Notas explicativas e citações: Salmo 35
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 35, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 35 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Salmo inteiro. Bonar intitula este Salmo "A terrível fala do Justo a respeito dos que o odeiam sem causa"; e faz a respeito dele as seguintes observações: "Ao longo do dia sem fim da eternidade, o próprio Senhor Jesus falará o 'louvor' do Pai, e dará ênfase marcada à sua 'justiça' — aquela justiça que se terá manifestado tanto na condenação dos que odiaram o Redentor oferecido, quanto na salvação dos que o receberam.
Não há nada em tudo isto de que os seus não possam plenamente participar, especialmente naquele dia em que suas visões de justiça serão muito mais claras e completas do que agora. Naquele dia seremos capazes de entender como Samuel pôde despedaçar Agague, e como os exércitos piedosos de Israel puderam matar por completo, em Canaã, homem, mulher e criança, por ordem de Deus. Seremos capazes não apenas de concordar plenamente com a sentença 'Sejam confundidos', etc., mas até de cantar 'Amém, Aleluia' sobre a fumaça do tormento (Apocalipse 19:1-2).
Deveríamos, em certa medida, já agora ser capazes de usar cada versículo deste Salmo no espírito em que o Juiz o profere, sentindo-nos seus assessores no julgamento do mundo (1 Coríntios 6:2). Em todo caso, seremos capazes de usá-lo naquele dia em que tudo o que aqui está escrito se cumprirá por completo." — Andrew A. Bonar.
Versículo 1Salmo 35:1
Pleiteia, ó Deus, a minha causa com os que contendem comigo.
O mundo te condena pelo teu zelo no serviço de Deus? Escarnece de ti com desprezo pelo teu cuidado em manter boas obras? Não hesita em caluniar-te com acusações de rigorismo, singularidade presunçosa, hipocrisia farisaica? Pois bem: se a tua consciência não te condena enquanto isso, se ela está corrigida pela sagrada palavra de Deus, se buscas a glória dele na tua própria salvação, e não te alinhas com os perturbadores da igreja, prossegue, bom cristão, na prática da piedade; não te desanimes nos teus esforços louváveis, mas lembra com consolo que o Senhor é o teu juiz (1 Coríntios 4:4), com um scio cui crediderim (sei em quem tenho crido — 2 Timóteo 1:12).
Foste injustamente julgado nos tribunais falíveis dos homens? Andam a verdade e a justiça desviadas de seu devido lugar? É a equidade negligenciada, e o pobre esmagado? Pois bem, tem paciência por um momento, anima o teu espírito desfalecido: há um Deus que vê a inocência da tua causa, a quem tens liberdade de fazer o teu último apelo: "Pleiteia, Senhor, a minha causa com os que contendem comigo; peleja contra os que pelejam contra mim." Ou,
Foste injuriado de outro modo pelas mãos de homens maliciosos? E um estado de pobreza te impede de buscar reparação? Um Ninrode te oprime? Um Labão te frauda? Um senhorio ganancioso te aperta? Pois bem, ainda assim não tomes o assunto em tuas próprias mãos, tentando caminhos ilícitos; não presumas ser juiz na tua própria causa por falta de uma reparação imediata; mas lembra muitas vezes o que o apóstolo ensinou aos seus tessalonicenses: "É justo diante de Deus retribuir com tribulação aos que vos afligem." — Isaac Craven, sermão na Cruz de São Paulo, 1630.
"Pleiteia", etc. Mais literalmente: litiga, Senhor, com os que litigam contra mim; contende contra os que contendem comigo; isto é, vinga-me dos meus adversários. — Daniel Cresswell, D.D., F.R.S., em The Psalms of David according to the Book of Common Prayer: with Critical and Explanatory Notes (Os Salmos de Davi segundo o Livro de Oração Comum: com Notas Críticas e Explicativas), 1843.
Versículo 2Salmo 35:2
Escudo e rodela. A palavra traduzida por "escudo" é, no texto hebraico, מגן (magen), que era uma pequena rodela destinada apenas à defesa. A palavra traduzida por "rodela" é צנה (tsinnah); tinha o dobro do peso do magen, e era carregada pela infantaria; o magen, sendo mais leve e manejável, era usado pela cavalaria. O tsinnah correspondia ao scutum, e o magen ao clypeus, entre os romanos. A palavra tsinnah designa aquele tipo de escudo do meio do qual se erguia uma grande saliência, encimada por um punhal, e que era muito útil tanto como arma defensiva quanto ofensiva na guerra antiga. — James Anderson, nota a Calvino, no local.
Versículo 3Salmo 35:3
Tira também da lança, e fecha o caminho. A lança, nos dias de Saul e Davi, era arma predileta (veja 1 Crônicas 11). Um homem valente, defendendo bravamente uma passagem estreita, poderia com a sua simples lança deter um exército inteiro que o perseguia, e dar tempo para que os seus amigos escapassem. Muito notáveis foram os feitos de valentia dessa espécie realizados na guerra oriental. Davi desejaria que o seu Deus se tornasse o seu defensor heroico, fazendo os seus inimigos hesitarem. — C. H. S.
"Tira também"; ou, como diz a expressão hebraica, esvazia, isto é, desembainha, semelhante ao que se diz da espada (Êxodo 15:9; Levítico 26:33). — Henry Ainsworth.
"Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Observe, primeiro, que a salvação pode ser tornada certa para um homem. Davi jamais oraria por aquilo que não pudesse ser. Nem Pedro nos imporia um dever impossível de cumprir (2 Pedro 1:10): "Fazei firme a vossa eleição." E, para calar as gargantas gritantes de todos os adversários cavilosos, Paulo prova diretamente: "Não sabeis vós mesmos que Jesus Cristo está em vós, salvo se em alguma maneira já estais reprovados?" (2 Coríntios 13:5). Podemos, então, saber que Cristo está em nós. Se Cristo está em nós, estamos em Cristo; se estamos em Cristo, não podemos ser condenados, pois (Romanos 8:1) "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus."
