Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 2

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 2, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 2 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Versículo 1Salmo 2:1

"Por que as nações fazem ruído", se tumultuam, ou se enfurecem? O verbo hebraico não exprime um sentimento interior, mas a agitação exterior que o revela. Pode haver aqui uma alusão ao rolar e ao rugir do mar, usado com frequência como emblema de tumulto popular, tanto nas Escrituras quanto nos clássicos. O passado deste verbo ("Por que se enfureceram?") aponta o tumulto como já começado, enquanto o futuro na cláusula seguinte exprime a sua continuação. — J. A. Alexander, D.D., 1850.

"Enfurecem." A palavra com que Paulo verte isto no grego denota fúria, orgulho e rebeldia, como a de cavalos que relincham e se lançam à batalha: ephryaxan, de phryassō, bufar ou relinchar, dito propriamente de um cavalo fogoso. Veja Atos 4:25.

"Coisas vãs." Cunhou-se uma medalha sob Diocleciano, que ainda existe, com a inscrição: "Extinto o nome dos cristãos." E na Espanha ergueram-se duas colunas monumentais, em que se escreveu:

I. "Diocleciano Joviano e Maximiano Hercúleo, Césares Augustos, por terem estendido o Império Romano no oriente e no ocidente, e por terem extinguido o nome dos cristãos, que levavam a República à ruína."

II. "Diocleciano Joviano e Maximiano Hercúleo, Césares Augustos, por terem adotado Galério no oriente, por terem abolido em toda parte a superstição de Cristo, e por terem estendido o culto dos deuses."

Como observou com elegância um escritor moderno: "Temos aqui um monumento erguido pelo paganismo sobre o túmulo do inimigo que julgava vencido. Mas nisto 'os povos imaginaram coisas vãs': longe de estar morto, o cristianismo estava às vésperas do seu triunfo final e permanente, e a pedra guardava um sepulcro tão vazio quanto a urna que Electra lavou com as suas lágrimas. Nem na Espanha nem em lugar nenhum se pode apontar o lugar onde o cristianismo foi enterrado: ele não existe, porque os vivos não têm túmulo."

Versículos 1–4Salmo 2:1-4

Herodes, a raposa, tramou contra Cristo para atrapalhar o curso do seu ministério e da sua mediação, mas não conseguiu levar a cabo o seu intento. É assim o tempo todo, e por isso se diz: "Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?" Coisa vã, porque coisa sem sucesso: as mãos deles não conseguiram realizá-la. Foi vã não só porque não havia razão verdadeira para imaginarem ou fazerem tal coisa, mas também porque trabalharam em vão — não conseguiram fazê-la. E por isso vem em seguida: "Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles."

O Senhor vê que tolos eles são, e os homens (sim, eles mesmos) hão de ver isso. O profeta nos dá uma descrição elegante a esse respeito, em Isaías 59:5,6: "Tecem teias de aranha... As suas teias não prestarão para vestes, nem eles se poderão cobrir com as suas obras." É como se dissesse: eles andaram inventando e armando as coisas num belo arranjo para pegar moscas; andaram fiando um fio fino tirado do próprio cérebro, como a aranha tira das entranhas. Essa é a teia deles. Mas, depois de pronta a teia, não conseguem cortá-la nem transformá-la em roupa.

Vão andar nus e com frio, apesar de toda a fiação e tecelagem, de toda a trama e invenção. A próxima vassoura que passar varre todas as teias, e as aranhas junto, a não ser que corram depressa. Deus ama e se compraz em contrariar os provérbios e as astúcias do mundo. — Joseph Caryl, 1647.

Versículo 2Salmo 2:2

A multidão já tinha feito a sua parte; agora os poderosos se mostram. — John Trapp.

"Puseram-se em armas contra o Senhor e contra o seu Ungido." Mas por que eles se puseram em armas contra o Senhor, ou contra o seu Ungido? O que queriam dele? Os seus bens? Não, ele não tinha bens nem para si; eles eram mais ricos que ele. A sua liberdade? Não, isso não os satisfaria, porque já o tinham amarrado antes. Levar o povo a rejeitá-lo? Também não bastaria, porque já tinham feito isso, a ponto de até os discípulos fugirem dele. O que queriam, então? O seu sangue? Sim: "tomaram conselho", diz Mateus, "para o matar". Tinham a mente do diabo, que só se satisfaz com a morte. E como é que armam a coisa? Ele diz: "tomaram conselho a respeito". — Henry Smith, 1578.

