Notas explicativas e citações: Salmo 3
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 3, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 3 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Título. A respeito da autoridade dos TÍTULOS, convém falarmos com reserva, considerando as opiniões totalmente opostas que estudiosos de igual mérito já apresentaram sobre este assunto. Hoje em dia, tornou-se moda demais desprezá-los ou omiti-los por completo, como se tivessem sido acrescentados não se sabe quando nem por quem, e como se, em muitos casos, fossem incompatíveis com o próprio assunto do Salmo; enquanto Agostinho, Teodoreto, e vários outros escritores primitivos da igreja cristã os consideram parte do texto inspirado; e os judeus continuam a incluí-los no seu cântico, e os seus rabinos a comentá-los.
É certamente desconhecido quem os inventou ou os colocou onde estão; mas é inquestionável que assim têm sido postos desde tempos imemoriais; eles aparecem na Septuaginta, que traz também, em alguns poucos casos, títulos de Salmos que não têm nenhum no hebraico; e foram copiados a partir da Septuaginta por Jerônimo.
Até onde o presente autor conseguiu penetrar a obscuridade que às vezes paira sobre eles, são uma chave direta e valiosíssima para a história geral ou o assunto dos Salmos aos quais são prefixados; e, exceto onde foram evidentemente mal compreendidos ou mal interpretados, ele nunca encontrou um único caso em que o sentido do título e o do respectivo Salmo não coincidissem exatamente. Muitos deles foram, sem dúvida, compostos por Esdras na época em que editou a sua própria coletânea, período em que alguns críticos supõem ter sido escrito o conjunto inteiro; mas os demais parecem antes ser contemporâneos, ou quase, dos respectivos Salmos, e ter sido escritos por volta da época em que estes foram produzidos. — John Mason Good, M.D., F.R.S., 1854.
Veja o título. Aqui temos o primeiro uso da palavra "Salmo". Em hebraico, Mizmor, que carrega o sentido de podar, ou cortar os ramos supérfluos, e se aplica a cânticos feitos de frases curtas, de onde muitas palavras supérfluas são removidas. — Henry Ainsworth.
A respeito desta nota, um escritor antigo observa: "Aprendamos com isto que, em tempos de grande tribulação, os homens não vão fazer rodeios nem usar palavras bonitas na oração, mas hão de oferecer uma oração podada de toda a exuberância de discursos verbosos."
Salmo inteiro. Assim você pode ver claramente como Deus tem agido na sua igreja desde os tempos antigos, e por isso não se deve desanimar por causa de nenhuma mudança repentina; mas, com Davi, confesse os seus pecados a Deus, declare a ele quantos são os que o afligem e se levantam contra você, chamando-o de huguenote, luterano, herege, puritano, e filho de Belial, como chamaram Davi. Deixe que os ímpios idólatras se gabem de que vão prevalecer contra você e vencê-lo, e que Deus o abandonou, e não será mais o seu Deus.
Deixe que ponham a sua confiança em Absalão, com os seus longos cabelos dourados; e na sabedoria de Aitofel, o conselheiro sábio; ainda assim, diga você, com Davi: "Tu, Senhor, és o meu defensor, e o que levanta a minha cabeça." Convença-se, com Davi, de que o Senhor é o seu defensor, que o cercou por todos os lados, e é, por assim dizer, um "escudo" que o cobre de todos os lados. É somente ele quem pode e vai cercá-lo de glória e honra.
É ele quem vai derrubar do seu assento aqueles hipócritas orgulhosos, e exaltar os humildes e mansos. É ele quem "ferirá" os seus "inimigos no osso da face", e quebrará todos os seus dentes em pedaços. Ele vai enforcar Absalão pelos seus próprios cabelos compridos; e Aitofel, em desespero, se enforcará. As cordas serão rompidas, e você será livre; pois isto pertence ao Senhor: salvar os seus das mãos dos inimigos, e abençoar o seu povo, para que possa prosseguir em segurança na sua peregrinação rumo ao céu, sem medo. — Thomas Tymme, Silver Watch Bell, 1634.
Versículo 1Salmo 3:1
A facção de Absalão, como uma bola de neve, crescia estranhamente no seu movimento. Davi fala dela como quem está espantado; e com razão, pois um povo a quem ele tinha obrigado de tantas maneiras quase todo se revoltou contra ele, e se rebelou, e escolheu para sua cabeça um rapaz tão tolo e volúvel quanto era Absalão. Como são escorregadias e enganosas as multidões! E como se encontra pouca fidelidade e constância entre os homens!
