Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 29

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 29, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 29 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Salmo inteiro. Neste Salmo celebra-se a força de Jeová, e a sua ilustração é evidentemente tirada de uma tempestade de trovões no Líbano. O Salmo parece ser dirigido aos anjos. Veja Salmo 89:7. Assim começa: —

"Rendei a Jeová, filhos dos poderosos,

rendei a Jeová glória e força;

rendei a Jeová a glória do seu nome;

curvai-vos a Jeová na majestade da santidade!"

Segue-se imediatamente a descrição da tempestade de trovões, na qual não parece fantasioso observar a progressão histórica costumeira em tais ocasiões. As primeiras linhas parecem descrever apenas o ruído do trovão, tornando-se a descrição mais intensa à medida que o estrondo se aproxima.

"A voz de Jeová está sobre as águas;

o Deus da glória troveja,

Jeová é mais forte que muitas águas,

a voz de Jeová em força,

a voz de Jeová em majestade!"

Mas agora os efeitos se tornam visíveis; a tempestade desceu sobre os montes e as florestas: —

"A voz de Jeová estilhaça os cedros,

sim, Jeová estilhaça os cedros do Líbano;

e os faz saltar como bezerro;

o Líbano e o Sirião, como um jovem búfalo,

a voz de Jeová bifurca o clarão do relâmpago!"

Das montanhas, a tempestade desce varrendo as planícies, onde, contudo, os seus efeitos não são tão temíveis quanto nas montanhas —

"A voz de Jeová faz tremer o deserto —

a voz de Jeová faz tremer o deserto de Cades —

a voz de Jeová faz tremer os carvalhos,

e desnuda as florestas!

Por isso, em seu templo, todos falam da sua glória."

A descrição das torrentes inchadas encerra a cena —

"Jeová se assenta sobre a torrente da chuva.

Sim, Jeová se assenta como rei para sempre."

E a aplicação moral de tudo isso é —

"Jeová dará força ao seu povo,

Jeová abençoará o seu povo com paz."

— Robert Murray Macheyne, 1813-1843.

Salmo inteiro. Não há fenômeno na natureza tão terrível quanto uma tempestade de trovões, e quase todo poeta, desde Homero e Virgílio até Dante e Milton — ou melhor, até Grahame e Pollok —, já a descreveu. Na Bíblia, também temos uma tempestade de trovões: o vigésimo nono Salmo — a descrição de um temporal que, erguendo-se do Mediterrâneo e percorrendo o Líbano e as montanhas do interior, alcança Jerusalém e faz o povo se refugiar nos pórticos do templo. E, além desses toques de terror com que se descreve o avanço geográfico do tornado, o Salmo recebe uma vitalidade e um poder sagrados da presença de Jeová em cada estrondo sucessivo. — James Hamilton, D.D., em The Literary Attractions of the Bible, 1849.

Salmo inteiro. Um glorioso Salmo de louvor, cantado durante uma tempestade cuja majestade sacode a natureza universal, a ponto de a grandeza do poder do Senhor ser sentida por todos, no céu e na terra. Este Senhor é o Deus do seu povo, que o abençoa com força e paz. Para bem apreciar os sentimentos do poeta, é preciso imaginar uma tempestade oriental, especialmente nas regiões montanhosas da Palestina, que, acompanhada pelos ecos terríveis das montanhas circundantes e por torrentes de chuva como trombas d'água, frequentemente espalha terror sobre homens e animais, e destruição sobre cidades e campos.

O viajante Wilson descreve uma tempestade assim nas proximidades de Baalbeque: "Fui surpreendido por uma tempestade, como se as comportas do céu tivessem se rompido; ela veio num instante, e se enfureceu com um poder que sugeria o fim do mundo. Uma escuridão solene cobriu a terra; a chuva descia em torrentes e, varrendo a encosta da montanha, transformou-se, pela força pavorosa da tempestade, em densas nuvens de neblina." Compare também a parábola do nosso Senhor, tirada da vida real, em Mateus 7:27. — Augustus F. Tholuck, in loc.

Versículo 1Salmo 29:1

Dai ao Senhor. Dai, dai, dai. Isto mostra o quanto tais homens costumam relutar em dar a Deus o que lhe é devido, ou em suportar uma palavra de exortação com esse propósito. — John Trapp.

Ó poderosos. A Septuaginta traduz: ó filhos dos carneiros! Esses carneiros de guizo não deveriam erguer o focinho no ar, nem trazer a crista mais alta, só porque o pastor lhes deu um sino a mais do que ao resto do rebanho. — John Trapp.

Versículos 1–2Salmo 29:1-2

Há três "dai" nestes dois versos: dai ao Senhor, dai ao Senhor, dai ao Senhor a glória devida ao seu nome. A glória é direito de Deus, e ele reivindica esse direito; e o cristão sincero sabe disso, e por isso lhe dá o que é seu, dá-lhe a honra e a glória devidas ao seu nome.

Mas, por favor, não me interpretem mal. Não digo que os que são verdadeiramente sinceros de fato tenham em vista a glória de Cristo em todas as suas ações. Ah, não! Essa é uma felicidade desejável na terra, mas que jamais será alcançada plenamente até chegarmos ao céu. Fins e propósitos indiretos e baixos sempre estarão prontos a se infiltrar nos melhores corações; mas todo coração sincero suspira e geme sob eles.