"Contra Jeová e contra o seu Ungido." Que honra foi para Davi ser assim publicamente associado a Jeová! E, por ser o Ungido DELE, ser objeto de ódio e de escárnio para o mundo ímpio! Se justamente essa circunstância aumentava terrivelmente a culpa e selava a condenação daqueles gentios enlouquecidos, ela era com certeza o que mais podia conservar a mente de Davi calma e serena — mais que isso: em paz e em alegria, apesar da jactância orgulhosa dos seus inimigos.

Quando escreveu este Salmo, Davi era como um homem na tempestade, que só ouve o rugido do temporal, ou só vê as ondas furiosas ameaçando destruição de todos os lados. E, mesmo assim, a fé lhe permitiu dizer: "Os povos imaginam coisas vãs." Eles não podem vencer. Não podem frustrar os conselhos do céu. Não podem ferir o Ungido do Senhor. — David Pitcairn, 1851.

Versículo 3Salmo 2:3

Estavam decididos a se entregar à desordem, sem lei e sem temor; e por isso caluniam as doces leis do reino de Cristo, chamando-as de ataduras e cordas grossas, que são sinais de escravidão (Jeremias 27:2,6,7). Mas o que diz o nosso Salvador? "O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." Para o homem regenerado, isso não pesa mais do que as asas pesam para o pássaro. A lei de Cristo não é como ataduras e cordas, mas como cinto e ligas, que lhe cingem os lombos e apressam a sua corrida. — John Trapp.

Versículo 4Salmo 2:4

"Aquele que habita nos céus." Fica claramente indicado aqui: (1) que o Senhor está muito acima de toda a malícia e de todo o poder deles; (2) que ele vê todos os seus planos, olhando de cima para tudo; (3) que ele é de poder onipotente, e por isso pode fazer dos seus inimigos o que quiser. "O nosso Deus está nos céus; ele fez tudo o que lhe agradou" (Salmos 115:3). — Arthur Jackson, 1643.

"Aquele que habita nos céus se rirá" etc. As loucuras dos pecadores são o justo divertimento da sabedoria e do poder infinitos de Deus; e aquelas tentativas do reino de Satanás que aos nossos olhos são temíveis, aos olhos dele são desprezíveis. — Matthew Henry.

"Aquele que habita nos céus se rirá." Eles zombam de nós, Deus ri deles. Ri? À primeira vista, esta parece palavra dura. As injúrias feitas aos seus santos, as crueldades dos inimigos, o escárnio, a perseguição de todos os que estão à nossa volta — nada disso é mais do que matéria de riso? O severo Catão achava que o riso não convinha à gravidade dos cônsules romanos; que ele diminui os Estados, como disse outro a respeito dos príncipes — e será atribuído à Majestade do céu?

O profeta descreve Deus segundo a nossa capacidade, como nós mesmos estaríamos numa disposição alegre, rindo de tentativas vãs. Ele ri, mas é de escárnio; ele escarnece, mas é com vingança. Faraó imaginou que, afogando os meninos israelitas, tinha achado um jeito de arrancar o nome deles da terra; mas, ao mesmo tempo, a própria filha dele, na própria corte dele, dava educação de príncipe a Moisés, o libertador daquele povo. Deus não riu?

Curta é a alegria dos perversos. Dagom foi reposto no seu lugar? O sorriso de Deus lhe tira a cabeça e as mãos, e o deixa sem juízo para guiar e sem força para se sustentar.

Não devemos julgar as obras de Deus antes do quinto ato: o caso deplorável e desesperado na aparência pode, com um só sorriso vindo do céu, achar desfecho abençoado. Ele permitiu que o seu templo fosse saqueado e pilhado, e que os vasos sagrados fossem profanados e usados em bebedeira; mas não foi o sorriso de Deus que fez Belsazar tremer diante da escrita na parede? Ah, o que não serão as suas carrancas, se os seus sorrisos são tão terríveis! — Thomas Adams.

