Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 147

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 147, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 147 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Salmo inteiro. O salmo inteiro é um convite ao louvor de Deus. Os argumentos aí se extraem, primeiro, da bondade geral de Deus para com o mundo (Salmos 147:4, 8-9, 16-18); segundo, de sua misericórdia especial para com a sua Igreja. 1. Ao restaurá-la de uma condição triste e quebrantada (Salmos 147:2-3). 2. Ao confirmá-la num estado feliz e próspero, tanto temporal, quanto a força, paz e fartura (Salmos 147:12-14), quanto espiritual, quanto à sua palavra, estatutos e juízos, que lhe foram dados a conhecer (Salmos 147:19-20).

Por fim, todas essas misericórdias se recomendam pelo modo como são concedidas — poderosa e velozmente. Ele o faz por uma palavra de comando e por uma palavra de rapidez: "Ele envia o seu mandamento sobre a terra: a sua palavra corre velozmente" (Salmos 147:15). A parte temporal desse estado feliz, junto com o modo de sua concessão, é aqui descrita, mas de modo algum devemos excluir o sentido espiritual.

E o que pode faltar a uma nação que, "fortalecida" com muros, "abençoada" com multidões, tem "paz" nas fronteiras, "fartura" no campo, e, o que é tudo em tudo, Deus no santuário? Deus como o ferrolho da "porta", o Pai dos filhos, a coroa da "paz", o sustento da "fartura"? Têm uma "porta" restaurada, uma "cidade" abençoada, uma "fronteira" pacificada, um "campo" coroado, um "santuário" adornado com os oráculos de Deus. Que pode faltar a tal povo, senão uma boca cheia, um coração dilatado, um espírito exaltado nos louvores do Senhor? "Louvai ao Senhor, ó Jerusalém; louvai ao vosso Deus, ó Sião", etc. (Salmos 147:12).

— Edward Reynolds, em um sermão intitulado Sion's Praises, 1657.

Salmo inteiro. O Deus de Israel, o que fez, o que faz, o que pode fazer — esta é a nota de "Aleluia" do seu cântico. É tão feliz o tema que, no Salmos 147:1, encontramos uma contribuição extraída do Salmos 33:1, do Salmos 92:1 e do Salmos 135:3; cada um deve fornecer sua parte de testemunho da conveniência de dar louvor a um Deus assim.

— Andrew A. Bonar.

Versículo 1Salmo 147:1

Louvai ao Senhor. Aleluia. Uma expressão de som muito semelhante a esta parece ter sido usada por muitas nações, das quais dificilmente se pode supor que a tomaram emprestada dos judeus. Será impossível que esta seja uma das mais antigas expressões de devoção? Pelo uso grego de eleleu ih, como começo e fim solene de seus hinos a Apolo, parece que a conheciam; diz-se também que foi ouvida entre os índios da América, e Alá, Alá, como nome de Deus, é usado em grande parte do Oriente, também em composição. Qual seria o tronco primitivo que produziu ramos tão espalhados?

— Augustin Calmet, 1672-1757.

É bom cantar louvores ao nosso Deus. O cantar está necessariamente incluído e reconhecido no louvor dos salmos. Que o alegre cante é tão natural quanto que o aflito ore — mais natural ainda, talvez. O cântico, como expressão da alegria, é algo universal na natureza humana; sempre houve, tanto em Israel quanto entre todas as outras nações, cânticos de júbilo. Por isso é constantemente mencionado nos profetas, que empregam o canto jubiloso como figura frequente, ameaçando até que Deus tirará o cântico do noivo e da noiva, e assim por diante.

O cantar dos homens é em si bom e nobre. O mesmo Deus que deu às aves do céu as notas com que, sem saber, louvam seu Criador, deu ao homem o poder de cantar. Todos sabemos quanto Lutero, por exemplo, estimava o dom e a arte do canto. Que aquele a quem foi concedido se alegre nisso; que aquele a quem falta procure, se possível, despertá-lo; pois é um bom dom do Criador.

Que nossos filhos aprendam a cantar nas escolas, assim como aprendem a ler. Nossos pais cantavam mais em todos os afazeres da vida do que nós; nossas melodias, neste aspecto, são menos frescas, menos espontâneas e menos alegres. Há muitos entre nós que nunca cantam, exceto quando unem sua voz à voz da igreja — e por isso cantam tão mal ali. Não que um canto rude, vindo de um bom coração, seja inaceitável a Deus; mas ele merece o melhor de nós. Assim como Davi, em seu tempo, cuidou de que houvesse cantores treinados para o santuário, também nós devemos prover o serviço de cântico da igreja, para que Deus tenha, em todos os aspectos, uma oferta perfeita. Quão gracioso e amável é ver a congregação cantar, com o coração, cânticos aceitáveis!

— Rudolf Stier, em The Epistle of James Expounded, 1859.

A tradução aqui é duvidosa. Pode-se traduzir tanto "Louvai ao Senhor, porque ele é bom", quanto "porque é bom (o louvor)." Por que se declara "agradável" e "decoroso" louvar a Divindade? Não só porque, se o glorificarmos, ele também nos glorificará, mas porque ele é tão infinitamente glorioso que somos infinitamente honrados apenas por sermos considerados dignos de adorar a Alguém tão grande.

— John Lorinus.

É bom cantar louvores ao nosso Deus; pois é agradável; e o louvor é decoroso. Estes pontos merecem cuidadosa consideração.

  1. Louvar a Deus é "bom" por diversas razões. a) É bom aquilo que Deus ordena (Miquéias 6:8). De modo que a ação de graças não é ação indiferente, nem culto voluntário, mas é cultus institutus, que não se deve negligenciar. b) Eleva o coração da terra ao céu; e, sendo obra dos anjos e santos no céu, nos une àquele coro celestial. c) É bom, ainda, porque com ele pagamos, ou ao menos reconhecemos, uma dívida, e isto é justiça comum. d) É bom porque, por ele, é provável recebermos boa e grande recompensa; pois, se aquele que ora a Deus certamente será recompensado (Mateus 6:6), muito mais aquele que lhe canta louvores; pois na oração cuidamos de nossas próprias necessidades, mas em nossos louvores honramos a Deus e o bendizemos por seus dons.

  2. Louvar a Deus é "agradável". a) Porque procede do amor; pois nada é mais agradável a quem ama do que compor cânticos em louvor de quem ama. b) Porque necessariamente agrada ao homem cumprir o dever para o qual foi criado; pois foi para isso que Deus criou os homens e os anjos, para que o louvassem. c) Porque Deus se deleita nisso, como o mais doce sacrifício (Salmos 50:23). d) É agradável a Deus porque ele se deleita nas virtudes que há em nós — fé, esperança, caridade, religião, devoção, humildade etc. —, das quais nossos louvores são manifestação e exercício.

  3. Louvar a Deus é "decoroso"; pois não há mancha maior que a ingratidão; ela se compõe de mentira e injustiça. Há, portanto, toda a decência do mundo no louvor, e é decoroso que o homem seja grato ao seu Deus, que livremente lhe dá todas as coisas.

— William Nicholson.

Davi, para persuadir todos os homens à gratidão, diz: é coisa boa e agradável ser grato. Se tivesse dito apenas "bom", todos os que amam a bondade estariam obrigados a ser gratos; mas quando diz não só "bom", mas também "agradável", todos os que amam o prazer estão obrigados a ser gratos; e por isso, assim como a sogra de Pedro, tão logo Cristo a curou de uma febre, levantou-se imediatamente para servi-lo (Mateus 8:15), também nós, tão logo Cristo tenha feito algo por nós, devemos levantar-nos imediatamente para servi-lo.

— Henry Smith.

Não há céu, nem neste mundo, nem no mundo vindouro, para as pessoas que não louvam a Deus. Se você não entra no espírito e no culto do céu, como haveria o espírito e a alegria do céu de entrar em você? O egoísmo faz orações longas, mas o amor faz orações curtas, para poder permanecer mais tempo no louvor.

— John Pulsford, 1857.

Louvor. Há ainda outra coisa que embaraça seriamente o louvor no culto de cântico da Igreja: temos poucos hinos de louvor. Vocês se surpreenderão ao me ouvir dizer isso; mas se surpreenderão mais ainda se pegarem uma amostra real de louvor e buscarem hinos de louvor. Encontrarão inúmeros hinos que falam sobre o louvor e exortam a louvar. Não faltam hinos que dizem que Deus deve ser louvado. Mas hinos que louvam, e não dizem nada sobre isso, há muito poucos, de fato. E os poucos que existem devemos quase inteiramente às igrejas antigas. A maioria deles nos chegou das igrejas latina e grega... Não há lugar na literatura humana onde se encontre louvor como o que há nos Salmos de Davi.