Eles se queixam disso a Deus, e clamam por justiça, justiça contra eles; e é o desejo ardente e o esforço diário de suas almas livrar-se deles; por isso, tais fins não lhes são imputados, nem os privam do bem.

Mas observe um cristão sincero em seu curso comum, habitual e ordinário, e você verá que os seus propósitos e fins, em todas as suas ações e empreendimentos, são glorificar a Deus, exaltar a Deus, e erguer a Deus no mundo. Se o hipócrita de fato mirasse com sinceridade a glória de Deus naquilo que faz, então a glória de Deus engoliria os seus propósitos indiretos e os seus fins carnais, assim como a vara de Arão engoliu as varas dos magos (Êxodo 7:10-12).

Observe: assim como o sol apaga a luz do fogo, também a glória de Deus, quando é o alvo buscado, apagará e consumirá todos os fins indiretos e baixos. Isto é certíssimo: aquilo que é o grande fim de um homem acabará por consumir todos os outros fins. Aquele que ergue a glória de Deus como seu fim principal descobrirá que esse fim principal, aos poucos, devorará todos os fins baixos e indignos.

Veja: assim como as vacas magras de Faraó devoraram as gordas (Gênesis 41:4), também a glória de Deus devorará todos aqueles fins gordos e mundanos que se aglomeram sobre a alma na obra religiosa. Onde a glória de Deus é mantida como o maior fim do homem, ali todos os fins indiretos e baixos serão mantidos por baixo. — Thomas Brooks.

Versículo 2Salmo 29:2

Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome. O que, no entanto, você não pode fazer plenamente, pois o seu nome está acima de todo louvor (Salmo 148:13)! Mas deve almejá-lo. Os rabinos observam que o santo nome de Deus é mencionado dezoito vezes neste Salmo; que os grandes, especialmente, devem dar-lhe a honra do seu nome, para que temam e não pequem, para que tragam presentes àquele que deve ser temido — e os melhores dentre os melhores, já que ele é um grande Rei, e muito preza a sua precedência (Malaquias 1:14). — John Trapp.

Adorai ao Senhor. Se alguém perguntasse: por que o Senhor deve ser adorado? Por que ele deve receber tão altas honras dos que são altos? O que ele faz no mundo que exige tal adoração? Davi responde tanto meteorológica quanto teologicamente: ele responde a partir das nuvens (Salmo 29:3-4): "A voz do Senhor está sobre as águas: o Deus da glória troveja: o Senhor está sobre muitas águas. A voz do Senhor é poderosa; a voz do Senhor é cheia de majestade." Como se dissesse: embora o Senhor Jesus Cristo não venha a erguer um reino externo e pomposo, político, como o de Ciro, Alexandre, etc., ele erguerá, pelo ministério do evangelho, um reino espiritual, e ajuntará para si uma igreja que permanecerá para sempre, dentre todas as nações da terra.

Pois o evangelho será levado e pregado não apenas ao povo de Israel, os judeus, mas também aos gentios, por todo o mundo, para que as mentes dos homens sejam iluminadas, despertadas e comovidas por aquela doutrina inaudita da salvação por Cristo, que estivera oculta por eras e gerações. — Joseph Caryl.

Versículo 3Salmo 29:3

A voz do Senhor está sobre as águas: o Deus da glória troveja: o Senhor está sobre muitas águas. Sim, grande Deus, estas torrentes de lágrimas que correm dos meus olhos anunciam a tua presença divina em minha alma. Este coração, até agora tão seco, tão árido, tão duro; esta rocha que feriste pela segunda vez, não mais te resistirá, pois dela agora jorram águas salutares em abundância. A mesmíssima voz de Deus que derruba os montes, troveja, relampeja e fende o céu sobre o pecador, agora ordena às nuvens que derramem chuvas de bênçãos, transformando o deserto de sua alma num campo que produz a cem por um; essa voz eu ouço. — J. B. Massillon.

Versículos 3–10Salmo 29:3-10

O Senhor, etc. Todas as coisas que costumamos chamar de efeitos das forças naturais da matéria e das leis do movimento são, na verdade (se falarmos com rigor e propriedade), efeitos da ação de Deus sobre a matéria, continuamente e a cada momento, seja imediatamente por si mesmo, seja mediatamente por algum ser inteligente criado. Por consequência, não existe tal coisa como "a causa da natureza" ou "o poder da natureza." — Samuel Clarke, 1675-1729, "o amigo e discípulo de Newton."

A voz do Senhor sobre o oceano se conhece,

o Deus da eternidade troveja ao largo;

a voz do Senhor, desde as profundezas do seu trono,

é terror e poder — toda a natureza se pasma.

A voz do Senhor, através da calma do bosque,

desperta os seus ecos, faz luz atravessar suas grutas;

o Senhor se assenta como Rei sobre o dilúvio turbulento,

os ventos são seus servos, servas são as ondas.

— James Montgomery, 1771-1854.

Versículos 3–11Salmo 29:3-11

A voz do Messias está na nuvem,

o Deus da glória troveja alto.