A expressão "Aquele que habita nos céus" fixa de imediato o nosso pensamento num ser infinitamente exaltado acima do homem, que é da terra e terreno. E, quando se diz que ELE "se rirá", esta palavra serve para nos dar a ideia de que as maiores confederações entre reis e povos, e os seus preparativos mais amplos e vigorosos para frustrar os PROPÓSITOS DELE ou para ferir os SEUS servos, são aos OLHOS DELE completamente insignificantes e sem valor.

ELE olha para os esforços pobres e insignificantes deles não só sem inquietação e sem medo: ELE ri da loucura deles, trata a impotência deles com desprezo. Sabe que pode esmagá-los como a uma traça quando quiser, ou consumi-los num instante com o sopro da SUA boca. Como nos é proveitoso ser lembrados de verdades como estas! Ah, é mesmo "coisa vã" os cacos da terra contenderem com a gloriosa Majestade do Céu. — David Pitcairn.

"O Senhor", em hebraico Adonai, significa misticamente os meus apoios, ou os meus sustentadores — os meus pilares. A palavra inglesa Lord tem quase a mesma força, sendo contração da antiga palavra saxã Llaford, ou Hlafford, que vem de Laef: sustentar, restaurar, acalentar. — Henry Ainsworth.

"Aquele que habita nos céus se rirá deles; o Senhor zombará deles." Esta tautologia, ou repetição da mesma coisa, que é frequente nas Escrituras, é sinal de que a coisa está estabelecida — segundo a autoridade do patriarca José (Gênesis 41:32), que, tendo interpretado os sonhos de Faraó, disse: "e quanto ao sonho ter sido repetido duas vezes a Faraó, é porque a coisa é determinada por Deus, e Deus se apressa a fazê-la."

Portanto, também aqui, "se rirá deles" e "zombará deles" é repetição para mostrar que não se deve ter dúvida nenhuma de que todas estas coisas com toda a certeza vão acontecer. E o Espírito gracioso faz tudo isso para o nosso conforto e consolo, para que não desfaleçamos na tentação, mas levantemos a cabeça com a mais certa esperança; porque "aquele que há de vir virá, e não tardará" (Hebreus 10:37). — Martinho Lutero.

Versículo 5Salmo 2:5

"Turbá-los-á." Seja por horror de consciência, seja por pragas no corpo, de um jeito ou de outro ele há de cobrar o que lhe devem, como sempre cobrou dos perseguidores do seu povo. — John Trapp.

Versículos 5–9Salmo 2:5-9

É fácil para Deus destruir os seus inimigos. Veja Faraó, os seus sábios, os seus exércitos e os seus cavalos, chapinhando, afundando e submergindo como chumbo no mar Vermelho. Aqui está o fim de uma das maiores tramas já armadas contra os escolhidos de Deus.

De trinta imperadores romanos, governadores de província e outros altos funcionários que se distinguiram pelo zelo e pela amargura em perseguir os primeiros cristãos: um enlouqueceu logo depois de uma crueldade atroz; um foi morto pelo próprio filho; um ficou cego; a um os olhos saltaram da cabeça; um se afogou; um foi estrangulado; um morreu num cativeiro miserável; um caiu morto de um modo que não se pode narrar; um morreu de doença tão repugnante que vários dos seus médicos foram executados por não suportarem o fedor que enchia o quarto; dois se suicidaram; um terceiro tentou, mas teve de pedir ajuda para terminar o serviço; cinco foram assassinados pelo próprio povo ou pelos próprios criados; outros cinco morreram das mortes mais miseráveis e dolorosas, vários deles com um cortejo indescritível de doenças; e oito foram mortos em batalha, ou depois de feitos prisioneiros.

Entre estes estava Juliano, o Apóstata. Diz-se que, nos dias da sua prosperidade, ele apontava o punhal para o céu desafiando o Filho de Deus, a quem costumava chamar de o Galileu. Mas, quando foi ferido em batalha e viu que estava tudo acabado para ele, juntou o próprio sangue coagulado e o atirou para o ar, exclamando: "Venceste, ó Galileu."