— Henry Ward Beecher.

Versículo 2Salmo 147:2

O Senhor edifica a Jerusalém, etc. Se este salmo foi escrito por ocasião do retorno da Babilônia e da reconstrução da cidade terrena, as ideias devem ser transferidas, como em outros salmos do mesmo tipo, para uma restauração muito mais importante, de um cativeiro bem pior, e para a edificação da igreja sob o evangelho, quando Cristo "ajuntou em um os filhos de Deus que andavam dispersos" (João 11:52); isto é, nas palavras do nosso salmo, ajuntou os exilados de Israel. Assim fará novamente, na ressurreição, "ajuntar os seus eleitos desde os quatro ventos" (Mateus 24:31), e "edificará uma Jerusalém" na qual eles o servirão e louvarão para sempre.

— George Horne.

O Senhor edifica a Jerusalém, etc.

Jerusalém! Jerusalém! ainda perdura a bênção

Sobre a cidade dos escolhidos, onde o selo do sábado foi posto;

E ainda que seus filhos estejam dispersos, e suas filhas chorem à parte,

Enquanto a desolação, como um manto, pesa sobre cada coração fiel;

Como a planície junto às águas, como o cedro sobre os montes,

Ela se erguerá em força e beleza quando o Senhor Jeová quiser:

Ele lhe prometeu proteção, e o penhor sagrado é bom,

Sussurra-se entre os olivais, e murmura-se junto ao rio,

Como no silêncio sabático se ouve o fluir do Jordão,

E pelas brisas sabáticas se agitam as árvores encanecidas.

— Sra. Hale, em The Rhyme of Life.

Ajunta os exilados de Israel. Não se admire de que Deus reúna "os exilados", e os separe de cada canto para um retorno; por que não haveria de fazer isso, ele que "conta o número das estrelas e chama a todas pelos seus nomes"? Não há nenhum de seu povo tão desprezível aos olhos do homem que não seja conhecido e considerado por Deus. Ainda que estejam encobertos no mundo, são as estrelas do mundo; e haveria Deus de numerar as estrelas inanimadas nos céus e não dar conta de suas estrelas vivas na terra? Não; onde quer que estejam dispersos, ele não os esquecerá: por mais que sejam afligidos, ele não os desprezará. As estrelas são tão numerosas que são inumeráveis para o homem; algumas são visíveis e conhecidas dos homens, outras jazem mais ocultas e indescobertas numa luz confusa, como as da Via Láctea; o homem não consegue ver distintamente nem uma delas. Deus conhece a todo o seu povo. Assim como pode fazer o que está acima do poder do homem realizar, também entende o que está acima da habilidade do homem descobrir.

— Stephen Charnock.

Ajunta os exilados de Israel. Davi bem poderia ter escrito com sentimento sobre os "exilados", pois ele mesmo fora um deles; e até mesmo de Jerusalém, em sua velhice, quando expulso dali por seu filho desnaturado, subiu pela encosta do monte das Oliveiras, chorando e descalço, e outros "exilados" com ele, chorando também enquanto caminhavam.

— Barton Bouchier.

Versículo 3Salmo 147:3

Ele sara os quebrantados de coração, etc. Há aqui dois elementos contidos neste texto: os pacientes e o médico. Os pacientes são os quebrantados de coração. O médico é Cristo; é ele quem liga as suas feridas. Percebe-se e discerne-se que os pacientes aqui têm duas feridas ou males: o quebrantamento de coração e o ferimento; ele liga tais feridas. O quebrantamento de coração pressupõe uma inteireza de coração anterior. A inteireza de coração é dupla: ou inteireza de coração no pecado, ou inteireza de coração fora do pecado.

Primeiro, a inteireza de coração fora do pecado é quando o coração está sem pecado; assim os anjos bendito têm corações inteiros, e assim Adão e Eva, e nós neles, antes da queda, tinham corações inteiros. Segundo, a inteireza de coração no pecado; assim os demônios têm corações inteiros, e todos os homens, desde a queda, desde sua concepção até sua conversão, têm corações inteiros; e são estes que nosso Salvador tem em mente: "Os que têm saúde não precisam de médico, mas os que estão doentes."

O quebrantamento de coração pode ser considerado de duas maneiras: primeiro, em relação à inteireza de coração no pecado — assim o quebrantamento de coração não é um mal, mas o começo da cura de uma doença desesperada. Segundo, em relação à inteireza de coração fora do pecado; e assim é um mal ou enfermidade, ainda que peculiar a um só sangue, a saber, os eleitos de Deus; pois, embora o coração se torne inteiro em seu desejo por Deus, ainda assim está quebrantado por seus pecados.

Como um homem que tem uma flecha farpada cravada no flanco, e a flecha é arrancada da carne, mas a ferida ainda não está curada; assim o pecado pode ser arrancado do coração, mas a cicatriz deixada por essa extração ainda não está curada. As feridas ainda em processo de cura são as pragas e aflições da consciência, os suspiros e gemidos de uma alma faminta por graça, o veneno picante que a presa da serpente deixou para trás; estas são as feridas. Ora, o coração se quebranta de três maneiras.

Primeiro, pela lei; assim como quebranta o coração do ladrão ouvir a sentença da lei, de que deve ser enforcado por seu roubo, assim quebranta o coração da alma compreender de modo sensível a sentença da lei: não pecarás; se pecares, serás condenado. Se algum dia o coração chegar a sentir esta sentença — "Estás condenado" — é impossível suportá-la sem que se quebre. "Não é a minha palavra como um martelo que despedaça a rocha?" (Jeremias 23:29). Poderia algum coração de rocha resistir e não se quebrar sob esses golpes? Na verdade, até aqui um homem pode ser quebrantado e ainda assim ser um réprobo; pois todos serão assim quebrantados no inferno, e por isso este quebrantamento não basta.

Segundo, pelo Evangelho; pois, se o coração algum dia chegar a sentir o amor do Evangelho, isso o partirá em pedaços. "Rasgai o vosso coração; porque o Senhor é gracioso", etc. (Joel 2:13). Quando vêm todos os abalos da misericórdia de Deus, todos clamam "Rasgai." Na verdade, o coração não pode resistir a eles, uma vez que os sinta. Golpeia tua alma com o evangelho: se algum caminho debaixo do céu pode quebrá-la, é este.

Terceiro, o coração se quebranta pela habilidade do ministro no manejo destas duas coisas, a lei e o evangelho: Deus o provê de habilidade para aplicar a lei com força, e lhe dá entendimento de como propor o evangelho, e por este meio Deus quebranta o coração; pois, ainda que a lei seja um martelo excelente, e ainda que o evangelho seja uma bigorna perfeitamente adequada, se o ministro não colocar a alma sobre ela, o coração não se quebrará: ele deve desferir um golpe pleno com a lei, e deve pôr todo o poder do evangelho às costas da alma, ou o coração não se quebrará.

Ele sara os quebrantados de coração. Observe daí que Cristo justifica e santifica; pois é este o sentido.

  1. Primeiro, porque Deus deu a Cristo graça para agir em favor dos quebrantados de coração; e, portanto, se esta é a sua graça, curar os quebrantados de coração, certamente ele os curará. "O Espírito do Senhor está sobre mim", etc. "Enviou-me para curar os quebrantados de coração", etc. (Lucas 4:18). Se ele foi constituído mestre desta arte, precisamente com este propósito, curar os quebrantados de coração, verdadeiramente os curará, e a nenhum outro além deles. Não é como Hosandro e Hipócrates, cujo pai destinou ambos à medicina; destinou seu filho Hipócrates a ser médico de cavalos, mas ele se revelou médico de homens; destinou Hosandro a ser médico de homens, e ele se revelou médico de cavalos. Jesus não é assim; não, não; ele curará aqueles que foi designado para curar.

  2. Porque Cristo se comprometeu a fazê-lo. Quando um médico habilidoso empreende uma cura, certamente a realizará: na verdade, às vezes até um bom médico pode falhar, como o médico de Trajano, que morreu em suas mãos; em cujo túmulo se escreveu: "Aqui jaz o imperador Trajano, que pode agradecer ao seu médico por ter morrido." Mas se Cristo empreende a cura, podes ter certeza dela; pois ele te diz, a ti que estás quebrantado de coração, que já a empreendeu, que já sentiu teu pulso (Isaías 57:15). Ele não apenas se compromete, mas diz que irá visitar seu paciente doente, virá até a tua cama, sim, virá e habitará contigo por todo o tempo da tua doença; nunca te faltará nada, pois ele estará pronto para te ajudar: não precisas reclamar e dizer: "Ah, o médico está longe demais, não virá até mim."