O Messias cavalga sobre as inundações,

ele pisa sobre as nuvens que voam.

A voz do Messias é cheia de poder,

seus relâmpagos brincam quando as tempestades se abaixam.

A voz do Messias quebra os cedros,

enquanto o alicerce do Líbano estremece.

A voz do Messias remove os montes,

e enche de rios todas as planícies.

A voz do seu Deus moribundo

fará as rochas se erguerem ao largo;

o monte Sião e o monte Sirião

saltarão junto com o Líbano:

as chamas de fogo o envolverão,

quando ele respirar sobre o éter.

A voz do Messias abalará a terra,

e eis que as sepulturas gemerão em parto,

dez mil vezes mil filhos vivos

serão o fruto de seus gemidos.

A paz de Deus o evangelho anuncia;

a paz de Deus, a terra ressoa,

o evangelho eterno resplandece,

uma luz de Deus que jamais declina.

Esta é a luz que Jeová envia,

para abençoar os confins mais remotos do mundo.

— Paráfrase de Barclay.

Versículo 4Salmo 29:4

A voz do Senhor. Estas repetições veementes lembram uma série de trovoadas; é como se ouvíssemos a temível artilharia do céu disparando descarga após descarga, enquanto eco sobre eco segue o som. — C. H. S.

A voz do Senhor é poderosa. Eu renderia a Deus a glória devida ao seu nome, pela admirável mudança que ele operou em meu coração. Nada havia em mim senão uma dureza ímpia e uma desordem inveterada. Desse estado sem remédio, ele me transformou num homem novo, e fez resplandecer a glória do seu nome e o poder da sua graça. Só ele pode operar tais prodígios. Os incrédulos que se recusam a reconhecer a mão de Deus na criação certamente devem, neste caso, admitir que "isto é o dedo de Deus."

Sim, grande Deus, o caos não sabe como te resistir; ele ouve a tua voz com obediência, mas o coração obstinado te repele, e a tua voz poderosa, com demasiada frequência, o chama em vão. Tu não és tão grande e maravilhoso ao criar mundos a partir do nada quanto o és quando ordenas a um coração rebelde que se erga do seu abismo de pecado, e que corra nos caminhos dos teus mandamentos.

Dispersar um caos de crime e ignorância pela majestade da tua palavra, lançar luz sobre a mais terrível escuridão, e, pelo Espírito Santo, estabelecer ordem harmoniosa onde tudo era confusão — isso manifesta, em medida muito maior, a tua onipotência do que o fazer surgir leis celestiais e sóis celestes a partir do primeiro caos. — J. B. Massillon.

Ah, que o evangélico "Boanerges" [Filho do trovão] faça ressoar o som glorioso do evangelho debaixo de todo o céu, para que o mundo volte a se conscientizar dele, antes que aquela voz do Filho do Homem, que tantas vezes chamou os pecadores ao arrependimento, os chame ao juízo. — George Horne.

Onde está a palavra de um rei, ali há poder; mas que voz imperial pode se comparar ao trovão majestoso do Senhor? — C. H. S.

Versículo 5Salmo 29:5

A voz de Jeová. Os filósofos não pensam ter raciocinado com suficiente habilidade sobre as causas inferiores, a menos que separem Deus bem longe das suas obras. É, contudo, uma ciência diabólica a que fixa nossas contemplações nas obras da natureza e as desvia de Deus. Se alguém, querendo conhecer um homem, não desse atenção ao seu rosto, mas fixasse os olhos apenas na ponta das suas unhas, sua tolice mereceria com justiça ser ridicularizada. Mas muito maior é a tolice desses filósofos que, a partir de causas mediatas e próximas, tecem para si véus, a fim de não serem obrigados a reconhecer a mão de Deus, que manifestamente se exibe em suas obras. — John Calvin.

A voz do Senhor quebra os cedros, etc. Assim como as tempestades, quando se levantam, e os relâmpagos, rápida e subitamente, derrubam e destroem montanhas e as árvores mais altas, assim também o Senhor derruba, numa queda fatal, os soberbos, altivos, arrogantes e insolentes, que se levantam contra Deus e buscam despojar os que são pacíficos e piedosos. — Robert Cawdray.

A voz do Senhor quebra os cedros. Os antigos expositores nos lembram que o quebrar dos cedros pelo vento é figura do abatimento das coisas altivas e soberbas deste mundo, pelo vento impetuoso e forte do Espírito Santo, dado naquele dia. Confringit cedros Deus, hoc est humiliat superbos [Deus quebra os cedros, isto é, humilha os soberbos]. (São Jerônimo, e assim também São Basílio.) — Christopher Wordsworth.

O Senhor quebra os cedros do Líbano. Que vergonha, então, que os nossos corações duros não se quebrem, não cedam, ainda que fulminados pelas terríveis ameaças da boca de Deus! — John Trapp.

"Quebra os cedros do Líbano:" —

Quando o pinheiro se ergue alto no ar,

a toda rajada mais rude ele se dobra.

O palácio cai com peso ainda maior,

quando desaba da sua altura aérea;

e quando do céu o relâmpago dispara,

ele fulmina os montes que mais orgulhosos se erguem.