Voltaire nos contou as agonias de Carlos IX da França, que levaram o sangue a atravessar os poros da pele daquele monarca miserável, depois das suas crueldades e da sua traição contra os huguenotes. — William S. Plumer, D.D., LL.D., 1867.

Versículo 6Salmo 2:6

"Todavia eu constituí o meu Rei." Repare: 1. O ofício e o caráter real do nosso glorioso Redentor: ele é Rei — "este nome ele tem escrito no manto e na coxa" (Apocalipse 19:16). 2. A autoridade pela qual ele reina: ele é "o meu Rei", diz Deus Pai, e eu o constituí desde a eternidade. "O Pai a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo o julgamento." O mundo não reconhece a autoridade dele, mas eu reconheço: eu o constituí, eu "o dei por cabeça sobre todas as coisas à igreja." 3. O reino particular sobre o qual ele governa: é sobre "o meu santo monte de Sião" — um tipo eminente da igreja do evangelho. O templo foi construído sobre o monte Sião, e por isso ele é chamado de monte santo. O trono de Cristo está na sua igreja: é o seu quartel-general e o lugar da sua residência própria.

Repare na firmeza do propósito divino a respeito disso. "Todavia eu o constituí" Rei — isto é: sejam quais forem os planos do inferno e da terra em contrário, ele reina por ordenação do seu Pai. — Stephen Charnock, 1628-1680.

"Todavia eu constituí o meu REI" etc. Jesus Cristo é Rei de três maneiras. Primeiro, Rei dos seus inimigos; segundo, Rei dos seus santos; terceiro, Rei do seu Pai.

Primeiro: Cristo é Rei dos seus inimigos, isto é, ele é Rei sobre os seus inimigos. Cristo é um Rei acima de todos os reis. O que são todos os poderosos, os grandes, os homens honrados da terra diante de Jesus Cristo? Não passam de uma bolha na água. Porque, se todas as nações, em comparação com Deus, não são mais que a gota de um balde ou o pó da balança, como diz o profeta em Isaías 40:15, quão pequenos serão então os reis da terra!

Mais que isso, amados: Cristo Jesus não é só mais alto que os reis — ele é mais alto que os anjos; sim, ele é a cabeça dos anjos, e por isso todos os anjos no céu recebem ordem de adorá-lo (Colossenses 2:12; Hebreus 1:6). Ele é Rei sobre todos os reinos, sobre todas as nações, sobre todos os governos, sobre todos os poderes, sobre todos os povos (Daniel 7:14). Os próprios gentios foram dados a Cristo, e os confins da terra por sua possessão (Salmos 2:8).

Segundo: Jesus Cristo é Rei dos seus santos. Ele é Rei dos maus e dos bons; mas sobre os perversos ele governa pelo seu poder e pela sua força, ao passo que nos santos ele governa por dentro, pelo seu Espírito e pelas suas graças. Este é o reino espiritual de Cristo, e aqui ele reina nos corações do seu povo — reina sobre as consciências, sobre as vontades, sobre os afetos, sobre os juízos e os entendimentos, e ninguém tem nada a fazer aqui a não ser Cristo. Cristo não é só o Rei das nações, mas o Rei dos santos: sobre umas ele governa, nos outros ele governa por dentro.

Terceiro: Jesus Cristo é também o Rei do seu Pai, e é assim que o Pai o chama: "Eu constituí o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião." Bem pode ele ser o nosso Rei, quando é o Rei de Deus. Mas você pode perguntar: como é que Cristo é o Rei do Pai? Porque ele governa em lugar do Pai. Há um reino duplo de Deus entregue a Jesus Cristo: primeiro, um reino espiritual, pelo qual ele governa nos corações do seu povo, e assim é Rei dos santos; segundo, um reino providencial, pelo qual ele governa os assuntos deste mundo, e assim é Rei das nações. — Condensado de William Dyer, Christ's Famous Titles, 1665.