Habito nos lugares altos, de fato, diz Deus, mas ainda assim virei habitar contigo, que és de espírito humilde. Não precisas temer, dizendo: "Curará um homem seus inimigos? Fui inimigo da glória de Deus, e ainda assim me curará?" Sim, diz Cristo, se estás quebrantado de coração, eu te ligarei.

  1. Terceiro, porque este é o encargo de Cristo, e ele cuidará da sua própria vocação: "O Senhor me enviou para ligar os quebrantados de coração" (Isaías 61:1)... Tampouco precisas temer a tua própria pobreza, por não teres com que pagá-lo; pois podes vir a ele mendigando; ele não esperará nada de ti; pois "para este olharei, para o pobre", etc. (Isaías 66:2).

  2. Quarto, só os quebrantados de coração tomarão o remédio de Cristo. Ora, este é o desejo de um médico, que seu paciente se lance sobre ele; se não o fizer, o médico não tem desejo de se ocupar dele. Ora, só os quebrantados de coração tomam o remédio que Cristo dá, e por isso ele diz: "Para este olharei, para o quebrantado de coração, e que treme à minha palavra" (Isaías 56:2). Quando ordeno que tome tal purgante, diz Deus, ele treme, e o toma.

— William Fenner, em um sermão intitulado The Sovereign Virtue of the Gospel, 1647.

Ó tu que enxugas a lágrima do que chora,

Quão escuro seria este mundo,

Se, quando aqui enganados e feridos,

A ti não pudéssemos voar!

Os amigos que em nosso sol vivem,

Quando o inverno chega, se vão;

E aquele que só lágrimas tem para dar

Sozinho deve chorá-las.

Mas tu curarás esse coração partido,

Que, como as plantas que lançam

Seu perfume da parte ferida,

Exala doçura da dor.

Quando a alegria já não conforta nem anima,

E até a esperança que lançou

Um instante de brilho sobre nossas lágrimas

Se apaga e se desvanece também;

Ah! quem suportaria o destino tempestuoso da vida,

Se tua asa de amor não viesse,

Trazendo, radiante, através da escuridão,

Nosso ramo de paz vindo do alto?

Então a tristeza, tocada por ti, se torna clara

Com mais que o raio do êxtase;

Assim como a escuridão nos mostra mundos de luz

Que nunca víamos de dia!

— Thomas Moore, 1779-1852.

Ele sara os quebrantados de coração. O quebrantado de coração é aquele cujo coração é tocado pelo mal do pecado, e que chora lágrimas amargas por causa dele; alguém que sente tristeza, vergonha e angústia ao rever sua vida passada de pecado, e sua vil rebelião contra um Deus justo. Tal pessoa tem o coração quebrantado. Seu coração se quebranta ao ver a própria ingratidão — o desprezo com que tratou os apelos do Espírito Santo. Seu coração se quebranta ao considerar os inúmeros convites que lhe foram feitos nas Escrituras, todos os quais ele desprezou e menosprezou perversamente.

Seu coração se quebranta ao recordar mil bondosas providências para com ele e sua família, de dia e de noite, todas enviadas por Deus, e destinadas a seu benefício moral, espiritual e eterno, mas por ele indigna e desenfreadamente abusadas. Seu coração se quebranta ao considerar o amor e a compaixão do adorável Redentor; a humilhação de seu nascimento; a dedicação de sua vida; a afronta, a indignidade de seus sofrimentos; a ignomínia e a angústia de sua morte.

Seu coração se quebranta quando sua consciência lhe assegura que toda essa humilhação, esse sofrimento, essa morte, foram por ele, que tão deliberada e repetidamente recusou a graça que o sangue e a justiça de Cristo compraram. É a visão do Calvário que o enche de angústia de espírito, que o sobrecarrega de confusão e autoabatimento. Enquanto contempla a cena espantosa, ele fica de pé, chora, ora, bate no peito, exclama: "Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" E acrescenta: "Ó homem miserável que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte?"

O quebrantado de coração deve, ainda, ser entendido como aquele que busca ajuda só em Deus, e não se consolará até que ele fale paz à sua alma. O ato de Deus, na escritura diante de nós, é a saúde moral e espiritual do homem — do homem, que trouxera doença sobre si mesmo — do homem, por sua própria rebelião contra seu Criador — do homem, que de dez mil maneiras provocara a justiça do céu, e merecia apenas indignação e ira eterna — a saúde do homem, a quem, num instante, ele poderia lançar à destruição total.

A saúde salvadora aqui proposta é a remoção de toda culpa, por mais contraída que seja, e de toda impureza, por mais enraizada que esteja. É a comunicação do favor de Deus, as riquezas de sua graça, a implantação de sua justiça. Para efetuar a cura do coração quebrantado, Deus, além disso, designou um Médico, cuja habilidade é infalível, cuja bondade e cuidado são iguais à sua habilidade. Esse Médico não é outro senão o Filho de Deus. Sob esse título nos foi dado a conhecer. "Os que têm saúde não precisam de médico, mas os que estão doentes." O profeta Isaías introduz sua vinda na linguagem mais sublime: "Enviou-me para ligar os quebrantados de coração, para apregoar liberdade aos cativos, e a abertura da prisão aos que estão presos."

A saúde, a solidez moral e espiritual da alma, meus irmãos, deriva do sacrifício expiatório de Cristo. A graça de Deus flui para o quebrantado de coração através de sua humanidade, sua divindade, sua justiça, sua verdade; através de sua paciência, sua humildade, sua morte e paixão; através de sua vitória sobre o pecado, sua ressurreição e ascensão ao céu. Aqui, tu, quebrantado de coração, tu que choras, que velas, penitente; aqui está o remédio, aqui o Médico, aqui a cura, aqui a saúde que buscas.

A cura do quebrantado de coração deve, ainda, ser entendida como efetuada pela ação do Espírito Santo. É feita pelo Espírito de Deus, para que se faça, e para que se faça bem; e para que todo o louvor, toda a glória do que se faz, seja atribuída à plenitude, à gratuidade, à soberania da sua graça. O Espírito de Deus, contudo, usa meios. Os meios da graça são designados expressamente para este fim; ali se aplica a bênção da saúde. Ali, sob o som do evangelho eterno, enquanto se olha pela fé para Cristo, e se apropriam os seus méritos, ele cura o quebrantado de coração. Ali, ao recordar o amor da morte de Cristo, e aplicar seus benefícios pela fé à alma, ele cura o quebrantado de coração. Ali, enquanto a alma, sensível à sua bondade, oferece o cântico de louvor, e confia somente na sua misericórdia, ele cura o quebrantado de coração. Ali, prostrado diante do seu estrado, suplicando sua graça, descansando em sua redenção consumada, ele cura o quebrantado de coração. Nos atos privados de devoção, o Espírito de Deus também está perto para abençoar e salvar. Ali, ao ler e crer em sua santa Palavra, ao meditar em seu significado; ali, na oração secreta e solene, a alma se apega a Deus em Cristo Jesus; ele cura o quebrantado de coração.

— Condensado de um sermão de Thomas Blackley, 1826.

Ele sara os quebrantados de coração. Sinto-me, de fato, sinceramente solidário contigo nesta nova dor. "As tuas ondas passaram sobre mim." A provação, tanto mais pesada por não ser a primeira quebra, mas as águas continuando ainda, e continuando a subir, até que abismo chame abismo ao ruído das cataratas de Deus, "sim, e todas as tuas vagas." Em tais circunstâncias, somos grandemente tentados a duvidar se é verdade, do Santo no meio de nós, que a cana quebrada ele não quebrará, e o pavio que fumega ele não apagará.

Não podemos, no entanto, duvidar disso, nem mesmo no dia de nossa dor e desespero temos liberdade para questioná-lo. Nosso Deus é o Deus do coração quebrantado. Quanto mais fundo tal coração é ferido, e quanto mais sangra, mais precioso é aos seus olhos, mais perto ele se aproxima, mais tempo ali permanece. "Habito com aquele que é de coração contrito." Tanto mais abundantemente manifestará a bondade e a glória de seu poder, carregando-o ternamente em seu seio e, por fim, ligando suas feridas dolorosas.

"Ele sara os quebrantados de coração." "Ó tu, aflita, sacudida pela tempestade, e não consolada, eis que assentarei as tuas pedras com cores formosas, e porei os teus fundamentos com safiras." Noemi, chorando, disse: "Chamai-me Mara, porque o Senhor me tratou com muita amargura." Depois, a feliz Noemi tomou o filho de sua própria Rute, e o pôs em seu seio, e docemente descobriu que os dias de seu luto haviam terminado.