— Horácio, traduzido por Philip Francis, D.D., 1765.

Os cedros do Líbano. Estas árvores poderosas de Deus, que por séculos resistiram à força da tempestade, erguendo os seus colossais ramos sempre verdes na região das neves eternas, são os primeiros alvos da fúria do relâmpago, que, como se sabe bem, visita primeiro os objetos mais altos. — Robert Murray Macheyne.

Versículo 6Salmo 29:6

Ele os faz saltar como bezerro; o Líbano e o Sirião como um jovem unicórnio. Isto é: o Senhor, com a sua voz trovejante e poderosa, primeiro os fará saltar, como que assustados de medo; e, em segundo lugar, como que reanimados de alegria. E ainda mais, em Salmo 29:7: "a voz do Senhor divide as chamas de fogo"; isto é, enviará e repartirá a cada um, conforme a sua necessidade (1 Coríntios 12:11), o Espírito Santo, que é comparado e chamado de fogo (Mateus 3:11), e que veio como numa tempestade de vento impetuoso, e com a aparência de línguas repartidas, como de fogo, e assentou-se sobre cada um dos apóstolos (Atos 2:2-3).

Nem essa voz de trovão, acompanhada de chamas repartidas de fogo, alcançou somente Jerusalém; pois, como se segue em Salmo 29:8, "a voz do Senhor sacode o deserto; o Senhor sacode o deserto de Cades"; isto é, o Senhor, pela voz do evangelho, sairá com poder até aqueles gentios que são como um deserto, estéreis de bondade, e não fertilizados nas coisas espirituais, ainda que habitem em cidades bem governadas e sejam bem providos de moral. Sairá também até aqueles gentios que habitam desertos devastados, e que sequer foram reduzidos à civilidade. Esses desertos, a voz trovejante do Senhor já sacudiu no passado, sacode ainda hoje, e sacudirá ainda mais, para que a plenitude dos gentios venha a entrar. Muitos desses desertos o Senhor transformou em campos frutíferos e terras aprazíveis, pela voz do evangelho ressoando entre eles.

Pois nesses desertos (como se segue em Salmo 29:9), "a voz do Senhor faz as corças dar à luz"; isto é, aqueles que eram tão selvagens, tão ignorantes e tão indomados quanto a corça, ou qualquer animal da floresta, ele os leva às dores do seu novo nascimento, ao arrependimento e à humilhação evangélica; e, ao fazer isso, "ele" (como prossegue o salmista) "desnuda as florestas" — isto é, abre os corações dos homens, que são tão densos e cheios de vaidade, orgulho, hipocrisia, amor-próprio e autossuficiência, bem como de luxúria e sensualidade, quanto qualquer floresta é tomada por moitas de árvores e arbustos, que impedem toda passagem até serem limpas pelo fogo ou pelo machado. Tal abertura, tal desnudamento, o Senhor faz nas florestas dos corações dos homens, pela espada e pelo fogo — isto é, pela palavra e pelo Espírito do evangelho; e, feito isso, a floresta se torna um templo, e, como conclui aquele versículo, "em seu templo todos falam da sua glória."

E se as inundações da impiedade se levantarem contra o povo que o trovão e o relâmpago do evangelho subjugaram a Cristo, e transformaram em templo santo, então o salmista nos assegura, em Salmo 29:10: "o Senhor se assenta sobre o dilúvio", isto é, ele está sob o seu poder, ele o governa e o domina; "sim, o Senhor se assenta como Rei para sempre"; e, em Salmo 29:11: "o Senhor dará força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com paz." Assim o Senhor "troveja maravilhosamente" (Jó 37:5), e estas são maravilhas gloriosas que ele troveja: ele converte pecadores.

Assim, embora eu não aprecie o método daqueles que se dão a alegorizar as Escrituras, não duvido de que possamos fazer um uso proveitoso desta e de muitas outras passagens por via de alegoria. Sendo esta uma verdade inegável, que lhe serve de fundamento — que o Senhor manifesta, por assim dizer, o poder do trovão e do relâmpago na pregação da sua Palavra —, duas coisas devem ser observadas. — Joseph Caryl.

Ele os faz saltar como bezerro. Isto é: ele fez as lascas e os pedaços quebrados das árvores atingidas pelo relâmpago voarem pelo ar, ou quando são sacudidas pelo vento, por tempestades, ou por terremotos. — John Diodati.

O original é: —

"e os faz saltar como bezerro,

o Líbano e o Sirião, como um jovem búfalo."

À primeira vista, pode parecer que ainda se falava dos cedros, e que "Líbano" e "Sirião" eram usados por metonímia para os cedros que cresciam sobre eles. Mas, primeiro, nunca ouvimos falar de cedros crescendo sobre o Sirião, ou Senir, ou Hermom — pois tem todos esses nomes; e, segundo, há uma passagem paralela onde esta interpretação dificilmente se sustenta, no Salmo 114. Descrevendo o êxodo de Israel, diz —

"os montes saltaram como carneiros,

e as pequenas colinas como cordeiros."