"Sião." O nome "Sião" significa "vista de longe" (speculam). E a igreja é chamada de "vista de longe" (specula) não só porque contempla Deus e as coisas celestes pela fé (isto é, de longe), sendo sábia para as coisas do alto e não para as da terra, mas também porque há dentro dela verdadeiros observadores, ou videntes, e vigias no espírito, cujo ofício é cuidar do povo que lhes está confiado e vigiar contra os laços dos inimigos e dos pecados. Estes são chamados em grego de bispos (episkopoi), isto é, espiões ou videntes; e pela mesma razão você pode dar-lhes, a partir do hebraico, o nome de sionistas ou sioneiros. — Martinho Lutero.

Versículo 7Salmo 2:7

A disputa a respeito da filiação eterna do nosso Senhor revela mais curiosidade presunçosa do que fé reverente. É uma tentativa de explicar onde seria muito melhor adorar. Poderíamos apresentar exposições rivais deste versículo, mas nos abstemos. A controvérsia é uma das mais infrutíferas que já ocuparam a pena dos teólogos. — C. H. S.

Versículo 8Salmo 2:8

"Pede-me." O sacerdócio não parece ser conferido a Cristo por nenhuma outra expressão senão esta: "Pede-me". O Salmo fala da sua investidura no ofício real; o apóstolo relaciona isto ao seu sacerdócio. A comissão para os dois começou ao mesmo tempo; as duas foram concedidas e confirmadas pela mesma autoridade. O ofício de pedir se funda na mesma autoridade que a honra de rei. Governar pertencia ao seu ofício real; pedir, ao sacerdotal. Depois da ressurreição, o Pai lhe dá um poder e uma ordem de pedir. — Stephen Charnock.

Assim como o pintor olha para a pessoa cujo retrato quer fazer e traça as suas linhas para corresponder a ela com a maior semelhança que consegue, assim Deus olha para Cristo como o arquétipo ao qual vai conformar o santo — no sofrimento, na graça, na glória; mas de modo que Cristo tenha a preeminência em tudo.

Todo santo tem que sofrer, porque Cristo sofreu: Cristo não há de ter um corpo delicado debaixo de uma cabeça crucificada. E, contudo, ninguém jamais sofreu, nem poderia sofrer, o que ele suportou. Cristo é santo, e por isso todo santo também o será, mas em grau inferior: uma imagem talhada em barro não pode ser tão exata quanto a gravada em ouro.

Ora, a nossa conformidade com Cristo aparece nisto: assim como as promessas feitas a ele se cumpriram mediante as suas orações ao Pai, as promessas feitas aos seus santos lhes são dadas pelo mesmo caminho da oração. "Pede-me", diz Deus ao seu Filho, "e eu te darei." E o apóstolo nos diz: "Nada tendes, porque não pedis."

Deus prometeu sustento a Cristo em todos os seus conflitos (Isaías 42:1): "Eis aqui o meu servo, a quem sustenho." E, ainda assim, ele orou "com forte clamor e lágrimas" quando os seus pés estavam à sombra da morte. Uma descendência lhe é prometida, e a vitória sobre os seus inimigos; e mesmo assim ele ora pelas duas coisas. Cristo age como rei para conosco, mas como sacerdote para com o seu Pai: tudo o que fala a Deus é por oração e intercessão. Assim também os santos: a promessa os faz reis sobre as suas paixões e vencedores sobre os seus inimigos, mas os faz sacerdotes diante de Deus, para pedirem humildemente, em oração, aquelas grandes coisas dadas na promessa. — William Gurnall, 1617-1679.

Note-se que, na nossa Bíblia, duas palavras do versículo oito estão em itálico, indicando que não são tradução do hebraico, mas acréscimos feitos para esclarecer o sentido. Ora, se o "te" e o "por" forem retirados, o versículo fica assim: "Pede-me, e eu darei os gentios, tua herança, e tua possessão, os confins da terra." E esta leitura é decididamente preferível à outra.