Meu caro amigo, este novo golpe de profunda dor foi preparado para ti pelo Ancião de Dias. Seu Filho — e esse Filho é amor — velou sobre os conselhos antigos, para guardá-los e cumpri-los até a mais mínima circunstância.

— John Jameson, 1838.

Versículo 4Salmo 147:4

Ele conta o número das estrelas, etc. Nesta semelhança ele mostra que, ainda que Abraão não pudesse compreender a multidão dos filhos, nem de sua fé nem de sua carne, tanto quanto não podia contar o número das estrelas, o Senhor conhece cada crente pelo nome, assim como conhece cada estrela e pode chamar cada uma pelo seu nome.

— David Dickson.

Ele conta o número das estrelas, etc. Entre os pagãos, cada constelação representava algum deus. Mas as Escrituras mostram Jeová não como um entre muitos deuses estrelados, mas como o único Deus de todas as estrelas. Ele é também, como ensinou seu povo por meio de Abraão, o Deus de um firmamento de estrelas mais nobres. Seu povo está disperso e pisado como a areia da praia. Mas ele transforma pó e lama em estrelas de glória. Ele fará de cada santo uma estrela, e o céu é o firmamento do seu povo, onde os sofredores de coração quebrantado da terra se glorificam em cintilantes galáxias.

— Hermann Venema.

Chama a todas pelos seus nomes. Literalmente, "chama nomes a todas elas", expressão que marca não só o poder de Deus em organizá-las todas como uma hoste (Isaías 40:26), mas também o conhecimento mais íntimo e o cuidado vigilante, como o de um pastor por seu rebanho (João 10:3).

— J. J. Stewart Perowne.

Chama a todas pelos seus nomes. Elas prestam a ele a devida obediência, como servos a seu senhor. Quando as escolhe uma a uma e as chama pelo nome para algum serviço oficial, as convoca cada uma para seus respectivos ofícios, como o general de um exército designa o posto de cada regimento num batalhão; ou, "chama-as pelo nome", isto é, impõe-lhes nomes, sinal de domínio, sendo o dar nomes às criaturas inferiores o primeiro ato do domínio derivado de Adão sobre elas.

Estas estão sob a soberania de Deus. As estrelas, por suas influências, lutam contra Sísera (Juízes 5:20); e o sol segura as rédeas, e permanece imóvel como pedra para iluminar Josué até a vitória completa (Josué 10:12). Todas estão dispostas em suas fileiras para receber sua ordem de comando, e lutam em formação cerrada, ansiosas por ter parte na ruína dos inimigos do seu soberano.

— Stephen Charnock.

A distância imensa em que se sabe que as estrelas mais próximas se situam prova que são corpos de tamanho prodigioso, não inferiores ao nosso próprio sol, e que brilham não por raios refletidos, mas por luz própria. Mas corpos cercados de esplendor tão refulgente teriam pouca utilidade no império de Jeová, a menos que mundos ao redor fossem animados por sua influência benigna, e iluminados por seus raios. Conclui-se, portanto, que cada estrela é um sol cercado de globos planetários.

Quase mil desses luminares podem ser vistos, a olho nu, numa noite clara de inverno. Mas estes não formam nem a octogésima milésima parte do que se pode distinguir com a ajuda de telescópios. Enquanto o Dr. Herschel explorava a parte mais densa da Via Láctea, em um quarto de hora não menos que 116 mil estrelas passaram pelo campo de visão do seu telescópio. Calculou-se que quase cem milhões de estrelas poderiam ser percebidas por nossos instrumentos mais aperfeiçoados, se todas as regiões do céu fossem completamente exploradas. Mas regiões incomensuráveis do espaço se estendem além dos limites extremos da visão humana, mesmo assim assistida, aonde a própria imaginação mal pode penetrar, mas que sem dúvida estão repletas de obras da sabedoria divina e da onipotência divina.

— Thomas Dick, em The Christian Philosopher.

Versículo 5Salmo 147:5

O seu entendimento é infinito. Em hebraico: "do seu entendimento não há número." Deus é incompreensível. Em lugar; em tempo; em entendimento; em amor. Primeiro, em lugar; porque nenhum lugar, nenhum espaço, pode ser imaginado tão grande que Deus não o exceda, e não possa ser encontrado além dele. Segundo, em tempo; porque ele excede todo tempo: pois era antes de todo tempo que se possa conceber, e será depois de todo tempo. O tempo é coisa criada, para acompanhar a criação e a continuidade de todas as coisas criadas e mantidas por Deus. Terceiro, em entendimento; porque nenhum entendimento criado pode compreendê-lo de modo que nada de Deus lhe fique oculto. Quarto, em amor, porque Deus excede todo amor: nenhuma criatura pode amar a Deus segundo o seu valor. Todos estes modos de incompreensibilidade decorrem de sua infinitude.

— Thomas Larkham, em The Attributes of God Unfolded, and Applied, 1656.

O seu entendimento é infinito. Diz-se que a sabedoria divina é "sem número"; isto é, os objetos dos quais essa sabedoria de Deus pode tomar conhecimento são inumeráveis.

— Simon de Muis.

Temos, neste versículo, três atributos de Deus: sua grandeza, seu poder e seu conhecimento; e embora só do último se diga expressamente que é infinito, o mesmo está implícito quanto aos dois primeiros; pois, sendo todas as perfeições de Deus essenciais a ele, precisam necessariamente ser infinitas, como ele mesmo o é; e, portanto, o que se afirma de uma delas deve, por igual razão, estender-se às demais.

— John Conant, 1608-1693.

Versículo 6Salmo 147:6

O Senhor levanta os mansos, etc. Os mansos não precisam invejar os altivos que varrem a terra com seus mantos vistosos, assim como a realeza verdadeira não tem ciúme do herói régio que exibe sua hora no palco. Serão príncipes e governantes muito depois de esses atores terem posto de lado suas coroas de ouropel. Que reviravolta maravilhosa haverá quando Deus colocar o último em primeiro, e o primeiro em último! Os moralistas muitas vezes nos apontaram o soberano de cem largos reinos deitando-se, por fim, em seis palmos de argila aprisionadora; mas Deus nos mostrará o camponês da beira do caminho elevado à herança do universo.

— Evangelical Magazine.

Versículos 7–9Salmo 147:7-9

Deus cria, e depois não deixa de suprir. Por analogia, o Senhor edifica Jerusalém, e provê para as necessidades dos habitantes; por inferência espiritual, os santos argumentam que Cristo estabelece sua igreja e dá todos os dons graciosos necessários a essa instituição.

— John Lorinus.

Versículos 8–9Salmo 147:8-9

Montes... corvos. Providência maravilhosa, que toma conhecimento tanto do montanhoso quanto do minúsculo. O Provedor de tudo desce de alturas augustas e sublimes para salvar da inanição a mais ínfima criatura — estendendo cuidado constante às necessidades até desses pequenos e desprezíveis objetos, os filhotes de corvo, em hebraico "os filhos do corvo."

— Martin Geier.

Versículo 8Salmo 147:8

Nuvens... chuva... erva. Há uma dependência e subordinação mútuas entre todas as causas segundas. As criaturas se servem umas às outras por ministérios e suprimentos mútuos; a terra é aquecida pelo calor dos céus, umedecida pela água e, pelo equilíbrio de ambos, torna-se fecunda; e assim envia incontáveis plantas para o conforto e uso das criaturas vivas, e as criaturas vivas são para o sustento do homem.

É maravilhoso considerar a subordinação de todas as causas, e a proporção que guardam umas com as outras. Os céus agem sobre os elementos, os elementos sobre a terra, e a terra produz frutos para o uso do homem. O profeta observa esta admirável gradação: "Eu ouvirei os céus, e os céus ouvirão a terra; e a terra ouvirá o trigo, e o vinho, e o azeite; e o trigo, e o vinho, e o azeite ouvirão a Jezreel" (Oseias 2:21-22). Olhamos para os campos em busca do trigo, do vinho e do azeite; mas eles nada podem fazer sem as nuvens, e as nuvens nada podem fazer sem Deus. As criaturas são devedoras umas às outras, e todas a Deus. Na ordem do mundo há uma excelente cadeia de causas, pela qual todas as coisas se conectam, para que assim conduzam a alma até o Senhor.

— Thomas Manton.

Quem prepara a chuva? A nuvem de chuva só solta seu conteúdo quando Deus o ordena, e conforme ele ordena, seja no aguaceiro suave e brando, seja na chuva torrencial que inunda os campos e atrapalha o trabalho do lavrador.