O mesmo verbo ocorre aqui — o verbo que significa "saltar, dançar" —, usado em Naum 3:2 para significar o solavanco dos carros, e também em Joel 2:5. Em ambos os casos, parece pretender-se um movimento brusco, acompanhado de ruído.

Ora, embora isso possa muito bem ser entendido como uma descrição altamente figurada — como sem dúvida é — do efeito costumeiro de uma tempestade de trovões, é interessante compará-la com a passagem seguinte de Volney, que descreve certos fenômenos frequentes no monte Líbano, os quais podem dar novo sentido ao "saltar dos montes": — "Quando o viajante", diz ele, "penetra o interior destas montanhas, a aspereza das estradas, a inclinação das encostas, a profundidade dos precipícios produzem, a princípio, um efeito terrível; mas a sagacidade das mulas que o carregam logo lhe inspira confiança, e lhe permite examinar com tranquilidade as cenas pitorescas que se sucedem umas às outras, a ponto de quase deixá-lo atônito."

Ali, como nos Alpes, às vezes se viaja dias inteiros para chegar a um ponto que já estava à vista quando se partiu. Vira-se, desce-se, contorna-se, sobe-se; e, sob essa mudança perpétua de posição, é fácil crer que um poder mágico varia, a cada passo, as belezas da paisagem. Às vezes veem-se aldeias, como que prestes a escorregar pelas encostas profundas, dispostas de tal modo que os telhados de uma fileira de casas servem de rua para a fileira acima. Em outro lugar, vê-se um convento assentado sobre um cone isolado, como Marshaia no vale do Tigre. Aqui uma rocha é perfurada por uma torrente, formando uma cascata natural, como em Nahr el Leban; ali outra rocha assume a aparência de uma muralha natural!

Frequentemente, nas encostas, camadas de pedras, arrastadas e depositadas pelas águas, lembram ruínas dispostas pela arte. Em alguns lugares, as águas, encontrando leitos inclinados, minaram a terra intermediária e formaram cavernas, como em Nahr el Kelb, perto de Antoura. Em outros lugares, abriram para si canais subterrâneos, por onde correm pequenos riachos durante parte do ano, como em Mar Hama.

Às vezes, essas circunstâncias pitorescas se tornam trágicas. Sabe-se de rochas que, soltas ou desequilibradas pelo degelo ou por terremotos, se precipitaram sobre as habitações vizinhas, esmagando os moradores. Um acidente desse tipo, cerca de vinte anos atrás, soterrou uma aldeia inteira perto de Mar Djordos, sem deixar vestígio de sua existência. Mais recentemente, e perto do mesmo lugar, o solo de uma colina plantada com amoreiras e videiras se soltou num degelo repentino e, deslizando sobre a superfície da rocha que cobria, como um navio lançado ao mar desde o estaleiro, foi se estabelecer no vale abaixo. — Robert Murray Macheyne.

Versículo 7Salmo 29:7

A voz do Senhor divide as chamas de fogo. Pelo poder de Deus, as "chamas de fogo" são "divididas" e enviadas das nuvens sobre a terra, na forma terrível do relâmpago — aquela espada afiada e reluzente do Todo-poderoso, à qual nenhuma substância pode resistir. O mesmo poder de Deus se manifesta pela sua palavra, "viva e eficaz, e mais cortante que qualquer espada de dois gumes", penetrando, derretendo, iluminando e inflamando os corações dos homens (Atos 2:3; Hebreus 4:12). — George Horne.

A voz do Senhor divide as chamas de fogo. Diz-se aqui que a voz do Senhor divide as chamas — literalmente, "talha" as chamas (latomein phloga, "talhar a chama"). A Septuaginta traz diakoptei phloga pyros ("corta a chama de fogo"). Nas palavras de Gesenius: "a voz de Jeová talha chamas de fogo", isto é, "envia chamas de fogo divididas". Isto é (como observou Teodoreto) muito descritivo da ação divina em Pentecostes, que enviou chamas divididas, como tela trisulca [dardos de três pontas], nas línguas de fogo que se dividiram de uma única fonte celestial de chama, e pousaram sobre as cabeças dos apóstolos, enchendo-os do fogo do zelo santo e do amor. — Christopher Wordsworth.

Divide as chamas de fogo. Na margem: "talha". A palavra hebraica chatzab significa propriamente cortar, talhar, lavrar — como, por exemplo, pedras. A alusão aqui é sem dúvida ao relâmpago; e a imagem é que ele parece ser talhado, ou cortado em línguas e estrias — ou, mais provavelmente, que as nuvens parecem ser cortadas ou talhadas, de modo a abrir aberturas ou caminhos para o relâmpago. O olhar está evidentemente fixo nas nuvens, e no clarão repentino do relâmpago, como se as nuvens tivessem sido fendidas ou abertas para a sua passagem. A ideia do salmista é que "a voz do Senhor", ou o trovão, parece fender ou abrir as nuvens para que as chamas de fogo brinquem em meio à tempestade. — Albert Barnes.