Ela implica que, por algum arranjo anterior da parte de Deus, ele já tinha destinado uma herança de gentios e a possessão da terra àquele de quem diz: "Tu és meu Filho." E, quando Deus diz "eu darei" etc., ele revela ao seu Ungido não tanto em que consistia a herança e qual era a extensão da possessão que lhe estava destinada, mas a promessa de que está pronto a concedê-la. Os gentios já eram "a herança", e os confins da terra "a possessão", que Deus se propusera dar ao seu Ungido. Agora ele lhe diz: "Pede-me", e promete cumprir o seu propósito. Esta é a ideia contida nas palavras do texto, e a sua importância vai ficar mais evidente quando considerarmos a sua aplicação ao Davi espiritual, ao verdadeiro Filho de Deus, "a quem constituiu herdeiro de todas as coisas".

Versículo 9Salmo 2:9

A "vara" tem vários sentidos na Escritura. Podia ser de materiais diferentes, conforme os usos a que servia. Cedo, uma vara de madeira passou a ser usada como uma das insígnias da realeza, com o nome de cetro. Aos poucos o cetro ganhou importância e foi tido como característico de um império ou do reinado de determinado rei. Um cetro de ouro indicava riqueza e pompa.

O cetro reto, de que lemos no Salmo 45:6, exprime a justiça e a retidão, a verdade e a equidade que hão de distinguir o reinado do Messias, depois de estabelecido o seu reino na terra. Mas, quando se diz em Apocalipse 19:15 que aquele "cujo nome é a Palavra de Deus" ferirá as nações e "as regerá com vara de ferro", se a vara significa "o seu cetro", então o "ferro" de que ela é feita deve exprimir a severidade dos juízos que o onipotente "Rei dos reis" infligirá a todos os que resistirem à sua autoridade.

Mas a mim parece duvidoso que a "vara de ferro" simbolize o cetro real do Filho de Deus na sua segunda vinda. Ela é mencionada junto com "uma espada afiada", o que me faz preferir a opinião de que também ela deve ser tida como arma de guerra. De todo modo, a "vara de ferro" mencionada no Salmo que estamos tentando explicar não é evidentemente o emblema do poder soberano, embora apresentada nas mãos de um rei, mas um instrumento de correção e de castigo. Neste sentido a palavra "vara" é usada com frequência.

Quando a vara de correção, que em geral era um bastão ou uma cana, é apresentada como sendo "de ferro", como acontece neste segundo Salmo, isso apenas indica quão pesado, quão severo, quão eficaz será o castigo ameaçado: ele não vai apenas machucar, vai quebrar. "Tu os esmigalharás com uma vara de ferro."

Ora, é justamente um quebrar tão completo, que dificilmente se conseguiria a não ser com uma vara de ferro, que se exprime de modo mais pleno na cláusula seguinte do versículo: "Tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro." A completude da destruição, porém, depende de duas coisas. Mesmo uma vara de ferro, se for usada com suavidade, ou usada contra uma substância dura e firme, pode causar pouco dano; mas, no caso diante de nós, supõe-se que ela seja aplicada com grande força — "tu os despedaçarás" — e que seja aplicada a algo que se mostrará tão quebradiço e frágil quanto "um vaso de oleiro": "tu os despedaçarás".

Aqui, como em outros pontos, temos que sentir que as predições e as promessas deste Salmo se cumpriram apenas em parte na história do Davi literal. O seu cumprimento real, a sua conclusão terrível, aguarda o dia em que o Davi espiritual vier em glória e majestade como Rei de Sião, com uma vara de ferro para despedaçar a grande confederação anticristã de reis e povos, e para tomar posse da sua herança há tanto prometida e tão caramente comprada. E os sinais dos tempos parecem indicar que a vinda do Senhor se aproxima. — David Pitcairn.

Versículo 10Salmo 2:10

"Agora, pois, ó reis, sede prudentes" etc. Assim como Jesus é Rei dos reis e Juiz dos juízes, o evangelho é o mestre dos maiores e dos mais sábios. Se alguns são tão grandes que desprezam as suas advertências, Deus fará pouco deles; e se são tão sábios que desprezam os seus ensinos, a sabedoria que imaginam ter fará deles uns tolos.

O evangelho fala em tom elevado diante dos governantes da terra, e quem o prega deve, como Knox e Melville, honrar o seu ofício com repreensões ousadas e palavras viris, mesmo diante do rei. Um clérigo bajulador só serve para lavar panela na cozinha do diabo. — C. H. S.

