ali oferecido pelo Senhor da vida e da glória. — J. C. Philpot.
Como é confortante a luz! É tão confortante que "luz" e "conforto" muitas vezes se tomam pela mesma coisa: Deus é o SENHOR, que nos mostrou luz, isto é, a luz do conselho sobre o que fazer, e a luz do conforto naquilo que fazemos, ou depois de todos os nossos sofrimentos. A luz não é apenas uma vela que nos é dada para fazermos nosso trabalho, mas também nos conforta e alegra nele (Eclesiastes 11:7). — Joseph Caryl.
Mostrou luz: atai o sacrifício. Aqui há algo recebido; algo a ser retribuído. Deus nos abençoou, e nós devemos abençoar a Deus. Sua graça, e nossa gratidão, são as duas linhas sobre as quais meu discurso deve correr. Elas se encontram no meu texto; que se encontrem tão felizmente em seus corações, e não os deixarão até levá-los ao céu. — Thomas Adams.
Atai o sacrifício com cordas, etc. O sacrifício que devemos oferecer a Deus, em gratidão pelo amor redentor, somos nós mesmos, não para sermos imolados sobre o altar, mas "sacrifícios vivos" (Romanos 12:1) a serem atados ao altar; sacrifícios espirituais de oração e louvor, nos quais nosso coração deve estar fixo e empenhado, como o sacrifício era atado "com cordas aos chifres do altar." — Matthew Henry.
Atai o sacrifício, etc. É um dito entre os hebreus que os animais oferecidos em sacrifício eram os mais arredios de todos; tal é a natureza de nós, animais ingratos: quando deveríamos retribuir o amor a Deus, estamos mais prontos a fugir dele; precisamos ser atados ao altar com cordas, para que dele se extraia amor ou temor. — Abraham Wright.
Com cordas. Esta palavra é às vezes usada para cordas grossas e retorcidas (Juízes 15:13); às vezes para ramos espessos de árvores, usados em certas festas (Ezequiel 19:11; Levítico 23:40). Por isso, esta frase pode ser lida de duas maneiras: "atai a festa com ramos espessos", ou "atai o sacrifício com cordas"; ambas significam a mesma coisa, que os homens deveriam guardar a festividade com alegria e gratidão a Deus, como Israel fazia em suas solenidades. — Henry Ainsworth.
Até aos chifres do altar. Antes destas palavras deve-se entender "levai-o": pois as vítimas eram atadas a argolas fixadas no chão. "Os chifres" eram ornamentos arquitetônicos, uma espécie de capitéis, feitos de ferro ou de bronze, algo na forma dos chifres curvos de um animal, projetando-se dos quatro ângulos do altar. O sacerdote oficiante, ao orar, colocava as mãos sobre eles, e às vezes os aspergia com o sangue do sacrifício: compare Êxodo 30:3; Levítico 4:7,18. Ao final deste versículo deve-se subentender a palavra "dizendo." — Daniel Cresswell.
Até aos chifres. Isto é, por todo o átrio, até chegar até mesmo aos chifres do altar, referindo-se com isso a muitos sacrifícios ou ramos. — Henry Ainsworth.
Versículo 28Salmo 118:28
Deus. O original para "Deus" dá força a esta passagem: tu és meu "El" — o Poderoso; por isso te louvarei: meu "Eloá" — forma variada, de sentido essencialmente o mesmo — "e te exaltarei" — erguer-te alto em glória e honra. — Henry Cowles.
Este "exaltar ao Senhor" cumprirá um dos grandes fins do louvor, a saber, a exaltação dele. É verdade que Deus tanto pode como certamente se exaltará a si mesmo, mas é ao mesmo tempo dever e privilégio de seu povo exaltá-lo. Seu nome deve ser sustentado e magnificado por eles; a glória desse nome agora está, por assim dizer, confiada a eles: que uso estamos fazendo desta oportunidade e deste privilégio? — Philip Bennet Power.