Versículo 8Salmo 29:8

O Senhor sacode o deserto de Cades. Que se trata de Cades-Naftali, a posição geográfica do Líbano nos levaria a crer, embora isso não seja necessário. E, ainda que a Síria esteja muito exposta a terremotos — como, por exemplo, o de Aleppo, em 1822, sentido nitidamente em Damasco —, não parece necessário imaginar nada além dos efeitos costumeiros de uma tempestade de trovões. Os carvalhos e as florestas de Salmo 29:9 combinam bem com a descrição dada das encostas mais baixas do Líbano, que abundam em "moitas de murta, bosques de abeto, nogueiras, alfarrobeiras e carvalhos turcos." E a torrente de chuva de Salmo 29:10 descreve admiravelmente o inchaço repentino dos mil riachos que descem do Líbano.

Segundo os viajantes modernos, o número de cursos d'água que descem do Líbano é imenso; e a subitaneidade da cheia desses riachos pode ser percebida pelas contradições em seus relatos. O Nahr el Sazib é descrito por um deles como "um regato, embora atravessado por uma ponte de seis arcos"; por outro, é chamado "um grande rio." O Damour (o antigo Tamyras), que desce diretamente do Líbano, é "um rio", diz Maundrell, "propenso a inchar muito com chuvas repentinas; nesse caso, precipitando-se das montanhas com grande rapidez, já foi fatal para muitos viajantes." Ele menciona um cavalheiro francês, o Sr. Spon, que, poucos anos antes, ao tentar atravessá-lo a vau, foi arrastado pela correnteza e pereceu no mar. Este é apenas um exemplo, entre muitos, nas montanhas do Líbano, onde o riacho, normalmente quase seco, se torna de repente uma torrente intransponível.

Quando Volney observou os rios da Síria no verão, duvidou que pudessem ser chamados de rios. Mas, se tivesse ousado atravessá-los depois de uma tempestade de trovões, o seu ceticismo não teria mais tempo nem espaço para se exercer, e ele teria sentido a propriedade do quadro pintado pelo salmista, onde ele diz —

"Jeová se assenta sobre as torrentes da chuva,

Jeová se assenta como Rei para sempre."

— Robert Murray Macheyne.

A voz do Senhor sacode o deserto. Grande Deus, eu me empenhei em fugir de ti! Busquei refúgio para o meu remorso num retiro onde nada me lembrasse do meu Deus. Longe dos socorros da religião, distante de todos os canais que me trazem as águas da graça, apartado de todos cujo testemunho repreensivo pudesse me refrear da iniquidade; e, no entanto, mesmo ali, grande Deus, onde eu cria ter encontrado um asilo inacessível à tua misericórdia eterna, onde poderia pecar impunemente — mesmo ali, naquele deserto, a tua voz me deteve e me lançou aos teus pés. — J. B. Massillon.

Versículo 9Salmo 29:9

A voz do Senhor faz as corças dar à luz. Quanto ao sentido transmitido pela leitura comum, pode-se observar que as corças dão à luz com grande dificuldade e dor, "curvando-se, despedaçando os seus filhotes, e lançando fora as suas dores" (Jó 39:4,6); e isso, portanto, intensifica a descrição do caráter terrível da tempestade de trovões, quando o trovão — aqui chamado "a voz de Deus" — é representado como a causa, pelo terror que inspira, de as corças em gestação deixarem cair prematuramente os seus filhotes; embora, segundo as nossas ideias de imagética poética, isso talvez não combine tão bem com as outras imagens da passagem, nem pareça tão belo e sublime quanto a imagem dos carvalhos que tremem diante da voz de Jeová. — John Calvin.

A voz do Senhor faz as corças dar à luz. O cuidado e a ternura de Deus para com os animais se voltam para o seu louvor, assim como o cuidado que ele tem, e a ternura que mostra, para com os crentes. Assim como muito engrandece a glória de Deus que ele cuide dos animais selvagens, também isso pode fortalecer muito a fé do homem de que Deus cuidará dele. Será que o Senhor cuida das corças? Então certamente cuida daqueles que particularmente lhe pertencem.

Há uma providência especial de Deus para com essas e outras criaturas semelhantes, na produção de suas crias. Ele — se posso falar assim, com reverência — exerce o seu ofício de parteiro ao ajudar esses animais selvagens quando as suas dores chegam. Assim como o Senhor toma o homem, de modo eminente, "desde o ventre" (Salmo 22:9), assim também, de certo modo, toma os animais desde o ventre.

"A voz do Senhor sacode o deserto; o Senhor sacode o deserto de Cades" — assim traduzimos; mas a palavra que traduzimos por "sacode" é a mesma de Jó 39:2, que significa "fazer parir". Por isso, alguns muito versados na língua hebraica não traduzem como nós, "a voz do Senhor sacode o deserto", mas sim "a voz do Senhor faz o deserto parir; o Senhor faz o deserto de Cades parir" — o que não deve ser entendido das criaturas vegetais (isso também é verdade: o Senhor faz as árvores da floresta produzirem folhas e frutos), mas se refere aos animais, ou seres vivos, que ali habitam.

E quando diz "a voz do Senhor faz o deserto parir", o sentido é que o Senhor faz parir os animais selvagens do deserto — o que parece ser o sentido claro da passagem, pelo que se segue: pois, tendo o salmista dito isto de modo geral no versículo oitavo, "a voz do Senhor faz o deserto parir", ele dá, no versículo nono, o exemplo específico da corça: "a voz do Senhor faz as corças dar à luz." — Joseph Caryl.