Davi tinha o coração dos seus súditos tanto quanto qualquer rei já teve, e ainda assim, de repente, o perdeu! Assim como o povo não deve confiar demais nos príncipes (Salmo 146:3), também os príncipes não devem construir demais sobre o seu interesse junto ao povo. Cristo, o Filho de Davi, teve muitos inimigos: quando uma grande multidão veio prendê-lo, quando a turba gritava "Crucifica-o, crucifica-o", como se multiplicaram então os que o afligiam! Até os bons não devem estranhar se a correnteza estiver contra eles, e os poderes que os ameaçam se tornarem cada vez mais formidáveis. — Matthew Henry.
Versículo 2Salmo 3:2
Quando o crente questiona o poder de Deus, ou o seu próprio interesse nele, a sua alegria jorra para fora como sangue de uma veia rompida. Este versículo é, de fato, uma facada dolorosa. — William Gurnall.
Um filho de Deus se assusta só de pensar em desesperar da ajuda de Deus; você não pode afligi-lo com nada tão grave quanto tentar persuadi-lo de que "não há salvação para ele em Deus." Davi vem a Deus, e conta a ele o que os seus inimigos diziam dele, assim como Ezequias espalhou diante do Senhor a carta blasfema de Rabsaqué; eles dizem: "não há salvação para ti em mim"; mas, Senhor, se assim for, estou perdido. Eles dizem à minha alma: "não há salvação" (pois é essa a palavra) "para ele em Deus"; mas, Senhor, diga tu à minha alma: "Eu sou a tua salvação" (Salmo 35:3), e isso me bastará, e a seu tempo os fará calar. — Matthew Henry.
Versículos 2–4Salmo 3:2-4
- "Selá." (hebr.) Muito já se escreveu sobre esta palavra, e o seu significado ainda não parece estar totalmente determinado. No Targum, ou paráfrase caldaica, ela é traduzida por lealmin, "para sempre" ou "para a eternidade". Na Vulgata latina, ela é omitida, como se não fizesse parte do texto. Na Septuaginta é traduzida por diapsalma, termo que se supõe referir-se a alguma variação ou modulação da voz no canto (Schleusner, Lex.). A palavra ocorre setenta e três vezes nos Salmos, e três vezes no livro de Habacuque (3:3, 9, 13). Ela nunca é traduzida na nossa versão, mas em todos esses lugares a palavra original Selá é mantida. Ocorre somente em poesia, e supõe-se que tenha alguma relação com o canto ou a cantilação do poema, sendo provavelmente um termo musical. Em geral, também indica uma pausa no sentido, assim como na execução musical.
Gesenius (Lex.) supõe que o significado mais provável deste termo ou nota musical é silêncio ou pausa, e que o seu uso, ao entoar as palavras do Salmo, era instruir o cantor a se calar, a fazer uma pequena pausa, enquanto os instrumentos tocavam um interlúdio ou harmonia. Talvez seja isto tudo o que hoje se pode saber sobre o significado da palavra, e isso basta para satisfazer qualquer investigação razoável. É provável que, se este era o uso do termo, ele normalmente corresponderia ao sentido da passagem, e seria inserido onde o sentido tornasse a pausa adequada; e isto, sem dúvida, costuma se confirmar. Mas quem conhece um pouco a natureza da notação musical perceberá de imediato que não devemos supor que isso fosse invariável ou necessário, pois as pausas musicais nem sempre correspondem às pausas no sentido. Esta palavra, portanto, pode oferecer muito pouca ajuda para determinar o sentido das passagens em que aparece.
Ewald supõe, discordando desta visão, que ela antes indica que, nos lugares em que ocorre, a voz deve ser elevada, e que é sinônimo de subir, mais alto, forte, ou distinto — derivado das raízes hebraicas sal ou salal, que significam "subir". Aqueles que quiserem investigar mais a fundo o seu significado, e os usos das pausas musicais em geral, podem consultar Ugolin, "Thesau. Antiq. Sacr.", tomo XXII. — Albert Barnes, 1868.
- "Selá," (hebr.) aparece setenta e três vezes nos Salmos, geralmente ao fim de uma frase ou parágrafo; mas em Salmo 55:19 e 57:3, aparece no meio do versículo. Embora a maioria dos autores concorde em considerar esta palavra de algum modo ligada à música, as suas conjecturas sobre o significado preciso variam muito. Mas atualmente predominam estas duas opiniões: alguns, entre eles Herder, De Wette, Ewald (Poet. Böcher, i. 179) e Delitzsch, derivam-na de um [termo hebraico], ou de outro [termo hebraico], que significa "levantar", entendendo-a como uma elevação da voz ou da música; outros, seguindo Gesenius no Thesaurus, derivam-na de um [termo hebraico] que significa "ficar quieto" ou "calar-se", entendendo-a como uma pausa no canto. Assim pensam também Rosenmüller, Hengstenberg e Tholuck.