— Thomas Robinson, em Homiletical Commentary on the Book of Job, 1876.

Quem faz crescer a erva sobre os montes. As ervas selvagens são tomadas, por assim dizer, sob a providência especial de Deus. No verdor perene das regiões acima da zona de cultivo do homem, temos uma prova perpétua do cuidado de Deus com os animais inferiores, que nem semeiam nem colhem. As ervas dos montes crescem espontaneamente; não exigem cultivo além do que a chuva e o sol dos céus fornecem. Obtêm seu alimento diretamente do solo inorgânico, e independem de materiais orgânicos.

Em nenhum lugar a erva é tão verde e vigorosa quanto nas belas encostas de pastagem, tipo gramado, no alto dos Alpes, radiantes com a glória das flores silvestres, e sempre musicais com o zumbido dos gafanhotos, e o tilintar dos sinos do gado. Incontáveis vacas e cabras pastam ali; os camponeses passam seus meses de verão fazendo queijo e feno delas para o consumo de inverno nos vales.

Este sistema exaustivo de agricultura tem sido praticado há incontáveis séculos; ninguém pensa em adubar as pastagens alpinas; e, no entanto, não se observou deficiência alguma em sua fertilidade, embora o solo seja apenas uma fina camada estendida sobre as rochas nuas. Pode-se considerar parte do mesmo arranjo sábio e gracioso da Providência que os insetos que devoram as ervas nos Kuh e Schaf Alpen, as pastagens das vacas e ovelhas, sejam contidos por uma predominância de insetos carnívoros. Em todos os prados montanhosos verificou-se que as espécies carnívoras são ao menos quatro vezes mais numerosas que as espécies de insetos herbívoros.

Assim, na ausência de aves, que são raras na Suíça, as pastagens se preservam de um terrível flagelo. Para quem não conhece esse mecanismo de controle, pode parecer surpreendente que o verdor das pastagens alpinas seja tão rico e exuberante, considerando o imenso desenvolvimento da vida insetil. A erva, sempre que o sol brilha, fica literalmente coberta deles — borboletas das cores mais vivas, e besouros da mais brilhante iridescência; e o ar se enche de seus murmúrios altos.

Lembro-me bem do sentimento vívido da graciosa providência de Deus que me tomou ao atravessar o belo Wengern Alp, ao pé do Jungfrau, e ver, onde quer que me detivesse sobre o gramado verde, vivo de seus minúsculos habitantes, o equilíbrio da natureza tão maravilhosamente preservado entre a erva que serve de alimento ao homem e a mariposa diante da qual ele é esmagado. Se aos insetos herbívoros fosse permitido multiplicar-se em toda a sua extensão, nas circunstâncias tão favoráveis que o calor do ar e o verdor da terra na Suíça produzem, as ricas pastagens que hoje rendem alimento abundante para mais de um milhão e meio de cabeças de gado logo se tornariam desertos nus e sem folhas.

Não só em seu poder de crescer sem cultivo, mas também nas peculiaridades de sua estrutura, as ervas dos montes proclamam a mão de Deus. Muitas delas são vivíparas. Em vez de produzir flores e sementes, como fazem as ervas dos vales tranquilos, delas brotam plantas jovens já perfeitamente formadas. Elas se enroscam ao redor do caule e formam uma espécie de flor. Nesse estado permanecem até que o caule-mãe murche e caia prostrado no chão, quando imediatamente lançam raiz e formam ervas independentes.

Esta é uma adaptação notável às circunstâncias; pois é manifesto que, se sementes, em vez de plantas vivas, se desenvolvessem nas espigas das ervas dos montes, seriam inúteis nas regiões tempestuosas onde crescem. Seriam levadas pelo vento para longe dos lugares que deveriam revestir, para lugares estranhos à sua natureza e hábitos, e assim a espécie logo pereceria. Quanto mais pensamos nisso, mais nos impressiona a sábia previdência que inspirou o decreto criador: "Produza a terra erva." É a mais abundante e a mais generalizada de todas as vegetações. Adequa-se a quase todo solo e clima.

— Hugh Macmillan, em Bible Teachings in Nature, 1868.

Versículos 8–9Salmo 147:8-9

Os hebreus não tinham a noção do que chamamos "leis secundárias", mas criam que Deus agia diretamente sobre a matéria, e era a causa imediata e eficiente da ordem solene e dos fenômenos variados e maravilhosos da natureza. Prescindindo assim de toda a maquinaria de causa e efeito, tal como empregamos esses termos na linguagem filosófica, suas mentes se punham em contato imediato com Deus em suas múltiplas obras, e isso conferia, tanto à devoção quanto ao espírito da poesia, a inspiração mais viva e o mais livre campo de ação.

Céu e terra eram governados por seus mandamentos; o trovão era sua "voz", o relâmpago suas "flechas." É ele quem "faz subir o vapor desde os confins da terra." Quando a cidade faminta clamasse ao trigo, ao vinho e ao azeite, e estes clamassem à terra por sustento, e a terra ressequida clamasse aos céus por umidade, e os céus clamassem ao Senhor por permissão para refrescar a terra, então Jeová ouviria e supriria. Ele dava a chuva, e ele enviava a seca e a fome.

As nuvens não eram vistas apenas como sustentadas por uma lei de gravidade específica, mas Deus as estendia pelo céu; essas nuvens eram o carro de Deus. As cortinas de seu pavilhão, o pó de seus pés. A neve e o granizo eram manifestações temíveis de Deus, muitas vezes enviadas como mensageiras de sua ira.

— G. Hubbard, em Bate's Encyclopaedia, 1865.

Por sua providência especial, Deus prepara alimento para os que não têm outro cuidado tomado por eles. Os animais que vivem entre os homens são cuidados pelos homens; estes enriquecem o solo com adubo e o lavram; e isso produz cereal para o uso desse gado, assim como dos homens. Mas os animais selvagens que vivem nos montes, nos bosques e nos lugares desertos, são alimentados só pelos céus: a chuva que dali cai enriquece essas colinas áridas e faz crescer ali a erva, que de outro modo não cresceria, e assim Deus dá a esses animais selvagens o seu alimento pelo mesmo modo de Providência Divina com que, no fim do versículo, se diz que provê para os filhotes de corvo.

— Henry Hammond.

Versículo 9Salmo 147:9

Os filhotes do corvo clamam. As histórias estranhas contadas por escritores judeus e árabes sobre a crueldade do corvo para com seus filhotes, expulsando-os do ninho antes que estejam de todo capazes de se sustentar, carecem inteiramente de fundamento, pois nenhuma ave é mais cuidadosa com seus filhotes que o corvo. A esse hábito de voar sem descanso em busca de alimento para satisfazer o próprio apetite e o de seus filhotes talvez se deva o motivo pelo qual os escritores sagrados o escolheram como objeto especial do cuidado protetor de Deus.

— W. Houghton, em The Bible Educator.

Os filhotes do corvo clamam. Ainda implumes, os filhotes de corvo têm o estranho hábito de cair de seus ninhos, e batem pesadamente as asas ao tocar o chão. Na manhã seguinte, os pastores os encontram sentados, grasnando no chão, sob seus antigos lares, e são então capturados e levados com relativa facilidade.

— J. G. Wood, em The Illustrated Natural History, 1869.

Os filhotes do corvo clamam. Os procedimentos e manobras vespertinas das gralhas são curiosos e divertidos no outono. Pouco antes do anoitecer, elas retornam em longas fileiras da busca de alimento do dia, e se reúnem aos milhares sobre o vale de Selbourne, onde giram no ar, brincam e mergulham de modo lúdico, esforçando-se o tempo todo com a voz, e fazendo um grasnar alto que, misturado e suavizado pela distância que nos separa deles lá na aldeia, se torna um ruído confuso, ou repreensão; ou antes um murmúrio agradável, muito cativante para a imaginação, e não muito diferente do latido de uma matilha em bosques ocos e ressoantes, ou do rugir do vento em árvores altas, ou do rolar da maré sobre uma praia de seixos.

Quando essa cerimônia termina, com o último clarão do dia, elas se retiram para a noite nos densos bosques de faias de Tisted e Ropley. Lembramo-nos de uma menina que, ao ir para a cama, costumava comentar sobre tal ocorrência, no verdadeiro espírito da fisicoteologia, que as gralhas estavam dizendo suas orações; e, no entanto, essa criança era jovem demais para saber que as Escrituras haviam dito da Divindade que ele alimenta os corvos que a ele clamam.

— Gilbert White (1720-1793), em The Natural History of Selborne.