Mas deixo este ponto — de que a salvação pode ser tornada certa — como concedido, e passo a nós mesmos, para que a tornemos certa. Os papistas negam isso, e ensinam o contrário: que a salvação não pode ser tornada certa; muito bem lhes faça a sua doutrina triste e sem coragem! Se tornam impossível a alguns aquilo que Deus fez fácil para muitos, "no seu conselho secreto não entre a minha alma" (Gênesis 49:6).
Observe, segundo, que os melhores santos desejaram tornar certa a sua salvação. Davi, que já a conhecia, ainda assim suplica por conhecê-la mais. "Sei que te comprazes em mim" (Salmo 41:11); e ainda aqui persiste: dic animae — "Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação." Um homem nunca pode ter certeza demais de que vai para o céu. — Thomas Adams.
"Dize à minha alma."
Deus pode falar com a sua própria voz; e assim deu certeza a Abraão: "Não temas, eu sou o teu escudo, o teu galardão grandíssimo" (Gênesis 15:1). Se Deus fala consolo, ruja o inferno seu horror.
Ele pode falar por meio das suas obras: misericórdias concretas para conosco demonstram que estamos em seu favor, e que não seremos condenados. "Nisto conheço que te comprazes em mim: em que o meu inimigo não triunfa sobre mim."
Ele pode falar por meio do seu Filho. "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28).
Ele pode falar por meio da sua Escritura; esta é a epístola de Deus para nós, sua carta patente, na qual nos são concedidos todos os privilégios da salvação. Um si quis (qualquer que seja) universal: "Quem quer que creia, e for batizado, será salvo."
Ele pode falar por meio dos seus ministros, aos quais deu "o ministério da reconciliação" (2 Coríntios 5:19).
Ele de fato fala isto por meio do seu Espírito: ele "envia o Espírito de seu Filho aos nossos corações, clamando: Aba, Pai" (Gálatas 4:6).
Por todas essas vozes, Deus diz aos seus eleitos: "Eu sou a tua salvação." ... "Minha." Não há vexação como a vexação da alma; assim também não há consolação como a consolação da alma... Que isto nos ensine a dar grande valor a este "minha". Lutero diz que há grande teologia nos pronomes. A certeza de que Deus salvará alguns é uma fé que também os demônios podem ter. Os próprios réprobos podem crer que existe um livro da eleição; mas Deus nunca lhes disse que seus nomes ali estavam escritos.
O mendigo faminto, à porta da casa da festa, sente o cheiro do bom banquete, mas o senhor da casa não lhe diz: "Isto foi preparado para ti." É pequeno consolo, para o desabrigado infeliz, atravessar uma cidade formosa e ver muitos edifícios gloriosos, quando não pode dizer haec mea domus (esta casa é minha). A beleza daquela excelente cidade de Jerusalém, construída de safiras, esmeraldas, crisólitos, e tais pedras preciosas, cujo alicerce e muros são de ouro puro (Apocalipse 21), não traz consolo algum à alma, a menos que ela possa dizer mea civitas (minha cidade — tenho ali uma morada). Os méritos todo-suficientes de Cristo de nada te servem, a menos que, tua pars et portio (tua parte e porção), ele seja o teu Salvador.
Feliz a alma que pode dizer com o salmista: "Ó Senhor, tu és a minha porção!" Tenhamos todos óleo em nossas lâmpadas, para que, se formos então comprar, mendigar ou tomar emprestado, não sejamos excluídos da porta como os insensatos, indignos de entrada. Ore: "Senhor, dize à minha alma: Eu sou a tua salvação."
Quem? Quê? A quem? Quando? Quem? O Senhor! Ao Senhor Davi ora. Fez ele boa escolha, pois em nenhum outro há salvação. "Destruíste-te a ti mesmo, mas em mim está o teu socorro" (Oseias 13:9). O mundo falha, a carne falha, o diabo mata. Só o Senhor salva.
O quê? A salvação. Um bem especial; o desejo de todo homem. "Eu te darei um senhorio", diz Deus a Esaú. "Eu te darei um reino", diz Deus a Saul. "Eu te darei um apostolado", diz Deus a Judas. Mas: "Eu serei a tua salvação", ele diz a Davi, e a mais ninguém senão aos santos.
A quem? "Minha salvação." Não apenas aos outros, mas "tua". Um homem e um cristão são duas criaturas distintas. Pode ser homem quem tem razão e bênçãos exteriores; só é cristão quem tem fé, e parte na salvação de Cristo. Deus é salvação copiosa, mas não é comum encontrar um cui — um a quem. Muito do céu se perde por falta de uma mão que o agarre.
Quando? No presente: "Eu sou." Sum, non sufficit quod ero (Eu sou, não basta que eu serei). É consolo para Israel em cativeiro que Deus diga ero tua redemptio (eu serei a tua redenção); mas a certeza que aquieta a consciência é esta: "Eu sou a tua salvação." Como Deus disse a Abraão: "Não temas, eu estou contigo." A esperança adiada desfalece o coração. O que quer que Deus se abstenha de nos garantir, oremos ao menos para que ele não demore nisto: "Senhor, dize às nossas almas: Eu sou a vossa salvação." — Resumido de Thomas Adams.
Versículo 4Salmo 35:4
Sejam confundidos e envergonhados. Aqui Davi começa suas imprecações, as quais, diz Teodoreto, ele não profere como maldição, mas antes como profecia. Se em algum momento nos dispusermos assim a imprecar (como podemos fazer em certos casos), devemos zelar, primeiro, por que a nossa causa seja boa; segundo, por não o fazermos por vingança pessoal, mas apenas para a glória de Deus; terceiro, por não pronunciarmos uma sílaba nesse sentido senão sob a direção do bom Espírito de Deus. — John Trapp.
Versículos 4–8Salmo 35:4-8
Como devemos explicar tais orações por vingança? Encontramo-las principalmente em quatro Salmos — o sétimo, o trigésimo quinto, o sexagésimo nono e o cento e nono —, e as imprecações neles formam um clímax terrível. No último já se contaram nada menos que trinta anátemas. Serão elas meros acessos de paixão e de sentimento não santificado, ou serão a expressão legítima de uma indignação justa? Devem ser desculpadas como animadas pelo "espírito de Elias" — um espírito não ímpio, é verdade, mas bem distante da mansidão e da brandura de Cristo — ou são as formas fixas em que o próprio espírito de devoção pode se exprimir? São apenas judaicas, ou podem ser cristãs também?