Provavelmente Selá era usado para instruir o cantor a se calar, ou a fazer uma pequena pausa, enquanto os instrumentos tocavam um interlúdio (assim a Septuaginta, diapsalma, ou sinfonia). Em Salmo 9:16, ocorre na expressão higgaion selá, que Gesenius, com boa probabilidade, traduz por "música instrumental, pausa"; isto é, que os instrumentos comecem uma sinfonia, e que o cantor faça uma pausa. Já Tholuck e Hengstenberg traduzem as duas palavras por "meditação, pausa"; isto é, que o cantor medite enquanto a música se cala. — Benjamin Davies, Ph.D., L.L.D., artigo "Salmos", em Kitto's Cyclopaedia of Biblical Literature.
Versículo 3Salmo 3:3
"O que levanta a minha cabeça." Deus fará com que o corpo participe com a alma — tanto nas questões de tristeza quanto nas de alegria; a lanterna brilha à luz da vela que está dentro dela. — Richard Sibbes, 1639.
Há uma elevação da cabeça pela ascensão a um cargo, como aconteceu com o copeiro de Faraó; essa nós atribuímos à nomeação divina. Há uma elevação em honra depois da vergonha, em saúde depois da doença, em alegria depois da tristeza, em restauração depois de uma queda, em vitória depois de uma derrota temporária; em todos esses aspectos, o Senhor é quem levanta a nossa cabeça. — C. H. S.
Versículo 4Salmo 3:4
Quando a oração vai à frente, a seu tempo a libertação vem atrás, fechando a retaguarda. — Thomas Watson.
"Ele me ouviu." Já ouvi muitas vezes pessoas dizerem, na oração: "Tu és um Deus que ouve e que responde à oração", mas a expressão contém uma redundância, pois, segundo as Escrituras, para Deus ouvir é o mesmo que responder. — C. H. S.
Versículo 5Salmo 3:5
"Deitei-me e dormi; despertei, porque o Senhor me susteve." O título do Salmo nos diz quando Davi teve este doce descanso noturno: não quando estava deitado na sua cama de plumas, no seu palácio suntuoso em Jerusalém, mas quando fugia para salvar a vida do seu filho desnaturado, Absalão, e talvez fosse obrigado a deitar-se a céu aberto, sob o dossel dos céus. Deve ser, de fato, um travesseiro macio o que pôde fazê-lo esquecer o perigo, tendo às costas um exército desleal a caçá-lo; sim, é tão transcendente a influência desta paz, que pode fazer a criatura deitar-se tão alegremente para dormir na sepultura quanto na cama mais macia.
Você dirá que a criança que pede para ser posta na cama está disposta a dormir; alguns dos santos pediram a Deus que os deitasse em repouso no seu leito de pó — e isso não por amuo e descontentamento com a sua provação presente, como fez Jó, mas por um doce senso desta paz no seu peito. "Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, pois os meus olhos já viram a tua salvação" foi o cântico, como de cisne, do velho Simeão. Ele fala como um mercador que já embarcou toda a sua carga no navio, e agora pede ao capitão que iça as velas e parta rumo a casa.
De fato, o que deveria um cristão, que aqui não passa de estrangeiro, desejar ainda ficar no mundo, senão completar o seu carregamento para o céu? E quando ele tem isso, senão quando está seguro da sua paz com Deus? Esta paz do evangelho, e este senso do amor de Deus na alma, contribuem tão admiravelmente para capacitar uma pessoa em todas as dificuldades, tentações e tribulações, que, normalmente, antes de chamar os seus santos para qualquer serviço árduo ou trabalho pesado, ele lhes dá um gole deste vinho reconfortante junto ao coração, para animá-los e dar-lhes coragem no combate. — William Gurnall.
Gurnall, que escrevia numa época em que havia casas sobre a antiga Ponte de Londres, disse, de modo pitoresco: "Você não acha que dormem tão profundamente os que moram na Ponte de Londres quanto os que vivem em Whitehall ou em Cheapside? Pois eles sabem que as águas que correm por baixo deles não podem feri-los. Assim também os santos podem repousar tranquilos sobre as enchentes da tribulação ou da morte, e não temer mal algum."
Xerxes, o persa, quando destruiu todos os templos da Grécia, mandou preservar o templo de Diana por causa da beleza da sua estrutura: a alma em que reluz a beleza da santidade será preservada pela glória da sua estrutura; Deus não permitirá que o seu próprio templo seja destruído. Você quer estar seguro em tempos maus? Busque a graça e fortifique esta guarnição; uma boa consciência é a fortaleza-real do cristão.