Olha, e afasta o olhar do teu desânimo baixo;

Vê os leves habitantes do ar estéril:

A eles não pertencem celeiros nem provisões,

Nada além dos bosques e do canto agradável;

Contudo, teu bondoso Pai celeste inclina o olhar

Sobre a menor asa que perpassa o céu.

A ele cantam quando a Primavera renova a planície;

A ele clamam no reinado cortante do Inverno;

E nem a música, nem o seu lamento, são em vão.

Ele ouve o chamado alegre, e o angustiado,

E com generosidade sem limites a todos farta.

Não cuidará ele de vós, incrédulos, dizei?

Será ele insensato? Ou sois vós menos que eles?

— James Thomson, 1700-1748.

Conta-se de Edward Taylor, o pregador marinheiro de Boston, que, no domingo anterior a sua viagem para a Europa, suplicava ao Senhor que cuidasse bem de sua igreja durante sua ausência. De repente, parou, e exclamou: "Que fiz eu? Desconfiar da Providência do céu! Um Deus que dá a uma baleia uma tonelada de arenques para o desjejum, não cuidará ele dos meus filhos?" — e prosseguiu, encerrando sua oração de modo mais confiante.

— De Eccentric Preachers, por C. H. S.

Versículo 10Salmo 147:10

As duas partes deste versículo pretendem provavelmente descrever a cavalaria e a infantaria, como componentes da força militar das nações. Não é aos que confiam em tais recursos que Jeová mostra favor, mas aos que se apoiam em sua proteção (Salmos 147:11).

— Annotated Paragraph Bible.

Versículos 10–11Salmo 147:10-11

Quando um pecador é trazido de joelhos, e se torna suplicante, quando, assim como é abatido pela aflição, também se abate em oração e súplica, então o Senhor lhe será favorável, e mostrará seu deleite nele.

O Senhor não se agrada da força do cavalo: nem se compraz nas pernas do homem. Nenhum homem é favorecido por Deus por causa de sua aparência exterior, por ter belo rosto, ou membros fortes e bem talhados; sim, o Senhor não tem prazer não só nas pernas de homem algum, mas tampouco no cérebro de homem algum, por mais alcance que tenha, nem na inteligência de homem algum, por mais rápida que seja, nem no juízo de homem algum, por mais profundo que seja, nem na língua de homem algum, por mais eloquente ou bem-falante que seja.

Mas o Senhor se agrada dos que o temem, dos que esperam na sua misericórdia, dos que andam humildemente com ele e o invocam... Todas as belezas e raridades, tanto de pessoas quanto de coisas, são fracas e sem sabor, sim, cansativas e repugnantes a Deus, em comparação com uma alma graciosa, honesta e humilde.

Os príncipes têm seus favoritos (Jó 33:26); são favoráveis a alguns acima de muitos, seja porque são pessoas belas e formosas, seja porque são homens de fala excelente, prudência e porte. Todos os homens piedosos são os favoritos de Deus; ele lhes é favorável não apenas acima de muitos homens do mundo, mas acima de todos os homens deste mundo, que têm sua porção nesta vida; e ele os favorece porque são a aquisição de seu Filho, e a obra de seu Espírito, que os convence de seus pecados e os humilha por eles, e também os recria à imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade. Estes serão os seus favoritos.

— Joseph Caryl.

Versículo 11Salmo 147:11

Dos que o temem, dos que esperam na sua misericórdia. Paciência e temor são as cercas da esperança. Há uma bela relação entre esperança e temor. Os dois estão ligados neste versículo. São como a cortiça na rede do pescador, que a impede de afundar, e o chumbo, que a impede de flutuar. A esperança sem temor corre o risco de ser demasiado otimista; o temor sem esperança logo se tornaria desânimo.

— George Seaton Bowes, em In Prospect of Sunday, 1880.

Dos que o temem, dos que esperam na sua misericórdia. Um cristão sincero se conhece por ambas as coisas: um temor de Deus, ou uma obediência constante a seus mandamentos, e uma confiança, fé e dependência de suas misericórdias. Oh, quão docemente se unem estas duas: uma obediência sincera e uniforme a ele, e uma inabalável e constante confiança em sua misericórdia e bondade! Toda a perfeição da vida cristã se resume nestas duas coisas — crer em Deus e temê-lo, confiar em sua misericórdia e temer o seu nome; uma nos torna cuidadosos em evitar o pecado, a outra diligentes em seguir a justiça; uma é um freio contra o pecado e as tentações, a outra um estímulo para nossos deveres.

O temor é o nosso freio, e a esperança o nosso motivo e encorajamento; um respeita nosso dever, e a outra nosso consolo; um modera a outra. Deus deve ser tanto temido quanto confiado; tanto confiado quanto temido; e assim como não devemos deixar nosso temor degenerar em servidão legal, mas esperar em sua misericórdia, também nossa confiança não deve degenerar em preguiça e libertinagem carnal, mas esperar assim em sua palavra a ponto de temer o seu nome. Pois bem, os que tanto creem em Deus quanto temem ofendê-lo são os únicos homens aceitáveis a Deus e ao seu povo. Deus se agradará deles, e eles se agradarão uns dos outros.

— Thomas Manton.

Temor e Esperança são os grandes vínculos da teologia do Antigo Testamento, que abraçam e incluem em seu significado todas as suas ideias.

— Thomas Le Blanc.

Temor e esperança são paixões da mente tão contrárias uma à outra que, em relação ao mesmo objeto, é estranho que se encontrem no mesmo caráter louvável; contudo, aqui vemos que sim, e é o louvor das mesmas pessoas que temem a Deus e nele esperam. Daí podemos extrair esta doutrina: que em toda preocupação que pese em nossos corações, devemos sempre nos esforçar por manter o equilíbrio entre esperança e temor.

Sabemos quanto a saúde do corpo depende de um devido equilíbrio dos humores, tal que impeça um de predominar sobre os demais; e quanto a segurança e a paz das nações resultam de um devido equilíbrio de comércio e poder, de modo que nenhuma se torne grande demais para suas vizinhas; e assim é necessário, para a saúde e o bem-estar de nossas almas, que se mantenha uma devida proporção entre suas forças e paixões, e que uma sempre sirva de freio à outra, para impedi-la de cair em extremos, como nestes afetos mencionados no texto. Um santo temor de Deus deve ser um freio à nossa esperança, para impedi-la de inchar em presunção; e uma piedosa esperança em Deus deve ser um freio ao nosso temor, para impedi-lo de afundar em desânimo.

Este equilíbrio deve, por mão sábia e firme, ser mantido em toda preocupação que pese em nossos corações, e sobre a qual tenhamos pensamentos. Enumerarei as de maior importância. Devemos manter tanto a esperança quanto o temor: 1. Quanto às preocupações de nossas almas, e nosso estado espiritual e eterno. 2. Quanto às nossas preocupações externas, relativas ao corpo e à vida presente. 3. Quanto às preocupações públicas da igreja de Deus, e de nossa própria terra e nação. Em relação a cada uma delas, devemos sempre estudar e nos esforçar para sustentar aquele afeto, seja esperança, seja temor, que o presente temperamento de nossas mentes e as circunstâncias do nosso caso tornam necessário para nos preservar de um extremo.

— Matthew Henry.

Versículo 12Salmo 147:12

Que toda a Criação deve, involuntariamente, louvar ao Senhor, e que o dever primário da inteligência consciente é o louvor voluntário desse mesmo Deus, são os dois axiomas da teologia do salmista. Ele afirmou o primeiro na primeira parte deste salmo, e agora está prestes a anunciar o segundo.

— Martin Geier.

Versículo 13Salmo 147:13

Ele fortaleceu os ferrolhos das tuas portas. Bendita é a cidade cujas portas Deus tranca com o seu poder, e reabre com a sua misericórdia. Nada pode defender onde sua justiça golpear; e nada pode ofender onde sua bondade preservar.

— Thomas Adams.

Versículos 13–14Salmo 147:13-14

O salmista apresenta quatro argumentos pelos quais deseja que Sião cante louvores: 1. Segurança e defesa. 2. Bênção. 3. Paz. 4. Sustento ou provisão.

  1. Segurança. Jerusalém é uma cidade segura, por ser defendida por Deus: pois fortaleceu os ferrolhos das tuas portas. Portas e ferrolhos ajudam bem uma cidade, mas a cidade só está segura quando Deus os torna fortes. A verdadeira muralha de uma cidade é a defesa de Deus sobre ela. Armas, leis, riquezas etc. são os ferrolhos, mas Deus é quem deve pôr força neles.