Um escrúpulo mal instruído, é sabido, fez com que muitas pessoas recuassem por completo diante da leitura destes Salmos. Muitos sentiram os lábios hesitarem ao serem chamados a usá-los na congregação, e ou os pronunciaram com fôlego contido e coração duvidoso, ou os interpretaram em sentido bem distante da letra. Alguns tentaram reconciliá-los com uma consciência mais esclarecida, considerando tais palavras não como a expressão de um desejo, mas como o proferir de uma predição; o otativo hebraico, porém, bastante distinto do futuro simples, proíbe absolutamente esse recurso. Outros, ainda, veriam neles expressões que podem legitimamente ser usadas na luta da alma contra os inimigos espirituais. E, por fim, alguns os defenderiam como manifestações de um zelo justo pela honra de Deus, lembrando-nos de que, se não simpatizamos com tal zelo, talvez não seja porque a nossa religião é mais pura, mas porque os nossos corações são mais frios.
Ora, a verdadeira fonte da dificuldade está em não observarmos, e não termos em mente, a diferença essencial entre o Antigo e o Novo Testamento. A dispensação mais antiga era, em todo sentido, mais severa que a nova. O espírito de Elias, embora não fosse um espírito mau, não era o espírito de Cristo. "O Filho do Homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-la" (Lucas 9:56). E por meio dele os seus discípulos são feitos participantes do mesmo espírito. Mas este não era o espírito da economia mais antiga.
A nação judaica havia sido treinada em uma escola mais dura. Fora temperada e endurecida pela disciplina que a comprometera com uma guerra de extermínio contra os idólatras; e por mais necessária que tal disciplina fosse, ela não tenderia a cultivar as virtudes mais brandas. É concebível como até mesmo um homem justo, sob ela, sentindo ser seu dever obrigatório erradicar o mal onde quer que o visse, e identificando, como fazia, seus próprios inimigos com os inimigos de Jeová, pudesse usar linguagem que a nós parece desnecessariamente vingativa. Para homens assim treinados e ensinados, o que chamamos "tolerância religiosa" era algo não apenas errado, mas absolutamente inconcebível.
Pode muito bem ser verdade que encontramos a vingança proibida no Antigo Testamento tão diretamente quanto no Novo, como, por exemplo, em Levítico 19:18: "Não te vingarás", etc., ainda que ali mesmo haja uma limitação: "dos filhos do teu povo". E não é menos verdade que encontramos casos de imprecação no Novo Testamento; como quando Paulo diz (2 2 Timóteo 4:14): "Alexandre, o latoeiro, me causou muitos males; o Senhor lhe retribuirá segundo as suas obras"; ou quando exclama (Atos 23:3): "Deus te ferirá a ti, parede branqueada"; ou: "Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema."
Mas até mesmo essas expressões são muito diferentes dos anátemas variados, deliberados, cuidadosamente construídos e detalhados dos Salmos. E as denúncias do nosso Senhor, às quais Hengstenberg se refere, não são de modo algum paralelas. Não são maldições sobre indivíduos, mas, de fato, proferimentos solenes da grande verdade: "Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis." Mas, apesar de tudo, seja o que for que se diga sobre passagens particulares, o tom geral que percorre as duas alianças é, sem dúvida, diferente. Negar isto não é honrar Moisés, mas desonrar Cristo (Mateus 5:43; Mateus 19:8).
Por outro lado, não devemos esquecer que estas imprecações não são o anseio apaixonado de vingança pessoal. O salmista, sem dúvida, vê em seus inimigos os inimigos de Deus e da sua igreja. Os que não estão com ele estão contra Deus. E porque o zelo da casa de Deus até o consome, ele ora para que todos os que praticam a iniquidade sejam desarraigados. A indignação, portanto, é justa, ainda que a nós possa parecer mal dirigida, ou excessiva em sua expressão.
Mais uma vez, o próprio fato de que uma nuvem escura escondia dos olhos dos santos do Antigo Testamento o juízo de Deus no mundo vindouro pode ser alegado em desculpa do seu desejo de vê-lo tomar vingança dos seus inimigos aqui. Quão profundamente o problema da justiça de Deus ocupava as suas mentes é evidente em numerosas passagens dos Salmos. Ansiavam ver essa justiça manifesta. Ela só poderia se manifestar, pensavam, na exaltação evidente dos justos, e na destruição evidente dos ímpios aqui. Por isso, com o olhar sempre fixo na recompensa temporal, podiam até desejar e orar pela destruição dos ímpios.
As coisas terríveis do mundo vindouro estavam, em grande parte, escondidas dos seus olhos. Pudessem eles vê-las, e certamente sua oração teria sido, não "Que o anjo do Senhor os persiga", "Risca-os do teu livro"; mas antes, com aquele que pendeu na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." — J. J. Stewart Perowne.
Davi era tão desprovido de espírito vingativo quanto qualquer figura pública que se possa nomear. Sua conduta em relação a Saul, do início ao fim, revelou um espírito singularmente nobre, bem distante de qualquer coisa parecida com sede de vingança; e a mansidão com que suportou as repreensões amargas de Simei testemunhou o mesmo espírito depois da sua ascensão ao trono.
Quando toda a trajetória de Davi é revista com inteligência e justiça, ela deixa na mente a impressão de um homem dotado de um temperamento tão manso e conciliável quanto jamais se associou a tamanha força de vontade e a paixões tão fortes. Mesmo no calor de um ressentimento súbito, ele não era propenso a se precipitar em atos de vingança. Sendo esse o caso, teria sido decerto algo estranho e inexplicável se ele se tivesse mostrado menos senhor do próprio espírito em poemas compostos em tempos de retiro e comunhão com Deus, especialmente porque esses mesmos poemas expressam um agudo senso da gravidade do pecado que lhe fora imputado.