Os inimigos de Davi o cercavam; e, ainda assim, ele diz: "deitei-me e dormi." Uma boa consciência consegue dormir na boca de um canhão; a graça é a cota de malha do cristão, que não teme flecha nem bala. A verdadeira graça pode ser alvejada, mas jamais será atravessada; a graça põe a alma em Cristo, e ali ela está segura, como a abelha na colmeia, como a pomba na arca. "Não há, pois, agora, nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1). — Thomas Watson.
"O Senhor me susteve." Não seria sem proveito considerar o poder sustentador manifestado em nós enquanto dormimos: no fluxo do sangue, no movimento dos pulmões, no corpo, e na continuidade das faculdades mentais enquanto a imagem da morte repousa sobre nós. — C. H. S.
Versículo 6Salmo 3:6
"Não temerei dez mil homens do povo que se puseram contra mim ao redor." O salmista vai confiar, apesar das aparências. Ele não temerá, ainda que dez mil homens do povo se ponham contra ele ao redor. Limitemos aqui os nossos pensamentos a esta única ideia: "apesar das aparências." O que poderia parecer pior, aos olhos humanos, do que este exército de dez mil homens? A ruína parecia encará-lo de frente; para onde quer que olhasse, via um inimigo. O que era um contra dez mil?
Acontece com frequência que o povo de Deus entra em circunstâncias como esta; dizem: "Todas estas coisas são contra mim"; parecem mal conseguir contar as suas tribulações; não conseguem ver uma brecha por onde escapar; as coisas realmente parecem muito sombrias. É a grande fé e confiança que diz, sob estas circunstâncias: "Não temerei."
Foram estas as circunstâncias em que Lutero se viu, a caminho de Worms. O seu amigo Spalatino ouviu dizer, dos inimigos da Reforma, que o salvo-conduto de um herege não deveria ser respeitado, e temeu pela vida do reformador. "No momento em que este se aproximava da cidade, apareceu diante dele um mensageiro com este aviso do capelão: 'Não entres em Worms!' E isto vindo do seu melhor amigo, o confidente do eleitor, o próprio Spalatino! [...] Mas Lutero, imperturbável, voltou os olhos para o mensageiro e respondeu: 'Vai, e diz ao teu senhor que, ainda que houvesse em Worms tantos demônios quantas telhas há nos telhados, ainda assim eu entraria.' O mensageiro voltou a Worms com esta resposta espantosa: 'Eu estava então destemido', disse Lutero, poucos dias antes de morrer, 'não temi nada.'"
Em tempos como este, os homens razoáveis do mundo, os que andam pela vista e não pela fé, acharão bastante razoável que o cristão tenha medo; eles próprios estariam muito abatidos se estivessem em tal aperto. Os crentes fracos estão sempre prontos a nos desculpar, e nós mesmos estamos demasiado prontos a nos desculpar; em vez de nos erguermos acima da fraqueza da carne, nos refugiamos sob ela, e a usamos como desculpa.
Mas pensemos em oração por um instante, e veremos que não deveria ser assim conosco. Confiar somente quando as aparências são favoráveis é navegar somente a favor do vento e da maré, é crer somente quando se pode ver. Ah! Sigamos o exemplo do salmista, e busquemos aquela irrestrição de fé que nos capacite a confiar em Deus, aconteça o que acontecer, e a dizer, como ele disse: "Não temerei dez mil homens do povo que se puseram contra mim ao redor." — Philip Bennet Power, I wills of the Psalms, 1862.
"Não temerei", etc. Não importa quem sejam os nossos inimigos: ainda que em número, legiões; em poder, principados; em astúcia, serpentes; em crueldade, dragões; em vantagem de posição, um príncipe do ar; em malícia, maldades espirituais — mais forte é aquele que está em nós do que os que estão contra nós; nada é capaz de nos separar do amor de Deus. Em Cristo Jesus, nosso Senhor, seremos mais que vencedores. — William Cowper, 1612.
Versículo 7Salmo 3:7
"Levanta-te, Senhor!" Jeová! Este é um modo comum, nas Escrituras, de invocar Deus para que manifeste a sua presença e o seu poder, seja em ira, seja em favor. Por um antropomorfismo natural, descrevem-se os intervalos entre tais manifestações como períodos de inação ou de sono, dos quais ele é suplicado a despertar. "Salva-me" — a mim mesmo, de quem dizem que não há salvação para ele em Deus. "Salva-me, ó meu Deus" — meu por aliança e compromisso mútuo, a quem, por isso, tenho o direito de recorrer em busca de livramento e proteção. Esta confiança, além disso, se justifica pela experiência: "Pois tu feriste", em aflições anteriores, "todos os meus inimigos", sem exceção, "no queixo" ou na face — um ato ao mesmo tempo violento e insultuoso. — J. A. Alexander, D.D.