Versículo 11Salmo 2:11

"Servi ao Senhor com temor." Este temor de Deus dá a medida certa à nossa alegria. Se você separar o temor da alegria, a alegria fica leviana e desregrada; se separar a alegria do temor, o temor vira servil. — William Bates, D.D., 1625-1699.

"Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor." Há dois modos de servir a Deus e de se alegrar nele. Primeiro, um servir em segurança e um alegrar-se no Senhor sem temor: isto é próprio dos hipócritas, que vivem seguros, que se agradam a si mesmos e que se julgam servos nada inúteis, com grande mérito do seu lado. É deles que se diz (Salmos 10:5): "Os teus juízos estão longe da vista dele"; e mais adiante (Salmos 36:1): "Não há temor de Deus diante dos seus olhos." Estes praticam justiça sem juízo o tempo todo, e não deixam que Cristo seja o Juiz temido por todos, diante de quem nenhum vivente é justificado.

Segundo, um servir com temor e um alegrar-se com tremor: isto é próprio dos justos, que praticam justiça o tempo todo e sempre temperam bem as duas coisas. Nunca estão sem os juízos, de um lado, pelos quais são aterrorizados e levados a desesperar de si mesmos e de todas as suas obras; nem sem aquela justiça, do outro, na qual descansam e na qual se alegram na misericórdia de Deus.

É trabalho da vida inteira dessa gente acusar-se a si mesma em tudo, e em tudo justificar e louvar a Deus. E assim eles cumprem aquela palavra de Provérbios 28:14: "Bem-aventurado o homem que teme continuamente"; e também a de Filipenses 4:4: "Alegrai-vos sempre no Senhor." Assim, entre a mó de cima e a de baixo (Deuteronômio 24:6), eles são quebrados e humilhados; e, esmagada a casca, saem dali como o trigo puríssimo de Cristo. — Martinho Lutero.

O temor de Deus favorece a alegria espiritual: é a estrela da manhã que anuncia a luz do sol do consolo. "Andando no temor de Deus e no conforto do Espírito Santo." Deus mistura alegria com temor para que o temor não seja servil. — Thomas Watson, 1660.

Versículo 12Salmo 2:12

"Beijo", sinal de amor entre iguais: Gênesis 33:4; 1 Samuel 20:41; Romanos 16:16; 1 Coríntios 16:20. De submissão, nos inferiores: 1 Samuel 10:1. De adoração religiosa, nos adoradores: 1 Reis 19:18; Jó 31:27. — John Richardson, bispo de Ardagh, 1655.

"Beijai o Filho, para que não se ire." Da Pessoa, o Filho, passaremos ao ato (Osculamini, beijai o Filho). Nele veremos o seguinte: este é um ato que os homens licenciosos corromperam — os carnais o praticam, os traiçoeiros o praticam, Judas traiu o seu Mestre com um beijo — e, apesar disso, Deus o ordena e nele exprime amor. Ou seja: nem tudo o que foi ou pode ser abusado deve por isso ser abandonado. Desviar uma coisa do seu caminho não é tirar essa coisa do mundo, e coisas boas desviadas para maus usos por alguns podem ser reconduzidas por outros à sua bondade original.

Consideremos e engrandeçamos, então, a bondade de Deus, que nos trouxe a esta distância em que podemos beijar o Filho; que fez com que a expressão deste amor esteja nas nossas mãos; e que, ao passo que o amor da igreja, no Antigo Testamento — mesmo no Cântico —, não ia além do Osculator me ("Ah, se ele me beijasse com os beijos da sua boca!", Cânticos 1:1), agora, na igreja cristã e na visitação de uma alma cristã, ele nos convidou e nos capacitou a beijá-lo, porque está presente entre nós.

Isto nos leva a uma persuasão e a uma exortação sinceras a beijar o Filho com todos aqueles afetos que ali encontraremos expressos nas Escrituras, naquele testemunho de amor verdadeiro que é o beijo santo. Mas, para o caso de essa persuasão pelo amor não ser eficaz e forte o bastante para nós, desceremos do dever para o perigo, do amor para o temor: "para que não se ire".