Ele pode afirmar, a respeito dos seus inimigos implacáveis: "Mas eu, quando estavam enfermos, vestia-me de saco; humilhava a minha alma com jejum; e minha oração voltava para o meu próprio seio. Portei-me como se ele fosse meu amigo ou meu irmão; andei encurvado de tristeza, como quem chora por sua mãe" (Salmo 35:13-14). "Senhor, meu Deus, se eu fiz isto, se há perversidade nas minhas mãos, se paguei com o mal a quem tinha paz comigo (antes, livrei ao que sem causa era meu inimigo), persiga o inimigo a minha alma e alcance-a; calque aos pés a minha vida sobre a terra" (Salmo 7:3-5). Certamente é preciso pensar duas vezes antes de dar às imprecações uma interpretação que as tornaria totalmente incongruentes com estes apelos, proferidos quase no mesmo fôlego. — William Binnie, D.D.
Versículo 5Salmo 35:5
Como a moinha. Literalmente, "como o cotão do cardo." — John Morison.
Versículo 6Salmo 35:6
Seja o seu caminho tenebroso e escorregadio. Que caminho horrível! Só a escuridão, quem não a teme? Só um caminho escorregadio, quem não o evita? Num caminho escuro e escorregadio, como hás de andar? Onde firmarás o pé? Estes dois males são os grandes castigos dos homens: a escuridão, a ignorância; o caminho escorregadio, a luxúria. "Seja o seu caminho trevas e deslize; e persiga-os o anjo do Senhor", de modo que não possam permanecer de pé. Pois quem está num caminho escuro e escorregadio, ao ver que, se mover o pé, cairá, e não há luz diante dele, talvez resolva esperar até que a luz venha; mas aqui está o anjo do Senhor a persegui-lo. — Agostinho.
"Escorregadio." À margem, no hebraico: escorregadicidade. Esta é uma circunstância que aumenta o terror da imagem. Não é apenas um caminho escuro, mas um caminho tornado escorregadio pelas chuvas; um caminho em que a cada momento correm o risco de escorregar por um precipício onde serão destruídos. — Albert Barnes.
Versículo 7Salmo 35:7
Esconderam de mim a rede na cova. Como se Davi tivesse dito que eles haviam cavado uma cova, e coberto e escondido a sua boca com uma rede, para que eu passasse por cima dela e caísse nela. — Kimchi.
Versículo 8Salmo 35:8
Sobrevenha-lhe a destruição sem que o perceba. Ou uma tempestade, como a que nos países orientais é causada por um vento sul, muito súbita, violenta e destruidora. — John Gill.
Prenda-o a rede que ele mesmo escondeu; caia ele mesmo nessa destruição. Dando corda suficiente a Aitofel, o Senhor preservou Davi de perecer. Quem não há de admirar que Golias tenha sido morto com a sua própria espada, e que o soberbo Hamã tenha segurado o estribo de Mordecai, sendo ele o arauto da sua honra? Os ímpios serão desfeitos pelas suas próprias obras; todas as flechas que atiram contra o justo cairão sobre a sua própria cabeça.
Maxêncio construiu uma ponte falsa para afogar Constantino, mas foi ele mesmo quem se afogou. Henrique III da França foi apunhalado exatamente na câmara onde ajudara a arquitetar o massacre cruel dos protestantes franceses. E seu irmão, Carlos IX, que se comprazia no sangue dos santos, recebeu sangue para beber, pois disso era digno.
É comum Deus prender os perseguidores nos laços e covas que eles mesmos armaram para o seu povo, como muitos milhares nesta nação já experimentaram; e ainda que Roma e seus aliados estejam neste dia armando laços e ciladas, e cavando covas para os justos que preferem arder a se curvar ao seu Baal, esperai e chorai, e chorai e esperai um pouco mais, e vereis que o Senhor os prenderá exatamente nos laços e covas que eles armaram e cavaram para o seu povo. — Resumido de Thomas Brooks.
Prenda-o a rede que ele mesmo escondeu. Insensato, tu que opões teus conselhos aos do Altíssimo. Quem trama o mal para outrem acaba caindo na própria cova, e o mais astuto se vê apanhado por aquilo mesmo que preparara para outro. Mas a virtude sem engano, ereta como a alta palmeira, ergue-se com maior vigor quando é oprimida. — Pietro Metastasio, 1698-1782.
Versículo 9Salmo 35:9
E a minha alma se regozijará no Senhor, etc. Enquanto alguns atribuem à sorte, e outros à sua própria habilidade, o mérito de sua libertação do perigo, e poucos, ou nenhum, atribuem todo o mérito a Deus, Davi aqui declara que não esquecerá o favor que Deus lhe concedera. Minha alma, diz ele, se alegrará, não numa libertação cujo autor desconhece, mas na salvação de Deus.
Para colocar a questão em luz ainda mais forte, ele atribui aos seus próprios ossos o ofício de declarar a glória divina. Como que não satisfeito de que apenas a sua língua se ocupasse disso, ele emprega todos os membros do seu corpo na tarefa de proclamar os louvores de Deus. O estilo de que se vale é hiperbólico, mas dessa maneira ele mostra, sem fingimento, que seu amor a Deus era tão forte que desejava gastar os seus tendões e ossos declarando a realidade e a verdade da sua devoção. — João Calvino.
Versículo 10Salmo 35:10
Todos os meus ossos, etc. Estas palavras contêm a mais vívida descrição do mais alto deleite que, por toda a alma e todo o corpo, deveria ser experimentado e abertamente manifesto. Ele menciona a sua alma (Salmo 35:9) e todos os seus ossos como prestes a tomar parte na alegria, para indicar que ele, de todo coração e com todo o corpo, estava prestes a se regozijar, e que a alegria que manifestaria não seria de caráter comum, mas da mais alta ordem, de modo que cada osso, um por um, cantasse os louvores de Deus. — Hermon Venema, 1697-1787.