"No osso da face." — A linguagem parece ser tirada de uma comparação dos seus inimigos com feras selvagens. O osso da face designa o osso onde ficam os dentes, e quebrá-lo é desarmar o animal. — Albert Barnes, in loc.
Quando Deus toma vingança contra os ímpios, ele fere de tal maneira que os faz sentir a sua onipotência em cada golpe. Todo o seu poder será exercido em punir, e nenhum em ter piedade. Quem dera todo pecador obstinado pensasse nisso, e considerasse a sua ousadia desmedida ao julgar-se capaz de lutar contra a Onipotência! — Stephen Charnock.
Versículo 8Salmo 3:8
"A salvação pertence ao Senhor:" passagem paralela em Jonas 2:9, "A salvação vem do Senhor." Os marinheiros poderiam ter escrito no seu navio, em vez de Castor e Pólux, ou de outro emblema semelhante: A salvação é do Senhor; os ninivitas poderiam ter escrito nos seus portões: A salvação é do Senhor; e toda a humanidade, cuja causa Deus disputa e defende diante da dureza do coração de Jonas, poderia, por fim, ter escrito nas palmas das mãos: A salvação é do Senhor. É o argumento de ambos os Testamentos, o esteio e o sustento do céu e da terra. Ambos afundariam, e todas as suas juntas se romperiam, se a salvação do Senhor não existisse. As aves no ar não cantam outra nota, os animais no campo não dão outra voz, senão Salus Jehovæ, A salvação é do Senhor.
Os muros e as fortalezas dos portões da nossa terra, das nossas cidades e vilas, as trancas das nossas casas, uma cobertura mais segura para as nossas cabeças do que um elmo de aço, um remédio melhor para os nossos corpos do que a confecção dos boticários, um remédio melhor para as nossas almas do que os perdões de Roma, é Salus Jehovæ, a salvação do Senhor. A salvação do Senhor abençoa, preserva e sustenta tudo o que temos: a nossa cesta e o nosso celeiro, o azeite nas nossas talhas, os nossos lagares, as ovelhas nos nossos currais, os nossos estábulos, as crianças no ventre, à nossa mesa, o trigo nos nossos campos, os nossos armazéns, os nossos depósitos; não é a virtude dos astros, nem a natureza das próprias coisas, que dá ser e continuidade a nenhuma destas bênçãos.
E, "Que mais direi?", como perguntou o apóstolo (Hebreus 11:32) depois de ter falado muito, e ainda havia muito mais por trás, mas o tempo lhe faltou. Antes, o que eu não deveria dizer? Pois o mundo é o meu teatro neste momento, e não penso, nem consigo fingir para mim mesmo, nada que não dependa desta aclamação: A salvação é do Senhor. Plutarco escreve que os anfictiões da Grécia, um célebre conselho reunido de doze povos diversos, escreveram no templo de Apolo Pítio, em vez das Ilíadas de Homero ou dos cânticos de Píndaro (discursos longos e cansativos), frases curtas e memoráveis, como: Conhece-te a ti mesmo, Usa a moderação, Cuidado com o fiador, e outras semelhantes; e, sem dúvida, embora toda criatura no mundo de que fazemos uso seja um tratado e uma narrativa para nós da bondade de Deus, e pudéssemos cansar a nossa carne, e passar os nossos dias escrevendo livros sobre esse assunto inexplicável, ainda assim este breve apotegma de Jonas resume tudo o mais, e permanece ao final do cântico, como os altares e as pedras que o patriarca erigiu na encruzilhada dos caminhos, para dar a conhecer às gerações futuras por quais meios foi libertado.
Eu gostaria que isso fosse pregado diariamente nos nossos templos, cantado nas nossas ruas, escrito nos umbrais das nossas portas, pintado nas nossas paredes, ou antes, gravado com garra de diamante nas tábuas dos nossos corações, para que jamais esqueçamos que a salvação pertence ao Senhor. Precisamos de tais lembranças para nos manter no hábito de revolver as misericórdias de Deus. Pois nada apodrece mais depressa do que o amor; nihil facilius quam amor putrescit. E, de todas as faculdades da alma, a memória é a mais delicada, terna e frágil, e a primeira a envelhecer; memoria delicata, tenera, fragilis, in quam primum senectus incurrit; e, de todas as percepções da memória, o primeiro benefício é o primeiro a envelhecer, primum senescit beneficium. — John King, Commentary on Jonah, 1594.