  2. Bênção. Jerusalém é uma cidade feliz, pois ele abençoou os teus filhos dentro de ti — teus reis, príncipes, magistrados etc. — com sabedoria, piedade etc.

  3. Paz. Jerusalém é uma cidade pacífica. Ele estabelece a paz nos teus limites, e o próprio nome já o sugere; pois Jerusalém, interpretada, é visio pacis — Visão de paz.

  4. Fartura. Jerusalém é uma cidade provida por Deus com o alimento e a provisão necessários; pois ele te farta com o mais fino do trigo.

— William Nicholson.

Versículo 14Salmo 147:14

Ele estabelece a paz nos teus limites, etc. Há uma paz política — paz na cidade e no campo; esta é a mais bela flor da coroa de um príncipe; a paz é a melhor bênção de uma nação. Vai bem com as abelhas quando há ruído; mas vai melhor com os cristãos quando, como na construção do Templo, não se ouve ruído de martelo. A paz traz consigo a fartura; quantas léguas alguns peregrinariam para comprar essa paz! Por isso os gregos fizeram da Paz a ama de Plutão, o deus da riqueza.

As plantas políticas prosperam melhor sob o sol da paz. "Ele estabelece a paz nos teus limites, e te farta com o mais fino do trigo." Os antigos faziam da harpa o emblema da paz: quão doce seria o som dessa harpa após o rugido do canhão! Todos deveriam procurar promover essa paz política. O homem piedoso, quando morre, "entra em paz" (Isaías 57:2); mas enquanto vive, a paz deve entrar nele.

— Thomas Watson.

Ele estabelece a paz. Observam os hebreus que todas as letras no nome de Deus são literae quiescentes, letras de repouso. Só Deus é o centro onde a alma pode encontrar descanso: só Deus pode falar paz à consciência.

— John Stoughton, falecido em 1639.

O mais fino do trigo. Se os homens dão muito, é em mercadoria barata e grosseira. Quantidade e qualidade só são possíveis, na produção humana, em razão inversa; mas o Senhor dá o máximo e o melhor de todas as provisões a seus dependentes. Como o crente sob o evangelho conhece bem o espírito íntimo deste sentido! O Senhor Jesus Cristo diz: "A minha paz vos dou." E quando ele nos faz descansar, e tudo é reconciliação e paz, então nos alimenta consigo mesmo — seu corpo, o mais fino trigo, e seu sangue, o vinho mais rico.

— Johannes Paulus Palanterius.

Versículo 15Salmo 147:15

A sua palavra corre velozmente. Não há momento algum entre o disparo da flecha e sua fixação no alvo; ambos ocorrem no mesmíssimo átomo e ponto de tempo. Por isso lemos, nas Escrituras, sobre os efeitos imediatos da palavra de Cristo. Diz ele ao leproso: "Sê limpo. E imediatamente ficou purificada a sua lepra" (Mateus 8:3). E ao cego: "Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente recuperou a vista" (Marcos 10:52). Nenhuma flecha faz impressão tão imediata no alvo visado quanto a flecha da palavra de Cristo. Mal Cristo diz à alma: sê iluminada, sê vivificada, sê consolada, a obra já está feita.

— Ralph Robinson.

Versículo 16Salmo 147:16

Ele dá a neve como a lã. Há três aspectos a considerar na neve, pelos quais é comparada à lã. Primeiro, pela sua brancura. A neve é branca como a lã; a neve é tão extremamente branca que a brancura de uma alma purificada pela graça perdoadora, no sangue de Cristo, se compara a ela (Isaías 1:18); e a parte final desse mesmo versículo sugere que a brancura da neve se assemelha à da lã. A brancura da neve é causada pela abundância de ar e espíritos presentes nesse corpo translúcido, como dizem os naturalistas. Qualquer coisa de substância aquosa, ao ser congelada ou muito trabalhada pelo frio, se torna mais branca; e por isso todas as pessoas que habitam climas ou países frios têm tez mais clara do que as que habitam climas quentes.

Segundo, a neve se parece com a lã pela maciez; é tão flexível ao toque quanto um cacho ou velo de lã. Terceiro, a neve se parece com a lã (o que pode parecer estranho) quanto ao seu calor. Ainda que a neve seja fria em si mesma, ela é para a terra como a lã, ou como um tecido de lã ou cobertor que mantém o corpo quente. A neve não é quente formalmente, mas é quente efetiva e virtualmente; e por isso se compara à lã.

— Joseph Caryl.

Como a lã. A saber, encaracolada e encrespada, e tão branca quanto a neve daquelas terras (Isaías 1:18; Apocalipse 1:14).

— John Diodati.

Neve como a lã. Os antigos costumavam chamar a neve de eriwdez udwr, "água lanosa" (Eustácio, em Dionysius Periegetes, p. 91). Marcial dá-lhe o nome de densum vellus aquarum, "um espesso velo de águas" (Epigramas, l. IV, ep. 3). Aristófanes chama as nuvens de "velos de lã voadores" (Nuvens, p. 146). Plínio a chama de espuma das águas celestes (História Natural, livro XVII, cap. 2).

— Samuel Burder.

Ele dá a neve como a lã. Na Palestina, a neve não é o traço característico do inverno, como é nas latitudes setentrionais. É apenas um fenômeno ocasional. Caem chuvas dela, de vez em quando, nas estações mais rigorosas, nas partes mais altas da terra, e branqueiam, por um dia ou dois, os vinhedos e os campos de trigo; mas ela derrete da terra verde tão rapidamente quanto seus vapores irmãos desaparecem do céu azul... Mas o salmista tomou a neve ocasional, assim como tomou o vapor fugaz, e fez dela um texto de suas meditações espirituais. Sigamos seu exemplo.

"Ele dá a neve como a lã", diz o salmista. Esta comparação indica expressamente um dos propósitos mais importantes que a neve serve na economia da natureza. Ela cobre a terra como um cobertor durante aquele período de sono invernal necessário para restaurar suas energias exaustas, e prepará-la para novos esforços na primavera; e, sendo, como a lã, má condutora, conserva o calor latente do solo, e protege a vida adormecida da planta e do animal, ocultos sob ela, do rigor gelado do ar externo. O trigo semeado no inverno, quando defendido por essa cobertura, cuja face inferior raramente cai muito abaixo de 32°F, pode prosperar mesmo que a temperatura do ar acima esteja muitos graus abaixo do ponto de congelamento. Nosso país, gozando de clima ameno, raramente precisa dessa proteção; mas em climas setentrionais, onde o inverno é severo e prolongado, seus efeitos benéficos são muito marcantes. A vegetação escassa que floresce com tanta súbita e maravilhosa beleza no auge do verão, nas regiões árticas e nos cumes das montanhas, pereceria por completo se não fosse a proteção da neve que ali se deposita por três quartos do ano.

Mas não é só às plantas alpinas e aos animais hibernantes que Deus dá a neve como a lã. Os esquimós tiram proveito dessa propriedade protetora curiosa, e engenhosamente constroem suas cabanas de inverno com blocos de neve endurecida; assim, de modo curioso, por uma lei homeopática, se protegem do frio pelos efeitos do frio. O navegador ártico tem-se beneficiado, muitas vezes, de muros de neve amontoados ao redor de seu navio, para o conforto relativo de seus quartéis de inverno, quando a temperatura externa caiu tão baixo que até o éter clorado se solidificou. E muitas vidas preciosas foram salvas pelo abrigo oportuno que a própria tempestade de neve proveu contra sua própria violência.

Mas, assim como a neve aquece nas regiões frias, também refresca nas regiões quentes. Ela envia, dos cumes brancos das montanhas equatoriais, seu sopro fresco para revigorar a vida abatida das terras que fervem sob um sol tropical; e, de seus reservatórios altos e inesgotáveis, alimenta rios perenes que regam as planícies quando todos os poços e riachos estão brancos e silenciosos no calor abrasador. Sem a neve perpétua das regiões montanhosas, a terra se reduziria a um deserto sem vida.

E não é só assim que a neve alpina mantém sempre plenos os rios que regam as planícies; por sua força de moagem, ao pressionar as montanhas, ela remove partículas das rochas, que são levadas pelos rios e espalhadas pelas planícies. Tal é a origem de grande parte das terras planas da Europa. Foram formadas das ruínas das montanhas pela ação da neve. Foi pela neve de eras distantes que nossos vales e bacias lacustres foram escavados, a forma de nossas paisagens esculpida e arredondada, e formado o solo em que cultivamos nossas colheitas.