E aí veremos, primeiro, que Deus, que é amor, pode irar-se; depois, que este Deus que aqui se ira é o Filho de Deus, aquele que tanto fez por nós, e que portanto tem justiça para irar-se — aquele que é o nosso Juiz, e cuja ira, portanto, é razoável que temamos. E então, num terceiro ponto, veremos com que facilidade esta ira se vai: um beijo a remove.

"Beijai o Filho." Isto é: abrace-o, dependa dele de todas estas maneiras — como seu parente, como seu soberano; ao sair, ao chegar; na sua reconciliação, na verdade da religião dentro de você, numa unidade pacífica com a igreja, numa estima reverente por aqueles homens e por aqueles meios que ele envia.

Beije-o, e não se envergonhe de beijá-lo: é o que a esposa desejava — "Eu te beijaria, e não seria desprezada" (Cânticos 7:1). Se você for desprezado por amar a Cristo no seu Evangelho, lembre-se de que, quando Davi foi tido por vil por dançar diante da arca, o caminho dele foi ser ainda mais vil. Se você for tido por leviano por se meter no culto pela manhã, seja mais leviano ainda e volte à tarde: "Tanto major requies, quanto ab amore Jesu nulla requies" (Gregório) — "Quanto mais você se incomoda, ou é incomodado pelos outros por causa de Cristo, mais paz você tem em Cristo."

"Para que não se ire." A ira, enquanto paixão que perturba, desordena e descompõe um homem, não existe em Deus; mas a ira, enquanto discernimento sensível que separa inimigos de amigos e distingue as coisas que servem ou não servem à sua glória, essa existe em Deus. Numa palavra, Hilário exprimiu bem: "Poena patientis, ira decernentis" — "O sofrimento do homem é a ira de Deus." Quando Deus inflige os castigos que um rei justamente indignado infligiria, então Deus está irado assim.

Ora, aqui o nosso caso é mais grave. Não é este Deus grande, todo-poderoso e majestoso que pode irar-se — isso já seria bastante provável; é o próprio Filho, a quem devemos beijar, que pode irar-se. Não é uma pessoa que consideramos meramente como Deus, mas como homem; e nem como homem sequer, mas como um verme, e não homem — e ele pode irar-se, e irar-se para a nossa ruína.

"Beijai o Filho", e ele não se irará; se ele estiver irado, beije a vara, e ele não estará irado mais. Ame-o para que ele não se ire; tema-o quando estiver irado. O preventivo é fácil, e o remédio também: o bálsamo deste beijo é todo ele sugar o leite espiritual tanto do seio esquerdo quanto do direito — achar misericórdia nos seus juízos, restauração nas suas ruínas, banquetes nas suas quaresmas, alegria na sua ira. — Dos Sermões de John Donne, D.D., deão de São Paulo, 1621-1631.

"Beijai o Filho." Para fazer as pazes com o Pai, beije o Filho. "Que ele me beije" era a oração da igreja (Cânticos 1:2). Beijemo-lo nós: que seja este o nosso empenho. É verdade que o Filho tem primeiro que nos beijar pela sua misericórdia, antes que possamos beijá-lo pela nossa piedade. Senhor, concede que, nestes beijos mútuos e nestes abraços trocados agora, cheguemos depois à ceia plena das bodas, quando o coro do céu, e até as vozes dos anjos, cantarão epitalâmios, cânticos nupciais, nas núpcias da esposa do Cordeiro. — Thomas Adams.

"Se a sua ira se acender um pouco": o hebraico diz "se o seu nariz, ou a sua narina, se acender um pouco". A narina, sendo o órgão do corpo em que a ira se mostra, é posta pela própria ira. Palidez e fungadas são sintomas de raiva. Nos nossos ditados, tomar uma coisa "de nariz torcido" é tomá-la com raiva. — Joseph Caryl.

"A sua ira." Indizível há de ser a ira de Deus quando estiver plenamente acesa, se a perdição pode vir com ela acendendo-se apenas um pouco. — John Newton.

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