"A tua bênção está sobre o teu povo." Os santos não são bem-aventurados somente quando já chegaram, mas também enquanto ainda estão a caminho. Eles são bem-aventurados antes de serem coroados. Isto parece um paradoxo para a carne e o sangue: quê, censurados e caluniados, e ainda assim bem-aventurados! Um homem que olha para os filhos de Deus com olhos carnais, e vê como são afligidos, como o barco do evangelho que foi coberto pelas ondas (Mateus 8:24), pensaria que estão longe da bem-aventurança. Paulo apresenta um catálogo dos seus sofrimentos (2 Coríntios 11:24-26): "Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio", etc. E aqueles cristãos da primeira grandeza, dos quais o mundo não era digno, "experimentaram escárnios cruéis e açoites, foram serrados ao meio, foram mortos à espada" (Hebreus 11:36,37). O quê! E estavam todos eles, durante o tempo dos seus sofrimentos, bem-aventurados? Um homem carnal pensaria: se ser bem-aventurado é isso, Deus me livre disso.
Mas, por mais que o senso comum vote diferente, o nosso Salvador Cristo pronuncia bem-aventurado o homem piedoso; ainda que pranteando, ainda que mártir, ainda assim bem-aventurado. Jó no monturo era o bem-aventurado Jó. Os santos são bem-aventurados quando são amaldiçoados. Simei amaldiçoou Davi (2 Samuel 16:5): "Saiu e o amaldiçoou"; e, no entanto, quando Davi era amaldiçoado, Davi era bem-aventurado. Os santos, embora sejam feridos, ainda assim são bem-aventurados. Não é que apenas serão bem-aventurados: eles já o são. "Bem-aventurados os retos" (Salmo 119:1). "A tua bênção está sobre o teu povo" (Salmo 3:8). — Thomas Watson.
Como uma curiosa amostra das interpretações dogmáticas de Lutero, apresentamos aqui extensos trechos da sua leitura deste Salmo, sem de forma alguma endossá-los. — C. H. S.
Salmo inteiro. Que o sentido deste Salmo não é histórico fica evidente por muitos detalhes que militam contra tal entendimento. E, antes de tudo, há o que o bendito Agostinho observou: que as palavras "deitei-me para dormir e tomei o meu repouso" parecem ser as palavras de Cristo ressuscitando dos mortos. E, além disso, há ao final a bênção de Deus pronunciada sobre o povo, o que evidentemente pertence à igreja inteira. Por isso, o bendito Agostinho interpreta o Salmo de três maneiras: primeiro, a respeito de Cristo, a cabeça; segundo, a respeito de todo o Cristo, isto é, Cristo e a sua igreja, a cabeça e o corpo; e terceiro, de modo figurado, a respeito de qualquer cristão particular. Que cada um tenha a sua própria interpretação. Eu, entretanto, vou interpretá-lo a respeito de Cristo, movido pelo mesmo argumento que moveu Agostinho: que o quinto versículo não parece se aplicar apropriadamente a ninguém além de Cristo.
Primeiro, porque "deitar-se" e "dormir" significam, aqui, inteiramente uma morte natural, não um sono natural. O que se pode deduzir disto: porque em seguida vem "e ressuscitei". Ao passo que, se Davi estivesse falando do sono do corpo, ele teria dito "e despertei" — embora isso não sustente com tanta força a interpretação de que falamos, se examinarmos de perto a palavra hebraica. Mas, além disso, que novidade ele estaria anunciando ao declarar que se deitou e dormiu? Por que não disse também que andou, comeu, bebeu, trabalhou, ou passou necessidade, ou mencionou particularmente alguma outra atividade do corpo? E, além disso, parece um absurdo, sob tribulação tão grande, gloriar-se apenas do sono do corpo; pois essa tribulação antes o forçaria a uma privação de sono, e a estar em perigo e angústia — especialmente porque estas duas expressões, "deitei-me" e "dormi", significam o repouso tranquilo de quem se deita no seu lugar, o que não é o estado de quem adormece por exaustão vinda da tristeza.
Mas esta consideração reforça ainda mais o nosso argumento — que ele se gloria em ressuscitar precisamente porque foi o Senhor quem o susteve, quem o levantou enquanto dormia, e não o deixou no sono. Como pode tal glória concordar, e que novo tipo de religião a faria concordar, com qualquer sono particular do corpo? (pois, nesse caso, não se aplicaria também ao sono diário?) — e, especialmente, quando este sustento de Deus indica, ao mesmo tempo, um estado de completo abandono na pessoa que dorme, o que não é o caso no sono corporal; pois ali a pessoa que dorme pode ser protegida até por homens que a vigiam; mas este sustento, sendo inteiramente de Deus, não implica um sono, mas um conflito pesado.