Quem pensaria em tal ligação? E, no entanto, é verdade! Assim como, a cada estação, devemos o florescer e o brilho de nossos campos de verão à escuridão e à praga do inverno, também devemos a atual beleza estival do mundo ao grande inverno secular da era glacial. E não produz Deus resultados tão marcantes por meio de agentes aparentemente tão contraditórios no mundo humano? Aquele que aquece a vida tenra e latente das flores pela neve, e molda a beleza tranquila da paisagem estival pelo glaciar devastador, faz com que o frio da adversidade nutra a vida da alma, e arredonde em graça espiritual a aspereza e rudeza de uma natureza carnal e egoísta. Muitas vidas cristãs proveitosas devem sua beleza e frutificação a causas que, por algum tempo, as arruinaram e desgastaram.

Deus dá a neve como a lã; e, por mais gelado e devastador que seja o toque da tristeza, ele tem uma influência protetora que guarda contra males maiores; esculpe a paisagem espiritual interior em formas de beleza e graça, e aprofunda e fertiliza o solo do coração, para que nele cresçam, plantados pelo próprio Deus, os frutos pacíficos da justiça.

E agora, olhemos para o Doador da neve. "Ele dá a neve como a lã." "O floco de neve", diz de modo marcante o professor Tyndall, "conduz de volta ao sol" — tão intimamente relacionadas estão todas as coisas umas com as outras neste maravilhoso universo. Ele conduz mais longe, e mais alto ainda — até mesmo àquele que é o nosso sol e escudo, a luz e o calor de toda a criação. Todo o vasto reino do inverno, com seus estranhos fenômenos, não é senão o sopro de Deus — a Palavra Criadora — como que congelada contra a transparência azul do espaço, como o trabalho maravilhoso da geada numa vidraça.

O salmista não tinha a menor sombra de dúvida de que Deus formava e enviava o milagre anual da neve, assim como formara e enviara o milagre diário do maná no deserto. Era coisa comum; era ocorrência natural, ordinária; mas trazia sobre si o sinal divino, e mostrava a glória e a bondade de Deus tão marcantemente quanto o mais maravilhoso evento sobrenatural na história de sua nação. Quando Deus quis impressionar Jó com o senso do seu poder, não foi a alguma de suas obras milagrosas, mas a algumas de suas obras ordinárias que apelou.

E quando o salmista quis louvar a Deus pela preservação de Israel e pela restauração de Jerusalém — como faz no salmo do qual meu tema é tirado — não é para os eventos maravilhosos e milagrosos, dos quais a história de Israel abundava, que ele dirige a atenção, mas para os eventos comuns da Providência, e os processos e aparências ordinárias da natureza. Ele não pode pensar o bastante no Criador e Governante Onipotente do Universo, que entra em relações familiares com o seu povo, e se condescende às suas necessidades mais humildes. É o mesmo Deus que "dá a neve como a lã" que "mostra a sua palavra a Jacó, e os seus estatutos e mandamentos a Israel." E a maravilha dessa peculiaridade se realça por pensamentos tomados das maravilhas da natureza.

Sabemos mil vezes mais sobre a natureza, a formação e o propósito da neve do que o salmista sabia. Mas esse conhecimento é caro demais se a nossa ciência destrói a nossa fé. Que quantidade de precisão no conhecimento científico pode compensar-nos pela perda da sensibilidade espiritual, que, em todas as maravilhas e belezas da Criação, nos põe em contato pessoal com uma mente infinitamente sábia e um coração infinitamente amoroso?

— Hugh Macmillan, em Two Worlds are Ours, 1880.

Neve. Vale a pena parar para pensar na obra maravilhosa que ocorre na atmosfera durante a formação e a queda de cada nevasca; que poder construtor é posto em ação; e como parecem imperfeitas as produções das mentes e mãos humanas, quando comparadas às formadas pelas forças cegas da natureza. Mas quem se atreve a chamar as forças da natureza de cegas? Na realidade, quando falamos assim, estamos descrevendo nossa própria condição. A cegueira é nossa; e o que realmente deveríamos dizer, e confessar, é que nossos poderes são absolutamente incapazes de compreender tanto a origem quanto o fim das operações da natureza.

— John Tyndall, em The Forms of Water, 1872.

Versículos 16–17Salmo 147:16-17

O Senhor toma o gelo, a geada e o frio como seus; não é apenas o seu sol, mas o seu gelo, e a sua geada: ele espalha a sua geada como cinzas. A geada se compara às cinzas em três aspectos. Primeiro, porque a geada interrompe um pouco a visão. Se você espalha cinzas no ar, elas escurecem a luz; assim faz a geada. Segundo, a geada se parece com as cinzas por ser próxima delas em cor. Terceiro, se parece porque há nela uma espécie de queimadura: a geada queima os brotos e flores tenros, os machuca e os resseca. A geada tem seu nome, na língua latina, derivado da queima, e difere muito pouco daquela palavra comumente usada em latim para brasa de fogo. O frio da geada tem uma espécie de ardor, assim como o sol quente. Geadas fora de época, na primavera, queimam os frutos tenros, efeito nocivo da geada geralmente descrito como carbúnculo ou requeima.

— Joseph Caryl.

Versículo 17Salmo 147:17

Ele lança o seu gelo como migalhas. Ou, farelos de pão. É digna de nota a frase de alguém, a partir deste texto: o gelo é pão, a chuva é bebida, a neve é lã, a geada é fogo para a terra, fazendo-a arder interiormente de calor; ensinando-nos o que fazer pelos pobres de Deus.

— John Trapp.

Ele lança o seu gelo como migalhas. A palavra aqui traduzida como "migalhas" significa, na maioria dos lugares onde ocorre na Bíblia, pedaços de pão, exatamente como o qwmouv da Septuaginta; pois este mesmo gelo, este frio invernal, é proveitoso para a terra, para prepará-la a dar colheitas futuras, e assim amadurece as migalhas de pão que o homem ainda ganhará do solo, no devido tempo.

— Genebrardus, em Neale e Littledale.

Migalhas. Ou, farelos (Gênesis 18:5; Juízes 19:5). Sem dúvida, a alusão é ao granizo.

— A. S. Aglen.

"É extremamente rigoroso", disse sua irmã ao arcebispo Leighton, certo dia, falando da estação. O bom homem apenas respondeu: "Mas tu, ó Deus, fizeste o verão e o inverno."

— De Life of Archbishop Leighton, por J. J. Pearson, 1830.

Versículo 18Salmo 147:18

Ele envia a sua palavra, e os derrete. Israel, no cativeiro, estava preso pelo gelo, como navios de exploradores árticos no Mar Polar; mas Deus enviou a brisa primaveril de seu amor, e a água fluiu, o gelo derreteu, e foram libertados. Deus reverteu o seu cativeiro, e, derretidas as suas correntes de gelo pelos raios solares da misericórdia de Deus, fluíram em riachos frescos e vigorosos, como "rios do sul", brilhando ao sol (veja Salmos 126:4). Assim foi no dia de Pentecostes. O inverno do cativeiro espiritual foi descongelado e dissolvido pelo suave sopro do Espírito Santo, e a terra riu e floresceu com as flores primaveris da fé, do amor e da alegria.

— Christopher Wordsworth.

Versículo 19Salmo 147:19

Aqui vemos Deus, com compaixão, inclinar-se, para comunicar ao filho do homem, profundamente decaído, algo de um segredo bendito, do qual, sem a sua especial iluminação, o olho jamais teria visto coisa alguma, nem o ouvido jamais teria ouvido.

— J. J. Van Oosterzee, em The Image of Christ.

Versículos 19–20Salmo 147:19-20

Se a publicação da lei, pelo ministério dos anjos aos israelitas, foi um privilégio tal que se conta como seu tesouro peculiar — ele mostrou os seus estatutos a Israel; não fez assim a nenhuma outra nação —, o que é a revelação do evangelho pelo próprio Filho de Deus? Pois, embora a lei esteja obscurecida e desfigurada desde a queda, ainda há algumas noções dela enxertadas na natureza humana; mas do evangelho não há a menor suspeita. A lei descobre a nossa miséria, mas só o evangelho mostra o caminho para dela nos livrarmos. Se uma vantagem tão grande e tão preciosa não toca nossos corações; e, ao possuí-la com alegria, se não somos sensíveis aos compromissos que o Pai das misericórdias impôs sobre nós, seremos os mais ingratos miseráveis do mundo.

— William Bates.

Que uns tenham mais meios de conhecer o Criador, outros menos, tudo isso provém da misericórdia e da vontade de Deus. Sua igreja tem privilégio e vantagem acima das outras nações do mundo; os judeus tiveram este favor acima dos pagãos, e os cristãos acima dos judeus; e nenhuma outra razão se pode atribuir senão o seu amor eterno.

— Thomas Manton.

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