"Todos os meus ossos." Nas Escrituras, as emoções são geralmente atribuídas às vísceras; os ossos costumam ser vistos como passivos. Neste lugar e no Salmo 51:8 — e só nestes dois lugares — atribui-se aos ossos uma alegria exultante. A experiência comum nos mostra que os intestinos simpatizam com as nossas comoções apaixonadas, mas não temos consciência de que os ossos se tornem sensíveis por simpatia. A expressão, portanto, é altamente poética, e indica que a alegria pretendida estaria bem além do deleite comum e ordinário; seria tão profunda que até a parte mais insensível do corpo humano dela participaria. Sem dúvida a poesia tem uma base de verdade, pois, ainda que não a percebamos, há certamente uma simpatia verdadeira e real com os nossos estados mentais em cada partícula de osso e músculo, tanto quanto naqueles órgãos mais sensíveis que se veem afetados de modo mais aparente. — C. H. S., pensamentos sugeridos por uma passagem de Biblical Psychology (Psicologia Bíblica), de Franz Delitzsch.
"Todos os meus ossos." Isto é, toda a força e vigor que há em mim se gastará em celebrar os teus louvores. Ou, ainda que não me reste senão pele e osso, tão pobre me tornei, ainda assim não faltarei a esta obra. — John Trapp.
Meus ossos estão se rachando através da pele, e ainda assim todos os meus ossos o louvam. "Eu disse: Estou lançado fora da tua vista; mas olharei de novo para o teu santo templo." — Thomas Halyburton, 1674-1711.
Versículo 11Salmo 35:11
Coisas que eu não sabia me perguntaram. Você dirá: Por que Deus permite que gente ímpia acuse os piedosos daquilo de que estão livres? Se quisesse, Deus poderia impedi-lo, e calar a boca dos ímpios, para que não pudessem falar contra os seus filhos? Resposta: assim como todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, isto também coopera para o bem do povo de Deus. Deus permite isso para o bem do seu povo, e assim frustra as esperanças dos ímpios: eles pretendem o mal contra os piedosos, e Deus o dispõe para o bem. Como José disse a seus irmãos: "Vós intentastes o mal contra mim, mas Deus o dispôs para o bem"; assim também podemos dizer aos que falsamente caluniam o povo de Deus: Vós intentastes o mal contra o povo de Deus, mas Deus o dispõe para o bem. Há um quíntuplo bem que Deus, com isso, traz ao seu povo.
Primeiro, Deus, por este meio, os humilha, e os leva a examinar o que está errado; de modo que, ainda que estejam livres daquele crime que lhes imputam, examinarão então se não há alguma outra coisa errada entre eles e Deus; sondarão o seu coração, andarão mais humildemente, e se apegarão mais de perto ao Senhor.
Segundo, Deus, por este meio, os leva com mais frequência a se ajoelhar, a buscá-lo, a defender a sua causa, e a provar a sua inocência. Quantas vezes o profeta falou a Deus quando os ímpios falsamente o acusavam; como ele levantou o seu lamento diante do trono da graça, suplicando a Deus que defendesse a sua causa, e o mantivesse firme no seu caminho, para que os ímpios não se alegrassem com a sua queda! Assim, quando o povo de Deus vê que é exatamente isso o que os ímpios desejam, o que lhes traz alegria — ver os piedosos caírem neste ou naquele pecado —, então os piedosos orarão com mais fervor, com Davi: Senhor, guia-me por um caminho reto por causa dos meus observadores; então suplicarão a Deus com mais ardor que os guarde de cair naquele pecado em que os ímpios desejam que caiam; e este é um segundo bem que daí resulta.
Terceiro, Deus usa a acusação dos ímpios como um remédio preventivo contra aquele mesmo crime que os ímpios lhes imputam. Os piedosos têm a natureza não renovada, tanto quanto a renovada, e se Deus os deixasse, por pouco que fosse, entregues a si mesmos, eles não são guardas de si próprios, e poderiam cair naquele mesmo pecado de que os ímpios os acusam: e todo homem e mulher piedosos podem dizer, quando falsamente acusados, é misericórdia de Deus que eu não tenha caído naquele pecado que me foi imputado. Deus usa as línguas dos ímpios como aviso contra tal pecado, de modo que, ao verem como os ímpios se alegram com um filhote da sua própria criação, então considerem: se os ímpios se alegram assim sem causa, o que fariam se tivessem causa justa? Pois bem, com a ajuda de Deus isto será para mim um aviso perpétuo, para que eu vigie contra esse pecado: doravante orarei mais contra esse pecado em particular do que fiz até agora, e vigiarei mais contra ele do que vigiei; com a ajuda de Deus, jamais terão ocasião de se alegrar de mim nesse sentido. Em verdade, creio piamente que muitos filhos de Deus podem dizer, por experiência: eu nunca teria orado e vigiado tanto contra tal pecado, se Deus não tivesse usado as línguas dos ímpios como remédio preventivo: eu não conhecia o meu próprio coração, mas poderia ter caído neste ou naquele pecado, se Deus não tivesse, por este meio, cercado o meu caminho com espinhos; e este é o terceiro bem que daí resulta.
Quarto, Deus, por este meio, exercita as graças do seu povo, permitindo que suportem tanto o mau quanto o bom testemunho: ele prova se hão de se apegar a ele em toda condição, como em Salmo 44:15-17.
Quinto, Deus, por este meio, os ensina a julgar os outros quando estes forem falsamente acusados. Doravante não receberão um falso relato contra o seu próximo; conhecerão a verdade de um fato antes de crer nele, e saberão como consolar outros em condição semelhante; e assim Deus o dispõe para o bem, e assim Deus faz do ímpio o servo do seu próprio povo, exatamente naquilo em que o ímpio pensa causar-lhe o maior mal; pois ele usa o ímpio como a vara e o feixe, para tirar a ferrugem das suas graças e corrigir a sua segurança; e, quando a vara já cumpriu o seu ofício, é então lançada ao fogo: e assim vedes como Deus dispõe para o bem as falsas acusações dos ímpios contra o seu povo. — Sermão de Zephaniah Smyth, "A Trama do Maligno", 1647.