A voz do Senhor faz as corças dar à luz. Com grande propriedade, diz um dos antigos, Jeová pergunta: "Guardas tu o parto das corças?" (Jó 39:1) — pois, sendo este animal sempre em fuga, e sempre saltando e pulando de medo e terror, jamais poderia levar as suas crias à maturidade sem tal proteção especial. A providência de Deus, portanto, é igualmente conspícua na preservação da mãe e do filhote; ambos são objeto de sua compaixão e do seu terno cuidado; e, por conseguinte, aquele homem aflito não tem razão para acusar o seu Criador de indiferença, ele que se dignou a velar pelas cabras e pelas corças.

Parece ser geralmente aceito que a corça dá à luz com grande dificuldade; e algo assim parece estar sugerido no versículo: "elas se curvam, dão à luz os seus filhotes, lançam fora as suas dores." Mas, se Plínio e outros naturalistas merecem crédito, a providência divina se agradou de prover certas ervas que facilitam muito o parto; e, por instinto, ela dirige a corça a se alimentar delas quando o tempo da gestação se aproxima do fim. Seja qual for a verdade dessa afirmação, sabemos, por autoridade maior, que a providência promove o parto da corça despertando os seus medos e agitando o seu corpo com o rolar do trovão: "a voz de Jeová (expressão hebraica comum para designar o trovão) faz as corças dar à luz."

Nem devemos nos admirar de que uma criatura tão tímida quanto a corça seja tão afetada por essa terrível convulsão atmosférica, quando sabemos que alguns dos homens mais orgulhosos que já existiram tremeram diante dela. Augusto, o imperador romano, segundo Suetônio, ficava tão aterrorizado quando trovejava, que envolvia o corpo numa pele de foca, na esperança de se proteger do relâmpago, e se escondia em algum canto secreto até que a tempestade cessasse. O tirano Calígula, que às vezes fingia desafiar o próprio Júpiter, cobria a cabeça ou se escondia debaixo de uma cama; e Horácio confessa que foi afastado do ateísmo pelo terror do trovão e do relâmpago, cujos efeitos descreve com a sua costumeira felicidade de estilo (Odes, livro 1, 34). — George Paxton, Illustrations of Scripture [Ilustrações das Escrituras].

A voz do Senhor faz as corças dar à luz. Cervi sunt praedicatores [os cervos são os pregadores], diz São Jerônimo, que geram almas para Cristo pelo evangelho, que é a voz de Deus; e o despir das folhas da floresta pela voz do Senhor representa a obra deles de humilhar os fortes carvalhos e os altivos cedros do mundo pelo poder do evangelho, e de despir as almas dos mundanos de seus múltiplos disfarces (São Basílio). Outros aplicam isto ao ofício dos pregadores da palavra de Deus, que desvendam as densas moitas dos mistérios divinos nas sagradas Escrituras pela luz evangélica, dada pelo Espírito Santo (São Jerônimo). — Christopher Wordsworth.

(primeira cláusula). "A voz de Jeová devasta os carvalhos, e desnuda as florestas." — Samuel Horsley.

Em seu templo. Alguns pensam que este Salmo foi designado por Davi para ser cantado no templo em tempo de trovão, o que não é improvável. Há autores que fazem de Deus o sujeito do verbo "fala", e assim traduzem: em seu templo ele profere toda a sua glória. Como se dissessem: muito da sua glória Deus profere no seu trovão, mas toda ela no seu templo, pois tudo o que ali fala com a sua boca, ele cumpre com a sua mão. — John Trapp.

(última cláusula). Davi, que na primeira parte do Salmo falava apenas dos efeitos do trovão natural, ao final do Salmo os aplica à Palavra de Deus, quando diz: "e em seu templo todos falam da sua glória"; isto é, a palavra e as ordenanças de Deus, ministradas em sua igreja ou templo, levarão a todos a reconhecer e falar do poder glorioso de Deus, muito mais ainda do que o poderoso trovão que soa em nossos ouvidos, ou o sutil relâmpago que fulgura diante dos nossos olhos. Há muito mais poder régio no trovão da Palavra do que na palavra do trovão.

Este apenas aterroriza até a convicção, mas aquele aterroriza até a salvação; pois, depois que Deus fala terror em suas ameaças, ele fala consolo em suas promessas; e, quando nos amedronta com o senso dos nossos pecados e da sua ira devida a nós por causa deles, como que com uma tempestade horrível, logo nos reanima com as brisas suaves da graça revelada, e com o agradável e amável brilho do sol do seu favor, por meio de Jesus Cristo. — Joseph Caryl.

Versículo 11Salmo 29:11

O Senhor dará força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com paz. Isto é: na guerra, ele é a sua força; e, na paz, a sua felicidade. Na guerra, ele é o Autor de todo aquele poder pelo qual são capacitados a se opor e a vencer inimigos poderosos; e, na paz, ele é o seu verdadeiro bem que os faz felizes, tornando-os, pela sua própria presença concedida, um povo verdadeiramente bendito. — John Howe.