E, por fim, a própria palavra HEKIZOTHI favorece esta interpretação; a qual, posta aqui de modo absoluto e transitivo, significa "eu me fiz levantar ou despertar". Como se ele tivesse dito: "eu me fiz despertar, eu mesmo me levantei." O que, certamente, condiz melhor com a ressurreição de Cristo do que com o sono do corpo — tanto porque os que dormem costumam ser despertados e levantados por outrem, quanto porque não é coisa admirável, nem digna de uma declaração tão importante, que alguém desperte por si mesmo, visto que isso acontece todos os dias. Mas esta questão, sendo introduzida pelo Espírito como algo novo e singular, é certamente diferente de tudo o que acompanha o dormir e o despertar comuns.
Versículo 2Salmo 3:2
"Não há salvação para ele em seu Deus." No hebraico, a expressão é simplesmente "em Deus", sem o pronome "seu", o que me parece dar mais clareza e força à expressão. Como se ele tivesse dito: Dizem de mim que não sou apenas abandonado e oprimido por todas as criaturas, mas que até Deus, que está presente em todas as coisas, e preserva todas as coisas, e protege todas as coisas, me abandona como a única coisa, em todo o universo, que ele não preserva. Este tipo de tentação parece que também Jó experimentou, quando disse: "Por que me puseste por alvo dos teus tiros?" (Jó 7:20).
Pois não há tentação — não, nem de todo o mundo junto, nem de todo o inferno combinado — igual àquela em que Deus se põe contrário ao homem; tentação contra a qual Jeremias ora (Jeremias 17:17): "Não me sejas causa de espanto; tu és a minha esperança no dia da calamidade"; e a respeito da qual o Salmo seguinte, o sexto, também diz: "Ó Senhor, não me repreendas na tua ira"; e encontramos as mesmas súplicas por todo o saltério. Esta tentação é totalmente insuportável, e é verdadeiramente o próprio inferno; como se diz no mesmo Salmo sexto: "porque na morte não há lembrança de ti", etc. Em uma palavra: se você nunca a experimentou, jamais poderá formar dela ideia alguma.
Versículo 3Salmo 3:3
"Porque tu, Senhor, és o meu ajudador, a minha glória, e o que levanta a minha cabeça." Aqui Davi contrasta três coisas com três outras: ajudador, com as muitas tribulações; glória, com os muitos que se levantam; e o que levanta a cabeça, com a blasfêmia e o insulto. Assim, a pessoa aqui representada está, de fato, sozinha na estimativa dos homens, e até segundo os seus próprios sentimentos; mas, aos olhos de Deus, e numa perspectiva espiritual, ela não está de modo algum sozinha, mas protegida com a mais abundante ajuda; como diz Cristo (João 16:32): "Eis que vem a hora em que sereis dispersos, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo."
As palavras contidas neste versículo não são palavras da natureza, mas da graça; não do livre-arbítrio, mas do espírito de fé forte; a qual, ainda que veja Deus, como nas trevas da tempestade da morte e do inferno, um Deus que abandona, o reconhece como um Deus que sustenta; quando o vê como quem condena, o reconhece como Salvador. Assim, esta fé não julga as coisas conforme parecem ser, ou conforme são sentidas, como um cavalo ou uma mula, que não têm entendimento; mas compreende as coisas que não se veem, pois "a esperança que se vê não é esperança: porque o que alguém vê, para que o espera ainda?" (Romanos 8:24).
Versículo 4Salmo 3:4
"Clamei ao Senhor com a minha voz, e ele me ouviu do seu monte santo." No hebraico, o verbo está no futuro, e é, como o traduz Jerônimo, "eu clamarei" e "ele ouvirá"; e isto me agrada mais do que o tempo perfeito, pois são palavras de quem triunfa, louva e glorifica a Deus, e dá graças àquele que o susteve, o preservou e o levantou, conforme ele havia esperado no versículo anterior. Pois é comum, entre os que triunfam e se alegram, falar das coisas que fizeram e sofreram, e cantar um cântico de louvor ao seu ajudador e libertador; como em Salmo 66:16: "Vinde, pois, todos os que temeis a Deus, e contarei o que ele fez à minha alma. Clamei a ele com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua." E também em Salmo 81:1: "Cantai em alta voz a Deus, nossa força." E ainda em Êxodo 15:1: "Cantemos ao Senhor, porque triunfou gloriosamente."
E assim aqui, cheio de um sentimento transbordante de gratidão e alegria, ele canta a sua morte, o seu ter dormido e ressuscitado, os seus inimigos feridos, e os dentes dos ímpios quebrados. É isto que causa a mudança; pois aquele que, até então, vinha se dirigindo a Deus na segunda pessoa, muda de repente o seu discurso, dirigindo-se a outros a respeito de Deus, na terceira pessoa, dizendo "e ele me ouviu", não "e tu me ouviste"; e também "clamei ao Senhor", não "clamei a ti" — pois ele quer que todos saibam quantos benefícios Deus derramou sobre ele, o que é próprio de um coração agradecido.