Versículo 12Salmo 35:12
Tornaram-me mal por bem. Pelo bem que Davi fez ao matar Golias, e ao abater dez mil filisteus, salvando com isso o seu rei e o seu país, Saul e seus cortesãos o invejaram e buscaram matá-lo; assim também o nosso Senhor Jesus Cristo, por todo o bem que fez aos judeus, curando os seus corpos das doenças e pregando-lhes o evangelho para o bem das suas almas, foi recompensado com afrontas e perseguições, e por fim com a morte vergonhosa da cruz; e do mesmo modo é tratado o seu povo. Mas este é um mal que não ficará impune; veja Provérbios 17:13. — John Gill.
Para a desolação da minha alma. Não lhe roubaram os bens do corpo, mas o consolo da alma. Despojaram-lhe a alma (é essa a palavra), como uma viúva que perde os filhos em quem se deleitava e nos quais encontrava amparo. Não se contentaram em prejudicar os seus bens, mas queriam arruinar o próprio homem por meio de sua malícia imerecida; atacaram-no no nome e na reputação, que lhe eram tão caros quanto os seus filhos e filhas, ou até quanto a sua própria alma. É sempre uma injúria à alma ser atacado pela calúnia; isso põe o homem em posição de combate, ameaça a sua paz de espírito, põe em risco o seu gozo da contemplação silenciosa, e tende a interromper a sua comunhão com Deus. Assim a natureza espiritual é despojada e sofre a perda. — C. H. S.
Versículo 13Salmo 35:13
Minha oração voltava, ou era dirigida, para o meu seio. Das muitas interpretações dadas a esta passagem, parece-me a mais provável a que a deriva da postura do adorador; que, de pé, com a cabeça inclinada para baixo, em direção ao próprio peito, desviava a atenção de todos os objetos externos, e proferia os seus pedidos tristes e fervorosos como se fossem dirigidos ao seu próprio seio. Tal postura de devoção está em uso tanto entre judeus quanto entre maometanos. — Koehler, em Reporter. Lit. Orient.; e Reland, De Relig. Mohammedica, citado por Walford, no local.
(última cláusula) Podemos lê-la assim: Volte a minha oração para o meu seio; isto é, eu não desejava nada pior a eles do que a mim mesmo: que eu receba de Deus o bem que orei para eles. Veja Salmo 79:12. — Henry Ainsworth.
Versículo 14Salmo 35:14
Por sua mãe. Por causa da pluralidade de esposas numa família oriental, os filhos costumam ser muito mais apegados à mãe do que ao pai. O pai eles dividem com uma numerosa turma de meio-irmãos, que os invejam, ou de quem eles têm ciúme; mas a mãe é toda sua, com ela são criados na infância; ela toma o seu partido na juventude, nas inúmeras batalhas do harém; e, da parte deles, já crescidos, amam-na intensamente, e daí o seu luto por ela ser, na sua morte, dos mais amargos. — C. H. S.
"Sua mãe." Uma vez perguntaram a Maomé qual parentesco tinha a mais forte reivindicação sobre o nosso afeto e respeito; ao que ele respondeu de imediato: "A mãe, a mãe, a mãe."
(última cláusula) Chora por sua mãe: lamenta no seu funeral. Neste caso os afetos são mais fortes. Por isso os sacerdotes tinham permissão de chorar por tais parentes. Levítico 21:1-3. — Henry Ainsworth.
Versículo 15Salmo 35:15
Mas eles se alegraram na minha adversidade, etc. Não se glorie nas ruínas do seu próximo. O vaga-lume salta e dança no fogo, e assim também muitos ímpios se alegram no sofrimento alheio. Os que se alegram no sofrimento alheio estão acometidos da doença do diabo; mas dessa doença livre o Senhor todas as vossas almas. É triste insultar aqueles a quem Deus humilhou; é maldade extrema triunfar sobre aqueles a quem Deus deu a beber o cálice do espanto. Os que fazem da desolação do próximo o assunto de seu banquete secreto, ou de sua exultação aberta, esses podem temer que as próprias fezes da ira divina lhes estejam reservadas. É mau tocar harpa enquanto outros foram levados a pendurar as suas nos salgueiros.
Não devemos orar como aquele na tragédia, para que chovam calamidades; nem, como o gnóstico de Clemente, dizer: Dá-me calamidades, para que nelas eu me glorie. Não pode haver maior evidência de um coração ímpio do que um homem se alegrar porque outros estão em desgraça. "Quem se alegra com a calamidade (isto é, com a calamidade alheia) não ficará impune" (Provérbios 17:5). Se Deus é Deus, aqueles que se congratulam com as nossas misérias em vez de as lamentar serão punidos com os piores castigos; pois tais homens não apenas pecam contra a lei da graça, mas também contra a própria lei da natureza; a lei da natureza ensina os homens a se compadecerem dos que estão em miséria, e não a se alegrarem por causa dela. Ó amigos, não façam do pranto alheio a sua música, nem das lágrimas alheias o seu vinho; para que não venham, por fim, a se embriagar com o vinho do espanto. — Thomas Brooks.
Mas eles se alegraram na minha adversidade, etc. Maravilhosa profecia da cruz! Segunda apenas, se é que é segunda, à do Salmo vigésimo segundo. Ainda mais próxima da história se tomarmos a Vulgata: os açoites se ajuntaram sobre mim. Assim mesmo, ó Senhor Jesus, os lavradores lavraram sobre as tuas costas, e fizeram longos sulcos: sulcos preciosos para nós, onde se semeia a paciência para a vida presente, e a glória para a vinda; onde se semeia a esperança que não confunde, e o amor que muitas águas não podem apagar.
"Os próprios desprezíveis." Até mesmo os piores desprezíveis, que diziam: "Deus, graças te dou porque não sou como os outros homens"; que haviam posto o pobre pecador diante do Senhor, com o seu "Moisés, na lei, ordenou que tais fossem apedrejados." "Fazendo caretas para mim." E não é admirável que, conhecendo bem a profecia, ainda assim os principais sacerdotes e os escribas a tenham cumprido de tal modo que se escrevesse a respeito deles: "Os que passavam zombavam dele, meneando a cabeça"? — Luís de Granada, 1504-1588.
Na minha adversidade se alegraram. Ora, assim como os homens muitas vezes se comovem ao ver as desgraças de seus inimigos, a ponto de deixarem de odiar ou perseguir aqueles que já estão miseravelmente aflitos, era sinal evidente do espírito muito cruel e feroz que animava os antigos amigos de Davi contra ele, que, ao vê-lo abatido e afligido, fossem antes incitados por isso a agredi-lo com fúria e insolência. — João Calvino.