O Senhor abençoará o seu povo com paz. Embora algumas almas preciosas que se uniram a Cristo e abraçaram o evangelho não estejam, no presente, plenamente em repouso em sua própria consciência, mas permaneçam por algum tempo sob certa insatisfação e perturbação em seu próprio espírito, ainda assim têm, mesmo então, paz de consciência em um triplo sentido: in pretio [no preço], in promisso [na promessa], in semine [na semente].

Primeiro, todo verdadeiro crente tem paz de consciência in pretio; o evangelho coloca em sua mão o preço que certamente a comprará, que é o sangue de Cristo. Dizemos que é ouro aquilo que vale ouro, que podemos trocar por ouro em qualquer lugar; assim é o sangue de Cristo: ele é paz de consciência, porque a alma que o possui pode trocá-lo por ela. O próprio Deus não pode negar à pobre criatura que ora nestes termos: Senhor, dá-me paz de consciência; eis aqui o sangue de Cristo, o preço dela.

Aquilo que pôde pagar a dívida certamente pode obter o recibo. A paz de consciência é apenas uma quitação, assinada pela mão de Deus, de que a dívida devida à justiça divina foi plenamente paga. O sangue de Cristo já fez o maior pelo crente; fará, portanto, o menor. Se houvesse uma poção tão rara que garantisse infalivelmente a saúde de todo aquele que a tomasse, poderíamos dizer com segurança, assim que o doente a bebesse, que ele bebeu a sua saúde — ela já está nele, ainda que no momento não a sinta; a seu tempo, ela se manifestará.

Segundo, in promisso. Todo verdadeiro crente tem paz de consciência na promessa; e aquilo que temos por garantido em título seguro contamos tão bom quanto dinheiro vivo no bolso. "O Senhor abençoará o seu povo com paz." Ele está resolvido nisso — e quem, então, poderá impedi-lo? Vale a pena ler o Salmo inteiro, para ver quanto peso o Senhor dá a esta doce promessa, para encorajar a nossa fé a esperar o seu cumprimento.

Nada é mais difícil de entrar no coração de uma pobre criatura (quando tudo é tumulto em seu peito, e a sua consciência não ameaça senão fogo e espada, ira e vingança da parte de Deus por seus pecados) do que pensamentos ou esperanças de paz e consolo. Ora, o Salmo se ocupa em mostrar quão grandes coisas Deus pode fazer, e isso sem mais esforço do que falar uma palavra: "a voz do Senhor é cheia de majestade" (Salmo 29:4); "ela quebra os cedros, divide as chamas, sacode o deserto, faz as corças dar à luz." Este Deus, que faz tudo isso, promete abençoar o seu povo com paz, exterior e interior; pois, sem essa paz interior, ainda que ele lhes desse paz, jamais poderia abençoá-los com paz do modo como ali se propõe.

Não seria uma paz triste ter ruas tranquilas, mas gargantas cortadas dentro de nossas casas? E, no entanto, seria infinitamente mais triste ter paz tanto nas ruas quanto nas casas, mas guerra e sangue em nossas consciências culpadas. Que paz pode uma pobre criatura provar ou saborear enquanto a espada da ira de Deus está posta à garganta da consciência? Não há paz com o próprio Deus. Por isso Cristo comprou a paz do perdão, para obter a paz de consciência para os seus perdoados, e, assim, a legou a eles na promessa: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou" (João 14:27).

Ali se vê que ele é, ao mesmo tempo, o testador que deixa o legado, e o executor de seu próprio testamento, que entrega, com as próprias mãos, aquilo que o seu amor deixou aos crentes; de modo que não há por que temer que a sua vontade deixe de se cumprir plenamente, visto que ele próprio vive para vê-la cumprida.

Terceiro, in semine. Todo crente tem essa paz difícil na semente. "Luz está semeada para o justo, e alegria para os retos de coração" (Salmo 97:11). Onde semeada, senão no próprio peito do crente, quando os princípios da graça e da santidade foram lançados nele pelo Espírito de Deus? Por isso se chama "o fruto pacífico da justiça" (Hebreus 12:11). Ele brota da santidade tão naturalmente quanto qualquer fruto brota da semente que lhe é própria. É, de fato, verdadeiríssimo que a semente corre e amadurece nesse fruto mais cedo em uns do que em outros. Esta colheita espiritual não chega igualmente cedo a todos, tampouco a outra, a exterior; mas eis aqui o consolo — quem quer que tenha um tempo de semeadura da graça sobre a sua alma terá também o seu tempo de colheita da alegria. — William Gurnall.

Paz. Há uma tríplice "paz": externa, interna, aeterna — paz temporal, espiritual, celestial. Há a paz exterior, que é a bênção; a paz interior, que é a graça; e a paz eterna, que é a glória. E, assim como num palácio suntuoso há um pátio ou entrada que leva aos aposentos mais íntimos e nobres, assim a paz exterior é a entrada ou introdução aos aposentos internos da doce paz de consciência, e daquele descanso externo em que a nossa paz no céu será feliz, na medida em que a paz exterior nos concede muitos auxílios e ajudas para alcançar e obter tanto uma quanto a outra. — Ephraim Udall, 1642.

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