Versículo 5Salmo 3:5
"Deitei-me e dormi; despertei, porque o Senhor me susteve." Cristo, pelas palavras deste versículo, significa a sua morte e sepultamento. [...] Pois não se deve supor que ele falaria de modo tão solene sobre um simples repouso e sono naturais; sobretudo porque o que precede e o que segue nos obrigam a entendê-lo como falando de um conflito profundo e de uma vitória gloriosa sobre os seus inimigos. Por todas essas coisas, ele nos desperta e nos anima à fé em Deus, e nos recomenda o poder e a graça de Deus: que ele é capaz de nos ressuscitar dos mortos; exemplo do qual ele nos põe diante dos olhos, e o proclama a nós como realizado em si mesmo.
E isto se mostra ainda mais no seu uso de palavras suaves, tais que tendem, de modo admirável, a diminuir o terror da morte. "Deitei-me (diz ele) e dormi." Ele não diz: morri e fui sepultado; pois a morte e o túmulo perderam tanto o nome quanto o poder. E agora a morte não é morte, mas sono; e o túmulo não é túmulo, mas uma cama e um lugar de repouso; e por isso as palavras desta profecia foram postas de modo algo obscuro e ambíguo, para que, por esse meio, tornassem a morte a mais amável aos nossos olhos (ou antes, a mais desprezível), como sendo aquele estado do qual, como do doce repouso do sono, se promete um levantar e um despertar indubitáveis. Pois quem não está certíssimo de despertar e de se levantar, tendo se deitado para repousar num sono doce (onde a morte não o impede)?
Esta pessoa, porém, não diz que morreu, mas que se deitou para dormir, e que por isso despertou. E, além disso, assim como o sono é útil e necessário para uma melhor renovação das forças do corpo (como diz Ambrósio no seu hino), e como o sono alivia os membros cansados, assim também a morte é igualmente útil, e ordenada para se chegar a uma vida melhor. E é isto que Davi diz no Salmo seguinte: "Deitar-me-ei em paz, e tomarei o meu repouso, pois tu, Senhor, de modo singular, me formaste em esperança."
Portanto, ao considerar a morte, não devemos considerar tanto a morte em si, quanto aquela vida e ressurreição certíssimas que aguardam os que estão em Cristo; para que se cumprissem aquelas palavras (João 8:51): "Se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte." Mas como é que ele nunca a verá? Não a sentirá? Não morrerá? Não! Ele verá apenas o sono, pois, tendo os olhos da sua fé fixos na ressurreição, ele desliza pela morte de tal modo que nem sequer a vê; pois a morte, como já disse, para ele não é morte alguma. E daí também aquilo de João 11:25: "Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá."
Versículo 7Salmo 3:7
"Pois tu feriste todos os meus inimigos no osso da face; quebraste os dentes dos ímpios." Jerônimo usa esta metáfora de "ossos da face" e "dentes" para representar palavras cortantes, difamações, calúnias e outras ofensas da mesma espécie, pelas quais os inocentes são oprimidos: conforme aquilo de Provérbios 30:14: "Há uma geração cujos dentes são espadas, e cujos queixais são facas, para devorarem os pobres da terra, e os necessitados dentre os homens." Foi por estas que Cristo foi devorado, quando, diante de Pilatos, foi condenado à cruz pelas vozes e acusações dos seus inimigos. E por isso o apóstolo diz (Gálatas 5:15): "Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado para não vos consumirdes uns aos outros."
Versículo 8Salmo 3:8
"A salvação é do Senhor, e a tua bênção está sobre o teu povo." Esta é uma conclusão belíssima, e, por assim dizer, a soma de todos os sentimentos de que se falou. O sentido é: só o Senhor é quem salva e abençoa; e ainda que toda a massa de todos os males se ajuntasse contra um homem, ainda assim é o Senhor quem salva: a salvação e a bênção estão nas suas mãos. Que temerei, então? O que não posso prometer a mim mesmo? Quando sei que ninguém pode ser destruído, ninguém pode ser injuriado, sem a permissão de Deus, ainda que todos se levantem para amaldiçoar e destruir; e que nenhum deles pode ser abençoado e salvo sem a permissão de Deus, por mais que se abençoem e se esforcem para se salvar.
E, como diz Gregório de Nazianzo: "Onde Deus dá, a inveja de nada vale; e onde Deus não dá, o esforço de nada vale." E, do mesmo modo, também Paulo diz (Romanos 8:31): "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" E assim, ao contrário, se Deus for contra eles, quem poderá ser a favor deles? E por quê? Porque "a salvação é do Senhor", e não deles, nem nossa, pois "vã é a ajuda do homem." — Martinho Lutero.