O desprezíveis. Os próprios desprezíveis (Versão do Livro de Oração). A palavra hebraica Nechim, assim traduzida, vem de um verbo que significa ser ferido. Daí, na Septuaginta, ser traduzida por açoites. Mas também pode ser traduzida, com Jerônimo, por feridores, podendo significar feridos pela língua. Compare Jeremias 18:18. Outro de seus sentidos é, segundo Buxtorf, o de pernas tortas, o coxo; e assim é usada em 2 Samuel 4:4 e 2 Samuel 9:3; de onde veio o epíteto de Necao dado a um dos faraós que mancava ao andar. Nossos tradutores parecem ter entendido a palavra neste último sentido, como termo de desprezo. — Daniel Cresswell.
Tendo Davi mostrado quão compassivo era com os seus inimigos na aflição deles (Salmo 35:14), mostra logo em seguida (Salmo 35:15) quão incompassivos, ou antes barbaramente cruéis, foram os seus inimigos com ele na sua. "Desprezíveis" são pessoas vis, homens feridos em seus bens e em seu crédito; sim, muitas vezes como escravos ou maus servos, feridos com bastões ou açoites. Assim um tradutor erudito verte o Salmo: Os feridos se ajuntaram contra mim; isto é, homens vis que merecem ser espancados e açoitados. — Joseph Caryl.
Versículo 16Salmo 35:16
Com hipócritas zombadores em festins. Alguns não conseguem se divertir sem que seja com a Escritura; se querem uma pequena distração, os santos precisam ser o tema da conversa! Eles conseguem desabafar suas piadas profanas sobre a palavra de Deus; este é o seu passatempo, com os copos na mão, no banco da taverna. Como estão prontos com suas reflexões injuriosas; aprenderam o dialeto do seu pai, são acusadores dos irmãos, e sua fala os denuncia como filhos do inferno. Sabemos que, ordinariamente, podemos dizer de que terra alguém é pela sua fala, tendo cada terra quase um idioma próprio; assim é aqui: estes zombadores da religião, ao falarem a língua do inferno, deixam-nos entender de onde vêm.
Têm, talvez, um pouco de espírito, que temperam com uma espécie de ar de retórica zombeteira, e ah, como são rápidos e afiados quando tratam deste assunto! Estes ismaelitas zombeteiros estão sentados na cadeira do diabo, um pouco acima de seus irmãos na iniquidade, por merecerem mais que ninguém aquele lugar; e há menos esperança de que tais pessoas sejam trabalhadas de modo salvador, quando chegam a tal ponto no pecado a ponto de zombar dele e de brincar com a santidade, do que outras. As pessoas já percorreram um longo caminho rumo ao inferno quando zombam, com prazer, do que é sério. Disto o Senhor há de tratar no seu devido tempo; pois ele sabe quem são os que assim o desonram, ao caluniar aqueles que são seus. — Oliver Heywood.
"Hipócritas zombadores em festins." Frase muito difícil no hebraico. A palavra maog (bolo), que só ocorre em outro lugar, 1 Reis 17:12, significa "um bolo". Daí laage maog ser interpretado por Gesênio e outros como pendurados nas mesas dos ricos (literalmente "zombadores de bolo"), cujo ofício era, com gracejos e bufonarias, divertir os convidados, e que em troca ganhavam a sua refeição, como os gregos psomokolakes, knisokolakes, e os buccellarii do latim medieval. Então as palavras significariam: "entre os mais profanos". — J. J. Stewart Perowne. (Não seria a nossa palavra "parasitas de mesa" algo análogo a estes comedores de bolo da Antiguidade!) — C. H. S.
"Hipócritas zombadores." Davi agrava o pecado daqueles companheiros zombeteiros que faziam dele assunto de mesa, e não podiam saborear a sua comida senão temperada com alguma piada maliciosa contra ele, acrescentando que eram "hipócritas zombadores"; faziam-no de modo dissimulado, e envolviam os seus escárnios, ao que parece, em linguagem que poderia fazer crer, a quem não os observasse bem, que o elogiavam. Há um modo de louvar que alguns aprenderam a usar quando pretendem lançar o maior desprezo sobre aqueles que odeiam amargamente, e estes hipócritas zombadores merecem que se lhes dê a cadeira mais alta entre todos os zombadores. — William Gurnall.
"Zombadores em festins." Se num festim se soubesse que havia alguém presente ou ausente de quem o anfitrião não gostava, era costume os convidados "zombarem dele", usando linguagem sarcástica a seu respeito. Estes são os "hipócritas zombadores em festins". — John Gadsby.
Versículo 17Salmo 35:17
Mal Satanás percebe os nossos desvios, corre logo com uma queixa a Deus, apresentando acusações contra nós na câmara-estrelada do céu, onde as coisas iriam mal para nós, não fosse o Grande Chanceler da paz, o nosso Advogado Jesus Cristo. Assim como Deus guarda todas as nossas lágrimas numa garrafa, e registra até os gemidos da nossa santa aflição num livro, assim também Satanás guarda um registro dos nossos pecados, e reclama justiça contra nós. Fosse Deus como o homem, sujeito às paixões, ou influenciável pelas insinuações do litigante comum, ai de nós. Mas ele ouvirá um só filho da verdade antes de dez mil pais da mentira. Não importa o que o acusador alegue, quando o juiz absolve.
Perdemos os nossos bens por traição, e o diabo diligente os reclama; mas há um que intervém, e alega uma concessão anterior, tanto por promessa quanto por compra. "Senhor, livra a minha alma das suas destruições, a minha predileta dos leões." Senhor Jesus, reivindica o que é teu; não deixes que Satanás tome, por força ou por fraude, aquilo que compraste com o teu próprio sangue. — Thomas Adams.
"Minha predileta." Na Synopsis de Poole, os críticos explicam este nome dado à alma como minha única, minha solitária, desolada, abandonada, e destituída de esperança humana. Tal é a alma sob grave aflição. Veja Salmo 22:21.
"Dos leões." Daniel na cova estava, literalmente, onde Davi estava espiritualmente. Encerrado entre criaturas ferozes, cruéis e furiosas, e ele mesmo indefeso, sem outra arma senão a oração, sem outro ajudador senão o Senhor. O povo de Deus pode estar exposto aos leões do inferno, e os seus rugidos podem afligi-lo gravemente; mas a alma que é a sua "predileta" é também a predileta de Deus, e por isso será resgatada. — C. H. S.
Versículo 19Salmo 35:19
Pisquem o olho. Mostrando prazer nos olhos por causa do meu mal. — Francisco Vatábulo, 1545.
"Piscar o olho." Este era um sinal que pessoas maliciosas faziam umas às outras quando o objeto da sua malícia era alcançado, torcendo os olhos um para o outro com desdém. A palavra hebraica aqui não tem substituto suficientemente expressivo em português. — Benjamin Weiss.
Versículo 21Salmo 35:21
Os nossos olhos viram. Olho por olhos, a menos que queiramos dizer que todos os ímpios estão tão unidos que parecem ter apenas um olho, um coração, uma cabeça. — John Trapp.
Contudo, ó santos, não divulgueis estas coisas aos ímpios; sussurrai-as suavemente uns aos outros, com temor e tremor, para que algum reprovado não vos escute, e tome como incentivo o que era destinado apenas como advertência. Que há mais comum do que os piores pecadores alegarem, em sua defesa, ou antes como justificativa, os tristes deslizes dos mais amados santos de Deus? Assim o bêbado olha para o santo Noé como companheiro de copo, revelando com isso a sua nudez num sentido pior do que jamais fez Cam; e assim o sensual devasso cita Davi, e o chama para ser o patrono da sua devassidão.
Certamente, se há alguma tristeza capaz de encobrir as alegrias perfeitas dos santos no céu, é que seus nomes e exemplos sejam, para grande desonra de Deus, usados por homens ímpios e pecadores para justificar os seus piores pecados e maldades. Mas saibam esses que Deus estabeleceu tais casos na sua igreja para serem monumentos da sua misericórdia, para declarar aos pecadores humildes e arrependidos quão grandes pecados ele pode perdoar; mas, se algum se envaidece com isso no pecado, em vez de ser posto como monumento de misericórdia, Deus o porá como coluna de sal. — Ezequiel Hopkins (Bispo).
Quem se regozija na queda alheia se regozija na vitória do diabo. — Ambrósio, citado em Nichol's Proverbs.
Versículos 21–22Salmo 35:21-22
Abrem a boca e a torcem com desdém,
E gritam: ah, ah, com nossos olhos vimos também.
Mas tu, ó Senhor, também vês o que eles fazem;
Não fiques calado então, nem longe de mim aguardem.
— Sir John Davies.
Versículo 23Salmo 35:23
Meu Deus e Senhor meu. O clamor de Tomé ao ver as feridas de Jesus. Se ele não considerasse o nosso Senhor divino, tampouco Davi aqui atribui Deidade a Jeová, pois não há diferença senão na ordem das palavras e na língua em que foram ditas; o sentido é idêntico. Que palavras são estas, com seus dois olhos vendo Jeová sob dois aspectos e ainda assim como um só, segurando-o com duas mãos no duplo "meu" dirigido a um só coração, curvando-se diante dele sobre os dois joelhos para adorá-lo com a mais humilde reverência. Bem poderia Nouet, em sua exposição destas palavras tal como usadas por Tomé, exclamar: "Ó doce palavra, eu a direi toda a minha vida; eu a direi na hora da morte; eu a direi na eternidade." — C. H. S.
Versículo 24Salmo 35:24
Ó Senhor, meu Deus. Ó Jeová, meu Deus; eis outra palavra preciosa. Ele toma Jeová como o seu Deus, em oposição aos que fazem dos ídolos, das riquezas, ou dos próprios desejos, o seu deus. Ele reivindica plena posse de tudo o que há no grande EU SOU. Ainda que o veja como juiz, ele põe a mão da fé sobre o seu Deus, e não recua nem diante do brilho da sua justiça. É uma nobre palavra, uma grandiosa expressão de fé; quem consegue pronunciar essa palavra "meu" desde o fundo da alma, nesta ligação, bem pode rir com desprezo de todos os seus inimigos. — C. H. S.
Versículo 25Salmo 35:25
Não digam: Nós o havemos devorado. E mesmo que pudessem, como a baleia de Jonas, logo se enjoariam do seu banquete. Um filho vivo de Deus é mais fácil de engolir do que de digerir pela malícia do inferno. — C. H. S.
Versículo 27Salmo 35:27
Veja como os corações dos santos se voltaram contra os seus perseguidores. As orações são as armas a que os santos, em tempos de perseguição, sempre recorreram. Os romanos, em grande aflição, foram levados a tal ponto que tiveram de tirar as armas dos templos de seus deuses para lutar contra os seus inimigos, e assim os venceram: assim também, quando o povo de Deus se vê em grande aperto por causa de aflições e perseguições, as armas a que recorre são as orações e as lágrimas, e com elas venceu os seus perseguidores. — Thomas Brooks.
Versículo 28Salmo 35:28
A minha língua falará da tua justiça e do teu louvor todo o dia. Veja, já fiz um discurso um tanto longo; estais cansados. Quem suporta louvar a Deus o dia inteiro? Sugerirei um remédio pelo qual poderás louvar a Deus o dia todo, se quiseres. Seja o que for que faças, faze-o bem, e terás louvado a Deus.
Quando cantas um hino, louvas a Deus, mas de que vale a tua língua, se o teu coração também não o louva? Deixaste de cantar hinos, e te afastaste para descansar? Não te embriagues, e terás louvado a Deus. Vais dormir? Não te levantes para fazer o mal, e terás louvado a Deus. Fazes negócios? Não cometas injustiça, e terás louvado a Deus. Lavras o teu campo? Não semeies contendas, e terás louvado a Deus. Na inocência das tuas obras, prepara-te para louvar a Deus o dia inteiro. — Agostinho.